Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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Lua iriam misturar-se às de Carmen a ponto de se confundirem com as

dela. Mas, naquela viagem de navio, a principal colaboração do conjunto

foi a de pregar as tachinhas que caíam das plataformas quando Carmen

ensaiava em sua cabine. (Às vésperas do embarque, ela pedira ao Caldas

que lhe fizesse vários pares, mas só no navio estava podendo testá-los

em ação.)
Carmen conhecia os meninos do Bando da Lua desde o dia 9 de fevereiro de

1930, quando eles foram à sua festa de aniversário na travessa do

Comércio, levados pelo homem que também os descobrira e os orientava em

sua carreira: Josué de Barros - não era mesmo um mundinho pequeno?

Naquela noite, em meio aos prógonos da folia (já se ouviam ao longe os

clarins do "Zé Pereira"), Carmen estava completando 21 anos - e "Taí",

alastrando-se pelas ruas do Rio, era o resultado do que Josué fizera por

ela em pouco mais de um ano. O trabalho de Josué com o Bando da Lua

também já tinha um ano e ainda não rendera frutos, mas os rapazes eram

novos e podiam esperar. O mais velho, o cavaquinista Stenio Ozorio,

regulava em idade com Carmen: 21 anos. Todos os outros eram mais jovens:

o banjista Ivo Astolfi tinha vinte anos; o violonista Armando Ozorio,

dezenove; o pandeirista Oswaldo Eboli, o Vadeco, dezoito; o ritmista

Affonso Ozorio, dezessete; o violonista Hélio Jordão Pereira, dezesseis;

e o violonista e cantor Aloysio de Oliveira ainda estava com quinze - a

maioria não tinha idade nem para freqüentar a praça Tiradentes.


Vadeco, Hélio e Aloysio eram cariocas; Ivo, gaúcho; e os irmãos Ozorio,

cearenses (mas, desde garotos, radicados no Rio). Todos moravam com suas

famílias na vila Martins da Mota, um beco tipicamente classe média que

saía da rua do Catete, 92, entre as ruas Pedro Américo e Andrade

Pertence. Até pouco antes, eles integravam uma organização bem maior: o

Bloco do Bimbo, um grupo que, no Carnaval, saía do Catete com dezenas de

integrantes fantasiados de havaianos, cada qual cantando ou tocando um

instrumento, e ia de bonde para as batalhas de confete em Vila Isabel.

Em 1929, oito ou nove daqueles meninos resolveram trocar a animação do

bloco pela criação de um conjunto vocal que funcionasse o ano inteiro,

inspirado no Bando de Tangarás, grupo formado em Vila Isabel por

Almirante, Braguinha (João de Barro), Noel Rosa e outros. É verdade que

as intenções dos rapazes do Catete, apesar de honradas, não eram só

musicais - o conjunto lhes facilitaria muito a vida quanto a flertes e

namoros. Especialmente depois que, numa noite de footing ao luar na

Praia do Flamengo, um nome, de autoria nunca identificada, caiu do céu

para defini- los: Bando da Lua.

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Começaram a cantar em festinhas, geralmente em torno de um bolo de

