Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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a carreira. Não se sabe o que aconteceu àqueles sambas e marchinhas,

porque a documentação sobre a Waldow está perdida e, mesmo no

impressionante arquivo da Cinédia, há muito pouco a respeito. Mas não é

absurdo supor que cada compositor, ao ceder a Downey o uso de sua música

para o filme, estivesse também lhe cedendo, sem saber, os direitos para

sua exploração lá fora.

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uma editora musical de Nova York que - surpresa! - tinha sob seu

controle um sem-número de sambas e marchinhas. Pelo volume de material

em poder da Robbins, tudo indica que essa associação tenha começado logo

nos primeiros anos da década de 30. E, se assim foi, não seria nada de

mais.
As editoras musicais americanas já tinham descoberto o filão "latino"

desde a década de 10, assim que o tango argentino pôs a cabeça de fora

na Europa. No começo, era no Velho Mundo, principalmente em Paris, que

os editores americanos iam às compras dos tangos. Mas logo chegaram à

óbvia conclusão: para que lidar com intermediários? Por que não ir

direto às fontes? E por que se limitar à Argentina?


E, assim, desde aqueles primórdios, vários scouts (batedores) musicais

americanos vieram palmilhar as madrugadas boêmias de Buenos Aires,

Havana e Cidade do México, em busca de material produzido em seus

botecos, biroscas e bodegas - lugares freqüentados por pessoas com

grande facilidade para fazer música e nenhuma para fazer negócios. Uma

rodada da pinga local e, presto!, produzia-se um papel assinado - às

vezes, um simples recibo sobre uma quantia insignificante -, e lá se ia

uma melodia batendo asas rumo a Nova York. Em Tin Pan Alley (o

quarteirão da Rua 28 entre a Quinta e a Sexta Avenida onde se

concentravam as editoras musicais), essa melodia era retrabaIhada,

ganhava um título em inglês, e o autor original - se seu nome ainda

constasse da partitura - era agraciado com um parceiro americano que se

tornava o efetivo dono da canção.
Há algo de sinistro nessa imagem do americano simpático que se fazia de

amigo de homens simples, talentosos e de pele escura, e se juntava a

eles nos botequins para ouvir e cantar sua música - talvez escrevendo-a

por baixo da mesa - e saía dali dando risada, sabendo que tinha bom

material para vender em Nova York, não? Mas essa prática existiu. Foi

assim, com ou sem papel assinado, que tangos como "El choclo", de 1913,

"La cumparsita", de 1916, e "Jalousie", de 1927, a canção mexicana

"Cielito lindo", de 1919, o bolero cubano "Quiereme mucho", de 1924, e

inúmeras outras canções ficaram famosas e renderam muito dinheiro - não

necessariamente para seus verdadeiros autores - fora de seus países de

origem. Mas, o que dizer das que saíram sem que esses autores se dessem

conta e que também renderam dinheiro, e apenas não ficaram famosas? (Às

vezes saíam sob disfarce: boleros se tornavam valsas, tangos se

metamorfoseavam em rumbas; pasos dobles viravam foxtrotes.)


Podia não haver nada de ilegal nisso - tecnicamente, seria apenas uma

operação de compra e venda. Mas que era imoral, era. Eqüivalia ao que,

no Rio, cantores como Francisco Alves e outros faziam com os

compositores do Estácio e do morro, ao comprar-lhes os sambas in natura

(mal saídos do violão ou da caixa de fósforos, antes que um editor os

ouvisse) e, às vezes, até os enxotando da parceria. Foi justamente a

explosão do samba a partir de 1930 (assim como da rumba em Havana) que

tornou o Rio tão atraente para aqueles batedores musicais.

Downey levava uma vantagem em relação àqueles batedores: já estava

instalado aqui e era amigo dos compositores. E tinha uma isca infalível

para seduzi-los - os filmes que produzia.
Em dezembro, ao dar um pulo à Victor para rever os amigos, Carmen foi

convidada a cantar para o presidente regional da gravadora, um americano

sediado em Buenos Aires e de passagem pelo estúdio no Rio. Carmen disse

"com prazer" e pediu ao compositor Hervê Cordovil que a acompanhasse ao

piano. De Hervê, ela gravara meses antes uma marchinha tão maliciosa que

só sua voz a redimia e permitia que fosse tocada numa vitrola de

família: "Inconstitucionalissimamente". A letra brincava com o clima

político nacional, às voltas com a Constituinte, e dava a entender que o

namorado engravidara a moça e dera o fora:
O meu amor
Me deixou para a semente
Inconstitucionalissimamente...
Hervê sentou-se ao piano e Carmen começou.
No meio da primeira música, alguém abriu a porta do estúdio, esticou o

pescoço pondo a cabeça para dentro e disse tibiamente: "Com licença?".

Foram suas últimas palavras. Era o cantor Carlos Galhardo, ainda pouco

conhecido apesar de ter lançado pela Victor, no ano anterior, o que

seria depois a maior canção natalina brasileira de todos os tempos:

"Boas festas", de Assis Valente.


O americano não quis saber se ele era Carlos Galhardo ou o próprio Papai

Noel. Esbanjando grossura, esbravejou e soltou-lhe os cachorros em

espanhol por causa da involuntária interrupção. Galhardo fez gulp,

recolheu o pescoço, e nunca mais foi visto - pelo menos naquele dia.


Carmen, que assistiu à cena estupefata, deu um tapa no piano e ordenou:
"Hervê, fecha o piano. Eu não canto mais para esse filho-da-puta. Não

canto para gringos que tratam mal os meus patrícios."


E, virando-se para o americano:
"Eu sou brasileira, ele é brasileiro, e o senhor tem que nos respeitar."
Deu uma rabanada na saia e, toda pimpona e digna, saiu marchando do

estúdio.
Apesar da arrogância de alguns de seus executivos, a Victor, em 1934,

tornara-se disparado a maior gravadora brasileira, superando pela

primeira vez a Odeon. Com os talentos que ela revelara e soubera manter,

e mais os que tomara da concorrência, quase toda a grande música popular

estava de repente sob a sua bandeira: Carmen, Francisco Alves, Sylvio

Caldas, Mário Reis, Almirante, Luiz Barbosa, Lamartine Babo, Moreira da

Silva, o Bando da Lua, Carlos Galhardo, os Irmãos Tapajós, Gastão

Formenti e Castro Barbosa. E quem sobrara para a Odeon? Aurora Miranda,

João Petra de Barros, a bissexta Aracy Cortes, os jovens Joel e Gaúcho,

e, fazendo o percurso inverso, Sylvio Caldas, que iria da Victor para a

Odeon no fim do ano. Mas, nome a nome, mês a mês, a Victor esteve

absoluta em 1934 - em termos de cast, foi o seu maior ano no Brasil.
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Com tantos colegas do primeiro time a seu lado na gravadora, Carmen pôde

gravar memoráveis discos em dupla, além dos que já tinha criado com

Mário Reis e Lamartine Babo. Alguns deles, "Pra quem sabe dar valor", de

Assis Valente, com Carlos Galhardo; "Pra que amar", também de Assis, com

Almirante; "Vou espalhando por aí", ainda de Assis, com Castro Barbosa;

"Quando a saudade apertar", de André Filho, com Sylvio Caldas; o

impagável "As cinco estações do ano", de Lamartine, com nada menos que

Mário Reis, Almirante e o próprio Lamartine; e - pena que tenha sido o

único -, "Retiro da saudade", de Noel Rosa e Nássara, com Francisco

Alves. Apenas de ouvi-la em dupla com Chico, é de lamber os beiços a

simples idéia do que Carmen poderia ter gravado com todos aqueles ases

que a Victor tinha agora sob contrato.
Mas isso não aconteceu - porque, em março de 1935, mal passado o

Carnaval, a notícia levantou poeira nos terreiros e salões do Rio.

Carmen saíra da Victor e se mudara justamente para a grande rival, a

Odeon. Era como pisar no pé de Nipper, o cachorrinho do gramofone, se

ele existisse.
Foi a maior transação da década no mercado discográfico brasileiro. Nem

a saída de Chico Alves em sentido contrário, indo da Odeon para a Victor

um ano antes, causara tanto rebuliço. Carmen ouviu dizer que, na opinião

de alguns, ela estava sendo ingrata ao dar uma banana para o estúdio que

a "fizera" e ao qual ela tanto devia. Ouviu e não gostou. Comentou com

amigos que a verdade era bem outra: ela é que fizera a Victor no Brasil.

Durante os primeiros anos, fora quase a única estrela do seu elenco - no

tempo de "Taí", carregara o selo nas costas, com cachorrinho e tudo. Em

cinco anos de Victor, levara à cera 150 músicas, das quais setenta

marchas e 66 sambas - nenhuma outra cantora brasileira gravara tantos

discos até então. E, mesmo nos últimos meses, quando já estava pensando

em mudar de ares, gravara material formidável, como o samba "Minha

embaixada chegou", de Assis Valente (que se tornaria um dos seus

standards); a canção natalina "Recadinho de Papai Noel", outro triunfo

de Assis; e a contagiante marcha "Mulatinho bamba", de Ary Barroso e Kid

Pepe. A Victor não tinha do que se queixar.


Quando a Odeon a sondara para mudar de ares, Carmen pensara bem e só

vira vantagens nessa troca. Primeiro, a Odeon, inconformada por ter

perdido Chico Alves, daria qualquer coisa para tirá-la da Victor. E

teria de dar mesmo: quatrocentos réis por face gravada e um certo valor

em dinheiro, à vista e por fora, cujo montante ninguém precisava saber.

Outra coisa: com a debandada de seu cast para a Victor, o estúdio da

Odeon, na rua Santo Cristo, na Zona Portuária, com o maestro Simon

Bountman na direção artística, poderia dedicar-se muito mais a ela.

Finalmente: ao sair da Victor, Carmen perderia Pixinguinha como regente

de orquestra, mas ganharia Benedito Lacerda, cujo conjunto regional,

estrelado por Russo do Pandeiro, era o melhor do planeta.
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Mesmo assim, não era fácil abandonar uma empresa onde se dava com todo

mundo, da presidência à faxina - a Victor, afinal, era a sua casa. Mas a

discussão com o gringo no estúdio acabou por influenciá-la. Carmen

ficara importante demais para ouvir desaforos, mesmo que não dirigidos a

ela. Era o seu brasileirismo falando alto - um sentimento que enfatizava

sempre que podia, para compensar o acaso de não ter nascido no Brasil.

Como se não lhe bastasse sentir-se totalmente brasileira - como se

precisasse parecer mais brasileira do que os brasileiros natos.


Carmen se entristecia e se ofendia quando alguém lembrava, mesmo sem

querer, que ela nascera em outro país. Daí sua relação com o letrista e

jornalista Orestes Barbosa ser tão complicada. Orestes, hidrofobamente

antiportuguês, vivia se dedicando por escrito a "denunciar" sua

cidadania lusa. Fez isso em seu livro Samba, de 1933, e voltava à carga

quase diariamente pelo jornal A Hora, em que escrevia.


Para Carmen, aquilo era uma perseguição. Na Argentina, ninguém queria

saber se Carlos Gardel era francês, uruguaio ou argentino. Gardel era

francês, claro - nascido em Toulouse, na França, de pai e mãe franceses,

e criado em Montevidéu -, mas era também o maior cantor argentino de

todos os tempos, o tango encarnado, e ninguém em Buenos Aires se achava

mais portenho que ele. Nos Estados Unidos, a mesma coisa com Al Jolson.

E daí que Jolson tivesse nascido na Rússia (como aconteceu) ou na Lua, e

não no Alabama? Ele era o cantor americano por excelência, o homem que

dominava a Broadway, Hollywood e o coração de milhões de americanos.
"Que diferença faz se esses putos nasceram em outro lugar?", dizia

Carmen. "A culpa é da mãe deles, que estava no país errado ao parir."


Em Samba, Orestes Barbosa dedicou cinco parágrafos a Carmen, todos

venenosos. Começou por acusar a Victor de ter revelado em seu catálogo a

"nacionalidade lusitana" de Carmen para "agradar à colônia portuguesa no

Brasil". Mas, como sabemos, quem se confessou nascida em Portugal foi a

própria Carmen, na famosa entrevista a R. Magalhães Júnior em Vida

Doméstica, quatro anos antes, e a Victor ficara até braba com ela. Para

Orestes, tal revelação teria provocado um "choque de tristeza" em seus

fãs. Por quê?


Numa lógica confusa, ele diz que Carmen era tão sensacional que não

passava pela cabeça de ninguém que ela tivesse nascido em Portugal,

"porque Portugal não nos envia sensações". E continuou: "Tudo quanto nos

vem de lá é chilro, anêmico e caixeiral" - preconceituosa referência aos

portugueses do Rio, inúmeros deles caixeiros no comércio -, para

concluir que Carmen só não ficou chilra, anêmica e caixeiral graças à

"força trituradora do Rio, que refina, como numa usina, os elementos

aportados ao seu torrão". Ora, ora. Se o Rio "refinou Carmen" e a tornou

quem ela era - "uma sambista carioca, tal o seu prodígio de adaptação",

segundo o próprio Orestes mais adiante -, vamos cair nos braços uns dos

outros e sambar até o sol raiar. Para que ficar insistindo no assunto?

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Além disso, se ter portugueses na família fosse um crime de lesa-samba,

Orestes estava se sentando sobre o próprio rabo. Seu prenome podia ter

ecos de um remoto herói grego, mas os sobrenomes de sua família -

Bragança Dias, por parte de mãe, e Silva Barbosa, por parte de pai - não

tinham nada de helénicos ou heróicos. Eram sobrenomes portugueses, e dos

bons, com perfumes de alheiras e carapaus. E se Carmen não podia ser

sambista por ter nascido em Portugal, o que dizer de outros que,

nascidos no Rio, manifestavam tão pouca disposição para o samba? Pois

Orestes - carioca da gema, do bairro da princesa, e que, ao caminhar,

andava meio de banda, como os malandros - estava nesse caso. Grande

letrista, sua obra quase não tinha sambas. O futuro só se lembraria dele

por suas valsas e canções com Sylvio Caldas ou Chico Alves: "Chão de

estrelas", "Suburbana", "Dona da minha vontade", "Serenata",

"Arranha-céu", "A mulher que ficou na taça" - páginas eternas da lírica

romântica em língua portuguesa. Mas, perdão, Orestes, impróprias para

tamborins.
Nada atingia Carmen, nem as ranhetices de Orestes, nem as fofocas por

sua mudança de gravadora. Em fins de abril de 1935 estreou na Odeon com

um disco da maior competência, composto do samba "Queixas de colombina"

e da marcha "Foi numa noite assim", ambos pela dupla Arlindo Marques Júnior

e Roberto Roberti. E, nos primeiros dias de maio, começou sua

participação em Estudantes, o filme que Wallace Downey, entusiasmado com

o sucesso de Alô, alô, Brasil!, resolveu fazer para o meio do ano.
Estudantes também era um musical, mas sem Carnaval. Dessa vez, a ação se

transferia para um idílico campus universitário, em que dois estudantes

(os comediantes Mesquitinha e Barbosa Júnior, já bem velhuscos para o

papel) cortejavam Mimi, uma cantora de rádio - Carmen, é óbvio. Mas Mimi

só tinha olhos para um terceiro estudante, Mário Reis, também bem

passado para um universitário. Ao redor, os suspeitos de sempre: Aurora,

Almirante, Jorge Murad, César Ladeira e, pela primeira vez, o Bando da

Lua - este enfim reduzido a seis elementos, porque Armando, um dos

irmãos Ozorio, trocara o conjunto e a vida artística pela carreira de

bancário em Porto Alegre. O enredo, ou coisa parecida (como no filme

anterior, a cargo de Braguinha e Alberto Ribeiro), terminava num baile

de formatura. O melhor do filme estava nas nove canções, entre as quais

"Linda Mimi" (só de Braguinha), com Mário Reis, e "Laia" (de Braguinha e

Alberto), com o Bando da Lua. Os números de Carmen eram o samba "E

bateu-se a chapa" (de Assis Valente) e a marchinha junina "Sonho de

papel" (só de Alberto), ambos de primeira linha.

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Para os cantores, as filmagens eram um martírio. "Don"t move!", berrava



Downey o tempo todo, secundado por um assistente: "Não se mexa!".

Acâmera era fixa, mas, depois de armada a cena - quase sempre no pior

enquadramento possível -, o cantor tinha de atentar para a posição do

microfone (uma geringonça camuflada num vaso de flores ou por trás de um

cenário, gravando o som direto) e ficar firme como um poste, sob

refletores que o fariam confessar o assassinato da própria mãe. Poderia

dançar, se quisesse, desde que não saísse muito do lugar. Apesar desses

cuidados, o som dos filmes continuava horroroso e Downey, com justiça,

era cordialmente chamado pela imprensa de "o pior diretor do mundo". Mas

tinha uma virtude: era rápido - rodou Estudantes em uma semana. E, se

não fosse assim, não daria para Carmen.
Ninguém levava uma vida mais frenética do que ela. Mal terminou sua

parte em Estudantes, Carmen tomou um Clipper da Panair no dia 23 de maio

rumo a Buenos Aires, para uma nova temporada de um mês na Rádio Belgrano

e nos teatros. Era sua primeira viagem de avião e, por via das dúvidas,

agarrou-se a uma pequena imagem de santa Teresa, sua santa de devoção,

durante o longo vôo de quase um dia. E, se a santa fracassasse para

conter as turbulências, seu irmão Mocotó estava na poltrona ao lado.
"Agora é que a Carmen Miranda vai nos olhar de cima", disse numa roda a

cantora Heloisa Helena. A frase podia ser uma constatação ou um

resmungo.
Carmen não precisava tomar um avião para se sentir por cima das cantoras

emergentes que não perdiam uma oportunidade de alfinetá-la - insinuando,

por exemplo, que estava na hora de ela ceder o lugar para os novos

talentos. Apenas os cachês que Jaime Yankelevich lhe pagava para passar

um mês em Buenos Aires, cantando duas ou três vezes por semana na Rádio

Belgrano, deviam ser suficientes. Esses cachês não eram inferiores a 10

mil pesos argentinos. Com o peso cotado na época a 5 mil-réis, cada

viagem representava cinqüenta contos de réis para ela. Nenhum outro

artista brasileiro podia se gabar de tais cifras.
Dessa vez, Carmen seguiu sem músicos, porque seus acompanhantes já

estavam lá: Josué de Barros, seu filho Betinho e o conjunto brasileiro

que eles lideravam. Com os dois violonistas estabelecidos em Buenos

Aires, e sempre prontos para acompanhá-la, ficara mais fácil levar

Carmen - e eles ainda contavam com o eventual reforço ao pandeiro de um

argentino louco pela cultura brasileira: o pintor Hector Júlio Páride

Bernabó, mais tarde famoso na Bahia e no Brasil como... Carybé.

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As idas agora anuais de Carmen a Buenos Aires justificavam o chamego dos

portenhos por ela. Eles a chamavam de Carmencita e já se sentiam com

certos direitos de propriedade. Mas, dessa vez, por artes de

Yankelevich, a visita de Carmen "coincidiu" com a viagem do presidente

Vargas à Argentina para uma conferência de paz envolvendo o conflito

entre o Paraguai e a Bolívia pela região do Chaco.
Carmen e Getúlio não estiveram ao mesmo tempo na cidade - quando ela

desceu do avião, ele já tomara o navio de volta -, mas era como se a

temporada de Carmen também tivesse um caráter "oficial". A Conferência

do Chaco continuava em andamento e as reuniões eram transmitidas para o

Brasil pelo Programa Nacional, na voz de César Ladeira, que viajara com

Getúlio. Às vezes, interrompia-se a transmissão dos debates para se

ouvir Carmen cantando pela Rádio Belgrano. Certa noite, por sugestão de

César, os delegados brasileiros levaram seus colegas paraguaios e

bolivianos para ir ouvi-la no teatro - e quem sabe não brotou ali, ao

som de "Alô, alô..." e "Primavera no Rio", uma centelha de concórdia

entre os litigantes? Um jornal a chamou de "embaixadora do samba" e, ao

final da temporada, a Rádio Belgrano fez as contas: Carmen recebera 1500

cartas de ouvintes. E nunca o Brasil tivera matérias tão simpáticas na

imprensa local. O final dessa viagem é que não foi feliz. Carmen tinha

acabado de voltar, também de avião, quando os portenhos sofreram um dos

golpes mais duros que o destino poderia lhes reservar: a incrível morte

de Carlos Gardel, aos 45 anos, no dia 24 de junho - seu avião se chocou

com outro e se incendiou na pista do aeroporto de Medellín, na Colômbia.


Carmen passou na volta por Porto Alegre, onde se apresentou na Rádio

Sociedade Gaúcha, e chegou ao Rio a tempo para a estréia de Estudantes,

no dia 8 de julho, no Alhambra. Pela primeira e única vez no cinema

brasileiro, a platéia pôde ver uma nova Carmen - não apenas como

cantora, fazendo números soltos, mas como atriz, integrada à trama,

dizendo as falas de Mimi. Os críticos a elogiaram e temos de nos fiar

neles, porque não é mais possível conferir: tanto Estudantes quanto Alô,

alô, Brasil!, assim como os dois filmes anteriores de Carnaval em que

Carmen aparecia, estão irremediavelmente perdidos.
O Brasil se beneficiava da prosperidade argentina e da garra de Jaime

Yankelevich, incansável para levar atrações estrangeiras à sua Rádio

Belgrano e aos teatros que controlava em Buenos Aires. Na ida ou na

volta, quase sempre em ambas, essas atrações paravam no Rio e, em

agosto, foi a vez de Lupe Velez, o "busca-pé mexicano" de Hollywood. Aos

32 anos e ainda uma tetéia, mas meio que no desvio cinematográfico, Lupe

já deixara longe a falsa ingênua que, aos dezenove, em 1927, estrelara

em O gaúcho (The gaúcho) com Douglas Fairbanks e tivera um caso com ele,

quase matando de desgosto sua mulher, Mary Pickford, que, nesse filme,

interpretava a Virgem Maria. Mesmo assim, a ABI (Associação Brasileira

de Imprensa) enfarpelou-se para recebê-la e ofereceu-lhe um pequeno

espetáculo de música popular em seu auditório. Entre os convidados

estava Carmen. Ela cantou "Cidade maravilhosa" e "Deixa a lua sossegada"

e, ao fim da apresentação, ouviu de Lupe que "deveria tentar Hollywood".

Carmen tomou nota de mais essa sugestão. Lupe seguiu caminho para Buenos

Aires, cumpriu sua temporada por lá e, na volta, em outubro, parou de

novo no Rio - dessa vez para apresentar-se no Cassino Atlântico, onde

cantou, dançou e fez imitações. Ninguém se empolgou. Os críticos foram

ferozes e a definiram como "bananeira que já deu cacho". Carmen defendeu

Lupe junto a esses críticos.

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A rota Rio-Buenos Aires-Rio não parava. O problema era que, em



contrapartida às rebarbas que pegávamos dos argentinos, às vezes

tínhamos de lhes ceder Carmen por mais tempo que se podia suportar. A

cada viagem de Carmen, os jornais cariocas a cumprimentavam pelo seu

sucesso, mas lamentavam que a cidade fosse se privar dela. Um ou outro

dizia que, à guisa de consolo, pelo menos tínhamos Aurora. Mas, no dia

20 de outubro, Carmen tomou o Clipper para Buenos Aires pela segunda vez

naquele ano, sempre sob contrato com Yankelevich - e, dessa vez, para

dividir o palco com Aurora.


Se Carmen já começava a confundir-se com a paisagem de Buenos Aires, a

imprensa portenha encantou-se com "Las hermanas Miranda". O sucesso da

dupla foi o sintoma de um processo que ninguém julgava possível:

invertendo a argentinite que assolara o Rio com o tango na década de 20,

agora era a música brasileira que apaixonava os argentinos. Carmen e


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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