Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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VII

O mundo dos sonhos


Diversidade indefinida dos sonhos. – Fisiologia cerebral. – Sonhos psíquicos: manifestações de moribundos recebidas durante o sono. – A telepatia nos sonhos.

Os fenômenos psíquicos com que nos acabamos de ocupar podem produzir-se durante o sono, tanto quanto no estado de vigília. Até ao presente, o sono e os sonhos têm sido muito estudados, é certo, por grande número de observadores perspicazes;85 mas é preciso confessar que eles se acham ainda incompletamente elucidados. O sono não é um estado excepcional em nossa vida; é, pelo contrário, uma função normal de nossa existência orgânica, da qual representa, pelo menos, um terço. O homem ou a mulher, que viveu 60 anos, dormiu 20, pouco mais ou menos. As horas de sono (3.000 por ano!) são, sem contradita, horas de repouso, de reparação vital, tanto para o cérebro como para os membros em repouso; não são, porém, horas de morte. Nossas faculdades intelectuais permanecem em atividade, com a diferença de que é o inconsciente que age, e não a nossa lógica consciente do estado de vigília.

Do mesmo modo que pensamos constantemente em uma ou outra coisa, em estado de vigília, sonhamos constantemente, durante o sono, quer-nos parecer. O sonho é a imagem da vida. Aqueles cujas idéias são vigorosas, cujos pensamentos são poderosos, têm sonhos intensos. Os que pouco pensam, fracamente sonham. Há número igual de sonhos e de idéias e todas as classificações tentadas têm sido quase todas vãs e ilusórias.

Nem sempre nos lembramos dos sonhos. Aliás não nos recordamos de três quartas partes dos pensamentos que atravessaram nosso cérebro durante o dia. Para fixar um sonho, à sua passagem, cumpre despertar bruscamente e prestar viva atenção a ele, pois que não há o que se desvaneça mais depressa do que um sonho. Em geral é coisa de um ou dois segundos e, se não o fixamos imediatamente, ele se desvanece... como um sonho.

Grande número de autores asseguram que somente sonhamos pela manhã, antes de despertar, ou à noite quando acabamos de adormecer. Entretanto, basta que despertemos – ou que se desperte alguém – a qualquer hora da noite, para constatar que se estava sonhando.

Afirma-se também que o sonho é produzido pelo ato de despertar. De forma alguma, evidentemente, pois que nos sentimos por vezes muito felizes de nos livrarmos de um pesadelo, e certos sonhos são bastante violentos para obrigar-nos a despertar. A questão do sono completo, do repouso absoluto do espírito, não me parece resolvida.

Em geral sonhamos com as coisas de que nos ocupamos e com as pessoas que conhecemos. Há, entretanto, exceções estranhas, e os pensamentos mais intensos do dia, por vezes, não têm repercussão alguma durante o sono que se lhes segue. As células cerebrais que estiveram associadas a esses pensamentos estão exaustas e repousam, e quase sempre isso nos proporciona felicidade. Por outro lado, o tempo e o espaço desaparecem. Acontecimentos de várias horas, mesmo de vários dias, podem desenrolar-se em um segundo. Podeis recuar a grande número de anos no passado, à vossa infância, com pessoas mortas desde muito tempo, sem que essas longínquas recordações pareçam enfraquecidas. Encontrais em sonho, sem espanto, personagens de um outro século. Pode-se também sonhar com coisas que jamais sucederam e que seriam aliás impossíveis. Imagens extravagantes e burlescas, das mais disparatadas, associam-se sem a menor verossimilhança.

Certos sonhos provêm, mesmo, de uma transmissão hereditária.

Mil causas diversas atuam sobre os sonhos, exteriormente ao próprio espírito: uma digestão difícil, uma respiração contrafeita, qualquer má posição do corpo, o roçar do lençol, da camisa; uma coberta muito pesada, um resfriado, um barulho, uma luz, um odor qualquer, o contato das mãos, a fome, a sede, a plenitude dos tecidos, tudo atua sobre os sonhos.

