Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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passavam os outros 362 - tensos, contidos, reprimidos. Então fez o melhor

possível: cantou tudo

de que se lembrou e promoveu um Carnaval pessoal para ela, para o Bando

da Lua e para

Schmidt no palco do Versailles. E torceu para que o show, irradiado pela

NBC e captado pelos

rádios dos carros, ajudasse a esquentar a temperatura lá fora, de dez ou

doze graus abaixo de

zero.
No Rio, o Carnaval de 1940 também tinha seu motivo de luto: era o

primeiro sem Carmen em dez

anos - o primeiro desde "Taí", de 1930, em que ela não tinha um sucesso

para defender. Mas as

duas cantoras que deixara em seu lugar estavam indo muito bem, e eram

responsáveis pelas

maiores marchinhas do ano: Aracy de Almeida, com "Passarinho do relógio",

de Haroldo Lobo e

Milton de Oliveira, e Dircinha Batista, com "Upa-upa", de Ary Barroso.

Além dessas, o Carnaval

pertencia à batucada "Cai, cai", de Roberto Martins, com Joel e Gaúcho, e

a dois supersambas,

"Ó, seu Oscar", de Ataulpho Alves e Wilson Batista, com Ciro Monteiro, e

"Despedida de

Mangueira", de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, com Francisco Alves. E,

para certos momentos

dos bailes, em que baixava uma agridoce lembrança de outros Carnavais,

havia duas marchas-

rancho, tão lindas quanto tristes: "Malmequer", de Newton Teixeira e

Cristovam de Alencar, com

Orlando Silva, e a quase fúnebre "Dama das camélias", de Braguinha e

Alcyr Pires Vermelho,

também com Chico Alves.

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Naquele mês de fevereiro, enquanto o Rio cantava e brincava, Carmen

estava enfrentando a neve

e o vento em Nova York e posando para fotos de moda de meia-estação, com

as roupas criadas

pelos costureiros americanos inspiradas nas suas fantasias de palco. Os

vestidos e as blusas da

coleção eram vistosos, mas as grandes inovações de Carmen tinham sido os

turbantes, as

plataformas e as bijuterias - antes dela, ninguém os usara socialmente.

Os costureiros os

adaptaram à sobriedade nova-iorquina, mas eles ainda provocavam certo

choque quando

desfilados em horário de almoço na Quinta Avenida. Alceu Penna, que

continuava na cidade,

conseguiu fotos exclusivas de Carmen como modelo, e mandou uma matéria

que O Cruzeiro

publicou em 24 páginas em sua edição com data de 30 de março. A revista

esgotou nas bancas, e

Accioly Netto, diretor de redação, teve uma idéia-mãe: reproduziu a

reportagem na íntegra e

ofereceu-a gratuitamente aos leitores como um suplemento na edição de 13

de abril. Com isso,

esgotou duas edições.


Outro que não descansou em fevereiro foi Shubert. Com três meses e

quebrados de antecedência,

ele comunicou oficialmente a Carmen seu interesse em exercer a opção de

renovação do contrato

por mais um ano, ao salário de setecentos dólares por semana e 350 por um

segundo compromisso.

(Os valores reais entre Carmen e Shubert já eram muito maiores, mas ele

insistia em manter o preto

no branco, para continuar pagando-a por fora e passar por generoso.) Se

Carmen pensasse

melhor, perceberia que já não lhe era conveniente continuar submetida a

Shubert e, muito menos,

sendo drenada em 50% de seus rendimentos. Mas assinou o novo contrato

assim mesmo - como

todas as propostas de fora lhe eram submetidas por intermédio de Shubert,

ela talvez achasse

ingenuamente que ele era o único responsável por elas.
Em alguns casos, esses contratos estavam de fato atrelados a Shubert. Em

fins de fevereiro, ele

mandou todo mundo arrumar as malas e despachou Streets of Paris para

temporadas em Filadélfia,

Washington, Toronto, Pittsburgh, Saint Louis e Chicago - com apresentações

extras de Carmen em

nightclubs em todas essas praças, e pela duração da temporada em cada uma

delas. Daí que,

pelos setenta dias seguintes, até 9 de maio, Carmen atuou diariamente com

o Bando da Lua em

Streets of Paris e, à saída do teatro, ela e o conjunto marchavam, também

sete noites por semana,

para um nightclub local, e faziam dois, às vezes três, shows durante a

madrugada.


Na noite de 5 de março, em Washington, foi diferente. Carmen e o Bando

saíram do National

Theatre com a roupa do espetáculo e foram levados a se apresentar na sede

do Partido

Democrata, num banquete em homenagem aos sete anos de mandato do

presidente Roosevelt.

