Carmen, Uma biografia Ruy Castro



Baixar 5.39 Mb.
Página42/71
Encontro02.07.2019
Tamanho5.39 Mb.
1   ...   38   39   40   41   42   43   44   45   ...   71

se irritava ao ver

como sua irmã, com um nome daquele tamanho, se submetia à mesquinharia

dos camarins. Outra

coisa incompreensível para Aurora era como, com a quantidade de

maquiadoras à sua disposição,

tanto ali

326
quanto na Fox, Carmen não abria mão de fazer sua própria maquiagem -

desenhando a boca de

modo a formar dois arcos no lábio superior e ampliando o de baixo para

que parecesse mais

grosso do que realmente era. Carmen achava que ninguém fazia sua boca

como ela.
Ao fim de cada apresentação de Carmen, Rothapfel postava dezenas de

discretos seguranças nas

laterais do palco, o que não impedia que muitas espectadoras subissem

para apalpar-lhe a baiana

e descobrir de que materiais era feita. À saída do cinema, esse controle

era mais difícil e Rothapfel

precisava da ajuda da polícia para escoltar Carmen no percurso entre o

Roxy e o Winter Garden

- na mesma esquina, quase de frente um para o outro, o que tornava sem

sentido usar o carro,

embora fosse complicado de transpor a pé. Carmen tinha de sair pelos

fundos do cinema para

chegar ao teatro e ser fortemente protegida, para não ter suas roupas

rasgadas em busca de

souvenirs.
Os shows do Roxy lhe rendiam 4 mil dólares por semana (na verdade, 2 mil,

depois de descontado

o de Shubert). Por sua participação em Sons o"fun, Carmen recebia mil

dólares por semana -

numa defasagem quase imoral entre o que seu patrão lhe pagava e os preços

que se praticavam

fora do seu império. E os valores para o Bando da Lua eram ainda mais

ridículos: Shubert pagava

a cada membro sessenta dólares por semana, exceto a Aloysio de Oliveira,

que levava oitenta. É

óbvio que o faturamento do Bando era bem maior que isso, mas não graças a

Shubert.
As dissensões no Bando, ensaiadas várias vezes no Rio, tomavam agora

contornos definitivos.

Começavam pela insatisfação de vários deles quanto aos créditos que

tinham recebido nos filmes.

Em Serenata tropical, eles saíram como "The Carmen Miranda band", e,

mesmo assim, só nos

letreiros finais. Fora um amargo desapontamento. Em Uma noite no Rio, o

Bando apareceu nos

créditos principais, mas como Banda da Lua e com o adendo, entre

parênteses, de "Carmen

Miranda"s orchestra". E, em Aconteceu em Havana, o nome do Bando não fora

sequer citado,

embora eles surgissem com destaque logo na primeira seqüência - mas

fantasiados de cubanos,

com mangas bufantes e farfalhantes, acompanhando Carmen na rumba-título

em inglês e com

Aloysio tocando um degradante chocalho. Eles bem podiam imaginar a

revolta de seus amigos

cariocas ao vê-los daquele jeito. E havia a história de que o Bando da

Lua era chamado de

Miranda"s Boys. Embora isso só acontecesse na intimidade - nunca apareceu

impresso em

nenhum cartaz -, já era bastante para diminuí-los.


O principal racha partiu de Hélio. O violonista achava que o Bando

deveria conservar sua

ambição musical e lutar por projetos próprios, como no Brasil, onde

cantavam de temas do

folclore brasileiro a sambas de morro e de músicas americanas à última

marchinha do Carnaval.

