Camille Flammarion Narracoes do Infinito



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I


Enquanto estava, havia pouco tempo ainda (mas não sei expressar esse tempo em rotações terrestres), ocupado, em meio de melancólica paisagem de Capela e no prólogo de uma noite transparente, a contemplar o céu estrelado, e nesse céu a estrela que é o vosso sol terreal, e na vizinhança dessa estrela o pequeno planeta azulado que é a vossa pátria; enquanto observava uma das cenas da minha primeira infância, minha jovem mãe, sentada no meio de um jardim, trazendo em seus braços uma criança (meu irmão) e tendo ao lado outra criança que não contava ainda mais de duas primaveras (minha irmã), e um rapazinho com o dobro de idade desta (eu); enquanto eu me via nessa idade em que o homem não tem ainda consciência da vida intelectual, e traz sem embargo disso na fronte o gérmen da sua vida inteira; enquanto pensava na singular realidade que me mostrava a mim mesmo no início da minha carreira terreal, sentia a atenção desviada do vosso planeta por um poder superior, e meus olhares dirigirem-se a um outro ponto do céu, que me pareceu ligado à Terra e à minha carreira nesse planeta por algum liame oculto. Não pude evitar ficasse minha vista presa a esse novo ponto do céu: uma potência magnética a acorrentava. Várias vezes ensaiei retirar dali meu olhar e reconduzi-lo à Terra (que tanto estimo), mas, obstinadamente, voltava à estrela desconhecida.

Essa estrela, na qual a minha visão buscava, por assim dizer, instintivamente adivinhar alguma coisa, faz parte da constelação da Virgem, asterismo cuja forma varia um pouco, visto de Capela. É uma estrela dupla, isto é, a associação de dois sóis, um de brancura argêntea, outro amarelo-ouro vivo, que giram em torno mútuo, numa revolução de sete quartos de século. Vê-se essa estrela a olho nu, da Terra, e está inscrita sob a letra Gama (grega) da constelação da Virgem. Em volta de cada um dos sóis que a constituem, há um sistema planetário. Minha vista fixou-se sobre um dos planetas do sol de ouro.



Nesse planeta existem vegetação e animais, à semelhança do que ocorre na Terra; suas formas se aproximam das terrestres, posto que no fundo os organismos estejam aclimados em modo bem diferente. Há um reino animal análogo ao vosso; peixes nos respectivos mares e quadrúpedes na sua atmosfera, onde os seres humanos voam, naturalmente, em razão da densidade atmosférica e do fraco peso. Os homens desse planeta apresentam aproximadamente a conformação humana terreal. Embora o crânio seja despido de cabeleira; tenham nas mãos três polegares oposíveis, grandes e finos, em lugar de cinco dedos, e três outros no calcanhar, ao invés de nas palma dos pés; as extremidades dos braços e das pernas flexíveis qual se fossem de borracha; dois olhos, nariz e boca, o que torna suas fisionomias parecidas às dos terráqueos. Não possuem duas orelhas abertas lateralmente à cabeça, mas apenas uma, em forma de pavilhão cônico, instalado na parte superior do crânio, à guisa de pequenino chapéu. Vivem em sociedade e não se exibem nus. Já vedes que, em suma, diferem pouco, exteriormente, dos habitantes da Terra.

Quœrens – Existem, pois, em outros mundos seres tão diferentes de nós outros, para que estes, mau grado tais dessemelhanças, mereçam ser comparados conosco?

Lúmen – Uma distinção profunda, inimaginável para vós, separa em geral as formas animadas dos diferentes globos. Essas formas são o resultado dos elementos especiais a cada orbe e das forças que o regem: matéria, densidade, peso, calor, luz, eletricidade, atmosfera, etc., diferem essencialmente de um mundo a outro. Em um idêntico sistema, essas formas já diferem. Assim, os homens de Titã, no sistema de Saturno, e os do planeta Mercúrio não se assemelham em nada aos homens da Terra; e aquele que os visse pela primeira vez não identificaria neles nem cabeça, nem membros, nem sentidos. Os do sistema planetário da Virgem, rumo aos quais meu olhar estava voltado com persistência toda passiva, assemelhavam-se, ao contrário, pela sua forma, a habitantes do globo terrestre. Igualmente se aproximavam pelo estado intelectual e moral. Algo inferiores a nós outros, estão colocados nos degraus da escada das almas que precedem imediatamente aos que pertence a Humanidade terráquea, no conjunto total.

Quœrens – A Humanidade terrestre não é homogênea em seu valor intelectual e moral, mas me parece muito diversificada. Diferenciamo-nos bastante, nós outros os europeus, das tribos da Abissínia e dos selvagens das ilhas da Oceânia. Qual o povo que, para vós, representa o tipo grau médio da inteligência sobre o orbe terráqueo?

Lúmen – O povo árabe, capaz de produzir os Képleres, os Newtons, os Galileus, os Arquimedes, os Euclides, os d'Alembert, e, por outro aspecto, tocando, nas suas raízes, as hordas primitivas vinculadas aos rochedos de granito. Não é necessário, porém, escolher aqui um povo para protótipo; é preferível considerar o conjunto da civilização moderna. Além disso, não existe tão grande distância, quanto poderíeis supor, entre o entendimento de um preto e o de um cérebro da raça latina. De qualquer modo, se vos é indispensável, em absoluto, urna comparação, eu vos direi que os homens desse planeta da Virgem se encontram quase na situação intelectual dos povos escandinavos.

A diferença mais essencial existente entre tal mundo e a Terra está em não haver ali sexos, nem nas plantas, nem nos animais, nem na Humanidade. A geração dos seres se processa espontaneamente, em resultado natural de certas condições fisiológicas reunidas em algumas férteis ilhas do planeta, e os filhos não se formam em órgãos femininos, conforme acontece com as mães terrenas. Explicar semelhante processo seria inútil, atendendo a que não podeis julgar e compreender, fora das idéias terrestres, os fatos daquele planeta, completamente distintos. O resultado de tal situação orgânica é que o matrimônio não existe, em qualquer modalidade, nesse planeta, e que as amizades entre os humanos jamais têm a mescla das atrações carnais que sempre se manifestam aqui, mesmo nas relações amistosas mais puras entre duas pessoas de sexos diferentes. Vós vos lembrais, de resto, que durante o período protozóico os habitantes da Terra eram todos surdos-mudos e sem sexo. A divisão dos sexos só se fez relativamente tarde na história da Natureza, nos animais e nas plantas. Atraídos, conforme vos disse, para aquele longínquo planeta, os olhos de minha alma examinaram atentamente a respectiva superfície. Demoraram-se em particular, e sem que me apercebesse da razão predominante, sobre uma ilha branca, ao longe uma região coberta de neve; mais é bem provável não se tratasse de neve, por inverossímil que pudesse existir água nesse planeta, nos mesmos estados físicos e químicos peculiares à Terra. Na orla dessa cidade, uma avenida conduzia a vizinho bosque, formado de árvores amarelas. Não tardei em assinalar especialmente na dita avenida três personagens que pareciam dirigir-se lentamente para o bosque. O pequeno grupo era formado por dois amigos, que pareciam conversar intimamente um com o outro, e por um ser, dessemelhante deles, pela vestimenta vermelha e pela carga que conduzia, aparentando tratar-se de um criado, escravo ou animal doméstico de ambos.

Enquanto mirava curiosamente as duas personagens principais, a da direita elevou o olhar para o céu, tal como se fosse atraída do alto por um balão e fixou-se precisamente para Capela, estrela que sem dúvida ela não divisava, pois a cena se passava durante o dia para a dita pessoa. Oh! meu velho amigo, jamais esquecerei a impressão súbita que me causou tal vista... Chego a duvidar de mim próprio, quando em tal cogito...

Esse ser do planeta da Virgem que me olhava sem me suspeitar presente, era... ousarei vo-lo dizer, sem outro preâmbulo? Pois bem: era eu...



Quœrens – De que modo podia ser – vós?

Lúmen – Eu próprio, em pessoa. Reconheci-me instantaneamente, e bem podeis avaliar da minha surpresa!

Quœrens – Sem dúvida! Mesmo porque não compreendo, disso, absolutamente nada.

Lúmen – O fato é que aí está uma situação completamente nova e que exige explicação.

Era eu, em verdade, e não tardei em reconhecer meu rosto e minha forma de outrora, mas ainda, na pessoa que andava a meu lado, um amigo íntimo, o meu caro Kathleen, que foi o meu companheiro de estudos nesse planeta. Eu nos segui com o olhar até ao bosque dourado, através de valezinhos deliciosos, sombreados de áureas cúpulas, de árvores cobertas de largas ramarias de nuanças alaranjadas e por entre bordos de folhagens cor de âmbar! Uma fonte murmurante gorjeava sobre a areia fina e nos sentamos às suas margens. Recordo as doces horas que passamos juntos, dos belos e muitos 365 dias escoados nessa terra longínqua, das nossas confidências muito fraternais, das impressões mútuas que experimentávamos ante as formosas paisagens do bosque, em face das planícies cheias de silêncio, das colinas vaporosas, dos pequenos lagos que sorriam do céu. Nossas aspirações se elevavam rumo à grande e santa Natureza, e adorávamos Deus em suas criações. Com que ventura eu revi essa fase da minha precedente existência e reatei a corrente dourada interrompida sobre a Terra! Em verdade, meu caro Quœrens, era bem eu quem vivia, então, nesse planeta da Virgem. Eu me via realmente, e podia prosseguir observando a série das minhas ações e rever diretamente os melhores momentos dessa existência já longínqua. Além disso, se houvesse duvidado da minha identidade, a incerteza teria sido desfeita durante a observação, porque, enquanto eu me considerava, vi sair do bosque e aproximar-se o meu irmão dessa existência, Berthor, que veio reunir-se à nossa conversação, no beiral da fonte murmurante.



Quœrens – Mestre, não consigo compreender de que maneira vos pudestes ver, em tal realidade, sobre esse planeta da Virgem. Tínheis o dom da ubiqüidade? Podíeis estar, à semelhanças de Francisco de Assis ou Apolônio de Tiana, em dois sítios simultaneamente ?

Lúmen – De modo algum. Examinando as coordenadas astronômicas do sol Gama da Virgem, e conhecendo sua paralaxe, vista de Capela, cheguei a constatar que a luz desse sol não podia empregar menos de 2.064 meses para atravessar a distância que o separa de Capela.

Eu recebia, pois, naquela atualidade, o raio luminoso saído desse mundo 8.944 semanas antes. Ora, verifica-se que, a essa época, eu vivia precisamente na face do planeta de que se trata, e estava no meu vigésimo ano de existência.

Verificando as idades, e comparando os diferentes estilos planetários, reconheci, com efeito, haver nascido nesse mundo da Virgem no ano 45.904 (correspondente ao ano 1677 da era cristã da Terra), e morrido de acidente no ano 45.913, que corresponde ao ano 1767. Cada ano desse planeta equivale a 10 dos nossos. No momento em que me via, conforme vos narrei, parecia contar 20 de idade terrestremente falando; mas, no estilo do dito planeta, contava apenas 2. Atinge-se ali muitas vezes a 15, que passa por ser o limite da vida em tal globo, e equivale a século e meio das eras terrestres.

