Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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casa do gênero, La Femme Chie, de Luiz Vassalo Caruso, na rua do

Ouvidor, 141.


Em 1925, Luiz Caruso era sócio de seu irmão Domingos em uma rede de

cinemas na Zona Norte. Com os lucros da exibição de filmes, abriu uma

loja de chapéus femininos, de confecção própria, no ponto mais disputado

da cidade. Não era um capricho de empresário. Na época, se uma mulher

saísse à rua sem chapéu, era melhor que saísse logo nua, e por isso

tantas casas especializadas. Ainda mais na Ouvidor, que continuava a ser

o ponto elegante, francês por excelência, do Rio, e com nomes de acordo,

como La Femme Chie. A oficina nos fundos da loja de Caruso era comandada

por Madame Boss. Foi ela quem admitiu Carmen entre as oficiais,

diplomou-a na arte de fazer chapéus, ensinoua a decorar vitrines e deu

um trato mais mundano ao francês tipo "Frère Jacques" que ela aprendera

com as freiras. Injustamente passou à história como a ferrabrás que

reprimia Carmen por cantar em serviço, terminando por demiti-la - o que

nunca aconteceu.


Que Carmen cantava à meia-voz enquanto preparava os chapéus, não há

dúvida, e os sucessos do momento eram as marchinhas de José Francisco de

Freitas, o Freitinhas, como "Zizinha", e os sambas de Sinhô, como "Ora,

vejam só". Segundo Caruso, que ficara amigo de seu Pinto e freqüentava a

pensão de dona Maria, todos gostavam de ouvir Carmen cantando, inclusive

Madame Boss. Se esta a repreendia, era em nome da disciplina: "Menina,

isto aqui não é lugar para cantar."
Assim que a contramestra virava as costas, as colegas de Carmen pediam:

"Canta mais, canta mais!"


Carmen acedia, mas avisava, meio de molecagem: "Eu vou acabar sendo

despedida por causa de vocês!" Não foi despedida. Ao contrário: por ser

"alegre, bonita e comunicativa", Caruso promoveu-a da oficina para o

balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender

qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se determinado

chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata

de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo

assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se

de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de

Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e

ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao

saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta

por ele - que Carmen, achando graça, aceitou.

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Seu jeito para desenhar ou dar um toque diferente em qualquer tipo de

adereço foi percebido fora da loja e passou a render-lhe uns trocados

extras, na forma de chapéus para as amigas ou para as mães delas. E, nos

fins de semana, Carmen ainda encontrava tempo para costurar seus

próprios vestidos. Resolvia de manhã que, à noite, sairia de vestido

novo, inspirado em algum modelo que vira no cinema ou no Jornal das

Moças - cortava o tecido, levava-o à Singer e, no fim da tarde, estava

pronto. Já tinha, então, um considerável guarda-roupa, que praticamente

só lhe custara a matéria-prima.


Carmen trocou de emprego naquele mesmo ano, mas por um salário melhor.

Foi trabalhar em A Principal, uma loja de artigos masculinos na rua

Gonçalves Dias, 55, em frente à Confeitaria Colombo. O proprietário era

o português Cepeda, fanático torcedor do Fluminense. Quando se tratava

de gravatas, camisas e acessórios para homens, havia duas casas bem

reputadas no Centro: a Soares & Maia, procurada pelos mais

conservadores, e A Principal, preferida pelos smarts, os janotas de

1925, com seus chapéus de palhinha e paletós peçoa-palavra. A presença

de Carmen entre as três vendedoras atraiu uma quantidade de novos

clientes para A Principal. Para o patrão Cepeda, era óbvio que aqueles

rapazes que ele nunca tinha visto, e que passavam uma hora no recinto

para comprar um simples par de abotoaduras, estavam de olho na sua

funcionária. Nada de surpreendente nisso - porque ele também estava.
Até pouco antes, um programa típico para Carmen eram as matinês do

