Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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in a million, 1937), Ela

e o príncipe (Thin ice, 1937, e o príncipe era Tyrone Power) e Feliz

aterrissagem (Happy landing,

1938). Suas pernocas de bailarina, saindo da calcinha sob o saiote

plissado e terminando nos

patins em forma de botinhas, combinadas ao rosto de boneca e ao infalível

sorriso, provocaram

salivações numa massa de tarados potenciais - alguns até passaram a se

interessar por patinação.

A Fox chamou-a de "A Pavlova dos rinques" e construiu-lhe um rinque de 80

mil dólares no meio

do estúdio. Sonja era a melhor coisa a vir da Noruega desde o bacalhau e

o Papai Noel.
Mas quem a via na tela, tão doce e angelical, não imaginava que, fora das

câmeras, Henie

pudesse ser uma águia sobre o território americano. Além dos filmes,

armou uma companhia para

seus espetáculos ao vivo; montou uma linha de produtos (patins, luvas,

bonecas) que lhe rendia

uma fortuna; abriu escolas de patinação com seu nome em vários estados; e

ainda era ela quem

alugava para a Fox o equipamento que mantinha gelado o rinque do estúdio.

Durante seus dois

primeiros anos nos Estados Unidos, foi a atriz que mais faturou em

Hollywood. Infelizmente, seus

filmes só funcionavam quando ela estava em cena e, de preferência,

patinando. Bastou que Minha

boa estrela (My lucky star,

1938), Dúvidas de um coração (Secondfiddle, 1938) e Idílio nos Alpes

(Everything happens aí

night, 1939), um atrás do outro, fossem mal na bilheteria para que

Zanuck, que nunca a suportara,

desligasse a tomada da geladeira. Naquela noite na Urca, Sonja ainda não

sabia, mas seu status

de maior estrela da Fox já começara a derreter e ela só voltaria a filmar

em 1941. Se contratasse

Carmen, seria para seu show itinerante - seria possível imaginar Carmen

com uma baiana de

arminho, um turbante de pele de foca e calçando patins de plataforma,

sambando "O que é que a

baiana tem?" sobre uma camada de gelo?


Mas, se Shubert estava indeciso, foi o impulso de Sonja Henie que o fez

pedir a Clairborne e

Maxwell Rice para conduzi-lo à mesa de Joaquim Rolla, ao fim do primeiro

show, para ele dizer

que gostaria de levar sua artista para os Estados Unidos. Rolla respondeu

que isso só dependeria

de Carmen. Tinham um contrato de um ano, recém-assinado e quase todo por

cumprir, mas ele o

rasgaria a qualquer momento se fosse para o bem dela.
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Não era a primeira vez que essa situação se apresentava para Rolla.

Outros empresários

estrangeiros, ou que assim se diziam, já lhe tinham feito "propostas" por

Carmen na Urca. Tudo

blefe. Quando Rolla pegou Carmen no meio do salão e a levou, ainda de

baiana, à mesa de

Shubert, Carmen também não fez fé no homenzinho moreno, com cara de

camundongo, fumando

um charuto maior que ele e que nem parecia americano. (Nem podia parecer:

os Shubert diziam-

se americanos natos, mas eram imigrantes da Lituânia.) Foi preciso que

sua amiga Clairborne lhe

desse a ficha do sujeito: Lee Shubert era apenas o homem mais poderoso do

teatro nos Estados

Unidos.
Shubert dirigiu-se em inglês a Carmen, elogiando-a, e certificou-se de

que ela não entendia

abacate (como ele, ao chegar à América). Quanto a Sonja Henie, claro que

Carmen já a conhecia

do cinema. Mas, se houve um alarido de reconhecimento de uma para a

outra, foi de Sonja. Ficou

extasiada ao ver de perto a baiana de Carmen e poder tocá-la - à

distância, na platéia, não

podia imaginar a textura dos tecidos, a riqueza dos adereços, o requinte

dos detalhes, o brilho do

conjunto. A conversa se prolongou no camarim de Carmen, quando se acertou

que Shubert

voltaria à Urca para vê-la na noite seguinte e que, depois do show, ele

lhe ofereceria um jantar

black-tie no Normandie - e uma proposta de trabalho na América.
Shubert efetivamente voltou ao cassino na quinta-feira para ver Carmen e