O raio luminoso, ou, para falar mais exatamente, a fotografia desse mundo da Virgem – empregando 2.064 meses terráqueos para atravessar a imensa extensão que o separa de Capela, e estando eu neste último, eu a recebia somente agora com a imagem da constelação da Virgem de 8.944 semanas antes. E, ainda que as coisas se hajam vigorosamente modificado depois; que muitas gerações se hajam sucedido; que eu próprio tenha morrido e, depois dessa época, tido tempo de renascer uma nova vez, e viver quase três quartos de século sobre a Terra, contudo, a luz havia empregado todo esse interregno em percorrer seu trajeto da Virgem a Capela, e trazia-me impressões frescas de tais acontecimentos desaparecidos.



Quœrens – Estando demonstrada a duração do trajeto da luz, nada mais tenho a objetar quanto a tal ponto. Não posso, no entanto, furtar-me à confissão de que semelhante singularidade ultrapassa tudo quanto eu podia esperar da faculdade criadora da imaginação.

Lúmen – Não existe imaginação aqui, meu amigo, e sim uma realidade eterna e sagrada que tem seu lugar respeitável no plano da criação universal. A luz de todo astro, direta ou refletida, de alguma sorte diz o aspecto de cada sol e de cada planeta, expandindo-se no Espaço segundo a velocidade que conheceis, e o raio luminoso contém tudo quanto existiu. E porque nada se perde, a história de cada mundo, contida na luz que dele emana incessantemente e sucessivamente, atravessa por toda a eternidade o espaço infinito, sem que jamais possa ser aniquilada. O olhar humano não a saberia ler. Há, porém, olhos superiores aos terrestres. Se uso nestas narrativas os vocábulos ver e luz, é apenas para me tornar compreensível; mas, conforme assinalamos em palestra anterior, falando de modo absoluto, não existe luz: há vibrações do éter; não existe vista: há percepções do pensamento. Além disso, mesmo na Terra, quando examinais no telescópio, ou melhor ainda, no espectroscópio, a natureza de uma estrela, sabeis muito bem não estar ante os olhos o aspecto atual, mas o passado, que um raio de luz vos trouxe, partido de lá talvez há 100 séculos... Não ignorais também que um certo número de astros, dos quais vós outros, astrônomos da Terra, buscais atualmente determinar os elementos físicos e numéricos, e que brilham luminosamente sobre vossas cabeças, podem muito bem não mais existir desde o início do mundo terráqueo.

Quœrens – Sabemos. Assim, vistes desenrolar-se, em retrocesso, vossa existência anterior – 864 meses depois de transcorrida.

Lúmen – Melhor dizendo, uma fase dessa existência. Eu teria podido, porém, evidentemente, revê-la por inteiro, aproximando-me daquele planeta, a exemplo do que fizera para com a minha existência terrena.

Quœrens – De sorte que haveis revisto na luz vossas duas últimas encarnações?

Lúmen – Exatamente, e mais, eu as vi e as vejo ainda juntas, simultaneamente, de algum modo, uma ao lado da outra.

Quœrens – Vós as revedes ao mesmo tempo?

Lúmen – O fato é fácil de compreender. A luz da Terra despende 864 meses para atingir Capela. A do planeta da Virgem (quase vez e meia mais distante de Capela) gasta 2.064. Ora, vivendo eu há 864 meses sobre a Terra e um século antes em outro planeta, essas duas épocas me chegaram precisamente juntas em Capela. Tenho, pois, diante de mim, olhando para os ditos mundos, minhas duas últimas existências, que se desenrolam tal como se eu não estivesse aqui para as ver, e sem que me seja possível mudar coisa alguma dos atos em via de realização, em uma ou outra, de vez que tais atos, embora presentes e futuros para minha observação atual, ocorreram em realidade.

Quœrens – Estranho! Verdadeiramente, bem estranho!

Lúmen – O que mais me impressiona nessa observação inesperada das minhas duas existências – desdobradas juntas e presentemente em mundos diferentes, e o que surpreende mais singularmente minha atenção, é que essas vidas se assemelham da maneira mais bizarra. Vejo que tive mais ou menos os mesmos gostos, numa e noutra, idênticas paixões, iguais erros. Nem criminoso, nem santo, na primeira e na segunda. Demais (coincidência admirável!) vi, na primeira, paisagens análogas às que tenho visto sobre a Terra. Assim, tenho a explicação do gosto inato que trouxe, quando vim à Terra, pela poesia do Norte, pelas narrativas legendárias de Ossian, pelas paisagens sonhadoras da Irlanda, as montanhas e as auroras boreais. A Escócia, a Escandinávia, a Suécia, a Noruega, com os seus fiordes, o Spitzberg com as suas solitudes me atraíram. As velhas torres arruinadas, os rochedos e as gargantas selvagens, os pinheiros sombrios, sob os quais murmuram os ventos do norte, tudo isso me parecia ter na face da Terra alguma relação oculta com os meus pensamentos íntimos. Quando vi a Irlanda, pareceu-me que ali havia eu já vivido. Quando fiz pela primeira vez a ascensão do Rigi e do Finsterahorn, e assisti ao despontar esplêndido do Sol nos píncaros nevados dos Alpes, pareceu-me ter visto outrora esses aspectos. O espectro de Brocken não me pareceu novidade. É que eu havia habitado anteriormente regiões análogas no planeta da Virgem. Mesma vida, iguais ações, idênticas circunstâncias, mesmas condições. Analogias, analogias! Quase tudo que havia visto, feito, pensado sobre a Terra, eu tinha já visto, feito, pensado um século antes nesse mundo anterior.

E eu havia sempre duvidado!

O conjunto da minha vida terrena é, no entanto, superior ao da existência precedente. Cada criança traz, ao nascer, faculdades diferentes, predisposições especiais, dissemelhanças inatas, além de incontestáveis, que não se podem explicar ante o espírito filosófico e diante da Justiça eterna, senão pelos labores anteriormente realizados pelas almas livres. Mas, embora a minha vida seja superior à que a antecedeu, principalmente sob o ponto de vista do conhecimento mais exato e mais profundo do sistema do mundo, devo, sem embargo disso, salientar que certas faculdades físicas e morais, possuídas anteriormente, me faltaram sobre a Terra. Reciprocamente, possuía neste mundo faculdades que não havia recebido na existência procedente.

Assim, por exemplo, entre as faculdades que me faltaram na Terra, citarei principalmente a de voar. No planeta da Virgem, vi que voava tantas vezes quantas andava, e isso sem aparelho aeronáutico e sem asas, simplesmente com os braços e pernas, tal qual se nada entre as águas. Examinando bem esse modo de locomoção, que eu me via claramente empregar naquele planeta, reconheci sem dificuldade não ter (que eu não tinha, quero dizer) nem asas, nem balões, nem hélice. A um momento dado, eu me impulsiono do solo, qual se fosse por um golpe de salto, com as pernas, e, estendendo os braços, nado sem fadiga, no ar. Além disso, descendo, a pé, escarpada montanha, eu me projeto para diante no Espaço, tornozelos unidos, e desço lenta e obliquamente, por minha vontade, até onde meus pés tocam o chão e me encontro firme, ereto. Mais ainda: vôo lentamente, ao modo de um pombo que descreve uma curva para entrar no pombal. Isso, o que me vi fazendo distintamente nesse mundo. Pois bem: não foi só uma vez, mas centenas de vezes, mil quiçá, em que me senti arrebatado na forma dos meus sonhos terrestres; exatamente assim, doce e naturalmente, sem auxílio de aparelhos. Como poderiam tais impossibilidades surgir tantas vezes em nossos sonhos? Nada as justificariam; nada de análogo existe sobre o globo terrestre. Para obedecer instintivamente a semelhante tendência inata, em várias oportunidades eu me atirei na atmosfera, suspenso à bolha de gás de um aeróstato; mas a impressão não é a mesma; não se sente voar, e acredita-se estar quase imóvel. Tenho agora a explicação dos meus sonhos: enquanto dormiam meus sentidos terrestres, à alma afloravam as reminiscências da existência anterior.



Quœrens – Também eu, repetidas vezes, sinto-me voar em sonho, e exatamente assim, por um movimento do corpo – movido pela vontade, sem asas e sem aparelhos. Será que eu já vivi no planeta da Virgem?

Lumen – Ignoro. Se possuísseis vista transcendente, o sentido das percepções etéreas, ou instrumentos apropriados, poderíeis, mesmo do vosso globo, aperceber esse planeta, examinar-lhe a superfície, e se acaso ali houvésseis existido, à época em que de lá partiram os raios luminosos agora chegados à Terra, poderíeis talvez reencontrar-vos neles. Tendes, porém, olhos muitíssimo imperfeitos para tentar semelhante pesquisa. Aliás, não é indispensável tenhais habitado aquele mundo, para possuir a faculdade da aviação. Há um considerável número de mundos onde o vôo constitui o estado normal, e onde toda a raça humana só vive por esse dom. Na realidade, em poucos planetas os seres rastejam pelo modo dos da Terra.

Quaerens- Resulta da visão precedente que a vossa existência terreal não é a primeira, e que, antes de viver na Terra, já havíeis habitado um outro mundo. Acreditais, por isso, na pluralidade das existências para a alma?

Lúmen – Esqueceis que falais a um Espírito desencarnado? Tenho de me render à evidência, ante a visão da minha vida terrestre e da anterior no planeta virginal. Recordo-me, além disso, de muitas outras existências.

Quœrens – Eis precisamente o que me falta para estabelecer em mim uma convicção. Não me lembro, em absoluto, de coisa alguma que tenha podido preceder meu nascimento terrestre.

Lúmen – Estais ainda encarnado. Aguardai vossa liberdade, para que possais lembrar-vos da vida espiritual. A alma não tem plena memória, integral posse de si mesma, senão na sua vida normal, na vida celeste, isto é, entre suas encarnações. Só então ela vê, não somente a sua vida terreal, mas ainda as outras existências precedentes.

De que modo a alma, envolta nos liames grosseiros da carne terrestre, e aí acorrentada para um trabalho transitório, poderia recordar-se da sua vida espiritual? Quantas vezes tal lembrança seria prejudicial? Que entraves não trariam à liberdade dos atos, se tal recordação mostrasse à alma suas origens e seu destino? Qual mérito poderia ter se conhecesse as sanções futuras? As almas encarnadas na Terra ainda não atingiram um grau de progresso bastante elevado, para que a lembrança do seu estado anterior lhes possa ser útil. A imanência das impressões psíquicas não se manifesta neste orbe de passagem. A lagarta recorda acaso a sua vida rudimentar no casulo? A crisálida adormecida tem reminiscência dos dias empregados no labor, quando se rojava sobre as plantas rasteiras? A borboleta, que voa de flor em flor, não precisa recordar o tempo em que a sua múmia sonhava suspensa na teia, nem o crepúsculo no qual a sua larva se arrastava de erva em erva, nem à noite quando a casca de uma pevide a envelopava. Isso não impede que o óvulo, a lagarta, a crisálida e a borboleta sejam um único e mesmo ser.



