Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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(Carta 675)

XXIV – “Tratei e curei ultimamente, por meio do magnetismo, a esposa de um de meus amigos, que sofria de penosa afecção havia mais de dezoito anos. O tratamento foi por ela seguido cotidianamente comigo durante cerca de seis meses e, como sucede em casos semelhantes entre magnetizador e paciente, ela caiu sob a minha absoluta dependência. Não quero relatar-vos aqui todos os fenômenos que eu podia provocar por seu intermédio, tais como aberrações do gosto, sensação de calor e de frio, etc.; são eles muito conhecidos e mui facilmente imputados à imaginação. Mas, além disso, ela percebia, sem o concurso da minha vontade, todas as minhas sensações, mesmo a distância – e nisto a imaginação não pode ser invocada, como uma circunstância que entra em jogo na realização do fenômeno. Assim, acontecia-lhe dizer-me: “Ontem, a tal hora, tivestes uma altercação”, ou então: “Estáveis triste; que vos aconteceu?” Pude assegurar-me, dentro em pouco, que ela sentia todas as minhas impressões a uma distância muito grande; pude verificar isso pelo menos para um espaço de 15 quilômetros.

Tive também um outro sujet, sendo esse um homem, a quem eu fazia à vontade vir à minha presença. Bastava para isso que eu pensasse fortemente em fazê-lo vir.

– Por que – disse-lhe eu um dia – viestes com um tempo tão horrível?

– Realmente, não posso sabê-lo, essa idéia assaltou-me repentinamente, tive desejo de ver-vos, e eis-me aqui.

Onde está em tudo isso a imaginação?

Do mesmo modo que há um sonambulismo natural e um sonambulismo provocado, há o magnetismo voluntário e o involuntário, o que explica as simpatias e as antipatias naturais.



Dr. X. (Valparaiso).”

Esses casos não podem, tanto quanto os precedentes, ser atribuídos ao acaso (alguns dos lances previstos podem tê-lo sido por uma semelhança fortuita dos que os precederam, mas trata-se evidentemente de uma exceção). Provam eles a transmissão do pensamento. Apresentaremos ainda alguns outros à atenção dos nossos leitores. O seguinte é extraído da obra Phantasms of the Living.

O Sr. A. Skirving, mestre pedreiro da catedral de Winchester, escreveu aos redatores da aludida compilação:

XXV – “Não sou um homem instruído. Deixei a escola com a idade de 12 anos e por isso espero que perdoeis minhas faltas contra a gramática. Sou mestre-pedreiro da catedral de Winchester e resido nesta cidade faz 9 anos. Vai para mais de 30 anos, residia em Londres, muito perto do local presentemente ocupado pela Great Western Railway. Trabalhava em Regent’s Park para os Srs. Momlem, Burt e Freeman. A distância até à minha casa era muito grande para que pudesse ir fazer nela as minhas refeições, e por isso conduzia comigo o almoço e não abandonava durante o dia o trabalho.

Um belo dia, entretanto, senti bruscamente um desejo intenso de ir à minha casa. Como, de fato, nada tivesse a fazer em casa, tratei de me desembaraçar dessa obsessão, mas foi-me isso impossível. O desejo de ir a casa aumentou de minuto em minuto. Eram 10 horas da manhã e não havia o que pudesse afastar-me do meu trabalho a essa hora. Tornei-me inquieto e não me sentia bem; percebi que devia ir, mesmo correndo o risco de ser ridiculizado por minha mulher; não podia dar nenhuma razão de deixar meu trabalho e perder seis pences em cada hora, por causa de uma tolice. Todavia, não pude ficar; parti para casa.

Quando cheguei diante da porta de minha residência, bati; a irmã de minha mulher veio abrir-me a porta. Pareceu surpreendida e me disse:

– Que é isto, Skirving, como é que o sabeis?

– Sabeis o quê? – disse-lhe eu.

– Ora essa! a propósito de Mary Anne.

– Nada sei com respeito a Mary Anne (minha esposa).

– Então, que vos traz a esta hora aqui?

Respondi-lhe:

– Não o sei. Parecia-me que tinham necessidade de mim aqui. Mas, que foi que sucedeu?

Então ela me contou que um fiacre havia atropelado minha esposa, talvez uma hora antes, deixando-a gravemente ferida. Não havia cessado de chamar-me desde a hora do acidente. Estendeu-me os braços, enlaçou-os em torno do meu pescoço e encostou minha cabeça em seu peito. As crises imediatamente passaram e a minha presença acalmou-a; ela dormiu e repousou. Contou-me sua irmã que ela dava gritos de cortar o coração, chamando-me, ainda que não houvesse a menor probabilidade da minha vinda.

Esta curta narrativa tem apenas um mérito: é estritamente verdadeira.



P. S. – O acidente verificara-se uma hora e meia antes da minha chegada. Coincidia essa hora exatamente com a em que experimentei a obsessão de deixar meu trabalho. Faltava-me uma hora para chegar à minha casa e, antes de partir, lutara eu bem uma meia hora para vencer o desejo de ir à minha residência.

Alexandre Skirving

Todos esses exemplos mostram que há como que correntes entre os cérebros, entre os espíritos, entre os corações, correntes devidas a uma força ainda desconhecida. Eis aqui outros casos não menos evidentes.

O professor Sílvio Venturi, diretor do Asilo de Alienados de Girifalco, escrevia a 18 de setembro de 1892:

XXVI – “Em julho de 1885 morava eu em Nocera. Fui, certo dia, com um companheiro, fazer uma visita a meu irmão, em Pozznoli, a três horas de viagem por via férrea.

Deixei todos, em casa, de perfeita saúde. Habitualmente eu permanecia dois dias em Pozznoli, algumas vezes um pouco mais. Chegamos às 2 horas da tarde. Tínhamos a intenção de fazer, depois da refeição, um passeio marítimo com os da família. De súbito, detenho-me pensativo e, tomando uma resolução enérgica, declaro não mais querer dar o passeio, mas, pelo contrário, voltar imediatamente a Nocera. Perguntaram-me por quê, declarando que me achavam esquisito. Eu mesmo sentia toda a extravagância da minha resolução, mas não hesitei, pois experimentava uma necessidade irresistível de retornar a casa.

Vendo a minha resistência, deixaram-me partir. A seu mau grado, o meu companheiro seguiu-me. Aluguei uma pequena viatura, puxada por um cavalo magro e lento que ia a passo, em vez de trotar. De repente, receando perder o trem das 7 horas da noite (era o último), apressei o cocheiro, que fustigou o cavalo, mas o pobre animal, enfraquecido, não podia avançar. Finalmente saltamos e pudemos tomar outra viatura, a tempo de alcançar o trem.

A minha casa em Nocera está situada a 300 metros da gare, mas não tive paciência para fazer o trajeto a pé e subi ao carro de um amigo, deixando meu companheiro vir a pé. Chegando em casa, empalideço vendo quatro médicos: os Srs. Ventra, Canger, Roscioli e o da cidade; achavam-se todos ao redor da cama de minha querida filhinha, atacada de crupe e ameaçada de morte. Não existia essa enfermidade na região. Declarou-se o crupe às 7 horas da manhã, talvez à mesma hora em que experimentei a obsessão de regressar a casa o mais depressa possível. Tive a alegria de haver contribuído, assim, para a cura. Minha esposa, antes da minha chegada, gritava e me chamava angustiosamente.” 76

Todos esses fatos tão numerosos não indicam a existência de correntes psíquicas entre os seres vivos? Essas constatações são da mais alta importância para o conhecimento que procuramos adquirir, por estes estudos, da natureza e das faculdades da alma humana.

Outro documento absolutamente da mesma ordem: confirmam-se eles, assim, uns pelos outros.

O Sr. Lasseron, tabelião em Châtellerault, escreve, em data de 31 de janeiro de 1894:77

XXVII – “Um advogado, de serviço na Guarda Nacional, achava-se no corpo da guarda. De repente, deu-lhe na fantasia sair, sem a ninguém prevenir. Estando sob as armas, nem mesmo o comandante do posto o poderia ter permitido; além disso, ele não tinha nenhum motivo plausível a apresentar. Era uma extravagância que lhe assaltava o cérebro e mau grado à prisão que a falta lhe acarretava (com efeito, pegou ele, por esse ato de indisciplina, oito dias de prisão), deixa o fuzil e vai a casa, correndo.

Chegando, encontra sua mulher banhada em lágrimas, rodeada de médicos que cercavam o leito de sua filha, de seis anos de idade, atacada de crupe e próxima da morte... Não havia essa moléstia na cidade.

A visita inopinada de seu pai pareceu produzir uma reação de tal modo favorável, que a criança sobreviveu. Casou-se com o irmão do juiz que me contou esse fato extraordinário; morreu antes dos 25 anos.

Foi preciso recorrer a toda espécie de valiosa proteção, para relevar a pena de oito dias de prisão, e isso se deu antes em consideração ao fato de tratar-se desse estranho caso de telestesia.



Lasseron
Tabelião em Châtellerault.”

O Dr. Aimé Guinard, cirurgião dos hospitais de Paris, residente na mesma cidade, à rua de Rennes, menciona o seguinte caso (outubro de 1891):



XXVIII – “Tenho habitualmente como dentista um de meus amigos instalado longe de minha casa, no quarteirão da ópera. Como sua clientela tomasse proporções consideráveis e não tivesse eu tempo de passar longas horas em seu salão de espera, decidi-me a solicitar os cuidados de um de seus colegas, que trabalhava a alguns passos de minha casa, o Sr. Martial Lagrange.

Dou esses detalhes para bem demonstrar que não mantinha relações com este último, pois vi-o pela primeira vez no começo deste ano.

Uma noite do mês de setembro, deito-me como de ordinário, pelas 11:30 da noite. Cerca de 2 horas da madrugada sou acometido de uma dor de dentes das mais insuportáveis e conservo-me toda a noite acordado. Achava-me muito incomodado pelo fato de não poder dormir, mas não a ponto de ficar impossibilitado de pensar em meus costumeiros afazeres. Como estivesse prestes a terminar um memorial sobre o tratamento cirúrgico do câncer do estômago, passei uma parte da noite a meditar sobre esse assunto e a traçar o plano do meu último capítulo. Freqüentemente era interrompido o meu trabalho mental por uma arremetida dolorosa e eu me impunha a resolução de ir logo pela manhã procurar o meu vizinho, Sr. Marcial Lagrange, para arrancar o dente enfermo.

Insisto sobre este ponto: durante essa longa insônia, meu pensamento esteve em absoluto concentrado nesses dois objetivos (e isso com tanto mais intensidade por se achar tudo em redor de mim mergulhado na calma e na obscuridade): de um lado o memorial sobre o tratamento cirúrgico do cancro do estômago, no qual estudo a extirpação do tumor por meio do bisturi, e, de outro, o dentista em questão e a ablação do meu dente, em mau estado.

Às 10 horas da manhã chego à sala de espera e, logo que o Sr. Martial Lagrange abre a porta do seu gabinete, exclama:

– Oh! como isto é admirável! Sonhei convosco toda a noite.

Respondo-lhe gracejando:

– Espero, pelo menos, que vosso sonho não tenha sido muito desagradável, ainda que eu tenha estado metido nele.

– Mas, pelo contrário – replica ele – era um horrível pesadelo; eu tinha um cancro no estômago e estava obsidiado pela idéia de que íeis abrir-me o ventre, para curar-me.

Ora, afirmo que o Sr. Martial Lagrange ignorava em absoluto que nessa noite estivesse eu estudando precisamente essa questão; há mais de seis meses que não me encontrava com ele e não tínhamos nenhum amigo comum.

Acrescentarei que é um homem de cerca de 45 anos, nevropata, muito emotivo.

Eis aí o fato em toda a sua simplicidade; não se trata de uma narrativa de segunda ou terceira mão, pois o caso me diz pessoalmente respeito. Seria uma simples coincidência? Parece-me isso muito improvável.

