Carmen, Uma biografia Ruy Castro



Baixar 5.39 Mb.
Página32/71
Encontro02.07.2019
Tamanho5.39 Mb.
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   71

era uma autêntica big band de swing, temperada com, às vezes, uma

percussão cubana. Ou seja,

não seria por falta de traquejo internacional que a platéia dos cassinos

desaprovaria o repertório

de Carmen. Era só uma questão de momento.
Carmen nunca entendeu isso e ninguém lhe explicou o contexto em que se

dera a agressão. Por

esse motivo, convenceu-se de vez que a "elite" brasileira não gostava

dela. E que tudo que fizera

para deixar de ser a filha do barbeiro e da lavadeira, e ser aceita por

"eles", fora em vão.


No dia seguinte, o mais cedo possível, Carmen convocou uma reunião em sua

casa com o pessoal

da Urca. Ela ainda não se conformara. Aceitara trabalhar resfriada - numa

época pré-penicilina,

em que resfriados podiam evoluir para uma pneumonia -, sem ensaiar e de

graça, no que

imaginava ser uma festa para ela e seus amigos, e fora recebida com

hostilidade. Depois do show,

252
um estafeta fora levar-lhe no camarim uma placa em agradecimento à sua

participação no

espetáculo. Carmen fizera-se de desentendida e não a recebera. E, naquela

manhã, já recebera

telefonemas insultuosos de nacionalistas exaltados. Os fatos da véspera

tinham sido um alerta -

se Carmen fosse fazer uma série de shows no cassino em setembro ou

outubro, precisaria de um

repertório novo e adequado.
À reunião compareceram Joaquim Rolla, o bandleader Carlos Machado, o

compositor e diretor

musical do cassino Vicente Paiva e o teatrólogo, letrista e diretor

artístico Luiz Peixoto. Naquele

mesmo dia, os vespertinos publicaram uma nota oficial do cassino

explicando que Carmen

interrompera o show "por questões de saúde" - o que não deixava de ser

verdade.
"Vicente, sabes que não agradei", disse Carmen para Vicente Paiva. "Não

gostaram de nada que

cantei. Preciso de um pouco dos seus molhos."


Ali se decidiu que Vicente Paiva e Luiz Peixoto se internariam na casa de

um ou de outro e

produziriam material inédito para Carmen - três ou quatro sambas, pelo

menos. Isso não

impediria Carmen de buscar canções novas junto a seus antigos

compositores. Resolveu-se

também que o acompanhamento da orquestra de Machado era inadequado para

Carmen. O

Bando da Lua começaria uma temporada independente na Urca no dia 31 de

julho - por que não

acoplá-los a ela? Grande Othelo, que estava na Bahia, seria chamado para

cantar alguma coisa

em dueto com Carmen. E o palco também receberia um tratamento especial

com luzes. Muitas

idéias, todas boas - aquele seria um show planejado e posto de pé,

detalhe por detalhe.


Carmen pode ter passado alguns dias em Poços de Caldas, como planejara,

antes de começar a

voltar aos poucos ao trabalho. No dia 22 de agosto estreara na Mayrink

Veiga sob patrocínio dos

produtos Coty, acompanhada pelo regional de Luiz Americano, com auditório

lotado e polícia na

porta para conter a multidão. Se uma certa platéia na Urca lhe fora tão

hostil, onde estava a

aversão popular a ela? O único incidente foram os protestos de alguns

ouvintes contra o

fenomenal "Bruxinha de pano", um dos primeiros frutos da parceria de

Vicente Paiva com Luiz

Peixoto para ela - não pela letra, talvez, mas pelo jeito infernal de

Carmen cantá-la:


"Ó xente, tira a mão daí/ Ó xente".
Em Nova York, Shubert sentia seu bolso sangrar a cada dia que Carmen

ficava fora de sua

jurisdição. Os convites não paravam de chegar - todos a queriam, e pelo

preço que ele

decretasse. Naquele mesmo mês, retomou o cerco para a sua volta. Num

cabograma datado de 6

de agosto, perguntou se Carmen poderia voltar no dia 12 de setembro,

porque já tinha dois shows

em perspectiva para ela e o Bando da Lua, um em Nova York, outro em

Chicago.
253


Carmen respondeu que estava doente (era ainda o resfriado...), sem trabalhar

(menos verdade) e sem sair

de casa, e que tinha um contrato com o Cassino da Urca e com a primeira-

dama para shows de

caridade - tudo era válido para tapear Shubert e não ter de pegar

correndo o navio. E

acrescentou que estava até feliz pelo resfriado, porque era "a única

maneira de descansar".