Depois do jantar, alguns artistas foram convidados para uma recepção na

Casa Branca. Carmen e

o Bando estavam entre eles. Mais uma vez teriam de cantar, e o ponto alto

da noite foi - como

nunca mais deixaria de ser - "Mamãe, eu quero". Roosevelt, sentado em sua

cadeira de rodas

numa mesa de pista, cumprimentou os rapazes e
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beijou a mão de Carmen. Quando ele lhe tomou a mão para beijá-la, Carmen

estava desprevenida

e pode ter parecido desajeitada ao presidente. Mas ela aprendia depressa.

Dias depois, numa

recepção em sua homenagem na embaixada do Brasil, Carmen esticou

rapidamente os dedinhos

ao ver que os lábios do embaixador inglês, Lord Hallifax, estavam

atravessando a sala e vindo

em sua direção com a indiscutível intenção de beijá-los. O beijo foi um

sucesso. O embaixador do

Brasil era o respeitado Carlos Martins, que formava com sua mulher, a

escultora Maria Martins,

um dos casais mais fulgurantes da comunidade diplomática internacional,

pelo charme de ambos e

pela audácia de terem um casamento aberto. Entediada com a vida

provinciana de Washington,

Maria mantinha um misto de apartamento e ateliê em Nova York, e convidou

Carmen a visitá-la.


De Washington, a companhia já estava a caminho de Toronto, no Canadá,

quando Carmen foi

avisada por Abe Cohen, um dos homens de Shubert junto à trupe, de que o

Century Apartaments,

seu apart-hotel em Nova York, estava lhe cobrando a quinzena do

apartamento que ela deixara

de pagar ao viajar. Carmen não tinha os prepostos de Shubert em alta

conta. Quando eles a

procuravam com problemas desse tipo, ou lhe pediam para assinar alguma

coisa, Carmen

procurava o próprio Shubert para que ele confirmasse se era aquilo mesmo

ou não. "Ela não

confia em nós, os patetas. Só no patrão", queixara-se Cohen a seu colega

Duke Kauffman.


Carmen não se conformou com a dívida. Ditou uma carta a Aloysio, que a

verteu (mais ou menos)

para o inglês, e Cohen enviou-a para Shubert.
"O senhor sabe que não sei ler inglês", escreveu Carmen, "e que sou uma

estranha neste país, sem

conhecimentos das leis locais. Quando assinei o contrato [com o Century

Apartments], um dos

gerentes disse que era só uma formalidade e que, quando eu excursionasse,

poderia acertar as

coisas com a gerência. Agora estou longe e não posso fazer nada, exceto

pedir ao senhor que me

ajude. Best regards from [e só então vinha a gloriosa assinatura cheia de

emes rebordados]

Carmen Miranda."
Com sua espontaneidade, Carmen reduzia a megaempresa de Shubert a uma

quitanda e o

empresário, a alguém atrás do balcão com um lápis na orelha, a quem ela

podia recorrer a

qualquer dia e hora, como se ele tivesse todo o tempo para atendê-la.

Nesse caso, Carmen queria

que Shubert largasse suas centenas de teatros e fosse em pessoa convencer

o gerente a aliviar

uma dívida que ela contraíra porque entendera que bastava ausentar-se do

apartamento para ser

dispensada de pagar o aluguel. Dívida, essa, de pouco mais de trinta

dólares. Shubert não ia fazer

isso, mas destacou Greneker para o trabalho, o que dava quase na mesma.

No fim de março,

Greneker comunicou-lhe que, depois de duas semanas tentando falar com o

tal gerente, este

reapareceu, queimado do sol de uma praia cubana, e disse que não podia

fazer nada porque

haviam gastado muito dinheiro redecorando o apartamento para Miss

Miranda.


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Iam tentar sublocá-lo pelo restante do tempo que ela ficasse fora,

mas não seria fácil.

Enquanto isso Miss Miranda teria de continuar pagando, e era bom que

liquidasse as duas (agora

eram duas) quinzenas em atraso. Greneker suspirou e aconselhou a Shubert

que ele mesmo

explicasse isso a Carmen - ela se sentiria mais acolhida e protegida.
A escala final da excursão foi Chicago, onde Streets of Paris ficou um

mês em cartaz na Grand

Opera House e Carmen cantou também, pelo mesmo período, no Colony Club.

