Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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de César Ladeira pelo rádio e deixava que elas o embalassem. O país não

se juntou à guerra dos paulistas e, quando eles se renderam, os líderes

do movimento foram presos. César Ladeira, que não era líder, também foi

preso e levado para um presídio no bairro paulistano do Paraíso. Os

vitoriosos consideraram que a beleza de sua voz, a clareza de sua dicção

e a força de seus erres tinham feito a insurreição se prolongar por mais

tempo do que devia. Mas, para mostrar que não guardavam rancor,

libertaram-no em dezesseis dias e ele pôde reassumir seu posto na Rádio

Record, desde que transmitisse coisas mais amenas.


Um ano depois, a convite do empresário Antenor Mayrink Veiga, César

Ladeira veio para o Rio em nome de outra revolução: assumir a direção

artística da Rádio Mayrink Veiga, no lugar do burocrático Felicio

Mastrangelo, e fazer dela a mais ouvida do país.


César chegou à Mayrink Veiga em agosto de 1933. Começou a trabalhar no

mesmo dia e saiu-se muito melhor do que a encomenda. Em tabelinha com o

novo diretor-gerente, Edmar Machado, aproveitou-se do decreto-lei que

liberara a publicidade no rádio e tornou a Mayrink a emissora mais

profissional do Brasil. Foi a primeira a trocar os cachês por contratos

de trabalho, com horários e vencimentos fixos e direito a férias - e os

benefícios abrangiam todo mundo: redatores, locutores, contra-regras,

arranjadores, músicos, cantores. A primeira artista a ser contratada foi

Carmen, que continuou com seu programa semanal às sextas-feiras, às oito

da noite, mas, agora, com o salário de um conto e 400 mil-réis por mês e

a obrigação de chegar na hora. Outros que César contratou nas semanas

seguintes foram Francisco Alves, Sylvio Caldas, Lamartine Babo,

Pixinguinha - os grandes nomes - e a jovem estrela Aurora Miranda.

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A Mayrink Veiga não se tornou apenas a emissora mais profissional. Era

também a mais experimental. Nela criaram-se os primeiros programas

humorísticos (com Barbosa Júnior e Jorge Murad), os primeiros

radioteatros e as primeiras radionovelas. Pela Mayrink, o locutor Gilson

Amado comentou, in loco, durante meses, os debates da Assembléia

Nacional Constituinte (que resultariam na Constituição de 1934) e

promoveu as primeiras mesas-redondas no rádio. Foi também a primeira

emissora brasileira a ficar 24 horas no ar, a levar o microfone para as

ruas, e ainda a primeira a fazer uma transmissão internacional - em

sintonia com a Rádio Belgrano, de Buenos Aires, controlada pelo poderoso

empresário argentino Jaime Yankelevich, com as vozes de Carmen, Aurora,

Patrício Teixeira, Madelou de Assis e o piano de Custódio Mesquita na

transmissão inaugural. A Mayrink era tão competente e inovadora que as

outras estações tiveram de se mexer e, com isso, também melhoraram.
Em quase todas essas medidas havia o dedo de César Ladeira. Apesar da

pouca idade, sua intuição e criatividade para o rádio eram assombrosas.

Em troca, a Mayrink lhe pagava dois contos de réis por mês, pouco mais

do que a Carmen, só que, no seu caso, simbólicos. Seu verdadeiro

faturamento eram os 5% sobre os anúncios que ele, como locutor, lesse no

ar - fazendo com que, aos 23 anos, em 1933, César ganhasse mais dinheiro

do que conseguiria gastar, mesmo que o atirasse pela janela do bondinho

do Pão de Açúcar.