Shubert escreveu de volta no dia 14, desejando a Carmen "rápida

recuperação" e "sucesso em

seus compromissos no Rio". Mas informava que ela já estava contratada

para estrear no

restaurante Chez Paree, em Chicago, no dia 18 de outubro, e que deveria

estar naquela cidade na

véspera. Mandava abraços para ela, para Louis (Aloysio) e para o Bando -

mas, discreta e

ameaçadoramente, terminava o telegrama dizendo: "Gostaríamos de ter

apenas cinco rapazes em

vez de seis quando você voltar".
Shubert nunca soube quão perto esteve de não ter Bando nenhum na volta de

Carmen. Como já

acontecera antes, Hélio e Vadeco estavam insatisfeitos e querendo sair.

Todas as tentativas de

chamar o conjunto de The Moon Gang nos Estados Unidos tinham fracassado,

e eles não

gostavam de se ver reduzidos, mesmo que informalmente, a The Miranda"s

Boys. Aloysio e os

irmãos Ozorio achavam que tinham de continuar juntos, não importava o

nome ou a função do

conjunto. Mas, então, Garoto pediu demissão. O motivo alegado foi que, se

levasse sua mulher,

Dugenir, misto de pianista e dona de casa, passariam aperto na América

por ela ser negra.

Dugenir não poderia freqüentar os lugares em que Garoto estivesse tocando

e, sendo assim, eles

preferiam não ir. Mas a razão principal era outra: Garoto já sabia por

Shubert que, se a 20th

Century-Fox formalizasse a contratação de Carmen e do Bando para os

filmes, ele jamais teria um

crédito à parte do conjunto - como conseguira nas gravações da Decca. E o

próprio Bando se

desse por feliz se ganhasse crédito.
Sem Garoto, os dissidentes Vadeco e Hélio recuaram e decidiram ficar no

grupo. Mas o principal

motivo para isso foi o pouco-caso com que os rapazes do Bando se julgaram

recebidos pelos

colegas. Se achavam que, assim que pisassem na praça Mauá, seriam

asfixiados de convites para

se apresentar, enganaram-se. A Urca os chamara, é certo, mas, das

quatorze emissoras de rádio do

Rio, só a Rádio Nacional os convocara, e mesmo assim para uma temporada

de alguns dias. Fora

isso, silêncio - e não esquecer que havia um novo e sensacional conjunto

na praça: os Anjos do

Inferno, liderados por Leo Villar. (O Bando da Lua acabara de ouvi-los em

Icaraí, e pelo menos

Aloysio ficara impressionado.)
Vadeco e Hélio pensaram melhor e ajudaram Aloysio a contratar o

substituto para Garoto. O

primeiro que convidaram foi Laurindo de Almeida - que, embora fã de

Carmen, recusou por não

querer ser um "Miranda"s boy". O violonista paulista Rago ofereceu-se

para a vaga, mas foi

vetado por Aloysio, que já tinha acertado com o também paulista Nestor

Amaral, violão-tenor,

violino, bandolim e igualmente cantor. Nestor foi para o Rio e, quando o

Bando da Lua fosse

estrear com Carmen no Cassino da Urca, a nova formação já estaria

cristalizada.