Neste, o cachê era

de 2 mil dólares por semana. (Poderia ser mais, se ela tivesse concordado

em fazer três shows por

noite - o último às quatro da manhã.) Descontada a parte do Bando da Lua

(trezentos dólares) e

dividido o resto com Shubert, sobravam-lhe 850 dólares. Nada mau, mas até

quando Carmen

conseguiria se manter como uma máquina de cantar? E a que preço?
De volta a Nova York, Shubert concedeu-lhe uma semana de descanso, e no

dia 16 de maio

Carmen voltou à madrugada do Versailles para mais três semanas - enquanto

isso, para os turnos

da tarde e da noitinha, Shubert vendeu-a para quatro shows por dia no

Paramount Theatre, de

vinte minutos cada, nos intervalos de um filme. O Paramount tentou exigir

que Carmen fizesse

cinco shows às quartas, aos sábados e aos domingos, alegando que, como

tinham mais matinês

nesses dias, os shows eram mais curtos e duravam o mesmo que os outros

quatro. Mas, para

Carmen, o fato de durarem menos não fazia diferença, porque, depois de

cada show (enquanto

rolavam na tela um trailer, um desenho animado e o filme), ela tinha de

tirar o vestido ensopado e

arriar a maquiagem.
Somente essa operação já exigia um ritual: primeiro, Carmen removia a

maquiagem com óleo de

loureiro, depois lavava o rosto com sabão e água fria; em seguida,

aplicava-lhe uma massagem

com sabão, usando uma escova especial. Só então Carmen tomava um banho

completo, se vestia

e se maquiava toda de novo para o show seguinte. Multiplique essa

operação pelo número de

shows por dia - sendo que, depois do último show no Paramount, vinham os

shows no Versailles.

Daí Carmen insistir nos quatro shows por dia - sete dias por semana -, e

o Paramount que a

aceitasse ou não. O Paramount aceitou. Dez meses depois, em março de

1941, outro artista subiria

ao palco do Paramount para a mesma moenda de quatro ou cinco shows por

dia entre os filmes, e

sairia de lá uma lenda: Frank Sinatra.
Se a agenda de Carmen no segundo semestre de 1939 parecera desumana, não

ficou nem um

pouco mais descansada no primeiro semestre de 1940. Nesse período, Carmen

fez 56 shows no

Versailles em janeiro e fevereiro; 140 nos nightclubs de Filadélfia,

Washington etc., até Chicago,

em março, abril e primeira semana de maio; e 42 no Versailles em maio e

junho, junto com os

brutais 84 no Paramount. Some a isso os últimos quarenta espetáculos de

Streets of Paris na

Broadway em janeiro e, no mínimo, outros cinqüenta na excursão.
241
Total: Carmen entrou no palco pelo menos 412 vezes nos primeiros seis meses

de

1940 - de novo, 2,2 shows por dia, todos os dias -, sem contar os 25 dias



de filmagem de seus

cinco números em Serenata tropical.


Isso significou pelo menos 412 vezes em que ela vestiu uma baiana,

sentou-se ao espelho para

aplicar a maquiagem, suou a baiana no palco, e, ao fim do show, despiu-a

e se sentou de novo ao

espelho para retirar a maquiagem. (Não esquecer as quatorze sessões, de

meia hora a duas horas

cada uma, em que Carmen posou para Paul Meltsner, pintor de Nova York

famoso por seus

retratos - e, com isso, ingressou numa galeria em que constavam outras

divas da Broadway,

como Lynn Fontanne, Martha Graham e Gertrude Lawrence, também retratadas

por Meltsner.)

Em quantas dessas vezes Carmen não terá se perguntado se o esforço e o

sacrifício valiam a pena

- e se não era mais feliz no Rio, onde tinha menos compromissos? Ou se

era a vaidade de impor-

se na América, mais até do que o dinheiro, que a fazia submeter-se a essa

maratona de palcos e

espelhos? E, em quantas dessas vezes, o principal fator a fazê-la seguir

em frente e enfrentar o

público não terá sido uma cápsula branca e amarga de Benzedrine engolida

no camarim?


Para quem estava de fora e apenas torcia por ela, como seu velho amigo R.

Magalhães Júnior, tanto

trabalho só podia significar sucesso e fortuna.
"Hoje, ela é a dona de Nova York", escreveu Magalhães Júnior, então

correspondente da Carioca nos

Estados Unidos. Dez anos antes, ele fizera a primeira entrevista

importante com Carmen, para a

Vida Doméstica. Agora era também o primeiro a anunciar que, depois de um

ano de incontestável

triunfo em Nova York, Carmen iria ao Brasil de férias em julho. Passaria

três ou quatro meses,

começando por uma estação de repouso em Poços de Caldas para curar a

estafa, e, depois, sabe-

se lá se ficaria no Rio ou para onde iria.
"Mas" - como se, de repente, fosse Nova York que não pudesse mais passar

sem ela -, "em

novembro [Carmen] estará de volta, para trabalhar numa nova revista

musical. Talvez com

Maurice Chevalier, talvez com Eddie Cantor. E a 20th Century-Fox lhe

promete um filme

completo - e não um número ou dois em Technicolor -, logo que seu inglês

esteja mais

desembaraçado."
O projeto do musical não se materializou porque Chevalier, que estava em

Paris quando ela foi

ocupada pelos alemães, no dia 14 de junho, preferiu continuar por lá.

