Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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pelo missal, sem

entender palavra, era sua única comunicação com o mundo.
A primeira entrada de Carmen no Café de Paris, o restaurante e lanchonete

da Fox, produziu um

zunzunzum. Entre atores, figurantes e técnicos, vários a reconheceram e

foram falar com ela.

Carmen queria conversar com eles, mas, quando não entendia a pergunta,

limitava-se a dizer "Yes,

yes, yes" - como fazia no começo em Nova York quando os homens de

Shubert, por distração, a

deixavam a sós com um jornalista. Ao ver Carmen vestida com a baiana,

inúmeras mulheres do

estúdio, da costureirinha mais anônima à mulher do produtor executivo,

queriam ser fotografadas

a seu lado e depois pediam que ela autografasse a foto (o que Carmen

fazia em português). Outras

levavam caricaturas

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que saíam na imprensa de Los Angeles e também pediam que Carmen

as assinasse.

Carmen não gostava muito de caricaturas, porque elas realçavam o que

considerava seu ponto

fraco: o nariz. Mas, no Brasil, já fora desenhada por todos os

caricaturistas - J. Carlos, J. Luiz,

Alvarus, Augusto Rodrigues, Mendez, Gilberto Trompowski, Alceu Penna -,

ficara amiga deles e

vários tinham até lhe criado baianas.


Assim como se surpreendiam com o fato de Carmen não fumar nem beber -

onde já se vira isso?

-, suas colegas se espantavam mais ainda com sua capacidade de comer

quantidades absurdas,

sem o menor medo de engordar. Num almoço comum no estúdio, Carmen podia

se servir de uma

salada de camarão, um descomunal bife, cinco acompanhamentos diferentes e

duas sobremesas.

Mandava tudo para dentro com três ou quatro Coca-Colas e, ao fim, ainda

comentava que devia

ter comido mais. As jovens estreletes da Fox, como Arme Baxter, Linda

Darnell e Gene Tierney,

que viviam de dieta, suspiravam de inveja. A imprensa hollywoodiana

dedicou várias colunas ao

suposto apetite de lobo de Carmen, só faltando insinuar que ela viera

esfomeada do Brasil. A

verdade, no entanto, não podia ser mais diferente - e havia uma intenção

por trás daquilo.


Carmen estava insegura ao chegar à Fox. Seu sucesso na Broadway e nos

nightclubs de Nova

York já tinha ficado para trás. O importante era Hollywood, e Hollywood

era diferente - para

todo lado que se virasse, havia um herói de suas antigas matinês. Um

fracasso no cinema a faria

voltar aos tempos em que sonhava com um papel nos filmes da Cinédia ou de

Paulo Benedetti.

Ela precisava ser "aceita". A melhor maneira de ser "aceita" era ser

engraçada. E o exagero é

sempre engraçado. Ninguém sabia que, depois da infantilidade de esvaziar

sete pratos no

restaurante da Fox, Carmen passava o resto do dia a água e cream-cracker.

Somente quando se

certificou de que não havia nada a temer é que Carmen parou com as

maratonas à mesa e voltou a

comer o que era de seu normal: muito pouco - porque, como muita gente de

sua idade, tinha

tendência a engordar.
A pedido de Carmen, a Fox montou uma quitinete em seu camarim e dona

Maria ia para lá com

freqüência, a fim de cozinhar ou fazer café. Com isso, Carmen (ela

própria, não muito fã do

produto) instituiu o cafezinho no estúdio, convidando os colegas a ir

tomá-lo com ela nos

intervalos de filmagem (e rebater com um folhado doce ou um biscoitinho

amanteigado). Os

colegas ficaram fregueses.
Carmen chegara a Hollywood em fins de outubro de 1940. Dali a cerca de

três meses, em

fevereiro de 1941, completaria 32 anos. Com essa idade, antigas beldades

como Norma Shearer,

Myrna Loy e Mary Astor já estavam começando a interpretar papéis de mãe.