Cinema Lapa, com atrações virginais como Pollyanna, com Mary Pickford, e

o seriado Os perigos de Paulina, com Pearl (Pérola) White, heroínas de

olhos claros e cabelos cacheados, como os das bonecas, e sempre em

alguma espécie de apuro. Mas, para a adolescente Carmen, morando na

travessa do Comércio, trabalhando no eixo Ouvidor-Gonçalves Dias e com

uma súbita autonomia de vôo, o cinema agora queria dizer Rodolfo

Valentino, John Gilbert e John Barrymore, ou Vilma Banky, Norma Talmadge

e Clara Bow - astros maduros, sensuais, com olheiras, e ainda mais

sedutores e misteriosos porque os filmes eram mudos e não se ouviam suas

vozes. O carioca chamava Clara Bow de Clara Boa. Ao assistir aos filmes

de Clara, a fornida Carmen também se sentia parte da categoria. E tinha

bons motivos para se certificar disso, porque os estudantes, ao passar

de bonde pela Cinelândia e vê-la comprando o ingresso para o cinema,

gritavam em coro:
"Olha a boa!"
Sob o pretexto de comprar uma gravata - e pedir que ela lhes desse o

laço no pescoço - inúmeros rapazes passaram o ano sussurrando-lhe

propostas entre os balcões da Principal. Mas só um deles, ao convidá-la

para um cinema ao fim do expediente, teve um sim como resposta.

Capítulo 2
1925 - 1928

"If girl"

Mário Cunha era bonito, queimado de sol e, com seu 1,81

metro, não se contentava em ser alto para os padrões da época -

julgava-se ainda mais alto. E era forte à beça, tipo atleta de

caricatura: os ternos bem cortados, quase sempre brancos,

ressaltavam-lhe os ombros largos, o tórax amplo e os quadris estreitos,

resultado do treinamento com o banco fixo de areia que usava para

simular remadas. Para conquistar Carmen em uma de suas visitas à

Principal bastaram-lhe um olhar e uma frase. Mas o olhar e a frase foram

irrelevantes, porque foi Carmen, quase trinta centímetros menor que ele,

quem decidiu deixar-se conquistar. Mário Cunha fazia o seu tipo de

homem, até o último milímetro.
Era remador do Flamengo, e não apenas isso. Seu pai, José Agostinho

Pereira da Cunha, fora o jovem que, em 1895, perguntara numa roda de

praia no Flamengo: "E se nós fundássemos um clube de regatas?". E

fundaram: o Clube de Regatas do Flamengo, que, ao incorporar o futebol

em 1912, se tornaria o mais popular do Brasil. Em 1925, o futebol já

superara o remo em matéria de público, mas os domingos de regatas no

Pavilhão de Botafogo continuavam a ser grandes eventos, especialmente em

dia de Flamengo x Vasco. Numa população de pálidos e esquálidos, aqueles

remadores que faziam saltar os músculos dos braços eram comidos com os

olhos pelas moças. No barco, com sua camiseta de listras vermelhas e

pretas, sem mangas, Mário Augusto Pereira da Cunha, de 24 anos, era um

banquete aos olhos de Carmen, com seus ardentes dezesseis.


Carmen se referia a Mário Cunha como "o meu pedaço", uma simplificação

da gíria "pedaço de homem", significando um homem que chamava a atenção.

E ele não deixava por menos. Não fumava, não bebia e passava longe dos

"vícios elegantes", como aspirar cocaína ou tomar champanhe com éter.

Praticava ginástica respiratória e seguia uma alimentação especial para

competir - ao sair para uma regata, tomava uma gemada com três ovos e

açúcar, porque sabia que o açúcar era o que mais se queimava ao remar.

Numa ocasião, ao ajudar a carregar uma baleeira para a largada, houve um

acidente e o barco caiu sobre ele, quebrando-lhe uma costela - Mário

Cunha fingiu que isso era rotina, tomou o seu lugar no barco e remou

assim mesmo, até o fim. De outra feita, participou de três páreos numa

só manhã, para que o Flamengo não perdesse pontos por falta de um

representante. Para Carmen, atitudes como essas beiravam os feitos do

rei Alberto da Bélgica.


