Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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canções de um filme

musical "sul-americano", intitulado, não por acaso, Brazil. Dito assim,

parecia a glória, a

apoteose. Mas, examinada de perto, a proposta deixava a desejar. Era

muito pobre em dinheiro -

cerca de 3500 dólares no total por seis meses de trabalho - e o estúdio

era a Republic Pictures,

que alguns chamavam de Repulsive Pictures e, comparada à MGM, parecia

estar a um passo da

mendicância. Na verdade, não estava: era apenas um estúdio de pequeno

porte, especialista em

filmes de baixo orçamento dirigidos aos garotos das grotas e dos

subúrbios. Seu forte eram os

seriados, como Os tambores de Fu Manchu (Drums ofFu Manchu, 1940) ou Os

perigos de Nyoka

(Perus ofNyoka,

1942), e os faroestes classe Z, estrelados por Gene Autry, Roy Rogers e,

preso à Republic por um

contrato que o obrigava a rodar pelo menos um daqueles filminhos por ano,

John Wayne. A idéia

de um musical "sul-americano" na Republic parecia tão inesperada que só

se podia atribuí-la à

Política da Boa Vizinhança

370
- era o Birô de Rockefeller tentando mostrar serviço e,

certamente, entrando com algum

para que o filme se fizesse.
Inocente de tudo isso, Ary aceitou e tomou o avião em janeiro de 1944.

Queria conhecer o gigante

por dentro - os Estados Unidos. Até então, ele fora um acre inimigo da

penetração da música

americana no Brasil. Uma de suas revoltas era a de que, no Rio, não o

deixavam armar uma

orquestra tipicamente brasileira para tocar sambas nos cassinos, a não

ser que, numa contradição

em termos, ela tocasse também foxtrotes. Ary considerava sua ida a

Hollywood uma espécie de

forra - já que nos invadiam, ele ia invadi-los também, nem que fosse como

uma orquestra de um

só homem. E Carmen e Aurora estariam por lá para ajudá-lo.
Só que, à chegada de Ary em Los Angeles, via Miami, em fevereiro, as duas

não estavam na

cidade. Tinham se escondido em Palm Springs, para que Carmen se

recuperasse de uma cirurgia

em Saint Louis, dessa vez na Mayo Clinic, no começo do ano. Cirurgia essa,

para todos os efeitos,

com o objetivo de "eliminar uma obstrução nasal", conforme nota assinada

por Ben Reingold, o

matreiro superintendente local da Fox, que acrescentava: "Como a operação

foi interna, não

afetará externamente o nariz de Carmen". Mas, com todo o trabalho de

encobrimento, omissão e

contra-informação relativo ao drama vivido por Carmen no ano anterior,

ali mesmo em Saint Louis,

pode-se desconfiar de que essa tenha sido mais uma plástica - a terceira

em menos de um ano.

Seja como for, foi algo simples, bem-sucedido e de poucos dias, o retoque

final que dirimiu para

sempre os conflitos de Carmen com seu nariz.
Enquanto Carmen e Aurora não voltavam para Hollywood, Ary caiu nos braços

dos amigos

brasileiros (Aloysio, Vadico, Gilberto Souto) e de seus anfitriões da

Republic, que circularam com

ele pela cidade e adjacências. O resultado foi que, desde as primeiras

cartas que Ary mandou

para Yvonne, sua mulher, todo o seu mau humor diante da influência da

música americana se

dissipara. Em Miami, já ficara deslumbrado com a largura das avenidas, a

limpeza das ruas, os

trens, os táxis, os hotéis, as máquinas de cigarros - quem o lia

imaginava que ele saíra de uma

taba, não do Rio. Em Los Angeles, Ary reagiu também como um turista de

primeira viagem (o que

ele era), soltando exclamações ao lhe mostrarem (a distância) as casas de

Harold Lloyd, de

Robert Taylor e até de Carmen. Um tour pela Republic deixara-o besta - e

olhe que a grande

atração do estúdio, no San Fernando Valley, eram os tumbleweeds, aquelas

bolas de capim seco,

rolando ao vento nas ruas de cenário do Velho Oeste.
Na Republic, Ary ganhou uma sala e um piano para escrever o score de Bmzü

(no Brasil, Brasil).