Mal se instalou no Rio, ele passou a ser a sensação da cidade. A

princípio, era apenas uma voz. Mas uma voz incomum, inesquecível, e suas

ouvintes o fantasiavam como possuidor de uma beleza atlética ou

hollywoodiana. Quando ele lia pela Mayrink a crônica diária de Genolino

Amado, "Cidade maravilhosa" - escandindo enfaticamente a palavra

"ma-ra-vi-lho-sa" -, os maridos ouviam suas mulheres suspirando e,

irritados, desligavam o aparelho (mas, assim que eles viravam as costas,

elas o ligavam de novo). Aos poucos, César foi deixando de ser apenas

uma voz e se tornando uma onipresença física, na praia, nos palcos, nos

auditórios e nos grandes salões do Rio. Viu-se então que ele não tinha

nada de Atlas nem de Hollywood. Era baixinho, mais para o roliço, de

pescoço grosso e pernas curtas. Mas as mulheres não quiseram nem saber.

Elas o achavam bem-apanhado, muito bem penteado e se apaixonavam pelo

seu sorriso e pela curva do seu bigode. Além disso, havia sua voz - e

seu poder. Em seus primeiros meses no Rio, César não teve mãos a medir:

todas as mulheres da cidade pareciam querer jogar-se sobre (ou sob) ele.


Numa festa em noite de lua cheia, na casa dos pais de Custódio Mesquita,

nas Laranjeiras, César enfurnou-se pelo jardim com uma garota e sumiu

por algum tempo. Quando reapareceu com ela, passou por Custódio, que fez

o comentário velhaco:


"Se a lua contasse..."
César fez que não ouviu, mas Custódio ficou com o mote na cabeça. Dias

depois, produziu a marchinha com esse título, que ofereceu a Aurora

Miranda.
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Em fins de outubro, Aurora gravou "Se a lua contasse" em dupla com João

Petra de Barros. O disco saiu às ruas, Aurora cantou a marchinha na

Mayrink e o país cantou junto com ela. Foi um estouro para Custódio, que

começava ali sua fabulosa carreira, e para Aurora, que tinha o seu

terceiro sucesso seguido. O fato de, por aqueles dias, a cantora -

Aurora - começar a namorar o inspirador da música - César - foi apenas

uma coincidência.
Até ali, Aurora só tivera um namorado: Plinio, funcionário da Caixa

Econômica e colega de Mário Cunha, então namorado de Carmen. Os dois

rapazes se pareciam. Plinio também era bem-posto, bom partido e um

militante na arte da conquista - ou seja, alguém a não se levar muito a

sério como namorado. Ao acompanhar o rompimento entre Carmen e Mário

Cunha, Aurora pode ter resolvido apressar também o fim de sua história

com Plínio. Um ano depois, na Mayrink, conheceu César, e houve um

instantâneo clique entre eles. Alguns achavam que, por uma liturgia

hierárquica, o normal seria César se interessar por Carmen. Mas isso não

aconteceu: seu alvo era a irmã mais nova da estrela. Não foi difícil

para César fisgar Aurora - porque ela também estava de olho nele.
Entre os talentos de César estava o de inventar bordões para seus

contratados, expressões que os marcassem popularmente. Foi assim que

Carmen, lançada inicialmente pela Victor como "A cantora com "it" na

voz", tornou-se, depois de César, "A ditadora risonha do samba" - numa

referência meio oblíqua a Getúlio, ele próprio um ditador risonho (e o

primeiro governante brasileiro a não ter pêlos no rosto). Só em 1934

César chegaria à forma definitiva para Carmen: "A pequena notável"

(pequena era sinônimo de garota; não tinha necessariamente a ver com a

estatura). Francisco Alves tornou-se "O rei da voz" - também um grande

achado, porque era exatamente o que ele era. Almirante, "A maior patente

do rádio". João Petra de Barros, "A voz de dezoito quilates". E Sylvio

Caldas, "O caboclinho querido" - caboclinho, sim, mas nem tão querido

dos diretores de rádio, principalmente quando desaparecia por semanas e

deixava um buraco na programação. Quanto a Aurora, supunha-se que, por

ser sua namorada, o slogan que César inventasse para ela seria o mais

feliz e criativo. Criativo ele foi, mas muito infeliz e, por isso, não

pegou: "O micróbio do samba" (querendo dizer que ela era contagiosa).

Levaria tempo para ele chegar à formulação óbvia e perfeita para Aurora:

"A outra pequena notável".
Contagioso era César: enxames de mulheres zumbiam ao seu redor, e ele

não fazia nada para afastá-las. Aurora percebeu isso e, com o

pragmatismo que começou a aplicar desde cedo às questões do coração,

decidiu que era melhor ter César como amigo e como colega do que como

namorado. O romance acabou antes do fim do ano. Mas "Se a lua contasse"

chegou com sucesso àquele Carnaval e a muitos Carnavais seguintes.


Ninguém resistia a César Ladeira. Com poucas semanas de Rio, foi chamado

a palácio pelo homem que, menos de um ano antes, ele queria a todo custo

derrubar: Getúlio Vargas - que ainda nem ao menos se tornara presidente

constitucional (o que só aconteceria em 1934) e continuava a ser o mesmo

odioso ditador contra o qual César e seus conterrâneos tinham ido à

guerra e arriscado a vida. O que o infame ditador queria com ele?


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Getúlio recebeu César cordialmente no Catete. Não tocou no passado.

Elogiou-o pelo trabalho na Mayrink e disse que, sem prejuízo de suas

importantes funções na rádio, tinha uma proposta a lhe fazer:

convidava-o a ser seu locutor pessoal nos eventos oficiais.
E não é que César aceitou? Ninguém resistia a Getúlio.
Carmen não gostava de ver seu nome escrito como "Carmem". Mas, quando

isso acontecia, era um pouco por sua culpa. As amigas iam visitá-la e a

encontravam enchendo cadernos com sua assinatura.
"O que é isso, Carmen?", perguntavam.
"Estou treinando meu autógrafo", ela dizia.
E mostrava as páginas cobertas com uma assinatura tão rococó que a

quantidade de pernas torneadas no M de Miranda daria para escrever

vários emes - um deles ameaçando escapulir e se pregar indevidamente a

Carmen.
Sua enorme popularidade podia ser checada a cada instante: na lotação

dos cinemas e dos clubes em que se apresentava, na quantidade de discos

que vendia, e nos convites para visitar oficialmente todo tipo de

estabelecimento - desde a piscina do Copacabana Palace, "para tomar um

drinque", até a Casa Hermanny, loja de perfumes na rua Gonçalves Dias,

para experimentar um novo aroma. O Rio a tinha como sua namorada. Homens

e mulheres a admiravam por igual e a paravam na rua para lhe dizer isso.

Não seria absurdo supor que ela se elegeria para qualquer cargo político

que quisesse ou que venceria facilmente qualquer concurso de

popularidade, não?
Não. Quando um determinado produto se associava a um jornal e

patrocinava um concurso de popularidade entre cantores, Carmen, assim

como Chico Alves ou Mário Reis, não ganhava nunca. O vencedor ou

vencedora era sempre um cantor menor, que contava com "cabos eleitorais"

dispostos a comprar centenas de jornais diariamente, inclusive os

encalhes dos jornaleiros, recortar os cupons, preenchê-los e levá-los em

sacos às juntas apuradoras. Quase sempre, essa azáfama era financiada

pelo próprio artista ou por uma casa comercial ligada ao tal produto.

Carmen, Chico Alves e Mário Reis não se rebaixavam a isso e, mesmo

assim, recebiam milhares de votos - espontâneos, verdadeiros, mas

insuficientes para vencer.

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Em agosto de 1933, o analgésico Untisal, indicado para lumbagos e

reumatismos, e o jornal A Nação promoveram um desses concursos. O

objetivo era eleger um cantor, uma cantora e quatro músicos para uma

temporada de um mês, em novembro, numa rádio de Buenos Aires. Ou seja, a

orgulhosa platéia portenha estava delegando ao público carioca o direito

de escolher, através do suspeito sistema de cupons, que artistas

brasileiros iriam se apresentar para ela. Havia algo de estranho nisso,

mas as pessoas fizeram de conta. O Untisal era um remédio multinacional,

e estava na boca do povo como mote da paródia à marchinha de Lamartine

Babo, "Ride, palhaço", que dizia:
Ride, palhaço Lararara-rará Lararara-rará Lararara-rará...
O carioca a completara para:
Ride, palhaço Passa Untisal no braço E se a dor for profunda Passa

Untisal na bunda.


A votação levou os dois meses seguintes e Carmen foi a surpreendente

vencedora, sem comprar votos no atacado e sem nenhuma concorrente à

vista. Já o cantor eleito foi o veterano Roberto Vilmar, especialista em

modinhas e quase inexistente em discos, mas com espantosos 30 mil votos

a mais que Mário Reis e 50 mil a mais que Francisco Alves. O resultado

era estapafúrdio, mas foi o que deu. E, assim, no dia 30 de outubro, a

trupe composta de Carmen, Roberto Vilmar, os violonistas Josué de

Barros, Betinho e Medina, e o pianista Mário Cabral rumou para Buenos

Aires a bordo do Highland Monarch. Assim que o navio levantou ferros,

Carmen chegou à amurada e se despediu do público, bem à brasileira e bem

à sua moda:
"Até a volta, macacada!"
Dessa vez, seu Pinto ficou no Rio e, como acompanhante de Carmen, seguiu

dona Maria - já nem tanto como chaperonne, mas para ajudar Carmen com

seus chapéus. O contrato era para três apresentações por semana, durante

quatro semanas, na Rádio Excelsior, com hospedagem e despesas pagas pelo

Untisal argentino, além dos cachês semanais. Para cumprir essa

programação, Carmen teve de pedir uma licença na Mayrink Veiga. Mas

antes tivesse ficado em casa - porque o Untisal podia entender de

cãibras e bicos-de-papagaio, mas não de patrocinar artistas. O hotel de

Buenos Aires que lhes fora reservado era de terceira, as despesas, muito

reguladas, e os cachês viviam atrasados - o que os obrigava a sacar de

suas reservas para comer um sanduíche na esquina ou para comprar um

bilhete de metrô. Mais um pouco e não teriam o suficiente para se manter

na viagem de volta ao Rio.
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Carmen e a trupe foram salvas por uma amiga que ela tinha feito em sua

primeira viagem a Buenos Aires, três anos antes, e que acabara de

reencontrar: a fotógrafa alemã Annemarie Heinrich. Em 1930, a família

Heinrich acabara de chegar à Argentina, vinda da Alemanha - o pai de

Annemarie, violinista e mecânico de bicicletas, sentia que seu país ia

se meter em outra guerra e não queria estar por perto quando isso

acontecesse. Annemarie, então com dezoito anos, começara a fotografar

porque, nesse ofício, não havia tanto o obstáculo da língua. Em 1933,

aos 21, ela já dominava tanto o espanhol quanto o métier, e se tornara a

grande fotógrafa dos meios artísticos e sociais de Buenos Aires. Por seu

estúdio, no número 728 da calle Córdoba, passavam atores, cantores,

músicos, dançarinos e todos os elegantes nacionais e estrangeiros.

Muitas fotos lhe eram encomendadas pelas estações de rádio, e foi assim

que Carmen a reencontrou.


O estúdio de Annemarie era acoplado à casa onde ela morava com sua irmã

Ursula, com seus pais Walter e Erna, e com uma empregada, Delia. Todos

trabalhavam para Annemarie. Sem dinheiro para grandes deslocamentos,

Carmen e dona Maria passavam boa parte do tempo ali, e a mãe de

Annemarie as tinha como convidadas quase diárias para almoço e jantar. A

comida era sempre alemã e não se podia reclamar. Mas, certa vez em que

Frau Erna lhes serviu salsichão com chucrute, Carmen pediu uma banana,

amassou-a até se tornar um purê e misturou-a com o chucrute, para horror

da senhora. Carmen era a única a sacudir a rigidez prussiana da velha

alemã, fazendo-a rir com suas marchinhas ou tirando-a para dançar.

Quando não havia ensaio à tarde na rádio, ou sessão de fotos, Carmen se

trancava no quartinho de costura com Frau Erna, para trocarem pontos de

bordado, ou fabricava chapéus para Annemarie. À noite, depois do

programa, iam todos cear numa pizzaria ou numa bodega barata. Nos fins

de semana, Annemarie as levava a andar de bicicleta e, quando havia

dinheiro, a cavalgar nos bosques de Palermo.


Muitas das melhores fotos de Carmen nos anos 30 foram tiradas em Buenos

Aires por Annemarie Heinrich. Mais do que ninguém na Argentina,

Annemarie dominara a técnica dos mestres americanos do still (um deles,

George Hurrell) e a adaptara ao temperamento portenho, tornando- a

dramática, cheia de sombras e volumes. Como Hurrell, ela também fazia

com que suas modelos ostentassem pele de porcelana, lábios úmidos,

sobrancelhas grossas e cabelos brilhantes, e qualquer suspeita de

imperfeição era retocada à mão no negativo. Mas Annemarie tinha idéias

próprias a respeito de iluminação e de dispor a modelo no quadro,

principalmente quanto à postura das mãos - talvez porque, antes de se

tornar fotógrafa, seu sonho fosse o de ser bailarina clássica. Quanto às

roupas que usava nas modelos, Annemarie costumava tomá-las por

empréstimo em casas de moda de Buenos Aires, como a de Marilu Bragance

ou a de Fridl Loos - e ambas tinham o maior prazer em vestir Carmen.


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Mas, em toda a carreira de Annemarie, Carmen foi das poucas a abrir uma

mala e tirar, de lá de dentro, roupas pessoais perfeitas para as suas

lentes.
Nessa excursão a Buenos Aires, aconteceu a comovente despedida entre

Carmen e o homem a quem ela tanto devia: Josué de Barros. Antes do fim

da temporada, Josué foi convidado a ficar por lá e formar (com Betinho)

um conjunto brasileiro para se apresentar nas rádios e na boate mais

chique de Buenos Aires, a Embassy, na calle Florida. Josué topou e nem

voltou para o Rio. No dia da partida, levou Carmen ao navio e os dois

choraram abraçados, sem saber quando voltariam a se ver. Dez anos antes,

ele também resolvera ficar na Argentina e acabara trabalhando como

faquir. Mas, dessa vez, foi diferente: Josué se deu tão bem que, em dois

meses, mandou buscar a família, inclusive a filha Zuleika, também

cantora, e só voltou para o Brasil em 1939.
Quando Carmen desembarcou de volta no Rio, no dia 4 de dezembro, só teve

coisas boas a dizer sobre sua breve excursão portenha - que, exceto

pelos dissabores com o organizador, fora um sucesso. Os programas de

rádio tiveram ótima imprensa e o público de Buenos Aires ia ao estúdio

para assistir às transmissões. Queriam ver de perto "a canção feito

carne - Carmen Miranda" de que falou, com propriedade, um articulista. E

os que a viram não se decepcionaram - mas, se alimentaram alguma

fantasia, fizeram bem em acordar rapidito. Naquela temporada, Carmen só

deu atenção a um admirador local: Alfredo Bárbara, personagem da crônica

social de Buenos Aires, com quem ela saiu para jantar algumas vezes e

que pode ter ido visitar no apartamento dele. Um homem imponente,

vistoso, de família influente, e, sem que Carmen soubesse, conhecido nas

rodas musicais portenhas como cauda de cometa - sempre pendurado em

alguma estrela.


Carmen desceu do navio pela manhã e, na tarde do mesmo dia 4, já estava

no estúdio da Victor para gravar o samba de Walfrido Silva "Me respeite,

ouviu?", em dupla com Mário Reis. Considerando-se que, antes disso, dera

um pulinho ao Curvelo para deixar dona Maria, depositar as malas e

trocar pelo menos de chapéu, quando teria aprendido o samba e a que

horas o teria ensaiado? Em momento algum. Carmen fez tudo isso no

estúdio, a poucos minutos da gravação. Mas você nunca desconfiaria ao

ouvir o disco - seu entrosamento com Mário Reis era mágico.


"Me respeite, ouviu?" seria o lado A de outro magnífico samba, "Alô...

alô?...", de André Filho, que Carmen e Mário Reis também gravariam dias

depois, e os dois lados da chapa chegariam com toda a força ao Carnaval

de 1934. Aquelas não foram as únicas solicitações urgentes. Assim que

pôs os pés no Rio, Carmen recebeu um samba e uma marchinha de Assis

Valente, duas marchinhas de Joubert de Carvalho e quatro de Lamartine

Babo - e teve de gravar tudo nas últimas semanas do ano. Por que essa

sangria desatada? Por causa do Carnaval. Nenhum daqueles autores podia

se dar ao luxo de não ter alguma coisa na voz de Carmen naquela época do

ano.


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Ou em qualquer época. Já então começava a formar-se à sua volta um

núcleo de compositores que a tinham como primeira opção para sua

produção. Os principais eram André Filho e Assis Valente, não por acaso

os mais íntimos da casa do Curvelo - dos poucos que apareciam sem

avisar, entravam sem bater, e não precisavam de convite para se sentar e

se servir das tripas à moda do Porto preparadas por dona Maria. (Assis

depois sairia contando para todo mundo que já se cansara de ver Carmen

de penhoar.) Outros jovens assíduos ao Curvelo eram Walfrido Silva e

Custódio Mesquita, que compunham principalmente para Aurora. Daí se vê

por que Carmen e Aurora, mesmo que quisessem, não precisavam freqüentar

o Café Nice - primeiro, porque as cantoras não costumavam ir ao Nice;

segundo, porque, no caso de Carmen e Aurora, os compositores iam com

muito prazer a elas.


Pouco antes de Carmen embarcar para Buenos Aires, Assis Valente fora à

sua casa mostrar-lhe material novo e levara com ele um garoto que

conhecera na Mayrink Veiga, Synval Silva, de 22 anos. Carmen não se

empolgou com o que Assis lhe ofereceu, mas se dispôs a ouvir alguma

coisa do tímido Synval. Este lhe mostrou um samba, "Alvorada", em que

Carmen percebeu delicadezas típicas de um músico de verdade - como

Synval, que tocava violão e clarineta. A letra falava em morro, cuíca e

batucada, e Carmen se espantou ao descobrir que ele só sabia dessas

coisas por ouvir falar - mineiro, recém-chegado de Juiz de Fora, morava

com a família na Muda da Tijuca e nunca fora à praça Onze nem subira a

um morro. Carmen insistiu para que Synval mergulhasse no universo do

samba, e ele obedeceu. O resultado, em março de 1934, foi o

surpreendente "Ao voltar do samba", feito especialmente para Carmen -

uma crônica sobre uma sambista entediada e blasée, para quem já não há

diferença entre perder o seu mulato e sua sandália quebrar o salto.

Carmen gravou-o, com "Alvorada" no outro lado - e ali nascia o finíssimo

compositor Synval Silva.
Os jovens compositores ligados a Carmen enfrentavam uma dura competição:

a dos autores experientes e consagrados que, mês sim, mês não, também

iam ao Curvelo levar-lhe um samba ou uma marcha que ela poderia

transformar num sucesso, num clássico ou nas duas coisas ao mesmo tempo.

E, quanto a isso, 1934 foi impressionante - era como se os compositores

se atropelassem para lhe dar o melhor que tinham. Em março, Carmen

gravou o samba-canção de Ary Barroso e Luiz Peixoto, "Na batucada da

vida":
No dia


Em que apareci no mundo
juntou
Uma porção de vagabundo
Da orgia...
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Em maio, em dupla com Mário Reis, Carmen gravou outra grande marchinha

junina de Lamartine Babo, "Isto é lá com Santo Antônio":


Eu pedi numa oração
Ao querido são João
Que me desse um matrimônio...
E, em agosto, gravou a marchinha de João de Barro que se supunha

definitiva sobre a cidade, "Primavera no Rio":


O Rio amanheceu cantando Toda a cidade amanheceu em flor...
Mas "Primavera no Rio" seria apenas a marchinha quase definitiva sobre o

Rio
- porque, com diferença de dias, Aurora gravaria "Cidade maravilhosa",

de e com André Filho, e esta é que seria a última palavra no assunto.
Carmen gravou "Primavera no Rio" na Victor, no dia 20 de agosto; Aurora,


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2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
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