Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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"Cidade maravilhosa" na Odeon, no dia 4 de setembro. E se um dia você se

perguntou por que Carmen teria deixado "Cidade maravilhosa" para a irmã

- quando ela própria, Carmen, poderia tê-la gravado -, não perca seu

tempo. André Filho ofereceu "Cidade maravilhosa" diretamente a Aurora.

Ela já gravara outras músicas dele, os dois eram amigos, e Aurora era

uma cantora em fulminante ascensão. Além disso, ninguém poderia

adivinhar que, no futuro, "Cidade maravilhosa" iria atravessar as

décadas e o século como sinônimo do Carnaval e do próprio Rio - porque,

quando foi lançada, quase ao mesmo tempo que "Primavera no Rio", não

houve uma supremacia inicial de qualquer delas. E, entre Carmen e

Aurora, não havia também um senso rígido de propriedade sobre as

marchinhas: nas apresentações que fariam juntas nos meses seguintes,

Carmen tanto cantaria "Cidade maravilhosa" e Aurora, "Primavera no Rio",

quanto aquela que a posteridade reservara a cada uma.
Não se cogitava, nem por brincadeira, uma competição entre as irmãs,

mas, para alguns compositores, a grande alternativa a Carmen em 1934 já

era Aurora. Depois de "Se a lua contasse", Aurora se tornara também a

cantora favorita de Custódio Mesquita e, nos dois anos seguintes,

gravaria outras dezoito músicas dele, marchas e sambas na maioria. E,

com ou sem Carmen, viajaria com Custódio para apresentações em São

Paulo, Santos, Caxambu, Lambari e Poços de Caldas.
Custódio era um homem esguio, de traços finos e bem-vestido. Seu rigor

quanto a ternos e gravatas incluía os ternos e gravatas dos amigos. Se

discordasse da gravata de um interlocutor, saía com ele do botequim em

que estivessem conversando e, sem se desviar da conversa, levava- o pelo

braço a um magazin defronte, comprava-lhe uma gravata nova, jogava a

velha na cesta e o conduzia de volta ao botequim - tudo isso sem perder

o fio da meada. Além da presença física e da elegância, Custódio tinha

algo de aventuresco e romântico - se fosse ator de Hollywood, faria,

talvez, papéis de espadachim. Sua família tinha fumaças aristocráticas e

era dona de mais de trinta imóveis nas Laranjeiras. Quando ele

demonstrou vontade de ser músico, ninguém discutiu: deram-lhe logo os

melhores professores de piano. Custódio foi um aluno aplicado e cedo

dominou tudo, do "Clair de lune" ao "Corta-jaca". O traquejo, adquiriu-o

tocando em filmes mudos nos cinemas e acompanhando cantores nas estações

de rádio. O talento melódico e harmônico, claro, nasceu com ele.

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Para outros, no entanto, o que Custódio mais tinha, além do talento, era

a vaidade. Grande músico, era fraco como letrista, mas, como não gostava

de dividir o selo do disco com parceiros, pedia letras aos amigos e as

assinava com seu nome (a de "Se a lua contasse", dizia-se que era de

Orestes Barbosa). Às vezes parecia bestíssimo, como quem se julgava

acima do meio - seus sapatos bicolores raramente pisavam os ladrilhos do

Nice ou mesmo do Café Papagaio, na rua Gonçalves Dias, que era o outro

ponto dos sambistas.


De outra feita, ao ser solicitado a mostrar a carteira de identidade

para entrar numa repartição oficial, respondeu na lata:


"Quem usa carteira de identidade é ladrão ou vagabundo. Um cavalheiro

usa cartão de visita."


E, com um floreio de mão, produziu o dito cartão, chegou-o ao nariz do

porteiro, já com a pontinha dobrada, e penetrou direto.


Apesar disso, tinha um ar acabrunhado e não parecia muito saudável.

Estava sempre tomando comprimidos, embora ninguém soubesse por quê.

Custódio era de grande discrição sobre si mesmo: não falava de sua saúde

nem de problemas pessoais, e ninguém o ouvia gabar-se de uma conquista.

