Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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salões da elite brasileira. Diante de tantas ligações com a Alemanha, era

normal que uma parte

dessa elite, sempre disposta a seguir os vencedores, não escondesse sua

simpatia pelos nazistas e

aversão pelos ingleses e americanos.
Naquele ano, o Rio estava também infestado de agentes secretos da

Gestapo, camuflados nas

embaixadas, nas filiais brasileiras das empresas alemãs (principalmente

as fabricantes de

eletrodomésticos) e até nas associações recreativas germânicas. A função

desses agentes era

passar informações sobre o movimento de navios ingleses e americanos no

porto - o que

transportavam, para onde iam e por quais rotas - e ficar de olho na

disposição brasileira de

manter a neutralidade na guerra, o que era de todo o interesse dos

alemães. Outras funções desses

espiões incluíam enviar mensagens com tinta secreta, operar transmissões

clandestinas e, se

possível, eliminar (matar) agentes dos países democráticos que dessem

sopa por aqui. A única

atividade proibida por Berlim era a sabotagem, mas só porque poderia

indispor o povo brasileiro

contra a Alemanha. Tudo isso se fazia sob as vistas grossas da polícia

chefiada por Filinto Müller.


Foi no auge desse clima que Carmen Miranda, a brasileirinha que se

projetara nos Estados

Unidos, armada apenas com seus balangandãs e que tais, desembarcou no

Rio.
O DIP se encarregou de organizar a programação para a chegada de

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Carmen no dia 10 de julho. E tinha razões de Estado para isso. No

vernáculo típico do regime, era

a volta de uma grande patrícia, que pusera nas alturas o nome do Brasil

em pleno território de uma

"potência estrangeira". Seu triunfo na América era uma afirmação da "raça

brasileira" (uma

novidade da biologia, criada por Getúlio). O triunfo era também do

governo, que apoiara a ida de

Carmen e oferecera as passagens para o Bando da Lua, responsável pelo

ritmo que possibilitara à

artista "impor o samba na América".
Quando Carmen estava para chegar, os jornais anunciaram amplamente a

programação do dia: o

navio em que ela viria, a que horas atracaria, os barcos e lanchas que

iriam ao seu encontro para

escoltá-la, a festa na praça Mauá, os discursos no palanque armado no

Theatro Municipal e o

trajeto do desfile em carro aberto. Era como se fosse um soldado que

voltasse do front, trazendo a

espada do inimigo morto. Era a cantora que vencera em toda a linha -

teatro, rádio, nightclub,

cinema - sem ter de fazer concessões. Era a volta da música e da língua

brasileiras, depois de um

vitorioso bordejo por trás das linhas adversárias.
Josué de Barros, de novo no Rio, vindo de sua longa temporada portenha,

estava morando na

Urca. Na hora prevista, fim da tarde, foi para a amurada do bairro ver o

navio passar. O Argentina

surgiu na barra e piscou para o Pão de Açúcar, trazendo a ilustre

passageira. Ninguém mais que

Josué tinha o direito de ser o primeiro a abraçar Carmen, mas, quando o

navio embicou em

direção à ponta do Calabouço e sumiu de vista, ele desistiu de ir recebê-

la no cais. Preferiu voltar

para casa. A glória de Carmen agora era de muitos.
O Argentina atracaria entre quatro e meia e cinco da tarde, mas, desde o

meio-dia, toda a área

entre a praça Mauá e o Armazém l estava tomada pelo povo. A Mayrink

Veiga, com o apoio do

DIP e em cadeia com rádios de outros estados, era a emissora oficial da

chegada - claro, pois

era a emissora do coração de Carmen. Dos alto-falantes, abrindo a

transmissão, saíam as vozes de

César Ladeira e Gagliano Netto, este agora na Record e empoleirado num

guindaste sobre o cais.

Adhemar Gonzaga mandara suas câmeras e a Cinédia iria filmar a chegada

(batendo todos os

recordes, o cinejornal com a reportagem seria exibido no Cineac-Glória já

no dia seguinte). Uma

banda de música tocava os sucessos de Carmen. Era julho e era pelo

Carnaval.


Quando o navio despontou na curva da ilha das Cobras, a multidão já

chegava ao Armazém 2. Os

armazéns tiveram suas portas fechadas para que o povo não os usasse para

ter acesso ao cais -

privilégio reservado aos 3204 pagantes que passaram pelas borboletas do

Touring Club para ver

Carmen de perto. Frotas e frotas de pequenas embarcações, com as

autoridades sanitárias e

alfandegárias, foram ao encontro do Argentina e o acompanharam até o

Armazém 2. Finalmente, o

navio completou a manobra e a escada de bordo foi aberta. Repórteres e

fotógrafos, às centenas,

quase se engalfinhavam para chegar a ela. Carmen surgiu, poderosa, na

passarela do deque

superior, usando

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um vestido de veludo verde, com aplicações em camurça amarela pespontada,

e uma bolsa com

imensas iniciais, C. M. Ali ela era o Brasil chegando. Um Brasil viajado,

cosmopolita - até o

perfume era diferente.