aniversário. Em uma delas, numa casa na Lagoa, foram vistos por Josué de

Barros, que se dispôs a ajudá-los. Aceitaram orgulhosos a oferta, e

Josué, de saída, podou-os de nove para sete elementos. Queria enxugá-los

ainda mais - o ideal para um conjunto vocal eram quatro, no máximo cinco

figuras -, mas isso eles não permitiram. Afinal, eram amigos de infância

(fora Hélio quem ensinara violão a Aloysio), moravam porta com porta,

viam-se todos os dias, e ninguém podia ficar de fora. Josué suspeitou

que, para aqueles rapazes bonitos e pretensiosos, a música era um hobby,

não uma profissão - a maioria estudava, outros já trabalhavam em alguma

coisa. Por isso, relaxou seu cansado corpo quanto ao Bando da Lua e

resolveu concentrar-se em Carmen, em quem sentia uma gana carnívora de

vencer.
Mesmo assim, em fevereiro de 1931, Josué conseguiu que eles gravassem um

disco na combalida Brunswick, quando esta já estava para ir embora do

Brasil. O disco saiu e ninguém tomou conhecimento. Em 1932 Josué foi com

Carmen para Buenos Aires e ficou por lá. O Bando da Lua só voltaria a

gravar (e, de novo, dois discos sem expressão) em 1933, dessa vez na

Odeon. Mas, nesse interregno, já estava começando a se apresentar em

cinemas, teatros e até igrejas, sendo anunciado como "um grupo de

rapazes da nossa melhor sociedade". Era possível ser cantor e continuar

pertencendo à "melhor sociedade" - bastava não ser pago para cantar.
O rádio finalmente os descobriu e, na primeira vez em que foram ao

Programa Casé, na Rádio Sociedade, em 1932, Ivo Astolfi agradeceu e

recusou em nome do conjunto o cachê que Adhemar Casé lhes ofereceu.
"Somos amadores puros", balbuciou Ivo.
Nem tanto - na verdade, não podiam receber cachês por não terem como

justificar aquele dinheiro para suas famílias. Semanas depois, aceitaram

o primeiro - 20 mil-réis para dividir por sete -, e mesmo assim porque

Almirante tomou o envelope da mão de Casé e o enfiou na mão de um deles.

Para torrar o dinheiro antes de voltar para casa, comeram e beberam à

gorda numa leiteria da Galeria Cruzeiro e, com o que sobrou, foram de

táxi para o Catete.
Estava quebrado o lacre. Vivendo no meio do rádio, roçando cotovelos com

artistas como Carmen e Aurora e tendo sido notados por Assis Valente,

que prometeu compor para eles, a profissionalização era inevitável.

Foram obrigados a confessar a seus pais que estavam ganhando dinheiro

para cantar. E, para surpresa deles - talvez suas famílias não os

levassem muito a sério como artistas, ou talvez o mundo estivesse

mudando -, seus pais não se opuseram, desde que eles "não parassem de

estudar". A partir daí, foi aquela água.

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Com os cachês, mandaram fazer jaquetões num alfaiate do Catete (as

lapelas tinham de se cruzar três dedos abaixo do nó da gravata) e

encomendaram novos instrumentos à Guitarra de Prata, na rua da Carioca

(violões e cavaquinhos escuros com uma lua clara gravada na madeira, e

vice-versa). Compraram um equipamento de som da RCA e alugaram um

apartamento na praça José de Alencar para servir de almoxarife do

conjunto, estúdio para ensaios, escritório e garçonnière. Em setembro de

1933, César Ladeira contratouos para a Mayrink Veiga. Em dezembro, a

Victor também assinou com eles, e a primeira gravação do Bando foi a

marchinha "A hora é boa", de Mazinho e do próprio Aloysio, cuja letra

dizia:
A hora é boa
Pra virar pangaio
No meio desse povaréu...
Ninguém sabia ao certo o que era virar pangaio, mas, dependendo do

povaréu - com todas aquelas moças fantasiadas de pirata ou de odalisca

-, devia valer a pena. A marchinha foi um sucesso do Carnaval de 1934.
Nos meses seguintes, o Bando da Lua foi visto e, às vezes, ouvido em

alguns dos ambientes mais disputados do Rio. Um deles era o salão de

dona Laurinda Santos Lobo, a "marechala da elegância", em Santa Teresa -

já longe de seu apogeu, é verdade, mas ainda uma anfitriã de grande

classe no Rio e, por acaso, vizinha de Carmen no Curvelo. Outra casa

fina a que iam como convidados era a dos escritores Ana Amélia e Marcos

Carneiro de Mendonça, na rua Marquês de Abrantes. E, para espanto de

todos, menos deles, foram mais de uma vez ao Palácio do Catete, sede do

governo, a convite de Alzira Vargas, filha do presidente. Alzirinha, da

mesma idade que Aloysio, estudava na Faculdade de Direito e já os

conhecia de tertúlias no bairro. Certa noite, Getúlio, de pijama de

alamares, passou por um corredor do palácio e ela o convocou: "Papai,

quero te apresentar os rapazes do Bando da Lua." Eles eram vaidosos e

ficavam bem de smoking, principalmente ao assistir à temporada de ópera,

bales e concertos do Municipal. Mas sabiam quando era hora de trocar a

fatiota por calças brancas, camisa de malandro e lenço no pescoço, para

tocar nos intervalos das sessões do recém-inaugurado Cine Alhambra, na

Cinelândia, do qual se tornaram atração freqüente. O Alhambra, em si,

também era uma atração: foi o primeiro prédio do Rio a ostentar uma

fachada Bauhaus e o primeiro cinema a oferecer tapis-roulant (escada

rolante), elevadores para 24 pessoas e ar refrigerado em todos os

ambientes. Um dos filmes com que o Bando da Lua se apresentou foi o

drama A Severa, o primeiro filme falado português, que marcou época

junto à colônia lusa do Rio e deixou por aqui a atriz Maria Sampaio, que

se casaria com o gerente da Mayrink Veiga, Edmar Machado. Outro foi

Escândalos da Broadway (George White"s scandals), com os astros do

momento: Alice Faye, Rudy Vallée e Jimmy Durante - e com quem, graças a

Carmen, o Bando da Lua estaria trabalhando em menos de cinco anos.

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Em outubro de 1934, ao serem contratados por Yankelevich para



excursionar com Carmen e Aurora a Buenos Aires, os rapazes foram logo

avisando ao argentino que eram um número à parte - ou seja, não

acompanhavam ninguém. Tinham repertório próprio, eram muito bem

ensaiados, e não fazia sentido subordinar seu estilo ao de um cantor ou

cantora, por maior que fosse. Yankelevich apenas ouvia enquanto os

rapazes pavoneavam seus méritos.


O Bando da Lua, diziam eles, era o único conjunto brasileiro a

"harmonizar" as vozes e colorir os arranjos com variações em trio, em

dupla ou solo. Arranjos, por sinal, que eram do conjunto todo - não

havia um arranjador. Assim como não tinham um líder - todos eram

líderes. E cada cantor tocava mais de um instrumento: Hélio se

encarregava do violão, flautim, lápis no dente e pente com celofane; os

irmãos Ozorio alternavam no cavaquinho, percussão, berimbau de boca e

pistom nasal (e Stenio ainda estudava violino); Ivo dublava no banjo e

no violão-tenor; Vadeco, sem contar o pandeiro, era dançarino; e por aí

afora. E, além dos sambas e das marchinhas, cantavam (em inglês) foxes

americanos, ao estilo dos Mills Brothers - "Sweet Sue, just you", "You

are my lucky star", "It don"t mean a thing". Ou, quando se reduziam a

três, ao estilo dos Rhythm Boys, o extinto trio vocal da orquestra de

Paul Whiteman, com Aloysio fazendo uma passável imitação do ex-crooner

dos Rhythm Boys - Bing Crosby.
Enfim, conjunto vocal que se prezasse não acompanhava cantor - essa era

a sólida disposição artística do Bando da Lua. Mas Yankelevich, sempre

concordando com tudo, não teve a menor dificuldade para convencê-los de

que, em se tratando de uma temporada no exterior, ninguém ficaria

sabendo e, quem sabe, não abririam uma exceção?
Assim, em outubro e novembro de 1934, pela primeira vez o Bando da Lua

acompanhou Carmen em vários programas da rádio argentina, sendo

apresentados por um jovem locutor local chamado Fernando Lamas. E Vadeco

dançou com Carmen (e, depois, com Aurora) um esquentado maxixe no palco

do Monumental - onde presenciou, nos bastidores, a perseguição a Carmen

por uma jovem e deslumbrada atriz, fascinada pela estrela brasileira:

Eva Duarte. No futuro, Eva Perón ou, simplesmente, Evita.
No estúdio da calle Córdoba ou em sua chácara em Villa Balester, perto

de Buenos Aires, onde recebia os brasileiros nos dias de folga, a

fotógrafa Annemarie Heinrich percebia como Aloysio de Oliveira, não mais

um adolescente, não desgrudava os olhos de Carmen. E por que

desgrudaria? Para o quase incontrolável Aloysio, ali estava o ser mais

desejável do mundo: a mulher multiplicada pela estrela - e ele tinha o

privilégio de conviver com as duas.
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Num momento de intimidade, fora do palco, Carmen era a colega acessível

e divertida, enfiada em roupas curtas e justas, com quadris firmes,

pernas carnudas e uma pele que, sempre que ele a tocava "sem querer", o

deixava instantaneamente excitado. Em outro momento, ela era a deusa

que, do seu ponto de vista - o Bando da Lua sempre às suas costas no

palco -, parecia estar engolindo a platéia com os olhos, a boca, os

braços e o corpo inteiro. Para Aloysio, Carmen era apaixonante,

arrebatadora, irresistível. E, pelo que Annemarie intuía, Carmen também

não era de todo indiferente a Aloysio - embora a fotógrafa não visse

nada que sugerisse a existência de um caso.


Não via porque não existia. Carmen, como mulher e artista, estava na

majestade de seus 25 anos. E Aloysio, com todo o porte que adquirira em

altura e compleição, podia ser ótimo para Moreninha, uma menina de

dezessete anos que ele namorava no Catete. Mas ainda era muito verde

para Carmen. Afinal, tinha somente vinte aninhos.
E havia outro motivo, aliás o principal: Carmen deixara no Rio um caso

sério.
Se Carmen namorou alguém no Rio desde o rompimento com Mário Cunha, em

1932, ninguém ficou sabendo. Mas a ninguém escapou o rapaz atraente com

quem ela passou a ser vista a partir de meados de 1934, em chás na

Brasileira e na Colombo, tardes na pelouse do Jockey e no deque do

Yacht, e passeios de carro à praia do Pepino e à Vista Chinesa. Não que

eles quisessem se mostrar. Ao contrário, tentavam ao máximo se esconder.

Mas como passar em branco quando se namora a mulher mais famosa do

Brasil?
Ele se chamava Carlos Alberto da Rocha Faria e, como Carmen, tinha 25

anos, menos alguns meses. Sua descrição coincidia com o gosto de Carmen

para homens: alto, moreno (tez rosada), forte (mas não uma máquina de

músculos), bons ternos, rosto bonito e másculo, cabelo preto,

brilhantina abundante. Num mano a mano com Mário Cunha, Carlos Alberto

levaria vantagem em certos itens: era menos vaidoso, nada galinha, e

mais dedicado a Carmen. E - importante para ela - também tinha berço,

tradições, quem sabe até brasão.


Carlos Alberto era um dos melhores partidos da cidade, desde que essa

noção de bom partido não envolvesse dinheiro em caixa. Sim, ele

pertencia a uma família rica. Seu tio, Carlos da Rocha Faria, era um dos

donos da América Fabril, a poderosa indústria têxtil fundada em 1871

pelos ingleses em Pau Grande, distrito de Magé, no estado do Rio, e que,

esgotada a concessão para que estes continuassem a explorá-la, fora

parar nas mãos de três grupos nacionais: os Bebiano, os Seabra e os

Rocha Faria. Depois de uma série de desaires a seguir ao crack de 1929,

a América Fabril estava forte de novo. Daí, podia supor-se que bastaria

a um jovem se chamar Rocha Faria para ter o futuro assegurado. Só que

não era bem assim. Um dia, Carlos Alberto poderia ser um dos altos

diretores da fábrica, mas dificilmente estaria entre seus herdeiros -

tinha vários primos pela frente. Era apenas um membro remediado de uma

família rica e esnobe, com todas as desvantagens que isso encerrava.


116
Uma delas era a de que, para seus parentes, "não convinha" que ele

namorasse uma profissional do rádio - uma cantora. (O preconceito da

elite estendia-se às profissionais em geral. Para os ricos, uma mulher

poderia até trabalhar, desde que por hobby ou para fins beneficentes -

nunca para viver. As profissionais do rádio eram apenas um pouco mais

malvistas do que, digamos, as jornalistas.) Mas nada era tão simples, e

esta poderia ser apenas uma impressão: até então, ninguém da família se

atrevera a chamá-lo para uma conversa, e nem sequer se podia afirmar que

o assunto Carmen Miranda tivesse sido discutido entre eles - os Rocha

Faria eram muito finos para se imiscuir em tais questões.


Para Carlos Alberto, a aversão de sua família a Carmen não era

declarada, mas palpável. Nunca partiria da casa de seus pais, no

Flamengo, ou de seus tios, no Humaitá, um convite para que Carmen os

visitasse. O pior era quando ele estava com seu tio Carlos no Humaitá, e

Carmen ligava para lá à sua procura. Todos sabiam que era ela - como não

identificar sua voz? O telefone lhe era passado por quem o atendera e

sentia-se o bloco de gelo ao redor do aparelho. Portanto, Carlos Alberto

tomou uma atitude corajosa. Como ninguém lhe dizia nada, fez de conta

que não sabia o que sua família pensava, e continuou saindo e sendo

visto com Carmen.


Mas, em conseqüência de sua própria educação, ele tampouco ficava à

vontade ao passar com ela na rua e se ver apontado por populares. Ao

contrário de Mário Cunha, que gostava disso, Carlos Alberto sentia-se

diminuído ao ser identificado como "o pequeno de Carmen Miranda". Outra

coisa que o ofendia era ouvir, à sua passagem, o nome de Carmen dito por

alguém - como se qualquer pé-rapado se sentisse no direito de referir-se

à intimidade dela e ao fato de ele ser seu namorado. Mas Carlos Alberto

avaliou a situação e decidiu que, se fosse esse o ônus a pagar por

gostar da mulher com quem tantos sonhavam, ele iria em frente - porque,

de tantos que sonhavam, só ele a conquistara.


E era bom que pensasse assim porque, se o tamanho da popularidade de

Carmen já era uma complicação desde o começo do namoro, agora é que

seriam elas. Além do disco, do rádio e do palco, vinha aí mais um

veículo que Carmen transformaria num feudo só para ela - o cinema.

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Wallace Downey era o típico americano nos trópicos, só que em versão

desenho animado: boa- praça, forte, suarento, avermelhado, uns 35 anos

presumíveis, chapéu de palhinha, terno de linho branco amarrotado, meia

dúzia de palavras em português, sotaque execrável, um uísque na mão - e

um oportunismo para o qual os nativos não estavam preparados.
A Columbia Records o mandara ao Brasil em 1928, para instalar em São

Paulo a filial brasileira da gravadora, se possível com dinheiro local.

Este foi fornecido pelo empresário paulista Alberto Byington Júnior, que

ficou como sócio nacional. Downey deu uma voltinha pelo território,

percebeu a diversidade musical em estado quase virgem e concluiu que

havia muita grana a ganhar com a nossa inspiração - em discos, em filmes

e, especialmente, em edições musicais. E não se sentiu nem um pouco

culpado por isso - os frutos cairiam de podre do mesmo jeito, se não

fossem colhidos dos galhos.
Em 1931, Downey convenceu Byington a produzir em São Paulo um

filme-revista sonoro, pelo sistema Vitaphone, a ser dirigido por ele. O

fato de ser americano não significava que Downey soubesse dirigir cinema

- e, de fato, ele só foi apresentado a uma câmera no primeiro dia de

filmagem. Bem ou mal, conseguiu filmar Stefana de Macedo, Paraguaçu,

Príncipe Maluco, maestro Gaó e outros nomes locais cantando toadas,

serestas, emboladas e foxtrotes. Filmou também um poema declamado por

Guilherme de Almeida, um número de ventriloquia com Batista Júnior, um

monólogo com Procópio Ferreira e uma paródia de "Singin" in the rain",

sucesso do filme Hollywood revue, com um cantor debaixo do chuveiro.

Depois, montou uma seqüência ao lado da outra, sem muito nexo, e mandou

o filme para a tela com o título de Coisas nossas. E - incrível - foi um

sucesso.
Downey viu que o caminho era por aí, mas havia um atalho melhor: o

Carnaval. Mudou-se para o Rio e aproximou-se dos grandes nomes da música

popular, entre eles Alberto Ribeiro e Braguinha, dubles de compositores

e letristas. Fundou uma produtora de cinema, a Waldow S.A., com

escritório no oitavo andar do Cine Odeon - uma sociedade anônima com um

capital de 250 contos, dos quais Downey detinha 243 contos e seus sete

sócios, cinco americanos e dois brasileiros, os sete restantes. E, em

parceria com a Cinédia, de Adhemar Gonzaga, começou a produzir filmes

com um mínimo de enredo e um máximo de música, toda ela voltada para o

Carnaval: os sambas e as marchinhas que estourariam naquele ano,

cantados pelos maiores nomes do rádio, quase todos, por acaso, da

Mayrink Veiga. Os filmes seriam programados para estrear no Rio algumas

semanas antes do Carnaval e, dali, percorrer o país nas fagulhas da

folia.
O primeiro foi Alô, alô, Brasil!, rodado em menos de um mês, entre

dezembro de 1934 e janeiro de 1935, e estreado no Alhambra em começos de

fevereiro, às vésperas do tríduo. E, se você acha que ele rodou o filme

em tempo recorde, saiba que, para os padrões de Downey, essa foi uma

produção demorada. O título era um alô, alô explícito ao rádio, veículo

com que o Brasil estava vivendo um caso de amor.
118
Em 1934, havia 65 emissoras de rádio no país. A Mayrink Veiga, com seu

transmissor de 25 quilowatts, era a rainha das ondas médias. Do Rio, que

era o Distrito Federal, ela tomava todo o estado do Rio, o Espírito

Santo e Minas Gerais, parte do estado de São Paulo, chegava à Bahia e a

Pernambuco e, graças ao canal livre internacional de que dispunha,

avançava bem pelo resto do Nordeste, principalmente à noite. Funcionavam

outras com um alcance parecido. Em São Paulo, a Rádio Record cobria todo

o Sul do país e chegava também ao Rio e ao resto do Sudeste. Os

locutores, comediantes, cantores e até compositores eram os novos xodós

nacionais. Um dos mais populares era Lamartine Babo, não apenas pela voz

inconfundível, quase infantil, mas porque sua figurinha era a mais fácil

das distribuídas aquele ano pelas balas Ruth. E ser "cantora do rádio"

substituíra aquela antiga aspiração das moçoilas nacionais de se

tornarem artistas de cinema. Nenhuma brasileirinha de pituca ou

maria-chiquinha queria mais ser Joan Crawford ou Norma Shearer - o que

ela queria agora era ser Carmen Miranda.


Braguinha e Alberto Ribeiro foram os roteiristas e assistentes de

direção de Alô, alô, Brasil!, embora também nunca tivessem visto uma

câmera. A trama - um fã de rádio apaixonado por uma cantora inexistente

- era o que menos importava. As multidões que se estapearam para

assistir a ele durante três semanas no Alhambra só queriam saber dos

números musicais: um naipe de grandes canções como, entre outras, "Deixa

a lua sossegada", com Almirante; "Menina internacional (Eu vi você no

Posto 3)", com Dircinha Batista; "Rasguei a minha fantasia", com Mário

Reis; "Foi ela", com Francisco Alves; "Cidade maravilhosa", com Aurora;

e "Primavera no Rio", com Carmen.
Se Chico Alves ainda tinha dúvida sobre quem era o maior cartaz do

Brasil, os cartazes propriamente ditos de Alô, alô, Brasil!, enormes, na

fachada do Alhambra, não deixavam dúvida: em todos eles o nome de Carmen

vinha em primeiro lugar - e o dele em segundo. Por ser o primeiro nome

do elenco, era Carmen quem fechava o filme, cantando "Primavera no Rio",

de chapéu e vestido de organdi, fotografada por Aphrodisio de Castro num

jardim da Cinédia. Era também a única em todo o elenco com direito a um

close. Mas, para a platéia, o grande sucesso já explodira alguns rolos

antes: "Cidade maravilhosa", com Aurora.
Wallace Downey, que estava pouco ligando para o filme em si, tinha seus

motivos para caprichar no repertório musical. Para ele, a música usada

no filme podia ter uma próspera sobrevida depois que o filme encerrasse


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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