Isso o tornava ainda mais atraente para as mulheres, e não foi difícil

que, passando tanto tempo juntos, Aurora se deixasse encantar por ele.

Os dois tiveram um namoro quase secreto entre 1934 e 1935, incluindo

bons momentos nas cidades menores onde se apresentavam e com o

beneplácito bem-humorado de Carmen. Numa dessas temporadas, em Santos, o

humorista caipira Nhô Totíco ouviu Carmen provocar Aurora sobre o namoro

com Custódio. Carmen também admirava Custódio, mas como pianista - na

verdade, fizera dele seu acompanhante favorito.


Custódio foi também o acompanhante de ninguém menos que o astro mexicano

do cinema americano Ramon Novarro, em julho de 1934, quando ele passou

pelo Rio na volta de uma temporada em Buenos Aires, onde se apresentou

como cantor na Rádio Belgrano e no Teatro Monumental. O empresário Jaime

Yankelevich, dono da rádio e do teatro, agendara-lhe também uma série de

apresentações no Cine Palácio e na Rádio Mayrink Veiga, no Rio.

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Oito anos antes, em 1926, Novarro subira a uma biga para interpretar

Ben-Hur, e descera dela como o maior nome da tela muda. Com seu sorriso

radiante, sustentou essa posição em filmes como O príncipe estudante e O

pagão - a tal ponto que, quando Cinearte publicava seu esperado álbum

anual, com closes dos astros de Hollywood, ele era o único que a revista

identificava somente pelo nome, seguido de uma exclamação: "Ramon!". Mas

o cinema falado foi cruel para com os heróis do silencioso - até para os

que, como ele, com sua voz de tenor dramático, sabiam inclusive cantar.

A MGM ainda lhe deu MataHan em 1932, com Greta Garbo, mas ali começou o

seu lento declínio. Lento, mas firme - tanto que, em 1934, Ramon já

podia ser chamado de "ex-grande astro". Abandonado pelo público nos

Estados Unidos e com seus dias contados na MGM, só lhe restavam

excursões como esta, à América do Sul, como cantor.
Mesmo assim, quando Ramon desembarcou na praça Mauá, a cidade foi

recebê-lo com as honras devidas a um membro da realeza. Visto de perto,

e comparado ao bravo Ben-Hur do filme, sentiu- se que ele tinha tudo do

herói, menos a masculinidade. Mas a imprensa o poupou, mantendo o seu

mito intacto para as donzelas que sonhavam se casar com ele. Nos

recitais do Palácio (do qual também faziam parte sua irmã, a dançarina

Carmencita Samaniego, e o Bando da Lua), Novarro cantou árias da Aída e

da Traviata, canções mexicanas, francesas, americanas e, para surpresa

geral, "Se a lua contasse", de Custódio, em português, cuja letra

aprendeu com Carmen e Aurora. E, quando ouviu Carmen cantar em seu

programa na Mayrink Veiga, garantiu-lhe que ela seria um sucesso em

Hollywood.


Em outros tempos, uma recomendação como essa, mesmo vinda de alguém cujo

prestígio já conhecera dias melhores, seria para se soltar foguetes.

Mas, em 1934, ninguém podia garantir nada sobre Hollywood, e muito menos

sobre o destino dos astros de origem latina. Assim como Ramon, todos os

mexicanos que tinham feito seu nome no cinema mudo estavam agora por

baixo: Antônio Moreno, Ricardo Cortez e Gilbert Roland. A busca-pé Lupe

Velez também já passara do ponto e, segundo Novarro, só era lembrada

porque, casada com Johnny Weissmuller, Lupe obrigava os maquiadores da

MGM a perder horas disfarçando os sulcos em carne viva que suas unhas

deixavam no peito depilado de Tarzan. E, quanto a Raul Roulien, o

brasileiro que chegara a sentir um certo bafejo da glória, era melhor

não dizer muito. Ele também acabara de descobrir o que Hollywood lhe

reservava: dor, crueldade e desprezo.
Quatro anos antes, em 1930, o carioca Roulien, de 25 anos, já tinha uma

carreira mais do que mirabolante em sua terra. Era ator, autor e

empresário de teatro, cantor, compositor e chefe de orquestra, ídolo

popular, amigo de gente importante, amante de grandes mulheres, e isso

em doses iguais, tanto no Brasil quanto na Argentina. Estava para se

inventar algo que Roulien não pudesse ou não soubesse fazer no palco.