Então Shubert decidiu que,

na volta de Carmen de suas férias no Brasil, seria melhor alugá-la à Fox

antes de trazê-la de volta

à Broadway.
Assim, no dia 28 de junho, Carmen tomou o Argentina para o Rio, sabendo

que, quando voltasse,

Nova York seria apenas uma escala - para Hollywood.
Enquanto Carmen ainda saboreava a idéia de embarcar para o Rio depois de

um ano de ausência

- e alheia a tudo o que acontecia fora dos Estados Unidos,

242
os tanques da Alemanha nazista rolavam sobre a Europa. No dia 9

de abril de 1940, os

alemães invadiram a Dinamarca e a Noruega; no dia 10 de maio, começaram o

cerco à França,

tomando a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo; no mesmo dia, a Itália

declarou guerra à França e à

Inglaterra; no dia 4 de junho, os alemães derrotaram os ingleses em

Dunquerque; no dia 14,

ocuparam Paris; e, no começo de agosto, iniciariam o bombardeio aéreo a

Londres. Com a União

Soviética acuada no seu próprio front, e os Estados Unidos aparentemente

à margem da guerra,

nada parecia impedir a vitória do Terceiro Reich. Tempos difíceis para

pierrôs, arlequins e

colombinas.


No Rio, a ditadura de Getúlio proclamava a "neutralidade" do Brasil

diante do conflito, mas a

face nacionalista do Estado Novo - muito parecida com a dos regimes de

Salazar em Portugal e

de Franco na Espanha - não deixava dúvidas quanto à inclinação do

governo. Em 11 de junho,

Dia da Marinha, num discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais, Getúlio

jogou beijos

públicos para a Alemanha ao dizer:
"Marchamos para um futuro diverso de quanto conhecíamos, em matéria de

organização

econômica, social ou política, e sentimos que os velhos sistemas e formas

antiquadas entram em

declínio. Não é, porém, o fim da civilização, mas o início tumultuoso e

fecundo de uma nova era.

Os povos vigorosos, aptos à vida, necessitam seguir o rumo de suas

aspirações, em vez de se

deterem na contemplação do que se desmorona e tomba em ruína. É preciso,

portanto,

compreender nossa época e remover o entulho das idéias mortas e dos

ideais estéreis." E mais

adiante: "Passou a época dos liberalismos imprevidentes".
O discurso de Getúlio foi recebido com vivas nas repartições alemãs no

Brasil e euforicamente

transmitido para Berlim, onde a imprensa o interpretou à risca. O que

"desmoronava e tombava

em ruína" era a velha Europa - a da Inglaterra e da França. A "nova era",

promovida pelos

"povos vigorosos e aptos à vida", era a da Alemanha de Hitler -já wohl.

Da Itália, Mussolini

(num recado para a imensa colônia italiana no Brasil) mandou seu

embaixador no Rio

cumprimentar Getúlio. E, em Washington e Nova York, o governo e a

imprensa americana

interpretaram-no do mesmo jeito, só que com desapontamento e alerta. Por

mais que Oswaldo

Aranha - ministro das Relações Exteriores de Getúlio e um dos poucos a

favor dos Estados

Unidos no governo - tentasse apagar o incêndio junto a seu amigo Sumner

Welles, subsecretário

de Estado americano, o discurso era inequívoco. O relatório de um órgão

do governo brasileiro, a

Delegacia Especial de Segurança Política e Social, assinado pelo

deslumbrado capitão Batista

Teixeira, confirmava isso. Ele classificou a fala presidencial como

"traduzindo uma orientação

diametralmente oposta à seguida pelo presidente dos Estados Unidos" e "um

golpe de

independência contra a orientação imperialista da política norte-

americana".


Os germanófilos do governo brasileiro deram saltos de Gemütlichkeit.

