Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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malões abarrotados de

baianas, tomava todo o espaço de um porta-malas.
A idéia de atravessar de automóvel os 4500 quilômetros do percurso Los

Angeles-Nova York

era a de "conhecer os Estados Unidos". O que eles fizeram num espírito

meio de farra, rindo muito,

parando pelo caminho (às vezes, parando para rir) e levando dez dias para

cobrir um percurso

que teria tomado cinco. Como se, no fundo, achassem que sua estada no

país não era para valer -

ou como se estivessem de passagem e não pudessem perder aquela

oportunidade de conhecê-lo.


Menos Carmen. Ela não disfarçava a má vontade com que, forçada por um

contrato, estava

voltando para Nova York. Passara a preferir Hollywood à Broadway, e,

depois de dez meses

seguidos em Los Angeles, acostumara-se aos dias de sol, que lhe permitiam

manter o bronzeado

que trouxera do Rio, e às noites amenas e azuis da Califórnia - o

suficiente para detestar o gelo e

a aspereza que a esperavam em Nova York pelos próximos meses.

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Foi ali também que tomou completa consciência de como seu contrato com Shubert a

escravizava - e de

como precisava que a Fox a ajudasse a se livrar dele.


Em Nova York, conseguiu pelo menos recuperar sua antiga cobertura no

252 andar de Central Park West, 25, onde se instalou com dona Maria,

Aurora, Gabriel e Odila, e

onde se exercitava pulando corda no terraço e dançando ao som de seus

próprios discos. Os

homens de Shubert tinham escrito a George Frank garantindo que, até a

estréia de Sons o" fun,

marcada para dezembro, Carmen se limitaria aos ensaios e poderia

descansar um pouco. Mas eles

pareciam incapazes de resistir a uma proposta para ela.


Em 9 de setembro, apenas três dias depois da chegada, Carmen e o Bando já

estavam no estúdio

da Decca em Nova York para gravar três faces: "Rebola, bola" (que ela

cantava em Aconteceu

em Havana), "The man with the lollipop song" (um pseudo-samba em inglês,

de Harry Warren e

Mack Gordon, também cantado no filme, mas por uma voz masculina anônima)

e a deliciosa "Diz

que tem", de Vicente Paiva e Aníbal Cruz, que nada tinha a ver com o

filme e que ela gravara no

Brasil apenas um ano antes, numa de suas últimas sessões na Odeon.

(Então, por que regravá-la?

Porque era uma batucada e lhe permitia cantar acelerado:
Ela diz que tem
Diz que tem, diz que tem
Diz que tem, diz que tem
Diz que tem, diz que tem
Tem cheiro de mato, tem gosto de coco
Tem samba nas veias, tem balangandãs.
Àquela altura, Carmen já contava com dezoito faces de discos gravadas nos

Estados Unidos,

distribuídas em três álbuns com três 78s cada um (South American way,

That night in Rio e Week-

end in Havana). Mas de que lhe adiantavam? O sucesso dependeria de a

Decca trabalhá-la junto

às rádios, como as outras gravadoras faziam com suas contratadas. Os

homens de Shubert viviam

mordendo os calcanhares de Jack Kapp, presidente da Decca, porque,

segundo os contratos, a

cada dólar que coubesse a Carmen, proveniente da venda dos discos,

correspondia um igual para

Shubert - e os discos estavam faturando muito pouco. A Decca explicava

que os lojistas

demoravam para prestar contas e, no nível de vendas de Carmen, ainda

muito baixo, os royalties

eram assim mesmo, quase insignificantes.
Na verdade, o público americano via Carmen muito mais como uma comediante

de cinema (que

eventualmente cantava) do que como uma cantora de discos. Não era a única

a ser vista assim.

Exceto Jeanette MacDonald, nenhuma das atrizes cantoras era grande

vendedora de discos - e

nesse rol se incluíam Mae West, Martha Raye, Ginger Rogers, Deanna Durbin

e a própria Judy

Garland.

