Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos


VI Ação psíquica de um espírito sobre outro



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VI

Ação psíquica de um espírito sobre outro


Transmissão de pensamentos. – Sugestão mental. – Comunicação a distância entre pessoas vivas.

Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra “impossível”, falta à prudência.

Arago.   

Tomamos o cuidado de começar estes estudos somente pelo exame de fatos de uma mesma ordem: as manifestações dos moribundos, a distância, a fim de lhes encontrar mais facilmente a explicação. Chegaremos em breve às manifestações de mortos, reais ou aparentes, e aos outros fenômenos, avançando gradualmente, lentamente, mas com segurança. O objetivo dessas pesquisas é saber se a observação científica possui bases suficientes para provar a existência da alma como entidade real independente e sua sobrevivência à destruição do organismo corporal. Os fatos examinados nos capítulos precedentes já colocaram a primeira proposição sobre um bom terreno. Tendo sido, pelo cálculo das probabilidades, eliminada, em abono da telepatia, a hipótese do acaso e da coincidência fortuita, somos forçados a admitir a existência de uma força psíquica 61 desconhecida, emanada do ser humano e podendo agir a grandes distâncias.

Parece difícil, à vista do acervo tão eloqüente e tão demonstrativo desses testemunhos, recusarmo-nos a esta primeira conclusão.

Não foi o espírito dos observadores, isto é, dos que experimentaram essas impressões, que se transportou até o moribundo. Este é que os foi impressionar. A maior parte dos exemplos citados mostra que aí é que reside a causa do fenômeno, e não em uma clarividência, uma segunda vista das pessoas impressionadas.

Do mesmo modo, não é necessário supor que a alma do moribundo se desloca e se transporta para junto da pessoa impressionada. Pode não haver no fato mais do que uma irradiação, uma modalidade de energia ainda desconhecida, uma vibração do éter, uma ondulação que, repercutindo sobre determinado cérebro, dá-lhe a ilusão de uma realidade externa. Todos os objetos que vemos, aliás, não nos são sensíveis, não atingem o nosso espírito senão por efeito de imagens cerebrais.

Esta hipótese explicativa parece-me necessária e suficiente, pelo menos no que concerne ao maior número dos fatos que vêm de ser expostos.

Esses fatos que, em realidade, representam uma ordem de coisas muito mais divulgada do que se tem imaginado até hoje, nada têm de sobrenatural. O papel da Ciência é: 1º – não rejeitá-los cegamente; 2º – procurar explicá-los. Ora, de todas as explicações que podem ser imaginadas, a mais simples e, ao mesmo tempo, a que parece impor-se com mais força consiste em admitir-se que o espírito do moribundo agiu a distância sobre o daquela ou daquelas pessoas que foram impressionadas. As aparições, as audições, os espectros, os fantasmas, os deslocamentos de objetos, os ruídos, tudo parece fictício; nada, por exemplo, poderia ser fotografado. À parte certos casos de que voltaremos a tratar, é no cérebro das pessoas impressionadas que tudo se passa. Nem por isso, entretanto, o fato é menos real.

Firmaremos, pois, como conclusão das observações procedentes, que um espírito pode agir a distância sobre um outro, sem ser, como habitualmente acontece, por intermédio da palavra ou de outro qualquer meio sensível. Parece-nos de todo impossível rejeitar-se esta conclusão, desde que os fatos sejam aceitos.

Esta conclusão vai ser abundantemente demonstrada.

Nada há de anticientífico nem de romanesco em admitir-se que possa uma idéia agir a distância sobre um cérebro.

Fazei vibrar uma corda de violão ou de piano: a certa distância, uma outra corda de violão, de piano, vibrará e emitirá um som. A ondulação do ar é transmitida com a primeira.

Ponha-se em movimento uma agulha imantada. A uma certa distância, e sem contato, por simples indução, uma outra agulha imantada oscilará sincronicamente com a primeira.

Fale-se, em Paris, sobre uma placa de telefone: a comunicação elétrica irá fazer vibrar a outra placa sonora em Marselha. O fio material não é indispensável. Não é uma substância que se transporta; é uma onda que se propaga.

Lá está uma estrela, a milhares de milhões de quilômetros, na imensidade dos céus, a uma distância da qual a Terra não é mais do que um ponto absolutamente invisível. Exponho a essa estrela, no foco de uma lente, uma placa fotográfica: o raio de luz vai trabalhar sobre essa placa, impressioná-la, desagregar a camada sensível e imprimir sua imagem. Este fato não é, em si mesmo, muito mais admirável do que a onda cerebral que vai a alguns metros, alguns quilômetros, alguns milhares de quilômetros repercutir noutro cérebro em relação harmônica com aquele do qual partiu essa onda?

A 149 milhões de quilômetros de distância, através do que se chama “o vácuo”, uma comoção solar produz sobre a Terra uma aurora boreal e uma perturbação magnética.

Todo ser vivo é um centro dinâmico. O próprio pensamento é um ato dinâmico. Não há pensamento algum sem vibração correlata do cérebro. Que há de extraordinário em que esse movimento se transmita a uma certa distância, como no caso do telefone, ou melhor ainda, do fotofone (transporte da palavra pela luz) e da telegrafia sem fio?

No estado atual de nossos conhecimentos físicos, tal hipótese nem mesmo é, verdadeiramente, uma ousadia. Ela não sai do quadro de nossas operações habituais.

Todas as nossas sensações, de prazer, de dor, do que quer que seja, todas, sem exceção, se verificam em nosso cérebro. Entretanto, localizamo-las sempre em outra parte qualquer, jamais no cérebro.

Queime alguém o pé, sofra um ferimento no dedo, magoe o cotovelo, respire um perfume agradável, prove um saboroso manjar, beba um licor delicado: todas as sensações resultantes serão instintivamente localizadas no pé, no dedo, no cotovelo, no nariz, na boca, etc. Na realidade, entretanto, serão os nervos que as transmitirão, todas, sem exceção, ao cérebro – e só no cérebro é que serão percebidas. Poderíamos queimar os nossos pés até os ossos, sem experimentarmos sensação alguma, se os nervos que vão do pé ao cérebro estivessem seccionados em um ponto qualquer do seu percurso. O nervo é um simples condutor.

O fato está demonstrado pela Anatomia e pela Fisiologia. O que há, talvez, de mais curioso ainda é que não é necessário que um membro exista para que o sintamos. Os indivíduos que sofrem qualquer amputação experimentam as mesmas sensações como se tivessem ainda o membro de que foram privados. Costuma-se dizer que a ilusão dura algum tempo, até que, cicatrizada a ferida, cesse o doente de receber os cuidados do profissional. Mas a verdade é que essas ilusões persistem sempre e conservam a mesma intensidade durante a vida toda. Resta uma sensação de formigamento e de dor, que tem, na aparência, sua sede nos órgãos exteriores, não obstante estes não existirem mais. Essas sensações não são vagas, porquanto o amputado sente dores ou formigamentos em tal ou tal artelho, na planta ou sobre o dorso do pé, na pele, etc.

Certo homem que sofrera a amputação da coxa, experimentava ainda, ao fim de doze anos, as mesmas sensações como se possuísse os dedos e a planta do pé. Um outro tinha amputado há treze anos o braço; contudo, as sensações nos dedos jamais haviam para ele cessado: supunha sempre sentir encurvada a sua mão. Outro ainda que teve o braço direito estraçalhado, por uma bala de canhão, e em seguida amputado, ainda experimentava, vinte anos depois, dores reumáticas nesse membro, todas as vezes que havia mudança de tempo. O braço que ele perdera parecia-lhe sensível à menor corrente de ar!

Quando, em uma operação de rinoplastia, se volta um pedaço da pele da fronte, talhado próximo à raiz do nariz, para enxertá-lo no coto do mesmo órgão, o nariz artificial conserva, enquanto esse retalho de pele não está separado da fronte, as mesmas sensações que se experimentam quando a pele da fronte é excitada por um estimulante qualquer, isto é, o indivíduo sente na fronte os apalpamentos exercidos sobre o seu nariz.

A conseqüência é que, quando uma sensação tiver como condição ordinária a presença de um objeto mais ou menos afastado de nosso corpo, e a experiência nos der a conhecer essa distância, é a essa distância que situaremos a nossa sensação. Tal é, efetivamente, o caso para as sensações do ouvido e da vista.

O nervo acústico tem sua terminação exterior na câmara profunda do ouvido. O nervo óptico tem a sua no alveolozinho mais interno do olho. No estado atual, entretanto, não é jamais nesses pontos que localizamos as nossas sensações de som ou de cor, mas fora de nós e freqüentemente a uma distância muito grande. Os sons vibrantes de um grande sino parecem-nos vibrar muito longe e muito alto no ar; um apito de locomotiva parece-nos cortar o ar a cinqüenta passos, à esquerda.

A localização, mesmo longínqua, é ainda muito mais nítida para as sensações visuais. Vai isso a tal ponto, que as nossas sensações de cor nos parecem destacadas de nós; não mais percebemos que elas nos pertencem; cuidamos que fazem parte dos objetos. Acreditamos que a cor verde, que nos parece aplicada, a três pés de nós, sobre esta poltrona, é uma das suas propriedades; esquecemos que ela não existe senão em nossa retina, ou antes nos centros sensitivos aos quais se transmite a vibração de nossa retina. Se aí formos procurá-la, não a encontraremos; em vão procuram os fisiologistas provar que o abalo nervoso, que provoca a sensação de cor, tem início na retina, como o que provoca e sensação de contato começa nas extremidades nervosas da mão ou do pé; em vão nos mostram que o éter, vibrando, fere a extremidade de nosso nervo óptico, como um diapasão que vibra abala a superfície de nossa mão: não temos a menor consciência desse contato em nossa retina, mesmo quando dirigimos nesse sentido todo esforço de nossa atenção. Todas as nossas sensações de cor são assim projetadas fora de nosso corpo e revestem os objetos mais ou menos distantes, móveis, paredes, casas, árvores, céu e tudo o mais. Eis porque, quando em seguida refletimos sobre elas, cessamos de no-las atribuir; são afastadas, destacadas de nós, até nos parecerem estranhas.

A cor de modo algum está no objeto nem nos raios luminosos que ele irradia; está na excitação da retina.

Pouco importa que a excitação seja produzida por um jato de raios luminosos ou por outra causa qualquer. Pouco importa que seja ou não espontânea. Qualquer que seja a causa, logo que ela se manifesta, produz-se a cor e ao mesmo tempo o que chamamos a imagem visível. Em todos os casos, a cor e a imagem visível não passam de manifestações interiores, na aparência exteriores. Toda a óptica fisiológica repousa sobre este princípio. Resulta, portanto, de nossa organização que a visão, a audição, qualquer observação que fazemos de um objeto ou de um ser, é devida a uma impressão cerebral e que, por conseguinte, para que acreditemos ver, ouvir, tocar um ser, é preciso e suficiente que nosso cérebro seja impressionado por um movimento vibratório que lhe dê uma sensação adequada ao resultado obtido.62

O cérebro, ao qual chegam todas as sensações, possui várias centenas, vários milhares de nervos aferentes, de nervos eferentes, de células e de nervos intercelulares, nos quais a corrente nervosa se propaga por várias centenas e vários milhares de caminhos distintos e independentes. Essas comunicações tão complicadas são estabelecidas por milhares e por miríades de células e de nervos. É o que se constata pelo microscópio, pelas vivissecções e pelas observações patológicas. O eixo da medula espinhal, longo cordão de substância cinzenta, contém essencialmente sessenta e dois grupos principais de centros nervosos, distribuídos em trinta e um pares, que podem mesmo agir, sem a cabeça, por meio de ações reflexas. Em um homem decapitado, cuja medula espinhal fora reanimada por meio da eletricidade, o Dr. Robin, tendo arranhado com um escalpelo a parede direita do peito, viu o braço do mesmo lado levantar-se e dirigir a mão para o lugar irritado, como para executar um movimento de defesa. O Dr. Kuss, tendo amputado a cabeça de um coelho com tesouras mal afiadas que cortaram esmagando as partes moles de modo a prevenir a hemorragia, viu o animal arremessar-se sem sua cabeça e percorrer toda a sala com um movimento de locomoção perfeitamente regular.63

Os mecanismos vitais são ligados entre si e subordinados uns aos outros; seu conjunto não representa uma república de iguais, mas uma hierarquia de funcionários, e o sistema dos centros nervosos na medula e no encéfalo parece-se com o sistema dos poderes administrativos em um Estado. Pode-se compará-lo à rede telegráfica que põe em comunicação todos os departamentos com Paris, todos os prefeitos com os ministros, transmite as notícias, recebe as ordens. Uma onda de renovação molecular propaga-se ao longo de um filete nervoso com rapidez avaliada em 34 metros por segundo para os nervos sensitivos e em 27 metros para os nervos motores. Chegada à célula cerebral, essa onda aí provoca uma mudança molecular ainda maior; em nenhuma outra parte se produz tão grande desprendimento de força. Podemos comparar, com Taine, a célula a pequeno armazém de pólvora que, a cada excitação do nervo aferente, incendeia-se, faz explosão e transmite, multiplicada, ao nervo eferente, a impulsão que recebeu do nervo aferente.

Tal é o abalo nervoso sob o ponto de vista mecânico. Do ponto de vista físico, trata-se de uma combustão da substância nervosa que, incendiando-se, desprende calor. Do ponto de vista químico, de uma decomposição da substância nervosa que perde seus lipóides fosforados e sua neurina. Do ponto de vista fisiológico, do jogo de um órgão que, como todos os órgãos, se altera pelo seu próprio funcionamento e, para funcionar de novo, tem necessidade de uma reparação sanguínea. Mas, de quaisquer desses pontos de vista, não se nos deparam no fato mais do que caracteres abstratos e efeitos de conjunto; não o surpreendemos absolutamente em si mesmo e em seus detalhes, tal qual o veríamos se, mediante olhos ou microscópios mais penetrantes, pudéssemos segui-lo, do começo ao fim, através de todos os seus elementos e de um extremo a outro de seu desenvolvimento. Sob esse ponto de vista histórico e gráfico, o abalo da célula é certamente um movimento interior de suas moléculas, movimento que pode ser comparado muito exatamente a uma figura de dança, na qual as moléculas muito diversas e muito numerosas, depois de terem descrito, cada qual com determinada rapidez, uma linha de certo comprimento e de certa forma, voltam ao seu primitivo lugar, salvo alguns dançarinos fatigados que desfalecem, tornam-se incapazes de recomeçar e cedem seus lugares a outros recrutas bem dispostos, para que a figura de novo possa ser executada.

Eis aí, tanto quanto se pode conjeturar, o ato fisiológico cuja sensação é o correspondente mental.64

Todos os fatos relativos à produção e à associação das idéias podem ser explicados pelas vibrações do cérebro e pelas do sistema nervoso que aí têm sua origem, como o demonstrou David Hartley no século XVIII.65 A acústica nos esclarece, depois, a este respeito.

Uma experiência bem conhecida, de Sauveur, mostra que uma corda sonora não vibra unicamente em todo seu comprimento, mas que cada uma de suas metades, cada um dos seus terços, cada uma de suas quartas, quintas, sextas partes, etc., vibra separadamente.66 Um fenômeno de ordem análoga pode ser produzido nas vibrações das fibras encefálicas e estas então estariam em relação análoga à dos sons harmônicos. Uma vibração determinada por uma idéia 67 seria acompanhada das vibrações correspondentes às idéias conexas; e a conexidade resultaria tanto da vizinhança das fibras que elas afetam quanto de correntes do mesmo gênero da indução eletrodinâmica.

Qualquer que seja o seu modo de produção e de distribuição, todo pensamento e toda associação de idéias representam um movimento cerebral, uma vibração de ordem física.

As vibrações, a ação psíquica a distância, qualquer que ela seja, aliás, explicam portanto os fatos de telepatia. Não se trata, no caso, de alucinação, mas de impressão física real.

Lançai no ambiente de um salão determinada nota, seja por meio da voz, seja por meio do violino, ou por outro meio qualquer; uma nota Si bemol, por exemplo. A corda de um piano próximo, correspondente a esse Si bemol, vibrará e ressoará, ao passo que as 84 outras cordas ficarão surdas e mudas. Se pudessem as cordas do piano pensar, essas 84 que permaneceram surdas, notando a agitação da corda Si bemol, tomá-la-iam evidentemente por uma alucinada, uma nervosa, uma imaginativa, porquanto elas ficaram insensíveis ao movimento transmitido e o ignoram.

Cada sensação, como cada idéia, corresponde a uma vibração no cérebro, a um movimento das moléculas cerebrais. Reciprocamente, toda vibração cerebral dá origem a uma sensação, a uma idéia, no estado de vigília tanto quanto em sonho. É natural admitir-se que uma vibração transmitida e recebida dá lugar a uma sensação psíquica.

Uma idéia, por muito íntima que seja, uma impressão, uma comoção mental, podem, inversamente, produzir efeitos fisiológicos mais ou menos intensos e mesmo produzir a morte. Não faltam exemplos de pessoas mortas subitamente em seguida a uma emoção. Há muito que está feita a prova dos efeitos do poder da imaginação sobre a própria vida.

Ninguém esquecerá a experiência realizada em Copenhague, em 1750, sobre certo condenado, entregue aos médicos para um estudo desse gênero e que foi observado até a morte inclusivamente. Esse infeliz fora solidamente ligado a uma tábua por meio de fortes correias; vendaram-se-lhe os olhos; depois lhe anunciaram que ia ser sangrado no pescoço e que se deixaria correr o sangue até o completo esgotamento; uma insignificante picada foi em seguida praticada em sua epiderme com a ponta de uma agulha, sendo colocado perto de sua cabeça um sifão, de modo a fazer correr sobre o pescoço um filete d’água que caía sem interrupção, com um leve ruído, em uma bacia colocada no chão. O supliciado, convencido de que deveria ter perdido pelo menos de sete a oito litros de sangue, morreu de pavor.

Um outro exemplo é aquele do porteiro de um colégio, que atraíra sobre si o ódio dos alunos submetidos à sua vigilância. Alguns desses jovens se apoderaram dele, fecharam-no em um quarto escuro e em sua presença procederam a um simulacro de inquérito e de julgamento. Recapitularam todos os seus crimes e concluíram que, somente podendo ser expiados pela morte, seria esta a pena aplicada mediante decapitação. Em conseqüência, foram buscar um machado e um cepo que colocaram no meio da sala, anunciando ao condenado que ele dispunha de três minutos para se arrepender de suas faltas e fazer as pazes com o Céu; decorridos, afinal, os três minutos, vendaram-lhe os olhos e forçaram-no a ajoelhar-se, com o colo descoberto, diante do cepo, depois do que os malvados lhe aplicaram sobre a nuca uma forte pancada com um guardanapo molhado, dizendo-lhe, a rir, que se levantasse. Com inaudita surpresa deles, o homem não se mexeu. Sacudiram-no, tomaram-lhe o pulso: estava morto.68

Para concluir: mais recentemente um jornal inglês, A Lanceta, contou que uma moça, querendo acabar com a vida, ingerira certa quantidade de pó inseticida, depois do que se estendeu em seu leito onde foi encontrada morta. Fez-se inquérito e autópsia. A análise do pó encontrado no estômago demonstrou que era o mesmo absolutamente inofensivo, pelo menos para um ser humano; todavia, a moça estava perfeitamente morta.

Meu sábio amigo Charles Richet, refere (Revista dos Dois Mundos, LXXVI, 1886, pág. 79) que seu pai, tendo certo dia de submeter um doente, no Hospital Geral, à operação de cálculos, morreu o mesmo de medo, no instante em que o cirurgião acabava simplesmente de traçar com a unha sobre a pele a linha que a incisão devia seguir.

Todos esses fatos psíquicos e fisiológicos nos ajudam a compreender a telepatia. Certamente, essa tentativa de explicação de fenômenos estranhos não se processa sem levantar objeções numerosas. A primeira consiste em dizer que essas manifestações de moribundos não somente são raras, excepcionais mesmo, mas ainda não se verificam em circunstâncias nas quais parece que deviam justamente produzir-se, como, por exemplo, por ocasião de uma morte trágica que separa bruscamente dois corações ternamente unidos, ao verificar-se um desses dramas que de súbito cortam o fio de várias existências, ou mesmo quando o ser que morre prometeu formalmente, esperou, desejou, ele próprio, manifestar-se e dar àquele que fica uma prova de sua existência póstuma. Podemos, sem dúvida, responder que ignoramos de que modo essas manifestações se podem produzir, que há leis desconhecidas, dificuldades, impossibilidades; que é necessário estarem dois cérebros em harmonia, em sincronismo, para que vibrem sob a mesma influência; que a união íntima de dois corações não prova a igualdade sincrônica de dois cérebros, etc. Mas, visto que tais coisas têm por vezes lugar e em circunstâncias bastante vulgares, não deixa a objeção de subsistir com maior razão – e muito grave.

Sim, muito grave. Por minha parte, diversas vezes me tenho encontrado, no curso desta vida, com a alma amargurada pela separação brusca de um ente amado. Em minha adolescência, um amigo íntimo, um colega de classe, morreu prometendo-me provar sua sobrevivência, se fosse isso possível. Tínhamos tão freqüentemente discutido juntos a questão! Mais tarde, um dos meus mais queridos companheiros da imprensa científica propôs-me o mesmo pacto, mutuamente aceito. Ainda mais tarde, uma pessoa a quem me achava intimamente ligado, desapareceu do cenário terreno no próprio instante em que esse problema da sobrevivência nos apaixonava a ambos, e dando-me a maior segurança de que o seu único e exclusivo desejo era ver sua morte prematura servir à demonstração desta verdade. E jamais, mau grado às minhas esperanças, mau grado aos meus desejos, às minhas súplicas, obtive qualquer manifestação que fosse. Nada! Nada! Nada!

Perdi há alguns anos meu pai. É verdade que eu permanecia a seu lado e não necessitava ser advertido com relação à sua morte. Mas, tampouco depois, nada obtive.

Eu tinha por meu avô e por minha avó uma adoração sem limites; também eles me adoravam loucamente, e eu os amava tanto que sempre me foi impossível, absolutamente impossível, ir ao túmulo onde repousam: muito antes de chegar a esse pequeno jazigo rústico, os soluços me sufocam, cegando-me e amortecendo-me as pernas. Jamais tive qualquer manifestação deles; de modo algum, nem no instante da morte, nem depois que deste mundo partiram.

Sem dúvida, o meu cérebro não é apto a perceber essa espécie de ondas etéreas, quer promanem de vivos ou de mortos. Nada, sensação alguma me veio avisar dessas mortes e, depois, nenhuma comunicação me chegou deles.

Mas o papel do pesquisador, como o do historiador, é o de permanecer impessoal, e as nossas próprias impressões não devem influenciar-nos. Todavia deve-se colocar sempre a verdade, a lealdade, a franqueza acima de tudo.

Consiste uma outra objeção na extravagância de certas manifestações, como já tivemos ocasião de assinalar. Se há ação a distância de um espírito sobre outro, por que esta ação dá nascimento a ilusões como estas: abrir ou fechar uma janela, levantar um leito, bater em um móvel, rolar uma bola sobre o assoalho, fazer ouvir o ranger de gonzos, etc.? Parece que tal ação devia ser intelectual, dar a audição de uma voz amada, mostrar a imagem do ser que nos deixa, permanecendo, assim, na ordem psíquica e moral.

Esta objeção é menos grave do que a precedente. Grande número de manifestações consistem, por um lado, em visões ou audições. Podemos supor, em outros casos, que a comoção produzida no cérebro do moribundo se transmite a certas células, a certas fibras de um outro cérebro e determina, nesta zona cerebral, uma ilusão, uma impressão qualquer. Uma ondulação luminosa, calorífica, elétrica, magnética, que vem ferir, atravessar um objeto, como, por exemplo, uma esponja, encontra resistências diferentes, segundo a natureza da esponja, suas diferenças de densidade, as substâncias minerais que pode ela ter em suspensão, etc., e cada uma de suas partes é diferentemente impressionada.

Os caprichos aparentes do raio oferecem-nos singularidades não menos estranhas. Aqui, o raio queima uma pessoa, que flameja como um feixe de palha; ali, reduz as mãos a cinzas, deixando as luvas intactas; solda os anéis de uma corrente de ferro como ao fogo de uma forja e, ao lado, mata um caçador sem quebrar o fuzil que ele tinha à mão; funde um brinco de orelha sem queimar a pele; despe completamente uma pessoa, sem lhe fazer mal algum, ou então se contenta em furtar-lhe os sapatos ou o chapéu; fotografa, sobre o peito de um menino, o ninho que ele agarrava no cimo de uma árvore fulminada; doura as moedas de um porta-moeda, praticando a galvanoplastia, de um compartimento a outro, sem que o portador seja atingido; arrasa instantaneamente uma muralha de seis pés de espessura e abate um castelo secular, ou abate-se sobre um paiol de pólvora sem fazê-lo explodir. Há muito mais esquisitices inexplicáveis nos efeitos e nos movimentos do raio do que nas manifestações telepáticas.69

É nosso dever, na pesquisa da verdade, não dissimularmos objeção alguma. As que acabo de apresentar não impedem que os fatos existam, e a única explicação desses fatos parece-me ser a ação, a distância de um espírito sobre outro.

Vamos agora um pouco mais longe. Existem, fora da ordem de coisas que acabamos de examinar, exemplos que levem a admitir a probabilidade, a realidade desta ação? Possuímos provas experimentais, incontestáveis, da transmissão do pensamento sem o concurso dos sentidos?

Sim. Vamos passá-las em revista, constatá-las, demonstrá-las, porquanto em questões desta natureza, para estar seguro é preciso estar dez vezes seguro.

E, antes de tudo, analisaremos as questões que dizem respeito aos fenômenos do magnetismo humano.

Não falarei de grande número de experiências de sugestões hipnóticas às quais tenho assistido, notadamente as do Dr. Puel, as do Dr. Charcot, as do Dr. Berety, as do Dr. Luys, as do Dr. Dumontpallier, etc., não que eu duvide da realidade da sugestão e da auto-sugestão, mas porque são elas de tal modo conhecidas que é supérfluo relatá-las aqui.

Há também, nesta ordem de estudos, experiências muito incertas e mesmo fraudulentas, provando-me isso os próprios pacientes por suas acusações recíprocas e por suas confissões. É muito freqüente a simulação nesse gênero de experiências. Apenas citarei um exemplo.

O Dr. Luys tinha o hábito de apresentar ao paciente, pseudo-adormecido, frascos que ele colocava sobre sua nuca e que continham diferentes produtos: água pura, conhaque, absinto, óleo de rícino, essência de timo, água de louro cereja, amoníaco, éter, essência de violeta, etc. O paciente adivinhava sempre do que se tratava e, freqüentemente, manifestava os sintomas dessas drogas. Desgraçadamente para o valor da experiência, sempre o doutor apresentava os frascos na mesma ordem, pelo menos nas sessões a que assisti. Pedi-lhe, certo dia, que invertesse a ordem de colocação dos frascos, sem nada dizer a respeito. Ele não aceitou e respondeu-me que não devíamos pôr em dúvida a boa fé dos pacientes.

Esse paciente era uma moça histérica, atriz em um dos teatros de Paris. Regressei com ela de Irry e não tardei a ficar completamente elucidado a respeito da sua sinceridade, assim como da de suas companheiras de experimentação.

Para estarmos seguros destas experiências, necessário é que estejam elas ao abrigo de toda desconfiança: que o cheiro não possa atravessar a rolha dos frascos, sobretudo quando se trate de olfatos hiperstesiados; que o paciente nada possa desconfiar; que o próprio experimentador não possa sugestioná-lo e que ele mesmo ignore o conteúdo dos frascos.70

É indispensável que não percamos o nosso tempo no exame de casos duvidosos, pois que nada é mais absurdo do que perder tempo.

A vida é curta. Devemos somente escolher, admitir, examinar observações bem feitas; e, depois, não sair do nosso objetivo: demonstrar a ação psíquica, mental, de um espírito sobre outro.

Fornecer-nos-á o sonambulismo as primeiras. Eis aqui, de início, um processo verbal relatando três casos de sugestão mental, obtidos pelos Srs. Guaita e Liébault, no domicílio deste último, em Nancy, a 9 de janeiro de 1886:71

“Nós, abaixo assinados, Ambroise Liébault, doutor em Medicina, e Stanislas Guaita, homem de letras, ambos residentes atualmente em Nancy, atestamos e certificamos haver obtido os seguintes resultados:

1º – A Srta. Luísa L., submetida ao sono magnético, foi informada de que deveria responder a uma questão que lhe seria feita mentalmente, sem a intervenção de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Com a mão apoiada sobre a fronte do sensitivo, o Dr. Liébault recolheu-se um instante, concentrando sua própria atenção sobre a pergunta: “Quando estareis curada?”, que ele tinha vontade de fazer. Os lábios da sonâmbula moveram-se imediatamente:

Em breve – murmurou ela distintamente.

Convidaram-na, então, a repetir, diante de todas as pessoas presentes, a questão que havia instintivamente percebido. Ela a expressou nos termos em que fora formulada no espírito do experimentador.

2º – O Sr. de Guaita, pondo-se em relação com a magnetizada, propôs-lhe mentalmente uma outra questão:

– Voltareis na próxima semana?

Talvez – foi a resposta do sensitivo.

Convidada a comunicar às pessoas presentes a questão mental, respondeu a magnetizada:

Perguntastes-me se voltaríeis na próxima semana.

Esta confusão estabelecida a respeito de uma palavra da frase é muito significativa. Dir-se-ia que a moça vacilou ao ler no cérebro do magnetizador.

3º – O Dr. Liébault, para que nenhuma frase indicativa fosse pronunciada, mesmo em voz baixa, escreveu em um bilhete: “A senhorita, ao despertar, verá seu chapéu preto transformado em chapéu vermelho.”

O bilhete circulou, previamente, por todas as testemunhas; depois os Srs. Liébault e de Guaita colocaram em silêncio suas mãos sobre a fronte do sensitivo, formulando mentalmente a frase convencionada. Então a moça, informada de que veria na sala qualquer coisa de insólito, foi despertada. Sem qualquer hesitação, fixou logo seu chapéu e, com grande gargalhada, reclamou. Aquele não era o seu chapéu; não o queria. Tinha perfeitamente a mesma forma; mas o gracejo devia terminar; urgia que lhe restituíssem o que lhe pertencia.

– Mas, afinal, que notastes de diferente?

– Vós o sabeis; de resto, tendes olhos como eu.

– Mas então?...

Foi preciso insistir por muito tempo, para que ela consentisse em dizer no que seu chapéu tinha mudado; estavam a caçoar com ela. Assediada de perguntas disse afinal:

Bem vedes que está todo vermelho.

Recusando-se ela a recebê-lo, forçoso se tornou pôr um fim à sua alucinação, afirmando-se-lhe que o chapéu ia voltar à cor primitiva. O Dr. Liébault assoprou no chapéu e este, voltando, aos olhos da moça, a ser o seu, consentiu ela em recebê-lo.

Tais os resultados que certificamos haver concordemente obtido. Em fé do que, redigimos o presente processo verbal.

S. de Guaita, A. Liébault.”

A sugestão mental tornou-se, de muitos anos a esta parte, objeto de estudos muito importantes, à frente dos quais convém colocar a obra, especialmente consagrada ao assunto, do Dr. Ochorowicz.72 Extrairemos dessa obra algumas experiências características:

O Sr. de la Souchère, antigo aluno da Escola Politécnica, sábio químico residente em Marselha, tinha como empregada uma mulher do campo, com a qual se produziam, com a maior facilidade, o sonambulismo e diversos dos seus fenômenos dignos de nota. Em estado de sonambulismo magnético, diz ele, Lazarine mantinha comigo perfeita comunhão de pensamento e se tornava a tal ponto insensível que eu lhe enterrava agulhas na carne, nas unhas, sem que ela experimentasse a menor dor e sem que saísse uma gota de sangue.

Em presença do engenheiro Gabriel e de alguns amigos, repeti as seguintes experiências: fazia-a beber água pura e ela dizia-me que a água tinha o gosto sugerido por mim: limonada, xarope, vinho, etc. Indicaram-me o gosto de areia para sugerir-lhe. Ela não pôde adivinhar. Então, derramei um pouco de areia em minha boca e imediatamente ela se pôs a cuspir, dizendo que eu lhe dava areia. Na ocasião, achava-me por trás de Lazarine e era-lhe impossível ver-me.

Experiência análoga, porém ainda mais avançada, é referida pelo Conde de Maricourt. Tendo o sensitivo bebido, em estado de vigília, um copo de água, com sugestão mental de ser um copo de kirsch, manifestou todos os sintomas da embriaguez durante vários dias. Foram os fenômenos desse gênero que fizeram crer aos magnetizadores poderem eles, magnetizando um copo de água ou um outro objeto, impregnar seus fluidos de diferentes qualidades físicas ou químicas. A magnetização é neste caso inútil, pois que é o pensamento que age sobre o cérebro do paciente e não sobre o objeto.

Alguém me remete um livro: Robinson Crusoé. Abro-o e examino uma gravura que representa Robinson em uma canoa. Lazarine, interrogada a respeito do que estou fazendo, responde:

– Tendes um livro, não o ledes; observais uma gravura; há um barco e dentro dele um homem.

Recomendo-lhe que me descreva o mobiliário de um quarto que ela não conhecia, e foi indicando os móveis à medida que eu os lia representando em meu pensamento. Não tenho verificado em minha empregada a transposição dos sentidos. Aplicavam-se-lhe sobre o epigástrio diversos objetos; se eu os conhecia, ela os indicava; se eu ignorava o que eram, não podia ela designá-los. Não era, portanto, mais do que a transmissão do pensamento que se produzia nela. É possível que, em certos casos, o que se tenha atribuído à transposição dos sentidos nada mais seja que efeito da transmissão do pensamento.

O Dr. Texte constatou, diversas vezes, que a sonâmbula pode acompanhar o pensamento do magnetizador.

A Srta. Diana, diz ele, seguia uma conversação, durante a qual eu falava apenas mentalmente. Respondia às perguntas que, desta maneira, eu lhe endereçava.

Cita ele ainda uma notável experiência na qual a sugestão mental se manifesta como uma alucinação:

Imaginei, um dia, uma trincheira de madeira em redor de mim; sem nada dizer, deixei em estado de sonambulismo a Srta. H., jovem muito nervosa, e lhe pedi que me trouxesse os meus livros. Chegada ao lugar onde eu havia imaginariamente levantado a trincheira, ela se detém, dizendo que não podia mais avançar.

– Que extravagante idéia – diz – essa de levantar ali uma trincheira!

Tome-a alguém pela mão, a fim de fazê-la passar, e verificará que seus pés estão colados ao assoalho, somente o alto do corpo se inclina para a frente, e ela diz que se comprime o seu estômago contra o obstáculo.

Em geral, se o sonâmbulo acredita ver alguma coisa fora das condições ordinárias, cumpre indagar-se imediatamente se não se trata, no caso, de simples sugestão involuntária de nossa parte.

Um estudante de Medicina perguntou a uma de minhas sonâmbulas quais os doentes que o júri lhe daria a examinar para uma prova do doutorado. Descreveu ela nitidamente três doentes na Casa de Misericórdia, que haviam atraído mais especialmente a atenção do estudante e que este teria desejado fossem objeto de seu exame. Ela chegou a acrescentar (detalhe característico) a respeito de um desses pacientes:

– Oh! como essa mulher tem o olhar brilhante... e fixo!... Causa-me pavor... esse olhar!

– Ela vê com esse olho brilhante? – pergunta o estudante.

– Esperai... não sei... esse olho é duro... não é natural.

– De que é feito esse olho?

– De qualquer coisa... que se quebra... e que brilha... Oh! ela tira-o... mergulha-o n’água... – etc.

Essa enferma tinha um olho de vidro; o fato, absolutamente ignorado por mim, porquanto eu não conhecia os doentes em questão, mas conhecido do estudante que fazia perguntas à sonâmbula, foi perfeitamente descrito por esta. Aonde ia a sonâmbula encontrar essa imagem? No psiquismo do interrogante que, por intermédio do meu psiquismo, nela se refletia.

É justo acrescentar que as predições da sonâmbula não se realizaram; que no dia de sua prova o estudante teve de examinar outros doentes e que nem mesmo se falou nos doentes descritos pela sonâmbula.

Ordinariamente, diz o Dr. Charpignon, a visão a distância é confundida com o fenômeno da transmissão de pensamento. Assim, a maior parte das experiências citadas consiste em pedir ao sonâmbulo que se dirija à vossa casa ou a um lugar que conheceis. Estais em relação com ele, que freqüentemente vos descreve os lugares, os objetos com a máxima precisão. Pois bem, não se trata, no caso, a maior parte das vezes, de uma visão real; o sonâmbulo vê em vosso pensamento as imagens que aí delineais.73

Um prestidigitador bastante conhecido, Robert Houdin, interessava-se por estas questões. Imitava ele a dupla vista e a transmissão do pensamento com ajuda de um truque engenhoso. Incrédulo a respeito de sonambulismo, habituado a produzir prodígios, fazia muito pouco caso do maravilhoso, de cujo segredo se julgava possuidor; também ele considerava todos os altos feitos atribuídos à lucidez como golpes de agilidade, da mesma natureza daqueles com que divertia o público. Em diversas cidades onde os sonâmbulos obtinham alguns êxitos, divertia-se ele em imitar seus exercícios e mesmo em excedê-los. O Sr. de Mirville, célebre demonólogo que, em seu sistema, tem necessidade de sonambulismo para fazer as honras aos espíritos infernais, teve a pretensão de converter um adversário tão temível; pensava ele, com razão, que, se conseguisse demonstrar-lhe que a lucidez pertence a uma ordem de coisas inteiramente estranha aos seus estudos e à sua prática, o testemunho de um juiz tão experimentado seria de grande peso para a causa do sonambulismo. Levou-o à casa do sonâmbulo Alexis. Dá conta o Sr. de Mirville, em seu livro Dos Espíritos, da cena que se passou.

Morim, autor de um livro de cunho espiritual, mas céptico sobre o magnetismo, afirma que Robert Houdin lhe confirmou a exatidão da narrativa do Sr. de Mirville:

– Eu estava confuso – disse o mágico –, não havia ali nem destreza, nem escamoteação. Eu era testemunha do exercício de uma faculdade superior, inconcebível, de que não tinha a menor idéia, e à qual recusaria dar crédito se os fatos não se tivessem passado sob as minhas vistas. De tal forma estava emocionado que o suor inundava-me o rosto.

Cita o prestidigitador, entre outras, a seguinte experiência:

– Tomando Alexis as mãos de minha mulher, que me havia acompanhado, falou-lhe de acontecimentos passados e especialmente da perda bastante dolorosa de um de nossos filhos; todas as circunstâncias eram perfeitamente exatas.

No caso em apreço, lia o sonâmbulo, no pensamento da Sra. Houdin, suas recordações e seus sentimentos mais ou menos despertos em sua consciência.

Um outro fato mostra ao mesmo tempo a visão e a clarividência, igualmente pela transmissão das recordações.

Um médico incrédulo, o Dr. Chomel, querendo também cientificar-se por si mesmo, apresentou uma caixinha a Alexis. Este apalpou-a, sem abri-la, e disse:

– É uma medalha; ela vos foi dada em circunstâncias bem singulares. Éreis então um pobre estudante. Residíeis, em Lião, numas águas furtadas. Um operário, ao qual prestastes serviços, encontrou esta medalha nuns escombros, pensou que vos pudesse ser agradável possuí-la e subiu ao vosso 6º andar para vo-la oferecer.

Tudo isso era verdade. Certamente, aí estão dessas coisas que se não podem adivinhar nem encontrar por acaso. O doutor partilhou da nossa admiração.

Há casos de vista a distância independentes da transmissão do pensamento. Deles nos ocuparemos mais tarde. Importa estabelecer as necessárias distinções e afastar confusões muito freqüentes.

O que pretendemos aqui é demonstrar a realidade científica da transmissão do pensamento e da sugestão mental. Creio que não há necessidade de abordar as sugestões verbais, as ordens dadas por meio da voz e executadas em tal ou tal data, de antemão fixada. Não nos desviemos do nosso principal objetivo.

Prossigamos em nosso estudo.

No mês de novembro de 1885, o Sr. Paul Janet, do Instituto, leu na sociedade de Psicologia uma comunicação de seu sobrinho, o Sr. Pierre Janet, professor de filosofia no Liceu do Havre: “Sobre alguns fenômenos de Sonambulismo”.

Esse título, prudentemente vago, ocultava revelações verdadeiramente extraordinárias. Tratava-se de uma série de ensaios realizados pelos Srs. Gibert e Janet, e que pareciam provar não somente a sugestão mental em geral, mas ainda a sugestão mental a distância de vários quilômetros e na ignorância do paciente.

Esse paciente, chamado Léonie B., era uma honesta mulher do campo, uma bretã, com a idade de cinqüenta anos, bem disposta, honrada, muito tímida, inteligente, ainda que sem instrução alguma (não sabendo mesmo ler e apenas podendo soletrar algumas letras). Era de constituição forte e robusta; quando jovem fora histérica, tendo sido, porém, curada por um magnetizador desconhecido. Depois disso, é somente em estado sonambúlico que se manifestam alguns traços de histerismo, sob a influência de uma contrariedade. Seu marido e seus filhos gozam boa saúde. Parece que vários médicos já manifestaram o desejo de utilizá-la para as suas experiências; ela sempre recusou, porém, as suas propostas. Somente a pedido do Sr. Gibert consentiu em vir passar algum tempo no Havre.

Fazem-na adormecer mui facilmente: para isso basta que se lhe tome a mão, apertando-a ligeiramente, durante alguns instantes, com a intenção de adormecê-la. De outra forma, nada se produz. Após um lapso de tempo mais ou menos longo (de 2 a 5 minutos, segundo a pessoa que a hipnotiza), o olhar se torna vago, as pálpebras são agitadas por pequenos movimentos quase sempre muito rápidos, até que o globo ocular se esconde nas pálpebras cerradas. Ao mesmo tempo o peito se dilata com esforço; um estado de indisposição evidente parece invadi-la. Muito freqüentemente o corpo é agitado por estremecimentos passageiros; ela dá um suspiro e cai para trás, mergulhada em profundo sono.

O Dr. Ochorowicz fez a viagem do Havre para observar esses fatos.

A 24 de abril, diz ele, chego ao Havre e encontro os Srs. Gibert e Janet a tal ponto convencidos da realidade da ação a distância, que se prestam às minuciosas precauções que lhes imponho, para dispor-me a verificar o fenômeno.

Os Srs. F. Myers, membro da Society for Psychical Researches, o Sr. Marillier, da Sociedade de Psicologia, e eu formamos uma espécie de comissão, e os detalhes de todas as experiências são por nós determinados, de comum acordo.

Eis as precauções que adotamos nessas experiências:

1º) a hora exata da ação a distância é tirada à sorte;

2º) essa hora não é comunicada ao Sr. Gibert senão alguns minutos antes de ela soar, e imediatamente os membros da comissão se transportam ao pavilhão onde se encontra o sujet (sensitivo);

3º) nem o sujet, nem qualquer dos moradores do pavilhão situado a um quilômetro de distância, têm conhecimento da hora exata, nem mesmo do gênero da experiência que se realizará.

Para evitar a sugestão involuntária, nem nós, nem qualquer desses senhores entramos no pavilhão senão para verificar o adormecimento do sujet.

Resolve-se fazer a experiência de Cagliostro: adormecer de longe o paciente e fazê-lo vir através da cidade.

Eram 8:30 da noite. Estando o Sr. Gibert de acordo, tira-se a hora exata por meio da sorte. A ação mental devia começar às 8:45 e durar até 9:10. Nesse momento não havia ninguém no pavilhão, salvo a Sra. B. e a cozinheira, que não contavam com qualquer tentame de nossa parte. Ninguém foi ao pavilhão. Aproveitando essa oportunidade, de se acharem todos ausentes, as duas mulheres entraram no salão e divertiam-se “tocando piano”.

Já passava de 9 horas quando chegamos nas proximidades do pavilhão. Silêncio.

A rua está deserta. Sem fazer o menor ruído, separamo-nos em dois grupos para vigiar a casa, a distância.

Às 9:25 vejo uma sombra aparecer na porta do jardim. Era ela. Escondo-me em um canto para ouvir sem ser notado.

Nada mais ouço, entretanto: a sonâmbula, depois de permanecer um instante na porta, retirou-se para o jardim (nesse momento o Sr. Gibert deixava de atuar; à força de concentrar seu pensamento, teve uma espécie de síncope ou de torpor, que durou até às 9:35).

Às 9:30 a sonâmbula reaparece de novo no limiar da porta e desta vez precipita-se para a rua sem hesitar, com a pressa de uma pessoa que está retardada e que deve absolutamente atingir seu objetivo. Os senhores que se encontravam em seu caminho não tiveram tempo de nos prevenir, a mim e ao Dr. Myers. Mas, tendo ouvido passos precipitados, pusemo-nos a seguir a sonâmbula, que não via nada em torno de si, ou pelo menos não nos reconheceu.

Chegada à rua de Bard, começou a hesitar, deteve-se um momento e esteve a ponto de cair.

De repente, retomou a marcha com vivacidade. Eram 9:35 (nesse momento o Sr. Gibert, voltando a si, recomeçou a ação). A sonâmbula caminhava depressa, sem se inquietar com o que se passava em torno.

Em dez minutos, estávamos perto da casa do Sr. Gibert, quando este, supondo malograda a experiência e admirado de não nos ver de volta, sai ao nosso encontro e cruza com a sonâmbula, que conserva sempre os olhos fechados.

Ela o não reconhece. Absorta em sua monomania hipnótica, precipita-se para a escada, seguida por todos nós. O Sr. Gibert fez menção de entrar em seu gabinete, mas eu seguro-lhe a mão e o introduzo em um quarto oposto ao seu.

A sonâmbula, muito agitada, procura por toda parte, esbarra conosco e nada sente; entra no gabinete, tateia os móveis, repetindo em tom desolado: “Onde está ele? Onde está o Sr. Gibert?”

Durante esse tempo, o magnetizador permanece sentado e curvado, sem fazer o menor movimento. Ela entra no quarto, quase o toca ao passar, mas a sua excitação a impede de reconhecê-lo. Ainda uma vez se arremessa em outros quartos, percorrendo-os. Foi então que o Sr. Gibert teve a idéia de atraí-la mentalmente e, em conseqüência dessa vontade, ou por simples coincidência, ela torna atrás, agarra-o pelas mãos, gritando”Aqui estás! Aqui estás, enfim! Ah! como estou contente!”

Enfim, declara o Dr. Ochorowicz, constatara eu o fenômeno extraordinário da ação a distância, que transtorna todas as opiniões atualmente admitidas.”

Citemos também a experiência seguinte:

Convencionamos, escreve o Sr. Janet, a 10 de outubro de 1885, fazer, o Sr. Gibert e eu, a seguinte sugestão: “Fechar à chave, amanhã, ao meio-dia, as portas da casa.” Registrei a sugestão em uma folha de papel que guardei comigo e que não quis comunicar a ninguém. O Sr. Gibert fez a sugestão, aproximando sua fronte da de Mme. B. durante o sono letárgico, e durante alguns instantes concentrou seu pensamento na ordem que lhe dava mentalmente.

Na manhã seguinte, quando cheguei, às 11:45, encontrei a casa trancada e a porta fechada à chave. Informando-me, soube que fora a Sra. B. que acabava de fechá-la; quando lhe perguntei por que havia praticado esse ato singular, respondeu-me ela:

– Sentia-me muito fatigada e não queria que pudésseis entrar para adormecer-me.

A Sra. B. estava nesse momento muito agitada; continuou a vagar pelo jardim e eu a vi colher uma rosa e ir verificar a caixa de correspondência, colocada perto da porta de entrada. Tais atos não têm importância, mas é curioso assinalar que eram precisamente os atos que tínhamos um momento pensado, na véspera, em ordenar-lhe que praticasse. Estávamos decididos a ordenar-lhe um outro, o de fechar as portas, mas a idéia dos primeiros ocupava sem dúvida o espírito do Sr. Gibert durante o tempo em que ele fazia a sugestão, e a sonâmbula sentira também a sua influência.

A 13 de outubro ordenou-lhe o Sr. Gibert, sempre pelo pensamento, que abrisse um guarda-chuva no dia seguinte ao meio-dia e fizesse duas vezes a volta do jardim. Mostrou-se ela muito agitada, no dia seguinte, ao meio-dia, deu duas vezes volta ao jardim, mas não abriu o guarda-chuva. Adormeci-a pouco tempo depois, para acalmar uma agitação que se tornava cada vez maior. Suas primeiras palavras foram estas:

– Por que me fizestes caminhar tanto em volta do jardim?... Eu tinha um ar estúpido... Ainda se tivesse estado o tempo como ontem, por exemplo... mas hoje terei parecido imensamente ridícula.

Nesse dia o tempo estava magnífico, ao passo que na véspera chovera muito; ela não quisera abrir o guarda-chuva por medo de parecer ridícula.

Ainda outra experiência.

Refere o Dr. Dussart que ele dava cada dia à sua magnetizada, antes de a deixar, a ordem de dormir até o dia seguinte a determinada hora.

Um dia, diz ele, esqueci esta precaução e já estava a 700 metros de distância, quando me apercebi disso. Não podendo volver para trás, considerei que a minha ordem talvez fosse ouvida mau grado a distância, pois que a 1 ou 2 metros uma ordem mental era executada. Em conseqüência, formulo a ordem de dormir até o dia seguinte às 8 horas e prossigo meu caminho. No dia seguinte chego às 7:30, a doente dormia.

– Qual o motivo pelo qual ainda dormis?

– Mas, senhor, eu vos obedeço.

– Estais enganada, eu me retirei sem vos dar ordem alguma.

– É verdade; porém, cinco minutos depois ouvi perfeitamente dizerdes que eu dormisse até às 8 horas.

Esta última hora ordinariamente era a que eu indicava. É possível que o hábito tenha sido a causa de uma ilusão e que não houve aí mais do que simples coincidência. Para ter o coração tranqüilo e não deixar margem a dúvida alguma, ordenei à doente que dormisse até receber ordem de despertar.

Durante o dia, tendo encontrado um intervalo disponível, resolvi completar a experiência. Parto de minha casa (7 quilômetros de distância) dando a ordem de despertar. Verifico que são 2 horas. Chego e encontro a doente acordada; os parentes, segundo recomendação minha, haviam registrado a hora exata do despertar. Era rigorosamente aquela que eu havia determinado. Essa experiência, várias vezes repetida em horas diferentes, teve sempre o mesmo resultado.

Eis aqui o que parecerá mais extraordinário ainda:

A 1º de janeiro suspendi as minhas visitas e cessei toda a relação com a família. Não ouvira mais falar a seu respeito, quando, a 12, excursionando em uma direção oposta e achando-me a 10 quilômetros da doente, comecei a refletir se me seria ainda possível, mau grado a distância, à cessação de todas as relações e à intervenção de uma terceira pessoa (o pai magnetizando de agora em diante sua filha), fazer-me obedecer. Proíbo à doente de se deixar adormecer. Cerca de meia hora depois, considerando que, se porventura fosse eu obedecido, poderia isso causar prejuízo a esta infeliz moça, suspendo a proibição e deixo de pensar nisso. Fiquei imensamente surpreendido quando, no dia seguinte, às 6 horas da manhã, vejo chegar em minha casa um expresso trazendo uma carta do pai da Srta. J. Dizia-me este que na véspera, 12, às 10 horas da manhã, não tinha ele conseguido adormecer sua filha senão após uma luta prolongada e muito dolorosa. A doente, uma vez adormecida, declarara que, se havia resistido, fora devido à minha ordem e que só adormecera quando eu o tinha permitido. Essas declarações tinham sido feitas em presença de testemunhas que, a pedido do pai, assinaram as atas que as continham.

Torna-se, portanto, provável que, com um conhecimento exato das condições do fenômeno, poderá chegar-se a comunicar a distância pensamentos inteiros, como se faz hoje pelo telefone.74

Refere o Dr. Charles Richet que, estando a almoçar com seus colegas, na sala dos enfermeiros, seu confrade Landouzy, então, como ele, interno no Hospital Beaujou, achando-se presente, afirmou que podia adormecer uma doente a distância e fazê-la vir à sala de enfermeiros unicamente por um ato de sua vontade. Ninguém tendo vindo, ao cabo de dez minutos considerou-se fracassada a experiência. “Em realidade – escreve o experimentador –, ela não havia fracassado, porquanto algum tempo depois vieram prevenir-me de que a doente passeava nos corredores adormecida, procurando falar-me e não me encontrando; e, com efeito, isso era verdade, sem que eu pudesse obter de sua parte outra resposta para explicar o seu sono e esse passeio desorientado, senão que ela desejava falar-me.”

Todas essas experiências demonstram a ação psíquica a distância. Tais fatos tão curiosos da ação da vontade nas experiências de magnetismo foram observados centenas, milhares de vezes.

Eis aqui, por exemplo, um caso de sono sonambúlico provocado pelo Sr. E. Boirac, reitor da Academia de Grenoble.

Em setembro de 1892 – escreve ele –, estava eu instalado com todos os meus, para passar aí as férias, na pequena cidade de d’Amélie-les-Bains.

Falava-se muito das sessões dadas por um moço do lugar, conhecido pelo nome de Dockman. Tive curiosidade de assistir a essas sessões. Esse moço, contando cerca de 20 anos, moreno e magro, muito nervoso, fora magnetizado, três anos antes, por um médico da Marinha e sentira despertar-lhe a vocação de ledor de pensamentos. Todo mundo conhece esse gênero de espetáculo em que um dos assistentes consegue, com maior ou menor felicidade, transmitir sua vontade sem palavras, sem gestos e mesmo sem contato, por simples esforço mental.

A perspicácia do jovem montanhês sempre me pareceu deficiente e ele próprio confessou-me que procurava por todos os meios adivinhar as intenções do seu condutor.

– Tereis necessidade – disse-lhe eu, rindo – de vos deixardes de novo hipnotizar para recuperar vossa antiga lucidez; se o consentirdes, estou inteiramente às vossas ordens para prestar-vos esse serviço.

Dockman pareceu surpreso e um pouco chocado com a minha proposta:

– Sou eu que faço dormir os outros – disse ele –; ninguém me pode mais adormecer.

Entretanto, alguns dias mais tarde, provavelmente para agradar ao prefeito da cidade, que parecia ter o desejo de assistir a uma sessão de hipnotismo, Dockman consentiu em se deixar hipnotizar. Assim, pois, uma noite, pelas 10 horas, perante um círculo de quatro ou cinco pessoas, tomei-lhe as mãos e dirigi o meu olhar com fixidez para os seus olhos; ao cabo de alguns minutos, ei-lo adormecido, se entretanto se pode chamar sono ao estado comatoso cataléptico em que parecia mergulhado. Todo o seu corpo se inteiriçou: seus maxilares cerraram-se rigidamente e com grande custo obtive breves respostas às minhas perguntas. O despertar produziu-se com extrema lentidão e um segundo sono apresenta as mesmas características. Dentro em pouco o paciente se torna desinteressante e não vejo grande coisa a tirar dele.

No dia seguinte, segundo os meus hábitos, dirigi-me ao cassino, cerca de uma hora da tarde, para tomar um café. Sentei-me na terrasse e, ao mesmo tempo em que saboreava o café que me acabavam de servir, deixei meus olhos vaguearem por baixo do lugar em que me encontrava. Dockman estava sentado no jardim, com um amigo que tinha em mãos um jornal; voltava-me quase as costas, ocupando-se em enrolar um cigarro. Como é que me veio a idéia de ensaiar a experiência cujo relato se vai ler? Não sei, mas enfim essa idéia me veio e com todas as forças da minha vontade eu a pus imediatamente em execução. Concentrado, isolado neste único pensamento, olhando fixamente na direção de Dockman, ordenei-lhe que cessasse todo movimento e adormecesse. Em momento algum pareceu aperceber-se ele de meu olhar, mas, com muita rapidez, viu afrouxarem-se os seus gestos e tornarem-se fixos os seus olhos. Com o cigarro inacabado entre as mãos, fechou ele de repente as pálpebras e ficou imóvel, semelhante a uma estátua. Seu amigo levanta a cabeça, percebe-o nesse estado, interpela-o e não obtém resposta. Uma cantora, sentada à mesa próxima, amedronta-se e já começa a gritar. Apresso-me em descer e, dentro de alguns segundos, soprando-lhe vivamente nos olhos, desperto meu improvisado sujet que não pode mesmo saber o que lhe acaba de suceder.

Tentara eu essa experiência por acaso, de forma alguma contando com êxito e eu próprio estava estupefato pelo resultado. No dia seguinte, ofereceu-se-me ocasião de renová-la. Chego ao Cassino mais ou menos à 1:30. Desta vez, dockman estava sentado na terrasse, sozinho, a uma mesa onde escrevia uma carta, curvado sobre o papel, quase tocando-o com o nariz. Minha mesa estava a 5 ou 6 metros da sua; entre mim e ele achava-se uma turma de jogadores de cartas. De novo me concentrei em uma tensão nervosa que me fazia de algum modo vibrar da cabeça aos pés, e ordenei com todas as minhas forças a Dockman, ao mesmo tempo em que lhe dirigia o olhar com firmeza, que cessasse de escrever e adormecesse. A ação foi menos rápida do que na véspera. Dir-se-ia que o sujet lutava contra a minha vontade. Após um ou dois minutos, deu evidentes sinais de crispação. A pena ficou em suspenso, como se ele procurasse em vão as palavras; fazia com a mão o gesto de alguém que afasta uma influência obsediante; depois rasgou a carta começada e se pôs a escrever outra; dentro em pouco, porém, sua pena ficou pregada no papel e ele adormeceu nessa posição. Aproximei-me dele, juntamente com diversos dos assistentes que interromperam o jogo; todo o seu corpo estava contraído, duro como um pedaço de madeira; debalde procuraram dobrar um de seus braços. Não perdeu sua rigidez senão sob a ação dos meus passes. Quando recuperou o uso de seus sentidos, Dockman pediu-me para não repetir essas experiências; queixava-se de estar muito fatigado devido à da véspera. Assegurou-me, por outro lado, que adormecera as duas vezes sem a menor desconfiança de que esse brusco sono lhe fosse provocado por mim ou por qualquer outra pessoa.

Essa experiência é muito significativa e nenhuma dúvida pode deixar, tampouco, sobre a ação a distância.

O Dr. Dariex, diretor dos Annales des Sciences Psychiques, publicou as seguintes experiências sobre a transmissão mental, feitas por um dos seus amigos que deseja conservar-se incógnito “em virtude da situação importante que ocupa”, o que lamentamos.

De 7 de janeiro a 11 de novembro de 1887, Maria é muito freqüentemente adormecida, a fim de ser desembaraçada, por sugestão, de intoleráveis dores de cabeça e de uma sensação de bola que lhe toma todo o esôfago. Ela é assediada de indisposições histeriformes, verdadeiro Proteu, que é necessário expelir sem cessar por meio de sugestões apropriadas. No mais, o seu estado geral de saúde é excelente, porquanto, nos 17 anos que tenho sob as minhas vistas essa moça, jamais a vi abandonar um só dia suas ocupações por causa de qualquer outra indisposição.

Durante as numerosas sessões de sugestão, ensaiara eu em vão a transmissão mental; até 11 de novembro não obtive traço sequer de execução das ordens dadas: Maria tinha o pensamento incessantemente desperto, sonhava e não obedecia senão a ordens verbais.

Uma noite, enquanto escrevia as minhas notas a respeito de Maria, que deixara dormindo atrás de mim, teve ela uma alucinação espontânea, muito penosa, e desfez-se em lágrimas; acalmei-a com dificuldade e, a fim de evitar esses sonhos, proibi-lhe de pensar fosse no que fosse, quando eu a deixasse dormir. Depois, refletindo que todos os meus insucessos, a propósito da transmissão mental, bem podiam ser devido a esse estado “poli-idéico” do cérebro,75 insisto em minha sugestão e a formulo assim:

“Quando dormirdes e eu não vos falar, em nada absolutamente pensareis; vosso cérebro ficará vazio de pensamentos, para que coisa alguma se oponha à recepção dos meus.”

Repito quatro vezes esta sugestão, de 11 de novembro a 4 de dezembro, dia em que pude constatar pela primeira vez a transmissão do pensamento.

Maria adormeceu, após um instante, caindo em sonambulismo “idéico” profundo; dou-lhe as costas e, sem um gesto ou ruído qualquer, lhe dou a seguinte ordem mental:

“Quando despertardes, ireis procurar um copo, nele derramareis algumas gotas de água de colônia, trazendo-o a mim em seguida.”

Ao despertar, ela se acha visivelmente preocupada, não pode estar parada e vem por fim colocar-se à minha frente e me diz:

– Ora pois! em que pensais? e que idéia pusestes em minha cabeça!

– Por que me falais assim?

– Porque a idéia que tenho não pode provir senão de vós, e eu não quero obedecer!

– Não obedeçais, se assim o quiserdes; mas exijo que me digais imediatamente o que pensais.

– Muito bem! cumpre-me ir buscar um copo, enchê-lo de água, com algumas gotas de água de colônia e trazê-lo a vós: é realmente ridículo!

A minha ordem havia sido, pois, perfeitamente compreendida, pela primeira vez. A partir desse momento, 6 de dezembro de 1887, até hoje (1893), salvo raríssimos dias, a transmissão mental, em estado de vigília ou de sono, é das mais nítidas. Não é perturbada senão em certas épocas, ou quando Maria tem desassossegos muito vivos.

A 10 de dezembro de 1887 escondi, às ocultas de Maria, um relógio parado, atrás dos livros, em minha biblioteca. Quando ela chega, faço-a adormecer e lhe dou a seguinte ordem mental:

“Vai buscar-me o relógio que está escondido atrás dos livros da biblioteca.”

Estou em minha poltrona, Maria por trás de mim e tomo o cuidado de não olhar para o lado onde está o objeto escondido. Ela deixa bruscamente sua poltrona, vai direto à biblioteca, não pode, porém, abri-la; movimentos regulares enérgicos se manifestam todas as vezes que ela põe a mão na porta e sobretudo na vidraça.

– Lá está! lá está! estou certa disso; mas este vidro queima-me!

Decido-me eu próprio a abrir a porta; Maria precipita-se sobre os meus livros, retira-os e segura o relógio, mostrando-se muito alegre por havê-lo encontrado.

Experiências análogas foram feitas, com sugestões enviadas por um dos nossos amigos, previamente escritas sem a presença do sujet, e foi completo o êxito; mas se a pessoa que me envia a sugestão lhe é desconhecida, recusa-se ela a obedecer, dizendo que não sou eu que ordeno.

Certo dia chega ao meu gabinete um amigo comum, enquanto Maria está adormecida, e me passa o seguinte bilhete: “Dai-lhe a ordem mental de trazer-me um cigarro à antecâmara, acendê-lo e oferecê-lo a mim.”

Ela está sentada por trás de mim; sem deixar a minha poltrona, voltando-lhe sempre as costas, faço a sugestão mental. O meu amigo toma de um livro e faz menção de ler, vigiando-a sempre.

– Quanto me aborreceis! Como quereis que eu me levante?

– (Sugestão mental.) Podeis muito bem levantar-vos; descruzai os pés.

Depois de algum esforço, ela consegue descruzar os pés (que sempre os cruza sob a cadeira), levanta-se e vai, lentamente e tateando, em direção a uma caixa de charutos, toca-os e em seguida põe-se a rir.

– Ah! não! estou enganada, não é isto que devo fazer.

E ela vai direto ao compartimento próximo, não hesitando mais, toma um cigarro e apresenta-o ao nosso amigo.

– (Ordem mental.) Há outra coisa a fazer: acendei-o imediatamente.

Maria toma um fósforo, não o pode, porém, acender facilmente, detenho-a e faço novamente sentar-se em sua poltrona.

Aí está, igualmente, uma prova evidente de transmissão de pensamento.

Tive ocasião de fazer algumas experiências pessoais de transmissão de pensamento ou sugestão mental, no mês de janeiro de 1899, com Ninof, “o ledor de pensamentos”, na residência do Sr. Clóvis Hugues, e constatei que:

1º) para que ele adivinhe alguma coisa, necessário é que a pessoa que o interroga conheça o de que se trata;

2º) é preciso que essa pessoa lhe dê a ordem mentalmente, mas com energia; por vezes ele obedece, rigorosamente, nos menores detalhes, à ordem mentalmente dada, se essa ordem é simples e precisa;

3º) a transmissão do pensamento se opera de cérebro a cérebro, sem nenhum contato, sem nenhum sinal, a um metro ou dois de distância, somente pela concentração do pensamento de quem dá a ordem e sem nenhum compadrio;

4º) não são raros os insucessos e parecem devidos a falhas na relação perfeita que deve existir entre o cérebro do ordenador e o do operador, à fadiga deste, a correntes contrárias.

Exemplo: formulo o pensamento de que Ninof deve ir buscar uma fotografia que se acha ao lado de várias outras, no fim do salão, e levá-la a um senhor que não conheço e que indico como sendo a sexta pessoa sentada, a partir daquele ponto, entre uma trintena de assistentes. Esta ordem mental é executada pontualmente e sem hesitação alguma.

O Sr. Clóvis Hugues formula o pensamento de que ele deve ir procurar uma pequena gravura representando Michelet, colocada sobre o piano, entre vários outros objetos, e colocá-la diante de uma estatueta de Joana d’Arc, no lado oposto do salão. A ordem é executada sem hesitação.

Era a primeira vez que Ninof vinha nesta casa, onde chegou sem companheiro algum, sozinho. Tem os olhos vendados por um guardanapo que se lhe passa em torno da cabeça, para isolar-se de toda distração, diz ele. Quatro fios de cabelo tomados pelo Sr. Ad. Brisson a quatro pessoas diferentes foram achados onde tinham sido escondidos e postos pelo operador nas cabeças das quais foram destacados e no próprio lugar.

Até o momento dessa experiência, não tinha eu visto absolutamente nada mais do que compadrios. Nas leituras de pensamentos e buscas de objetos, feitos seriamente, constatara que são movimentos inconscientes da mão que guiam o adivinho. No caso em apreço, não se tem contato algum com o operador, e mesmo na hipótese de poder ele ver por baixo da venda, nada explicaria esta suposição, porquanto se conservam os assistentes por trás dele.

Dentre os 1.130 casos psíquicos recebidos e admitidos à discussão, na época do meu inquérito, de que mais acima falei, e dos quais já citei os principais relativos às manifestações dos moribundos, devo assinalar várias cartas muito interessantes, concernentes ao assunto especial deste capítulo: comunicações psíquicas, transmissões mentais entre os vivos. Destacarei algumas delas desse dossier que é verdadeiramente um variado acervo. Elas são instrutivas.




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