Assim, em 1931, Roulien decidiu que iria vencer em Hollywood. Para isso,

embarcou com a cara e a coragem e com sua mulher, a ex-girl de teatro de

revista Diva Tosca. E, graças a seu inacreditável desembaraço, Roulien

foi, de fato, logo contratado pela Fox. Mais espantoso ainda: depois de

apenas um filme para o mercado hispânico, apareceu num filme americano

de verdade, Deliciosa (Delicious, 1931), em que cantava a canção-título,

"Delishious", de George e Ira Gershwin, e tinha a duvidosa honra de

"ceder" a heroína (Janet Gaynor) para o galã americano (Charles

Farrell). A Fox fez tanta fé em suas possibilidades que lhe operou as

orelhas de abano, escalou-o em um filme depois do outro, e ainda

arranjou um emprego para Diva na sala de montagem. Em 1932, Roulien

alternou filmes hispânicos e americanos, nenhum deles bom, mas sua

vitória em Hollywood era tão inegável que ele veio ao Brasil para se

deixar homenagear. Em janeiro de 1933, ao descer do navio no Rio,

arrastou uma multidão à avenida Rio Branco e foi simbolicamente beijado

por toda a nação. Naquele momento, ele era o artista brasileiro que mais

alto chegara na cotação internacional.

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Roulien voltou para Hollywood e, em junho, a Fox o emprestou à KKO para

o que seria a grande tacada de sua carreira: o musical Voando para o Rio

(Flying down to Rio) estrelado pela mexicana Dolores Del Rio (no papel

de uma rica herdeira carioca) e pelo galã Gene Raymond. Vivendo um

brasileiro, Roulien era o terceiro nome do elenco, que se completava com

uma corista recém-egressa da Broadway, Ginger Rogers, e, em quinto

lugar, na lanterninha do elenco, um dançarino também importado de Nova

York, e em quem poucos acreditavam: Fred Astaire (o mundo ainda não

sabia que, de "The Carioca", o falso maxixe dançado por eles no filme,

resultaria a dupla Fred & Ginger).


Era o primeiro filme de Hollywood ambientado no Brasil, com

espetaculares cenas aéreas do Rio, usadas nas back projections, e outras

de cenário, como as do Copacabana Palace, que foi reconstituído no

estúdio da RKO. Dois meses depois, terminadas as filmagens, Raul podia

se orgulhar da sua participação: tinha boas falas, cantava o tango

(também falso) "Orchids in the moonlight" e, mais uma vez, "cedia"

gentilmente a mocinha para o galã americano. Mas, enquanto Voando para o

Rio estava sendo montado, sonorizado e recebendo os acabamentos para ser

lançado em dezembro de 1933, o destino caiu como uma clava sobre Raul

Roulien.
Na noite de 27 de setembro, ao atravessar uma rua em Hollywood, Diva

Tosca, 23 anos, foi atropelada e morta por um carro em velocidade. O

motorista, 27 anos, estava embriagado e se chamava John Huston - sim, o

próprio. Nesse tempo, Huston ainda não era diretor, nem sequer

roteirista. Seus créditos se limitavam a alguns "diálogos adicionais"

para filmes da Universal estrelados por seu pai, o astro Walter Huston.

E então foi isso: o filho de um famoso ator americano matou sem querer a

mulher de um semi-obscuro ator latino.