A Fox aceitara a

idade falsa que Shubert lhe passara (27 anos), mas só para efeitos

publicitários - em todos os

documentos internos do estúdio, lá estava sua verdadeira data de

nascimento: 1909.


275
Além disso, numa cidade em que não bastava ser bonita - havia milhares de

mulheres


indescritíveis desempregadas -, Carmen não poderia competir em beleza.

Seu estilo seria mais o

de uma Marlene Dietrich, Joan Crawford ou Barbara Stanwyck, que ninguém

sabia dizer se eram

bonitas ou interessantes.
Ao ver os testes de Carmen para Serenata tropical, um ano antes, Zanuck

percebera o que tinha

em mãos. Ali não estava uma beleza trágica, de orquídea, como a de

Dolores Del Rio; nem a de

uma planta carnívora, devoradora de homens, como a de Lupe Velez.
Carmen era dotada de um talento maior e mais raro. Era uma comediante,

uma grande clown,

coisa raríssima entre mulheres atraentes. Capaz de vestir uma fantasia

absurda, à base de bananas

e abacaxis, e fazer rir - e, ao mesmo tempo, fazer com que os homens

quisessem descascá-la e

comê-la.

Capítulo 16

1940
Deusa do cinema

Carmen estava dizendo, entusiasmada, a um jornalista brasileiro: "É

sweetheart pra cá e honey

pra lá e uma porção de darlings o dia todo!" Referia-se ao ambiente de

trabalho no estúdio. A Fox

podia não ser rica em sedas e cristais como a MGM ou a Warner, mas o

clima entre seus 3500

empregados era tido como muito mais saudável. No primeiro dia de filmagem

de Uma noite no

Rio, Carmen fora recebida com flores pelo diretor Irving Cummings. (Isso

não era incomum. O

difícil era que, na semana seguinte, o diretor já não cogitasse esganar a

estrela. Mas Cummings

continuou a adorar Carmen.) E não havia estrelismos ou rivalidades

flagrantes no elenco. Quando

Betty Grable se revelou com Serenata tropical, Alice Faye era a

imperatriz do estúdio e estava

evidente que, cedo ou tarde, Betty tomaria o seu lugar. Mas Alice dera-se

muito bem com Betty, e

as duas estavam se dando ainda melhor com Carmen. O mesmo quanto aos

rapazes: Don Ameche

era amigo de Tyrone Power, embora não tanto quanto César Romero, e todos

foram generosos ao

receber John Payne, o novo contratado que chegava para concorrer ao pódio

dos galãs.
Carmen se identificou com esse espírito solidário. Em Uma noite no Rio,

havia um pequeno papel

com fala para uma das coristas. Só que essa corista ainda não fora

definida. Era uma cena em que

Don Ameche, no papel do barão, encontrava Inez, garota muito bonita, e

não resistia a lhe jogar

uma conversa. Carmen insistiu com Cummings para que testasse a morena

dominicana Maria

África Antonia Gracia Vidal de Santo Silas, de 21 anos, que saíra do coro

para se dizer sua fã e

pedir que Carmen falasse dela para o diretor. Cummings topou testá-la e a

menina ganhou a cena.

Mas a Fox não se preocupou em segurá-la com um contrato. Assim que o

filme foi lançado, a

Universal a viu e levou embora e, em menos de um ano, transformou-a na

rainha das Arábias,

numa série de filmes memoráveis com Sabu, Jon Hall e Turhan Bey - Maria

Montez. Na Fox, o

trânsito era intenso de um galpão para outro porque os atores

aproveitavam as pausas de

filmagem para visitar os filmes dos amigos. Alguns iam ao estúdio até nos

dias de folga - como

Tyrone Power, que, ao saber que iriam rodar a seqüência do cassino em Uma

noite no Rio, foi ao

guarda-roupa da produção, vestiu-se em segredo, e se imiscuiu como um

simples extra na platéia

de Carmen em "Chica chica boom chie". Power fizera isso por Carmen,
277
a quem augurara sucesso em Hollywood quando a conhecera na Urca, no ano

anterior, e Cummings

só descobriu a brincadeira depois de filmada a seqüência. O diretor John

Ford, filmando Caminho

áspero (Tobacco road) no galpão ao lado, foi visitado por seu astro

favorito, Henry Fonda, e os

dois também deram um pulo ao set de Uma noite no Rio; Gilberto Souto os

apresentou a Carmen.