254
Por um telegrama de 31 de agosto para Aloysio, Shubert mandou a grande

notícia:
AVISE MIRANDA ACERTEI COMPROMISSO NA 20TH CENTURY-FOX HOLLYWOOD POR UM

PERÍODO DE CINCO

SEMANAS MAIS TRÊS SEMANAS E MEIA DE OPÇÃO A DOIS MIL DÓLARES POR SEMANA

COMEÇANDO DIA 25 DE

NOVEMBRO. ELA PRECISA ESTAR EM HOLLYWOOD NO DIA 18 DE NOVEMBRO PARA

TESTES [DE ROUPA, DE COR

ETC.]. SALÁRIO COMEÇA A VALER NO DIA 25. PODE TAMBÉM TRABALHAR EM

NIGHTCLUBS ATÉ MEIA-NOITE

DURANTE COMPROMISSO. ESPERO FECHAR ACORDO EM SEPARADO PARA O BANDO. FAÇA

[CARMEN] ME

TELEGRAFAR IMEDIATAMENTE DIZENDO "AUTORIZO-O A ASSINAR POR MIM UM

CONTRATO PARA CINEMA NOS

TERMOS
DE SEU TELEGRAMA DE 31 DE AGOSTO E CONTENDO QUAISQUER OUTRAS PROVISÕES

QUE CONSIDERE

ACONSELHÁVEIS". ISTO SIGNIFICA QUE ELA NÃO RECEBERÁ MENOS DE 10 MIL

DÓLARES POR CINCO SEMANAS E 330

DÓLARES/DIA POR CADA


DIA A MAIS. SHUBERT.
O contrato de cinco semanas com a Fox para That night in Rio (que, no

Brasil, se chamaria Uma

noite no Rio) chegou com data de 2 de setembro. Shubert só se esqueceu de

acrescentar que

também ele estava levando 10 mil dólares pelas cinco semanas, e sem ter

de emitir um único ai, ai

nem revirar os olhinhos. Em compensação, por telegrama de 30 de setembro,

Shubert informou

que decidira contratar o Bando da Lua inteiro - nominalmente, os srs.

Aloysio, Vadeco, Hélio,

Affonso, Stenio e Nestor -, pela temporada teatral de 15 de outubro de

1940 a l- de junho de

1941, ao mínimo de cinqüenta dólares por semana para cada um mais as

passagens e com sua

situação junto ao Sindicato dos Músicos Americanos regularizada.
Bonzinho? Nem tanto. Shubert alugou o Bando para a Fox. Recuperou o seu e

ainda ficou com um

troco para seus charutos.
No dia 7 de setembro, enquanto o Estado Novo desfilava seus tanques e

canhões pela cidade,

Carmen chamou vários compositores à sua casa para que eles lhe mostrassem

o que tinham de

novo. Compareceram Braguinha, Alcyr Pires Vermelho, Nássara, Haroldo

Lobo, Mário Lago,

Oswaldo Santiago, os amáveis valentões Germano Augusto e Kid Pepe, e um

jovem chamado

David Nasser, silencioso e de orelhas em riste. Exceto Nasser, todos ali

eram íntimos de Carmen e

podiam se dirigir a ela com toda a liberdade:
"Como vão as coisas, nega?"
"E os dólares, Carmen? Lá é capim, não é?"
Os compositores cantaram suas músicas para Carmen, na esperança de que,

dali, elas criassem

asas para a América. Mas é óbvio que ela não iria aprovar ou desaprovar

nenhuma ali mesmo.

Ouviu todas com prazer e ficou de falar depois com cada um.
255
O que se sabe é que, como nunca mais gravaria um

samba ou marchinha

de nenhum deles, uma das músicas apresentadas na reunião e que Carmen

rejeitou foi o majestoso

samba-exaltação de Braguinha e Alcyr, "Onde o céu azul é mais azul".
Seria correto usar a palavra rejeitar? Não queria dizer que ela não

tivesse gostado deste ou

daquele samba ou marchinha. De um amigo que não compareceu à reunião,

Assis Valente, ela

acabara de recusar nada menos que o samba então conhecido como "Chegou a

hora" - "Chegou

a hora dessa gente bronzeada/ Mostrar seu valor" - e que a posteridade

consagraria como

"Brasil pandeiro".
Por que Carmen recusou "Brasil pandeiro"? Porque, de certa forma, era