Das sete canções que produziu, com letras do experiente Ned Washington, a

única a fazer espuma

foi o bonito samba "Rio de Janeiro", que, no ano seguinte, concorreria ao

Oscar de melhor canção

(perderia para "You'll never know", de Harry Warren e Mack Gordon).
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Para a Republic, uma simples indicação ao Oscar já era uma vitória - porque a

Academia nunca tomara

conhecimento de nada que viesse do estúdio. Brasil, o filme, se passava

no Rio e era estrelado

(pode-se dizer assim?) por Virginia Bruce, Robert Livingstone e o cantor

mexicano (falando

português) Tito Guizar. Para dar uma cor local, Aurora tinha uma pequena

participação como

dançarina e, de repente, Roy Rogers, o rei dos cowboys, surgia galunfante

em cena, como se

tivesse entrado sem saber no filme errado. Assim era a Republic.
Em meados de fevereiro, Carmen voltou para Beverly Hills e foi

imediatamente apanhar Ary no

Franklin Hotel para jantar, conversar fiado e matar a saudade. Ary, que

talvez nunca tivesse

andado de carro com Carmen no Rio, ficou encantado com a familiaridade

com que ela conduzia

o Buick pelas pirambeiras arborizadas de Los Angeles (ainda não existiam

os grandes anéis).

Carmen levou-o ao Clover Club, no Sunset Boulevard, e passou um bilhete

ao cantor, o tenor

colombiano Carlos Ramirez, dizendo-lhe que Ary Barroso estava no recinto.

Ramirez, que

acabara de se lançar em Hollywood cantando "Granada" para Esther Williams

em Escola de

sereias (Bathing beauty), chamou Ary ao palco, submeteu-o a várias

rodadas de aplausos e o fez

acompanhá-lo ao piano enquanto cantava "Brazil". Mais aplausos. Ary

começou a se imaginar

vivendo essas situações em regime permanente - e agora entendia nem que

fosse uma fração do

sucesso de Carmen.
Na verdade, o que lhe enchia as medidas era o seu reconhecimento entre os

americanos. Onde

quer que fosse apresentado como o compositor de "Brazil", era festejado,

afagado,

cumprimentado e, se houvesse um piano a menos de quinhentos metros, eles

o obrigavam a sentar-

se e tocá-lo.
"Meu samba é mais popular aqui do que no Brasil", escreveu para Yvonne.
E, para todo lado que se virasse, parecia vir uma proposta de trabalho.

Além do contrato com a

Republic, que ele já estava cumprindo, havia para o ano um musical em

perspectiva na Fox,

Three little girls in blue, a ser feito com Carmen, June Haver e Jeanne

Crain. De Nova York, Lee

Shubert mandara dizer que queria suas canções para uma revista musical da

Broadway, intitulada

One night in Brazil. Na Disney, Ary assistiu ao copião de Você já foi à

Bahia?. Aprovou o que se

fez de "Na Baixa do Sapateiro", "Você já foi à Bahia?" e "Os quindins de

iaiá" e, pela simples

cessão de uso desses sambas, embolsou quase mil dólares - mais de

trezentos por música. Por

sugestão de Aloysio, Walt convidou-o a narrar o episódio de Paulinho, o

pingüim friorento, para a

versão brasileira do filme - o que valeu a Ary mais alguns cobres. E,

pelo que Aloysio lhe

soprou, Walt tinha planos para ele - algo assim como um contrato fixo,

para que Ary se

integrasse aos compositores da casa e passasse o ano fazendo música para

Donald, Pateta e Pluto.