escoltá-la ao navio. À

mesa de Shubert na Urca, saído de trás de uma pilastra ou cortina,

juntou-se um inesperado

personagem: seu patrício, dublê de produtor cinematográfico e agente

musical, o sempre alerta

Wallace Downey.
Carmen armou o cabelo no seu melhor coque duplo e escolheu um vestido

"distinto" para o jantar.

Mas, ao entrar no Normandie, de braço com Shubert, foi ficando de boca

progressivamente

aberta. Não era apenas o maior navio do mundo. Era o mais bonito, o mais

rico, o mais chique.

Era a França flutuante. Painéis, tapetes, móveis, cortinas, objetos, tudo

que vestia ou recheava os

salões e corredores da primeira classe fora encomendado aos grandes

artistas franceses de cada

especialidade. Na sala de jantar, por exemplo, os jarros, copos, bibelôs,

estatuetas, abajures e

candelabros eram de cristal por Lalique - até as colunas e paredes eram

de cristal iluminado. Foi

nessa sala (do comprimento da Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes,

com três deques de

altura e capacidade para mil pessoas) que Shubert e seus convidados se

sentaram para jantar e

discutir negócios. Carmen já se habituara ao dinheiro, mas era a primeira

vez que se defrontava

com a opulência.
Shubert lhe falou de um espetáculo que estava preparando para a Broadway

e em que poderia

encaixá-la: uma revista musical intitulada Streets of Paris, com canções

de Jimmy McHugh e Al

Dubin. Apesar do título, e de o francês Jean Sablon estar no elenco, o

clima da revista estaria mais

para o infalível trivial nova-iorquino, estrelando o comediante Bobby

Clark (com seus óculos falsos

pintados ao redor dos olhos), a divertida Luella Gear e uma nova dupla de

cômicos, Abbott &

Costello - com espaço para três ou quatro números por uma cantora e

dançarina "latina", que

poderia ser ela. Shubert mencionou algumas canções, como "Touradas em

Madri" e "O que é que

a baiana tem?" (os títulos lhe foram passados por Clairborne), em que via

possibilidades de

aproveitamento no espetáculo.
O empresário explicou que uma produção como essa, a estrear em maio,

ficaria cerca de um ano

em cartaz, incluindo a excursão por outras cidades depois de concluída a

temporada na

Broadway. Shubert oferecia a Carmen quinhentos dólares por semana - 2 mil

dólares por mês -

e acenava com a possibilidade de ela ser convidada para apresentações em

rádios e nightclubs,

caso em que, como seu agente exclusivo, ele lhe pagaria outros 250

dólares por semana, ou seja,

mais mil dólares por mês. O contrato seria por um ano, tendo Shubert a

"opção" para os dois anos

seguintes, durante os quais aqueles valores semanais subiriam para,

respectivamente, setecentos e

350 dólares, no primeiro ano, e mil e 450 dólares, no segundo.
Como sempre, Carmen fora sozinha para o encontro, sem seus segundos -

como se Shubert fosse

Rolla ou qualquer empresário brasileiro que ela chamava de "degas" e em

cujas bochechas dava

beliscões. Ao discutir aquele que poderia ser o contrato de sua vida,

estava falando por si própria.

