Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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para a Rádio Mayrink

Veiga e para vários jornais e revistas -, o começo não parecia muito

auspicioso. E foi com o

coração pesado que ele tomou o seu lugar na estréia de Street of Paris em

Boston, na noite de 29

de maio. Sua apreensão durou exatamente uma hora - tempo que levava para

Carmen entrar em

cena.
Aos sessenta minutos cravados do primeiro ato, um cantor mexicano atacou

uma rumba (!),

acompanhado pela orquestra e pelas dezenas de "girls" - César explicaria

depois que, segundo

o diretor Edward Dowling, a rumba era

para "marcar o contraste com o ritmo brasileiro". Ao fundo, um letreiro

começou a piscar

anunciando o nome de um cabaré: Páteo Miranda. Finda a rumba, todo o

elenco no palco gritou,

como se a convocasse:


207

"Miranda! Miranda! Miranda!"


Ouviu-se o ritmo do samba. Um lance de cortina, e os seis rapazes do

Bando da Lua já

apareceram tocando, como um batalhão de choque. Carmen, de baiana, surgiu

entre eles,

esbanjando malícia, sensualidade e graça em "O que é que a baiana tem?".

Os microfones

camuflados no chão permitiam que ela cantasse, dançasse e evoluísse pelo

palco com toda a

liberdade - e Aloysio diria depois que, aquela noite, ali estava uma

Carmen que ele próprio

nunca tinha visto:
"Os olhos não brilhavam: faiscavam. Seus movimentos pareciam ter sido

preparados por uma

Eleonora Duse."
Carmen emendou com a suavidade bem-humorada de "Touradas em Madri", o

quebra-língua de

"Bambu, bambu", e, já com a platéia nas mãos, preparou-se para encerrar

com "South American

way", que continha as únicas palavras em inglês em todo o número. Até

aquele instante, só

pronunciara sons que, para quem não fosse brasileiro, poderiam muito bem

ser confundidos com

neo-aramaico ou sânscrito arcaico. Mas, para os atarantados bostonianos,

não era a música que

importava e, menos ainda, as palavras. Era toda a presença de Carmen, com

as duas cestinhas de

frutas na cabeça, a festa de balangandãs sobre o peito, a flamejante saia

de losangos e as

inacreditáveis plataformas - tudo em movimento, formando cores e padrões

que ninguém ali vira

num palco, ao ritmo infeccioso daqueles violões e tambores.
Durante seis minutos, o espetáculo fora dela. Quando Carmen encerrou e se

curvou, ainda ao som

do Bando da Lua, a platéia de Boston começou a aplaudir e a gritar seu

nome. Não queriam

deixá-la ir embora. Nas coxias, Abbott & Costello estavam prontos para

entrar e fazer o grande

número de encerramento do primeiro ato. Mas, enquanto os espectadores

continuassem com

aquela algazarra, teriam de esperar. O show parará - a glória suprema do

teatro. Carmen e o

Bando precisaram "estender" a duração de "South American way" - para

irritação de Abbott &

Costello -, e depois voltar para mais aplausos. Quando Carmen finalmente

saiu, a dupla

americana entrou quase sob vaias, e o espetáculo caiu a uma temperatura

polar.
Em 1939, Bud Abbott e Lou Costello estavam longe de ser garotos. Abbott,

que fazia o strmght-man

brusco e mal-humorado, já tinha 44 anos. Costello, o cômico gordinho e

genial, era mais

novo, mas nem tanto: 33 anos. Os dois já contavam décadas de estrada no

vaudeville em carreiras

separadas, e só sentiram que tinham um futuro quando se conheceram e

formaram a dupla em

1936. Mesmo assim, Costello era complicado: bebia para valer, perdia

muito dinheiro no jogo e,

de vez em quando, seu coração lhe mandava uma carta de demissão. Streets

of Paris era a

primeira grande chance da dupla num espetáculo destinado à Broadway - a

oportunidade pela

qual tanto esperavam. E,

então, a poucos minutos de se consagrarem, estavam sendo caroneados por

uma cantora sul-

americana que acabara de chegar aos Estados Unidos falando um inglês

atroz e que ninguém

conhecia.

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Foi isso que os críticos perceberam na noite da estréia e escreveram no

dia seguinte:


"Os brasileiros é que deveriam fechar o ato. E precisam aparecer mais",

disse um deles.