Não se tratara, antes, de uma observação que se deve incluir entre os casos autênticos de telepatia? O que há aqui de particular é, com o meu estado de vigília, o pensamento do dentista por mim influenciado ou sugestionado durante o sono.

Diz-se correntemente, desde séculos provavelmente, quando alguém se ocupa com insistência de qualquer ausente: “Devem-lhe estar as orelhas tinindo.” Seria esse dito baseado em fatos de telepatia análogos ao meu?”

Não datam de hoje essas observações. Eis uma experiência relatada por meu saudoso amigo Dr. Macário, em seu livro tão interessante sobre O Sono:78

XXIX – “Uma noite o Dr. Grosnier, depois de haver adormecido por magnetização uma senhora histérica, pediu permissão ao marido desta para fazer uma experiência, e eis o que se passou. Sem dizer palavra, mentalmente, bem entendido, conduziu-a ele para o alto mar. A doente conservou-se tranqüila enquanto durou a calma na superfície das águas; dentro em pouco, entretanto, o magnetizador levantou em seu pensamento uma horrível tempestade e a doente se pôs imediatamente a dar gritos penetrantes e a se agarrar aos objetos que lhe estavam em torno; sua voz, suas lágrimas, a expressão de sua fisionomia indicavam um terrível medo. Então ele reduziu sucessivamente, e sempre pelo pensamento, as vagas a limites razoáveis. Cessaram elas de agitar o navio e, conforme a progressão do seu apaziguamento, foi a calma voltando ao espírito da sonâmbula, ainda que conservasse ela, por algum tempo, a respiração ofegante e um tremor nervoso por todo o corpo.

– Não me transporteis jamais para o mar – gritou a sonâmbula, um instante depois, com arrebatamento – tenho medo; e aquele miserável capitão que não queria deixar-nos subir ao convés!

Esta exclamação nos surpreendeu tanto mais, diz o Sr. Grosnier, quanto é certo que eu não pronunciara uma única palavra que pudesse indicar a natureza da experiência que tinha a intenção de fazer.”

Relata igualmente o Dr. Macário os casos seguintes:



XXX – “Achava-se à venda, judicialmente, um terreno em uma das comunas dos arredores de Paris. Ninguém lhe oferecia qualquer lance, ainda que mínimo em extremo fosse o preço da avaliação, porque o terreno fora tomado ao velho G., que passava entre os camponeses por perigoso feiticeiro. Após uma longa hesitação, certo agricultor chamado L., seduzido pela insignificância do preço, arriscou-se a fazer o seu lance e se tornou proprietário do campo.

No dia seguinte, pela manhã, o nosso homem, sobraçando a enxada, dirigia-se, cantando, à sua nova propriedade, quando um objeto sinistro lhe saltou aos olhos; era uma cruz de madeira, à qual estava pregado um papel com estas palavras: “Se meteres a enxada nesse campo, virá à noite atormentar-te um fantasma.” O lavrador derrubou a cruz e se pôs a trabalhar a terra, mas sem muita disposição; mau grado seu, pensava no fantasma que lhe fora anunciado, deixou o trabalho, voltou para casa e meteu-se na cama; seus nervos, porém, estavam superexcitados e ele não pôde dormir. À meia-noite viu um grande vulto branco a passear em seu quarto e que aproximando-se dele, murmurou: “Restitui-me o meu campo.”

Renovou-se a aparição nas noites subseqüentes. O lavrador foi acometido de febre. Ao médico que o interrogou sobre a causa da moléstia, contou ele a visão que o obsediava e declarou que o velho G. tinha-lhe feito malefício. O médico mandou buscar esse homem e, em presença do prefeito da Comuna, interrogou-o. O feiticeiro confessou que todas as noites, à meia-noite, passeava em sua casa, envolto em um lençol branco, a fim de enfeitiçar o comprador do seu campo. Sob a ameaça de ser preso, caso continuasse a fazer isso, desistiu ele do sortilégio. Cessaram as aparições e o lavrador recuperou a saúde.”

Como podia esse feiticeiro, passeando em sua casa, ser visto pelo camponês cuja morada ficava a um quilômetro de distância? Não explicaremos o fenômeno, apenas diremos que o caso não é sem precedentes e que está apoiado na autoridade irrecusável do célebre Dr. Récamier.



XXXI – “Vinha o Dr. Récamier de Bordéus e atravessava em sege de posta uma aldeia; sucedendo quebrar-se uma das rodas da viatura, tratou-se de procurar o carpinteiro que a pudesse consertar e cuja oficina ficava próxima do local do acidente. Mas esse homem estava de cama, enfermo, o que obrigou o cocheiro a ir procurar outro carpinteiro que residia na aldeia vizinha. Aguardando que o acidente fosse reparado, entrou o Dr. Récamier na casa do camponês enfermo e dirigiu-lhe perguntas sobre a causa do seu mal. Respondeu-lhe o carpinteiro que a sua enfermidade provinha da falta de sono: “ele não podia dormir porque um caldeireiro que residia na outra extremidade da aldeia, a quem recusara dar sua filha em casamento, o impedia batendo a noite toda em seus caldeirões.”

O doutor foi procurar o caldeireiro e, sem preâmbulos, lhe disse:

– Por que bates a noite inteira em teu caldeirão?

– Por Deus! – respondeu ele – é para impedir Nicolau de dormir.

– Como pode Nicolau ouvir-te, se ele mora a uma meia légua daqui?

– Oh! oh! – replicou o camponês, sorrindo com ar maligno – sabemos bem que ele ouve.

O Dr. Récamier ordenou expressamente ao caldeireiro que cessasse aquele barulho, ameaçando-o de mandá-lo castigar se o doente viesse a morrer. Na noite seguinte o carpinteiro dormiu calmamente. Alguns dias depois retomou suas ocupações.”

Nas considerações de que faz acompanhar a narração desse caso, o Dr. Récamier o atribui ao poder da vontade, do qual não se conhece ainda toda a energia e que se revelara espontaneamente a um camponês inculto. O fenômeno, de resto, não parecerá extraordinário aos que conhecem o magnetismo.

O general Noizet, um dos autores mais sérios e mais precisos que já têm escrito sobre o magnetismo, relata a história seguinte:79

XXXII – “Pelo ano de 1842 fui convidado a passar em casa de um de meus antigos camaradas, uma noite na qual deveriam ostentar-se as maravilhas do sonambulismo. Para lá me transportei.

Era a primeira vez que eu assistia a esse gênero de espetáculo, bastante comum, entretanto, nos salões de Paris; depois disso nunca mais tive ocasião de assistir a espetáculo idêntico.

Lá encontrei umas 40 pessoas, algumas delas adeptas mais ou menos exaltadas e muitas incrédulas, entre as quais podia-se contar, na primeira plana, o dono da casa. Augurei mal da sessão e, com efeito, todas as experiências de vista a distância, de leitura de carta escondida, todos os milagres enfim, falharam completamente e foi muito reduzido o número de fatos bastante interessantes que uma assistência tão numerosa e com disposições tão diversas pudesse sabiamente apreciá-los.

Conversando em um grupo, à saída desse malogro, observei ao dono da casa que não era por meio de semelhantes representações que se podia convencer alguém da realidade dos fenômenos; mesmo que as experiências tivessem bom êxito, cada qual, em uma reunião numerosa de pessoas estranhas umas às outras, podia supor tratar-se de compadrio, fraude, etc., sendo necessário, para bem observar os fatos, vê-los na intimidade ou em um pequeno grupo, examiná-los sob todos os aspectos e repeti-los freqüentemente.

Um de nossos interlocutores aplaudiu as minhas palavras, disse que conhecia uma excelente sonâmbula e nos propôs tentar algumas experiências com ela, em presença apenas do dono da casa e de um amigo comum. Aceitamos e combinamos dia e hora em data próxima.

Cheguei à casa de meu amigo antes do magnetizador e de sua sonâmbula, e vim a saber que, entre outras faculdades extraordinárias atribuídas à referida sonâmbula, estava a de poder dizer o que uma pessoa, com quem se a pusesse em relação, tinha feito durante o dia. Sucedia justamente, por acaso, que nesse dia realizara eu um empreendimento pouco vulgar. Tinha ido ao arquivo dos Inválidos, com o Duque de Montpensier, para mostrar-lhe os planos em relevo das praças fortes. Propus que se fizesse comigo a experiência da faculdade da sonâmbula, e esta proposta foi aceita pelos meus dois amigos.

Chegada a sonâmbula e adormecida, entrei em relação com ela e perguntei-lhe se podia ver o que eu fizera durante o dia.

Após alguns detalhes assaz insignificantes e penosamente obtidos, a respeito do modo pelo qual empregara as minhas horas da manhã, perguntei-lhe onde estivera eu depois do almoço. Respondeu-me sem hesitação: nas Tulherias; o que se podia muito bem entender por um simples passeio. Insisti, perguntando por onde eu tinha entrado, e ela respondeu muito bem ainda:

– Pela passagem do cais, perto da ponte Real.

– E em seguida?

– Subistes ao castelo.

– Por qual das escadas? A do meio?

– Não, a do canto, perto da entrada.

Lá, ela se perdeu pelas escadas, e há com efeito lugar para isso, porque existem diversas escadas: a grande, do serviço do pavilhão de Flora, e a dos apartamentos do rei, com patamares e degraus de ligação conduzindo de uns a outros. Afinal, deixou-me em uma grande sala onde havia oficiais. Era uma sala de espera no andar térreo.

– Estivestes esperando – disse-me ela.

– E depois?

– Veio um moço alto falar-vos.

– Quem era esse moço?

– Não o conheço.

– Observais bem?

– Ah! é um filho do rei.

– Qual deles?

– Não o conheço.

– Não é muito difícil de saber; só há dois em Paris: o Duque de Nemours e o Duque de Motpensier; é o Duque de Nemours?

– Não o conheço.

Digo-lhe que é o duque de Motpensier.

– Depois?

– Tomastes um carro.

– Sozinho?

– Não, com o príncipe.

– Onde estava eu sentado?

– No fundo, à esquerda.

– Éramos só nós que estávamos no carro?

– Não, havia ainda na frente um corpulento senhor.

– Que era esse senhor?

– Não o conheço.

– Examinai.

Depois de haver refletido, disse:

– Era o rei.

– Como! – repliquei – eu no fundo da carruagem e o rei na frente! Isso não é razoável.

– Não sei, não conheço esse senhor.

– Pois bem! era o ajudante de campo do príncipe.

– Não o conheço.

– Onde estivemos?

– Seguistes pela margem do rio.

– E depois?

– Fostes a um grande castelo.

– Que castelo era esse?

– Não sei, havia árvores antes de aí chegar.

– Observai bem, portanto; deveis conhecê-lo.

– Não, não sei.

Deixo de lado essa particularidade e peço-lhe que continue.

– Estivestes em uma grande sala.

Nesse ponto, fez-me ela uma descrição imaginária da sala onde via brilhar estrelas sobre um fundo branco. Por fim, ela me diz:

– Havia aí grandes mesas.

– E o que havia sobre essas mesas?

– Não era alto, não era também inteiramente liso.

Não pude levá-la a dizer-me que ali estavam planos-relevos, objetos que sem dúvida ela jamais vira.

– Que fizemos nós, então, diante dessas mesas?

– Vós mostráveis. Subistes em uma cadeira e com uma varinha mostráveis alguma coisa.

Esta particularidade notável era perfeitamente exata. Enfim, depois de muitas delongas, fez-nos ela tomar novamente o carro e partir. disse-lhe então:

– Mas, olhai para trás, deveis reconhecer o lugar donde saímos.

– Ah! – disse ela como que admirada e um tanto confusa – é o quartel dos Inválidos.

Acrescentou ainda que o príncipe deixara-me à porta da minha casa, o que era verdade.

Por muito que estivesse eu familiarizado com os fenômenos de sonambulismo, esta cena impressionou-me, todavia, muito e não posso razoavelmente atribuir senão à faculdade de ler em meu pensamento, ou através das impressões ainda existentes em meu cérebro, a espécie de adivinhação de que a sonâmbula acabava de dar prova. É ainda hoje a única explicação que lhe posso dar.”

Eis aqui um segundo fato relatado pelo mesmo autor:



XXXIII – “Há cerca de dois anos, aconselhou-me uma sonâmbula, para o tratamento de certas dores que eu sentia, o uso de banhos de vapor seco sulfuroso, e indicou-me um estabelecimento da rua da vitória como o único de Paris que os administrava bem. Segui esse conselho, que me pareceu razoável.

O dono do estabelecimento, que, embora grande conversador, é um velho de fisionomia e atitudes francas, perguntou-me um dia quem me houvera indicado esses banhos. Como eu evitasse uma resposta, disse-me ele:

– Não teria sido uma senhora D.?

Neste comenos perguntei-lhe se conhecia essa senhora. Respondeu-me que não, mas que desejaria muito conhecê-la, e que se propunha ir vê-la um dia, porque ela lhe havia prestado um serviço e de uma forma verdadeiramente extraordinária. Eis o que a respeito contou-me:

Uma pessoa a quem administrava banhos desde algum tempo disse-lhe certo dia:

– Acaba de me acontecer qualquer coisa sobremodo admirável e que tem relação convosco. Vou por vezes consultar uma sonâmbula para a minha moléstia, e ontem, após longa interrupção, voltei novamente a consultá-la. Assim que me reconheceu, disse-me:

– Estais muito melhor! Que fizestes então para ficardes em tão bom estado?

– Vede se descobris – respondi-lhe.

– Fizestes uso de banhos, não porém banhos ordinários, mas sim banhos secos sulfurosos. Onde, pois, tomastes esses banhos?

– Procurai-o!

– Ah! estou vendo, fica do outro lado dos bulevares. Não é na rua de Provence, mas na que se lhe segue.

– Em que número? Procurai-o ainda!

– É na casa dos banhos, número 46, mas não no próprio estabelecimento: é ao fundo do terceiro pátio, no rés do chão.

Todas essas indicações eram perfeitamente exatas.

Falei desse fato à sonâmbula durante o seu sono, ela o confirmou, considerando, aliás, em tom de perfeita indiferença; e, o que me causou admiração é que eu sabia que lhe repugnava, por hábito, sem dúvida, ocupar-se de qualquer coisa além do que concerne às doenças. No presente caso, ela havia lido no cérebro da senhora que a consultava.”

Eis um fato ainda mais curioso referido pelo Dr. Bertrand:



XXXIV – “Um magnetizador muito imbuído de idéias místicas trabalhava com um sonâmbulo que, durante o sono, via somente anjos e espíritos de toda espécie: essas visões serviam para firmar cada vez mais o magnetizador em sua crença religiosa. Como citasse sempre os sonhos de seu sonâmbulo em apoio de sua doutrina, um outro magnetizador de seu conhecimento incumbiu-se de desiludi-lo, mostrando-lhe que o seu sonâmbulo não tinha as visões a que ele se referia, senão porque a causa de tais visões existia em sua própria cabeça. Propôs, para provar o que avançava, que se sugerisse ao mesmo sonâmbulo ver a reunião dos anjos do paraíso sentados à mesa e comendo um peru.

Fez, portanto, o sonâmbulo adormecer e ao cabo de algum tempo lhe perguntou se não via nada de extraordinário. Este respondeu que percebia uma grande reunião de anjos.

– E que fazem eles? – pergunta o magnetizador.

– Acham-se em redor de uma mesa e estão comendo.

Não pôde indicar, entretanto, a espécie de iguarias que estava diante deles.”

Independentemente desses casos notáveis e de muitos outros ainda, grande número de observações gerais contribuem para demonstrar que as idéias, e especialmente as opiniões dos magnetizadores, podem ser percebidas pelos sonâmbulos.

Tem-se constatado, por exemplo, que todos os sonâmbulos adormecidos pela mesma pessoa têm as mesmas idéias sobre o magnetismo, e precisamente as do seu magnetizador. Assim, quando um magnetizador, persuadido da existência de um fluido magnético, pergunta ao seu sonâmbulo se percebe a ação desse fluido, responde-lhe este que sim e assegura, além disso, estar vendo o magnetizador circundado de uma atmosfera luminosa, ora brilhante, ora azulada, etc. Pelo contrário, os sonâmbulos adormecidos por pessoas que não admitem nenhum fluido particular pretendem que não existe fluido magnético. Os que são adormecidos por homens supersticiosos vêm demônios, anjos que vêm comunicar-se com eles e lhes fazem revelações ou desvendam-lhes segredos. Todos os sonâmbulos observados pela Sociedade Swedenborguesa, de Estocolmo, acreditavam ser inspirados por espíritos vindos do outro mundo e que, durante algum tempo, haviam habitado corpos humanos. Esses fantasmas davam notícias do que se passava no paraíso ou no inferno e repetiam mil contos, que enchiam de santa admiração os que os escutavam. Os católicos, que acreditam no purgatório, vêem almas que pedem missas e preces, e com elas conversam por meio do magnetismo e do Espiritismo. Os protestantes jamais.

Não pode, portanto, haver dúvidas a respeito da transmissão das idéias e sobretudo das opiniões mais pronunciadas dos magnetizadores. Mas o que é bastante singular é que esses magnetizadores, que reconheciam, desde a origem da observação do sonambulismo artificial, a influência que sua vontade exerce sobre os sonâmbulos, tenham estado tanto tempo sem descobrir o fenômeno da transmissão das idéias, sendo que a ignorância na qual muitos permanecem a esse respeito é uma das causas que os têm levado a exageros e erronias, porquanto, depositando ilimitada confiança em seus sonâmbulos, interrogavam-nos a respeito de todos os sistemas que seus cérebros forjavam e, como as respostas se achassem sempre de acordo com os seus sistemas, as mais absurdas opiniões se tornavam para eles certezas – o que os afastava cada vez mais do caminho da verdade.

A simpatia foi sempre admitida por todos os povos, em todas as épocas. Entretanto, esta palavra é ainda vazia de sentido para aqueles que não crêem na influência recíproca e misteriosa que dois seres podem exercer um sobre o outro.

Poucas pessoas haverá que, durante sua vida, não tenham feito algumas observações sobre as simpatias e as afinidades. Ainda aí se constata a transmissão do pensamento, uma comunicação harmoniosa entre os cérebros e entre as almas.

O mundo psíquico é tão real como o mundo físico; apenas tem sido, até aqui, menos estudado.

Talvez estejamos nós, em face das manifestações da energia psíquica, no estado dos animais inferiores que não dispõem ainda de sentidos iguais aos nossos. Mas que dificuldade há em admitir que essa força, como todas as outras, possa agir a distância? Muito mais curioso, mais inadmissível seria que essa força, uma vez que existe, não pudesse agir a distância: seria isso um paradoxo sem precedentes.

Já temos dito inúmeras vezes que é uma estranha presunção, para não dizer profunda ignorância, supor que não existe em torno de nós, em matéria de movimentos, mais do que aqueles que somos capazes de perceber. Os nossos sentidos evidentemente são muito grosseiros, se compararmos a soma do que nos transmitem eles com a massa provável do que são incapazes de perceber. Sabemos que existem cores, sons, correntes elétricas, atrações e repulsões magnéticas que em absoluto nos escapam, cuja existência, entretanto, podemos constatar, por meio de aparelhos registradores, de extrema delicadeza. Não estamos autorizados, de acordo com os atuais dados da Ciência, a considerar todos os corpos que nos rodeiam como estando em relações infinitas e constantes uns para com os outros, segundo todas as modalidades da energia? E não devemos considerar-nos, nós mesmos, mergulhados nos meandros inextricáveis e serrados de todas essas ações recíprocas caloríficas, elétricas, atrativas, que cada corpo exerce sobre todos os que o rodeiam – sem falar das influências que derivam de forças de que nem desconfiamos – ações dinâmicas das quais só percebemos, de passagem, as mais grosseiras?

Mas a evolução dos organismos prossegue seu curso, dir-nos-ão com o Sr. Héricourt, e sem dúvida alguns seres já começam a ser impressionados por certas vibrações errantes no meio desses turbilhões de ações e de reações que nos deixam insensíveis.

Os fenômenos surpreendentes de ação a distância e de clarividência, diz ainda o mesmo autor, observados com as pessoas hipnotizadas, isto é, submetidas a uma espécie de desequilíbrio experimental, no qual certas partes do sistema nervoso parecem ter sua sensibilidade acrescida a expensas de outras, devem indicar-nos o sentido e a natureza dos fenômenos de telepatia. Serão eles sem dúvida que servirão de ponte entre a ciência positiva de hoje e o que bem poderá vir a ser a ciência de amanhã.

Segundo tudo o que precede, a comunicação de cérebro a cérebro (em condições especiais, certamente) não é duvidosa. Pensamentos, imagens, idéias, impressões podem ser transmitidas. Os cérebros são centros de radiações. Dizemos algumas vezes que “certas idéias andam no ar”. Esta metáfora é uma realidade.

Certo número de pesquisadores têm procurado realizar experiências precisas sobre a transmissão mental. Pode-se encontrar, entre as obras especiais, as dos Srs. Richet, Héricourt, Guthrie, Lodge, Schmoll, Desbeaux, W. M. Pickering, etc., as primeiras das quais remontam aos anos de 1883 e 1884, e se referem à adivinhação de números, reprodução de desenhos, em uma proporção assaz notável para mostrar a realidade da transmissão. Nos trabalhos do Sr. Richet, por exemplo, 2.997 experiências deram 789 resultados positivos, ao passo que o número provável era de 732. O Sr. Marilier recebeu os resultados de 17 séries de experiências, elevando-se ao número de 17.653, dos quais com bom êxito 4.760, ultrapassando de 347 o número provável. Em junho de 1886, as Srtas. Wingfield obtiveram 27 resultados positivos completos em 400 experiências de leitura de algarismos: o número provável era apenas de 4. Sem poderem ser consideradas definitivas, essas experiências têm seu valor. Sei perfeitamente que se brinca de transmissão de pensamento nos salões e no palco dos prestidigitadores e que existem truques tão simples quanto engenhosos. Assisti mais de uma vez, prazerosamente, às sessões dos irmãos Isola, de Cazeneuve, bem como às dos seus êmulos. Tratamos, porém, neste livro, de experiências científicas, nas quais os experimentadores a ninguém enganavam.

Assinalarei, por exemplo, a seguinte:

O meu erudito confrade e amigo, Emílio Desbeaux, autor de obras muito apreciadas e estimadas, fez entre outras as curiosas experiências seguintes, das quais ele próprio redigiu o relato:

XXXV – “A 23 de maio de 1891, faço sentar-se em um canto obscuro do salão o Sr. G., lente substituto de ciências físicas, para quem essas experiências eram absolutamente desconhecidas. São nove horas da noite, o Sr. G. tem os olhos vendados e o rosto voltado para a parede.

Coloco-me a quatro metros de distância dele, diante de pequena mesa onde repousam duas lâmpadas.

– Primeira experiência

Sem ruído e na ignorância do Sr. G., tomo um objeto e conservo-o em plena luz. Sobre ele concentro os meus olhos e percebo que o Sr. G. vê esse objeto.

No fim de 4 minutos e meio, o Sr. G. anuncia-me que está vendo uma roda metálica.

Ora, o objeto era uma colher de prata (pequena colher de café), cujo cabo desaparecia em minha mão e da qual eu apenas fixava a concha, de um oval um pouco alongado.

– Segunda experiência

O Sr. G. vê um retângulo brilhante.

Eu tinha uma tabaqueira de prata.

– Terceira experiência

O Sr. G. vê um triângulo.

Eu desenhara, a traços largos, sobre um cartão, um triângulo.

– Quarta experiência

O Sr. G. vê um quadrado com arestas luminosas e com pérolas brilhantes; ora ele vê duas pérolas somente, ora vê diversas.

Eu tinha na mão um objeto de cuja presença não era possível desconfiar: tratava-se de um grande dado de papelão branco cujas arestas a luz fazia brilhar vivamente, dando aos pontos gravados em baixo relevo reflexos brilhantes de pérolas negras.

– Quinta experiência

O Sr. G. vê um objeto transparente com filetes luminosos formando um oval ao fundo.

O que eu mantinha era um copo para cerveja (chope), de cristal, com o fundo talhado em oval.”

Eis aí, quero crer, cinco experiências (feitas em excelentes condições de controle e de sinceridade), que podem ser consideradas como tendo chegado a completo bom êxito.

É igualmente interessante reproduzir, a esse propósito, algumas das experiências realizadas com êxito pelo meu amigo A. Schmoll, um dos fundadores da Sociedade Astronômica de França.



XXXVI – “Experimentou ele com diversas pessoas que, a seu turno, experimentaram entre si. O problema consistia em adivinhar e desenhar o objeto no qual pensava o autor da experiência e que ele mesmo desenhava fora das vistas do percipiente colocado no mesmo compartimento, com as costas voltadas para o experimentador e tendo os olhos vendados. Reproduzo aqui simplesmente em uma página algumas das experiências, aquelas que melhor êxito conseguiram. A duração da prova era em média de 13 minutos. Em 121 experiências, 30 fracassaram, 22 tiveram bom êxito, 69 deram soluções mais ou menos aproximadas.

Todos esses estudos nos mostram que o espírito pode ver, adivinhar, sem o concurso do órgão da visão material.”

Esta teoria das correntes psíquicas, capazes de transmitir a distância, a outros cérebros, impressões cerebrais e mesmo pensamentos, explica grande número de fatos observados e que permaneceram inexplicados até agora. Por exemplo, em um teatro, em uma soirée musical, etc., tendes diante de vós 50, 100 mulheres mais ou menos atentas. Fixai vosso olhar e vosso pensamento sobre uma delas; projetai vossa vontade com insistência: não decorrerão alguns minutos sem que ela se volte e vos dirija seu olhar. Atribui-se essa coincidência ao acaso. Sim, com muita freqüência, sem dúvida, mas não sempre! O êxito depende dos operadores e dos pacientes. Outros casos: estais em correspondência irregular com uma pessoa simpática; não é raro que vossas cartas se cruzem, porque tendes pensado ao mesmo tempo com idêntica intenção. Estais à mesa, conversais, levantais uma questão, fazeis uma reflexão: “Veja só! eu ia dizer isso mesmo”, responde-vos vossa mulher, vosso marido, vossa irmã, vossa mãe, que tiveram a mesma idéia precisamente no mesmo instante.

Se, ao passardes por uma rua, dizeis de vós para vós: “Oxalá não me encontre com o Sr. Fulano de tal!”, um instante depois é justamente ele que vem cruzar convosco; pressentiste-o. Ou então supondes reconhecer determinada pessoa em uma outra, e cinco minutos depois encontrais essa mesma pessoa. Falais a respeito de certa pessoa: ei-la que chega. Daí o provérbio: “Falar no mau...” Acabamos de citar numerosos exemplos. Até o presente atribuíam-se todas essas coincidências ao acaso, explicação simples, banal e burguesa, que abre mão de toda e qualquer pesquisa.

Há casos de leitura de pensamento que não são devidos à sugestão mental. Os leitores atentos já puderam assinalar diversos desses casos neste capítulo. Eis aqui um exemplo muito curioso desse gênero observado em 1894 com uma criança, pelo Dr. Guintard, e comunicado por esse sábio, com todas as garantias de autenticidade,80 à Sociedade de Medicina d’Angers:

XXXVII – “Ludovico X. é uma criança de menos de 7 anos, viva, alegre, robusta e dotada de excelente saúde. Ela é absolutamente indene de qualquer tara nervosa. Seus pais igualmente não apresentam nada de suspeito sob o ponto de vista neuropatológico. São pessoas de bom humor que nunca passaram pelos dolorosos transes da vida.

Na idade de 5 anos, entretanto, essa criança parecia caminhar pelas pegadas do célebre Inaudi. Querendo sua mãe, nessa época, ensinar-lhe a tabuada de multiplicar, percebeu, surpresa, que ele a recitava tão bem quanto ela! Dentro em pouco, Bébé, entusiasmando-se, chegava a fazer, de cabeça, multiplicações com um multiplicador formidável. Atualmente basta ler-lhe um problema tomado ao acaso em uma compilação qualquer, para que ele dê imediatamente a solução. Este, por exemplo:

“Se pusessem no meu bolso 25 fr. 50, eu ficaria com três vezes o que tenho, menos 5 fr. 40. Qual a soma que tenho?”

Apenas termina o enunciado e Bébé, sem mesmo ter tempo suficiente para refletir, responde: 15 fr. 45, o que é exato. Vai-se em seguida procurar no fim do livro, entre os mais difíceis, este outro problema:

“O raio da Terra é igual a 6.366 quilômetros; achar a distância da Terra ao Sol, sabendo que ela corresponde a 24.000 raios terrestres. Exprimir esta distância em léguas.”

O bambino, com a sua vozinha gaguejante, dá, igualmente sem hesitar, esta solução, que é a do compêndio: 38.196.000 léguas!

O pai desse menino, envolvido em outras preocupações, não tinha prestado às proezas do filho mais do que uma relativa atenção. Acabou, entretanto, impressionando-se com o caso e, como é um tanto observador, ao menos em virtude de sua profissão, não tardou a notar que: 1º – o menino pouco escutava, e algumas vezes absolutamente nada, da leitura do problema; 2º – a mãe, cuja presença é uma condição expressa do bom êxito da experiência, devia sempre ter, sob os olhos ou em pensamento, a solução pedida. Donde concluía que seu filho não calculava, mas adivinhava, ou para dizer melhor, praticava, com relação a sua mãe, a “leitura do pensamento”; resolveu, pois, certificar-se disso. Em conseqüência, pediu à Sra. X. para abrir um dicionário e perguntar a seu filho qual a página que tinha sob os olhos; e o filho respondeu imediatamente: “É a página 456.” Estava certo. Repetiu dez vezes a experiência e dez vezes obteve idêntico resultado.

Eis, portanto, que o Bébé se transforma de matemático em feiticeiro – digamos adivinho, para não ofendê-lo! Mas a sua notável faculdade de “vista dupla” não se exerce unicamente com relação a números. Marque a Sra. X. com a unha qualquer palavra em um livro; o menino, questionado a esse respeito, nomeia a palavra sublinhada. Escreve-se qualquer frase em um carnê: por muito longo que seja, basta que ela passe sob os olhos maternais, para que o menino, interrogado, mesmo por um estranho, repita a frase, palavra por palavra, sem demonstrar pela fisionomia que realizou um tour de force. Nem mesmo é necessário que a frase, o número ou a palavra estejam fixados no papel; basta que se achem bem nítidos no espírito da mãe, para que o filho opere a sua leitura mental.

Mas o triunfo principal de Bébé está nos entretenimentos de salão. Ele adivinha, umas após outras, todas as cartas de um baralho. Indica, sem hesitar, o objeto que esconderam às suas ocultas, em uma gaveta. Se se lhe perguntar o que contém uma bolsa, mencionará até o mais insignificante dos objetos que aí se encontram. Onde a criança é sobretudo admirável é na tradução das línguas estrangeiras. Acreditar-se-ia que ele compreende claramente o inglês, o espanhol, o grego. Ultimamente um amigo da casa lhe perguntava o sentido desta charada latina: Lupus currebat sine pedibus suis. Bébé saiu-se da dificuldade com aplausos gerais. O nome de pequeno prodígio estava em todas as bocas!

Bem se vê que há muitas distinções a estabelecer nesses estudos. A leitura de pensamentos é aqui feita sem sugestão. Os fenômenos sugestivos são produzidos pela penetração da idéia do experimentador no cérebro do sujet. Logo, para que houvesse sugestão, no caso de que nos ocupamos, seria preciso constatar da parte da mãe certa concentração psíquica, certo grau de querer, indispensável ao sucesso da experiência. Ora, a leitura do seu pensamento realizava-se mui freqüentemente a seu mau grado.

Toda a medalha, com efeito, tem seu reverso. Quando Bébé ficou em idade de aprender seriamente a ler, sua mamãe, que se consagrara a essa tarefa, constatou, não sem mágoa, que sob sua direção seu filho não fazia progresso algum. Tudo adivinhando, não exercitava nem seu discernimento nem sua memória. Foi mister dispensar-lhe mil cuidados engenhosos para levar o barco a bom porto.”

Ao tempo em que eu estudava com o maior cuidado esses casos de transmissão de pensamento, recebi a seguinte carta de um leitor dos Annales, que parece em absoluto justificar as reflexões precedentes:



XXXVIII – “Permitireis a um leitor assíduo trazer ao vosso conhecimento um caso interessante de telepatia de que fui muito recentemente testemunha.

No mês passado (dezembro de 1898) tinha eu sob os meus cuidados uma senhora idosa, que chegara ao último período de uma doença aguda; dia a dia o seu enfraquecimento aumentava, conquanto guardando ela intacta a sua inteligência, e foi mesmo na véspera de sua morte que sobreveio o fenômeno seguinte:

Visitara eu a minha doente pela manhã. Ela raciocinava perfeitamente e suas faculdades cerebrais de modo algum haviam diminuído.

Cerca de 11 horas da manhã, encontro um amigo com o qual converso sobre diferentes coisas. Em dado momento, esse amigo me diz:

– Procuro uma casa para alugar, a fim de nela passar a primavera. Poderíeis dar-me qualquer informação a respeito?

– Confesso que não – respondi-lhe eu –. Vós, empreiteiro de construções, podeis estar mais bem informado do que eu nesta matéria.

Nesse momento, estávamos absolutamente sós e ninguém podia surpreender a nossa conversação.

– É que – acrescenta o meu amigo – a casa em que mora a Sra. P. (a minha doente) me conviria muito. Que pensais do seu estado? Dizem que ela está mal. Ainda pode viver por muito tempo?

– Quem sabe? – respondi evasivamente –. Em todo o caso ela dispõe de um arrendamento que se transfere para os seus herdeiros, em caso de falecimento.

– É indiferente; esperarei ainda alguns dias; procurarei depois o proprietário.

Ficou apenas nisso a nossa conversação. Não se tratou mais nem da doente nem da casa, e sei que o meu amigo não falou a ninguém de seus projetos no correr do dia. Ora, por ocasião da minha visita da noite, a enfermeira da Sra. P. me disse:

– Doutor, a nossa enferma divaga, ou, pelo menos, delirou cerca do meio-dia. Perguntou-me se ninguém tinha vindo ver a casa, com o fim de alugá-la. “Aliás, acrescentou ela diversas vezes, tenho um contrato de arrendamento: que querem comigo?”

– E foi só?

– Nada absolutamente compreendi – ajuntou a enfermeira.

Nem a criada, nem qualquer outra pessoa, das que convivem com a enferma, teve conhecimento dos projetos de meu amigo; por conseguinte, a própria enferma não podia conhecê-los, nem ter a intuição deles por meio do mundo exterior.

Fiquei e ainda estou convencido de que a Sra. P., unicamente por ação telepática percebeu nossa conversação da manhã. Foi à hora em que eu estava com o meu amigo que ela “delirou”. Foi o único “delírio” que teve e morreu no dia seguinte à noite, antes que alguém soubesse dos projetos de locação do meu amigo.

Passou-se isto a 13 de dezembro último. Retive bem o fato, assaz curioso em si mesmo. Lendo esta tarde vosso artigo dos últimos Annales, imaginei que ele poderia interessar-vos. Eis por que tomei a liberdade de vo-lo comunicar imediatamente.

P. S. – É pessoalmente a vós que eu remeto este documento. No caso que tenhais a intenção de publicá-lo, ser-vos-ia reconhecido se me guardásseis o anonimato.

Dr. Z.

Eis aqui um outro caso de observação, que se parece muito com o precedente:





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