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No final de setembro, dona Maria tomou o navio para o Rio a fim de ficar

um pouco com Cecília,

Mocotó e Tatá, seus outros filhos que também precisavam de cuidados. Quem

a acompanhou

nessa viagem foi Yaconelli, que iria ao Brasil pela primeira vez desde

1922 - com passagem

paga por Carmen em troca de sua escolta de dona Maria. (No Rio, Yaconelli

até que não se daria

mal: cativou Joaquim Rolla de tal forma que se tornou diretor artístico

da Urca e de outros

cassinos do empresário.)


Por ter viajado, dona Maria não assistiu à estréia de Carmen no

WaldorfAstoria e perdeu a

oportunidade de ver o aplomb com que sua filha circulava na alta-roda.

Shubert vendera Carmen

para uma temporada de dois shows por noite no Waldorf durante três meses

antes da estréia de

Sons o"fun - era essa a sua idéia de "descanso" para ela.
Entre os hóspedes do eclético Waldorf naquela temporada estavam o amigo

de Carmen, Nelson

Seabra (muito elegante, de silhueta e bigodinho impecáveis), o duque e a

duquesa de Windsor,

Cole e Linda Porter, e a lendária Virgínia Hill, que se dizia herdeira de

um tubarão do petróleo

em Houston, Texas, mas cuja turma consistia de Joe Fischetti (irmão de

Charlie Fischetti, do Chez

Paree, de Chicago, lembra-se?) e de "Bugsy" Siegel, o gângster favorito

de Hollywood, que seria

morto na casa de Virgínia (vizinha à de Carmen) em Beverly Hills, em

1947. Quanto mais perto do

topo, menor o mundo - e, em certas noites, este parecia estar

integralmente ao redor do palco de

Carmen.
Nelson Seabra era amigo de Ali Khan, o misto de príncipe muçulmano e

playboy internacional,

filho do idem, ibidem Agá Khan. Nelson e Ali circulavam pelo planeta como

se estivessem em

seus quintais. A diferença era que Ali Khan era um homme àfemmes - talvez

inexpressivo

fisicamente, mas com um charme e uma fortuna que o tornavam um grande

partido (seria marido

de, entre outras, Rita Hayworth).
Levado por Nelson, Ali foi conhecer Carmen em seu camarim no Waldorf.

Nelson nunca

comentou o que ele teria achado dela. Mas divertia-se contando o que ela

achou dele:


"Se aquilo é príncipe, meu eu é um pêssego da Califórnia!", disse Carmen.
Outra que prestigiou aquela temporada de Carmen no Waldorf foi Alzira

Vargas, a filha do

ditador brasileiro. Não se sabe se discutiram a malfadada noite de 19 de

julho de 1940, promovida

por dona Darcy na Urca - ou se, pelo menos, comentaram as implicações

políticas. Talvez não

houvesse mais motivo para isso, porque, um ano depois, o governo Vargas

já se entregara de

peito e portos abertos aos Estados Unidos, em troca de uma siderúrgica em

Volta Redonda e

muitas outras vantagens. Alzirinha contou a Carmen que Uma noite no Rio

acabara de estrear nos

cinemas do Rio sob críticas favoráveis, inclusive a do respeitado Mário

Nunes, no Jornal do

Brasil. Carmen não pareceu se impressionar - sua decepção com o filme

fora pessoal.


"Talvez, um dia, Hollywood faça um filme de verdade sobre o Brasil",
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ela disse. "Quem sabe se depois que eu já tiver feito uns três ou quatro

filmes por aqui, e puder dizer o

que eu quiser... O Brasil tem coisas lindas, que tenho certeza que os

americanos iriam gostar de

conhecer."
Uma delas estava para ser mostrada por aqueles dias, e em Nova York

mesmo.
"Noforget! Tomorrow... Aurora!"