"Se quiserem que eu fique trabalhando aqui durante um ano ou dois,

voltarei ao Rio para buscar-te e, possivelmente, os meninos", continuou na carta para Ivone. "Uma

coisa eu garanto: ficarás

deslumbrada com isto aqui.

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Vivemos aí uma vida provinciana. Aqui há civilização e progresso." E tome de

kisses, só longs e good

byes na carta para a mulher.
Atenção, que estamos falando do autor de "Dá nela", "Faceira", "No rancho

fundo", "Maria", "Foi

ela", "No tabuleiro da baiana", "Boneca de piche", "Na Baixa do

Sapateiro", "Camisa amarela",

"Morena boca de ouro", "É luxo só" e tantas outras - mais brasileiro, só

o bife a cavalo. Um

homem feito, pai de filhos, com anel de doutor no dedo e que, menos de

cinco anos antes, com

"Aquarela do Brasil", nos fizera descobrir o Brasil brasileiro, o mulato

inzoneiro e a merencória

luz da lua. A conversão de Ary à civilização norte-americana foi

galopante. Claro que, com o

tempo, ele voltaria a seus sentidos normais. Mas, nos primeiros meses,

sua entrega às coisas dos

Estados Unidos parecia absoluta - via em Los Angeles um marinheiro

sapateando na rua, ou uma

crioula dirigindo um ônibus, e achava aquilo um colosso, uma coisa do

outro mundo.


Sua única restrição ao país era que, habituado a ser o centro das

atenções, Ary às vezes se

aborrecia por ser o único da roda a não falar inglês e ter de ficar mudo

- ou de rir por

procuração quando todos estouravam numa gargalhada. Por isso, sempre que

podia, escapava

para a casa de Carmen, onde se falava português fluentemente. Foi lá que

Ary deixou de lado a

cerveja e habituou-se ao uísque, bebida que nunca mais abandonou. E foram

os amigos da roda

de Carmen que o convenceram a trocar seus últimos dentes por um par de

cintilantes dentaduras.

Ary vacilou nessa decisão, temendo que elas o fizessem ciciar e

comprometessem a dicção a que

seus ouvintes já tinham se habituado na Rádio Tupi - além de compositor,

era o mais famoso

narrador de futebol do Brasil. Tinha medo também de que, ao dar uma

gargalhada, as dentaduras

lhe saíssem voando pela boca - e Ary, com toda a ranzinzice, gostava de

rir, principalmente

quando Carmen imitava sua voz. Acabou se decidindo pelas dentaduras e, a

partir daí, foi um

bravo: encarou o suplício das extrações e tapou as gengivas com a mão por

muitos dias, até

estrear seu novo equipamento em grande estilo - o qual, para sua sorte,

não lhe provocou cicio.


Com toda essa atmosfera de camaradagem e humor na casa de Carmen,

envolvendo coisas tão

sem glamour como cicios, gengivas e dentaduras, correu no Rio a notícia

de que Carmen e Ary

estariam de caso e planejando se casar em Los Angeles. É de imaginar o

susto nos cafés,

gravadoras, rádios, cassinos e outros ambientes dos quais eles eram os

totens.
Mas o susto maior foi de Yvonne. Como seu marido poderia casar-se com

Carmen se já era

casado com ela? - ela se perguntava. O pior é que os jornais brasileiros

tratavam o assunto como

um caso consumado. A notícia se espalhara sem que os protagonistas da

história fossem cheirados

ou ouvidos - e, como não se sabia de nenhuma declaração deles, é porque

devia ser verdade.
Mas não era. A distância, a guerra e a precariedade das comunicações

tinham feito com que,

iniciado o boato, ele tivesse tempo de sobra para se estabelecer no Rio.
373
Ao mesmo tempo, em Los Angeles, Carmen e Ary não estavam

sabendo do que

circulava por aqui - e, quando souberam, não lhe deram importância. Pelo

menos, não se

preocuparam em fazer um desmentido rápido e categórico. Além disso, a

provável fonte da

história não imaginava que ela pudesse ganhar tais dimensões - o próprio

Ary Barroso.


