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Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 240030

30 de maio a 2 de junho de 2001 - Florianópolis – SC.




"A MATÉRIA E A FORMA: PANELAS DE BARRO."

Carla da Costa Dias


Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Escola de Belas Artes

Pontifícia Universidade Católica/RJ – Dept. Artes e Design

Rua Gal Cristóvão Barcelos, 280 apt 203. RJ - Cep 22245-110

e-mail: car.dias@terra.com.br


RESUMO


Panela, é o nome genérico, mas é também o nome específico de uma das formas produzidas por um associacão de artesãs, paneleiras, em Goiabeiras, Espírito Santo. Pretendemos neste trabalho, inventariar as demais formas produzidas, os materiais empregados no processo, e também, as opções técnicas que envolvem sua produção. No processode produção material,os fatores que envolvem a materialidade são diversos. Escolher um material significa também escolher o modo de fazer que por sua vez determina o produto final. No processo de producão das tradicionais "panelas de barro", as relacões que se estabelecem com o material são fundamentais para nossa análise
Palavras-chaves: Cerâmica, artesanato, panela, tradição, técnica

INTRODUÇÃO


Em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, no bairro conhecido como Goiabeiras, mais especificamente Goiabeiras Velha, um grupo de mulheres produz artesanalmente, "Panelas de barro", de uma "forma tradicional". Forma transmitida por suas mães, que por sua vez, aprenderam também com suas próprias mães. Estamos falando de objetos materiais de cultura que chamamos de tradicionais pois originalmente eram feitos para consumo de um grupo restrito de pessoas, mas que no correr do tempo, foi dinamicamente sendo transformado num símbolo regional reconhecido, porque consumido, em várias partes do território nacional.

Uma panela pode conter, pode reter. Sua função de vaso, de receptáculo é essencialmente a função do objeto descrita por Baudrillard (1973), sua utilidade sendo a base de sua existência como recipientes que são, destinados à preparação do alimento, à ritualização do alimento. Objetos de uso, que exprimem a totalidade de sua beleza quando combinados ao alimento a que se destinam. A utilidade aqui apresentada é reforçada pelo olhar dirigido ao objeto em termos das relações que a sua produção e uso propiciam, na medida em que se pensa nos objetos como constituidores de um universo relacional de formas.

As Panelas de Barro produzidas na cidade de Vitória, no Espírito Santo, são consideradas símbolo da cultura regional, quando associadas ao Prato que nelas é preparado, a Moqueca. A imagem que se constroi quando se pensa em moqueca esta com frequencia associada ao seu recipiente e vice-versa. A Panela de Barro, preta e a Moqueca "capixaba", como feitos um para o outro, são representações de um sistema que abrange um conjunto de relações que envolvem vários elementos materiais, selecionados do acervo social historicamente produzido.

No processo de produção material, os fatores que envolvem a materialidade são diversos, no caso da cerâmica, que é que estamos tratando; já que as panelas são um produto cerâmico, porque utilizam como matéria-prima a argila e a submetem a um processo de transformação físico-química através do fogo, podemos perguntar sobre os fatores determinantes do processo; sobre as opções técnicas que envolvem as relações entre matéria e forma. O acervo técnico, ou o conjunto de intervenções humanas, histórica e social, quer dizer, o processo pelo qual se transforman a matéria em objetos sociais, tendo em vista que as opções técnicas são antes manifestações sociais, uma intenção cultural.