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Toda a família de Mário Cunha a impressionava, e ela nem precisava

compará-la à sua. Entre os avós e bisavós do rapaz, contavam-se

marqueses do Império, médicos da Corte, fornecedores do Exército na

Guerra do Paraguai e um diplomata que fora redator da primeira

Constituição do Brasil, a de 1824, e regente por três dias na menoridade

de dom Pedro II. Nessa galeria de ilustres, a ovelha negra era

justamente o pai dele, José Agostinho, o único que nunca quisera saber

de estudar. Ou uma ovelha rubro-negra porque, de certo modo, o Brasil

lhe devia o Flamengo, do qual tinha os títulos de fundador, sócio número

um, ex-presidente e patrono. O próprio Mário Cunha era funcionário da

Caixa Econômica, na sede da rua Treze de Maio, o que o tornava um bom

partido sob qualquer circunstância.
Apesar disso, entre o primeiro beijo e o dia em que Carmen apresentou o

namorado à família, passaram-se semanas, por ela não saber como seu

Pinto reagiria. Enquanto foi possível, os dois namoraram às escondidas -

ou era o que pensavam porque, com tanto lugar para se esconderem,

preferiam se exibir na mais recente e brilhante vitrine da cidade: a

Cinelândia.


Esta era a última sensação do Rio. O empresário Francisco Serrador

acabara de converter o terreno do antigo Convento da Ajuda numa espécie

de Broadway carioca, com palácios cinematográficos em que as fachadas,

piscando o título do filme e os nomes das estrelas, tomavam dois dos

oito andares de cada edifício e só faltavam atirar-se sobre os

pedestres. Os primeiros desses novos cinemas foram o Império, o Glória,

o Capitólio e o Odeon. Serrador cercouos de ruas internas ou adjacentes,

com teatros, lojas, bares, tabacarias, e injetou vida 24 horas por dia

naqueles quarteirões. Na Cinelândia podia-se engraxar os sapatos,

comprar charutos ou mandar flores, digamos, às quatro da manhã. Duas

confeitarias dominavam o território: a Brasileira, com suas porcelanas,

o waffle com mel e o quarteto de piano, flauta, cello e violino; e a

Americana, igualmente elegante, mas eleita pelos mais jovens, atraídos

pelos sundaes, bananas split, milk- shakes e cachorros-quentes. Em

poucos meses, a Cinelândia se tornara a passarela carioca e um

permanente desfile de modas. Ao passearem por ela aos arrufos, Carmen e

Mário Cunha não tinham como evitar os olhares. Nem queriam: cientes de

sua beleza, elegância e juventude, eles se orgulhavam de ser vistos

juntos.
Com a diferença de altura a separá-los, Carmen, mesmo de salto alto,

precisava pôr-se na ponta dos pés para beijá-lo. Milhares de beijos

depois, trocados no cinema ou entre as alamedas do Passeio Público,

Carmen levou Mário Cunha à sua casa e apresentou-o aos pais. Se já

sabiam do caso, seu Pinto e dona Maria não passaram recibo nem fizeram

objeção, exceto quanto à hora- limite para Carmen ficar na rua: dez da

noite. Mas essa hora se prolongava quando Mário Cunha a levava em casa e

os dois arfavam até a meia-noite à porta do sobrado da travessa do

Comércio. Numa noite de temporal, dona Maria preocupou-se com a volta de

Mário Cunha para a casa de seus pais na Glória e, num rasgo de ousadia

para a vizinhança, convenceu-o a dormir lá. Nos fins de semana, Carmen e

Mário Cunha também iam muito a Paquetá, embora, em quase todos os

passeios, uma das meninas, Cecília ou Aurora, estivesse à cote.