também um samba-

exaltação, mas de exaltação à sua pessoa:
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada Está dizendo que o

molho da baiana melhorou seu prato Vai

entrar no cuscuz, acarajé e abará Na Casa Branca já dançou a batucada com

ioiô e iaiá


Todas essas frases eram referências diretas a ela. A modéstia de Carmen

não lhe permitiria ficar se

gabando de seus feitos, e muito menos em música. Mas, a provar que nada

se rompera entre eles,

na mesma sessão Carmen ficara com o samba-choro "Recenseamento", uma das

obras-primas de

Assis:
Em 1940, lá no morro começaram o recenseamento
E o agente recenseador esmiuçou a minha vida que foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
Encarou para a criança que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
E se era do batente ou se era da folia.
"A orquestra [de Carlos Machado] desaparece, desce uma cortina de

espelhos e outra orquestra,

agora com um ritmo de samba, com Vicente Paiva na regência, surge do

subsolo", escreveu O

Globo de 13 de setembro, narrando a estréia da véspera numa Urca

superlotada. E continuou:


O speaker anuncia Carmen Miranda e o Bando da Lua. A "baiana" aparece

debaixo do foco de

luz, que tira cintilações de sua fantasia estilizada. A cestinha sobre o

turbante, milagrosamente

equilibrada, tem frutos de ouro e diamantes. E os próprios olhos da

estrelíssima, à intensidade da

luz reproduzida centenas de vezes pelos espelhos, são de um verde

fulgurante. O sorriso branco é

iluminado de forma surpreendente. O show principia.

256
"Diz que tem" é um samba ritmadíssimo. "Os quindins de iaiá" tem

melodia bonita e a

linguagem ingênua das sertanejas. "Voltei pró morro", muita, muita

malandragem. Depois aparece

Grande Othelo e canta com Carmen "Bruxinha de pano". É o número mais

aplaudido. Quando é

chamada mais uma vez à cena, depois do sucesso absoluto, Miss Miranda

apresenta, com seus

companheiros de excursão, "O que é que a baiana tem?". O público insiste

pelo bis.
Alguns se perguntavam como, menos de dois meses depois da maior

humilhação de sua vida,

Carmen podia estar voltando ao mesmo palco onde aquilo acontecera. E se o

fiasco se repetisse?

Mas, dessa vez, Carmen sabia que não podia dar errado. Nada de black-tie,

de gente do governo

ou de bandeirinhas verde-amarelas. Em vez disso, lá estaria o seu

público, vestido como pudesse.

Como cenário, um painel mostrando uma série de Carmens em efeitos

luminosos. E ela própria

estava com o gogó tinindo. Quanto à reação da platéia, já tivera uma

prova na véspera, à tarde,

durante o último ensaio - assistido por dezenas. Ao entrar no palco na

noite de estréia, sabia-se

amada como sempre.
Mas não se esquecera da agressão, e seu novo repertório continha sambas

que comentavam o seu

status de sambista brasileira desafiado pelos bobocas: "Disseram que

voltei americanizada",


Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada.
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo "Eu te amo", e nunca "i love you"
Enquanto houver Brasil, na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu,
e "Voltei pro morro",
Voltando ao berço do samba que em outras terras cantei Pela luz que me

alumia, eu juro Que sem a nossa melodia

e a cadência dos pandeiros Muitas vezes eu chorei e chorei,
ambos de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Vários outros sambas daquela

fornada realçavam o

caráter ultrabrasileiro de Carmen. E o próprio Bando da Lua lançou uma

novidade que entraria

para a história: "O samba da minha terra", de Dorival Caymmi.
257
No dia 19 de setembro, Aurora se casou com Gabriel na igrejinha da Urca.