Ninguém a representava, ninguém lhe soprava palpites ao pé do ouvido. No

máximo, poderia ser

aconselhada por Clairborne e Maxwell Rice, que, de certo modo, estavam

ali a serviço de

Shubert. A outra palavra "desinteressada" partiu de Marc Connelly, que

assegurou a Carmen que

o senhor Shubert era "um homem honesto" e que, no caso de ela ir para Nova

York, a maneira certa de

cumprimentar alguém nos Estados Unidos era dizer, "I love Marc Connelly".
Para surpresa de Shubert, Carmen não saiu dançando entre as mesas ao

ouvir aqueles números.

Na verdade, para ela, estava longe de ser uma proposta das arábias. Dois

mil dólares fixos por

mês eram cerca de cinqüenta contos de réis - que ela já ganhava na Urca,

depois do último

aumento que arrancara de Rolla. Com tudo o mais que tinha aqui - os agora

sete contos por mês

da Mayrink Veiga, a renda dos discos e as temporadas em São Paulo, Santos

e Buenos Aires, além

dos filmes - seu faturamento médio mensal chegava a muito mais de 3 mil

dólares, que eram o

máximo sugerido por Shubert. (Na verdade, em alguns meses, encostava em 5

mil dólares.)


Shubert argumentou que, enquanto Carmen levara anos para ganhar isso no

Brasil, o que ele lhe

estava oferecendo era apenas um rendimento inicial - e bem razoável,

considerando-se que ela

ainda era desconhecida em Nova York e não falava inglês. As

possibilidades eram muitas, insistiu,

e Carmen teria a seu favor o peso do departamento de imprensa de sua

organização. Na verdade,

era impossível prever tudo que lhe poderia vir de bom, ele concluiu.

Havia o rádio,

os nightclubs e o próprio cinema. A única condição era que seu principal

compromisso seria para

com Streets of Paris e que ela só poderia trabalhar para outros com

autorização dele, Shubert, e

isso lhe custaria 50% do que lhe pagariam.
187

Carmen deixou a conversa inconclusa para ganhar tempo, pensar melhor e

fazer algumas

consultas. No dia seguinte, levou Shubert & Co. a almoçar no restaurante

do Corcovado - talvez

na esperança de que, ao olhar para baixo, para a beleza da cidade que se

derramava dos morros

em direção à baía, Shubert fizesse uma idéia do território sob seu

domínio, e que ela estaria

deixando para trás. Para não falar na família, nos amigos e no namorado -

nominalmente, Carlos

Alberto da Rocha Faria.


Ela já sabia o que Carlos Alberto achava da possibilidade de sua ida para

Nova York: era contra.

Em certo momento nos últimos dias, ele lhe teria dito, de brincadeira ou

não, que "preferia vê-la

morta a embarcando para os Estados Unidos" - sem explicar que medidas

tomaria para impedir

o embarque. Na cabeça de Carlos Alberto, a opção de Carmen teria de ser

entre ele e a viagem.

Mas, se Carmen optasse por ele, o que isso mudaria as coisas para ela no

Brasil? Ao mesmo

tempo, surgia no ar uma outra pergunta que, de certa forma, resolveria

também esse problema:

musicalmente, quem seriam seus acompanhantes em Nova York?
Quando Carmen falou sobre isso a Shubert no Corcovado, ele não entendeu.

A idéia de que ela

quisesse viajar com seus próprios músicos nunca passara pelas cogitações

do americano. Para

ele, Carmen iria cantar músicas "latinas", e Nova York estava cheia de

músicos "latinos" prontos a

tocar com ela. Mas Carmen insistia em ser acompanhada por brasileiros,

que dominassem o

idioma do samba. Lembrava-se de que, em 1931, Carlos Gardel contara a ela

e a Chico Alves em

Buenos Aires que preferira encerrar seu contrato com a rádio NBC, de Nova

York, por não poder

ser acompanhado nos tangos por seus três guitarristas. Ao saber que

Carmen já tinha um grupo em

mente para viajar com ela - um conjunto vocal e instrumental, o Bando da

Lua, composto de seis

elementos -, Shubert preferiu contemporizar. Não valia a pena fechar

questão sobre esse ponto

agora - e, com habilidade, conseguiu deixar o problema dos músicos para

depois. Em vez disso,

pôs-se a discutir sobre as possibilidades comerciais nos Estados Unidos

de outro legítimo artigo

brasileiro: o guaraná.
Carmen telefonou a seu amigo Paulo Machado de Carvalho, proprietário da