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O encantamento da família por ele estendeu-se a Mário, irmão de Carmen,



então com quatorze anos. Por artes de Mário Cunha, o jovem Mário

arranjou um bom emprego de vendedor ("zangão", como se dizia) numa firma

de cereais na rua do Acre. E, também por sua influência, começou a

praticar remo - não no Flamengo, mas no Vasco da Gama, para onde foi

levado por seus patrões portugueses. Três anos depois, em 1928, Mário já

se destacaria no remo do Vasco, como proeiro de iole a oito ou a quatro,

por seu perfeito controle das remadas. Em altura, nunca passaria de 1,61

metro, mas era socado, troncudinho, e seus tornozelos e pernas grossas

(uma constante na família) lhe valeram o apelido pelo qual seria

conhecido pelo resto da vida: Mocotó.


Iniciada por Mário Cunha, cuja família significava o próprio Flamengo,

Carmen passou a ser torcedora do clube e a acompanhar as regatas. E,

como namorada de um famoso sportsman, tinha acesso à tribuna especial do

Pavilhão de Botafogo, onde as moças exibiam chapéus e toaletes. Mas era

toda a cidade, com os seus deslumbramentos, que se abria para ela. Em

fins dos anos 20, começava no Rio o uso da praia a toda hora, para lazer

ou mesmo volúpia, e não mais de cinco às oito da manhã, para fins

"medicinais". Com Mário Cunha para transportá-las, Carmen e suas irmãs

abandonaram a velha praia do Boqueirão, a que iam a pé, de tão pertinho,

pelas praias mais distantes e bonitas, na Urca, no Lido ou em frente ao

Copacabana Palace, onde havia os melhores balneários - bares e

restaurantes com acomodações para se tomar uma chuveirada e trocar de

roupa. Os próprios trajes de praia estavam ficando galopantemente mais

leves: caíam aqueles tétricos vestidos frouxos, com gola à marinheira e

touca, e surgiam os primeiros maiôs, com um saiote que deixava à mostra

metade das coxas (e que logo seria também abolido, revelando a perna

inteira). Carmen, com a boquinha em coração, axilas sem raspar e uma

pinta a lápis que dançava em lugares diferentes de seu rosto, foi

assídua personagem dessas transformações.

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À noite, em qualquer época do ano, a vida no Rio parecia intensa para

eles - às vezes, intensa demais. Carmen e Mário Cunha podiam escolher

entre uma serenata na Glória; um sorvete- dançante no Catete; o footing

noturno, ao cheiro gelado do mar, na Praia do Flamengo ou na avenida

Atlântica; o rinque de patinação da praça do Lido e, a partir de 1928,

jantar e dançar ao som da orquestra Kolman no Pavilhão Normando, também

no Lido, sem falar nos bailes de Carnaval que se realizavam ali e que

iam até às onze da manhã seguinte. Havia ainda os bailes ao som de

Pixinguinha na sede do Fluminense, nas Laranjeiras, onde Mário Cunha,

apesar de sua ligação umbilical com o Flamengo, era muito bem recebido.

Há registros da presença deles em todos esses lugares, nos quais, por

serem instâncias em que os jovens formavam a grande maioria, pairava

sempre uma atmosfera de flerte e conquista. Mas Carmen só tinha olhos

para Mário Cunha.
Sua paixão por ele era absoluta, como se vê pelas dedicatórias das fotos

cuidadosamente posadas, que tirava em estúdios da avenida Rio Branco e

lambe-lambes do Passeio, e de que lhe fazia presente a mancheias. Os

dois chamavam um ao outro de Bituca, ou pelo menos Carmen se assinava e

o chamava assim (às vezes assinava-se Carminha e o chamava de Marinho ou

Marico): "Para o meu Bituca, oferece a sua Vênus de Milo" (Carmen, mais

do que ciente de suas formas); "Ao meu moreninho piquinininho, com um

milhão de beijinhos da sua nenenzinha, sim? Sim?" (os diminutivos

infantis e os sins com interrogação, marcas de Carmen); "Marinho, meu

único amor, como eu te amo, minino. Como eu tenho ciúmes de ti, meu

Marinho, se tu soubesses... Meu Marinho, como eu te adoro e te desejo"