Surpreso? Sérgio Cabral, biógrafo do compositor, anotou as várias

ocasiões em que, nessa

viagem, Ary escreveu a Yvonne contando como vivia cercado de americanas

em Los Angeles,

relatando flertes e insinuando conquistas. Não passavam de fantasias, mas

chegaram a tal ponto

que, segundo Cabral, o pai de Yvonne escreveu a Ary para protestar contra

esse exibicionismo.

Quando Yvonne também lhe escreveu perguntando que história era aquela de

casamento com

Carmen, Ary foi misterioso: "Explicarei tudo na volta". Mas não havia o

que explicar - era pura

bazófia. Se Ary dava a entender à própria mulher que não se furtava a

certos apelos femininos, o

que o impediria de se jactar, em cartas para o Brasil ou para algum

brasileiro de passagem por

Los Angeles, que estava tendo um caso com Carmen? E por que se importaria

se esse relato

vazasse e fosse ampliado às dimensões de um noivado ou de um casamento?
É possível também que, se Carmen tomou conhecimento das dimensões do

boato, preferiu deixá-

lo morrer sozinho - pela sua própria impossibilidade. Não que ela não

gostasse de Ary. Ele fora

o compositor que ela mais gravara em sua carreira brasileira: trinta

sambas e marchas, entre os

quais alguns de seus maiores sucessos. O resto não era com ela, nem lhe

interessava. Ary era

casado e ela se dava muito bem com Yvonne, mulher dele. Além disso, nos

quinze anos em que se

conheciam, Ary não se aperfeiçoara em nenhuma das qualidades que Carmen

mais apreciava em

um homem: a juventude, a beleza, a altura, a pele morena, a quadratura

dos ombros, os nós dos

braços, a metragem das pernas, a firmeza das carnes - e, se possível, uma

certa fraqueza de

personalidade, algo que, de alguma maneira, o subjugasse a ela. Todas

essas características eram

comuns a Mário Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria, Aloysio de Oliveira

e também a John

Payne, entre os homens de quem se podia afirmar que tinham partilhado os

seus lençóis.


E várias delas poderiam ser também identificadas em outros homens que ela

namoraria em

Hollywood naquele ano e no ano seguinte: o mexicano Arturo de Córdova, os

americanos Dana

Andrews, Harold Young e John Wayne, e o brasileiro Carrinhos Niemeyer.
Quando Arturo de Córdova chegou a Hollywood um ano antes, em 1943, para

contracenar com

Gary Cooper e Ingrid Bergman em Por quem os sinos dobram (For whom the

bells toll), houve

uma corrida feminina à Paramount. Aos 35 anos, De Córdova era descrito na

bula como um Errol

Flynn mexicano, ou Gable, Tracy e Power em um só. E não estavam se

referindo às suas

qualidades como ator.

374
Um dos fatores que o tornavam irresistível era sua aparente

naturalidade - ninguém

fingia tão bem não ter consciência da própria beleza.


Poucos também tinham uma biografia tão variada. Nascido em 1908, no

México, filho de um

exportador de chicletes, Arturo passara parte de sua infância e

adolescência em Nova York e

Buenos Aires. Nesta última, viu-se que levava jeito para o futebol e,

quando seus pais o mandaram

estudar na Suíça, foi descoberto pelo Olympique de Marselha, no qual

chegou a atuar com o seu

verdadeiro nome, Arturo Garcia. De novo em Buenos Aires, tornou-se

repórter esportivo da

agência United Press, até voltar para o México, onde se consagrou no

rádio como locutor de

futebol e, a partir de 1935, como ator. Arturo já tinha uma carreira no

cinema de seu país quando a

Paramount o convocou.
Em Por quem os sinos dobram, ele era o quarto nome do elenco, atrás ainda

de Akim Tamiroff.