Alguns deles eram os

generais Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, e Góes Monteiro,

243
chefe do Estado-Maior do Exército (que, em 1939, fora a Berlim

para assistir às

manobras do Exército alemão), o major Filinto Müller, chefe de polícia do

Distrito Federal, e

Lourival Fontes, agora diretor do onipotente DIP (Departamento de

Imprensa e Propaganda). Se

eles vibravam com o avanço da Alemanha no plano internacional, a fala de

Getúlio foi o seu

maior motivo para triunfalismo: significava que o Brasil se comprometeria

com a nova ordem.
O DIP era o sucessor do DNP, também criado por Lourival Fontes, mas aí

cessava a comparação

- nunca haveria no Brasil um organismo de controle tão abrangente.

Dedicava-se a controlar a

liberdade de pensamento e de expressão, analisando previamente todo tipo

de veículo (impresso,

filmado, fotografado, gravado), e a promover a propaganda do Estado Novo,

criando produtos e

eventos que exaltassem as virtudes do regime. Isso queria dizer tudo. O

DIP controlava desde a

cota de papel para todos os jornais e revistas do país - o que os

mantinha de rédea curta e

atentos para que não saísse nada que comprometesse a cota de papel do

número seguinte - até a

realização de uma festinha cívica no grêmio escolar de Deus-Me-Livre, no

Guaporé, para

certificar-se de que o mar de bandeirinhas brasileiras requerido para a

ocasião estivesse de

acordo. Controlava também as verbas de publicidade do Banco do Brasil e o

valor do "subsídio"

que cada órgão de imprensa recebia. Lourival era chamado, na intimidade,

de "o nosso

Goebbels", referindo-se ao chefe de propaganda de Hitler. Ele gostava:

numa parede de sua casa,

tinha retratos emoldurados de Hitler e de Mussolini, este último

autografado.


No dia 28 de junho (exatamente quando Carmen estava embarcando para o Rio

em Nova York),

Getúlio voltou à carga com um discurso em que condenava "os preparadores

de guerra, os sem-

pátria, prontos a tudo negociar, muitos deles, indesejáveis noutras

partes, infiltrando-se

clandestinamente no país com prejuízo das atividades honestas dos

nacionais e abusando de

nossa hospitalidade, fazendo-se instrumentos das maquinações e intrigas

do financismo

cosmopolita".
Dessa vez, era uma profissão de fé anti-semita - e tudo isso enquanto

falava em "neutralidade" e

no apego do Brasil à "solidariedade pan-americana". Mas era uma

neutralidade e solidariedade

marota - não muito diferente da que a Argentina dizia praticar, ao mesmo

tempo que flertava

ostensivamente com a Alemanha.
Na correspondência entre Prüfer, embaixador alemão no Rio, e o chanceler

alemão Ribbentrop

(revelada depois da guerra), há várias referências à aversão de Getúlio

pela Inglaterra e à sua

disposição de afastar-se da área de influência americana e aproximar-se

da Alemanha. Prúfer e

seus adidos militares ouviam isso de fontes muito próximas do ditador,

como Filinto, Góes, Dutra,

o ministro da Justiça Francisco Campos e o próprio irmão do ditador, Bejo

Vargas, todos

torcedores abertos do Reich. Não que a diplomacia alemã esperasse

244
uma adesão brasileira à Alemanha - queria apenas que o Brasil não

seguisse os Estados

Unidos no caso de este entrar abertamente na guerra.


"Apesar dos protestos de amizade [aos Estados Unidos], os discursos [de

Vargas] representam

uma rejeição pelo presidente da política norte-americana", escreveu

Prüfer a Ribbentrop. Nessa

época, Getúlio estava recebendo Prüfer em palácio pelas costas de Oswaldo

Aranha e, como se o

Catete fosse cenário de uma comédia de Feydeau, pedindo-lhe que saísse

pelos fundos ao saber

que Aranha estava para chegar. O intermediário desses encontros, quase um

alcoviteiro, era Bejo

Vargas.
Em 1940, a Alemanha já se tornara o maior parceiro comercial do Brasil,

superando os Estados

Unidos. Um ano antes, a metalúrgica alemã Krupp assinara um contrato com

o Ministério da

Guerra para rearmar o Exército brasileiro, especialmente a artilharia.

Agora estava em

negociações com Getúlio para a construção da Companhia Siderúrgica

Nacional. Nove dias

depois do discurso no Minas Gerais, com a tranqüilidade com que lhe

forneceria uma válvula, a

Krupp comunicou a Getúlio que estava pronta a entregar-lhe uma

siderúrgica no valor de 70

milhões de Reichmarks. E havia também as relações pessoais. Noventa por

cento dos industriais,

dirigentes de empresas e técnicos alemães de alto nível residentes no Rio

eram "alemães do

Reich", não simples Volksdeutsche (descendentes), como no Sul do país. A

maioria freqüentava os


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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