Era esse o anúncio do Copacabana, o mais novo nightclub de Manhattan, que

seria inaugurado no

dia seguinte, 12 de outubro de 1941, no número 10 da Rua 60 Leste. Aurora

seria sua primeira

grande atração. Não "Aurora Miranda" - nada de Miranda N. 2 -, mas apenas

Aurora, embora a

identidade da cantora fosse segredo de polichinelo (todos sabiam que se

tratava da irmã de

Carmen). O erro na primeira frase do anúncio - "Noforget", em vez de

"Don"t forget" - também

fora de propósito e destinava-se a identificar uma cantora "latina"... Na

verdade, poderia também

se referir ao declarado proprietário do Copacabana, o empresário Monte

Proser - ele próprio,

um homem de ternos caros, mas rústico, "espontâneo", com pouca intimidade

com a gramática.


Os luminosos na fachada diziam MONTE PROSER"S COPABACANA e, em todos os

documentos, Proser aparecia como principal acionista e presidente da Chip

Corporation, que

controlava a boate. Mas esse era outro segredo de polichinelo. Por trás

dele estava o discreto

Frank Costello e, por trás deste, o mais discreto ainda "Lucky" Luciano.

Os dois dominavam o

contrabando de pedras preciosas em grande parte dos Estados Unidos e

integravam toda uma

cadeia de capi mafiost, para quem operações como o Copacabana eram quase

nada em termos de

faturamento, mas convenientes, por oferecerem uma fachada legal. Quanto a

trabalhar para eles,

não havia nada de incomum nisso: quase toda a atividade noturna nos

Estados Unidos estava

sujeita a uma família italiana, irlandesa ou judaica. Raríssimos os

músicos ou cantores que,

diretamente ou através de seus agentes, não tivessem de lidar com o crime

organizado.
Proser era fã de Carmen e fora inspirado nela que criara o Copacabana. O

visual tropicalista da

boate era a prova disso. Na sala em que se sentavam quatrocentas pessoas,

a decoração de

palmeiras sugeria o Rio. Havia duas orquestras "latinas" que se revezavam

e as coristas usavam

turbantes. O nome Copacabana fora tirado não apenas da praia carioca, mas

do hotel


Copacabana Palace, cujo "proprietário", Jorginho Guinle, era também amigo

de Proser e de seu

lugar-tenente, Jack Entratter. O natural seria que Carmen inaugurasse o

Copacabana, mas, pelo

visto, não houve acordo com Shubert. Portanto, se não tinham Carmen,

iriam de Aurora (com o

Bando da Lua), o que não deixava também de ser interessante -

especialmente porque Carmen

reservara toda a primeira fila, numa noite de estréia cheia de gente de

sociedade. E, com isso,


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Aurora estava começando na América pelos nightclubs - três shows por

noite, às oito, à meia-

noite e às duas da manhã -, como Carmen queria que acontecesse.
O difícil era concorrer com a própria Carmen, que, com o sucesso dos

filmes e com seu novo

domínio da língua, arrastava casas lotadas todas as noites ao Waldorf.

Nessa temporada, numa

noite em que o show dera lugar a um jantar beneficente com a participação

de Bob Hope, Eddie

Cantor e Joe E. ("Boca-larga") Brown, Carmen roubou o espetáculo e só

faltou levar o cenário

com ela, para espanto daqueles profissionais. Estava se transformando

numa artista como eles,

sabedora de todos os truques e de mais alguns que eram só dela. Em

outubro, Carmen foi ao

programa de rádio de Fred Allen na rede ABC - um programa de muito texto,

com perguntas e

respostas estalando como chicotadas e sendo Allen um dos maiores wits

americanos. (Era o autor

da frase: "Um cavalheiro é um homem que jamais bate numa mulher sem antes

tirar o chapéu".)