(Carmen, mal conseguindo conter seus calores). Com esse desejo tão

incendiário e, claro, recíproco, era inevitável que o namoro fosse além

dos beijos e afagos em lugares públicos. E, como era inevitável,

aconteceu.
Homem de seu século e de sua década, fascinado pela nova velocidade,

Mário Cunha tinha sempre à mão um carro ou moto último tipo. Gostava de

contar como, ao descer chispado a rua Santo Amaro numa Harley-Davidson,

o bonde surgiu sem aviso à sua frente. Freou com força e foi projetado

da moto. Incrivelmente, atravessou voando o bonde, caiu do outro lado da

calçada e não se machucou. Incrível, mesmo - mas, se Carmen não

acreditava nessa história, Mário Cunha nunca percebeu. Num misto de

hobby e negócios, Mário vivia trocando de carro: importava um deles,

usava-o para exibi-lo pela cidade e o vendia, sempre com lucro (afinal,

era o carro "do Mário Cunha"), para comprar um novo. Um dos que

conservou por mais tempo foi uma barata Ford, em que às vezes

"seqüestrava" Carmen para lugares então remotos, como o Joá, o Alto da

Boa Vista e, mais remoto ainda, Jacarepaguá, que, para o carioca, era

uma espécie de sertão. Em fins dos anos 20, esses bairros do Rio,

acessíveis apenas a quem fosse motorizado, eram desertos e ideais para

carícias mais radicais - e sem irmãs por perto. Em algum deles,

escondidos entre pés de cambucá ou de abio, e com trilha sonora de

canários e coleiros, Carmen e Mário Cunha foram às últimas

conseqüências.

30
A depender do fogo de Carmen, não havia por que esperar para ter sua

primeira relação. E o implacável Mário também não era de deixar para

depois. Os dois fizeram amor pouco depois de se conhecerem, com Carmen

absolutamente "de menor" e Mário Cunha arriscando-se a aborrecimentos

caso algo desse errado. Mas nada deu errado - ao contrário. No futuro,

ela diria que, ao perder a virgindade, só sentira algo parecido com "uma

dorzinha de dente; culpa, nenhuma".


Essa ausência de culpa pode parecer estranha em uma jovem educada por

uma mãe como dona Maria, tão religiosa e ciosa dos sacramentos. Não

esquecer, no entanto, que ao redor de Carmen em criança havia a Lapa, de

cujo surgimento ela foi contemporânea - assim como seria, depois, da

Cinelândia e da praia. Todos esses eram enclaves onde as noções de

pecado e culpa eram, no mínimo, relativas. E, como não há memória de

crise na família por causa do assunto, é de se supor que dona Maria não

tenha ficado sabendo logo, ou que a verdade só lhe tenha sido revelada

muito depois, quando Carmen já estava em outro patamar. Patamar que

Carmen galgaria subindo os degraus de dois em dois.


De braço com Mário Cunha, passara a circular num meio privilegiado, em

que as moças cortavam os cabelos à la garçonne, fumavam sem tragar,

cruzavam as pernas em público e se misturavam às profissionais chiques

nos fins de tarde - heure bleue - na Colombo. Essas moças tinham

diplomatas e políticos na família, falavam uma ou duas línguas, liam

Colette e D"Annunzio, freqüentavam a Hípica, o Yacht e o Aeroclube,

praticavam esportes como tênis ou arco-eflecha e se vestiam por Londres

e Paris. No inverno carioca, então muito mais frio e sujeito a neblina,

saíam à rua embrulhadas em mantos forrados de peles. Mas, no verão,

comportavam-se como cariocas - eram as primeiras a aparecer de maiô nos

clichês de Beira-Mar, o jornal-society de Copacabana, dirigido pelo

escritor Théo-Filho. De algumas, sussurrava-se que eram "moças livres",

porque se sabia que tinham relações sexuais com os namorados. (E, exceto

pelo banco traseiro das baratas, onde isso acontecia? Nas garçonnieres

dos rapazes, que ficavam em prédios comerciais de ruas como Santa Luzia

ou Senador Dantas, no Centro - mais discretos que o Hotel Leblon, no pé

da avenida Niemeyer, ou que os edifícios de apartamentos da Glória ou do

Flamengo.) Pela posição social de suas famílias, ou pela simples

independência em relação a seus pais, essas moças passavam ao largo de

certas condenações morais.