Usava um vestido em

que a parte de cima era uma jaqueta bordada em dourado, que Carmen lhe

trouxera de Nova

York. Os padrinhos foram Paulo Machado de Carvalho e Carmen. Mas o

verdadeiro presente de

Carmen para eles ficara para o futuro próximo: duas passagens de navio

para que fossem passar a

lua-de-mel com ela em Hollywood, quando já estivesse instalada.
Na certidão de casamento, Gabriel classificou-se como comerciante e

Aurora,


surpreendentemente, como doméstica - não como cantora. Por que tanta

modéstia? Porque,

então, para todos os efeitos, o casamento é que iria realizá-la, não a

carreira. E, sobre o

casamento, parecia ter idéias bem definidas.
Em certo momento, logo depois da cerimônia, Aurora chamou Carmen de lado

e ofereceu-lhe uma

confidência e um conselho:
"Você reparou que Gabriel gosta mais de mim do que eu dele? Faça como eu,

Carmen. Escolha

para casar um homem que te trate bem e de quem você possa gostar - mas

por quem não seja

apaixonada. Assim você sofrerá menos."
De onde Aurora tirava essas idéias? De onde tanto pessimismo e fatalismo?

Bem, ela era uma

voraz leitora de romances. Seus autores favoritos em

1940 eram Machado de Assis e um novo e promissor escritor gaúcho, Erico

Verissimo.
Carmen pensou no conselho de Aurora ao reencontrar Carlos Alberto da

Rocha Faria. Finalmente

tiveram a conversa que não fora possível um ano antes. Mas ambos já

tinham se convencido de

que o destino não lhes reservava nenhuma vida a dois. Cada qual cuidaria

de si - embora, para

Carlos Alberto, o futuro de Carmen já estivesse decidido: de Hollywood,

não haveria volta.


Nos dias 26 e 27 de setembro, Carmen foi ao estúdio da Odeon para gravar

seus últimos discos

brasileiros. Ela não sabia que seriam os últimos. Não sabia também que

ali se encerrava sua

carreira de insuperável intérprete de sambas-caricaturais. Obras-primas da

manemolência, como o

chorinho "Disso é que eu gosto", de Vicente Paiva e Luiz Peixoto, e o

samba "O dengo que a

nêga tem", de Caymmi, ou do duplo sentido, como "Bruxinha de pano" e

"Recenseamento", tudo

isso - que dependia do entendimento da língua e de suas nuances - era

impraticável para o

mercado americano. Este só a aceitaria fazendo aquele gibberish infantil,

que julgava tipicamente

"latino". Ou, um dia, obrigando-a a cantar em inglês, com pavoroso

sotaque mexicano.


A rigor, era o fim da carreira discográfica de Carmen. Os poucos discos

que ela ainda gravaria

nos Estados Unidos não fariam muita diferença para ela ou para ninguém. A

rigor, e por mais duro

que isso possa parecer, era o fim da Carmen cantora - sufocada pela

personalidade colorida que

também cantava e, às vezes, até representava.

Capítulo 15

1940
Estrela da Fox

No dia 2 de outubro, Carmen e o Bando da Lua tomaram de novo o Uruguay

para Nova York.

Dessa vez, as grandes massas escusaram-se de ir ao bota-fora. Mas a

família crescera. Com

Carmen, embarcaram dona Maria, que iria morar com ela nos Estados Unidos;

seu irmão Mocotó,

para passar uns tempos; e a jovem Odila, também indo para ficar, para

ajudar dona Maria na

cozinha e para reencontrar seu noivo, o violonista Zezinho, e se casar

com ele. Entre o pessoal do

Bando, Stenio levou Andréa, violinista do Theatro Municipal, com quem se

casara durante as

férias; eles passariam a lua-de-mel a bordo. Carmen e dona Maria foram de

primeira classe, onde

também estavam o pianista polonês Arthur Rubinstein, vindo de Buenos

Aires, e o casal de

cantores Marta Eggerth e Jan Kiepura, vindos do Rio mesmo.