Shubert, que estava no teatro, também percebeu. Impiedoso, mandou Dowling

inverter as

posições de Carmen e Abbott & Costello no fim do primeiro ato. Mas não

estava sendo impiedoso

- era apenas um homem de teatro. Afinal, Carmen tinha parado o show, e

não é todo dia que isso

acontece. A partir da segunda noite, o privilégio de fechar o ato caberia

a ela. Sem ter de sair às

pressas para a entrada dos comediantes, Carmen e o Bando da Lua puderam

esticar o número e ir

ficando enquanto a platéia aplaudisse.
"Carmen está promovendo uma indigestão de samba na turma embasbacada de

Boston", escreveu

César Ladeira no Correio da Noite.
Inúmeros artistas americanos trabalharam por dez anos ou mais para

conquistar a glória de fechar

um ato. A maioria morreu sem conseguir. Carmen só precisou de seis

minutos para isso.


Nada mau para quem chegara aos Estados Unidos havia apenas doze dias.
Numa tarde de turfe, o Hipódromo de Boston batizou um de seus páreos em

homenagem a

Carmen. De luvinhas brancas, ela acenou da tribuna de honra e foi muito

aplaudida; desceu para

cumprimentar o jóquei vencedor e foi aplaudida de novo. Shubert pensava

ficar com Streets of

Paris somente uma semana em Boston, até o dia 4 de junho, para apertar os

últimos parafusos e

estrear na Broadway no dia 12. Mas, quando os jornalistas de Nova York

começaram a chegar à

cidade expressamente para ver Carmen, percebeu que uma semana a mais em

Boston, até o dia

11, aumentaria a expectativa em Nova York, geraria muito espaço grátis na

imprensa e faria a

peça chegar rutilante ao Broadhurst Theatre no dia 19.
Shubert concluiu que estava certo quando o Rainbow Room, um cabaré de

Nova York cobiçado

por muitos artistas, preferiu não esperar pela chegada de Streets of

Paris à Broadway. Seus

emissários foram a Boston oferecer-lhe quinhentos dólares por semana para

Carmen e o Bando da

Lua se apresentarem no seu palco, no septuagésimo andar do edifício da

RCA Victor. Pois

Shubert recusou - achou pouco. Para que negociar Carmen às pressas, se

ele já sabia que tinha

em mãos um bilhete premiado?
Depois de duas semanas parando o show todas as noites, e tendo que bisar

"South American

way", Carmen e a companhia voltaram para Nova York no dia 12, segunda-

feira. Por mais alguns

dias - e pela última vez na vida -

ela ainda pôde passear pela Quinta Avenida como uma terráquea anônima. Já

era uma pequena

celebridade, mas restrita ao meio da imprensa e das pessoas que se

interessavam por teatro. Isso

ainda não era suficiente para que a reconhecessem nas ruas.


209

Os que se viravam para olhá-la o faziam pelo exotismo das roupas e dos

sapatos ou pela beleza

de sua figurinha. Mas, a partir das dez da noite da segunda-feira

seguinte, 19 de junho de 1939,

todos os olhares na sua direção saberiam para quem estavam indo: Carmen

Miranda, Streets of

Paris, Broadhurst Theatre, Nova York, NY.


Dez da noite - cerca de setenta minutos do primeiro ato do espetáculo de

estréia. Foi quando

Carmen tomou de assalto o palco de Streets of Paris no Broadhurst, tal

como fizera em Boston.

Mas, aqui, já com uma palpitante expectativa criada pela imprensa e com a

presença de todos os

críticos de jornais e revistas - de volta às pressas de seus chalés nas

montanhas para assistir a

uma revista de Shubert que, em condições normais, seria caridosamente

ignorada. Era uma estréia

de gala, com toilettes de noite e smokings, e teatro lotado apesar da

chuva daquela noite.


Dois dias antes, César Ladeira já mandara dizer pelo Correio da Noite:

"Não há mais lugares para

a primeira noite. Trezentos críticos [sic] de jornais e revistas

americanos comparecerão à estréia

de Streets of Paris. Segunda-feira será, portanto, a noite que decidirá

definitivamente o sucesso de

Carmen nos Estados Unidos. A nossa "pequena notável" possui todos os

atributos para vencer. E

vencerá - é a minha opinião".
A própria Carmen não estava tão segura. Aloysio de Oliveira também sabia

que a prova de fogo

estava na Broadway, mas tentava tapeá-la:
"Olha, Carmen. Não vá ficar nervosa. Você já passou por Boston. Nova York

é a mesma sopa."


O Broadhurst, na Rua 44 Oeste, entre a Sétima e a Oitava Avenida, era uma

das jóias dos Shubert.