Fonda estivera havia pouco no Rio, de onde trouxera discos dela. E o

inglês George Sanders, já

célebre por interpretar o galante aventureiro Simon Templar - O Santo -

numa série policial da

Fox, foi outro que a procurou, mas com intenções profanas. Em jovem,

Sanders morara quatro

anos na Argentina, donde falava fluente espanhol e entendia português.

Por isso, ao convidar

Carmen para jantar no Mocambo e ouvi-la dizer que aceitava, e que dona

Maria, sua mãe, "iria

adorar", George nem precisou de intérprete. Com uma classe digna do

Santo, apenas pigarreou e

desculpou-se ao se lembrar de que já tinha outro compromisso -

provavelmente com uma órfã.


Carmen tinha de praticar manobras como essa. Afinal, sua relação com

Aloysio de Oliveira

continuava vigente. Talvez não com a volúpia de Nova York - nem isso era

possível em

Hollywood. Em Nova York, eles moravam praticamente juntos e ninguém

tomava conhecimento.

Mas, para o bem da indústria na provinciana Hollywood, não se aceitava

que uma estrela

coabitasse com um homem sem estar casada com ele, nem havia como fazer

isso às escondidas. A

solução era o casamento - e Carmen se casaria com Aloysio, se ele

quisesse e à hora que ele

quisesse. Mas Aloysio, já com um status confuso junto a ela - era seu

músico, conselheiro,

intérprete, faz-tudo e namorado -, não parecia louco para incorporar

também a função de

marido.
A idéia de trazer dona Maria para morar com Carmen era conveniente em

termos de conforto, mas

tinha a ver também com o lado moral. (Carmen não era a primeira da

família Bombshell a fazer

isso - a inesquecível Jean Harlow, The Blonde Bombshell, quase sempre

morara com a mãe em

Hollywood.) Ninguém pecava por ser "família" na cidade do cinema. E, em

fevereiro de 1941, a

família de Carmen aumentaria ainda mais: Aurora e Gabriel viriam passar,

em princípio, dois

meses com ela em Los Angeles ou Nova York, onde quer que estivesse. Era o

presente de

casamento que prometera à irmã: uma lua-demel com o glamour de Hollywood

ou da Broadway,

com direito a conhecer as grandes estrelas e constatar como, por baixo do

rímel e do esmalte, elas

eram pessoas tão simples e normais como qualquer um. Alice Faye, por

exemplo.
Num estúdio tão sem egos ou feudos como a Fox, a entrada diária de Alice

no palco de filmagem

dava uma idéia completamente falsa de sua personalidade. Nariz ao vento,

expressão

imperturbável e olhos que, no futuro, alguém classificaria carinhosamente

de "bovinos", ela

parecia caminhar sem tocar o chão, seguida por sua coorte de camareira,

maquiador e

cabeleireira. Era a antítese de Betty Grable, que cuidava do próprio

guarda-roupa, aplicava ela

mesma sua maquiagem e não ficava esperando pelo calista

278
se necessário, Betty sentava-se sobre um baú, cruzava as pernas e cortava

pessoalmente seus calos de

dançarina. Já Alice não dispensava o séquito. Não porque quisesse, mas

porque Zanuck insistia

em que ela mantivesse uma aura de rainha, condizente com os musicais

passados na Belle Époque

que a obrigava a fazer - e para camuflar a infância e a adolescência

absolutamente miseráveis

que ela tivera. (Comparada à de Alice, a juventude de Carmen na Lapa, que

transcorrera quase ao

mesmo tempo, fora muito melhor.)
Alice nascera num dos piores endereços de Nova York: os arredores da