Pode-se assinalar, por exemplo, a este propósito, uma alucinação hipnagógica assaz freqüente, aquela que nos faz cair em um buraco, tropeçar em um degrau de escada, tombar ao fundo de um precipício. Ela se manifesta geralmente um pouco depois do começo de nosso sono, no momento em que os membros, relaxando-se inteiramente, fazem, parece-me, mudar de súbito de lugar o centro de gravidade de nosso corpo. Sem dúvida é esse deslocamento subitâneo de nosso centro de gravidade que dá origem a esse gênero de sonhos. Quando nos ocuparmos do tempo, teremos ocasião de voltar a tratar da admirável rapidez dos sonhos.

As atitudes do sono tendem a um equilíbrio passivo. Todas as atividades sensoriais se obscurecem gradativamente e o olvido do mundo exterior chega por transições insensíveis, como se a alma se retirasse lentamente para os seus mais íntimos redutos. Cerram-se as pálpebras e os olhos são os primeiros a adormecer, velando o sentido da vista. Em seguida perde o tato suas faculdades de percepção e logo adormece. O olfato por sua vez se amortece. O último a retirar-se é o sentido da audição, sentinela vigilante, para advertir-nos em caso de perigo, mas também ele acaba cedendo. então o sono é completo e o mundo dos sonhos se abre diante do pensamento com sua infinita diversidade.

Na minha juventude, entre os 19 e 23 anos, divertia-me em observar os meus sonhos e em escrevê-los ao despertar, com os comentário que podiam explicá-los. Continuei depois, mui raramente porém, a tomar novas notas a esse respeito. Acabo de encontrar esse registro, assaz volumoso.

Tirara eu desses sonhos certas conclusões interessantes.

Desse registro inédito extrairei alguns sonhos e algumas reflexões que me parecem ter todo cabimento nesta parte do presente livro.

Deixara eu o Observatório de Paris, em conseqüência de dissentimento com o respectivo diretor, Le Verrier, e fora encarregado, no Departamento das Longitudes, dos cálculos relativos às posições futuras da Lua. Sonho que estou no Palais Royal, na galeria de Orleães, em companhia do livreiro Ledoyen, e que o Sr. Le Verrier entra e compra a minha primeira obra, A Pluralidade dos Mundos Habitados.

Vendo-me lá, pergunta o comprador, olhando para mim:

– É dele?

– Sim, senhor senador – responde o livreiro – e é esse o nosso maior êxito de livraria.

Havia diversas pessoas no estabelecimento. Desaparecem todas elas, como por encanto, e encontro-me a sós com Le Verrier, em imenso salão de hotel.

– Estais satisfeito no Departamento das Longitudes – pergunta-me ele – com os Matheu, os Langier, os Delaunay? Melhor faríeis em voltar para o Observatório.

– Estou muitíssimo bem – repliquei –. Aqueles cálculos são mais interessantes do que as vossas reduções de observações.

– Lá, não tendes futuro! – continuou ele –. Em vosso lugar, eu entraria para um Ministério.

– O Sr. Rouland recebeu um pedido para admitir-me nos trabalhos públicos, na repartição de estatística de França.

– Rouland? Não: Legoix.

– Tendes razão. Mas recusei. A Astronomia está acima de tudo.

– Entretanto, na vida o principal é ter-se boa colocação.

– Não estamos na Terra para comer, mas para nutrir nosso espírito com os alimentos que ele prefere.

– Sois muito desinteressado! Não alcançareis nada.

– Não compreendemos do mesmo modo a Ciência. Para mim, ela não é um meio: tem em si mesma a sua própria finalidade.

– Poderia confiar-vos no Observatório um cargo importante, mas seria preciso para tanto que vos demitísseis imediatamente do Departamento das Longitudes e que eu tivesse a garantia de que não deixaríeis mais o Observatório.

– E por que deixaria eu uma situação que realizaria uma parte das minhas esperanças?

– O que chamais a filosofia astronômica é uma quimera. A Astronomia é o cálculo.

– O Cálculo serve-lhe de base, nada mais.

– Veremos – acrescentou ele, rodando sobre a perna direita e, dirigindo-se para uma porta alcatifada que conduzia, como pareceu-me na ocasião, ao apartamento que ocupava no hotel, deixou-me a sós com as minhas reflexões.

Levantei-me: batiam 7 horas.

Este sonho se explica mui facilmente pelas minhas preocupações nessa época. Nele o ilustre astrônomo conserva, de um modo absoluto, o caráter sob o qual eu o conhecia. A substituição do nome de Rouland, ministro da Instrução Pública, pelo nome de Rouher, ministro dos Trabalhos Públicos, pode ter tido por causa a similitude dos dois nomes e a circunstância de que eu via mais freqüentemente este nome do que o segundo. O Sr. Legoix era então chefe do Departamento da Estatística e ele insistiu comigo, efetivamente, para entrar para esse departamento. Le Verrier, em todas as ocasiões, testemunhava profundo desdém pelo Departamento das Longitudes. Tal sonho é, portanto, muito simplesmente, o reflexo, o eco de pensamentos reais.

É sobremodo razoável. Todos nós temos outros que o são muito menos. Eis aqui um que termina de forma bem extravagante.

Encontro o meu amigo Dr. Eduardo Fournié, que me censura por ter deixado de visitá-lo há muito tempo e que acrescenta:

– Estas censuras não partem unicamente de mim, mas também da Srta. A., que se queixa da vossa indiferença. Ela não vos teve para dançar, no baile da Sra. F.; mostrou-se indignada, porque lhe disseram que tínheis ido a uma outra soirée, e sua mágoa, de que não podia falar a ninguém, levou esta pobre criança a ser acometida de febre cerebral. Um estudante de Medicina, que se especializa em cirurgia, tratou-a, conseguindo salvá-la. Curou-a, não somente dessa febre, mas também da causa de tal enfermidade, porquanto desde que ele notou a fève conjugale, tornou-se apaixonadamente amoroso, ela correspondeu ao seu amor e agora é a ele que a senhorita ama. Está em plena convalescença.

Leio na anotação feita a este sonho: “Eu conhecia a Srta. A., tinha por ela uma viva admiração e lhe dedicara o meu romance Se tu soubesses; não acreditava, porém, numa reciprocidade de sua parte. Encontrara em casa do Dr. Fournié um jovem cirurgião do Val de Grâce, trajando com muita elegância, que me pareceu fazer a corte à mesma senhorita. Fiquei despeitado com isso e retirei-me. O sonho não é, portanto, até aqui, mais do que uma associação de idéias habituais. Mas a expressão fêve conjugale é curiosa no sentido de parecer uma deformação da assonância febre cerebral. Ela é sobremaneira extravagante, ainda que lembre até certo ponto a metamorfose, no sonho precedente, de Rouher em Rouland. Sente-se que as células do encéfalo trabalham, no caso em apreço, de um modo obscuro no inconsciente. Talvez mesmo, reportando-nos à situação do sonho, pudéssemos achar uma outra aproximação de imagens, que poderá ter dado nascimento, em cerebração inconsciente rápida, a esta expressão singular...”

Em outro sonho, encontro-me nas últimas fileiras de um exército em combate. Passam por mim as balas, enormes balas de canhão se sucedem, mas nenhum ruído. Eu via as grandes balas virem e me voltava, ora à esquerda, ora à direita, segundo sua direção. Sucederam-se elas, porém, a intervalos tão curtos, que pensei não ter nada melhor a fazer do que deixar de mover-me, porque, evitando uma, podia achar-me sob a visada de outra.

Disse para comigo, então: “Quanto os homens são irracionais, para se divertirem desse modo! Não têm eles, então, outra coisa a fazer?”

A explicação deste sonho é igualmente muito simples. Eu havia tirado, na conscrição, 15 dias antes, um mau número. O que há talvez de mais curioso são essas balas inofensivas chegando sem ruído e que se viam quando vinham.




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