Quatro anos antes, um ator desconhecido se consagrara naquele palco:

Humphrey Bogart, no

papel do assassino Duke Mantee em A floresta petrificada (The petrified

forest), de Robert

Sherwood, com Leslie Howard. E nem tivera tempo de bisar o sucesso em

outra peça - fora

direto para Hollywood, na pele do próprio Mantee.
Carmen entrou com "Bambu, bambu" à máxima velocidade. A platéia recebeu-a

em silêncio -

atônita - e levou trinta segundos para reagir. Foi o tempo que algumas

pessoas precisaram para

começar a se mexer na cadeira, picadas pelo embalo incompreensível, mas

irresistível das

palavras:
Olha o bambo de bambu, bambu Olha o bambo de bambu, bambu-le-lê
E olha o bambo de bambu, bambu-la-lá
Eu quero ver dizer três vezes bambu-lê, bambu-la-lá.
210

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os

textos de Ibsen, Shaw e

O"Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen "cantava" com

as mãos, os olhos, os

quadris, os pés - "O que é que a baiana tem?", "Touradas em Madri" e

"South American way",

pela nova ordem - e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que

dispensavam

tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso

"Souse American way",

que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava

falando numa língua

que a platéia de Nova York, habituada às grandes estréias, estava farta

de entender: a do talento,

talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes -

entre duas cortinas,

transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número

de Carmen e o

primeiro ato de Streets of Paris terminaram em apoteose e consagração.

Entre os drinques,

cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do

teatro, só um assunto

interessava: Carmen Miranda.


Quando chegou ao camarim, Carmen já o encontrou abarrotado de flores. Os

telegramas vinham

do Rio e de Nova York - um deles, do compositor Jimmy McHugh, dizendo:

"Potatoes! Potatoes!

Potatoes!". César Ladeira perguntou a Carmen o que aquilo significava.
"É que, nos ensaios de "South American way", quando eu gostava de alguma

coisa, dizia ao Jimmy

que estava "na batata". Ele quis saber o que queria dizer e eu expliquei:

"It"s potatoes!". Parece que

ele também gostou!"
Ao fim do espetáculo, ninguém queria sair do teatro - o pessoal de

Shubert, seus pequenos

investidores, os amigos do elenco. E ninguém queria ir para casa. Em meio

ao violento

engarrafamento na Rua 44 provocado pela peça, o elenco espalhou-se pelos

cafés nas imediações

do teatro, para esperar os matutinos que já trariam as primeiras

críticas. As xícaras e os copos iam

sendo tomados sob grande nervosismo, enquanto Aloysio, de quinze em

quinze minutos, ia às

bancas do quarteirão para ver se os jornais tinham chegado. Numa dessas,

voltou carregado. Leu

as críticas para eles.
A maioria arrasou Streets of Paris, classificando-a de medíocre para

baixo, com duas brilhantes

ressalvas: Abbott & Costello, que, apesar de tudo, mereceram elogios - e

a rendição

incondicional a Carmen e ao Bando da Lua.
"Uma nova e grande estrela nasceu na Broadway. Carmen Miranda e o Bando

da Lua são as

únicas coisas que conseguem tirar o teatro do marasmo em que se encontra

devido à Feira

Mundial", escreveu Walter Winchell no Daily Mirror.
Não era qualquer um dizendo isso. Era Winchell - e não só no Daily

Mirror, mas nos 2 mil jornais

que reproduziam sua coluna, e em seu programa diário na cadeia de rádio

ABC, que atingia 55

milhões de ouvintes. De sua mesa

no Stork Club, na Rua 53 Leste, onde os poderosos iam beijar-lhe a mão,

Winchell influía em

Nova York, Washington e Hollywood. Roosevelt gostava dele, mas isso fazia

pouca diferença. O

importante é que ele gostava de Roosevelt. E, como ele gostara de Carmen,

ela estava feita. O

apreço de Winchell por Carmen era ainda mais marcante porque ele e

Shubert eram brigados.

Shubert detestava Winchell e o barrava de todas as suas estréias. Mas

Winchell, quando se

interessava por um espetáculo, ia a um try-out em alguma cidade. Fizera

isso com Streets of Paris

em Boston e se deixara hipnotizar por Carmen.


211

Os outros jornalistas não esperaram por Winchell para dar sua opinião.

Todos já tinham a sua -

que, por coincidência, era a mesma. John Anderson, do New York Journal-

American: "Miranda

parou o show, parou o trânsito na Rua

44 e provavelmente foi registrada no sismógrafo Fordham. Essa máquina,

embora habituada a

terremotos, está tremendo até agora. [...] Miranda é o maior evento em

nossas relações com a

América do Sul desde o canal do Panamá [sic]". Wilella Waldorf, do New

York Post: "Pode-se

ver o branco de seus olhos desde a 25- fila... e o efeito é devastador".