Décima Avenida com a

Rua 54 Oeste. Em 1912, essa zona era mais conhecida como Hell"s Kitchen,

a "cozinha do inferno"

- uma área superlotada de americanos de primeira ou segunda geração,

descendentes de

alemães, italianos, judeus e irlandeses, que passavam o dia aos tapas,

mimoseando-se com

navalhadas ou se odiando em silêncio. Tráfico de drogas, assaltos à mão

armada e baixa

prostituição abundavam no pedaço. A família de Alice era irlandesa e seu

apartamento ficava num

prédio sem elevador, calefação nem água quente. Estava longe de ser o

ambiente ideal para criar

uma filha e mais dois garotos, mas o pai de Alice não tinha escolha: era

policial, ganhava mal, e

sua grande façanha diária era voltar vivo para casa - porque ninguém

gostava da polícia, nem

mesmo os irlandeses, que forneciam os seus maiores contingentes. A mãe de

Alice trabalhava

numa fábrica, a avó morava com eles, e eram seis para dormir onde mal

cabiam três.


O inevitável então aconteceu: Alice gostava de cantar, tinha boa voz,

dançava um pouco, era

bonita, loura, olhos azuis, belas pernas. Com esses predicados, a pobreza

a empurrou para

procurar trabalho na noite. As datas são imprecisas, mas, entre os

dezesseis e os dezenove anos,

ela se candidatou ao coro da famosa companhia de revistas George White"s

Scandals. Foi aceita

e trabalhou lá até ser descoberta por Rudy Vallée, ele mesmo. Rudy a

ouviu cantar, gostou do seu

tom grave, estilo Libby Holman, e contratou-a para sua orquestra e para

seu programa de rádio,

The Fleischmann Hour. Em 1934, Rudy e seu pessoal foram para Hollywood a

convite da Fox,

que ainda não pertencia a Zanuck. A Fox percebeu que Alice era a melhor

coisa do pacote e a

contratou, na esperança de que, se ela pudesse recitar minimamente um

diálogo, talvez tivessem

uma estrela em embrião.
Nessa época, Alice usava cabelo platinado, sobrancelhas a lápis e várias

camadas de batom nos

lábios, como Jean Harlow. Mas faltava-lhe a chama de Jean Harlow e, com

esse look de gesso,

ela não iria a lugar nenhum. Zanuck assumiu o estúdio em 1935 e viu logo

o que era preciso fazer:

suavizar a imagem de Alice. Suas sobrancelhas voltaram a florir, o cabelo

retomou o louro suave,

e ela passou a economizar batom. Seus filmes também melhoraram e, num

átimo, a voz de

contralto e os olhos quase sempre marejados fizeram dela o maior nome da

Fox para musicais de

luxo, como Avenida dos milhões (On the Avenue,

1937), No velho Chicago (In old Chicago, 1938), A epopéia dojazz

(Alexander's ragtime
279
band, 1938) e O meu amado (Rose of Washington Square, 1939). Entre

um e outro filme, Alice

se casara com o jovem cantor Tony Martin. Mas os dois não tinham muito

tempo para brincar de

marido e mulher, e o casamento naufragou. A polêmica cirurgia, de

apêndice ou de hemorróidas,

impediu que Alice fizesse Serenata tropical, mas, assim que ela voltou ao

estúdio, Zanuck a

escalou com Betty Grable em A vida é uma canção e, em seguida, com Carmen

em Uma noite no

Rio - o primeiro dos quatro filmes em que apareceriam juntas.
Alice deixou-se encantar pela personalidade efervescente de Carmen, mesmo