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John e seu pai esperavam que a tragédia se esgotasse por si, sem muita

imprensa além da inevitável. Mas não contavam que Roulien os

processasse, exigindo uma indenização em dinheiro ("E a única linguagem

que eles entendem", dizia Raul). O caso não saía dos jornais. Walter

Huston empenhou-se pessoalmente no caso, mandou seu filho para a Irlanda

(para afastá-lo do cenário) e infernizou a vida de Roulien pelos

intermináveis dois anos em que o processo rolou. Enquanto isso, Roulien

ainda fez alguns filmes na Fox. Em 1935, para surpresa geral, Roulien

ganhou o processo - mas foi uma vitória irreal, porque era óbvio que a

cidade iria fechar-se para ele. Voltou para o Brasil. Seu sonho de um

estrelato americano terminara.


Carmen já estava se habituando a ouvir dos gringos em visita ao Rio que

seu lugar era em Hollywood - a própria equipe que viera filmar as

externas de Voando para o Rio em meados de 1933, e assistira a uma

apresentação sua, lhe dissera isso. Mas, depois das desventuras de

Olympio Guilherme, Lia Tora e Raul Roulien na "fábrica dos sonhos", uma

mulher como ela já não podia sonhar ingenuamente com Hollywood. A era da

inocência acabara.
Carmen se dava bem muito bem com Elisinha Coelho e as duas não se

consideravam concorrentes. Elisinha pouco ligava para gravar discos e

seu único sucesso considerável, embora definitivo, fora "No rancho

fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo, que ela lançara em 1931. Estava

casada com o jornalista e teatrólogo Goulart de Andrade, de quem

esperava um filho, e queria que Carmen fosse a madrinha. Carmen, louca

por crianças, aceitou. O menino nasceu, chamou-se Luiz Filipe, e, nos

anos seguintes, ela seria uma madrinha atuante. Sempre que Elisinha

viajava a trabalho, Carmen sentia o garoto à sua disposição e o

seqüestrava para lanches na Colombo ou para passar a tarde com ela em

Santa Teresa. Na mesma época, Elisinha fez algo que estatelou Carmen:

separou-se de seu marido e se dispôs a criar o filho sozinha. Carmen não

a censurava, apenas achava aquilo incrível. E façanha ainda maior já

tinha sido cometida pela própria mãe de Elisinha, a jornalista Acy

Carvalho, encarregada da seção feminina de O Jornal: ela igualmente se

separara do marido - só que fizera isso nos anos 10, quando tal atitude,

por parte de uma mulher, era de uma impressionante audácia. Carmen se

deslumbrava com a coragem das duas, embora sua formação católica lhe

dissesse que, como ninguém era obrigado a casar, se fizesse isso devia

ser para sempre.


Carmen era também grande amiga da atriz Aída Izquierdo, ex-mulher de

Procópio Ferreira e mãe da pequena Bibi. Quando as duas saíam para

almoçar, Bibi ia junto, de fita no cabelo. Seus lugares preferidos eram

a filial da Confeitaria Americana, na esquina de Paissandu com Marquês

de Abrantes - onde Carmen se segurava para não atacar os queijos quentes

e as bananes royales, que a engordavam -, e o restaurante OK, no Lido,

onde podia dedicar-se a seu prato favorito: frango, principalmente asas,

"rabinho" (ou sobrecu) e salada de palmito. Carmen admirava Aída porque

ela estava conseguindo dar uma boa educação a Bibi, apesar de a menina

ter sido recusada em colégios por ser filha de atores e, pior ainda, de

pais separados. Procópio e Aída se separaram quando Bibi tinha um ano,

mas a corajosa Aída fora em frente e levara Bibi com ela, até mesmo para

o palco. A coragem parecia ser a primeira característica que fazia

Carmen respeitar uma mulher - e talvez sentir uma ponta de inveja, já

que, de certa maneira, sua própria coragem nunca precisara ser testada.

Para ela, Elisinha e Aída transmitiam essa coragem.

108

Carmen transmitia outras coisas: eletricidade, excitação, e não apenas



nos discos, no rádio ou no palco - em pessoa também. Seu amigo

Braguinha, autor de "Primavera no Rio", jurava sentir a presença de

Carmen até quando ela passava em silêncio por trás dele, no estúdio da

Victor. Carmen transmitia também autoridade. Nas reuniões com executivos

e empresários, em que se discutiam propostas e se assinavam contratos

para shows ou excursões, era ela quem comparecia para discutir e assinar

- não tinha empresário ou agente, e não delegava essa tarefa a ninguém.