Além disso, havia a possibilidade de faturar mais se buscassem trabalho

fora de Carmen. Mas

Aloysio achava que precisavam ficar à disposição de Carmen, e tinha com

ele os votos dos

irmãos Ozorio (Nestor Amaral ainda não palpitava). Hélio então preferiu
327
sair. Venceu todos os argumentos dos colegas, pagou uma multa a Shubert e

desligou-se

oficialmente do conjunto. Mas não voltou para o Brasil. Continuou em Nova

York, onde arranjou

emprego na cadeia de rádio NBC como programador musical e teria um

programa de jazz por

muitos anos.
Outro que concordava em tudo com Hélio, e ainda tinha motivos

particulares para se desligar, era

o pandeirista Vadeco. Entre esses motivos incluía-se voltar ao Rio. Não

que não gostasse da vida

em Nova York. Aliás, sentia-se tão em casa na cidade que, ao passar por

uma garota brasileira

conhecida, não tinha o menor pudor de berrar de um lado a outro da rua:

"Querida! Xuxu! Meu

amor!". Foi o que fez com a estudante Barbara Heliodora, filha de Ana

Amélia e Marcos Carneiro

de Mendonça, que, aos dezoito anos, fora estudar em Nova York. E ela

gritou do outro lado: "Oi,

Vadeco! Quê que há?". Os nova-iorquinos, desabituados a essas efusões, se

entreolhavam.


Mas Vadeco recebera cartas do Brasil informando que sua mãe estava muito

doente - e, filho

extremado, não sossegou enquanto não rescindiu o contrato com Shubert e

tomou um navio para o

Rio. Por causa da guerra, os cruzeiros estavam praticamente interrompidos

e Vadeco teve de se

valer de um vapor argentino que zarparia superlotado de New Orleans - no

qual só conseguiu

embarcar porque o comandante o reconheceu de antigas temporadas do Bando

da Lua em

Buenos Aires. Ao chegar ao Rio, Vadeco constatou que sua mãe, felizmente,

melhorara.

(Melhorara tanto, aliás, que viveria mais

41 anos e só morreria aos 99, em 1983.)


Por isso, havia no Bando quem acreditasse - Stenio era um - que Vadeco só

resolvera sair às

pressas dos Estados Unidos porque, com a entrada do país na guerra, ele,

como qualquer

estrangeiro residente, poderia ser convocado. Vadeco sofrera de tifo em

criança e perdera o olho

esquerdo. Se achava que isso seria suficiente para desobrigá-lo de

servir, descobriu o contrário

quando teve de se apresentar no 257- Centro de Alistamento de Los

Angeles. Os homens o

examinaram e disseram que isso até facilitaria sua mira no fuzil. (E o

pior é que era verdade: nos

mafuás do Lido carioca ou de Coney Island, ninguém o derrotava no tiro

aos pratos.) Mas Vadeco

não estava a fim de tocar pandeiro para uma metralhadora alemã. Fugindo

por New Orleans, só

respirou quando se viu a bordo e, quase um mês depois, atracou na praça

Mauá.
No Rio, Vadeco reencontrou sua ex-namorada Haydée, filha do dramaturgo

Joracy Camargo, e

que estava noiva do português Sebastião, dono de uma gráfica na Cidade. O

reencontro de

Vadeco e Haydée foi fulminante. Ela rompeu o noivado, os dois firmaram

compromisso, e Vadeco

mandou imprimir os convites de casamento. Mas, sem saber, contratou

justamente os serviços da

gráfica do português - que só a custo foi convencido de que era uma

coincidência e que Vadeco

não tivera intenção de tripudiar.


Para o lugar de Hélio, Aloysio chamou o violonista Zezinho. Para o de

Vadeco, o pianista e

arranjador Vadico. A formação pública do Bando não

328
comportava um piano e, assim, nas filmagens e nos shows, Vadeko participava

como pandeirista - e

reservava o piano e os arranjos para os ensaios e gravações. Dos seis que

tinham embarcado

originalmente com Carmen, só restavam três: Aloysio - o novo líder

inconteste do Bando - e os

irmãos Stenio e Affonso. E os desfalques não parariam por aí.