Carmen estava longe de ter um pedigree como o delas, mas seu à-vontade

nesse meio era absoluto. Para todos os efeitos, ela era a namorada de

Mário Cunha, não a caixeira da loja de gravatas. Na verdade, Carmen

conquistava qualquer meio com seu temperamento radiante, cômico,

espontâneo e franco - os próprios palavrões que disparava como se fossem

vírgulas eram mais aceitos nesse ambiente do que entre suas colegas de

balcão. E, ao mesmo tempo que divertia os amigos de Mário Cunha e se

divertia, Carmen observava - e aprendia depressa. Sua família também

aprendia depressa.
Depois que Carmen passara a ter vida amorosa, suas dedicatórias nas

fotos para Mário Cunha continuaram infantis, mas refletiam a nova

situação:
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"Eu te quero muito, meu Marinho. Não quero que o meu amorzinho pense que

essa piquinininha deseja outra pessoa na vida. Eu só quero a ti, meu

idolatrado maridinho. [...] Meu minino, fostes tu o primeiro que me

ensinastes a gozar a vida" (Carmen tentando mostrar a Mário Cunha que só

se entregara a ele por amor). Ou: "Meu maridinho... Meu grande e

profundo amor. Minha alegria. Meu Marinho, como eu te desejo quando

estou longe de ti. Meu Marinho, como eu sinto que te adoro,

piquinirünho, e tu não acreditas. Hominho de meus sonhos. Meu maridinho.

Sim? Sim? Sim?".
"Maridinho"? Sim. Mas Mário Cunha - com quem Carmen ficaria por sete

anos, dos dezesseis aos 23 - seria apenas o primeiro namorado que ela

chamaria assim. Como se, para Carmen, a paixão, por si só, já

configurasse um casamento.


Para Olinda, ferida no seu íntimo, a paixão era outra coisa. A vida

perdera o sentido para ela ao saber que seu noivo engravidara uma mulher

com quem teria de se casar. O choque deu lugar à depressão. Sair para o

trabalho, ir ao teatro, cantar, dançar, pintar-se e até comer, nada mais

tinha graça. A fraqueza e a perda de peso se instalaram e, em pouco

tempo, começaram a tosse, a febre, os suores noturnos e os primeiros

vestígios de sangue no escarro. Para o médico da família, doutor Agenor

Porto, não havia dúvida: tuberculose pulmonar. Foi tão rápido que,

segundo ele, era certo que, desde a Lapa, o organismo de Olinda já

hospedasse o bacilo, que afinal se manifestara porque ela parecia ter

abdicado da vida.
Desde o século xix, a tuberculose era considerada a "doença romântica",

por atingir músicos, atores e poetas. Na verdade, atingia todo mundo,

mas somente aqueles eram famosos. Para a família, Olinda ficara

"tuberculosa de paixão". Em 1925, qualquer que fosse a causa, esses

diagnósticos eram apenas uma filigrana poética para uma quase inevitável

condenação à morte.


Sete anos antes, a família de seu Pinto passara incólume por uma ameaça

ainda mais assustadora, porque súbita e maciça: a "gripe espanhola",

que, em quinze dias de outubro de 1918, dizimara 15 mil pessoas no Rio.

Fora uma epidemia trazida pelos navios que vinham da Europa e, dizia-se,

provocada pelos cadáveres insepultos da recém-finda Primeira Guerra. A

"espanhola" atacara a população carioca sem distinção de classe, matando

desde favelados até famílias inteiras de classe média, e o próprio

presidente da República eleito, Rodrigues Alves. A família de seu Pinto


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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