Pois Carmen se saíra também às maravilhas, na opinião de um colunista que

podia ser seu fã, mas

que não costumava perdoar maus desempenhos ao microfone: Walter Winchell.
Tanto nos shows como no rádio, Carmen tentava explicar o que eram o samba

e a música popular

brasileira; que sua roupa era uma fantasia e que as mulheres brasileiras

não se vestiam como ela;

que não falávamos espanhol e não gostávamos de ser confundidos com os

outros sul-americanos.

Mas o que desarmava todo mundo e enternecia quem a escutasse eram sua

candura e o seu jeito

de autodepreciar-se. Quando um repórter lhe pediu que contasse como

conseguia cantar em alta

velocidade, aparentemente sem engolir as sílabas, e se isso se devia a um

treino especial de voz,

Carmen respondeu:
"Não, eu não tenho voz nenhuma. O que eu tenho é bossa."
Na segunda quinzena de novembro, Carmen deixou o Waldorf porque, assim

como acontecera

com Streets of Paris, Sons o"fun teria uma semana de tryouts em Boston

antes de chegar à

Broadway. Naquela primeira vez em Boston, apenas dois anos antes, o nome

de Carmen nem

constava da fachada do teatro. Agora, podia-se ler CARMEN MIRANDA

piscando em luzes

coloridas, letras maiúsculas e acima do título nos dois lados da Tremont

Street: primeiríssima e

absoluta na marquise do Shubert Theatre, com Sons o"fim, e, na do cinema

defronte que exibia

Aconteceu em Havana, abaixo apenas do nome de Alice Faye, mas acima do de

John Payne e

César Romero. E, como a garota deslumbrada que, no fundo, ainda era,

Carmen deixou-se

fotografar entre os dois luminosos e mandou as fotos para dona Maria no

Rio.
No dia 1 de dezembro de 1941, Sons o"fun estreou para 2 mil pessoas no

Winter Garden Theatre,

na Broadway, entre as Ruas 50 e 51. E, para variar, enfrentando uma

concorrência braba: num

espaço de poucos quarteirões da vizinhança,


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podia-se escolher entre as comédias Arsemc and olá lace, de

Joseph Kesselring, com

Boris Karloff, e Blithe spirit, de Noèl Coward, com Clifton Webb; os

musicais Banp eyes, de

Vernon Duke e Jean Latouche, com Eddie Cantor, e Lefsface U, de Cole

Porter, com Danny

Kaye; e um revival da ópera negra Porgy and Bess, de George e Ira

Gershwin e DuBose

Hayward, com Todd Duncan, o Porgy original de 1934. Um ingresso na

platéia para qualquer

uma dessas atrações saía a menos de cinco dólares.
Para Carmen, Sons o"fun não foi uma explosão como a de Streets of Paris,

embora ela fechasse o

primeiro ato dançando um samba com Vadeco. E nem poderia ser. Primeiro,

porque ela já era

conhecida. Depois, porque essa era uma revista tipicamente Olsen &

Johnson, e os que

sobreviveram a qualquer produção da dupla sabiam o que isso significava.

Eles foram os

precursores do que, décadas depois, se chamaria de "teatro de agressão" -

só que em nome do

humor - e do besteirol. Nos seus espetáculos, os números não tinham

nenhuma coerência, exceto

a loucura, e a ação não se limitava ao palco. De repente, atores e

figurantes saíam correndo uns

atrás dos outros, metiam-se pela platéia, e os espectadores levavam

arroz, tomate e ovos pela

cara. Refeitas do susto, as pessoas voltavam a se sentar e encontravam

aranhas e lagartixas sobre

os assentos (custavam a perceber que eram de borracha). Ou, então, o

teatro ficava às escuras e as

senhoras eram cutucadas por homens fantasiados de orangotango. Enquanto

essa balbúrdia se

dava na platéia, no palco se passava uma farsa tão hilariante quanto

irresponsável, algo entre

Kafka e os Três Patetas, com toques de dadaísmo e circo, e um elenco de

mais de cem atores

cantando, dançando ou plantando bananeiras. (Jerry Lewis testara para um

papel em Sons o"fun e

fora recusado. Talvez por sua idade na época: quinze anos. Mas a idade

mental do espetáculo, e

da platéia, não ia muito além disso.)
O maior sucesso de Olsen & Johnson, como produtores e atores, fora