Em alguns casos da própria vida terrena, tendes exemplos notáveis da ausência de recordação, tais os do sonambulismo, natural ou provocado, e os de certas condições psíquicas que a moderna ciência estuda. Não existe, pois, nada de surpreendente no fato de que durante uma existência seja esquecida a anterior. A vida urânica e a vida planetária representam dois estados distintos um do outro.

Quœrens – Entretanto, mestre, já tendo vivido outra existência, alguma coisa dessa anterior vida devia perdurar. De outro modo, tais encarnações equivalem a inexistentes.

Lúmen – E não representa nada, o chegarmos à Terra trazendo aptidões inatas? A hereditariedade intelectual não existe. Duas crianças, nascidas do mesmo pai e da mesma mãe, recebendo idêntica educação, são objeto dos mesmos cuidados, habitando o ambiente. Examinemos cada um. São iguais? De modo algum: a igualdade das almas não existe. Este possui instintos pacíficos e uma vasta inteligência: será bom, laborioso, sábio, circunspecto, ilustre quiçá entre os pensadores. Aquele traz consigo instintos perversos: será mandrião, invejoso, gatuno, assassino. Fraca ou fortemente acentuada, tal dessemelhança de caráter, que não depende nem da família, nem da raça, nem da educação, nem do estado corporal, se manifesta em todos os seres. Os ascendentes dos maiores entre os grandes homens não brilharam por um espírito superior, e até mesmo, na maior parte do tempo, não compreenderam o seu descendente ilustre. A alma não se transmite pela geração. Nisso podeis refletir com os vossos próprios recursos: chegareis à convicção de que a diversidade absoluta das almas não encontra sua razão de ser fora dos estados anteriores.

Quœrens – A maior parte dos filósofos e dos doutores teólogos não têm ensinado que a alma é criada ao mesmo tempo em que o corpo?

Lúmen – Em que momento preciso? pergunto eu. Na ocasião do nascimento? A lei, e também a fisiologia anatômica, sabem perfeitamente que a criança vive antes de ser liberta das entranhas maternas, e destruir um nascituro de oito meses é já cometer um assassínio. A que tempo supondes que a alma apareceria no cérebro fluido do feto ou do embrião?

Quœrens – Os antigos julgavam que a verdadeira animação espiritual do ser humano chega durante a sexta semana da gestação. Os modernos tendem a fixá-la no momento em que a concepção se opera.

Lúmen – Ó derrisão amarga! Vós pretendeis que os desígnios eternos do Criador fossem submetidos na sua execução ao caprichoso desejo, flama intermitente de dois corações apaixonados! Ousais admitir que nosso ser imortal é criado ao contacto de duas epidermes. Estais dispostos a crer que o Pensamento supremo governador dos mundos se colocaria à disposição do acaso, da intriga, da paixão e, algumas vezes, do crime! Julgais que o número das almas dependeria do número das flores tocadas pela meiga poeira do pólen de asas douradas? Uma semelhante doutrina, tal suposição não é atentatória da dignidade divina e da grandeza espiritual da nossa própria alma? E, além disso, não seria a materialização completa da nossa faculdade intelectual?

Quœrens – Logo...

Lúmen – Sim, efetivamente assim parece porque, em vosso planeta, alma nenhuma se pode encarnar sem ser sob a forma de embrião humano.

É uma lei da vida terrena. Mister se faz, porém, ver através do véu. A alma não é um efeito; o corpo lhe serve apenas de vestimenta.



Quœrens – Concordo em que seria muito singular, se um acontecimento tão importante quanto a criação da alma imortal ficasse subordinado a uma causa carnal, fosse o resultado fortuito de uniões mais ou menos legítimas. Convenho também em que a diferença das aptidões que cada um traz, ao entrar neste mundo, não podem ser explicadas pelas causas orgânicas. Eu me pergunto, porém, para que serviriam muitas existências, se, quando se recomeça uma nova vida, não se tem recordação das precedentes. Eu me interrogo mais, se é verdadeiramente desejável termos em perspectiva uma viagem sem fim, através dos mundos, e uma transmigração eterna. Afinal, é preciso que tudo isso tenha um termo e que, após tantos séculos de viagem, concluamos em um repouso. Senão, tanto vale como se descansássemos imediatamente depois de uma única existência...

Lúmen – Ó homens!, não conheceis nem o Espaço, nem o Tempo, ignorais que fora do movimento dos astros o tempo não existe mais e que a eternidade não é mensurável; não sabeis que, no infinito da extensão sideral do Universo, o espaço é vã palavra e também não tem medida; desconheceis tudo: princípios, causas, tudo vos escapa; átomos efêmeros sobre um átomo que se move, não tendes a respeito do Universo nenhuma apreciação exata; e numa ignorância assim, em tal obscuridade, pretendeis tudo julgar, tudo abranger, tudo apreender! Seria, porém, mais fácil encerrar o oceano em uma concha de noz do que fazer assimilar a lei dos destinos pelo vosso cérebro terrestre. Não vos podeis, pois, fazendo uso legítimo da faculdade de indução que vos foi dada, deter nas conseqüências diretas resultantes da observação razoável. A observação raciocinada vos demonstra que não somos iguais ao chegar a este mundo; que o passado é semelhante ao futuro e que a eternidade posta ante a nossa frente também se acha para trás; que nada se cria na Natureza e coisa alguma se aniquila; que a Natureza se estende a toda coisa existente e que Deus, espírito, lei, número, não são fora da Natureza outra coisa que matéria, peso, movimento; que a verdade moral, a justiça, a sabedoria e a virtude existem na marcha do mundo tão bem quanto a realidade física; que a justiça ordena a equidade na distribuição dos destinos; que os nossos destinos não se cumprem sobre o planeta terrestre; que o céu empíreo não existe e a Terra é um astro do céu; que outros planetas habitados planam com o nosso na imensidão, abrindo às asas da alma um território inesgotável; e que o infinito do Universo corresponde, na criação material, à eternidade das nossas inteligências na criação espiritual. Tais certezas, acompanhadas das induções que nos inspiram, não são suficientes para libertar vosso Espírito dos velhos preconceitos e entregar ao seu livre julgamento um panorama digno dos vagos e profundos anseios de nossas almas?

Eu poderia ilustrar esse esboço geral com exemplos e detalhes que vos impressionariam talvez por muito tempo. Que me baste acrescentar isto: há dentro da Natureza outras forças além das que conheceis, cuja essência, e bem assim o modo de ação, diferem da eletricidade, da atração, da luz, etc. Ora, entre essas forças naturais desconhecidas, uma existe em particular, cujo estudo ulterior trará singulares descobertas para elucidar o problema da alma e da vida. É a força psíquica. Essa força fluídica invisível estabelece uma ligação misteriosa entre os seres vivos, despercebidamente para eles, e já em muitas circunstâncias pudestes reconhecer a sua existência. Eis dois entes que se amam; impossível lhes é viverem separados. Se o império das circunstâncias acarretar um afastamento, os nossos dois namorados ficarão desorientados e suas almas estarão repetidamente ausentes do corpo para que se possam reunir através das distâncias. Os pensamentos de um serão comuns ao outro; viverão juntos, apesar da separação. Se alguma desgraça vier atingir um deles, o outro sofrerá o contragolpe. Tem-se visto a ocorrência dessas separações causar a morte. Quantos fatos não tendes constatado, sob testemunhos irrefragáveis, de aparição espontânea de uma pessoa a amigo íntimo, de esposa ao marido, de mãe a um filho, e reciprocamente, ocorrida no momento preciso da morte da pessoa que aparece, morte que ocorre muitas vezes a grande distância? A crítica, por mais severa, não pode hoje negar esses fatos autenticamente constatados. Duas crianças gêmeas, vivendo a cem quilômetros uma da outra, em condições muito diferentes, são acometidas simultaneamente de idêntica moléstia, ou se um se fadiga além do natural, o outro se ressentirá de indisposição sem causa aparente. E assim por diante. Esses fatos múltiplos provam a existência de ligações simpáticas entre as almas, e mesmo entre os corpos, e nos convidam a constatar, uma vez mais, estarmos bem distantes do conhecimento de todas as forças em ação dentro da Natureza.

Se eu vos entrego a esses quadros, ó meu amigo, é para vos mostrar, principalmente, que podeis pressentir a verdade antes mesmo de morrer e que a existência terrestre não é tão desprovida de luz a ponto de impedir que, pelo raciocínio, se chegue a conhecer os traços precípuos do mundo moral. Demais, todas essas verdades deviam ressaltar do prosseguimento das minhas narrativas, quando vos demonstrei que vira não somente a minha penúltima existência diretamente, graças à lentidão da luz, mas ainda a antepenúltima vida planetária, e até à presente, mais de dez existências que precederam aquela na qual nos conhecemos sobre a Terra.

A serventia científica que as nossas conversações vos podem trazer é o haver demonstrado que a luz constitui o modo de transmissão da história universal.

Segundo a lei de tal transmissão sucessiva da luz, todos os acontecimentos do Universo, a história de todos os mundos, são espargidos no Espaço em quadros imperecíveis, verídicos e grandiosos, da Natureza inteira.

II


Quœrens – A reflexão e o estudo, ó Lúmen, já me haviam feito próximo da crença na pluralidade das existências da alma. Mas, estando tal doutrina longe de ter em seu favor provas lógicas, morais e mesmo físicas, tão numerosas e tão evidentes quanto a da pluralidade dos mundos habitados, confesso que até esse então a dúvida permanecia no meu pensamento. A óptica moderna e o cálculo transcendental, que nos fazem, por assim dizer, tocar os outros mundos com a ponta dos dedos, mostram o decurso do ano, das estações, dos dias desses mundos, fazem com que assistamos às variações da Natureza viva nas suas superfícies; todos esses elementos permitiram à Astronomia contemporânea fundar a doutrina da existência humana nos outros astros sobre base sólida e imperecível. Mas, ainda uma vez, não ocorre o mesmo com a palingenesia e, embora pendendo fortemente para a transmigração das almas em um verdadeiro céu (pois que é meio único pelo qual podemos representar a vida eterna), minhas aspirações reclamam, no entanto, para que se sustenham e consolidem, uma luz que não tive ainda.

Lúmen – É precisamente essa luz que se faz objeto de nossa conversação de hoje, e desta se evidenciará. Tenho, confesso, uma vantagem sobre vós, pois posso falar de visu, e limito-me rigorosamente ao papel de intérprete fiel dos acontecimentos com os quais a minha vida espiritual é, na atualidade, entretecida. Vossa inteligência, sabendo agora compreender a possibilidade, a verossimilhança da explicação científica da minha narrativa, só pode, ouvindo-me, aumentar o seu saber.