sabendo que esta se

tornara o centro das atenções e que, num filme em Technicolor, os

turbantes e as baianas da

brasileira lhe roubariam a cena. Na verdade, Alice não perdia o sono nem

com Betty Grable. E aí

é que residia a chave de sua personalidade: não dava nenhuma importância

a sua posição de

mandachuva na Fox. Alice lamentava apenas o fracasso de seu primeiro

casamento. Não porque

fosse terrivelmente apaixonada por Tony Martin, mas porque seu projeto de

vida (acredite ou

não) era tornar-se uma dona de casa, mãe de filhos, e ser sustentada pelo

marido. Se pudesse

escolher, trocaria tudo que tinha na Fox - a adulação, o séquito, o

camarim com a estrela

prateada na porta - pelo avental sujo de ovo e pela rotina de ferver

fraldas e preparar

mamadeiras.
Zanuck fazia bem em obrigar Alice a simular um porte de rainha. Se

soubessem que ela era

exatamente o contrário disso, o que diriam aquelas pessoas que saíam de

madrugada de seus

subúrbios, viajavam horas até Hollywood, e amanheciam, famintas e com

frio, no portão principal

do estúdio - apenas para esperar a chegada da estrela e quase se atirar

sob as rodas dos carros

para conseguir um autógrafo?
O produtor William LeBaron estava impressionado:
"Ela é incrível. Trabalha o dia inteiro, vestida com aquelas roupas

pesadas, coberta de jóias, e

não se cansa. Quando eu digo, "Senhorita. Miranda, não quer dar uma

paradinha?", ela dá um salto

da cadeira: "Não, não, vamos lá!""
Não era exagero de LeBaron. Mais especificamente: certas saias de Carmen

pesavam doze

quilos; turbantes, cinco quilos; e alguns brincos, como o do cacho de

uvas, eram de madeira e

também pesavam. Mas Carmen era a antiestrela, a antidiva. Parecia mais

uma figurante ansiosa ou

uma operária do estúdio. Com sua vontade quase infantil de agradar,

aprendera até a ser pontual:

era a primeira a chegar ao estúdio, à maquiagem e ao palco de filmagem.

Estava sempre pronta

para o que fosse solicitada, não fazia biquinho, não reclamava de nada -

nem mesmo das

quatorze horas de trabalho por dia antes do início das filmagens,

exigidas pelos ensaios de todo

tipo, provas de roupas, incontáveis testes de maquiagem em função do

Technicolor, e gravação

dos números musicais para o playback. (Gravara "I, yi, yi, yi, yi (I like

you very much)" apenas

quatro dias depois de chegar a Los Angeles.) Mas, para Irving Cummings,

280
a principal virtude de Carmen, assim que as câmeras começaram a

rodar, era a de não

precisar repetir cenas - fazia tudo certo e de primeira. Cummings chamou-

a de "One-take girl".
Para que isso acontecesse, Carmen passara todo o tempo livre, em Chicago

e Los Angeles,

ensaiando as falas com Yaconelli. Ele "traduzira" foneticamente os

diálogos num caderno e a

obrigava a repeti-los dia e noite - como este, em que a personagem de

Carmen, furibunda, diz as

últimas a Don Ameche:
"lú ar a lou-dáun nôu-gud mm!"
Yaconelli lhe explicava o significado:
"Você é um cretino de um canastrão de quinta categoria!"
Mas, quando os dois iam ensaiar as inflexões, Carmen não achava que

estivesse fazendo direito.

Então, deu sua própria versão à tradução de Yaconelli:
"Você é um escroto de um filha-da-puta de merda!"
E, tendo essa versão em mente, recitou direitinho a versão fonética de

Yaconelli.