E, no dia-a-dia, Carmen transmitia uma soberana naturalidade. Ao sair à

rua, não tentava se esconder da multidão - as calçadas eram sua

passarela, como se a cidade fosse uma extensão de sua sala. É conhecida

a história do amigo que, ao passar por Carmen na Avenida, lamentou que

sua filhinha tivesse perdido o programa dela na Mayrink Veiga.


"E agora, quando é que ela vai poder ouvir o Taí?", ele perguntou.
"Agora mesmo", respondeu Carmen.
Entrou com o amigo num botequim, pediu ao português para usar o

telefone, e cantou baixinho, ao aparelho, a marchinha para a criança.


Em casa, na presença da mãe, Carmen fazia exatamente o contrário:

saltava um ou dois estágios para trás e regredia quase à infância. Não

somente ela, mas todos os seus irmãos. Em 1934, dona Maria, formidanda

nos seus 48 anos e sem o fardo dos tempos da dureza, governava a casa

como se ainda tangesse benignamente as cabras nas serras da Beira-Alta.

Controlava os horários de Carmen, Aurora, Amaro e Tatá, e queria saber

com quem saíam e para onde iam, alheia ao fato de que suas filhas eram

as maiores estrelas da música popular e que os rapazes eram

independentes e tinham sua vida. (O caçula, Tatá, que acabara de fazer

dezoito anos, caprichava na gomalina e no bigodinho ao estilo fatal do

galã John Boles.) Bem sintomático desse poder foi quando, com os filhos

já crescidos no que tinham de crescer, descobriu-se que dona Maria, com

seu quase 1,65 metro, seria sempre a pessoa mais alta da família - nisso

se incluindo seu Pinto, dois ou três dedos mais baixo.


Só havia uma instância em que dona Maria não conseguia exercer sua

autoridade doméstica: os palavrões. Era a única pessoa da casa que não

os usava. Quando Aurora, normalmente tão suave, soltava um expletivo

mais dramático - algo assim como: "Puta que pariu, caralho! Porra!!!" -,

dona Maria apenas suspirava:
"Ah, minha filha... Por que, em vez disso, você não diz "Ai, Jesus!"?"

109
O que Carmen praticava todos os dias era a generosidade. Ao receber uma

homenagem na Hermanny, loja de perfumes na Cidade, compadeceu-se de uma

vendedora ameaçada de ser despedida por ter os dentes muito estragados.

Carmen financiou-lhe um tratamento dentário completo (por intermédio de

Assis Valente) e salvou o emprego da moça. Era generosa também com seus

compositores favoritos, entre os quais Synval Silva.
Carmen ficara tão satisfeita com o sucesso de "Ao voltar do samba" que

prometera a Synval dois contos de réis se ele fizesse outro samba que

lhe rendesse metade do sucesso do primeiro. Synval levou-lhe "Coração",
Coração
Governador da embarcação do amor
Coração
Meu companheiro na alegria e na dor... .
que Carmen gravou em 11 de outubro, junto com outro samba de primeira

para o lado B, "Comigo não!...", de Heitor Catumby e Valentina Biosca:


Eu te conheci nos teus tamancos Pelas ruas dando trancos Numa bruta

cavação...


O disco superou qualquer expectativa, e Carmen cumpriu a promessa com

Synval. Em 1934, dois contos representavam dez vezes o salário mensal

médio de um operário no Rio e em São Paulo. Uma fortuna para o

compositor - e, por aí, pode-se pelo menos calcular o dinheiro que

entrava para Carmen.
O dinheiro do samba não subiu à cabeça de Synval, que continuou a

trabalhar em sua outra especialidade: mecânica de automóveis. Foi ao

ouvi-lo falar de carros que Carmen se empolgou com a idéia de comprar um

- e fazer com que Synval a ensinasse a dirigir. Os dois foram a uma loja

da Cidade, e Synval ajudou-a a escolher o Terraplane, uma barata de duas

portas, da Hudson, modelo do ano, muito popular no Rio.


Fechado o negócio, Synval pegou o carro, deu várias voltas com Carmen, e

pode ter começado as aulas de direção naquele mesmo dia. Sabe-se que,

por precaução, as primeiras foram nos terrenos baldios da nova esplanada

do Castelo e nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont. Ao fim de cada

aula, Synval devolvia Carmen e o carro ao Curvelo. Mas houve ocasiões em

que, com autorização de Carmen, Synval usou-o também para transportar

seu próprio pai adoentado de hospital em hospital. Um dia, Carmen

tornou-se efetivamente motorista, mas, em todas as ocasiões em que não

ficava bem para a estrela chegar ao volante de um automóvel, Synval

continuou a ser o seu chofer.


E, eventualmente, ele ainda lhe compunha uma ou outra obra-prima. Por

exemplo, "Adeus, batucada".


Capítulo 7


1934 - 1935


Cantoras do rádio

O Caldas, veterano sapateiro da Lapa, não se conformava: "Mas, dona

Carmen, isso vai parecer sapato de aleijado!" "Não interessa, Caldas.

Faça o que estou dizendo", ordenou Carmen. O sapateiro tinha razão - ou

pensava ter. O que Carmen lhe pedia para executar era o cruzamento de um

sapato ortopédico com um tamanco português. Ou seja, a adaptação do

salto ortopédico a uma plataforma de madeira estilo tamanco - como se

sobre essa plataforma, já três vezes mais grossa que a de um tamanco

normal, começasse outro sapato, semelhante ao usado pelos deficientes.

Caldas fez o que a cliente ordenara e, para sua sorte, viveu para ver o

resultado. Com aquele modelo primitivo, em forma de ferro de engomar e

adornado apenas por algumas tachinhas coloridas imitando confete, Carmen

acabara de inventar a primeira de suas marcas registradas. (Anos depois,

a lenda diria que ela se inspirara num sapato de sola grossa, para

praia, que vira numa revista de moda americana - como se, criada na

colônia portuguesa carioca, Carmen precisasse disso para ser apresentada

ao humílimo tamanco.) Os novos formatos e adereços daqueles sapatos

viriam aos poucos, assim como o exagerado crescimento da plataforma -

que chegaria a quinze centímetros de altura e, quando ela dançasse,

exigiria um prodígio de equilíbrio para seu pezinho 34.


Carmen queria parecer mais alta do que o 1,52 metro que o destino lhe

reservara na vertical - e mais alta do que lhe permitiam os saltos Luís

xv que já usava. Em todos os documentos em que tinha de declarar a sua

altura, tanto os do consulado português como os do Ministério do

Trabalho, não vacilava em conceder-se nove centímetros extras, com o que

passava para 1,61 metro. E, se lhe aplicassem a fita métrica, era o que

ela teria mesmo - desde que plantada sobre os novos sapatos. Princípio

idêntico fizera com que, naquele mesmo ano de 1934, Carmen adotasse o

turbante como peça freqüente (embora não obrigatória) de seu

guarda-roupa nos shows. Se bem que, nesse caso, não estava inventando

nada: os turbantes já eram socialmente aceitos como opção aos chapéus na

indumentária feminina, e sua colega Jesy Barbosa às vezes os usava. Mas

a combinação de turbante e plataforma, aliada à brejeirice radical, deu

a Carmen o toque de absurdo, alegria e extravagância que passou a

caracterizá-la. A partir dali, ficava claro que ninguém mais contasse

com Carmen Miranda para discussões sobre Nietzsche ou Kierkegaard.


111

Os turbantes e as plataformas de Carmen fizeram sua primeira aparição no

Cine-Teatro Broadway, em Buenos Aires, para onde ela partira no dia 26

de outubro, ao lado, também pela primeira vez, de Aurora e de um

conjunto vocal que o argentino Jaime Yankelevich, responsável pela

excursão, descobrira no Rio durante os shows de Ramon Novarro: o Bando

da Lua. Nos anos seguintes, a carreira e a vida dos membros do Bando da


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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