Rádio Record, de

São Paulo, de quem, no passado, já recebera bons conselhos. Perguntou-lhe

o que ele achava da

idéia de ela ir para os Estados Unidos mesmo que o dinheiro não fosse dos

mais compensadores.

Paulo de Carvalho respondeu-lhe:
"Acho que você deve ir, Carmen. A coisa parece incerta e pouco rendosa,

mas há certas

vantagens que você precisa levar em consideração. Um sucesso nos Estados

Unidos, mesmo

relativo, aumentará a sua fama na América do Sul. Além disso, há os

programas de rádio, os

nightclubs. E Hollywood. Se,

com tudo isso, você fracassar, pode voltar que eu lhe darei um emprego na

Record até o fim dos

seus dias."

188

Isso definiu Carmen. Um ano antes, numa entrevista, ela se referira à sua



vontade de apresentar-se

por algum tempo em Nova York (como se para coroar a carreira), voltar

para o Brasil, aposentar-

se, casar-se e ter cinco filhos. O que teria a perder aceitando a oferta

de Shubert? Na pior das

hipóteses, um ano (ou menos). E sempre haveria um país - o Brasil - à sua

espera.
Sempre através de Rice, Carmen mandou dizer a Shubert no dia 18, sábado

de Carnaval, que

aceitava a proposta. Em resposta, Shubert falou de sua satisfação por tê-

la entre seus contratados

e comunicou que o Normandie seguiria viagem no dia seguinte. Assim que

chegasse a Nova York,

ele providenciaria o contrato. Os papéis chegariam ao Rio no começo de

março, em duas vias,

para que Rice os traduzisse para o português, Carmen os assinasse, e ele

pudesse começar

imediatamente a publicidade. A partir dali, era só marcar a data da

viagem - sabendo-se que

Carmen deveria estar em Nova York até fins de abril para os ensaios.

Shubert pedia também a

Rice que lhe enviasse as partituras de "Mamãe, eu quero", "Touradas em

Madri" e "O que é que a

baiana tem?".
Com o sim a Shubert, Carmen decidira por sua carreira. Não pela sua

continuação, mas pelo

recomeço dela - sozinha, entre estranhos, numa terra que não conhecia, e

numa língua em que

dominava pouco mais que o good bye, boy. Era como voltar aos dias de

"Taí", quando nenhum

sacrifício importava. Podia preparar-se para ficar cansada - só que já

não tinha vinte anos. Tinha

trinta - acabara de completar. E se, além de tudo, o dinheiro ainda era

uma incógnita, por que

aceitara?
Porque, depois de dez anos de carreira - e por mais que idealizasse uma

mudança de vida -,

Carmen não conseguia se ver em outro cenário que não um palco. Era mais

fácil tocar para a

frente do que parar e pensar. Era mais fácil dizer sim a Shubert do que a

um noivo. Com isso, seus

planos para um casamento e cinco filhos ficavam adiados - e talvez isso

fosse um alívio.


No mesmo dia, Carmen despachou pelo estafeta uma caixa de vestido para

Sonja Henie no

Normandie, contendo uma baiana. A rainha dos patins usou-a na noite

seguinte, no baile de

Carnaval que estourou a bordo quando o navio se afastou da barra e o Rio

se distanciou no

horizonte. Lee Shubert ficou impressionado ao ver os passageiros gritando

em coro "Carmen!