Enquanto o Bando da Lua se dividia e se dissolvia aos olhos de Carmen,

outro símbolo inicial de

sua aventura americana encontrava um triste destino: o navio francês

Normandie, onde, apenas

três anos antes, Shubert a recebera para discutir as bases de sua

carreira na Broadway.


O Normandie estava estacionado em Nova York quando Hitler ocupou Paris,

em junho de 1940.

Os americanos, com toda a razão, não viram motivo para lhe mandar o navio

e o apreenderam,

mas conservaram-no intacto, flutuando na baía. Com a entrada dos próprios

Estados Unidos na

guerra, em 7 de dezembro de 1941, tomaram posse oficialmente dele, mas,

já aí, com as piores

intenções. O Normandie foi despido do seu luxo de 60 milhões de dólares

para ser transformado

no Lafayeite, um navio de transporte de tropas, com capacidade para 15

mil soldados. Mas só

houve tempo para a primeira operação. Em 9 de fevereiro de 1942 - no dia

em que Carmen

completava 33 anos -, um operário desastrado, usando uma tocha de

acetileno, pôs fogo sem

querer num depósito de coletes salva-vidas no deque superior. O incêndio

se espalhou e os

bombeiros de Nova York, contrariando os apelos do designer do navio,

Vladimir Yourkewitch,

completaram o desastre: jogaram tanta água dentro do Normandie que ele

começou a adernar

para um dos lados. Em poucas horas, acabou de virar, arriou pesadamente e

se deixou ficar como

um gigantesco animal morto, preso à lama do fundo da baía e com metade do

corpo fora d"água.

Nunca mais flutuou.
Se aquilo valia por uma metáfora, fora no Normandie que Carmen lutara por

ela e pelo Bando da

Lua junto a Shubert. Agora, junto com o Normandie, metade do Bando da Lua

já não existia.

Restava a Carmen lutar por si mesma.
O enorme sucesso de Uma noite no Rio e Aconteceu em Havana fizera a Fox

pensar em antecipar

para julho a filmagem de Minha secretária brasileira. Havia também o fato

de que o estúdio se

arriscava a ficar sem seus galãs, todos sujeitos a embarque para um front

da guerra. A ordem de

Zanuck era pô-los para rodar o máximo de filmes que pudessem enquanto não

fossem mobilizados

- como ele, Zanuck, estava fazendo, ao mesmo tempo que se preparava para

largar seu estúdio e

também embarcar. Mas Carmen continuava presa a Shubert por um contrato

que poderia ser

indefinidamente prorrogado enquanto ele exercesse suas opções. No começo

de maio, com

Carmen ainda em Sons o'fun,

329
começou o assédio. Para Shubert, era óbvio que a Fox queria contratar

Carmen em bases

permanentes, não mais filme a filme. Então a liberou para aquele filme,

na certeza de que,

amarrada como estava a um contrato, ela teria de voltar sempre que ele a

convocasse. Mas

preparou-se para a batalha que precisaria travar para conservar sua

descoberta.
Em 21 de maio, George Frank escreveu a Shubert comunicando-lhe que Carmen

queria comprar

seu contrato, que tinha mais um ano para vencer. Harry Kaufman, um dos

advogados de Shubert,

respondeu propondo que isso seria possível, ao custo de 75% dos próximos

100 mil dólares que

Carmen ganhasse da Fox ou de quaisquer fontes. Antes que Frank

classificasse a proposta de

extorsiva - o que ela era -, Kaufman argumentou por escrito:
"No presente momento, o senhor Shubert detém 25% de todos os rendimentos da

senhorita Miranda. Isso

seria revertido de modo a fazê-lo deter 75% nos primeiros 100 mil dólares

em todos os

rendimentos [da senhorita Miranda] nos próximos dois anos. Quando se

considera que, neste momento,

o senhor Shubert faz jus a 36 mil dólares somente do compromisso da senhorita

Miranda com a 20th

Century-Fox, a proposta parece mais que razoável".
Frank não achou razoável, mas Zanuck, o principal interessado na