Os primeiros a conseguir subir e abraçá-la foram seu irmão Mocotó e o

colunista do Correio da

Noite, Caribe da Rocha. Depois, dona Maria, o casal Edmar Machado e Maria

Sampaio e os

diretores do DIP, Júlio Barata e Assis Figueiredo - estes, para lhe dar

as boas-vindas oficiais.

Subiu quem podia, como César Ladeira, já de microfone na mão, e quem não

podia. Dona Maria

levou encontrões, mas conseguiu equilibrar seu chapéu.
"Como está linda a minha querida filhinha!", repetia, chorando.
Quando pôde abraçar e beijar a mãe e os irmãos, Carmen deixou escapar:
"Ah, meus queridos! Que saudade mais... abafativa!"
Engolfada no deque, Carmen mal pôde posar para as fotografias. Os

repórteres a encurralaram. As

perguntas vinham de todos os lados e, quando a deixaram falar, ela se

confundiu:


"Viajamos [com Streets of Paris] pelos Estados Unidos inteiros. Fomos até

o Canadá e estivemos

em Hollywood" - este, um dos poucos lugares em que ela não esteve. Mas o

barulho era tanto

que a frase passou em branco.
Os repórteres queriam provocá-la. Perguntaram-lhe se já havia esquecido o

Rio.
"Como posso esquecer esse sol, esse mar, essa cidade?"


Outro intrigante perguntou-lhe sobre o "mal-entendido" a respeito de sua

nacionalidade. De tanto

ter de explicar aos repórteres de Nova York que não cantava em espanhol,

mas em português (o

próprio Brooks Atkinson, do New York Times, cometera essa gafe),

escreveram que ela se sentia

portuguesa, não brasileira. Isso repercutira mal aqui.
"Eu sou é brasileira, e no duro!", disse Carmen.
Alguém se atreveu a perguntar sobre os "rumores" de que estivesse

voltando porque "fracassara"

nos Estados Unidos.
"Vou voltar em outubro para fazer dois filmes na Fox e, se quiserem, eu

mostro o contrato. Comigo

é na batata."
Finalmente liberada, Carmen começou a descer a prancha. A turba rompeu o

cordão de

isolamento e se colocou entre ela e o carro em que desfilaria. A PM

entrou em ação, com a

delicadeza de sempre. Soldados do Exército e a Guarda Civil tentaram

fazer uma escolta para

que ela passasse, mas a multidão avançava. Então, o tenente Euzébio de

Queiroz tomou Carmen

pela cintura, tirando-a do chão, e, numa ousada galanteria, abriu caminho

e levou-a até o carro,

que estava cheio de corbeilles e buquês, encomendados à casa A Catleya

pela poetisa Adalgisa

Nery, mulher de Lourival Fontes.
Os batedores da Inspetoria do Tráfego ligaram as sirenes e o carro saiu,

seguido pelo cortejo que

engarrafou a avenida Rio Branco. Carmen jogava flores para o público. Em

troca, funcionários

públicos e comerciários, nas janelas da Rio Branco,

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atiravam flores e serpentinas. O DIP podia ter organizado a

festa para Carmen, mas e

daí? Era o povo brasileiro que a estava recebendo e sufocando de amor. Em

frente ao Theatro

Municipal, parou tudo para que Carmen fosse saudada em discursos pelos

luminares do órgão de

propaganda. Finalmente o cortejo seguiu pela avenida Beira-Mar, sempre

sob palmas e vivas, e,

quando chegou à sua casa na Urca, já eram quase nove da noite. Lá, outra

multidão a esperava. A

polícia teve de cercar a casa para evitar que a malta invadisse. Carmen,

que não se dava bem em

navios e pegara um resfriado, estava quase afônica. E, com toda aquela

azáfama, só dormiria no

dia seguinte.