Marta Eggerth era uma criadora de casos. Rompera contratos em Buenos

Aires e Montevidéu e

quase fez o mesmo no Rio. Adiou várias apresentações na Urca (por se

recusar a cantar com uma

"orquestra de jazz" - a de Carlos Machado) e, quando finalmente subiu ao

palco (também em

benefício da Cidade das Meninas de dona Darcy Vargas), entrou atrasada,

chamou a platéia de

mal-educada (por alguns estarem fumando), cantou somente uma música, deu

as costas e foi

embora. Pobre dona Darcy. O vexame com a soprano aconteceu poucos dias

depois da fatídica

apresentação de Carmen. Não admira que a Cidade das Meninas nunca tenha

dado muito certo.


Mais uma vez, Carmen trabalhara até o último dia no Rio. O compromisso

com a Mayrink Veiga

se estendera à véspera do embarque. A temporada na Urca fora até o dia 24

de setembro. No dia

25, ela dera um coquetel de despedida no Copacabana Palace para a

imprensa, a "sociedade" e

os amigos. E, no dia 28, fizera um show no cassino Icaraí, em Niterói, a

pedido de... Alzirinha

Vargas. Era como se Carmen quisesse provar que não levava mágoas. O

próprio Carlos

Machado, que se julgava responsável pelo que acontecera na Urca e não se

perdoava por isso,

teve uma surpresa: Carmen ofereceu-lhe seu carro Cord, que sabia que ele

admirava, por um

preço simbólico. Na verdade, só faltou dar-lhe o carro.
"Machado, você foi um amor comigo e queria lhe dar um presente", ela

disse. "Mas, se não

pagares nada, vão dizer que andavas me comendo.
259
Você assina dez promissórias de um conto e vai pagando uma por mês a meu irmão

Mocotó. Que tal?"

Machado assinou correndo.
Se a saída do Rio fora morna, a chegada de Carmen a Nova York foi

apoteótica - ou assim

pareceu ao ser filmada pela Fox, já como parte do build-up da estrela. E

o estúdio tinha mais era

de promovê-la - afinal, ela estava com um filme pronto, Serenata

tropical, e era esperada em

Hollywood para rodar outro, Uma noite no Rio. O cinejornal Movietone, com

o registro da

chegada, foi exibido no Cineac, no Rio, poucos dias depois.
Dessa vez, a estada de Carmen em Nova York foi curta. Mas suficiente para

Shubert convencê-la

a rasgarem o contrato em vigência, assinado apenas seis meses antes, e

fazerem um novo - ele

não queria esperar até maio de 1941 para exercer sua opção de continuar

com Carmen. Serenata

tropical acabara de ser lançado em Los Angeles, e Shubert sabia que,

assim que Carmen pisasse

em Hollywood, o pessoal do cinema iria se apaixonar por ela. Era

imprescindível segurá-la desde

já - e a longo prazo.
Num documento do dia 17 de outubro de 1940, Shubert não apenas exerceu a

opção e garantiu

que Carmen seria sua até maio de 1942 como propôs estender uma nova opção

até 31 de maio de

1944, para o que bastaria que ele a notificasse até trinta dias antes de

maio de 1942. Para

compensá-la, sugeriu duas modificações no contrato, ambas aparentemente

favoráveis a Carmen:

seu salário seria agora de 1200 dólares por semana e os rendimentos pelos

serviços prestados a

terceiros passariam a ser divididos à base de 60% para ela e

40% para ele, não mais cinqüenta a cinqüenta.


Pelo dinheiro real que circulava entre os dois, esses números já não

significavam tanto para

Carmen, e a idéia de continuar presa a Shubert pelos três anos e meio

seguintes devia parecer-lhe

esquisita. Mesmo assim - e incrivelmente -, Carmen aceitou.
De Nova York, escoltados por um homem de Shubert, Carmen e seu pessoal

foram primeiro para

Chicago, de trem, pelo ultrafuturista Twentieth Century, a fim de cumprir

as duas semanas no

nightclub Chez Paree. A viagem levava dezesseis horas, mas o Twentieth

Century se dizia o trem

mais luxuoso e confortável dos Estados Unidos. Era composto de dezessete


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   71


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande