Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos


V Das alucinações propriamente ditas



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V

Das alucinações propriamente ditas


Incidiriam no mais completo erro os que supusessem, tendo em vista os precedentes capítulos, que não admitimos as alucinações e que lhes não concedemos a parte que lhes pertence. Mas pensamos que há distinções e definições urgentes a estabelecer.

Existem alucinações reais, isto é, ilusões, erros, sensações falsas. Podem umas ser experimentadas por pessoas nervosas, fatigadas, doentes, loucas; outras por indivíduos perfeitamente sãos de corpo e de espírito. Outrora os médicos apenas admitiam as primeiras – o que era um erro grosseiro, produto da ignorância.

As alucinações são ilusões do cérebro e do pensamento, e importa não lhes dar outra significação e nem supor, por exemplo, como poderia fazê-lo pensar o título freqüentemente empregado de alucinações verídicas, que possam existir alucinações verdadeiras. Desde o momento em que a impressão experimentada é considerada como real, como o resultado de uma causa exterior, agindo sobre o cérebro ou sobre o espírito, perde ela o seu caráter alucinatório e entra na categoria dos fatos. Não é mais uma “alucinação”. Esta distinção é, no caso, de capital importância. A dificuldade para nós está precisamente em distinguir uma parte que constitui ilusão, erro, da que é realidade, no detalhe assaz confuso desses fenômenos.

O Dicionário da Academia define a alucinação como “erro, ilusão de uma pessoa cujas percepções deixam de ser conformes com a realidade”. É vago e confuso, sendo que essa definição se aplica a outras coisas que não somente às alucinações. Não se pode admitir semelhante definição. Littré diz: “percepção de sensações sem objeto algum exterior que as origine”. É um pouco mais claro e mais preciso. Em uma memória sobre a alucinação visual, escreve o Dr. Max Simon: “A alucinação consiste em uma percepção sensível sem objeto exterior que lhe sirva de origem”.

Esta definição, como a de Littré, é precisamente a que corresponde à idéia geral, e nós a adotaremos. O essencial é estar de acordo em um ponto, isto é, que a alucinação é uma sensação essencialmente subjetiva e errônea, uma percepção falsa.

Brierre de Boismont escreveu sobre as alucinações 51 uma das mais interessantes obras, tornada clássica, na qual o médico alienista desempenha ainda o mais importante papel, mas onde ele já toma o cuidado, contudo, de constatar que nem todas as alucinações são vizinhas da loucura, fazendo notar que, de um lado, a história do Cristianismo está cheia de casos análogos, sobretudo em seus primeiros tempos, e que, por outro lado, mais de uma alucinação corresponde a um estado perfeitamente são do cérebro. Esse livro pode ser considerado como um dos primeiros esforços do pensamento científico independente contra a teoria patológica clássica e para estabelecer que em certos casos a alucinação pode ser considerada como um fenômeno puramente fisiológico. O autor, aliás, como partidário declarado do princípio da dualidade humana, rejeita a opinião que outra coisa não quer ver na loucura mais do que uma nevrose; e na razão, mais do que o produto de um ato fisiológico material. “As idéias e as sensações são de ordens diferentes. Não podem os fatos psicológicos ser postos sobre a mesma linha dos fatos sensíveis. O cérebro limita-se a ser a sede das operações intelectuais, e não o seu criador.” Brierre de Boismont pode ser considerado como o precursor das pesquisas atuais sobre os problemas psíquicos, ainda que a palavra alucinação tenha conservado, depois do aparecimento desse grande tratado, o seu aspecto patológico e médico.

Cumpre dar aqui alguns exemplos das diversas espécies de alucinações.

A alucinação é um sonho acordado. Os sonhos também produzem alucinações que por vezes oferecem todos os caracteres da vida real.

As alucinações da loucura, as excentricidades da alienação mental, são tão numerosas, tão variadas e tão conhecidas que seria supérfluo fazer-lhes referências.

As obras de Medicina, sobre as doenças mentais, estão cheias dessas referências, todos podendo facilmente conhecê-las. Depois, nada elas têm de comum com os fatos de que nos ocupamos. Procuremos antes alguns casos bem observados e bem descritos pelos próprios pacientes. Tomaremos o segundo à obra do Dr. Ferriar, de Manchester, que o soube do escritor Nicolaï, de Berlim.52 É caso muito antigo, mas bem típico.

“Durante os últimos dez meses do ano de 1790 – conta esse acadêmico –, passara eu por sofrimentos que me afetaram profundamente. O Dr. Delle, que costumava tirar-me o sangue duas vezes por ano, julgara conveniente não praticar desta vez mais do que uma sangria. A 24 de fevereiro de 1791, em seguida a uma viva altercação, percebi de repente, na distância de dez passos, um semblante de morto; perguntei a minha mulher se ela não o percebia; minha pergunta alarmou-a muito e ela apressou-se em mandar chamar um médico: a aparição durou 8 minutos. Às 4 horas da tarde, reproduziu-se a mesma visão, estando eu, então, a sós. Atormentado por este acidente, dirigi-me ao apartamento de minha mulher, para onde a visão me acompanhou. Às 10 horas, distingui diversos vultos que não tinham relação com o primeiro.

Passada a primeira emoção, contemplei os fantasmas, mas, tomando-os pelo que eles eram realmente: as conseqüências de uma indisposição. Penetrado dessa idéia, observei-os com o maior cuidado, procurando saber por que associação de idéias se apresentavam estas formas à minha imaginação; não lhes pude, entretanto, achar ligação com as minhas ocupações, meus pensamentos, meus trabalhos. No dia seguinte o vulto do morto desapareceu, mas foi substituído por grande número de outros vultos, algumas vezes representando amigos, mais comumente, porém, estranhos. As pessoas de minha convivência não faziam parte dessas aparições, quase exclusivamente compostas de indivíduos que residiam distante mais ou menos algumas léguas. Experimentei reproduzir à vontade as pessoas do meu conhecimento por uma objetividade intensa de suas fisionomias, mas ainda que visse distintamente em meu espírito duas ou três dentre elas, não pude conseguir tornar exterior a imagem interior, mesmo que antes eu as tivesse visto involuntariamente desta maneira. Minha disposição de espírito era de molde a permitir-me não confundir essas falsas percepções com a realidade.

Tais visões eram tão claras e tão distintas na solidão, como achando-me eu acompanhado, quer de dia quer à noite; tanto na rua como em casa. Quando eu fechava os olhos, elas desapareciam algumas vezes, ainda que em certos casos se conservassem visíveis; mas, desde que os abrisse, reapareciam imediatamente. Em geral esses vultos, que pertenciam aos dois sexos, pareciam ligar mui pouca atenção uns aos outros e andavam com um ar atarefado, como se estivessem num mercado; em certos momentos, entretanto, dir-se-ia que executavam juntos seus afazeres. Por diversas vezes vi pessoas a cavalo, cães, pássaros. Nada havia de particular em seus olhos, em seus talhes, em suas vestes; esses vultos apenas pareciam um pouco mais pálidos que no estado natural.

Cerca de quatro semanas depois, o número dessas aparições aumentou; comecei a ouvi-las falar. Algumas vezes dirigiam-me a palavra; os seus discursos eram curtos e geralmente agradáveis. Em diferentes épocas, tomei-os por amigos ternos e sensíveis que procuravam amenizar meus padecimentos.

Ainda que meu espírito e meu corpo estivessem, nessa época, em estado assaz bom e que esses espectros se me tivessem tornado tão familiares que não me causavam mais inquietação, procurava, contudo, desembaraçar-me deles pelos meios convenientes. ficou decidido fazer-se-me uma aplicação de sanguessugas, o que efetivamente se praticou em 20 de abril de 1791, às onze horas da manhã. O cirurgião estava a sós comigo; durante a operação enchia-se meu quarto de figuras humanas de toda espécie. Continuou esta alucinação ininterruptamente até às 4:30, quando começava a minha digestão. Percebi que os movimentos desses fantasmas se tornavam mais lentos. Pouco depois começaram a empalidecer, e às 7 horas haviam adquirido uma cor branca; seus movimentos eram muito pouco rápidos, ainda que suas formas fossem tão distintas como dantes. Pouco a pouco tornaram-se mais vaporosos e pareceram confundir-se com o ar. Às 8 horas o quarto estava completamente desembaraçado desses visitantes fantásticos.

Depois dessa época, pareceu-me por duas ou três vezes que as citadas visões iam mostrar-se; nada, porém, de semelhante aconteceu.”

Eis aí um caso de alucinação real e incontestável. O autor analisou perfeitamente suas sensações e teve o cuidado de fazer notar que essa estupenda desordem de espírito se explicava pela influência dos pesares e pelas perturbações da circulação cerebral, que lhe eram conseqüentes.

Conta Walter Scott, em sua Demonologia, que um doente do eminente Dr. Grégory, tendo mandado chamar esse médico, descreveu-lhe nos seguintes termos seus singulares sofrimentos:

“Tenho por hábito – diz ele – jantar às 5 horas e, quando chegam precisamente as 6 horas, estou sujeito a uma visita fantástica. A porta do quarto, mesmo quando eu tenha tido a precaução de aferrolhá-la, abre-se de repente; uma velha feiticeira, semelhante a uma daquelas que assombravam as charnecas de Fores, entra com um ar ameaçador e irritante, aproxima-se de mim com as demonstrações de despeito e de indignação próprias para caracterizar as feiticeiras que visitavam Abdula nos contos orientais. Atira-se sobre mim tão bruscamente, que não posso evitá-la, e então me dá um golpe violento com a sua muleta; caio de minha cadeira sem sentidos e assim permaneço mais ou menos tempo. Todos os dias me vejo sob o poder dessa aparição. Tal o motivo surpreendente das minhas queixas.”

O doutor imediatamente lhe perguntou se ele convidara alguém para jantar em sua companhia, a fim de ser testemunha de semelhante visita. Respondeu que não. A natureza do mal de que se queixava era tão particular, devia-se tão naturalmente imputá-la a um desarranjo mental, que lhe havia sempre repugnado falar a respeito a quem quer que fosse.

– Então – diz o doutor –, se o permitis, jantarei hoje convosco na intimidade e veremos se a maldita mulher vem perturbar o nosso colóquio.

O doente, que esperava ser objeto de zombaria, em lugar de despertar compaixão, aceitou a proposta com alegria e gratidão. Jantaram os dois, e o Dr. Grégory, que desconfiava tratar-se de alguma enfermidade nervosa, empregou o encanto de sua conversação, uma das mais variadas e brilhantes, em cativar a atenção do seu hóspede e impedi-lo de pensar na aproximação da hora fatal. Conseguiu-o de um modo superior à sua expectativa.

Chegaram as 6 horas sem que se desse por isso. Mas, apenas haviam decorrido alguns minutos, e o monomaníaco gritou com voz transtornada:

– Lá está a feiticeira!

E, virando-se para trás em sua cadeira, perdeu os sentidos.

Este fantasma de muletas parece-se um tanto com o que a gente experimenta nos pesadelos; uma opressão, uma sufocação produzem por vezes imagens análogas no cérebro. Todo ruído súbito ouvido por quem dorme e que não é por ele imediatamente despertado, toda sensação análoga do tato é assimilada ao sonho e adaptada de maneira a ligar-se a ele e a entrar na corrente da idéia do sonho, qualquer que seja ela – e nada é mais notável do que essa rapidez com que a imaginação provê a explicação completa de tal interrupção, de acordo com a marcha das idéias expressas no sonho, mesmo nos casos em que lhe seja apenas concedido um momento para esta operação. Se, por exemplo, se sonha com um duelo, os sons que chegam são, em um abrir e fechar dos olhos, os da detonação das pistolas; se se trata no sonho de um orador pronunciando seu discurso, os sons se mudam em aplausos do auditório; se o que dorme percorre, por exemplo, ruínas, transformam-se os ruídos nos que produz a queda de uma porção de argamassa; em outras palavras, é adotado, durante o sono, um sistema explicativo com tal rapidez que, supondo ter sido o ruído imprevisto e brusco que despertou a pessoa que dormia, um chamado em alta voz, a explicação desse ruído é dada pela mesma pessoa, de um modo completo e perfeito à sua inteligência, antes que um segundo esforço da pessoa que procurava acordá-la tenha-a chamado ao mundo e às suas realidades.

A sucessão das nossas idéias no sono é tão rápida e tão intuitiva, que ela nos explica a visão de Maomet que teve tempo de subir ao sétimo céu antes que a jarra de água, caída no começo do êxtase, estivesse inteiramente esvaziada quando recuperou os sentidos.

Não tratemos, porém, aqui do sono e dos sonhos, que farão objeto de próximo capítulo especial. Ocupemo-nos, simplesmente, com as alucinações.

Existe um fenômeno, experimentado por grande número de pessoas e ao qual Alfredo Maury, com quem tenho diversas vezes conversado sobre o assunto, estava muito sujeito, que projeta grande claridade sobre o modo de produção dos sonhos: são as alucinações de que é precedido o sono ou acompanhado o despertar.

Tais imagens, tais sensações fantásticas se produzem no momento em que o sono nos empolga, ou quando ainda estamos imperfeitamente acordados. Constituem elas um gênero à parte de alucinações, às quais convém o epíteto de hipnagógicas, palavra derivada do grego: sono, que transporta, condutor, cuja reunião indica o momento em que a alucinação de ordinário se manifesta.

As pessoas que mais freqüentemente experimentam essas alucinações hipnagógicas são de uma constituição facilmente excitável e geralmente predispostas à hipertrofia do coração, à pericardite e às afecções cerebrais. Foi o que Alfredo Maury pôde confirmar por sua própria experiência.53 Escreve ele:

“Minhas alucinações são mais numerosas quando tenho – o que se passa comigo freqüentemente – uma disposição à congestão cerebral. Desde que eu esteja atacado de cefalalgia, desde que experimente dores nervosas nos olhos, nos ouvidos, no nariz, desde que sinta mal-estar no cérebro, assaltam-me as alucinações, apenas se me cerrem as pálpebras. Desse modo me explico porque também tenho estado sempre sujeito a essas alucinações quando viajo em diligência, após haver passado assim a noite, pois a falta de sono, o sono imperfeito ocasionam-me freqüentemente dores de cabeça. Um de meus primos, Gustavo L., que experimentava as mesmas alucinações, teve ocasião de fazer, no que lhe concerne, observações análogas.

“Quando à noite – diz ele – me entrego a um trabalho intenso, as alucinações não faltam jamais. Tendo, há alguns anos, passado dois dias consecutivos a traduzir uma longa passagem grega assaz difícil, vi, apenas recolhido ao leito, imagens tão multiplicadas e que se sucediam com tanta rapidez, que, presa de verdadeiro pavor, ergui-me da cama para dissipá-las. No campo, ao contrário, quando tenho o espírito calmo, não constato senão raramente o fenômeno.”

O café preto, o vinho de Champanha, que, mesmo tomados em mui pequena quantidade, provocam em mim insônias e cefalalgia, dispõem-me fortemente às visões hipnagógicas. Nestes casos, porém, não sobrevêm elas senão depois de longo tempo, quando o sono, em vão procurado durante várias horas, vai acabar por apossar-se de mim.

Em apoio das observações que tendem a considerar a congestão cerebral como uma das causas características das alucinações, direi que todos os que as experimentam, como eu, e que tenho encontrado, asseguram-me estar igualmente muito sujeitos às dores de cabeça, ao passo que várias pessoas, entre as quais citarei minha mãe, e às quais a cefalalgia é quase desconhecida, declararam-me não terem jamais visto essas imagens fantásticas.”

Mostra-nos esta observação que o fenômeno deve ligar-se a uma superexcitação do sistema nervoso e a uma tendência congestiva do cérebro.

A alucinação hipnagógica é um índice de que, durante o sono que se prepara, a atividade sensorial e cerebral será notavelmente enfraquecida. Com efeito, quando essas alucinações têm início, deixa o espírito de estar atento; não prossegue mais na ordem lógica e voluntária de suas idéias, de suas reflexões; abandona a si mesma sua imaginação e torna-se a testemunha passiva das criações que esta faz nascer e desaparecer incessantemente. Esta condição de não-atenção, de não-tensão intelectual é, no começo, necessária para a produção do fenômeno; explica também como este é um pródromo do sono. Isto porque, para que possamos entregar-nos a ele, é preciso que a inteligência, de alguma sorte, se retire, distenda as suas molas e se mantenha em um semi-estado de torpor. Ora, o começo desse estado é precisamente a condição necessária para o aparecimento dessa espécie de alucinações. A ausência da atenção pode ser o efeito quer da fadiga dos órgãos do pensamento, de sua falta de hábito de agir e de funcionar por muito tempo, quer da fadiga dos sentidos que se embotam momentaneamente, não conduzem mais as sensações ao cérebro e desde esse instante não fornecem mais ao espírito elementos, motivos de atividade. É da primeira dessas causas que resulta o sono, ao qual nos conduziu o devaneio que o precedeu. Cessando o espírito de estar atento, foi o sono gradualmente chegando. Tal a razão pela qual certas pessoas, pouco habituadas à meditação ou à atenção puramente mental, adormecem logo que procuram meditar ou apenas ler. Eis por que um discurso ou um livro fastidiosos provocam o sono: não estando a atenção suficientemente excitada pelo orador ou pelo interesse do livro, ela se retira e o sono não tarda a apoderar-se de nós.

Nesse estado de não-atenção, os sentidos não se acham ainda adormentados: o ouvido escuta, os membros sentem o que está em contato com eles, o olfato percebe os odores; entretanto sua aptidão para transmitir a sensação não é tão viva, tão nítida como em estado de vigília.

Quanto ao espírito, cessa ele de ter uma consciência clara do eu, torna-se de alguma sorte passivo, fixa-se inteiramente nos objetos que o impressionam; percebe, vê, ouve, mas sem saber que percebe, vê, escuta. Há nisso um mecanismo mental de natureza muito particular e em tudo semelhante ao do devaneio.

Mas desde que torna o espírito a brilhar, desde que a atenção se restabelece, retoma a consciência os seus direitos. Pode-se, pois, dizer com razão que no estado intermediário entre a vigília e o sono torna-se o espírito joguete das imagens evocadas pela imaginação, que estas o avassalam inteiramente, conduzem-no para onde vão, arrebatam-no como que para fora de si mesmo, sem lhe permitirem no momento refletir sobre o que faz, ainda que em seguida, voltando a si, possa perfeitamente recordar-se do que experimentou.

Certa vez, sob o império de uma fome devida a dieta que se impôs por motivo de saúde, viu o Sr. Maury, no estado intermediário entre a vigília e o sono, um prato de comida sustido por uma mão armada de garfo. Adormecido, alguns minutos depois, encontrou-se ele em uma mesa bem servida e ouviu, em sonho, o ruído dos talheres dos convivas.

Não há mais do que imagens mais ou menos estranhas, sons, sensações de gosto de odor, de tato que nos assaltam no momento em que somos vencidos pelo sono; por vezes surgem de repente no cérebro palavras, frases, quando adormecemos – e isso sem que sejam de modo algum provocadas. São verdadeiras alucinações do pensamento, pois as palavras soam ao ouvido interno como se estranha voz as articulasse.

Do mesmo modo se produz, portanto, o fenômeno, quer se trate de um som, quer de uma idéia. O cérebro é impressionado fortemente por uma sensação, por uma idéia; esta impressão reproduz-se mais tarde espontaneamente, por uma como ressonância da ação cerebral, que dá origem quer a uma alucinação hipnagógica, quer a um sonho. Estas repercussões das idéias, esta reaparição de imagens anteriormente percebidas pelo espírito, são freqüentemente independentes das últimas preocupações deste. Elas resultam nesse caso de movimentos interiores do cérebro, correlatos aos do resto do organismo, onde se produzem por efeito de encadeamento com outras imagens que superexcitaram o espírito, do mesmo modo que isso se produz com relação às nossas idéias logo que nos abandonamos aos braços do sonho, que deixamos nossa imaginação divagar.

Certas aparições, vistas em sonho, podem igualmente não ser mais do que alucinações causadas pela revivescência de uma lembrança esvaecida, latente na memória.

Pode servir de exemplo a seguinte observação de Alfredo Maury:54

“Passei os meus primeiros anos em Meaux, e freqüentemente me dirigia a uma aldeia próxima, chamada Trilport, situada sobre o Marne, onde meu pai construía uma ponte. Certa noite, vejo-me em sonho transportado aos dias da minha infância e brincando nessa aldeia de Trilport; avisto, envergando uma espécie de uniforme, um homem ao qual me dirijo, perguntando-lhe o nome. Informa-me que se chama C., que é o guarda do porto, desaparece depois para dar lugar a outras personagens.

Desperto em sobressalto, com o nome de C. na cabeça. Era isso uma pura imaginação, ou havia mesmo em Trilport um guarda do portão com o nome de C.? Eu o ignorava, não tendo nenhuma lembrança de semelhante nome. Interrogo, algum tempo depois, uma velha empregada, outrora ao serviço de meu pai e que muitas vezes me levava a Trilport. Pergunto-lhe se ela se lembra de um indivíduo com o nome de C. e ela me responde logo que era um guarda do porto do Marne quando meu pai construía sua ponte. Com toda a certeza eu o teria visto, como a empregada, mas a recordação dele desvanecera-se. O sonho, evocando-o, tinha-me como que revelado o que eu ignorava.”

É ainda esse um tipo perfeito de alucinação propriamente dita. Precisamos estar em guarda contra as imagens latentes, as recordações riscadas da memória e o inconsciente. Há mais de uma impressão desse gênero nas narrativas que me foram endereçadas.55 Publicá-las aqui seria inútil.

Não será, entretanto, destituída de interesse a menção dos quatro casos seguintes:

(Carta 388)

“Há cerca de um ano, achando-me nesse estado intermediário que se segue imediatamente ao despertar e no qual não te tem ainda recuperado completamente os sentidos, vi muito nitidamente, e isso na obscuridade quase completa (eram 5 horas da manhã), uma forma humana que se conservava imóvel à distância de um metro diante de mim.

Durou o fenômeno alguns segundos, depois a imagem se desvaneceu, para reaparecer após um momento, com os mesmos traços apresentados da primeira vez. Não reconheci pessoa alguma nessa forma humana e essa talvez seja a razão pela qual não constatei coincidência com uma morte.

Há alguns meses, nas mesmas circunstâncias, apareceu-me uma nova figura, igualmente para mim desconhecida.

Devo acrescentar que, anteriormente a essas manifestações, tive ocasião de assegurar-me de que, acordando-se subitamente em meio de um sonho, pode-se continuar a ver, em estado de vigília, durante um rápido instante, os objetos que se acabou de ver durante o sono.

Mas, nos dois casos que precedem, a visão começou a produzir-se posteriormente ao despertar e não foi, como neste último caso, a continuação de uma impressão experimentada durante o sonho.

Logo, há provavelmente aí uma distinção a estabelecer entre esses dois gêneros de fenômenos.



Ch. Tousche
Vice-secretário da Sociedade Científica Flammarion, de
Marselha, membro da Sociedade Astronômica de França
e da Sociedade de Altos Estudos Psíquicos de Marselha.”

Está provavelmente aí uma alucinação hipnagógica.


(Carta 327)

“Tinha eu 12 anos. Uma manhã, cerca das 7 horas (não me lembro da época do ano, mas já estava claro a essa hora), achava-me eu na cama e a sós em casa; um tio, que dormia no mesmo apartamento, levantara-se pelo menos uma hora antes, para trabalhar (era ele ferrador). Perto do leito achava-se uma mesa redonda que tocava a alcova; sobre a mesa, alguns objetos, notadamente as minhas roupas.

No momento em que, despertando, abri os olhos, vi, perto da mesa e fazendo-me frente, um homem que parecia estar dando o laço na gravata.

Tornei imediatamente a fechar os olhos, retendo a respiração; depois, alguns instantes depois – talvez meio minuto – sendo a curiosidade mais forte do que o medo, reabri os olhos e vi o mesmo homem, que contornava a mesa para passar entre ela e a alcova. De novo fechei os olhos e, quando os reabri, não vi mais nada.

Esse homem passava entre a mesa e a alcova e, entretanto, a mesa tocava a alcova. Não ouvi, de resto, ruído algum (nem de passos, nem outro qualquer, mesmo ligeiro.) Ele parecia não reparar em mim.

Não me recordo dos traços de seu rosto, que me eram desconhecidos. Essa aparição não coincidiu com a morte de pessoa alguma, conhecida minha.



G. Lamy
Rua Richelandière, 98, em Saint Etienne (Loire).”

Sem dúvida, um caso análogo.


(Carta 393)

“Há cerca de 2 meses, estando há alguns instantes deitado e não ainda adormecido, experimentei de repente a sensação de um pesado corpo caindo sobre as minhas pernas.

Retirei a cabeça de sob as cobertas e distingui muito nitidamente uma criança enfaixada que me olhava sorrindo. Aterrado por essa aparição, suspendo vivamente meu braço e o arrojo brutalmente em sua direção. A criança salta abaixo do leito e desaparece. Eu estava perfeitamente acordado. Iluminando a Lua suficientemente o meu quarto para se poder distinguir os objetos, percebi perfeitamente a visão.

Demais, achando-se o meu apartamento bem fechado, nenhum animal poderia aí penetrar para saltar sobre o meu leito. E em seguida me certifiquei, pela manhã, que estava tudo em ordem. Acrescento, como informação complementar, que meu espírito foi conduzido instintivamente para meu pequeno sobrinho, então com a idade de 3 meses, e que, graças a Deus, passa maravilhosamente bem.

J. M. (Manasque).”

São esses ainda aspectos alucinatórios.


(Carta 473)

“Não há mais de 15 dias, tive, à noite, estando em minha cama perfeitamente acordado e com os olhos bem abertos, a impressão de ver um ser humano. Durou essa impressão mais de um minuto; fez-me ela o efeito de um medalhão representando um busto de mulher tão grande quanto o natural, deslocando-se como o faria uma projeção luminosa, diminuindo de intensidade, mudando de forma.

Durante esse minuto, tive tempo de reviver as minhas recordações, pensando em ser útil às vossas pesquisas.

Essa figura não despertou em mim lembrança alguma e pareceu-me totalmente desconhecida; não posso, por isso, saber se a aparição coincide com uma morte. Em todo caso esta não seria a de algum dos meus parentes.

Não acreditei em uma aparição, mas antes em uma aberração do sentido da vista.

Devo dizer que a obscuridade era completa no meu quarto e que distingui perfeitamente bem os traços da aparição.

Henriot
Veterinário em Chavanges (Aube).”

Deu-se no caso em apreço, sem dúvida alguma, igualmente uma espécie de semi-sonho alucinatório.

Os precedentes exemplos podem ser explicados pela teoria das alucinações. Muitos deles não deixam a menor dúvida. Somos tentados a colocar no mesmo plano todos os fatos de que nos ocupamos aqui – e é isso em geral o que se acredita. Um grande número de objeções, porém, opõe-se a esse modo de ver, desde que não nos contentemos com uma vista superficial e nos queiramos dar ao trabalho de analisar a fundo os fatos observados.

Alguns exemplos, parece-nos, poderiam ser classificados na categoria precedente. Assim, o caso de M. V. de Kerkhove (caso IV), que, estando no Texas, a fumar tranqüilamente em seu cachimbo, após o jantar, à hora do pôr do Sol, vê seu avô, que ficara na Bélgica, aparecer-lhe no vão de uma porta. O autor cochilava docemente após um bom jantar e achava-se nas condições de uma alucinação hipnagógica. Poder-se-ia admitir aí esse gênero de alucinações, se o seu avô não houvesse morrido justamente àquela hora. Por que uma alucinação nesse momento exato? Replicar-se-á que precisamente esta coincidência é que lhe dá notoriedade. Mas não. O autor jamais teve outra, e o mesmo acontece, em geral, em todas as narrativas. É muito raro que uma mesma pessoa tenha visto diversas aparições: geralmente não tem visto mais que uma, coincidindo com uma morte. O caso não é de forma alguma idêntico ao dos pressentimentos mais ou menos vagos, dos quais um, realizando-se por acaso, é mais notado do que os outros.

E o Sr. de Kerkhove não estava mais preocupado com a saúde de seu avô do que a Sra. Bloch quando viu, em Roma, seu sobrinho de 14 anos, que morria em Paris e que ela deixara bem disposto (caso III), nem do que a Sra. Berget, ouvindo, em Schlestadt, sua amiga, a religiosa, cantar no momento em que morria em um convento de Estrasburgo (caso VIII), ou do que a senhorita que, durante um jantar bastante divertido, vê aparecer sua mãe (caso XLIV), ou do que o Sr. Garling, encontrando, em pleno dia, numa estrada, o duplo de seu amigo Harrisson que morria de cólera (caso CLXXVII).

Os nossos 181 casos estão perfeitamente fora dessas explicações fisiológicas. Neles não há nenhuma das condições e associações de idéias comuns aos sonhos hipnagógicos.

Outra objeção: as datas precisas de morte conhecidas pelas aparições e por vezes em contradição com os documentos, como, por exemplo, no caso de Sra. Wheatcroft vendo seu marido, o capitão, morto a 14 de novembro, ao passo que mais tarde os papéis do Ministério da guerra traziam, por erro, a data de 15, que foi ulteriormente retificada (caso CLXVII). A explicação pela alucinação é de insuficiência notória. Ainda que, a respeito dos numerosos casos assinalados, possam existir algumas coincidências fortuitas, o conjunto não se explica por essa hipótese. Sem contradita, há alucinações reais e também coincidências meramente fortuitas; mas nem umas nem outras impedem que haja também manifestações telepáticas de moribundos.

Os três casos estão representados na série dos meus documentos.

Dentro em pouco, haveremos de constatar, além disso, que a ação psíquica de um espírito sobre outro, a distância, é um fato irrecusável.

Brierre de Boismont cita a história seguinte, que Ferriar, Hibbert e Abercrombie encaravam sob pontos de vista diferentes:

Um oficial do Exército inglês, ligado à minha família – diz Ferriar –, foi enviado, em serviço de guarnição, no meado do século passado, para lugar próximo da residência de um gentil-homem escocês, que dizia ser dotado da vista dupla. Um dia em que o oficial, que fizera conhecimento com ele, lia, para as senhoras presentes, uma comédia, o dono da casa, que passeava no apartamento, deteve-se de súbito e tomou o olhar de um inspirado. Tocou a campainha e ordenou a um criado que selasse um cavalo para ir imediatamente a um castelo vizinho a fim de informar-se da saúde da senhora desse castelo e, se a resposta fosse favorável, dirigir-se a um outro castelo para saber notícias de uma outra senhora, cujo nome citou.

O oficial fechou o livro e pediu ao seu hospedeiro que fizesse o favor de lhe dar uma explicação dessas ordens instantâneas. Este hesitou, mas acabou por confessar que lhe pareceu ter-se aberto a porta e viu ele entrar uma mulherzinha parecida com as duas senhoras designadas; esta aparição, segundo ele, era indício da morte súbita de qualquer pessoa de seu conhecimento.

Algumas horas depois, voltou o criado com a notícia de que uma das senhoras morrera de apoplexia no momento em que se verificou a aparição.

Em uma outra circunstância aconteceu que, tendo sido o mesmo senhor obrigado a guardar o leito, lia-lhe o oficial um livro qualquer, por uma noite de tempestade. Achava-se então no mar o barco de pesca. O velho gentleman, depois de haver demonstrado repetidamente muita inquietação a respeito dos tripulantes, gritou de repente:

O barco está perdido!

Como o sabeis? – perguntou-lhe o coronel.

– Vejo – respondeu o enfermo – dois tripulantes que transportam um terceiro afogado; escorre-lhes a água pelo corpo e o colocam perto de vossa cadeira.

No correr da noite voltaram os pescadores com o corpo de um dos marujos.

Ferriar, acrescenta B. de Boismont, atribui com razão esta visão às alucinações. Segundo Abercrombie, seria ela a reminiscência de um sonho esquecido. Pensamos que deve sobretudo ser relacionada às alucinações que se manifestam durante o êxtase. Seria mais simples confessar que a coisa é inexplicável.

Não estamos autorizados a levar à conta das alucinações todos os fatos inexplicados, este, entre mil outros:

Conta Cardan que durante sua estada em Pávia, observando por acaso suas mãos, ficou muito alarmado de perceber sobre o seu indicador direito um ponto vermelho. À tarde recebeu ele uma carta de seu genro, na qual lhe noticiava a prisão de seu filho e o desejo ardente que ele tinha de vê-lo em Milão, onde fora condenado à morte. Durante 53 dias continuou a marca a estender-se, até que atingiu a extremidade do dedo: era então vermelha como sangue. Tendo seu filho sido executado, a mancha logo diminuiu; no dia seguinte ao de sua morte ela havia desaparecido quase totalmente e dois dias depois não restava mais traço algum de tal mancha.56

Esse fato singular é igualmente classificado por Brierre de Boismont em o número das alucinações (observação 44). Por que razão? Uma ilusão da vista que dura 53 dias! E a coincidência? Ainda se pode, neste caso, negligenciá-la? O filho, condenado à morte, não agiu fisicamente sobre seu pai, por uma influência que não cessou a não ser por ocasião da morte?

Em sua excelente obra sobre o cérebro,57 Gratiolet inclui – também sem razão, segundo o nosso ver – as três narrativas seguintes na classe das alucinações:

O eminente químico, Sr. Chevreul, meditava um dia, sentado e curvado perto do fogão. Era em 1814, alguns dias antes da ocupação de Paris pelos aliados. Reinava uma inquietação universal. Em certo momento ele se ergue, volta-se e vê, entre as duas janelas da sacada do seu gabinete, uma forma pálida e branca, semelhante a um cone fortemente alongado que estivesse posto sobre uma esfera. Esta forma, assaz mal definida, aliás, estava imóvel, e enquanto o Sr. Chevreul a observava, sentia-se ele em um estado muito particular de agonia. Não experimentava nenhum terror moral e, entretanto, um grande tremor avassalava-o; em um dado instante voltou os olhos e cessou então de ver o fantasma; depois, volvendo-os para o mesmo lugar, aí o encontrou na mesma atitude. Esta prova foi repetida com o mesmo resultado. Fatigado por essa visão persistente, o sábio decidiu retirar-se para o seu quarto de dormir. Durante esse movimento, que o obrigava a passar por diante do fantasma, este desvaneceu-se.

Cerca de três meses depois, o Sr. Chevreul soube, muito tardiamente, da morte de um velho amigo que lhe legava, como recordação, sua biblioteca; essa triste notícia fora singularmente retardada pela dificuldade de comunicações nessa desgraçada época e, confrontando as datas, constatou ele, entre a visão e a hora da morte de seu amigo, uma espécie de coincidência.

– Se eu fosse supersticioso – dizia-me o Sr. Chevreul – teria podido crer em uma aparição real.58

Essa é precisamente a questão. Houve aparição ou alucinação?

Chevreul assinalou igualmente a Gratiolet o caso seguinte:

Um dos anatomistas, que ilustraram o fim do décimo oitavo século, X., estava cortando o cabelo. De súbito, volta-se e diz ao seu cabeleireiro:

– Por que me apertais o braço?

Este se desculpa e nega. Um momento depois, repetem-se a mesma observação e a mesma resposta. O cabeleireiro acaba afinal seu trabalho, renova suas negativas do modo mais formal e retira-se.

No dia seguinte, X. soube da morte de um de seus amigos. No momento exato em que ele sentiu que lhe apertavam o braço, esse infeliz se afogava. X. ficou abalado para o resto de sua vida por essa coincidência e tornou-se vítima, desde essa época, de terrores infantis, tanto que à noite se fazia acompanhar em seu quarto, onde ficava alguém perto dele até que adormecesse.59

No presente caso não fica, do mesmo modo, demonstrada a alucinação.

O terceiro fato de que fala Gratiolet foi-lhe igualmente contado por Chevreul:

Era ele ainda criança e jogava bolas em um quarto onde, alguns meses antes, morrera uma de suas tias.

Uma das bolas escapa-lhe e rola pela alcova; a criança precipita-se, mas, no momento em que se abaixa para apanhá-la, sente passar por sua cabeça um ligeiro sopro e um beijo é dado em sua face; ouve ele, ao mesmo tempo, murmurarem ao seu ouvido esta palavra: Adeus!

Gratiolet acrescenta: “É bem evidente que, neste caso, a alucinação desenvolveu-se sob a influência do princípio de associação de idéias.

Mas, não; de modo algum é evidente.

Eis um exemplo ainda muito notável, extraído das Alucinações, de B. de Boismont (observação 87):

A Srta. R., dotada de ótimo entendimento, religiosa sem carolice, morava, antes de ser casada, em casa de seu tio, médico célebre, membro do Instituto. Estava, então, separada de sua mãe, acometida, na província, de uma enfermidade bastante grave.

Certa noite essa jovem sonhou que a distinguia, em sua frente, pálida, desfigurada, prestes a soltar o último suspiro, e demonstrando sobretudo uma viva mágoa de não estar rodeada de seus filhos, um dos quais, cura de uma das paróquias de Paris, emigrara para a Espanha, estando outro em Paris. No mesmo instante ouviu chamarem-na diversas vezes por seu nome de batismo; viu, em seu sonho, as pessoas que rodeavam sua mãe, parecendo-lhe que ela chamava sua neta, do mesmo nome que o seu e a quem foram procurar no quarto vizinho; um sinal da doente fez-lhe ver que não se tratava da neta, mas de sua filha que morava em Paris e que ela desejava ver. O vulto exprimia a dor que experimentava por causa de sua ausência; de repente, seus traços se descompuseram, cobriram-se da palidez da morte; ela tombou sem vida no seu leito.

No dia seguinte a Srta. R., aproveitando-se da ausência de seu tio para pôr em ordem os papéis deste, nos quais, como muitos outros sábios, ele não gostava que se tocasse, encontrou uma carta que tinha sido atirada a um canto. Qual não foi a sua surpresa ao ler, nessa carta, todas as particularidades do seu sonho, que seu tio conservara em silêncio, por não querer produzir emoção muito forte sobre um espírito já tão vivamente impressionado.

Essas informações, acrescenta o autor, foram-nos dadas pela própria pessoa de quem se trata, na qual depositamos a maior confiança.60

Para honra de seu julgamento científico independente e esclarecido, Brierre de Boismont faz, sobre esse ponto, suas próprias reflexões:

“É conveniente, sem dúvida, mantermos aqui uma prudente reserva, e a explicação do sonho do ministro, de que fala Abercrombie, poderia, a rigor, ser invocada neste caso; diremos, porém, francamente que essas explicações estão longe de satisfazer-nos e que este assunto, de que nós nos temos muito ocupado, diz respeito aos mais profundos mistérios de nosso ser; se quiséssemos citar todos os nomes de personagens conhecidas, que ocupam alta posição na ciência e dispõem de excelente discernimento, de conhecimentos muito extensos, as quais tiveram advertências como essas e análogos pressentimentos, haveria aí matéria para mais de uma reflexão.”

Assim os fisiologistas já estavam prestes, há meio século, a incluir o desconhecido na teoria das alucinações. O leitor agora está inteirado do quadro e dos limites dessa teoria fisiológica e patológica. A alucinação não explica os fatos. É nosso dever agora procurar essa explicação.





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