Carmen!" - e, por causa dela, dando a Sonja, por aclamação, o primeiro

prêmio no concurso de

fantasias.
"Faz, Pery! Faz xixi na cama da titia!"
Pery tinha um ano e quatro meses e era filho de Dalva de Oliveira e

Herivelto Martins. Carmen

estava aflita porque março já ia pela metade e os papéis de Shubert ainda

não tinham chegado -

como se ele tivesse mudado de idéia

ou melado a negociação. Então fizera uma promessa: botar uma criança para

urinar em sua cama

todos os dias, até que o contrato chegasse. Crianças aptas a fazer xixi

não faltavam em seu círculo

de amigas, mas Dalva e Herivelto eram seus vizinhos na Urca. Dalva a

visitava com freqüência,

levando o garoto, e Pery tinha preferência. Carmen sentava-o na cama, de

camisinha de pagão e

sem fraldas, e o entupia de guaraná na mamadeira. Mas Pery, nada.


189

Shubert chegara a Nova York em 1 de março e, já no dia 3, mandara o

contrato para Rice, como

combinado. O contrato estipulava que Carmen receberia "não menos que oito

semanas de

salário", declarava que ela era sua artista exclusiva "para todas e

quaisquer formas de

entretenimento", e só fazia uma vaga referência aos "rapazes com quem ela

queria se apresentar".

Num bilhete à parte, Shubert pedia a Rice que lhe telegrafasse assim que

Carmen tivesse o

contrato em mãos. Ou seja, estava com pressa de ver tudo resolvido - e

sem a menor dúvida de

que fizera um grande negócio. (No próprio dia de sua chegada, telefonara

para Dorothy Dey,

colunista do Morning Star, de Miami, para lhe falar de sua contratação

sul-americana.)
Mas, três semanas depois, o silêncio do Rio era total, e Shubert achou

que alguma coisa

encrencara por aqui. Só faltou também fazer uma promessa de botar uma

criança para urinar em

sua cama.
Alguma coisa encrencara, mas não no Rio. Fora o próprio secretário de

Shubert que, em vez de

despachar o envelope por via aérea, mandara-o de navio, como era o

normal. Rice só o recebeu

no dia 27 de março e telefonou logo a Carmen para comunicar-lhe. Por

coincidência, poucas

horas antes, Pery produzira uma vasta poça na cama de Carmen - e, quando

isso aconteceu, ela

o cobrira de beijos exclamando:
"Meu mijão! Meu mijãozinho!"
Rice tentou correr contra o tempo. Ignorou seus afazeres de presidente da

Panair com escritório

no Aeroporto Santos Dumont, traduziu a jato os contratos e levou-os a

Carmen na Urca. Carmen

os assinou, mas escreveu uma carta a Shubert (ditada a Rice e também

vertida por ele para o

inglês) para reafirmar um ponto "da maior importância": a ida do Bando da

Lua. Em sua carta,

Carmen explicava que o Bando trabalhava de forma "independente" e que era

"extremamente

conhecido", não apenas no Brasil, mas também na Argentina e no Chile. O

nome Bando da Lua

significava "Band of the Moon". E ela até se atrevia a uma exigência: a

de que, em toda a

publicidade, o crédito fosse para "Carmen Miranda and Bando da Lua". A

ingenuidade desses

argumentos (como se fizesse diferença para Shubert que alguém fosse

conhecido no Chile ou na

Argentina) só não era maior porque Rice, surpreendentemente, concordava

com Carmen. Ele

também achava que o Bando da Lua deveria ir com ela, e escreveu isso num

bilhete para Shubert:

"Pelo menos por um período inicial, porque o ritmo e o canto únicos da

música popular brasileira

são de difícil assimilação pelos nossos músicos".