Meio que deixado para escanteio, o Bando da Lua chegara no mesmo navio,

mas esse fato

provocou raras comoções fora do âmbito familiar. (Aliás, suas passagens

tinham sido pagas por

Carmen, num total de 1800 dólares.) Aos poucos jornalistas que o

procuraram, Aloysio disse que o

Bando da Lua também vencera na América e que Garoto impressionara os

americanos, que o

chamavam de "Mister Marvelous Hands". E que, dali a três meses, quando

Carmen voltasse para os

Estados Unidos, eles voltariam com ela. Mas, naquele momento, com tantas

crises dentro do

conjunto, nem Aloysio tinha certeza de que isso aconteceria.
As intenções de Carmen eram boas: chegar ao Rio e, no dia seguinte,

esconder-se por uma ou

duas semanas numa estação de águas, quem sabe Poços de Caldas, para

recuperar-se do trabalho

quase escravo a que se submetera em um ano de Estados Unidos. Mas não

teve tempo. Os amigos

iam à sua casa na Urca em romaria. Como impedir que Synval, Assis, André,

Caymmi, Joubert e

Braguinha, além de Edmar e Maria, entrassem para declarar que a amavam e

que sentiam sua

falta? Seu encontro com Josué de Barros foi comovente: "Carmen querida!",

disse Josué;

"Barrocas!", ela exclamou. Cada visita, ao despedir-se, levava debaixo do

braço o álbum South

American way, de que Carmen trouxera uma coleção. Almirante foi outro que

a visitou - e, para

ele, Carmen reservara um rádio de pilhas, o primeiro que se viu no

Brasil. As pessoas se

espantavam com aquele rádio enorme que falava "sozinho", sem estar ligado

à parede. Carmen

trouxe também uma caixa de pilhas sobressalentes para Almirante.
Mas a visita fatal foi a do emissário de dona Darcy Vargas, esposa do

presidente Vargas, para

convidá-la a participar de uma noite black-tie beneficente no Cassino da

Urca, dali a 72 horas, no

dia 15, em prol da Cidade das Meninas, uma obra da primeira-dama. Esse

emissário foi

provavelmente seu ex-patrão, Joaquim Rolla.
O primeiro contato já fora feito por carta antes do embarque de Carmen em

Nova York, e ela não

dissera não. Mas, agora, Carmen tinha todos os motivos para recusar.

Acabara de chegar, sentia-

se esgotada, estava muito resfriada,
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pretendia esconder-se numa estação de águas, e não haveria tempo para

ensaiar. Só que, da

maneira como a coisa lhe deve ter sido colocada, jamais poderia fugir. O

que se queria dela era

uma simples participação num show já montado com outras atrações - Carmen

não precisaria

cantar mais que meia dúzia de músicas. A Cidade das Meninas (um

empreendimento filantrópico a

ser construído na Baixada Fluminense, destinado a dar abrigo e educação a

jovens desvalidas)

era a "menina-dos-olhos", o projeto mais querido da primeira-dama. As

adesões àquela noite

estavam sendo significativas. A Casa Canadá oferecera uma pele no valor

de mil dólares para ser

sorteada durante o espetáculo; um busto de Carmen pela escultora Celita

Vaccari também seria

sorteado - tudo em prol da Cidade das Meninas. E o governo estaria

presente em peso. Como

recusar? Depois disso, o que Rolla queria de Carmen era uma temporada de

verdade na Urca,

mas lá para agosto ou setembro, quando ela achasse melhor.
Com Carmen no programa, a Urca vendeu rapidamente setecentos convites a

cem mil-réis para

aquela noite. Para acumular forças, Carmen passou de cama toda a véspera

do show, tentando

vencer o resfriado que não cedia. Maria Sampaio ficou de plantão,

ajudando a barrar gente que

queria ver Carmen. No dia seguinte, a poucas horas do espetáculo, Carmen

foi ao cassino. O

médico a proibira até de ensaiar, mas ela precisava entender-se com

Carlos Machado, cuja

orquestra a acompanharia. Entender-se com Machado era só uma maneira de

falar, porque ele não

sabia uma nota de música (e se orgulhava disso). Os interlocutores eram o

pianista argentino

Roberto Cesari, que era quem realmente comandava a orquestra, e seu amigo

Russo do Pandeiro.


Mas foi Machado quem sugeriu a Carmen dar um caráter mais "internacional"

à sua apresentação

- abrindo com "South American way" e mostrando à platéia que era agora

uma cidadã do

mundo.
O enxame de bandeiras do Brasil no palco e no grill da Urca,

providenciadas por Adalgisa Nery,

que se encarregara da decoração, podia tê-lo feito suspeitar de que

aquela não era uma boa idéia.