Pelo mesmo processo, Yaconelli ensinava-lhe também as falas de Don

Ameche, para que ela

entendesse o diálogo. Com sua memória de cantora, capaz de guardar

centenas de letras de

música, Carmen decorava tudo e acabou aprendendo os diálogos até de cenas

de que não

participava. Ameche, que a conhecera em Nova York e era um doce de

pessoa, ajudava-a com as

marcações de câmera e também com a pronúncia deliberadamente errada da

personagem. Foi ele

quem notou algo estranho nessa pronúncia.
No filme, Carmen interpretava uma cantora brasileira chamada Carmen.

Donde nada de mais que

falasse inglês com sotaque brasileiro. Mas, pelo que Ameche (na

realidade, Dominic Felix Amici,

americano de origem italiana) conseguia perceber, Carmen estava falando

inglês com um

sotaque... italiano. E logo descobriram por quê. O paulistano Yaconelli,

também filho de italianos,

não conhecia nenhuma cidade brasileira além de São Paulo. A única vez que

ouvira o português

falado em outras regiões do Brasil fora nas breves escalas do navio que o

levara para Nova York,

dezoito anos antes. Daí seu português (e inglês) carregado com o forte

sotaque italiano do Brás.

Quando isso foi detectado, Ameche orientou Carmen, e acertou seu sotaque

para algo mais...

hispânico. E o estúdio mandou um bilhete azul a Yaconelli, agradecendo

pelos seus serviços.

(Mas Carmen o manteve na sua folha de pagamento particular - o que não

fazia diferença, já que

era ela quem o pagava do mesmo jeito.)
A Fox não queria correr riscos. Depois do problema com os argentinos em

Serenata tropical, o

estúdio estava pulando miudinho para não repetir as mesmas grosserias com

os brasileiros em

Uma noite no Rio. Para isso, Zanuck (que descera da sua posição de chefe

do estúdio para cuidar

- com LeBaron, sem crédito - da produção do filme) mandou o argumento de

Uma noite no Rio

para a embaixada do Brasil em Washington, onde ele foi lido (e aprovado)

pelo secretário Arno

Konder.
281
E por que não seria? A história em si não tinha nada de mais. Um ator

americano residente no

Brasil, Larry Martin, é especialista em interpretar o playboy e

aristocrata brasileiro, barão

Manuel Duarte, em seu show num cassino do Rio. O ator é convidado a

representar o barão numa

festa na casa deste, para que os adversários comerciais do nobre não

desconfiem de que ele

viajou para resolver problemas de negócios. Larry aceita, mas se apaixona

pela mulher do barão

e lhe dispensa tantas atenções que ela, sem saber do plano e habituada a

ser esnobada pelo

marido, começa a estranhar. O barão volta de viagem e, quando a situação

se resolve, descobre

que o ator salvou tanto os seus negócios como o seu casamento. Don

Ameche, em papel duplo,

fazia Larry e o barão Duarte. Alice Faye era a mulher do aristocrata, e

Carmen, a partner e

namorada ciumenta do ator. Por aí já se podia ver a estereotipia: Alice

era a americana fina e

superior; Carmen, a "latina" destemperada, chegada a destruir camarins e

a atirar tamancos na

cabeça do namorado - na verdade, a idéia que Hollywood fazia de quase

todas as estrangeiras.


Gilberto Souto e Dante Orgolini foram contratados para assessorar a

produção de Uma noite no

Rio e prevenir eventuais mancadas que deixassem mal o Brasil. Mas não

puderam impedir que a

canção mais bonita do score de Harry Warren e Mack Gordon, "They met in

Rio" (cantada por

Don Ameche em português, com letra - sem crédito - de Yaconelli),

ganhasse um arranjo e uma

orquestração de tango. Ou que, no show do cassino, em que Carmen canta

"Chica chica boom

chie" (também com letra em português de Yaconelli e igualmente sem

crédito), o ciclorama

representando uma cena noturna do Rio mostrasse o Corcovado como ele era

antes de 1931,

ainda sem a estátua iluminada do Cristo Redentor. Ou que, cinqüenta anos


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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