Este trabalho foi realizado a partir de pesquisa de campo junto às Paneleiras, onde foram acompanhadas as diversas etapas de produção das panelas, desde a coleta dos materiais até a comercialização dos produtos finalizados. No decorrer da pesquisa foram realizados junto ao laboratório de Mecânica dos Solos, do Departamento de Engenharia da PUC/RJ, e no laboratório de Geociências, do Departamento de Geologia da UFRJ, vários testes para se conhecer o material das paneleiras. Entre estes os testes: Granulometria; Difratograma de Raio X, Teste de Liquidez e de Plasticidade.
A FORMA
Panela é o nome genérico, mas é também a denominação de uma das formas produzidas em Goiabeiras. As formas produzidas, têm uma destinação. São peças utilitárias produzidas para conter, ou melhor, para preparar. Foi observado em relação à produção, durante os anos de 1993 à 1998, que a quase totalidade da mesma, é constituída pelas "formas tradicionais", aquelas que compõem o acervo culinário regional. Podemos distinguir pelo uso, forma e dimensão, quatro "panelas":
Panela – a forma mais "tradicional", é a panela propriamente dita. Destina-se ao preparo do arroz e do pirão, pois é funda e portanto a comida pode ser ‘mexida’ com a colher, que desliza pelo "bojo" bem desenhado. A panela é sempre acompanhada de sua tampa que ajuda a manter o calor do cozimento e, sua suave concavidade possibilita que o vapor escorra para as bordas ao invés de pingar sobre o alimento.
Frigideira – É usada para a preparação do peixe, da moqueca propriamente dita. Possui uma curva interna aberta, ao contrário do "bojo" da panela, o que permite que as postas de peixe sejam colocadas lado a lado. Também usada com tampa.
Caldeirão – É a forma mais funda, usada para o preparo do feijão. Sua forma é cilindrica.
Assadeira – Recentemente incorporada à tradição. Utilizada para preparo de assados, é rasa e ovalada.
O material cerâmico possui propriedades térmicas, que permitem que o calor seja retido, permitindo assim que o alimento permaneça quente por mais tempo. O calor é transmitido, desde sua fonte, até as extremidades, até as bordas da panela. Estando toda aquecida, também demora mais a esfriar. Aliás, com o calor retido pelo material, o alimento continua ainda cozinhando por alguns minutos. No caso do fogão a lenha, usado pelas mulheres quando ainda cozinhavam em suas panelas, a brasa mantém o aquecimento por um longo tempo. Além disso, o peso da panela também pode ser considerado como um importante fator no sistema de uso, já que a comida era servida no próprio fogão, o que elas ainda mantêm mesmo com as panelas de alumínio e o fogão de gás. Ao mesmo tempo carregar a panela, pelo seu próprio peso, é algo que não pode ser feito por "cabos" ou alças, carregar aqui, significa segurar; abraçar com as mãos, que se amoldam às curvas e se agarram na rugosidade do material.

As características do objeto, que dizem respeito à dinâmica de seu uso, parece-nos importante, no contexto que se pretende apreender o consumo que se faz do objeto e do sistema forma/função, ou forma e conteúdo. O desenho das curvas; da linha; da forma em si, propicia o que se denomina de "resistência relativa à forma", que significa que a estrutura da forma (no caso circular), gera uma resistência própria. Em relação à transmissão de calor, esta ocorre por condução, através da espessura, portanto quanto mais grossa, menor será o fluxo de calor transmitido ao interior , mas ao mesmo tempo, maior será a superfície de condução, por exemplo: a espessura do fundo da panela é maior, o que significa que ao invés do calor ser transmitido de imediato para o interior da panela é irradiado. O desenho curvo da tampa torna a área interna maior. Seu apoio no corpo da panela geralmente ultrapassa os limites da borda externa. Durante o cozimento este espaço torna-se pleno de ar aquecido que age de forma a dificultar a perda de calor através da superfície fria da tampa, favorecendo o cozimento. Do mesmo modo, a forma curva da tampa faz com que o vapor que se forma ao invés de pingar sobre o alimento, deslize para as bordas. O peso da tampa segura o ar, não cede. Por serem queimadas a uma temperatura baixa (em torno de 700 graus), o corpo cerâmico é bastante poroso possibilitando que este mesmo corpo dilate ao ser aquecido e retraia com o esfriamento, de modo que não ocorram danos ao mesmo. O polimento realizado com a pedra, produz uma camada superficial de placas assentadas paralelas. Este assentamento fornece à superfície uma "cobertura" fechando relativamente seus poros, segundo algumas das paneleiras, a tinta é a principal responsável pela "impermeabilização", que na verdade precisa para ser complementada, da "untagem" realizada antes do uso, por recomendação das próprias paneleiras, pois só assim a panela estará pronta para ser usada.