César Ladeira subiu ao palco e, com seu verbo emplumado, narrou com ares

épicos as façanhas

de Carmen em Nova York - muitas, presenciadas por ele. Em resumo, o que

César tinha a dizer

era: a "Pequena Notável" vencera no meio musical mais exigente do mundo,

na maior cidade do

mundo, no país mais poderoso do mundo. E não bastava louvar Carmen. Por

qualquer ângulo que

fosse analisado, o speech de César era uma subliminar louvação aos

Estados Unidos. E nem todos

ali estavam gostando daquilo. Sob sua voz, vindo das mesas de pista,

podia-se ouvir um rumor de

sabres.
Enquanto César falava, Carmen, na coxia, estava nervosa. Natural. Era a

rentrée para o seu povo,

em sua cidade, em seu país. César encerrou chamando Carmen,

249
e as palmas que se ouviram destinavam-se a receber a artista,

não a aplaudir o

locutor. A orquestra de Machado, já a toda, assomou do subsolo pelo

elevador. Um segundo antes

de entrar, Carmen benzeu-se e apertou distraidamente o braço de uma

cantorinha que participara

de um número anterior e que estava ali para espiá-la. Sem saber o que

fazia, Carmen cravou as

longas unhas no braço nu da menina - Emilinha Borba -, que espremeu

baixinho um grito de

"Aaaaiii!...".


Com a mesma baiana que usara na Casa Branca, de brocados dourados,

vermelhos e prateados,

Carmen finalmente entrou sob os aplausos. A cestinha de frutas crescera

para os lados e para o

alto; uma catarata de colares e balangandãs tinha se incorporado à

fantasia; e a gesticulação

também parecia diferente. Para a platéia, aquela era uma nova Carmen - e

mais ainda porque

Serenata tropical ainda não estreara por aqui. (Aliás, não estreara nem

nos Estados Unidos. A

"nova" Carmen ainda era um segredo dos nightclubs de Nova York a

Chicago.)


Carmen dirigiu-se em inglês à platéia:
"Good night, people!" - em vez do tradicional (e muito mais ela) "Oi,

macacada!".


Não houve grande resposta.
Carmen abriu com "South American way". Pelos três minutos seguintes, gelo

na platéia. O samba-

rumba, muito fraco para os padrões brasileiros, teve de arrastar-se

sozinho até a última nota. O

verso "Souse American way", que, nos Estados Unidos, fazia a platéia ter

convulsões de riso,

passou em branco na Urca até pelos que entenderam o trocadilho. Ao fim do

número, não houve

vaia, mas aplausos tíbios e espaçados. E, mais que tudo, silêncio - um

silêncio cheio de sons de

desconforto: resmungos em surdina, bufadas involuntárias, corpos se

ajeitando nas cadeiras.


Em retrospecto, não faltariam motivos para justificar a trágica passagem

de Carmen pelo Cassino

da Urca naquela noite. Alguns deles: fazia um ano que Carmen estava sem

ouvir música brasileira,

exceto a que ela própria cantava. Estava também condicionada à reação das

platéias americanas,

que não entendiam o que ela dizia, obrigando-a a enfatizar seus

movimentos de palco. E havia o

resfriado: sem muita voz ou ritmo, ela parecia sumir, sucumbir, ao peso

da orquestra de Carlos

Machado.
O que Carmen cantou nessa noite, além de "South American way"? Apenas

mais três músicas,

embora não haja consenso sobre quais foram. Uma delas, segundo Carlos

Machado, teria sido

algo cubano (Machado falou em "El cumbanchero", mas esta só seria

composta pelo porto-

riquenho Rafael Hernández em 1943). Outra, segundo Aloysio de Oliveira,

seria uma canção

americana com letra em português por ele próprio - talvez "Diga diga

doo", que o Bando da

Lua cantava no passado e, por acaso, também de Jimmy McHugh (em parceria

com Dorothy

Fields). E, por último e por certo, "O que é que a baiana tem?"

250
- mas, aí, o desastre já se consumara. Em Nova York, quando

se apresentava no

Waldorf ou no Versailles e uma mesa lhe pedia que cantasse algo em

inglês, Carmen respondia: "I

sing the songsfrom Brazil" (Eu canto as coisas do Brasil). E, logo aqui,

vinha dar um fora desse

tamanho! Não sabia para quem estava cantando?