liberdade de Carmen, não

queria que a pendenga se arrastasse a perder de vista. A questão foi

resolvida com o pagamento

à vista de 60 mil dólares pela 20th Century-Fox, mais a parte de Shubert

no restante do

compromisso de Carmen com o estúdio na filmagem de Minha secretária

brasileira e a

concordância de Carmen em não se apresentar em Nova York até 12 de

outubro de 1942 e em

Filadélfia, Baltimore, Washington, Detroit, Pittsburgh e Cleveland até

janeiro de

1943, cidades que ainda estariam levando Sons o"fun.
Em 23 de julho, Shubert, tendo lucrado tudo que esperava e podia,

concordou em terminar suas

relações contratuais com Carmen. Os papéis começaram a ser assinados. No

dia 6 de agosto de

1942, Carmen estava livre de Shubert para sempre.
Sua vida, a partir de agora, rolaria a 24 quadros por segundo e seria na

Califórnia. O contrato com

a Fox previa dois filmes por ano, com três meses para cada um, e quatro

semanas para retakes,

num total de sete meses. Outros dois meses, obrigatoriamente dezembro e

janeiro, podendo

estender-se a fevereiro, ficavam reservados para uma temporada no Roxy,

em Nova York, com

shows acompanhando os grandes lançamentos do estúdio para o fim do ano.
Sobravam a Carmen três meses por ano para cuidar da vida - namorar, tomar

sol, contar o

dinheiro, fazer planos ou não fazer nada. Mas a guerra eliminou essa

última possibilidade.


Capítulo 19


1942
Boa vizinhança de araque

Ao chegar a Hollywood em maio, para começar os trabalhos em Minha

secretária brasileira,

Carmen mal reconheceu o território. Com a entrada dos Estados Unidos na

guerra, muita coisa

tinha mudado. Astros que ela nunca julgara capazes de tal bravura estavam

lindíssimos de

uniforme - Tyrone Power, seu colega na Fox, fora dos primeiros a se

alistar - e estrelas como

Lana Turner, que, outro dia mesmo, nem sabiam onde ficava a Europa,

discutiam o cerco de

Stalingrado. Na praia, até as crianças enfiadas em bóias de cavalinho

estavam de olho no

horizonte - para o caso de um submarino japonês botar o periscópio para

fora.
Havia mudanças funcionais, também. A hora de entrar no estúdio fora

antecipada para as seis e

meia da manhã. Trabalhava-se enquanto houvesse luz natural, às vezes até

sete da noite, e

ninguém protestava. As filmagens em locação, que exigiam o deslocamento

de dez ou doze

caminhões, foram canceladas para poupar combustível. Antes, excesso;

agora, escassez: os

estúdios passaram a economizar eletricidade, gasolina, madeira, carvão, e

até pregos - Carmen

precisou poupar os grampos de seus turbantes. Nos dias de folga, os

técnicos produziam filmetes

de propaganda para o governo e os atores iam distrair tropas nas bases

militares. À noite, as

deusas vestiam o avental xadrez ou o vestidinho rendado e serviam

costeletas ou dançavam com

os soldados na Hollywood Canteen. À uma da manhã, tudo já fechara - até

mesmo o Ciro"s, o

Mocambo, o Trocadero e o Cocoanut Grove. Era a guerra. Pela primeira vez

em sua história, a

cidade do cinema estava pensando em alguma coisa que não fosse em si

mesma.
Ou assim parecia. Os jornais especializados, tipo Variety, falavam da

adesão de Hollywood à

Política da Boa Vizinhança com os países das Américas Central e do Sul -

produzindo uma linha

de filmes "latinos" para estimular o pan-americanismo. Tais filmes, ao

mesmo tempo que fariam um

agrado àqueles mercados, compensariam a perda de cerca de milhares de

poltronas nos onze

países da Europa e da Ásia dominados pelo eixo Alemanha-ItáliaJapão e que

já não compravam

filmes americanos. Essa era a idéia, lançada em fins de 1940 pela

Coordenadoria de Negócios

Interamericanos - o Birô, dirigido por Nelson Rockefeller. Mas, se a dita

política estava sendo

adotada em Hollywood, os resultados, até ali, eram pífios.