Mas, nos filmes imediatamente seguintes, foi o galã de Luise Rainer, Joan

Fontaine e Betty

Hutton, e, por mais que esses filmes se submetessem ao Código Hays nas

cenas de amor, havia um

quê em Arturo de Córdova que parecia mais lascivo e sensual do que o

permitido. Para ele, isso

era um vestígio de seus trinta filmes no cinema mexicano:
"No México, fazemos filmes para adultos", explicava. "Podemos beijar o

pescoço da mocinha."


Não eram somente as mulheres que achavam difícil se manter a distância -

no futuro, na era da

permissividade, César Romero contaria que, quando viu Arturo pela

primeira vez, quase saltou

sobre ele.
Arturo era daltônico e não podia comprar uma gravata sozinho, mas dizia-

se capaz de distinguir

as cores dos olhos das mulheres. Era um adorador por igual das de olhos

pretos, castanhos ou

azuis - só não confiava nas de olhos verdes e jamais namoraria uma delas,

segundo afirmou em

entrevistas. Como Carmen era notória pelos olhos verdes, ou ela o fez

mudar de idéia ou ele não

era tão convicto assim nessa área.
Carmen e De Córdova foram um item freqüente nas colunas de fofocas da

cidade durante algumas

semanas de 1944. Anos depois, ela ainda ficaria com a boca cheia d"água

ao contar às amigas

sobre o caso. E este só não foi mais adiante pelo motivo de sempre:

Arturo, que se comportava

publicamente como um rapaz solteiro e nunca era visto desacompanhado,

tinha mulher e quatro

filhos na Cidade do México. Sua esposa, ao que constava, não se opunha a

que ele desfilasse por

Hollywood com suas namoradas - apenas não lhe dava a separação. Para

Arturo, esse elástico

estado civil devia ser confortável. Mas não resolvia o problema de

Carmen, que queria um

casamento à antiga, em que pudesse ter os seus próprios filhos. Então,

afastou-se dele antes que a

inflamação se alastrasse.
Na época, entre maio e julho de 1944, Carmen filmou Somethingfor the boys

(no Brasil, Alegria,

rapazes!), o primeiro de seus filmes sem LeBaron ou o próprio Zanuck como

produtor. No lugar

destes, o responsável era Irving Starr,
375
encarregado dos filmes de segunda linha da Fox, o que significava

trabalhar com atores

simpáticos mas sem muito cartaz, ainda em experiência ou quase estreantes

(uma delas, numa

pontinha bem nas primeiras seqüências, Judy Holliday). Pela segunda vez,

Carmen encabeçava o

elenco - mas qual era a vantagem de se estar acima de Michael O"Shea ou

Vivian Blaine?


Significava também trabalhar com pouco dinheiro, como se podia ver pelo

aspecto de segunda

mão dos cenários, roupas e objetos. A origem do filme era um musical da

Broadway,

Somethingfor the boys, contando uma história boba de soldados que tentam

montar um show.

Mas, com música e letra de Cole Porter e estrelado por Ethel Merman, o

espetáculo cumprira a

respeitável marca de 422 representações na Broadway em 1943. A Fox

comprou os direitos do

musical, incluindo as canções de Cole, e, seguindo uma velha tradição de

Hollywood, jogou-as

fora, menos a canção-título, e ficou com a história. Novas canções foram

encomendadas a Jimmy

McHugh e Harold Adamson, que, já ricos e cansados, não iriam queimar as

pestanas para compor

nada palpitante. Principalmente porque as canções se destinavam a Vivien

Blaine, ainda bem

apagadinha, e ao estreante Perry Como, que, já então, parecia cantar com

as pálpebras.