Clifford Adams, de uma

agência de notícias: "Ela é brasileira, e estaremos sempre em dívida para

com o Brasil por nos tê-

la mandado. Não há palavras em inglês ou em qualquer língua para fazer

justiça a essa artista. Ela

é a personificação de tudo". O veterano Brooks Atkinson, do New York

Times: "O calor que ela

irradia vai sobrecarregar as fábricas de ar-condicionado neste verão". E,

mal as luzes do teatro

tinham se apagado, os jornalistas americanos, loucos por aliterações,

começaram a procurar

slogans para defini-la. Surgiram "The siren from South America" (a sereia

da América do Sul),

"The Latin lallapalooza" (a labareda latina), "The pearl of the pampas"

(a pérola dos pampas) e

outras asneiras. Earl Wilson, do Daily News, teve o melhor achado e o que

pegou: "The Brazilian

bombshell" - a granada brasileira.
Dias depois, saíram as revistas, e a adoração por Carmen continuou

ilimitada. Wolcott Gibbs, em

The New Yorker: "Ela é uma "Flammenwerfer" [lança-chamas] brasileira, que

canta em sua língua

natal e ondula as mãos de um jeito que provocou em meus colegas emoções

difíceis de descrever

com discrição". Henry F. Pringle, na Collier. "Carmen poderia ter sido

descoberta há mais tempo,

se não fosse o bárbaro provincianismo dos Estados Unidos". Um articulista

anônimo da Look:

"[Carmen] cantou coisas que ninguém entendeu, mexeu os braços e o corpo,

revirou os olhos e -

zás! - conquistou a Broadway".
Conquistou mesmo - não havia outra definição. Na noite de estréia, antes

de o pano subir, o

nome de Carmen fora promovido ao quarto lugar na marquise do Broadhurst,

atrás de Bobby

Clark, Luella Gear e Abbott & Costello, e assim ficou durante a semana.

Na segunda semana,

pulou para o primeiro lugar. No primeiro mês, a revista Playbill,

preparada com muita

antecedência, ignorou o seu nome ao tratar da peça. No mês seguinte, sua

foto foi para a capa.

Outro indício foram os ingressos: na bilheteria do Broadhurst,

saíam a 4,40 e 6,60 dólares. Mas, poucos dias depois da estréia, certos

lugares só podiam ser

encontrados nas mãos dos cambistas - a cinqüenta dólares por cabeça. E

nem por isso o teatro

deixava de lotar.

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Look e Colher já tinham tocado no assunto, mas foi a revista Click, com



Carmen na capa, que

sintetizou tudo ao dizer, "Carmen Miranda - A garota que está salvando a

Broadway da Feira

Mundial". Referia-se aos excedentes de Streets of Paris - os que voltavam

da porta do

Broadhurst todos os dias e, para não perder a noite, iam procurar as

outras atrações da

vizinhança. Não que a Broadway estivesse em falta de grandes peças.

Concorrendo com Streets

of Paris, em todas as semanas que a revista ficou em cartaz, podia-se

escolher entre Abe Lincoln

in Illinois, de Robert Sherwood, com Raymond Massey; The littlefoxes, de

Lillian Hellman, com

Tallulah Bankhead; No time for comedy, de S. N. Behrman, com Katharine

Cornell; e The

Philadelphia story, de Philip Barry, com Katharine Hepburn (escrito

especialmente para ela),

Joseph Cotten e Van Heflin. Todas essas peças ficariam como clássicos do

teatro americano -

mas, em junho de 1939, estavam às moscas na Broadway, porque o grosso da

manada preferia ir à

Feira Mundial para apreciar a mulher-gorila ou saltar do pára-quedas a 75

metros de altura. Foi

Streets of Paris que levou o público de volta para elas.


Shubert não gostava que seus artistas recebessem fãs dentro do teatro -

principalmente os que

levavam flores ou champanhe, produzissem uma grande quantidade de lixo e

ameaçassem

incendiar a casa com seus cigarros, apesar dos avisos de proibido fumar.

