Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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desmaiaram ao ouvir:
"Alô, macacada!!! Como vão as coisas por aí?"
Era Aurora, tentando imitar o jeito de Carmen e cometendo a gafe do ano

ao dirigir-se nesses termos ao povo brasileiro por uma rádio argentina.

E logo de onde - da cidade em que viviam nos chamando de macaquitos!

Alguns jornais destilaram azedume sobre Aurora e Carmen, insinuando que

o governo deveria exercer um controle sobre os brasileiros que nos

"representavam" lá fora.


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Naturalmente, não era tão grave assim. O Globo deu na primeira página,

mas de forma jocosa, comentando: "Essa frase inocente e carinhosa,

saudação íntima de alguém para os amigos, numa terra em que a gíria faz

quase parte do vocabulário mais sério e circunspecto, feriu o

nacionalismo verde-amarelo de meia dúzia de desconhecidos e mexeu com o

civismo impossível de incríveis criaturas".
Na volta pelo Augustus, em meados de setembro, Carmen e Aurora deram

boas risadas ao lembrar a transmissão e ao contar a resposta de Carmen

aos turistas franceses em Buenos Aires, que a abordaram para perguntar

se era verdade que havia cobras soltas nas ruas do Rio.


"É verdade. Tanto que, na avenida Rio Branco, há uma calçada só para

elas e outra para os pedestres."


Havia uma variante da pergunta:
"O que você faz quando cruza com uma cobra em Copacabana?"
E, para esta, uma obra-prima de resposta de Carmen:
"Se for uma cobra conhecida, eu cumprimento."
Assis Chateaubriand, o tubarão dos Diários Associados, precisava de um

nome bombástico para o cast da sua Rádio Tupi, que ele acabara de

inaugurar no Rio, em fins de 1936. Nenhum nome tinha maior poder de fogo

que o de Carmen Miranda. Mas Carmen era da Mayrink Veiga, onde ganhava

um conto e 400 mil-réis mensais - o mesmo salário de 1933. Ao saber

disso, Chateaubriand resolveu encurtar a conversa. Ofereceu-lhe cinco

contos de réis, e luvas que nunca foram reveladas, por quatro programas

semanais de quinze minutos: às quartas e aos sábados, às 20h15 e 21h15,

sob o patrocínio dos Laboratórios Oforeno e do Licor de Cacau Xavier.

Para acompanhá-la, Carmen teria nada menos que o regional de Benedito

Lacerda, seu colega na Odeon. E outra coisa: a Tupi queria também

Aurora, por um conto e oitocentos.


Carmen tinha mais que uma relação profissional com a Mayrink. Era grande

amiga de César Ladeira, que a aconselhava nas decisões profissionais -

fora ele que a estimulara a trocar a Victor pela Odeon. Mas seu

principal aliado na emissora era o diretor-gerente Edmar Machado, o

homem que dera à Mayrink Veiga a estrutura necessária para que César

pudesse inventar à vontade. Edmar, que, de brincadeira, chamava Carmen

de "Galega", servia informalmente como seu consultor financeiro,

orientando-a sobre o que fazer com o dinheiro. Sua última campanha era

para que Carmen comprasse uma casa para a família - o que ela faria. A

mulher de Edmar, a atriz portuguesa Maria Sampaio, também era íntima de

Carmen e das irmãs - fora para ela, em 1932, que Ary Barroso e Luiz

Peixoto tinham composto o samba-canção "Maria":


Maria
O teu nome principia
Na palma da minha mão...

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Mas a proposta da Tupi era avassaladora. Carmen implorou a Edmar que a

Mayrink cobrisse essa proposta em 500 mil-réis ou mesmo a igualasse,

para que ela não tivesse de sair. Para espanto de Carmen, Edmar não quis

discussão. Para ele, não se tratava de dinheiro, mas de lealdade: a

Mayrink era uma família para ela, e não se troca de família; Carmen e a

Mayrink tinham começado juntas; pertenciam-se uma à outra; e demais

clichês do gênero. Edmar fez-lhe até uma ameaça velada: os ouvintes

nunca a admitiriam sob outro prefixo que não o da Mayrink - a famosa

PRA-9.
Essa era uma visão surpreendentemente amadorista numa emissora que se

apregoava tão profissional. Na verdade, a Mayrink era profissional. O

bondoso Edmar é que não era tanto. Com toda a história dos contratos que

tinham vindo para substituir os cachês, ele continuava disponível para

que seus contratados, sempre na pendura, fossem a todo momento pedir-lhe

um vale - um adiantamento. No fim do mês, em vez de somar os vales e

descontá-los do salário do funcionário, o liberal Edmar os rasgava e

mandava pagar o salário na íntegra. Fazia isso com Sylvio Caldas, Aracy

de Almeida, Aurora e, numa emergência, pode ter feito também com Carmen.


Só então Carmen percebeu que a corte da Tupi a ela já vinha de bem

antes. Em abril, Ayres de Andrade, diretor artístico da rádio, dera uma

conferência na Escola Nacional de Música, intitulada "Aspectos do

lirismo na música popular", e convidara Carmen, o Bando da Lua e os

folcloristas Mara e Waldemar Henrique para ilustrá-la musicalmente. Era

um evento "sério", acadêmico - o Diário da Noite falou do "ritmo

bárbaro, as vozes de angústia e desespero das senzalas" -, e Carmen se

sentiu honrada por ter sido chamada a participar. Ou seja, não seria o

fim do mundo se ela trocasse de estação. Se os ouvintes da Mayrink não a

seguissem na Tupi, ela teria novos ouvintes a conquistar.


E, assim, em dezembro de 1936, Carmen fingiu-se de surda ao coração e,

sob as vistas de Ayres de Andrade e de Carlos Frias, principal locutor

da emissora, assinou por um ano com a Tupi pelos ostensivos cinco contos

mensais e mais uma secreta fortuna por fora e à vista. O que provocou um

editorial moralista da Revista da Semana, de Gratuliano de Brito,

resmungando contra tão alto salário para uma "cantora de sambas",

enquanto os cantores de coisas clássicas, "com vários anos de estudos em

conservatórios", tinham de lutar pela vida. No futuro, esse texto seria

usado como um exemplo do preconceito ainda vigente contra a música

popular. Mas não era o caso. Tratava- se apenas de um artigo bobo e

isolado, para firmar a posição da Revista da Semana contra uma revista

concorrente, O Cruzeiro - que, por também pertencer a Chateaubriand,

como a Rádio Tupi, seria um forte reduto de Carmen, assim como os outros

jornais do homem, como O Jornal, o Diário da Noite e o Diário de São

Paulo.

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Os contratos com a Tupi e a Urca saíram quase ao mesmo tempo, quase no

mesmo dia. Carmen nunca vira tanto dinheiro junto. E, por causa da Tupi,

Carmen finalmente pôde aceitar as fortunas com que a Rádio El Mundo lhe

acenava para levá-la a Buenos Aires - porque as duas emissoras eram

co-irmãs contra a Mayrink Veiga e a Belgrano. E, nessas novas bases, lá

se foram, não apenas Carmen, mas também Aurora e o Bando da Lua a Buenos

Aires.
Pela primeira vez, a excursão, em junho e julho de 1937, não se limitou

à capital. Cantaram também no Teatro Municipal de Bahia Blanca, no Sul

do país, quase na Patagônia, e quem abria o show para eles? Um pianista

e cantor cubano, de 26 anos, futuramente lendário, chamado Bola de

Nieve. Em julho, a trupe voltou pelo Uruguai e se apresentou na Radio

City de Montevidéu, sob um frio de rachar. A imprensa uruguaia as

recebeu ao coro de "Carmencita", "Aurorita", "hermanitas" y otras

palabras catitas.
Grata por tanto carinho, Carmen armou seu melhor sorriso e dirigiu-se

aos repórteres na primeira entrevista coletiva:


"Aqui estoy, muchachosü Vocês mintendem?"
Silêncio! Façam alas
Ordem, respeito e nem um grito de bamba! Quero os tamborins de grande

gala Que vai passar o imperador do samba!...


No palco da Urca, aos primeiros acordes da orquestra de Vicente Paiva e

com todos os refletores em cima, Carmen já entrava cantando e dançando o

poderoso "Imperador do samba", do quase anônimo Waldemar Silva, ritmista

de tamborim da orquestra. Esse samba e o divertido samba- choro

"Cachorro vira-lata":
Eu gosto muito de cachorro vagabundo Que anda sozinho no mundo Sem

coleira e sem patrão...,


de Alberto Ribeiro, foram os seus cavalos-de-batalha no primeiro

semestre de 1937.


Entre dois números, Carmen jogava beijos para a platéia e, em resposta,

recebia aplausos, flores e mais beijos. Era uma relação sensual e

amorosa com o público do cassino - homens e mulheres, sem distinção.

Seus shows tinham quarenta ou 45 minutos; o primeiro entrava à uma hora

da manhã; o segundo, nunca antes das três. Ao fim de cada um, Carmen não

saía correndo para o camarim - também atulhado de flores, mal sobrando

espaço para a habilleuse trabalhar. Descia e passeava entre as mesas,

dirigindo-se aos conhecidos, rindo muito e deixando-se apresentar às

mulheres dos desconhecidos. Não aceitava convites para sentar ou beber,

mas era de uma calculada simpatia para com todo mundo. E tinha motivos

para se resguardar. Um fazendeiro produtor de cebolas, mas arrotando

champignons - mandara oferecer-lhe vinte contos de réis para que ela

descesse entre as mesas, segurasse seu copo, e cantasse olhando para

ele. Pelo mesmo portador, Carmen mandara dizer que nem por duzentos

contos.

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Carmen não podia evitar que o público criasse violentas fantasias a seu

respeito. Era rara a semana em que alguém não lhe providenciava um

convite de Hollywood, uma briga com uma colega de rádio, um caso amoroso

com um cantor e até um amante entre as figuras graduadas da República.

Imagine se podia dar essa confiança ao rústico produtor de cebolas. Tudo

para não ter problemas com seu namorado, Carlos Alberto da Rocha Faria.


Contra as estimativas dos espíritos de porco, o namoro sobrevivera, e

mais firme do que nunca. Os Rocha Faria insistiam em ignorar a presença

de Carmen na vida de Carlos Alberto, mas isso já não fazia diferença. Em

contrapartida, ele gozava de livre trânsito na casa da família dela. (E

em todos os sentidos. Certo dia, não se sabe por quê, mas com

autorização de seu Pinto, Carlos Alberto teve de entrar pela janela do

apartamento na rua Silveira Martins, para espanto da vizinhança.) Os

pais e os irmãos de Carmen torciam abertamente por um casamento - talvez

influenciados pelo fato de que os dois já estavam com 28 anos - sem

pensar nas possíveis conseqüências disso na vida de Carmen. Uma delas, o

fim de sua carreira.
O repórter Francisco Galvão entrevistou Carmen e Aurora para A Voz do

Rádio e aplicou-lhes a mesma pergunta:


"Se não fossem artistas de rádio, o que gostariam de ser?"
Aurora foi direto ao ponto:
"Rica e nada mais."
Mas Carmen (referindo-se, sem citá-lo, ao antigo namoro com Mário Cunha)

trabalhou sua resposta, surpreendentemente franca:


"Se eu não fosse artista de rádio, é porque teria me casado aos quinze

anos e já teria uns cinco filhos. Seria uma boa dona de casa, bem

burguesa, dessas que lêem os jornais e as revistas da moda e, quando

saem, vão à manicure. Mas o que você quer saber é o que eu desejaria ser

- e não o que não fui, porque não quis, não é? Pois olhe, se não fosse

artista de rádio, onde ganho bem, aceitaria qualquer outra profissão que

me divertisse."
A imprensa sempre soube de Carmen e Mário Cunha, assim como sabia de

Carmen e Carlos Alberto da Rocha Faria, mas nenhum jornalista brasileiro

de 1937 teria o atrevimento de lhe fazer uma pergunta direta e

publicá-la. O máximo a que chegaria seria esta, do repórter de A Voz do

Rádio: "Você prefere os homens fortes ou inteligentes?". Carmen

respondeu:


"Não concebo um homem sem inteligência. Acho que uma bela estampa

impressiona, mas não convence. Se eu quiser um homem forte, tipo homem

das cavernas, basta ir ao Jockey Club. Você já viu quantos lindos

espécimes cavalares se exibem ali?"


147
Carmen e Carlos Alberto estavam a salvo de especulações e a cavaleiro do

tempo. A respeito de seu futuro, poderiam decidir o que quisessem,

quando quisessem. O único estorvo entre eles parecia ser o ciúme quase

roxo de Carlos Alberto, agravado pela sua humilhação por não ter fortuna

pessoal - e a insistência em manter a pose. Se, por exemplo, Carmen lhe

desse um presente caro, Carlos Alberto, com seu salário de pequeno

diretor da América Fabril, sentia-se na obrigação de retribuir com um

igual ou mais caro. Para isso, pedia emprestado, endividava-se ou vendia

alguma coisa, mas não ficava para trás.
Numa noite daquele ano, um casal de franceses perdeu muito no Cassino da

Urca, e o homem pagou com as jóias da mulher. Joaquim Rolla chamou

Carmen ao seu escritório para mostrar-lhe as jóias. Carmen se interessou

por um solitário de brilhante. Rolla vendeu-o a ela por um preço

camarada e, ainda assim, a ser descontado de seu salário em prestações.

No primeiro show, Carmen já exibiu o solitário no palco e, com sua

gesticulação à luz dos refletores, o brilhante despejou raios de cegar a

platéia. No dia seguinte, Carmen ficou sabendo dos comentários de que a

jóia lhe teria sido dada por um dos homens de que se suspeitava que ela

fosse amante - o presidente Getúlio Vargas ou o empresário Gervásio

Seabra.
Carlos Alberto ia pouco à Urca, mas também soube dos comentários. No fim

daquela tarde, marcou um encontro com Carmen na amurada do morro da

Viúva. Pediu para ver o anel. Carmen tirou-o do dedo e lhe entregou. E

ele, sem nem olhá-lo direito, atirou-o no mar.


"Você não pode ter nada que eu não possa te dar", decretou.
E Carmen, o que fez? Armou uma pequena cena, mas, no fundo, ficara

satisfeita. Aquela era a atitude que se esperava de um homem.


Carlos Alberto sabia muito bem que os boatos a respeito de amantes não

tinham fundamento. Carmen podia ser vizinha de Getúlio no Catete, mas só

o vira uma vez, pouco tempo antes, ao ser convidada a cantar num evento

do fechado clube Gávea Golf, em que Getúlio estivera presente. E, se a

simples hipótese de um caso já não fosse absurda, havia uma

incompatibilidade básica entre ela e Getúlio: os dois tinham quase o

mesmo 1,52 metro - Getúlio, um ou dois centímetros a mais - e só

gostavam de parceiros altos.


No caso de Gervásio Seabra, a história envolvia um fabuloso carro Cord

que pertencia a Carmen. Dizia-se que o Cord lhe fora dado por Gervásio -

e por que ele lhe daria um carro como esse se não tivesse um caso com

ela?
Gervásio era português, dono da indústria têxtil Seabra & Cia., e teria

perto de cinquenta anos em 1937. Viera adolescente para o Rio, em 1905,

para trabalhar com seu tio Adriano Seabra, um dos sócios da América

Fabril e pesado importador de tecidos na rua do Acre. Em pouco tempo

Gervásio já estava à frente do negócio de seu tio, ampliara-o para

exportação e ficara, ele próprio, consideravelmente rico. Casou-se com

Assunta Grimaldi, jovem italiana de São Paulo, mulher alta e corpulenta,

que também enriquecera pelo trabalho, costurando para as mulheres dos

fazendeiros paulistas. Os dois juntos formaram uma parceria de raro tino

comercial. Investiram em fazendas pelo interior do Brasil, em companhias

de seguros e em reprodução de cavalos. O dinheiro só não era suficiente

para esconder o fato de que Gervásio chegara ao Rio num porão de navio e

que, ao contrário do que se pensava, o nome Grimaldi da excostureira

Assunta não tinha nenhum parentesco com os Grimaldi do principado de

Mônaco.


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Os Seabra eram sócios dos Rocha Faria na América Fabril e tinham em

comum o interesse por cavalos. Carmen os conhecera no Jockey Club, a que

era levada por Carlos Alberto. No Jockey, Carmen conheceu também os

filhos do casal Seabra: Roberto, de vinte anos, e Nelson, de dezoito,

que imediatamente se apaixonaram por ela - não uma paixão pela mulher

(pelo menos por parte de Nelson), mas pela estrelíssima, pelo ghtter e

glamour que ela representava. Os jovens irmãos Seabra tornaram-se sua

sombra, seguindo-a por toda parte, e Carmen se sentia grata a eles, por

serem do círculo íntimo de Carlos Alberto e a aceitarem. No aniversário

seguinte de Carmen, Roberto mandou-lhe um enorme arranjo de flores. Ao

depositar as flores num jarro, Carmen percebeu que elas se mexiam. Claro

- Roberto pusera um gatinho entre elas, com os olhos do exato tom de

verde dos de Carmen, justificando a maneira como ele a chamava: "Gata".


Gervásio e Assunta iam também todas as noites ao Cassino da Urca, onde

Carmen trabalhava. Assunta era dependente de jogo - apostava muito forte

e perdia fábulas. Dizia-se que, por baixo do pano, Gervásio combinara

com Joaquim Rolla um limite (já muito alto) de quanto ela poderia perder

por noite; a partir desse limite, ele, Gervásio, não se

responsabilizava. Às vezes, depois do último show, os Seabra - pais e

filhos - levavam Carmen & Cia. para um coquetel em seu apartamento no

excêntrico edifício Seabra (similar ao Dakota, de Nova York), de sua

propriedade, na Praia do Flamengo.
Por tantos motivos, era normal que Carmen e os Seabra se vissem com

freqüência. Assim, quando Carmen apareceu pela cidade a bordo de um Cord

azul-celeste, com frisos e banda branca, modelo 812 Sportsman, de 1935,

conversível, dois lugares, placa P.7-655 e custando a fábula de 3 mil

dólares, espalhou-se que ele teria sido dado por um deles. Como não se

admitia que fedelhos como Roberto e Nelson, mesmo milionários, saíssem

distribuindo presentes nesse valor, deduziu- se que só restava Gervásio

- por ter um caso com ela.

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Em design, beleza e desempenho (chegava fácil a 165 quilômetros por

hora), o Cord já nascera um clássico da indústria automobilística

americana. Do modelo que Carmen exibia pela cidade, tinham sido

fabricadas apenas 2322 unidades, e quatro delas estavam em Los Angeles,

nas mãos de Groucho, Chico, Harpo e Zeppo, os então Quatro Irmãos Marx.

O de Carmen era o único do Rio, o que o tornava altamente conspícuo e

revelador da presença de sua dona. Se Carmen quisesse ir incógnita a

algum lugar, era melhor que fosse de bonde - o Cord a denunciaria onde

quer que estivesse.
Carlos Alberto viajou nesse carro inúmeras vezes. Com todo o ciúme de

que era capaz, e convivendo no dia-a-dia com os Seabra, nunca discutiu

com Carmen por causa do Cord. É verdade que não podia dar-lhe um igual,

nem jogar o carro no mar, como fizera com o solitário de brilhante. Mas,

se acreditasse, mesmo que de passagem, na possibilidade de um presente

de Gervásio para Carmen, seu dilema não se limitaria a entrar ou não no

carro. Teria de optar entre Carmen, os Seabra, o emprego, e talvez até a

vida. O que ele nunca precisou fazer - porque conhecia bem Gervásio.

Sabia que, além de Assunta, o único interesse do empresário em mulheres

eram certos rendez-vous de luxo na Lapa, a que ia com seu amigo Antônio

Moreira Leite, fabricante das bolas Superball. Depois de cuidar de duas

ou três mulheres ao mesmo tempo, Gervásio voltava orgulhoso para o

saguão do bordel e, ainda abotoando a braguilha, exclamava:
"Eu sou um potro! Eu sou um potro!"
Tudo isso, no entanto, era ocioso, porque Carlos Alberto sabia muito bem

de onde saíra o bendito carro: Carmen o comprara - com o dinheiro dela.


Com seus salários e luvas na Urca e na Tupi, com a venda dos discos e

com os cachês pelas temporadas em Buenos Aires, apenas entre seus

rendimentos regulares, Carmen podia muito bem comprar um carro como o

Cord. E, com a ajuda de Aurora, podia fazer ainda mais: seguindo os

conselhos de Edmar Machado, finalmente comprar uma casa na Zona Sul do

Rio, para ela e para sua família. E não uma casa qualquer, mas um

palacete na Urca.
Carmen gravou "Cachorro vira-lata", de Alberto Ribeiro, com grande

sucesso. Toda semana tinha de cantá-lo na Rádio Tupi. Na saída do

programa, um dos diretores da rádio, Freddy Chateaubriand, deu-lhe uma

carona e passaram na rua por um cachorro faminto e estropiado. Freddy

perguntou:
"Carmen, já que você gosta tanto de cachorro vagabundo que anda sozinho

no mundo, por que não leva este para casa?"


"Vou levar."
Recolheu o cachorro. Na semana seguinte, Freddy perguntou por ele.
"Ah, assim que comeu foi embora", respondeu Carmen. "Era um cachorro de

caráter."


Capítulo 9


1937 - 1938


"Uva de caminhão"

Em meados do século xvi, na Guanabara, só os bravos se aventuravam por

uma picada aberta na Urca, voltada para a baía, bem debaixo do Pão de

Açúcar. Um transeunte distraído poderia se ver, sem aviso, em meio ao

fogo de arcabuzes trocado entre os franceses, que ocupavam a região, e

os portugueses, que tentavam tomá-la. Ou à mercê de uma revoada de

flechas envenenadas na guerra entre os tupinambás, aliados dos

franceses, e os temiminós, que torciam pelos portugueses. Mas é claro

que ali não havia transeuntes distraídos - quem passava pela Urca já

usava as cores de um lado ou do outro. O banzé durou anos e, ao fim e ao

cabo, venceram os portugueses, que, no dia 12 de março de 1565, para

tornar a vitória oficial, desceram pela picada - o caminho de São

Sebastião - até a prainha entre o Pão de Açúcar e o Cara de Cão, e ali

fundaram a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.


Pela animação com que as coisas tinham começado na Urca, era de esperar

que a cidade se irradiasse a partir dali. Mas o Rio deu-lhe as costas,

foi à luta em outras direções, e, pelos 350 anos seguintes, a península

fechou-se em si mesma, entre o mar e suas balizas de pedra. Somente no

começo do século xx o carioca acordou para a beleza e o sossego da Urca,

e constatou o que estava perdendo. Então providenciou aterros que

multiplicaram sua área, equipou-a com os serviços básicos e urbanizou-a

seguindo as trilhas originais. O caminho de São Sebastião tornou- se a

avenida São Sebastião. Foi nela, entre fins de 1936 e começos de 1937,

que Carmen comprou a casa que simbolizava o seu triunfo.


O endereço era avenida São Sebastião, 131. Carmen adquiriu-a de um senhor

Washington Bessa, que tinha outros imóveis no bairro. Custou-lhe 150

contos de réis - cerca de 5 mil dólares -, com cinqüenta contos de

entrada e o restante a liquidar em quinze anos. Mas, com o dinheiro que

faturaram em 1937 e 1938, Carmen e Aurora quitaram a dívida em menos de

dois anos.


Era uma casa de seis quartos. Os três principais, de Carmen, de Aurora e

dos pais, ficavam no nível da entrada pela avenida São Sebastião; os

outros três, de Mocotó, de Tatá e da empregada Alice, num andar

inferior, virado para a baía. No andar intermediário, também de frente

para o mar, ficavam o belo salão com a varanda, uma saleta (que Carmen

usava como sala de música), o jardim-de-inverno, a copa e a cozinha.

Como de praxe, banheiros de menos: um no andar de cima, outro no de


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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