Não. E nem podia saber. Aqui vai a composição de mesas no Cassino da

Urca, pelo menos nas

primeiras filas, naquela noite - Carmen cantou para nada menos que o

estado-maior do Estado

Novo. Presentes, além da primeiradama, dona Darcy Vargas, estavam sua

filha Alzirinha e o

marido desta, Ernani do Amaral Peixoto, interventor do estado do Rio;

general Eurico Gaspar

Dutra, ministro da Guerra; general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior

do Exército; Francisco

Campos, ministro da Justiça; Waldemar Cromwell Falcão, ministro do

Trabalho; Gustavo

Capanema, ministro da Educação; vice-almirante Aristides Guilhem,

ministro da Marinha; coronel

Cordeiro de Faria, interventor do Rio Grande do Sul; capitão Filinto

Müller, chefe de polícia do

Distrito Federal; capitão Batista Teixeira, do Departamento de Segurança

Política e Social;

"coronel" Bejo Vargas, bon-vivant, lobista e primeiro-irmão; Lourival

Fontes, chefe do DIP; Júlio

Barata, diretor da Divisão de Rádio do DIP; Assis Figueiredo, diretor da

Divisão de Turismo do

DIP; e o radialista Felicio Mastrangelo, italiano nato e mais tarde

acusado de quinta-coluna no

Brasil por vários jornalistas - apenas entre os que foi possível

levantar. Cada qual com grande

comitiva.
À volta deles, empresários e industriais brasileiros, muitos com

sobrenomes bem conhecidos, e

que, a exemplo da elite de outros países, estavam fazendo negócios com a

Alemanha do Führer e

se identificando com sua postura anticomunista e antijudaica.
A debutante Stella Rudge, acompanhada de suas amigas, era fã de Carmen e

queria aplaudi-la.

Mas, desde o primeiro número, sentiu a temperatura à sua volta e se

conteve. Suas amigas também

olharam ao redor e recolheram as mãozinhas. Alice Accioly, mulher do

jornalista Accioly Netto,

não entendia a mudez da platéia - o som das poucas palmas no vazio era

terrível. Alice, que

conhecia todo mundo por causa do marido, notou a presença de muita gente

do governo. E Maria

Sampaio se mortificava por não ter impedido Carmen de subir ao palco com

aquele resfriado.


É impossível saber o que se passou na cabeça de Carmen ao atacar cada

música e constatar que

não estava agradando - ou que forças a fizeram chegar ao quarto número.

Ao fim deste, não se

conteve e saiu do palco, revoltada e chorando. Machado continuou o show

e, por alguns minutos,

ninguém entendeu o que estava acontecendo. Carmen voltaria ou não? Quando

correu pelo grill a

informação de que ela não voltaria, Alzirinha, em nome de sua mãe, foi ao

camarim para ver o que

havia e para convidá-la a se sentar a sua mesa. Mas Carmen mandou

agradecer e disse que ia para

casa porque não estava bem.
251
No dia seguinte, comentaria com Caribe da Rocha:
"O público que foi ao cassino não foi o mesmo que me recebeu nas ruas."
Não foi mesmo, até pelo preço do convite: dez vezes o de um ingresso

normal da Urca. Os que

correram atrás de seu carro na avenida Beira-Mar, gritando "Carmen!", não

tinham nem para o

aluguel de um smoking. No futuro, dir-se-ia que a "elite" brasileira a

rejeitara por ser sambista.

Não foi nada disso - pois, afinal, eles não a criticaram por voltar

"pouco autêntica" e

"americanizada"? E é aí que está a chave do silêncio.
Quem estava em todas as principais mesas da Urca, naquela noite, era o

poder, oficial e civil, que,

nos últimos meses, assumira uma nova cor política ao sabor dos

acontecimentos na Europa. A

Alemanha era agora a grande amiga, e os Estados Unidos, de repente, o

potencial vilão. Os

ministros e funcionários do governo se irritaram ao ver que a artista que

emigrara com o apoio

deles, para fazer valer o Brasil e sua música junto ao inimigo, voltara

corrompida por esse

inimigo. As bandeiras no palco e no grill da Urca deviam ter servido de

aviso. Normalmente, elas

poderiam ser interpretadas como o Brasil que recebia Carmen de volta. Mas

o Estado Novo

conspurcara o símbolo da bandeira - naquele contexto, elas significavam

apenas o regime

recebendo Carmen.
O "nacionalismo" da elite brasileira também era de araque. Poucos dias

antes, Caribe protestava

em sua coluna no Correio da Noite contra o enxame de foxes, blues,

boleros e rumbas, em

detrimento do samba, no repertório das orquestras dos cassinos - embora

houvesse uma lei

(passada por Getúlio) obrigando essas orquestras a ter 50% de música

brasileira em seu

repertório. Quem impunha esse repertório estrangeiro? Caribe falava

também da decepção dos

turistas, que vinham aqui para ouvir samba, e não os seus próprios

ritmos, e denunciava que essas

orquestras não tinham entre os seus membros um único tocador de cuíca ou

tamborim. A de Carlos

Machado, que, por sinal, se chamava Brazilian Serenaders, não tinha esse

músico - na verdade,


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