331
Em meados de 1942, entre os grandes estúdios, somente a Fox parecia se

dedicar a produzir esse

gênero de filmes e, mesmo assim, porque tinha Carmen Miranda. Para os

três maiores - a MGM, a

Warner e a Paramount -, não fazia o menor sentido rodar filmes com

temática "latina" para

conquistar mercados como Cuba, México, Argentina ou Brasil. Esses

mercados já estavam

conquistados havia décadas e suas platéias, mais do que familiarizadas

com as temáticas norte-

americanas - se um garoto argentino ou brasileiro tivesse de citar o nome

de um índio, dez

contra um como citaria o cacique Touro Sentado em vez de um dos seus

próprios tapuias.


Entre os estúdios menores, o único interessado no assunto era a RKO, e

nem podia ser diferente. A

RKO era o ramo cinematográfico da RCA (Radio Corporation of America), a

gigante pioneira da

radiocomunicação, parcialmente controlada pela família Rockefeller e por

seu membro mais

visível - Nelson, o chefe do Birô. Donde, se um estúdio estava obrigado a

dar o exemplo de

adesão à Política da Boa Vizinhança, só podia ser esse.
Assim, Nelson Rockefeller convenceu Walt Disney (cujos filmes eram

distribuídos pela RKO) a

filmar na América Latina, do que resultaram os desenhos Alô, amigos

(Saluáos, amigos, 1943) e

Você já foi à Bahia? (The three caballeros,

1945) e o personagem do papagaio Zé Carioca. E foi também Rockefeller

quem literalmente

intimou Orson Welles (25 anos e na crista da onda pelo recente Cidadão

Kane) a largar o que

estava fazendo na RKO e ir ao Rio para rodar um filme sobre o Carnaval,

chamado íís ali true.

Para Walt, o Brasil foi um grande negócio. Para Orson, foi a sua

desgraça.
No primeiro semestre de 1941, Walt Disney estava encrencado até as

orelhas com o sindicalismo

americano. E todas as crianças do mundo ficariam desapontadas se

soubessem o motivo: Walt era

considerado o pior patrão de Hollywood. Pagava salários de fome aos

desenhistas e animadores,

proibia seus nomes na tela, reduzia seus salários, ameaçava-os com

demissões coletivas e, numa

época em que isso ainda era possível nos Estados Unidos, perseguia

funcionários sindicalizados,

não reconhecia o direito de greve e contratava brutamontes para desmontar

piquetes. Para ele,

qualquer mínima luta por direitos era coisa de comunistas. Em abril

daquele ano, o conflito com os

empregados chegara a ponto de Walt já não poder andar pelas alamedas de

seu próprio estúdio,

na South Buena Vista, em Burbank, sem ser xingado de rato. Com todos os

sindicatos contra si e a

ponto de sofrer boicotes e sanções terríveis, Disney anunciou que

preferia fechar a fábrica e

acabar com tudo, menos ceder aos "comunistas".
Quem o salvou foi Nelson Rockefeller, com uma proposta providencial: Walt

iria à América do

Sul com uma equipe (se ainda conseguisse formar alguma e pagando ele

mesmo as despesas de

viagem), para pesquisar e produzir esboços tendo em vista um filme

passado na região. Filme esse

para o qual o Birô contribuiria com 300 mil dólares. Sem Disney por perto

para atrapalhar, o governo,

332
funcionando como interventor, negociaria com os sindicalistas e

tentaria salvar o estúdio. A

contragosto, Walt teve de topar. Mas o resultado final foi o melhor para

todo mundo.


Na sua ausência, o governo fez todas as concessões que ele jamais faria.