Mas, quando se tratava

de visitantes brasileiros, Carmen não respeitava a proibição. Ao receber

um cartão em português,

ou ao saber que era alguém do Rio, gritava lá de dentro do camarim:
"Espera eu tirar a beca!" - como se a pessoa pudesse ouvi-la -, e logo se

despencava de roupão

pela escada para falar com a visita.
Shubert era compreensivelmente mais liberal quando o visitante era uma

celebridade da

Broadway ou de Hollywood, como Claudette Colbert, Paulette Goddard, Ethel

Merman, David

Niven, Edward G. Robinson, Claire Trevor, Martha Raye, Joan Fontaine -

todos foram ao

camarim de Carmen para cumprimentá-la.
Poucos meses antes, no Rio, ela pagava ingresso para vê-los na tela do

Palácio ou do Metro, e

suspirava com seus dramas. Agora eram eles que iam render-lhe homenagens

e, se Carmen se

deixasse embriagar pelo sucesso, ninguém poderia censurá-la. Não

esquecer, porém, que ela não

era nenhuma principiante - bem ou mal, já tivera a sua cota de bajulações

e beijos.


Outra celebridade que Carmen recebeu no Broadhurst foi o almirante Gago

Coutinho, herói da

aviação portuguesa que, com Sacadura Cabral, realizara em 1922 a primeira

travessia aérea do

Atlântico Sul, de Lisboa ao Rio. O velho Gago elogiou-a, mas, ao sabê-la

nascida em Portugal,

perguntou-lhe:
213
"Portanto, minha filha, por que é que não canta um fado ou um vira, em

vez de sambas? E, em vez

de "O que é que a baiana tem?", por que é que não canta "O que é que a

menina do Minho tem?""


Shubert tinha suas idiossincrasias, mas sabia ser grato. No dia 21, dois

dias depois da estréia em

Nova York, passou um comovido cabograma para Clairborne Foster no Rio,

falando de como

devia tudo aquilo a ela. Clairborne respondeu: "Querido Lee. Foi gentil

de sua parte nos contar

imediatamente do grande sucesso de Carmen. Desnecessário dizer que Jay e

eu estamos radiantes

com a notícia. Estava rezando para que ela não nos decepcionasse, embora

eu não acreditasse

que isso pudesse acontecer. Obrigada por se lembrar de nós no meio de

toda a excitação.

Clairborne". E, com indisfarçável satisfação, informou: "Josephine Baker

está no Cassino da Urca,

fazendo uma imitação de Carmen - perfeitamente horrível".
Clairborne e a torcida do Flamengo souberam do sucesso de Carmen, mal a

cortina do Broadhurst

acabara de cair. Os vespertinos deram logo no dia seguinte à estréia, com

foto na primeira página

e acurada descrição. Mas ninguém podia superar O Globo, porque seu

correspondente em Nova

York estava numa posição privilegiada: dentro do palco, com um pandeiro

na mão, a dois metros

de Carmen - evidentemente, Oswaldo Eboli, Vadeco. Mas nem sempre era ele.

Em O Globo de

26 de junho, o redator anônimo resumia o sentimento geral: "Indo além de

todas as expectativas, a

criadora de "O que é que a baiana tem?" nos encheu de orgulho e vaidade.

A música popular

brasileira está em festa. E lá, na América, entre as luzes da Broadway,

que riscam em claridades os

nomes famosos dos grandes cartazes, ela pensa no Brasil, principalmente

neste seu mundo

carioca, onde os fãs recebem com o maior contentamento as notícias de

suas vitórias".


No dia 27, por intermédio da rádio americana NBC, César Ladeira fez um

programa com um

show do Bando da Lua na Feira Mundial, direto para o Brasil pela Mayrink

Veiga, em

combinação com O Globo e o Cassino da Urca. Carmen estaria lá - não

poderia cantar, por seu

contrato com Shubert, mas podia ser entrevistada. César falou da imensa

saudade que ela deixara

no Rio e contoulhe que estava todo mundo orgulhoso pela "vitória do

samba" na Broadway.


A "vitória" era sempre da música popular brasileira ou do samba - não

dela. A resposta de

Carmen podia revelar um travo de gozação:
"Sim, foi mesmo um desacato. Um não-sei-que-diga!"
No Rio, Braguinha aceitara o convite para ouvir a irradiação na casa da

família de Vadeco, no

Catete. Quando César anunciou o Bando da Lua como "um conjunto de ritmo e

melodia


autenticamente brasileiros", ele se grudou ao rádio para escutar melhor.

Mas, assim que o Bando

declarou que abriria os trabalhos com a marchinha "Laia", dele e de

Alberto Ribeiro, Braguinha

saiu pela sala, aos berros:
"Não! Essa, não! Qualquer uma, menos essa!"

214
O Bando da Lua não o ouviu e atacou de "Laia" - cuja melodia era

descaradamente a de "On

the trail", um tema encantador da Grana Canyon Suite, composta por Ferde


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
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2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
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