Dos dois números de Carmen, "Batuca, nego" e "Samboogie", somente o

segundo era de Adamson

e McHugh. A idéia de uma/uszon entre o samba e o boogie-woogie era boa,

mas Adamson e

McHugh pareciam entender muito pouco de boogie-woogie e nada de samba - e

"Samboogie"

conseguiu a façanha de zerar o balanço dos dois ritmos. Essafusion seria

vibrantemente realizada

no ano seguinte, no Brasil, por compositores como Janet de Almeida e

Haroldo Barbosa, em "Eu

quero um samba", e Denis Brean, em "Boogie-woogie na favela" - antes,

portanto, que Alegria,

rapazes! fosse lançado no Rio, o que só aconteceria em 1946. Pena que os

amigos de Carmen, nas

rádios e nas gravadoras cariocas, que poderiam mantê-la informada do que

estava se fazendo de

novo na música brasileira, não aprovassem essas misturas - um deles,

Almirante - daí Carmen

nunca ter gravado certas coisas que pareciam perfeitas para seu estilo.

Seu outro número no filme,

o samba "Batuca, nego", era de safra recente e acabara de ser lançado no

Brasil pelos Quatro

Azes e um Coringa. Mas Carmen só o conheceu porque ele lhe foi entregue

em mãos pelo próprio

autor: Ary Barroso.
Comparado ao luxo dos seus primeiros musicais, Alegria, rapazes! não

disfarçava um jeito de

filme de carregação. Dessa vez, o personagem de Carmen se chamava

Chiquita Hart, filha de uma

brasileira com um - acertou! - irlandês. Os irlandeses deviam ser mesmo

loucos pelas mulheres

brasileiras. Ou, então, era a falta de imaginação dos roteiristas, que

não conseguiam inventar outra

justificativa para Carmen falar no filme um inglês tão desembaraçado,

ainda que caricatural.


Tal indigência poderia ser um indício para Carmen do que o estúdio lhe

reservava nos tempos

próximos. Estariam a fim de encostá-la ou mesmo demiti-la?

376
Não, não havia nada de pessoal contra ela. A Fox é que ainda não

soubera reagir a algumas

conseqüências da guerra, uma delas as mudanças no gosto do público - já

não era possível

continuar fazendo os mesmos filmes, ano após ano, e com os mesmos atores,

todos escravizados

ao próprio tipo. Outros efeitos do conflito eram as dificuldades para

filmar cenas externas (muitos

aviões passando sobre Los Angeles) e o desmanche até espontâneo de seu

elenco - Don

Ameche, por exemplo, não se interessara em renovar seu contrato e

preferira ser freelance. Da

constelação de canto e dança de 1941, de que o estúdio tanto se

orgulhava, só restavam Carmen e

Betty Grable.


Alice Faye continuava em casa, desfrutando do casamento, das filhas e de

sua precoce

aposentadoria. Um dos motivos pelos quais abandonara o cinema, segundo

declarara, era porque

"a mulher não deve ganhar mais que o marido". Outro motivo - e só então

ela se traiu - era

porque não tinha interesse em continuar estrelando musicais fin-de-

siècle, em que os espartilhos e

os enchimentos a faziam parecer uma ampulheta.
Foi por aí que o esperto Zanuck a pegou. Ele lhe ofereceu um papel

dramático em Anjo ou

demônio? (Fallen angel), com direção de Otto Preminger. Alice vacilou,

mas mordeu a isca e

aceitou voltar a trabalhar, apenas por causa do papel. Mas, ou por Alice

não ter se revelado a

atriz que ele esperava, ou por uma vingança mesquinha contra a

independência que ela

conquistara, Zanuck, ao montar o filme, amputou seu personagem cortando a

maioria de suas

cenas, ao mesmo tempo que fez crescer o de Linda Darnell. Alice assistiu

à montagem final na

cabine do estúdio, sozinha, com o projecionista, e ficou revoltada.

Escreveu uma carta malcriada

a Zanuck e a entregou ao porteiro, junto com as chaves do camarim. Em


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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