Com isso, a Disney

ingressou no século xx em relação às leis trabalhistas e celebrou suas

pazes com os sindicatos. E o

material que sua equipe de dezoito membros (entre desenhistas,

roteiristas e músicos) recolheu no

México, na Argentina, e principalmente no Brasil, de maio a agosto,

serviu-lhe não para um, mas

para dois filmes, que se pagaram amplamente e lhe renderam muito

dinheiro. Por uma ironia, foram

as imagens desses filmes - Zé Carioca e o Pato Donald em Alô, amigos, e

ambos com Aurora

Miranda em Você já foi à Bahia? - que se tornaram os cartões-postais da

Política da Boa

Vizinhança.
Orson Welles não teve tanta sorte. Em fins de janeiro de 1942, Nelson

Rockefeller e Jock Whitney

o espremeram a um canto na RKO e disseram que ele teria de voar nos

próximos dias para o Rio, a

tempo de firmar o Carnaval carioca. Welles acabara de rodar Soberba (The

magnificent

Ambersons), seu segundo filme e que imaginava ainda maior que Cidadão

Kane - só dependia

da montagem, que ele estava se preparando para começar. Mas não havia

tempo: já se ouviam os

repiniques do Carnaval e precisavam que ele embarcasse.
"E Soberba?", insistiu Orson.
Nelson e Jock propuseram que ele deixasse o filme com seu montador de

confiança, (o futuro

diretor) Robert Wise. Este o editaria segundo suas instruções e o estúdio

mandaria o corte final

para o Rio, apenas para que ele conferisse. Nessas condições, Orson

concordou em viajar.


O filme a ser feito no Brasil se chamaria íí"s ali true, custaria 600 mil

dólares, divididos por igual

entre a RKO e a verba do Birô, e não teria pretensões comerciais. Eles

lhe garantiam toda a

liberdade. Podia filmar o que quisesse - desde que revelasse o Brasil

para os americanos.


Como Welles confessaria depois, a América do Sul era a única parte do

mundo pela qual ele

nunca tivera o menor interesse. Sua idéia do Carnaval carioca era a de

que fosse tão bobo e

racista quanto o Mardi Gras de New Orleans, talvez apenas maior. Sendo

assim, por que se

deixou convencer por Rockefeller e Whitney? Porque eles apelaram à sua

vaidade: It"s ali true

seria uma bandeira do pan-americanismo - e este, na verdade, consistia

muito mais em

apresentar as outras Américas para a América do Norte do que o contrário.

Welles gostou da

idéia. Ao chegar ao Rio na véspera do Carnaval, o jazzista Orson, ex-

namorado de Billie

Holiday, descobriu e se apaixonou pelo samba - estava explicado o

fascínio rítmico, multirracial

e pansexual do Carnaval.
Orson passou os seis meses seguintes no Rio, hospedado no anexo do

Copacabana Palace e

deslumbrando-se com sua popularidade. Comeu todas, nos dois sentidos,

bebeu idem e, certa vez,

ao exceder sua cota de cana,

333
atirou pela janela alguns móveis de seu apartamento no hotel - mas o Copa,

espantosamente, não o pôs

para fora. (Orson teria namorado Emilinha Borba, então com 21 anos, a

quem ele chamava de

"Miloca".) Entrementes, com a colaboração de Grande Othelo, Herivelto

Martins e do pessoal da

Cinédia, seguiu dirigindo It"s ali true, no Rio e no Nordeste. Como não

havia um roteiro escrito,

Orson filmava à medida que as situações se apresentavam, ao mesmo tempo

que tentava descobrir

uma lógica para o que estava rodando.


Enquanto isso, em Hollywood, no que se referia a Soberba, a RKO não

cumpriu a sua parte do

trato. Os chefões do estúdio não gostaram do filme deixado por Orson e,

sem que ele

desconfiasse, obrigaram Robert Wise a retalhá-lo na sala de montagem. Com


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   38   39   40   41   42   43   44   45   ...   71


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande