Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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Campinas louvaram o seu profissionalismo.

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Em Poços de Caldas, a última escala da excursão, Carmen e Aurora

conheceram um disputado jovem local: Walther Moreira Salles, 26 anos,

pinta de galã e já pronto a dar o salto, de banqueiro da cidade pequena

para banqueiro da cidade grande. Ele gostou de Aurora e, depois do show,

brincaram juntos no baile de pré-Carnaval do cassino. Nas semanas

seguintes, sempre que Walther foi ao Rio, não deixava de convidar Aurora

para sair. Em duas ocasiões, levoulhe caixas de bombons; numa terceira,

um pequeno relógio de ouro. Sabendo quando seria sua próxima visita,

Aurora convidou-o a jantar em sua casa na Urca e até comprou um aparelho

de porcelana para a ocasião. No coração da bela Aurora, a bacalhoada de

dona Maria seria o prelúdio, quem sabe, para a possibilidade de um

noivado. Infelizmente, no dia marcado, Walther deu-lhe o bolo. Aurora

ficou desapontada. Poderia tê-lo perdoado - até descobrir que ele

estivera no Rio aquela noite e saíra com a cantora Alzirinha Camargo,

rival de Carmen em "Querido Adão". Nessas condições, não havia perdão

possível. E já se arrependia de ter comprado o bendito aparelho.
Por sorte, Aurora acabara de conhecer um rapaz chamado Gabriel Richaid.

O aparelho de jantar acabaria compensando amplamente o investimento

porque, dali a um ano, seria usado na recepção que se seguiria ao

casamento deles.


A vida amorosa de Carmen era muito mais complicada. Em 1938, Carlos

Alberto da Rocha Faria escrevera uma dedicatória no verso de uma foto

que dera a Carmen três anos antes: "Para a minha rainha do samba, da

grã-finagem e de muita coisa ruim, oferece este "cara" que só sente não

ser escritor para fazer um romance intitulado "Ela"! (Dedicatória em

janeiro de 1938, com um bocado de experiência!)".


Por que uma dedicatória com tanto atraso? Seja como for, não eram

palavras de um homem apaixonado. Soavam mais como de um fã de Carmen

Miranda, com acesso privilegiado à estrela e ligeiramente ressentido por

alguma coisa - apesar da tentativa de humor no "de muita coisa ruim".

Deslumbrado, também: admirava-a tanto que gostaria de escrever sobre ela

- mas, ao mesmo tempo, distante o suficiente para querer transformá-la

numa heroína de ficção. (E logo qual: "Ela", de H. Rider Haggard, era

uma sacerdotisa branca e imortal que reinava sobre várias gerações de

africanos.) E o que significaria aquele "com um bocado de experiência"?

Eram indícios de que alguma coisa não ia bem no namoro.


Nos primeiros tempos, Carlos Alberto cogitara seriamente casar-se com

Carmen, mesmo que, para isso, tivesse de cortar as amarras com a família

Rocha Faria. Carmen, mais humilde e realista, via a coisa de outra

maneira:
"Você é um príncipe, Carlos Alberto. Já nasceu com uma colher de prata

na boca. Eu sou a filha do barbeiro."

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Carmen estava exagerando a distância social entre eles. Na sua condição

de a maior estrela do show business nacional, já não precisava

rebaixar-se para ninguém. Mas sabia que o casamento com Carlos Alberto

exigiria seu imediato afastamento dos microfones. (Óbvio. Que casamento

é esse em que o marido fica em casa dormindo, enquanto sua mulher sai

toda noite às três da manhã para dar um show no cassino?) O problema,

para Carmen, era trocar sua segurança profissional por alguém que, já

perto dos trinta, como Carlos Alberto, mal conseguia sustentar a si

próprio. (Carmen ganhava pelo menos vinte vezes mais do que ele.) E

havia também a questão da sua própria família. Embora todos os irmãos

trabalhassem, Carmen ainda se sentia responsável por eles e por sua mãe.

Para completar, sua carreira não parava de crescer - seria absurda

qualquer idéia de interrompê-la nesse momento.


Isso podia explicar a dedicatória de Carlos Alberto no verso da foto:

"Para a minha rainha do samba" - referindo-se à opção de Carmen pela

carreira, opção que o excluía. Seu problema de inadequação para com ela

continuava igualmente insuperável. Em todos aqueles anos, Carmen e

Carlos Alberto nunca tinham viajado juntos, nem para se encontrar

"casualmente" em, digamos, Buenos Aires. E raras foram as vezes em que

ele assistira a ela no cassino ou na rádio. Era como se, para Carlos

Alberto, fosse insuportável vê-la no ambiente em que era a deusa.


Para o réveillon de 1939, em que tinha show marcado na Urca, Carmen

mandara vir de Paris um vestido pela Casa Canadá e chamou Carlos Alberto

à sua casa para apreciá-lo. Mas algo no vestido o magoou - talvez o

preço -, porque, quando Carmen se distraiu por um minuto, Carlos Alberto

pegou uma tesoura e a aplicou com ferocidade à roupa, destruindo-a. Era

uma atitude doente, inexplicável - e que não combinava com a educação

dele. Mas, como parecia ser um padrão em seus namoros, Carmen aceitou

passivamente esse e outros rompantes de Carlos Alberto.


Seu namorado nunca soube de episódios que mostravam a aparente

desimportância do dinheiro para Carmen - talvez porque ela o ganhasse em

quantidade - e seus repetidos gestos de generosidade. Carmen cedia

roupas às amigas mais pobres (como sua professora de ginástica Jane

Frick) para que elas pudessem ir vê-la no cassino, ou se "esquecia" de

que Sylvia Henriques lhe tomara emprestados tais ou quais vestidos e

nunca os devolvera. Assis Valente, sempre precisando de uns cobres,

pedia a Carmen que escrevesse bilhetes para o editor musical Vitale

informando que estava para gravar este ou aquele samba de Assis. Isso

servia de garantia para Vitale adiantar a Assis o dinheiro sobre uma

música ainda a ser composta. Quando a música não se materializava,

Vitale cobrava de Assis, que pedia socorro a Carmen - e ela comparecia

com o dinheiro. Em fins de 1937, o empresário teatral Antônio Neves (o

mesmo da fatídica peça Vai dar o que falar, de 1930) convidou Carmen a

tentar de novo o teatro de revista. Carmen considerou a proposta, mas

exigiu de Neves um inicial por fora, de seis contos de réis. Não para

ela, mas a ser entregue em segredo à família do cantor Luiz Barbosa, que

estava em casa, no Estácio, lutando contra a tuberculose. A peça nunca

saiu do papel, mas o dinheiro ajudou a atenuar as dificuldades do cantor

até sua morte, em outubro de 1938. (Essa história só seria revelada

décadas depois, pelo memorialista Bricio de Abreu.)

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Carlos Alberto, por sua vês, não era precisamente um santo e, em algum

momento de 1938, escorregou feio aos olhos de Carmen: teve um flerte com

outra mulher. Para piorar, com alguém do ramo: uma cantora. E, como se

não bastasse, ela era - quem mais? - Alzirinha Camargo, que, pelo visto,

nunca superara a perda de "Querido Adão". Carmen descobriu a escapada de

Carlos Alberto e infernizou sua vida por semanas, mas, até para sua

própria surpresa, isso não provocou o fim do namoro. Apenas o esfriou a

quase zero e fez com que Carmen passasse a espiar melhor à sua volta.


E a figura mais próxima na paisagem era Aloysio de Oliveira.
Aos 23 anos, Aloysio parecia ter finalmente adquirido a personalidade

que faltava para combinar com seus ombros largos, peito amplo e pernas

compridas. Sua relação amorosa com Carmen começou ali, premiando uma

campanha que, da parte dele, já vinha desde as primeiras viagens a

Buenos Aires. Mas essa relação ainda não podia ser chamada de integral.

Pela primeira vez, Carmen exerceu uma dupla militância, sustentando o

caso com Aloysio, mas sem dispensar Carlos Alberto e sem deixar que este

percebesse.


Tal segredo era então perfeitamente possível. Não havia a indústria de

fofocas da imprensa, e um jornalista pensava várias vezes antes de

escrever sobre a intimidade de um artista - até decidir que não

escreveria nada. Os mexericos circulavam apenas dentro de cada grupo, e

Carlos Alberto não freqüentava o meio musical. Dorival Caymmi, ao

contrário, soube logo da história porque, mesmo recém-chegado ao Rio, já

entrara no circuito. Tanto que, ao ir pela primeira vez à casa de Carmen

e deparar com Aloysio tão à vontade, achou aquilo muito natural - era "o

namoradinho dela".
Além disso, até onde Carlos Alberto enxergasse, não havia nenhuma

alteração nas relações entre Carmen e Aloysio. Assim como já faziam

antes de começar o caso, eles continuaram indo à praia no Arpoador,

sozinhos ou com outros membros do Bando da Lua e suas namoradas. À

noite, depois do trabalho, quando se apresentavam no mesmo recinto, era

comum um levar o outro em casa. E, com Aloysio, Carmen podia fazer algo

que, com Carlos Alberto, era inconcebível (e nem ele podia saber que

acontecia): ir com os colegas da Mayrink nadar na lagoa de Marapendi, na

deserta Barra da Tijuca, onde - dizia-se - alguns, como Aracy de

Almeida, ficavam seminus e se divertiam como crianças.


Aloysio era "artista", como ela. Seus valores eram coincidentes. Na

hipótese de um casamento entre eles, ela nem precisaria parar de

trabalhar - o mundo do espetáculo estava cheio de casais assim. Talvez

por isso, ao planejar com Caymmi o disco de "O que é que a baiana tem?"

(com outro samba do baiano, "A preta do acarajé", no lado B), Carmen

tenha se aberto para ele:


179


"Caymmi, quer saber de uma coisa? Daqui a uns dias, vou completar dez

anos de atividade. Estou querendo mudar de vida. Acho que vou me casar

com o Aloysio."
Carmen podia estar sendo sincera. Mas olhe para a folhinha: fevereiro de

1939. Ninguém sabia, mas algo muito importante estava por acontecer.


Quaisquer que fossem seus planos, e por melhores as intenções de Carmen,

tais planos e intenções seriam virados de pernas para o ar em questão de

dias. Na verdade, antes do fim do mês, toda a vida de Carmen, e a dos

que a cercavam, seria transformada para sempre.


No começo de fevereiro, duas semanas antes do Carnaval, Banana da terra

estreou no novo Metro, na rua do Passeio. A baiana entrava triunfalmente

em circulação. Dias depois, Carmen foi ao estúdio da Odeon para gravar

"O que é que a baiana tem?" e "A preta do acarajé", com Caymmi. Entre as

figuras do coro feminino, ela reconheceu a menina Carmelita, que vira

uma vez, em 1935, como doméstica na casa de Francisco Alves, no Leme.

Naquela noite distante, Carmelita, quinze anos, servira cafezinho a

Carmen. Confessara-se sua fã e perguntara: "Posso cantar para a

senhora?". Carmen disse que sim. A menina cantou "Taí", e Carmen gostou:

"Você promete, garota!". Quatro anos depois, a promessa se cumpria:

Carmelita se revelara nos programas de auditório, mudara seu nome para

Carmen Costa e ali estava, no coro, acompanhando sua heroína em "O que é

que a baiana tem?". Em três meses, iria gravar o primeiro disco em seu

nome pela Odeon. Outro que, graças a Carmen, também logo estrearia na

cera pela Odeon seria Caymmi. E quem fizera o caminho inverso, alguns

meses antes, sucumbindo à tentadora proposta de trezentos réis por face

para trocar a Odeon pela Victor, fora Aurora.
Desde sua estréia, em 1933, com "Cai, cai, balão", Aurora gravara 137

músicas em cinco anos na Odeon. Depois de Carmen, era, de longe, a

cantora brasileira que mais gravara em todos os tempos: uma média de 27

músicas por ano, o que equivalia a mais de um disco por mês, chovesse ou

fizesse sol. Era algo que as gravadoras só concediam a quem apresentasse

venda firme o ano todo, como ela - e seus sucessos não se limitavam aos

campeoníssimos "Se a lua contasse", "Cidade maravilhosa" e "Cantoras do

rádio". O primeiro a abastecê-la de triunfos foi Custódio Mesquita, que,

em 1934, lhe deu o sambacanção "Moreno cor de bronze" e a marcha

"Ladrãozinho". Em 1935, Aurora venceu com a meiga "Fiz castelos de

amores", um dos primeiros samba-choros, de Gadé e Walfrido Silva, os

indisputados inventores do gênero. Também naquele ano foi bem com "Onde

está seu carneirinho?", uma incursão de Custódio pela marcha junina,

território de Assis Valente e Lamartine Babo. Em 1936, Aurora fez aquilo

que as gravadoras detestavam, mas às vezes acontecia: sucesso com os

dois lados do disco - o samba "Bibelô" e a marcha "Canto ao microfone",

ambos de André Filho. E, ainda naquele ano, popularizou outro

samba-choro de Gadé e Walfrido, "Boa noite, passe bem". Era uma carreira

do barulho.

180


Aurora tinha à sua disposição todos os grandes compositores e letristas

do mercado. Aparecia

com destaque nos filmes, era disputada pelas estações de rádio, fizera

centenas de shows em

teatros e cassinos, com ou sem Carmen, e já experimentara a sensação de

engarrafar o trânsito,

passar no meio de multidões que a adoravam e despertar paixões como

cantora e como mulher. E

era também uma profissional completa. Apesar disso, nunca escondeu para

os mais íntimos que -

ao contrário de Carmen - trocaria sem piscar sua carreira por um

casamento. A ida para a Victor

seria uma forma de estimular-se a continuar cantando.
Em fins de 1938, um homem ligara para sua casa. Mandara chamá-la e

brincara com ela ao

telefone sem se identificar. Normalmente Aurora teria desligado, mas algo

a fez submeter-se ao

trote. O rapaz finalmente disse o nome: chamava-se Gabriel Richaid, tinha

29 anos, trabalhava no

comércio e queria conhecê-la. Aurora aceitou um convite para jantar.

Gabriel a impressionou bem

- era de uma família de comerciantes de Niterói, freqüentava Icaraí, a

praia, e o Canto do Rio, o

clube, e parecia sempre alegre. Mas nada resultou dali. Em seguida,

Aurora partiu com Carmen

para a excursão que incluía Poços de Caldas - e Walther Moreira Salles.

Na volta ao Rio,

Aurora explicou a situação a Gabriel - o qual, ante o poder do jovem

banqueiro mineiro,

inventou para si próprio um apelido que cativou Aurora: "Pobre-diabo".

Mas, poucas semanas

depois, Walther auto-excluiu-se de cena nas águas de Alzirinha Camargo, e

Gabriel acabou

sabendo. Voltou à carga sobre Aurora e se deu bem.
Na verdade, deu-se melhor do que a encomenda - porque, na terceira vez em

que ele e Aurora

saíram para jantar, ela o pediu em casamento.
O Carnaval de 1939 tinha marchinhas como "A jardineira", com Orlando

Silva; "Florisbela", de

Nássara e Frazão, com Sylvio Caldas; e o "Hino do Carnaval brasileiro",

de Lamartine Babo,

com Almirante; e sambas estupendos como "Meu consolo é você", de Roberto

Martins e Nássara,

e "O homem sem mulher não vale nada", de Arlindo Marques Júnior e Roberto

Roberti, ambos também

com Orlando.
O Rio recebia um enxame de turistas. Dia e noite pela cidade, eles se

misturavam aos foliões,

cantavam nos estribos dos bondes, sentavam-se nos cafés da Avenida,

compravam quadros de

asas de borboleta, beijavam bocas morenas,

tinham a carteira batida e, alta madrugada, com confete até a alma,

voltavam para dormir em

seus navios. Alguns desses navios ficavam à distância, porque o cais não

tinha profundidade

suficiente, e a ligação era feita por serviços de lanchas especiais.


181


O maior e mais bonito deles, o transatlântico francês Normandie - no mar

desde 1935 com seus

308 metros de comprimento e 82 800 toneladas -, chegara ao Rio no dia 15

de fevereiro, quarta-

feira anterior ao Carnaval. Ficara ainda mais longe do porto e era

servido pelas lanchas do

empresário Darke de Mattos. Entre seus quase mil passageiros naquela

viagem, estavam o

magnata americano dos teatros, o empresário Lee Shubert, seu libretista

Marc Connelly, e, sem

nenhum vínculo com eles, exceto o das tênues amizades do Olimpo, a

patinadora e estrela da 20th

Century-Fox, a dinamarquesa Sonja (pronuncia-se, naturalmente, Sônia)

Henie.
Naquela noite, os três foram à Urca e viram Carmen.


Capítulo 11


1939
O sim a Shubert


"Se você não quiser, quem vai contratá-la sou eu", disse, entusiasmada,

Sonja Henie para Lee

Shubert, em meio ao número de Carmen no Cassino da Urca - como quem

descobrisse uma

pechincha num bazar ou numa liquidação.


O Normandie tinha feito reservas em peso para a Urca aquela noite e o

grill estava cheio de

americanos. Quase todos esperavam assistir apenas a um show de Carnaval

ou o que isso

significasse. O nome em letras grandes no cartaz - CARMEN MIRANDA -,

encimando um

elenco que incluía o Bando da Lua, Grande Othelo, o dançarino de frevo e

maxixe Jayme

Ferreira, duas bailarinas e doze girls, não lhes dizia nada. Mas, quando

Carmen entrou, tudo

mudou. Seu repertório naquela época consistia de sambas e marchinhas de

levantar a platéia, com

acompanhamento da orquestra de Vicente Paiva, como "Samba rasgado", "E o

mundo não se

acabou", "Paris", "Deixa falar", "Camisa listada", "Uva de caminhão", os

que tinham a ver com a

baiana - "Na Baixa do Sapateiro", "A preta do acarajé", "O que é que a

baiana tem?" - e

sucessos de Carnavais recentes, como "Mamãe, eu quero" e "Touradas em

Madri".
Shubert registrou o impacto. Como não entendia o que Carmen estava

dizendo, foi o geral que o

interessou: a gesticulação da cantora, seus olhos, seu magnetismo, seu

ritmo e aquela roupa

maluca, com o turbante, os colares e os sapatos. Pela excitação provocada

por Carmen, Shubert

concluiu que a ida à Urca para vê-la já tinha se justificado. Mas daí a

contratá-la ia uma certa

distância: o que fazer em Nova York com uma artista sul-americana que

ninguém conhecia e que,

com toda a certeza, não falava inglês?


Se Lee Shubert, 68 anos, não soubesse a resposta, ninguém mais saberia.

Shubert operava teatros

em Nova York desde 1900 com seus irmãos Sam e Jacob. O mais velho, Sam,

morrera cedo, mas

Lee e Jacob construíram o maior império teatral do mundo - um império

construído sobre risos,

música e lágrimas. Florenz Ziegfeld, falecido em 1932, podia ser mais

famoso e seu nome se

tornara sinônimo de um certo tipo de espetáculo, os Ziegfeld Folhes, mas,

Fio, como o chamavam,

nunca fora páreo para os dois irmãos - seus últimos Folhes foram

produzidos pelos Shubert,

porque ele não tinha mais dinheiro.
Os Shubert eram proprietários de cerca de cem teatros nos Estados Unidos
183
- metade da Broadway era deles - e, contando os teatros que controlavam,

ou em que detinham

alguma participação, inclusive em Londres, esse número chegava a centenas

de casas. Não havia

um artista importante de quem já não tivessem sido patrões: Eleonora

Duse, Sarah Bernhardt, Al

Jolson, Fanny Brice, Noèl Coward, Fred e Adele Astaire, Ethel Waters,

Eddie Cantor, os Irmãos

Marx, Gypsy Rose Lee, Mae West, Jimmy Durante, Bob Hope, toda a família

Barrymore e

qualquer animal, de elefante para baixo, que soubesse fazer um quatro.

Produziam também teatro

"sério" e, entre os teatrólogos que lhes davam a primeira leitura de suas

peças, havia gente

importante como Robert E. Sherwood, que se afastaria da ribalta em 1940

para se tornar redator

dos discursos do presidente Roosevelt, e Marc Connelly, que viera com

Shubert no Normandie,

com todas as despesas pagas, apenas para que Shubert tivesse alguém

inteligente com quem

conversar.
Connelly ficara famoso em 1930 como o autor de The green pastures, uma

fantasia religiosa

passada entre os negros do Sul dos Estados Unidos. Antes, fora um dos

membros da "mesa

redonda" do Hotel Algonquin, de Nova York, e duelava de igual para igual

com os reis das

tiradas rápidas, como Dorothy Parker, Robert Benchley e George S.

Kaufman. Sua melhor frase,

no entanto, não fora dita para nenhum deles. Conta-se que um sujeito que

mal o conhecia, mas

tentando demonstrar intimidade, passou por Connelly na mesa do Algonquin

e acariciou sua

careca, dizendo:
"Que interessante, Marc. Parece a bunda da minha mulher!"
Ato contínuo, Connelly acariciou a própria careca e respondeu:
"É mesmo!"
Não havia nada de acaso na presença de Shubert na Urca, nem ele estava

ali somente a passeio.

Nos últimos anos, ouvira falar insistentemente de Carmen pelas cartas que

uma amiga, a ex-atriz

Clairborne Foster, residente no Rio, mandava para Claude P. Greneker, seu

chefe de imprensa em

Nova York. No passado, Clairborne fora um grande nome dos palcos, em The

bluebird, de

Maeterlinck, e outras peças produzidas por Shubert, que sempre a tivera

em alta estima. Em 1932,

Clairborne abandonara o teatro para se casar com Maxwell Jay Rice,

executivo da empresa de

aviação Pan American junto à Panair no Rio, e se apaixonara pela cidade:

"As praias, a baía, os

nightclubs, a comunidade diplomática - a mais chique do mundo", ela

dizia. Para Clairborne, os

Shubert deveriam contratar Carmen imediatamente, antes que outro

americano a levasse, e por

isso bombardeava Greneker com cartas. Sua fé no sucesso de Carmen nos

Estados Unidos era

absoluta, mas, para não dizerem que era parcial, Clairborne às vezes

acrescentava testemunhos de

americanos de passagem por aqui - o último fora o de Tyrone Power. Assim,

ao tomar o

Normandie em Nova York, rumo ao que seria uma viagem de lazer pela

América do Sul, Shubert

pediu a Clairborne e Maxwell que lhe reservassem uma mesa onde Carmen

Miranda estivesse se

apresentando.

184
Sonja Henie, por sua vez, nunca ouvira falar de Carmen. Mas não precisou

de mais que um minuto

para se convencer de que estava diante de algo espetacular - e poucos em

Hollywood tinham

mais noção de espetáculo do que Sonja Henie. Como atleta, ela fora

medalha de ouro em

patinação no gelo nas Olimpíadas de 1928,1932 e 1936 e transformara um

simples esporte num

misto de bale, teatro e beleza. Em 1936, aos 24 anos, Sonja trocou sua

Noruega natal por

Hollywood. Ninguém a convidara, mas ela armou um espetáculo de gelo e

luzes na cidade do

cinema e induziu Darryl F. Zanuck, chefão da Fox, a contratá-la sob suas

- dela - condições:

ou era a estrela dos filmes ou não queria conversa. Zanuck a contratou

como estrela, e os três

primeiros títulos de Sonja foram grandes sucessos: A rainha do patim (One


Catálogo: 2015
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2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
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