Hellzapoppin" (leia-se Hell

is popping, ou "o inferno está fervendo"), que ficara de

1938 a 1940 no mesmo Winter Garden e estava sendo levado para o cinema

pela Universal (no

Brasil, o filme se chamaria Pandemônio). Apesar da grossura, a dupla

caprichava na parte musical

de seus espetáculos, e os compositores em Sons o"fun eram os consagrados

Sammy Fain e Jack

Yellen. Fain era um autor de melodias delicadas, como "IT1 be seeing

you", "You brought a new

kind of love to me" e "By a waterfall". O veterano Jack Yellen escrevia

letras picantes para

Sophie Tucker, mas era mais famoso pela ingênua "Ain"t she sweet". As

três músicas da dupla para

Carmen em Sons o"fun não fizeram nada por ela: "Thank you, North

America", "Tête à tête" e

"Manuelo". E o outro destaque do elenco, a cantora escocesa Ella Logan,

logo abaixo de Carmen

na marquise, teria de esperar seis anos para se consagrar no musical

Finian"s rainbow.
Numa das primeiras noites de Sons o"fun, Victorino de Carvalho (Marcos

André), amigo de

Carmen no consulado de Nova York, levou aos camarins um diplomata

brasileiro de passagem

que queria conhecê-la. Carmen estava cercada

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de dez coristas, todas empenachadas e seminuas. O diplomata se

inclinou e beijou a mão de

cada uma, como se estivesse numa recepção de gala entre os cisnes do

Itamaraty, no Rio, e não

nas duvidosas premissas de Olsen & Johnson. Uma das garotas não se

conteve e exclamou:
"Wow! What a kisser!"
Mas Carmen, sentindo uma soupçon de homossexualismo nos modos do

diplomata, esculachou

logo com a solenidade da cena:
"Hei, kisser! Você é mesmo da beijoca, hein?"
Na manhã de 7 de dezembro, com Sons o"fim em cartaz havia apenas seis

dias, o Japão atacou a

base americana em Pearl Harbor, no Havaí. Ecoando os sentimentos de seus

patrícios ingleses,

que vinham sustentando a batalha sozinhos por dois anos, Noêl Coward

comentou:


"Bem feito. Talvez agora [os americanos] se convençam de que esta guerra

é também deles."


Até então, o conceito popular nos Estados Unidos era que os americanos

não tinham nada com as

eternas querelas européias e deviam ajudar a Inglaterra em tudo, menos

mandando seus rapa/es

para a luta. Pearl Harbor retificou esse equívoco.
Os Estados Unidos declararam guerra ao Japão; a Alemanha e a Itália

declararam guerra aos

Estados Unidos; e a Broadway, com a queda de seus negócios entre 25% e

40%, também

declarou sua guerra particular ao Eixo. Uma das primeiras medidas (e das

mais generosas) foi a

criação, em março de 1942, da Stage Door Canteen, um centro de

convivência entre civis e

militares em Nova York. Era um misto de restaurante e nightclub para toda

espécie de soldados

em uniforme - de todos os postos e armas, homens ou mulheres e, pode

crer, brancos ou negros

- com comida, bebida e diversão grátis fornecidas pelos artistas em

cartaz na cidade. Tanto

assim que, numa noite, podia-se ir à cantina e ouvir Gertrude Lawrence

cantar os sucessos de seu

musical Lady in the dark, como "This is new", "The saga of Jenny" ou "My

ship", depois dançar

com aquela nova lourinha da Broadway, June Allyson, ou ter um rabo-de-

galo servido pelas mãos

de Francês Farmer. Quem se metesse pela cozinha arriscavase a flagrar

Tallulah Bankhead

lavando pratos ou Katharine Hepburn fritando bolinhos - em tese, pelo

menos. A Stage Door

Canteen de Nova York foi a primeira instituição do gênero nos Estados

Unidos e inspirou

dezenas de outras durante a guerra. Ficava no porão do 44th Street

Theatre, gentilmente cedido

por seu proprietário - adivinhe quem: Lee Shubert.
Não há registros sobre Carmen ter atuado na Stage Door Canteen. Mas, como