A MATÉRIA
Inúmeros são os modos e as variáveis que envolvem a produção de um objeto cerâmico, de modo que, podemos perguntar sobre os fatores eleitos no processo de confecção destas panelas. As Paneleiras, possuem o conhecimento das diferentes etapas do processo. Cada fase, cada etapa, diz respeito a um tipo de tratamento diferenciado em relação à matéria. Detalhes às vezes não percebidos num momento, em outro, em conseqüência da secagem, se tornam óbvios. Como a argila é um material que no decorrer do processo de manipulação sofre mudanças físicas, exige que se conheça o processo como um todo para que se saiba exatamente em que momento e como intervir e também com que instrumentos. Não adianta muitas vezes querer antecipar o processo, pois a matéria exige a passagem do tempo, exige um ritmo próprio de manipulação.

Uma técnica coloca em jogo quatro elementos, são eles: - uma matéria sobre a qual se age; os objetos instrumentais; os gestos que envolvem produção de energia e as representações que podem ser vistas como os gestos técnicos. Pensando a partir destes elementos, sugeridos por Lemonnier podemos pensar numa mudança na técnica já que, no decorrer dos anos de que as mulheres "se recordam" serem produtoras das panelas, houveram situações em que elas reconhecem terem lançado mão de "novos" recursos, gerando modificações, adaptações decorrentes do acesso a outros materiais, como veremos adiante.




A Argila
O barro ou a argila, é a principal matéria-prima utilizada na confecção das panelas assim como é também de qualquer outro objeto de cerâmica. A cerâmica só existe na em medida que a argila é submetida a uma temperatura superior a 573 graus centígrados. A partir desta temperatura o processo de transformação da matéria é irreversível, pois ocorre a perda da água molecular, alterando-se a estrutura química do material e também a física, já que a nova estrutura não possui mais nenhuma plasticidade. Quanto mais alta a temperatura da queima, maiores são as transformações que o material irá sofrer, embora a fundamental já tenha ocorrido.

A argila em si é um material que se apresenta na natureza sob diferentes maneiras, matéria ancestral, resultante da transformação estrutural e formal do planeta, produto final de um longo processo de desagregação das rochas. Este processo, de erosão, é causado por vários fatores que, combinados entre si, produzem diferentes resultados, entre eles estão: a rocha matriz; a ação do vento e da chuva; o percurso e o local de depósito dos elementos lixiviados; os elementos agregados neste percurso; a temperatura; a altitude; enfim, uma série de combinações e reações físico-químicas, que alteram o produto final, a argila. Embora apresentando variações significativas, as argilas possuem características próprias, que são as que de certa forma determinam sua classificação enquanto tal. A principal propriedade da argila, do ponto de vista cerâmico, é a plasticidade, pois é a responsável pela capacidade da argila ser um material modelável e moldável, isto é, permite que o material seja modelado e mantenha a forma manipulada por um determinado tempo sem se deformar. A plasticidade é uma característica desta matéria, adquirida pela absorção de uma determinada quantidade de água, que será perdida através de secagem atmosférica, isto é, pela evaporação da mesma, quando então o material não pode mais ser manipulado, podendo se partir, o que significa que o material não possui mais plasticidade. Algumas massas são excessivamente plásticas, o que também dificulta a execução de determinadas formas de trabalho. Neste caso pode-se acrescentar alguns materiais conhecidos como antiplásticos, que modificarão a estrutura física da argila, o que significa que se está alterando a composição da mesma, através da preparação de uma "massa" de forma a atender objetivos já determinados.


A argila das paneleiras
O conhecimento da matéria que se transforma é construído cotidianamente no processo de trabalho, não é algo que se aproprie a priori, sem que se estabeleça uma relação estreita de experimentação. Portanto, a associação entre forma e matéria envolve relações que não se restringem a questões materiais, a questões ergológicas. O uso do material não é ocasional, é uma opção "construída" e pensada, que envolve todo o grupo social que a emprega, e as relações sociais que permitem o seu uso.

A argila, ou o barro, como as mulheres o denominam, é utilizado conforme se encontra na natureza. Provém de um só local, de uma mesma jazida, e suas características são reconhecidas pelas Paneleiras, que no local sabem apontar a mistura ideal para a fabricação das panelas. A jazida de argila, mais conhecida como "Barreiro", situa-se no Vale do Mulembá, dentro do município de Vitória. Depoimentos das mulheres falam do tempo em que iam de canoa, pelas águas que envolvem o manguezal orientadas pelo ciclo lunar , recolher e buscar o barro, no lugar em que a memória encontra sua materialidade. Cada uma coletava a quantidade correspondente à sua produção individual e/ou familiar, mas eram elas próprias que retiravam com suas mãos a matéria, que a reconheciam de boa qualidade, quer dizer, apropriada para a produção de seus artefatos.

No caso da argila utilizada na fabricação das Panelas, pode-se perceber, pegando-a entre os dedos, uma grande quantidade de grãos de areia, material que atua como antiplástico. Sua presença diz respeito a várias etapas do processo. A argila utilizada é bastante plástica, sendo que a areia, ou melhor, a sílica, como dito, atua como antiplástico natural, influenciando assim o processo de modelagem. Durante a secagem, isto é, durante a perda da água atmosférica, a areia também atua de modo a permitir uma secagem rápida, pois esta costuma causar uma retração diferencial. Mas, pelo aumento da granulometria da massa, a água pode escoar com facilidade, provocando pouca retração na peça, e assim diminuindo os problemas de empenamento e rachaduras. A porcentagem de areia contida na massa, é fundamental também no processo de queima a céu aberto, do modo como é feito pelas mulheres, pois o aquecimento é bastante rápido. É também aqui que o aumento do tamanho dos "poros" entre as moléculas de argila, vai permitir que a água de constituição, seja eliminada e que a retração, característica desta "perda", seja efetuada de forma que as peças não estourem com o calor.
O tanino ou a tinta
Além da argila, existem outras matérias-primas que compõem o sistema de técnicas de produção das panelas. Uma delas é justamente a que fornece a identidade estética do objeto de maneira mais marcante: a "tinta" utilizada para imprimir a cor negra. Oprocesso de "tingimento" é bastante complexo, pois o que dá a cor não é a "tinta" em si, mas a maneira como ela é utilizada. Do mangue que margeia suas casas (novamente se observa a estreita relação desta atividade com o ambiente natural em que se insere), as mulheres retiram, aliás, pagam aos homens para tirar, a casca de suas árvores, que depois de socadas, maceradas, são colocadas de molho por alguns dias na água, tranformam-se na tintura vermelha que é usada no tingimento das panelas. Atualmente são três as pessoas responsáveis pela coleta das cascas, o que exige um conhecimento próprio, pois esta deve ser feita de forma a não comprometer a regeneração da mesma, a casca não pode, portanto, ser retirada de um único tronco. Houve, em função de uma coleta predatória, uma intervenção do IBAMA, proibiu que a coleta fosse realizada, para que não ocorresse adegeneração da espécie (o que causaria grandes conseqüências na confecção ou mesmo na existência das panelas). Este tingimento, ocorre por um processo conhecido por "redução" que refere-se à atmosfera gerada pela especificidade da queima. A queima a céu aberto, é uma queima de atmosfera oxidante. O tingimento só pode ser feito com a peça muito quente, saída da fogueira. O processo se resume a uma redução do nível de oxigênio, através do líquido que é respingado, o que ocasiona uma carbonização, responsável pela cor negra. É a fumaça liberada pela "redução", que proporciona a mudança na cor.

A casca de rysophora mangue/sp., ou mangue vermelho, como é conhecida, possui uma substância adstringente, o tanino45 que age como "selador" na superfície do corpo cerâmico, pois reage com o ferro contido no barro.




A lenha
A lenha é a outra matéria-prima utilizada e de grande importância no processo por elas empregado. Seu uso diz respeito a uma etapa distinta, a queima das panelas, onde pela característica da mesma, a lenha pode ser vista como "forno" e ao mesmo tempo combustível. Seu uso vinculava-se à existência de uma abundante vegetação outrora existente nas cercanias, mas que hoje não se encontra mais. Com o crescente aumento da produção, a demanda por lenha também aumentou, e a sua oferta direta desapareceu. A lenha utilizada é composta por tábuas; tocos; ripas; enfim tudo que é possível de se conseguir a um baixo custo, a maioria sendo proveniente de obras de construção civil. Hoje as mulheres muitas vêzes conseguem negociar com os transportadores através da permuta de "mercadorias", trocam as panelas pela lenha que é levada até o Galpão. O caminhão chega no galpão e a negociação se faz com quem está precisando no momento, já que se precisa ter uma reserva estocada de lenha pois o fornecimento não é programado. Não existnenhum valor de troca pré-determinado, geralmente a negociação depende do interesse imediato das pessoas envolvidas. Às vezes já existem relações estabelecidas entre um fornecedor, que é representado pelo motorista do caminhão de entrega, e uma determinada paneleira, que no caso costuma dividir com a família o montante do recebimento "privilegiado". A lenha é toda guardada empilhada na área externa, próximo ao local onde é utilizada, cada pilha separada por ripados sendo que, muitas vêzes a estocagem é feita
coletivamnte, em família.

Além das matérias-primas básicas à produção das panelas propriamente ditas, e da lenha utilizada para sua transformação, são empregados outros materiais com os quais



são "fabricados" os instrumentos utilizados no processo. Os instrumentos também são percebidos pelo grupo como marcas de identificação do processo singular do seu fazer, pois estes trazem em si, a memória de um tempo anterior, de um passado onde suas antecedentes originalmente também empregavam "os mesmos" instrumentos. Contudo o que percebemos é que adaptações têm sido empreendidas, e também provavelmente se intensificarão em conseqüência das mudanças na ecologia do lugar.
Ferramentas
"A Cuia" - o mais importante no sentido de permanecer e ser considerado insubstituível, é a "cuia", usada para "puxar" a panela. A cuia é feita a partir da fruta silvestre de nome local "cuitê", encontrada com certa facilidade e que assemelha-se à cabaça, que é então cortada, geralmente em quatro partes no sentido longitudinal, resultando assim nos instrumentos conhecidos por cuia. O tamanho da cuia depende do tamanho da cuitê, e estes são bastante variados, de modo que se pode obter uma também grande variedade de instrumentos com diferentes extensões e curvaturas, além das formas conseguidas com diferentes cortes. Cada uma possui várias cuias de diferentes tamanhos e formas, que são usadas de acordo também com o tamanho e a forma da peça, isto é: são usadas para funções; movimentos; formas, específicas.

"Vassourinha" - Outro instrumento fundamental no processo, é a "vassourinha de muxinga", usada para respingar a tinta na panela logo que esta é retirada da fogueira. Muxinga é uma planta silvestre rasteira, de galhos finos e folhas miúdas, encontrada nos arredores das casas, e coletadacom facilidade, só precisando puxá-la da terra. Com os galhos arrancados prepara-se a vassoura amarrando um pequeno punhado. Considerada "mato", no sentido de ser nativa e não cultivada, as mulheres têm observado uma certa diminuição na quantidade de plantas nos terrenos por onde circulam e em que costumam coletá-la. Segundo elas, a muxinga é considerada ideal quando seca, pois não acumula muita tinta entre suas folhas, e portanto não gasta a tinta em excesso.

O arco, um instrumento importante utilizado para finalização da panela, provavelmente sofreu modificações. Hoje utilizam uma lâmina de "folha de flandres", que na medida em que corta o barro vai se desgastando e acaba por tomar a forma de "arco". Utilizam tabém facas diversas, coletadas em suas cozinhas. As facas também sofrem desgaste, precisando constantemente ser repostas.

Junto à cuia de cuitê e à faca, o arco compõe o jogo de instrumentos básicos para se poder fazer panelas. São as ferramentas culturais que embora apropriadas da cozinha, ou utilizando material industrial (flandres), são identificadas como componentes da tradição.


AS MUDANÇAS
A dimensão material, que diz respeito à tradição, é muitas vezes percebida pela literatura científica de maneira estática, marcada pela idéia de permanência. No caso dos objetos artesanais produzidos no âmbito de um grupo social, a mudança ocorre, mas não significa perda de identidade. Pelo contrário carregam consigo um significado que é de marcador de fronteiras. As mudanças de material devem então, ser analisadas no conjunto dos significados de seu emprego, inclusive nas relações sociais como as existentes entre os fornecedores e os produtores. A mudança não deve ser pensada simplesmente em termos da facilitação do trabalho, para, por exemplo, se ter mais tempo para se dedicar à execução (4). Como já foi dito, as opções técnicas são construções culturais, socialmente transmitidas e legitimadas, pertencem ao sistema onde os significados são atualizados cotidianamente. Qualquer mudança, pequena ou até insignificante, para quem não participa internamente do processo, terá conseqüências em todas as demais etapas. A execução pode mudar com a mudança do material. Para o artista, a escolha do material tem significado, assim como a técnica, sendo algumas vezes, principalmente sobre esta questão que a obra fala. Também no universo cerâmico, inúmeros são os exemplos que falam disso . Escolher um material significa também escolher o modo de fazer que determinará o produto final. As particularidades que o material exige na sua manipulação, inclusive os "limites" que impõe não são percebidos como restrições que possam ser considerados como "conservadorismo nato". As relações que se estabelecem com o material, através de uma intensa experimentação, são fundamentais no processo cerâmico. É neste processo contínuo de envolvimento material que as mulheres reestruturam o seu fazer, atribuindo a ele outros significados.

Como a maior parte dos objetos do artesanato, as panelas de barro também adquiriram a partir do sistema de circulação, no qual se inserem, outras funções e usos. Embora elas permaneçam ocupando o ambiente doméstico -mais que isto, o espaço que lhes é próprio, a cozinha-, em muitos casos as panelas estão desprovidas de sua função primordial, que diz respeito à preparação do alimento. No percurso que fazem, em direção aos centros urbanos, as panelas são transformadas pelo novo sistema de circulação em objetos decorativos, usados para outros fins, ou simplesmente preenchendo o ambiente, ocupando um espaço.

No sistema de circulação das panelas de barro pretas de Goiabeiras, os restaurantes que servem comida "típica", principalmente moquecas de diferentes tipos, se destacam. A moqueca é um dos produtos de "exportação" do estado, onde o slogan "Moqueca é a capixaba, o resto é peixada", é amplamente falado pelos habitantes e também impresso na maioria dos folhetos turísticos, onde aparece acompanhado de ilustração do prato servido na também tradicional panela de barro. Pelas características próprias do material, as panelas são utilizadas no preparo de outros alimentos, sua utilização sendo observada atualmente também pelos restaurantes que servem comida "típica" de regiões como Minas Gerais e Bahia, além dos que servem pratos preparados com peixe de um modo geral. A extrema associação entre o utensílio e o alimento faz com que o turismo seja seu principal difusor. A culinária regional e os restaurantes que a oferecem, são os responsáveis pelas encomendas feitas em quantidade, que levaram por alterar o ritmo da produção. As panelas antes feitas nas momentos vagos do trabalho doméstico, passam a dominar a rotina diária, deixando em muitos casos o trabalho doméstico para segundo plano, embora pela possibilidade de autonomia no gerenciamento da produção individual, o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos e a casa, continuem permeando o trabalho, então marcado pela flexibilidade.

Neste sentido, a permanência é desejada enquanto valor, pois a antiguidade demonstrada no processo pelo qual as mulheres elaboram continuamente seus objetos, é o principal fator da "permanência" das panelas enquanto bens simbólicos.

REFERÊNCIAS
1. Baudrillard, J. A sociedade de consumo. Lisboa, Edições Setenta. 1991

,. O sistema dos Objetos. Ed. Perspectiva. São Paulo1993

2. Foster, G. M. Las Culturas Tradicionales y los Cambios Técnicos. México. Fondo de Cultura Economica. 1992

3. Frota, L. C.. "Alguns Aspectos da produção de cerâmica popular no Brasil" In Arte Cerâmica - Anais do Encontro "Arte Cerâmica" do 30 Congresso Brasileiro de Cerâmica, Associação Brasileira de Cerâmica. 1986

4. Graburn, N H. "Introduction: The arts of the fourth world" In:- Ethnic and tourist arts




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