190
Pelo tipo de argumentação, e pela infantil exigência de crédito à parte

para o Bando da Lua,

qualquer um entenderia o que estava se passando: Carmen e Aloysio estavam

mais firmes do que

nunca.
Sem dúvida, o Bando da Lua era um conjunto independente e com uma

apreciável carreira

própria. De sua estréia em disco, em 1931, até aquele momento, os rapazes

tinham gravado setenta

músicas e podiam se orgulhar de alguns sucessos: a marchinha que os

revelara no Carnaval de

1934, "A hora é boa", do próprio Aloysio; o grande samba "Mangueira", de

Assis Valente e

Zequinha Reis, lançado por eles em maio de 1935:


Não M, nem pode haver Como Mangueira não há O samba vem de lá Alegria,

também Morena faceira Só

Mangueira tem...,
a impagável marchinha "Laia", de Braguinha e Alberto Ribeiro, também em

1935; um Noel menor, em parceria com Hervê Cordovil, "Não resta a menor

dúvida", mas popular

por ter aparecido no filme Alô, alô, Carnaval!, em 1936; outra marchinha,

a explosiva "Maria boa",

também de Assis Valente, sucesso do Carnaval de 1936; e, naquele próprio

Carnaval de 1939, a

marchinha "Pegando fogo", de José Maria de Abreu e Francisco Matoso:


Meu coração amanheceu pegando fogo Fogo! Fogo!
Foi uma morena que passou perto de mim E que me deixou assim.
Era um cartel de responsabilidade.
Naqueles anos, o Bando da Lua tinha dado incontáveis shows e aparecera de

graça em outros

tantos eventos beneficentes. As instituições os disputavam porque eles

eram rapazes "de família",

cantavam bem e faziam um grupo vistoso, sempre na última pinta - ternos

bem passados, os

lenços à mesma altura no bolsinho do paletó, tinta e graxa impecáveis nos

sapatos. E eram

educados, bem informados, sabiam conversar - às vezes, até demais. Seus

colegas, por exemplo,

riam quando Aloysio dizia que tinha se formado em odontologia (quando o

conjunto se

profissionalizou, todos abandonaram os estudos). Mas eles realmente

gozavam de certa

penetração na sociedade e Vadeco, o mais atirado, tinha amigos que iam do

basfond aos altos

escalões do governo. (Tinha amigos também em O Globo, para o qual mandava

matérias de onde

quer que estivesse.)

Sem falar na cancha internacional. A partir de 1934, o Bando da Lua fora

todos os anos a Buenos

Aires, e em alguns anos, mais de uma vez. Na excursão de 1937, quando

Carmen voltou pelo

Uruguai, eles subiram até o Chile, onde cantaram e foram recebidos em

palácio pelo presidente

Arturo Alessandri. Durante a excursão, viram-se em meio a uma tentativa

de golpe de Estado, com

bombas e tiroteios nas ruas de Santiago. Nenhum deles se apertou, e

Vadeco ainda mandou, pelo

telégrafo, relatos sobre a revolução para O Globo.


191

Até então, a ligação do Bando da Lua com Carmen era principalmente de

amizade e pelos shows

que tinham feito juntos na Argentina. No Brasil, às vezes apareciam no

mesmo espetáculo, mas

sempre em números separados. Uma exceção fora a dos dias 23, 24 e 25 de

outubro de 1937, no

Cine-Teatro Broadway, na Cinelândia, quando Carmen, Aurora e o Bando da

Lua entraram no

palco e cantaram, a oito vozes, arranjos especiais de seus sucessos

"Primavera no Rio",

"Ladrãozinho" e "Maria boa", despedindo-se do público para a longa

temporada que iriam fazer

em Buenos Aires.


Carmen e o Bando tinham uma história em comum. Mas, se fosse para tentar

a aventura de Nova

York, o Bando da Lua precisaria resignar-se a ser coadjuvante. A estrela

era Carmen - e não

havia romance com Aloysio que alterasse esse status quo.
No mesmo dia em que recebeu o contrato de Shubert, 27 de março, o

diligente Rice o traduziu,

pegou a assinatura de Carmen nas duas vias, juntou a carta em que ela


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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