está registrada sua

participação na Hollywood Canteen, que seria criada dali a meses, e como

se supõe que Shubert

tenha estimulado seus contratados a apoiar a cantina de Nova York, não

pode haver dúvida

quanto à passagem
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de Carmen por ela - e por todas as bases e agrupamentos a que a

convidariam a partir dali.


A mobilização para a guerra estava agora em toda parte. Poucos dias

depois de Pearl Harbor,

Gilberto Souto ligou de Los Angeles para Carmen em Nova York. Queria

saber se o blecaute

comprometeria o funcionamento dos teatros em Manhattan e quando ela

estaria de volta a

Hollywood. No que Carmen começou a responder, a ligação foi interrompida

por uma telefonista

do Departamento de Defesa, encarregada de "acompanhar" as conversas em

línguas não

facilmente identificáveis. A telefonista queria saber se Gilberto e

Carmen estavam falando em

japonês.
Mas, de algum jeito, a vida prosseguia. Em janeiro de 1942, Shubert

vendeu Carmen (e o Bando

da Lua) para cinco shows diários de vinte minutos no Roxy Theatre nos

intervalos de um filme,

durante duas semanas. Isso, sim, era um massacre - porque a temporada era

simultânea à de Sons

o"fim. O primeiro show no Roxy começava às dez da manhã; o último, às

seis da tarde, terminando

pouco antes da sua entrada em cena em Sons o"fim às oito; e, como sempre,

todo o intervalo entre

um show e outro tinha de ser dedicado à maratona de banho, maquiagem e

novas roupas, mal

sobrando alguns minutos para relaxar. Não é improvável que a rotina da

Benzedrine - que

Carmen parecia ter deixado de lado em Hollywood - tenha sido retomada

nesse período. Mas

havia outra coisa, além dos medicamentos, a estimular Carmen para esse

trabalho, e a fazer com

que ela não o visse como uma exploração. Era o Roxy em si - a sua magia.
O Roxy, construído em 1927 pelo empresário S. L. "Roxy" Rothapfel na

esquina da Rua 50 com a

Sétima Avenida, era uma mistura de cinema e templo gótico, pagão ou

religioso, com Gloria

Swanson como sua grã-sacerdotisa - porque era ali que, no passado, ela

lançava os seus filmes.

Em matéria de números, era espetacular: tinha 5920 lugares, seis

bilheterias, 120 recepcionistas de

black-tie, um foyer com a cúpula à altura de um quinto andar, três

consoles para grandes órgãos,

um jogo com 21 sinos de catedral, um corpo de cinqüenta bailarinos, um

coro de cem vozes e uma

sinfônica com quatro maestros e 110 músicos. O mote de Rothapfel era:

"Não dê ao público o que

ele quer. Dêlhe coisa melhor".
Com Carmen e o Bando da Lua no palco, todos aqueles músicos, cantores e

bailarinos podiam

passar a semana em casa. Mas, apesar do gigantismo do cinema, os camarins

do Roxy eram

pequenos - pelo menos para Carmen, com suas cinco trocas diárias de

roupa, o que a obrigava a

transportar malas enormes. (Alguns de seus turbantes eram tão pesados que

ela não podia se

curvar para agradecer os aplausos - tinha de fazer isso com os olhos e as

mãos.) Aurora, que só

trabalhava à noite no Copacabana, ia às vezes com Carmen para o Roxy, mas


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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