Quœrens – É por esse motivo, principalmente, que sempre estou sedento da vossa palavra.

Lúmen – A luz, compreendestes, se encarrega de dar à alma desencarnada a vista direta das respectivas existências planetárias.

Depois de haver revisto minha vida terrestre, vi a penúltima, sobre um planeta da Gamma-Virginis. Não se me apresentando aquela, pela luz, senão decorridos 864 meses, e a outra após 2064, hoje eu vejo, de Capela, o que fui, na Terra, no primeiro dos tempos, e o que fui, no mundo virginal, há 8944 semanas. Eis, pois, duas existências passadas e sucessivas que se tornaram para mim presentes e simultâneas aqui, em virtude das leis da luz que a mim as transmite.



Há cinco séculos, aproximadamente, vivi em um mundo cuja posição astronômica, vista da Terra, é precisamente a do seio de Andrômeda, do seio esquerdo. Os habitantes desse orbe mal suspeitaram decerto que os cidadãos de um pequeno planeta do Espaço reuniram as estrelas por linhas fictícias, traçaram figuras de homens, mulheres, animais, objetos diversos, e incorporaram todos os astros (para lhes dar uma denominação) nessas figuras mais ou menos originais. Espantar-se-iam muitos homens planetários, se lhes dissesse que, na Terra, certas estrelas têm o nome de Coração do Escorpião (que coração!), Cabeça de Cão, Cauda da Grande Ursa, Olho de Touro, Colo do Dragão, Testa de Capricórnio! Não ignorais que as constelações desenhadas sobre a esfera celeste, as posições das estrelas nessa esfera não são reais, nem absolutas, mas unicamente fundadas na situação da Terra no Espaço, e assim não passam de uma simples questão de perspectiva. Aquele que, do alto da montanha, apreende o panorama circular e fixa do seu plano a posição correspondente de todos os píncaros que lhe são visíveis, das colinas, dos vales, dos povoados, dos lagos, traça um mapa que serve somente para o lugar onde se encontra. Se se transportar à distância de vinte quilômetros, os mesmos cumes são visíveis, mas situados já em posições recíprocas completamente diversas, em resultado da mudança de perspectiva. O panorama dos Alpes e do Oberland, visto de Lucerna e do Pilato, não se assemelha em nada ao que se observa do Faulhorn ou da Scheinige-Platte, acima de Interlaken. E, no entanto, são os mesmos cimos e os mesmos lagos. Outro tanto acontece com as estrelas. São vistas quase as mesmas da estrela Delta da Andrômeda e da Terra. Contudo, não há constelação alguma que possa ser fixada; todas as perspectivas celestes mudaram; as estrelas da primeira grandeza passaram à segunda e terceira; algumas de ordem mais inferior, vistas de mais perto, tomaram esplendor brilhante, e principalmente a respectiva situação de umas para com as outras variou, como resultado da diferença de posição entre essa estrela e a Terra.

Quœrens – Assim, as constelações que durante tanto tempo se acreditou traçadas irrevogavelmente sob a cúpula celeste, são fruto apenas da perspectiva. Mudando de posição, as perspectivas mudam, e o céu já não é o mesmo. Então, devíamos nós mesmos ter a mudança das perspectivas celestes a seis meses de intervalo, por isso que, nesse interregno, a Terra tem variado fortemente de posição e se acha a 298 milhões de quilômetros de distância do ponto que ocupava um semestre antes.

Lúmen – A objeção prova que haveis compreendido perfeitamente o princípio da deformação das constelações, à medida que se avança de qualquer lado do Espaço. Seria tal qual enunciastes, se, com efeito, a órbita terráquea fosse de dimensão bastante vasta para que dois pontos opostos dessa órbita pudessem mudar o aspecto da paisagem celeste.

Quœrens – Quase trezentos milhões de quilômetros.

Lúmen – Nada representam na ordem das distâncias celestes, e não podem cambiar as perspectivas das estrelas, assim como um passo sob o zimbório do Panteão não mudaria para o observador a posição aparente dos edifícios de Paris.

Quœrens – Certos mapas da Idade-Média dão ao Zodíaco a função de sustentáculo do Empíreo e colocam algumas constelações, Andrômeda, Lira, Cassíope e Águia, na mesma região dos Serafins, Querubins e Tronos. Seria isso alta fantasia, se as constelações não existissem em realidade, e afinal se deve a simples aproximações aparentes, devidas à perspectiva?

Lúmen – Evidentemente. O antigo céu teológico não tem hoje mais razão de ser, e o próprio bom-senso testemunha a sua inexistência. Duas verdades não se podem opor uma à outra; é necessário que o céu espiritual se acomode com o céu físico. É isso que as minhas diferentes palestras têm por especial objeto demonstrar-vos.

No mundo de Andrômeda, do qual vos falo, não se tem, com efeito, mais coisa alguma da Constelação desse nome. As estrelas que, vistas da Terra, parecem reunidas e serviram para desenhar sobre a paisagem celeste a figura da filha de Cefeu e de Cassíope estão disseminadas na vastidão, a todas as distâncias e a todas as direções. Não seria possível reencontrar, lá junto, nem alhures, o menor vestígio dos traços da mitologia terrena.



Quœrens – A poesia aí perde... Seria certamente uma doce satisfação o saber que vivera uma existência inteira no seio de Andrômeda. Isso tem encanto. Está aí todo um conjunto de perfume mitológico e uma sensação vital. Estimaria certamente a ela ser transportado, sem temor do monstro que a morde, sem pensar nas cadeias que a acorrentam à ribanceira e sem inquietação pelo jovem Perseu, acompanhado da sua cabeça de Medusa e do famoso Pégaso. Agora, porém, graças ao escalpelo da ciência, não existe mais a princesa exposta sem véus na borda das vagas, nem Virgem empunhando a espiga de ouro, nem Orion perseguindo as Plêiades; Vênus desapareceu de nosso céu crepuscular e o velho Saturno deixou a foice cair na noite. A Ciência fez tudo isso desaparecer! Lamento esse progresso.

Lúmen – Preferis, pois, a ilusão à realidade? Não sabeis ainda que a verdade é incomparavelmente mais bela, maior, mais admirável e maravilhosa mesmo do que o erro mais bem ornamentado? Que há de comparável, em todas as mitologias passadas e presentes, com a contemplação científica das grandezas celestes e dos movimentos da Natureza? Que impressão poderia tocar mais profundamente do que o fato da imensidão ocupada pelos mundos e da enormidade dos sistemas siderais? Que palavra é mais eloqüente do que o silêncio de uma noite estrelada? Que imagem seria capaz de transportar o pensamento a um abismo de assombro mais implacável, do que essa viagem intersideral da luz, tornando eternos os acontecimentos transitórios da vida de cada mundo? Despojai-vos, pois, ó meu amigo, dos vossos antigos erros e sede verdadeiramente digno da majestade da Ciência. Escutai o que se segue.

Em virtude do tempo que a luz emprega para vir do sistema de Andrômeda a Capela, eu revi, depois da nossa última palestra, minha antepenúltima existência, vivida há cinco séculos e meio. Esse mundo é singular para nós outros. Só existe ali um reino, o animal, à superfície. O reino vegetal não existe. Mas aquele é bem diferente do nosso; sua espécie superior, sua espécie inteligente só possui quatro sentidos, porém, nenhum dos nossos, salvo talvez o da vista, diferente todavia. É um mundo sem sono e sem fixidez. Está inteiramente envolto por um oceano róseo, menos denso do que a água terrestre e mais do que o ar. É uma substância que forma o ambiente no grau intermediário entre o ar e a água. Não busqueis fazer dele idéia exata, pois seria inútil esforço, atendendo-se a que a química terreal não vos pode oferecer uma substância semelhante. O gás, ácido carbônico, que se forma invisível no fundo de um copo e se despeja juntamente com o líquido, pode oferecer-vos uma imagem. Tal estado provém de uma determinada quantidade de calor e de eletricidade em permanência sobre esse globo. Não ignorais que sobre a Terra, na textura de todos os seres minerais, vegetais e animais, só existem três estados para os corpos: o sólido, o líquido e o gasoso, e que esses três estados têm por origem o calor projetado do Sol à superfície do orbe terrestre. O calor interno do globo exerce ação insensível sobre dita superfície. Menor aquecimento solar liquefaria os gases e solidificaria os líquidos; maior calor fundiria os sólidos e evaporaria os líquidos. Basta supor maior ou menor quantidade de aquecimento, para produzir ar líquido (ar líquido, entendeis?) e mármore gasoso. Se, por uma causa qualquer, o planeta terreal deslizasse lentamente sobre a tangente da sua órbita e se distanciasse na obscuridade gelada do Espaço, veríeis toda a água terrestre tornar-se sólida, e os gases à sua vez liquefazerem-se, e depois se solidificarem... Veríeis? não, vós não veríeis, permanecendo na Terra, mas poderíeis, do fundo do Espaço, assistir ao curioso espetáculo, se o vosso globo entendesse escapar pela tangente. E notai além disso que, se a chegada a esse frio colossal se fizesse de súbito, os seres encontrar-se-iam repentinamente gelados no local onde estivessem e o orbe transportaria pela imensidão o panorama singular de todas as raças humanas solidificadas e imobilizadas nas várias posições que cada indivíduo e cada ser tivesse guardado no momento da catástrofe.

Mundos existem em tal condição. São certos planetas excêntricos, cujos habitantes, detidos insensivelmente na sua vida pela fuga rápida do planeta para longe do Sol, se encontram na condição de milheiros de estátuas. A mor parte está deitada, atendendo-se a que tão profunda mudança de temperatura demandou alguns dias para se completar. São aos milhares, promíscuos, mortos, ou, para melhor dizer, adormecidos em uma letargia completa. O frio os conserva. Trinta ou quarenta séculos mais tarde, quando o planeta retorna do seu afélio escuro e gelado para o brilhante periélio, rumo do Sol, o calor fecundo acaricia essa superfície com os seus raios benfazejos; medra rapidamente. E quando chega ao grau que caracteriza a temperatura natural de tais seres, estes ressuscitam, na mesma idade de quando adormeceram, retomam seus afazeres da vigília (remota vigília!), sem saber de modo algum que dormiram (sem sonho) durante tantos séculos. Ocorre mesmo a continuação de uma partida de jogo começada e até a conclusão de uma frase cujas primeiras palavras foram pronunciadas quarenta séculos antes. Tudo isso é muito simples. Já vimos que o tempo não existe, em realidade.

É, em ponto maior, o que se passa, em menor escala, na Terra, com os vossos infusórios ressurgentes, esses curiosos rotíferos, que renascem sob a chuva depois de largo período de morte aparente.



Mas, voltando ao nosso mundo de Andrômeda, a atmosfera rosa, quase líquida, que o toma inteiramente qual um oceano sem ilha, é a morada dos seres animados desse globo. Sem nunca repousar no fundo de tal oceano, que nenhum jamais tocou, flutuam perpetuamente no seio do elemento móbil. Desde o nascimento até a morte, não têm um só instante de descanso. A atividade constante é a condição mesma da sua existência. Se parassem, pereceriam. Para respirar, isso é, para fazer penetrar em seu interior o elemento fluido, são obrigados a mover, sem parar, os tentáculos e a manter seus pulmões (emprego este vocábulo para me fazer compreendido) constantemente abertos. A forma exterior dessa raça humana é um pouco a das sirenas da antiguidade, mais ou menos elegante, e aproximando-se ao organismo da foca. Vedes a diferença essencial que separa essa constituição da dos homens terrestres? E que sobre a Terra a respiração se faz sem que nos apercebamos de tal, sem despender trabalho para obter o nosso oxigênio, sem ser necessário esforço para a transformação do sangue venoso em arterial – pela absorção do oxigênio. Naquele outro mundo, ao contrário, impera uma nutrição que não se obtém senão a custo de trabalho, a preço de incessantes esforços.

Quœrens – Então esse mundo é inferior ao nosso em grau de progresso?

Lúmen – Sem dúvida alguma, pois eu o habitei antes de vir à Terra. Não julgueis, porém, que a Terra seja muito superior, pelo fato de respirarmos mesmo dormindo. Não se pode negar a vantagem de possuirmos um mecanismo pneumático que se abre por si mesmo, de segundo em segundo, cada vez que o nosso organismo tem necessidade de um sopro de ar, e que funciona sistematicamente noite e dia. O homem, porém, não vive só de ar; é necessário ainda ao organismo terrestre um complemento mais sólido, e esse complemento não lhe vem por si próprio. Que resulta daí? Olhai por um momento a Terra. Vede que triste, que desolador espetáculo! Todas essas multidões curvadas para o solo, que esgravatam penosamente, no intuito de obter dele o pão; todas essas cabeças pendidas para a matéria, ao invés de erguidas na contemplação da Natureza; todos esses esforços e labores, trazendo no seu séqüito a debilidade e a doença; todos esses tráficos para ajuntar um pouco de ouro a custa de todos; a exploração do homem pelo homem; as castas, as aristocracias, os roubos e as ruínas; as ambições, os tronos e as guerras; em uma palavra, o interesse pessoal, sempre egoísta, muitas vezes sórdido, e o reino da matéria sobre o Espírito! Eis o quadro normal da Terra, situação governada pela lei que rege vossos corpos, que vos força a matar para viver e a preferir a posse dos bens materiais, sem cogitar do além-túmulo, à posse dos bens intelectuais, dos quais a alma guarda sempre a riqueza inalienável.

Quœrens – Falais, ó mestre, à maneira de quem pensa que se pode subsistir sem comer.

Lúmen – E julgais que se esteja adstrito a uma coisa tão ridícula sobre todos os mundos do Espaço? Felizmente, na mor parte dos mundos, o Espírito não se acha submetido a semelhante ignomínia.

Não é tão difícil supor, à primeira vista, e compreender a possibilidade de atmosferas nutrientes. A manutenção da vida no homem e nos animais depende de duas causas: a respiração e a nutrição. A primeira reside naturalmente na atmosfera; a segunda reside na alimentação. Desta provém o sangue; deste resultam os tecidos, os músculos, os ossos, as cartilagens, a carne, o cérebro, os nervos, em uma palavra, a constituição orgânica do corpo. O oxigênio que respiramos pode ser considerado substância nutritiva, pois que, combinando-se com os princípios alimentícios absorvidos pelo estômago, completa a sanguificação e o desenvolvimento dos tecidos.

Ora, para imaginar a nutrição total transferida para o domínio atmosférico, basta observar que, em suma, um alimento completo se compõe de albumina, açúcar, gordura e sal, e imaginar que um fluido atmosférico, em vez de ser composto somente de azoto e de oxigênio, seja formado daquelas diversas substâncias em estado gasoso.

Tais alimentos se encontram nos corpos sólidos que absorveis, e é à digestão que está confiada a tarefa de os desagregar e assimilar. Quando comeis um pedaço de pão, por exemplo, introduzis no estômago fécula e amido, substância insolúvel na água e que não se encontra no sangue. A saliva e o suco pancreático transformam o amido insolúvel em açúcar solúvel. A bílis, o suco pancreático e as excreções intestinais mudam o açúcar em gordura, e é assim que, pelo processo da alimentação, os alimentos foram desagregados e assimilados no corpo.

Vós vos admirais, meu amigo, de que, no mundo celeste, onde resido desde há algum tempo contado pela Terra, eu me recorde ainda de todos esses termos materiais, e de que desça a referir-me aos mesmos assim. As lembranças que me acompanharam da Terra estão longe de esmaecer, e pois que tratamos determinadamente de uma questão de fisiologia orgânica, não experimento nenhuma espécie de falsa vergonha em dar a cada coisa o nome apropriado.

Se, pois, supusermos que, ao invés de serem combinados ou misturados na constituição dos corpos sólidos ou líquidos, os alimentos se encontrem em estado gasoso na formação da atmosfera, criaremos com isso atmosferas nutritivas, que nos dispensem da digestão e das funções ridículas e grosseiras.

O que o homem apenas é capaz de imaginar na esfera restrita onde suas observações se exercem, a Natureza soube realizar em mais de um ponto da criação universal.

Eu vos asseguro, de resto, que, quando não mais se está acostumado à operação material da introdução do alimento no tubo digestivo, não se pode fugir à impressão do quanto tal operação é brutal. É a reflexão que eu fazia ainda há poucos dias, quando, ao deixar meus olhares errantes sobre uma das mais opulentas paisagens do vosso planeta, fui impressionado pela beleza suave e toda angélica de uma jovem, reclinada em uma gôndola que flutuava docemente nas águas azuis do Bósforo, diante de Constantinopla. Almofadas de veludo vermelho, bordadas de cetim, formavam o divã da formosa Circassiana; pesadas borlas de ouro tombavam até junto às vagas. Ante a moça, um pequeno escravo preto, ajoelhado, tangia um instrumento de cordas. Esse corpo feminino era tão juvenil e tão gracioso, o braço em curva tão elegante, os olhos se mostravam tão puros e inocentes, e a fronte, já pensativa, aparecia tão calma em face da luz do céu – que eu me deixei, por instante, cativar numa espécie de admiração retrospectiva para com essa obra-prima da Natureza viva. Pois bem! enquanto aquela candura da juventude que desperta, aquela suavidade da flor me entretinha num gênero de encantamento transitório, o barco chegou o bordo a uma plataforma saliente, e a jovem, apoiando-se no escravo, veio sentar-se num sofá, perto de bem disposta mesa, servida copiosamente, em torno da qual outras pessoas estavam reunidas. A linda jovem começou a comer! Sim, ela come! durante uma hora talvez (é com esforço que me submeto à razão das minhas recordações terrestres). Que espetáculo ridículo! Um ser tão lindo, levando alimentos à boca e enchendo, de instante a instante, mal sei de que matérias o interior do seu corpo encantador! Que vulgaridade! E, depois, pedaços de um animal qualquer esses dentes perolados tiveram a coragem de mastigar! E, em seguida, fragmentos de um outro animal viram sem hesitação, ante eles, abrirem-se aqueles lábios virginais para os receber e tragar! Que regímen! uma triste mistura de ingredientes tirados do gado ou da caça brava, que viveram nos charcos e foram massacrados em seguida. Horror! Desviei com tristeza meu olhar desse estranho contraste, para fixar um mundo mais distinto, onde a Humanidade não está reduzida a semelhantes contingências.

Os seres flutuantes pertencentes ao mundo de Andrômeda, onde se escoou minha antepenúltima existência, estão ainda submetidos bem mais servilmente do que os habitantes da Terra ao trabalho da nutrição. Dispõem eles de ar que, à semelhança do que ocorre em vosso orbe, só os alimenta três quartas partes: é forçoso que busquem isso a que se pode denominar seu oxigênio, e, sem trégua, estão condenados a fazer funcionar seus pulmões e a preparar ar nutriente, sem jamais dormir e sem nunca se saciarem desse ar, por isso que, a despeito de todo o trabalho, só o podem absorver em pequenas porções de cada vez. Passam assim a vida inteira, e sucumbem por esse esforço.

Quœrens – Desse modo, valia mais não ter nascido. Mas, a mesma reflexão não será aplicável à Terra? Para que serve nascer, afadigar-se em mil variados labores, girar durante seis ou dez decênios no mesmo círculo cotidiano: dormir, comer, agir, falar, correr, andar, agitar-se, sonhar, etc.? Para que serve tudo isso? Não seria avançado o extinguir-se no dia seguinte ao do nascimento, ou melhor ainda, deixar de nascer? A Natureza não marcharia pior por isso, e nem mesmo de tal se aperceberia. E, de resto, pode-se acrescentar, para que serve a própria Natureza, e por que existe o Universo?

Lúmen – É o grande mistério. É preciso que todos os destinos se cumpram. Esse mundo de Andrômeda é muito inferior.

Para dar idéia da fraqueza intelectual da Humanidade dali, escolherei os dois assuntos que exprimem geralmente a medida do valor de um povo: a religião e a política. Ora, em religião, em vez de buscar Deus na Natureza, de fundar seus julgamentos pela Ciência, de aspirar à verdade, de se servir dos olhos para ver e da razão para compreender, em uma palavra, ao invés de estabelecer os fundamentos da sua filosofia sobre o conhecimento tão exato quanto possível da ordem que rege o mundo, dividiram-se em seitas voluntariamente cegas, acreditaram render homenagem ao seu pretenso Deus, cessando de raciocinar, e crêem adorá-lo, sustentando que o seu formigueiro é o único existente no Espaço, recitando palavras, injuriando-se de seita para seita, e, incrível!, benzendo armas, ateando fogueiras, autorizando massacres e guerras. Há tais e tais asserções nas suas doutrinas, que parecem imaginadas expressamente para ultrajar o senso comum. E são precisamente essas as que constituem os artigos de fé das suas crenças!

São da mesma força em política. Os mais inteligentes e os mais puros não conseguem entender-se; também a República parece ali uma forma de governo irrealizável. Tão longe quanto se possa remontar nos anais da sua história, evidencia-se que os povos débeis e indiferentes preferem não o governo de si próprios, mas o serem dominados pelos indivíduos que se proclamam seus Basileus. Esse chefe lhes toma três quartas partes dos recursos, faz guardar – sob suas vistas – pelos da malta a essência mais rósea da respectiva atmosfera (isto é, o que de melhor existe no dito mundo), numera-os a todos e, de tempos a tempos, os envia a entresbordoarem-se com o povo vizinho, submetido este, à sua vez, a um Basileu análogo. Semelhantes a cardumes de arenques, dirigem-se, das duas partes, rumo a um campo de batalha, que denominam o campo da honra, e se destroem mutuamente feito loucos furiosos, sem saber porquê e sem se compreenderem sequer, atendendo-se ao fato de não falarem o mesmo idioma. Alguns privilegiados do acaso regressam. E acreditais que estes, de retorno, tomam aversão pelo Basileu? Nem por sombra. Repenetrando nos seus lares móbiles, os destroços das hostes guerreiras têm por mais imediato celebrar, em companhia dos dignitários da sua seita, ações de graças, suplicando ao seu Deus que dê longos dias de bênçãos ao digno homem que se intitula deles paternal Basílio!

Quœrens – Deduz-se desse relato que os habitantes do Delta Andrômeda são física e intelectualmente muito inferiores a nós outros, pois, na Terra, estamos bem longe de seguir semelhante conduta... Em suma, não existe ali senão um reino animado, um reino móbil, sem repouso, sem sono, entregue à agitação perpétua por um inexorável fatalismo. Tal mundo me parece bem bizarro.

Lúmen – Que diríeis, pois, daquela que habitei há quinze séculos? Mundo igualmente dotado de um reino único, não de um reino móbil, mas, ao contrário, de um reino fixo, à parecença do vosso reino vegetal?

Quœrens – Animais e homens presos pela raiz?

III


Lúmen – Minha existência anterior à do mundo de Andrômeda foi vivida no planeta Vênus, vizinho da Terra, onde me recordo que tive o sexo feminino. Não a revi diretamente, pela lei da luz, por isso que esta despende o mesmo tempo para vir de Vênus ou da Terra à estrela Capela, e, por conseqüência, olhando Vênus, eu olhava atualmente o seu aspecto de há 864 meses, e não o que fora há nove séculos, época da minha existência lá.

Minha quarta vida anterior à existência na Terra se passou em um imenso planeta anelar, pertencente à constelação do Cisne, e situado na zona da Via-Láctea. Esse mundo é habitado somente por árvores.



Quœrens – Quer isso dizer que ali existem plantas, e não há animais, nem seres inteligentes e falantes?

Lúmen – Tal qual. Somente plantas, é verdade; mas, nesse vasto mundo de plantas, existem raças vegetais mais avançadas do que as que medram sobre a Terra; plantas existem que vivem de modo igual a nós outros: sentem, pensam, raciocinam e falam.

Quœrens – Mas é impossível!... Oh, perdão! quero dizer, é incompreensível, e completamente inconcebível.

Lúmen – Essas raças inteligentes existem de fato, tanto assim que fiz parte delas, há quinze séculos, quando fui árvore raciocinante.

Quœrens – De que maneira? De que forma pode uma planta raciocinar sem cérebro e falar sem língua?

Lúmen – Ensinai-me, eu vos rogo, qual o processo íntimo de que vos servis para pensar, e bem assim qual a transformação de movimentos de que se serve a vossa alma para traduzir suas concepções mudas em palavras audíveis...

Quœrens – ...Busco, ó mestre! porém não encontro explicação essencial desse fato, aliás comum.

Lúmen – Não se tem o direito de declarar impossível um fato desconhecido, quando se ignora a lei da maneira de ser a ele concernente. Pela circunstância de que o cérebro é o órgão fisiológico posto na Terra ao serviço da inteligência, julgais que devam existir cérebros análogos, cérebros e medulas espinais em todos os orbes do Espaço? Isso seria um erro ingênuo, verdadeira ilusão antropomórfica. A lei do progresso rege o sistema vital de cada um dos mundos. Esse sistema vital difere, segundo a natureza íntima e as forças particulares a cada globo. Quando atinge um grau suficiente de elevação, que o torna suscetível de entrar ao serviço do mundo moral, o Espírito, mais ou menos desenvolvido, eis que aparece. Não penseis que o Pai eterno cria diretamente em cada globo uma raça humana. Não. A espécie superior do reino animal recebe a transfiguração humana pela força das coisas, pela lei natural, que lhe enobrece o dia em que o progresso a conduz a um estado de superioridade relativa. Sabeis porque tendes um tórax, um estômago, duas pernas e dois braços, e uma cabeça munida dos sentidos visual, auditivo e olfativo? É porque os quadrúpedes, os mamíferos que precederam a aparição do homem estavam assim constituídos. Os macacos, os cães, os leões, os ursos, os cavalos, os bois, os tigres, os gatos, etc., e, antes deles, os rinocerontes ticorinus, a hiena das cavernas, o cervo de chifres gigantescos, o mastodonte, o sarigue, etc., e, ainda antes desses, o plessiossauro, o ictiossauro,o iguanodonte, o terodáctilo, etc., e, mais anteriormente, os peixes, os crustáceos, os moluscos, etc., foram o produto de forças vitais em ação sobre a Terra, dependentes do estado do solo e da atmosfera, da química inorgânica, da quantidade de calor e da gravidade terrestre. O reino animal da Terra seguiu, desde a sua origem, essa marcha contínua e progressiva rumo ao aperfeiçoamento da forma do tipo dos mamíferos, despegando-se cada vez mais da brutalidade da matéria. O homem é mais belo do que o cavalo, este mais formoso do que o urso, e o urso mais do que a tartaruga. Uma lei semelhante regeu o reino vegetal. As plantas pesadas, grosseiras, sem folhagem e sem flores, começaram a série. Depois, com os séculos, as formas se tornaram mais elegantes e mais refinadas. As folhas surgiram, derramando nos bosques deliciosa sombra. As flores, a seu turno, vieram embelezar o jardim da Terra e espargir doces perfumes na atmosfera até então insípida. Essa dupla série progressiva dos dois reinos se encontra hoje, nos terrenos terciários, secundários e primordiais, visitados pelos olhos escrutadores da Geologia. Houve uma época sobre a Terra em que algumas ilhas apenas emergiam do seio das águas quentes, nos vapores abundantes de uma atmosfera sobrecarregada, aí não havia outros seres que se distinguissem do reino inorgânico além de longos filamentos em suspensão nas vagas. Fungos, algas, tais foram os primeiros vegetais. Sobre os rochedos formaram-se seres que o espírito hoje se embaraça de nomear. Lá, esponjas intumescem; aqui, mais uma árvore de coral se eleva; mais longe, medusas se destacam, lembrando hemisférios de gelatina. São animais? São plantas? A Ciência não nos responde. São animais-plantas, zoófilos.

Mas, a vida não estaciona nessas formas. Eis aqui seres não menos primitivos e também simples, que assinalam a determinação de um gênero de vida especial: os anelídeos, os vermes, os peixes reduzidos ao estado de tubo, seres sem olhos, sem orelhas, sem sangue, sem nervos, sem vontade, espécies vegetativas, dotadas, todavia, da faculdade de locomoção. Mais tarde, rudimentos de órgãos visuais apareceram, pródromos de órgãos de locomoção, princípios de uma vida mais livre. Peixes, anfíbios se sucedem. O reino animal terrestre se transforma por si próprio. Quem sabe o que teria acontecido, se um primeiro ser não houvesse abandonado seu rochedo! se esses elementos primitivos da vida terrestre permanecessem fixados no ponto de origem e se, por uma causa qualquer, a faculdade de locomoção não houvesse tido um começo?

Aconteceria que o sistema vital terrestre, em lugar de se manifestar em duas direções, mundo de plantas e mundo de animais, chegaria não apenas à formação de sensitivas, plantas superiores dotadas já de verdadeiro sistema nervoso; não se limitaria a produzir flores, algo vizinhas de nós outros nos seus atos orgânicos e em seus amores; mas, continuando a ascensão, o que se produziu no reino animal ter-se-ia realizado no mundo vegetal. Existem vegetais sentindo e agindo: ver-se-iam plantas sentindo e fazendo-se compreender. A Terra não teria sido privada, por isso, da série humana; apenas o gênero humano, ao invés de ser móbil, conforme é, estaria fixada ao solo pelos pés.

Tal é o estado do mundo anelar que habitei, há vinte séculos, no seio da Via-Láctea.



Quœrens – Sem contradizer, esse mundo de homens-plantas me pasmou ainda mais do que o precedente. Dificilmente eu me posso figurar a vida e os costumes de tais seres singulares.

Lúmen – O gênero de vida ali é, com efeito, bem diferente do vosso. Não se constroem cidades, não se fazem viagens, nem se impõe qualquer forma de governo. Desconhece-se a guerra, esse flagelo da Humanidade terráquea, e também o amor próprio nacional que vos caracteriza. Prudentes, cheios de paciência e dotados de um feitio moral permanente, os seres dali não têm a mobilidade e a fragilidade dos homens da Terra. Vive-se lá, em média, cinco a seis séculos, de uma existência calma, doce, uniforme, sem revoluções. Não julgueis, entretanto, que esses homens-plantas tenham apenas uma vida vegetativa. Ao contrário, sua existência é muito pessoal e muito absoluta. São divididos, não em castas, segundo o nascimento ou a fortuna, conforme se pratica entre os da Terra, sim por famílias, cujo valor natural difere precisamente segundo a espécie. Têm uma história social, não escrita, pois nada se pode perder entre eles, atendendo-se à ausência de emigrações e conquistas, história feita por tradições e por gerações. Cada uma conhece a história da sua raça. Possuem também os dois sexos, tal qual ocorre com os terrestres, e suas uniões se processam de um modo análogo, porém incomparavelmente mais casto. E não é indispensável a união consangüínea; há fecundações a distância.

Quœrens – Mas, afinal, como podem comunicar mutuamente seus pensamentos, se é que pensam? E, além disso, mestre, de que modo vós mesmo vos reconhecestes nesse mundo singular?

Lúmen – Uma resposta só vos dará a das duas perguntas. Olhava esse anel da constelação do Cisne, e a vista ali se me prendia com persistência; estava surpreendido, eu mesmo, de enxergar apenas vegetais naquela superfície, e notei principalmente os singulares agrupamentos existentes nas campinas: aqui, dois a dois; mais adiante, três a três; pouco além, dez a dez; noutras partes, em maior número. Via os que pareciam sentados ao bordo de uma fonte; outros semelhavam estar deitados, tendo em redor pequenos rebentos; procurei entre todos identificar as espécies terrestres, tais os abetos, os carvalhos, os álamos, os salgueiros, mas não assinalei essas formas botânicas. Enfim, fixei muitas vezes meu olhar sobre um vegetal com a forma de figueira, sem folhagem e sem frutos, tendo flores vermelho-escarlate. De súbito, vi a enorme figueira alongar um ramo, à guisa de braço gigantesco, levar a extremidade desse braço à altura correspondente à cabeça, destacar uma das flores magníficas que lhe serviam de cabeleira e apresentá-la em seguida, inclinando a fronte, a uma outra figueira, esbelta, elegante, portadora de suaves flores azuis, colocada a alguma distância, em frente da ofertante. A distinguida pareceu receber a flor vermelha com um certo prazer, porque estendeu um ramo (dir-se-ia cordial e fina mão) ao vizinho, e pareceu terem assim ficado por longo tempo. Sabei que, em certas circunstâncias, basta um gesto para reconhecer uma pessoa. Foi o que me aconteceu ante tal cena. O gesto da figueira da Via-Látea despertou em meu Espírito todo um mundo de recordações. Esse homem-planta era ainda eu, de há quinze séculos, e identifiquei meus filhos nas figueiras de flores violeta que me cercavam, pois lembrei que a cor das flores descendentes resulta da fusão das cores dos ascendentes paterno e materno.

Os homens-plantas vêem, ouvem e falam, sem olhos, sem orelhas e sem laringe. Na Terra, já tendes flores que distinguem muito bem, não somente o dia da noite, mas ainda as diferentes horas do dia, a altura do Sol no horizonte, um céu puro de um nublado; que, mais ainda, têm a repercussão dos diversos ruídos com esquisita sensibilidade; que, finalmente, se entendem à maravilha entre elas e até com as borboletas mensageiras. Esses rudimentos são desenvolvidos a um verdadeiro grau de civilização no mundo do qual vos dou notícia, e os seres dali são tão completos no respectivo gênero quanto o sois vós outros na Terra, no vosso. Sua inteligência está, é certo, menos avançada do que a média intelectual da Humanidade terrena; porém, nos costumes e nas relações recíprocas, revelam em todas as ocasiões uma doçura e uma delicadeza que poderiam muitas vezes servir de modelo à mor parte dos habitantes da Terra.



Quœrens – Mestre, de que modo se pode ver sem olhos e ouvir sem orelhas?

Lúmen – Cessareis o assombro, meu velho amigo, se refletirdes que a luz e o som são apenas dois modos de movimento. Para apreciar uma ou outra de tais maneiras de movimento, é necessário (e basta) ser dotado de aparelho em correspondência com uma das duas, ainda que o aparelho seja um simples nervo. Os olhos e as orelhas constituem os ditos aparelhos para a natureza terreal. Em outra organização, de outra natureza, tanto o nervo óptico quanto o auditivo terão outra forma para a função de órgãos. Além disso, não existem dentro da Natureza somente esses dois modos de movimentos: luminoso e sonoro; posso mesmo dizer que tais qualificativos derivam da vossa maneira de sentir, e não da realidade. Há, sem dúvida, no seio da Natureza, não um, porém dez, vinte, cem, mil diferentes modos de movimento. Na Terra fostes formados para apreender principalmente aqueles dois citados, que constituem quase toda a vossa vida de relação. Em outros mundos, há também outros sentidos para apreciar a Natureza sob diferentes aspectos, sentidos que têm, uns, a localização dos vossos olhos e das vossas orelhas, e, outros, são dirigidos rumo a percepções completamente estranhas às acessíveis aos organismos terrestres.

Quœrens – Quando me falastes, há pouco, a respeito dos homens-plantas do mundo do Cisne, tive idéia de perguntar se as plantas terrestres têm alma.

Lúmen – Sem a menor dúvida. As plantas terrenas são, sim, dotadas de alma, de igual maneira que os animais e os homens. Sem alma virtual nenhuma organização constituiria um ser. A forma do vegetal é dada pela sua alma. Por que a bolota e um caroço, plantados ao lado um do outro, no mesmo solo, sob a mesma exposição e identicamente nas mesmas condições, produzirão, a primeira, um carvalho e, o segundo, um pessegueiro? Porque uma força orgânica residente no carvalho construirá seu vegetal típico, e uma outra força orgânica, uma outra alma, imanente no pessegueiro, levará ao caroço outros elementos para formar igualmente seu corpo específico, pelo mesmo princípio que a humana alma constrói – ela própria – o seu envoltório corporal, servindo-se dos meios postos à sua disposição pela natureza terrena. Apenas, a alma da planta não tem consciência de si mesma.

Almas de vegetais, almas de animais, almas de homens são seres chegados já a um grau de personalidade, de autoridade suficiente para dobrar à sua ordem, dominar e reger debaixo de sua direção as demais forças não personalizadoras e esparsas no seio da imensa Natureza. A mônada humana, por exemplo, superior à mônada do sal, à mônada do carbono, à do oxigênio, as absorve e as incorpora na sua obra. A alma humana, em nosso corpo terrestre, sobre a Terra, rege, sem disso se aperceber, todo um mundo de almas elementares, formando as partes constitutivas do seu corpo. A matéria não é substância sólida e espaçosa; é um complexo de centros de forças. A substância não tem importância. De um átomo a outro, existe um vácuo imenso, relativamente às dimensões dos átomos. Ao alto dos diversos centros de forças constitutivas que formam o corpo humano a alma humana governa todas as almas ganglionárias que lhe são subordinadas.



Quœrens – Confesso, meu erudito instrutor, não ter apreendido bem claramente essa teoria.

Lúmen – Também vai ser ilustrada por um exemplo que a fará passar, para vós, à categoria de fato.

Quœrens – A categoria de fato? Sois acaso a reencarnação da princesa Scheherazade, e me haveis fascinado em um novo conto das Mil e uma Noites, as mil e uma noites da Urânia moderna?

Lúmen – Uma derradeira palestra fará com que realizeis comigo, no espaço celeste, uma viagem que desenvolverá sob vossos olhares o infinito variado da Criação.

Quinta narrativa

Ingenium audax – Natura audacior


Lúmen – Conheceis a esplêndida constelação de Orion que reina soberana nas vossas noites de inverno, e curiosa estrela múltipla, Thêta, que se encontra sob a Espada suspensa do Talim e brilha no centro da afamada nebulosa.

Esse sistema Thêta de Orion é um dos mais singulares que existem no escrínio, tão diversificado, agora, dos diamantes celestes. É composto de quatro sóis principais dispostos em quadrilátero. Dois deles, formando o que se poderia denominar a base do quadrilátero, são, por outra parte, acompanhados, um, de um sol, e o outro de dois. É, pois, um sistema de sete sóis, em torno de cada qual gravitam planetas habitados. Visitei um dos planetas que gira em volta de secundário sol, sendo que este último se move em torno de um dos quatro sóis principais. Por sua vez, este principal, em concerto com os demais, circula em redor de invisível centro de gravidade colocado no interior do quadrilátero. Não insisto a respeito desses movimentos; a mecânica celeste já vo-los explicou.

Eu estava, pois, iluminado e aquecido nesse planeta por sete sóis simultaneamente: por um maior e mais ardente, em aparência, do que os outros seis, por estar mais próximo de mim, por um segundo, muito grande e também mui brilhante, por três de média dimensão e por dois pequenos, gêmeos. Não se achando todos reunidos no alto do horizonte, há sóis do dia e sóis da noite! Isso significa não existir ali noite, propriamente dita, e, em conseqüência, não haver o sono.

Quœrens – Como pode ser? Coincidem no céu sóis duplos e múltiplos!

Lúmen – Em grande número. O sistema de que vos dou notícia, entre outros, é conhecido dos astrônomos da Terra, que contam aos milhares os sistemas de estrelas duplas, múltiplas e coloridas. Podeis, vós mesmo, constatar isso ao telescópio.

Ora, sobre o planeta de Orion, que designei há pouco, os seres não têm a natureza vegetal, nem animal; não poderiam mesmo caber em nenhuma das catalogações terrenas, ou ainda, em uma das duas grandes divisões: reino vegetal e reino animal. Não encontro verdadeiramente maneira de os comparar, para vos dar uma idéia da forma respectiva. Vistes acaso, nos jardins botânicos, o áloes gigantesco, o cereus giganteus?



Quœrens – Conheço particularmente esse vegetal. Seu nome deriva da semelhança com os tocheiros de três ou mais ramificações que se acendem nos templos.

Lúmen – Pois bem, os homens de Theta Orionis oferecem alguma parecença com essa forma. Apenas se movem lentamente e se mantêm aprumados graças a um processo de sucção análogo ao das ampolas de certas plantas. A parte inferior da sua haste vertical, a que pousa no chão, prolonga, à maneira das estrelas do mar, pequenos apêndices que se fixam ao solo e produzem o necessário vácuo. Andam muitas vezes em bandos e mudam de latitude, segundo as estações do tempo.

Eis aqui, porém, o mais curioso ponto da respectiva organização, o que põe em evidência o princípio, do qual vos falei, da reunião de almas elementares no corpo humano.

Visitei um dia esse mundo e me encontrei no meio de uma paisagem oriônica. Um ser estava lá, semelhante a um vegetal de dez metros de altura, sem folhagem e sem flores, essencialmente constituído por cilíndrica haste, terminada na parte superior por muitas ramificações, lembrando os de um lustre. O diâmetro do talo central, e assim o das ramificações, podia aproximar-se ao terço do metro. A extremidade superior da haste e dos ramos era coroada por argênteas franjas.

De repente, esse ser agitou as ramificações e esvaiu-se.

Com efeito, nesse mundo, acontece que indivíduos bem dispostos se abatem literalmente num todo.

As moléculas que os constituem tombam de uma vez, todas, sobre o solo. O indivíduo cessa de viver pessoalmente; as moléculas se separam e se dispersam.



Quœrens – Desagregam-se?

Lúmen – Mais ou menos. Recordo-me que essa desassociação do corpo ocorre muito freqüentemente durante a plena vida. Tanto resulta de uma contrariedade, quanto da fadiga, ou ainda de desarmonia orgânica entre as diferentes partes. Vive-se integralmente, tal qual existis neste momento, e, de súbito, fica-se reduzido à expressão mais simples. A molécula cerebral (que, em vós, vos constitui essencialmente) sente-se desprendida e em descenso, como resultante da queda das suas co-irmãs ao longo das extremidades, e chega à superfície do chão solitária e independente.

Quœrens – Esse modo de desaparição seria alguma vez cômodo processo aqui, sobre a Terra. Para sair de embaraçosa situação, por exemplo, de urna cena conjugal do gênero Molière, ou de um quarto de hora desagradável, igual ao de Rabelais, ou ainda de um impasse doloroso – a plataforma do cadafalso –, bastava não suster os átomos constitutivos, e ... boa-noite, meus senhores...

Lúmen – Levais o assunto em jocosidade, mas eu vos afirmo que a realidade é incontestável. Outro tanto existiria sobre a Terra, à semelhança do que ocorre no planeta de Orion, se o princípio do domínio não reinasse tão fortemente entre vós outros. Lá existe tal princípio elementarmente. Vosso corpo é formado de moléculas animadas; vossa medula espinal, conforme se expressou um dos eminentes fisiologistas da Terra, é uma série linear de centros independentes e ao mesmo tempo governados. As partes essenciais constitutivas do vosso sangue, da vossa carne e dos ossos estão no mesmo caso. São verdadeiras províncias com administração autônoma, porém, submetidas a uma autoridade superior.

O funcionamento dessa diretriz superior é uma condição da vida humana, condição menos exclusiva nos animais inferiores. Em cada anel do verme chamado lombriga há um verme completo, de sorte que uma lombriga representa uma série de seres semelhantes, constituindo verdadeira sociedade de cooperação vital. Cortado por anéis, o verme representa outros tantos indivíduos independentes. Na tênia – ou verme – solitária, a cabeça já é mais importante do que o resto, e possui, tal qual ocorre com as plantas, a faculdade de reproduzir o resto do corpo do qual tenha sido separada. A sanguessuga é igualmente um ser formado de indivíduos unidos e, cortada de cinco em cinco anéis, da operação resultam outras tantas sanguessugas. De igual modo que um galho rebrota a árvore, a perna do caranguejo ou a cauda do lagarto se reconstituem. Em realidade, os animais vertebrados (o homem, por exemplo) são compostos na sua árvore essencial (a medula espinal e seu prolongamento superior até ao cérebro) de segmentos justapostos, de centros nervosos, cada um dos quais dotado de alma elementar.

A lei de autoridade em ação sobre a Terra determinou, na série animal, uma ação preponderante. Sois constituídos por uma verdadeira multidão de seres grupados e submetidos pela atração plástica da vossa alma pessoal, a qual, do centro do ser, formou o corpo, desde o embrião, e reuniu em torno dele, no respectivo microcosmo, todo um mundo de seres destituídos ainda de consciência da sua individualidade.

Quœrens – No planeta de Orion, a Natureza é constituída, pois, em estado de república absoluta ?

Lúmen – República, sim, mas governada pela lei.

Quœrens – Quando, porém, um ser se encontra assim desagregado, de que modo pode, em seguida, reconstituir-se integralmente?

Lúmen – Pela vontade, e muitas vezes sem o menor esforço, por um desejo até furtivo. Por serem separadas da molécula cerebral, as corporais não deixam de lhe estar presas intimamente; a um momento dado, elas se reúnem e retomam cada qual o seu lugar. A molécula diretora atrai as outras a distância, com a mesma faculdade com que o ímã atrai a limalha de ferro.

Quœrens – Imagino, de boamente, ver todo esse exército liliputiano, surpreendido por um apito, comprimindo-se para o seu centro, organizar a reunião de todos os pequenos soldados, os quais, subindo agilmente uns sobre os outros, chegam, em um pestanejar de olhos, a reconstituir o homem que me haveis pintado. Em verdade, é preciso certamente ter deixado a Terra para observar semelhantes novidades.

Lúmen – Julgais ainda a Natureza universal pelo átomo que tendes sob os olhos, estais apto para compreender os fatos contidos na esfera das vossas observações. Mas, vo-lo repito, a Terra não é o tipo do universo.

Esse mundo de Theta Orionis, com os sete sóis rodantes, é povoado por um sistema orgânico análogo ao que vos defini. Vivi ali há vinte quatro séculos.

Foi lá que conheci o Espírito (encarnado no presente na Terra) que publica seus estudos sob o nome de Allan Kardec. Durante nossa vida terrena não nos recordamos de que éramos velhos conhecidos, mas nos sentíamos, por vezes, atraídos um para o outro por singulares aproximações de pensamentos. Agora que retornou, tal qual eu, ao mundo dos Espíritos, ele se lembra também da singular República de Orion e pôde revê-la. Sim, bem singular e, no entanto, real. Não tendes noção alguma, no vosso pobre planeta, da diversidade inimaginável que distingue os mundos, em sua geologia, na fisiologia orgânica, nas condições da habitabilidade, nas formas humanas, nas mentalidades. Ides julgar por uma série de exemplos muito variados. Estas conversações podem servir para esclarecer vosso conhecimento a respeito do fato geral, tão importante à concepção do Cosmos: a universal diversidade.

Viajei um grande número de países celestes diferentes, e atualmente estudo a Criação, sem me fixar em particular. Espero, no decurso do século próximo, reencarnar-me em um mundo dependente do cortejo de Sírius. A Humanidade ali é mais bela do que a da Terra. Os nascimentos lá se efetuam segundo um sistema orgânico menos doloroso, menos brutal e menos ridículo do que o processo terrestre; a beleza da virgem não se quebra pela fecundação; o amor e a maternidade não são contraditórios.

Mas, o caráter mais notável da vida nesse mundo é que o homem se apercebe das operações físico-químicas que se realizam no interior do corpo. Em vosso organismo terráqueo não vedes a maneira, por exemplo, pela qual os alimentos absorvidos são assimilados, o modo pelo qual o sangue, os tecidos, os ossos se renovam; todas as funções se executam instintivamente, sem que o pensamento as perceba. Também, de mil moléstias manifestadas, a causa é desconhecida e muitas vezes impossível de descobrir. Lá, a criatura sente os movimentos da sua manutenção vital, no mesmo grau em que sentis um prazer ou um sofrimento. De cada molécula do corpo parte, por assim dizer, um nervo que transmite ao cérebro as variadas impressões recebidas. O interior do corpo é tão visível quanto o exterior. A alma conhece absolutamente o corpo, que ela rege de modo soberano. Se o homem terrestre fosse dotado de um tal sistema nervoso, ao mergulhar olhares no organismo por intermédio dos nervos, veria de que maneira o alimento se transforma em quilo, este em sangue, o sangue em carne, em substância muscular, nervosa, etc.; ver-se-ia a si próprio. Mas, disso estais bem distante, por se achar o centro anímico de vossas percepções embaraçado pelos múltiplos nervos dos lóbulos cerebrais e mantilhas ópticas.

Esse meio de vista interior difere daquele de que vos falei, devido a olhos construídos de maneira diversa da dos vossos e que percebem o interior dos corpos. Aqui, neste caso de que trato, não é um órgão de visão, mas uma organização do sistema nervoso-cerebral. Pode-se ver sem o intermédio dos olhos.

Outro caráter precioso da organização vital do mundo siriano é que a alma pode mudar de corpo sem passar pela circunstância da morte, tantas vezes desagradável e sempre tristonha. Um sábio que trabalhou durante toda a vida para instrução da Humanidade, e vê chegar o fim dos seus dias, sem haver podido terminar seus nobres pensamentos, pode trocar de corpo com um jovem adolescente e recomeçar nova vida, mais útil ainda do que a primeira. Bastam, para tal transmigração, o consentimento do moço e a operação magnética de um médico competente. Vê-se, assim, por vezes, dois seres, unidos por laços doces e fortes de amor, operarem essa permuta de corpos depois de largo período de ventura: a alma do esposo vai habitar o corpo da consorte, e reciprocamente, para o resto da existência. O conhecimento íntimo da vida resulta incomparavelmente mais completo para cada um deles. Sobre a Terra, o homem e a mulher não podem compreender-se exatamente, por isso que não sentem, não vibram de modo idêntico.

Em um mundo que não é sem analogia com o precedente, muda-se de sexo, naturalmente, por evolução mesma do organismo, em uma idade que corresponde ao quarto decênio da Terra. Todos os seres são femininos até essa idade e, em seguida, por metamorfose – toda natural – se tornam do sexo masculino. Resulta de tal que os homens, fortes e robustos, amam sempre mulheres jovens. A mulher não pode envelhecer. E cada um conhece as sensações dos dois sexos.

Igualmente, observei que em um planeta, iluminado pelo brilhante sol hidrogenado Vega da Lira, o pensamento não é forçado a passar pela palavra para se manifestar. Quantas vezes não vos aconteceu, quando uma idéia luminosa ou engenhosa vem de brilhar em vosso cérebro, querer exprimi-la ou escrevê-la, e, durante o tempo em que começais a falar ou escrever, sentir a idéia dissipada, voejando, obscurecida ou metamorfoseada. Os habitantes desse planeta têm um sexto sentido, que se poderia denominar fonográfico, em virtude do qual, quando o autor a isso não se opõe, o pensamento se comunica ao exterior e pode ser lido sobre um órgão situado ao alto da fronte. Tais conversações silenciosas são muitas vezes as mais profundas e as mais precisas; são sempre mais sinceras.

Estais ingenuamente dispostos a crer que a organização humana não deixa coisa alguma a desejar sobre a Terra, e nisso pecais por falta de lógica, o que não é raro em vosso modo de pensar. Não lamentastes nunca ser obrigado a ouvir, a contragosto, palavras desagradáveis, maledicências ou calúnias, um discurso absurdo, um sermão oco de qualquer mérito, música de má qualidade, realejos manivelados sob vossas janelas, a barulheira de uma festa pública, etc.? Vosso vocabulário há por bem pretender que podeis fechar ouvidos a esses discursos, mas desgraçadamente isso não serve de nada. Não podeis fechar as orelhas com a mesma facilidade com que o fazeis aos olhos. Existe nisso uma grande lacuna. O ruído é um verdadeiro horror para os homens que trabalham com o Espírito. Visitei planetas, menos incompletos do que o vosso, onde a Natureza estabeleceu melhor o sentido auditivo. Existem ali muito menos cóleras ocultas do que entre vós outros; mas as divisões entre os partidos políticos são mais acentuadas, de vez que os adversários recusam ouvir e assim conseguem êxito, apesar dos esforços dos advogados mais loquazes.

Em um orbe do sistema de Aldebarã os olhos humanos são organizados de tal modo que se tornam luminosos durante a noite e iluminam à maneira de emanação fosforescente irradiada do seu estranho foco. Uma reunião noturna, composta de grande número de pessoas, oferece aspecto verdadeiramente fantástico, de vez que a claridade, e assim a cor dos olhos, variam segundo as paixões diversas que as animam. Demais, o poder desses olhares é tal que exerce influência elétrica e magnética de intensidade variável, e que, em certos casos, podem fulminar, fazer cair morta a vítima sobre a qual se fixe toda a energia da sua vontade.

Esse globo oferece ainda outra particularidade: pela densidade e constituição física da sua atmosfera, pode-se ver de cada ponto o conjunto do orbe, por efeito de miragem de refração. Os raios luminosos, por serem curvilíneos e fazerem a volta no referido planeta, trazem as imagens dos mais distanciados objetos. A esfera inteira apresenta à vista um plano horizontal. É a realização física da anedota do diabo mostrando a Jesus todos os reinos da Terra.

A variedade é imensa entre os mundos. Era um dos planetas do sistema alfa do Cisne, muito curioso sob este ponto de vista; os vegetais são todos compostos de substância análoga ao amianto, por isso que a sílica e o magnésio dominam na sua constituição. Os animais só se nutrem dessa substância. Quase todos os habitantes dali são incombustíveis.

Não longe de lá gravita um mundo onde a noite é quase desconhecida, embora não possua sol noturno, conforme ocorre no quadrilátero de Orion, nem satélites. As rochas das montanhas, cuja composição química lembra os fosfatos e os sulfuretos de barita, armazenam a luz solar recebida durante o dia e emitem no decorrer da noite uma tépida e calma fluorescência, que ilumina as paisagens com uma tranqüila e noturna claridade. Vêem-se ali também árvores curiosas que produzem flores brilhantes à noite, semelhando pirilampos: parecem-se a castanheiros cujas flores de neve fossem luminosas.

O fósforo desempenha importante papel nesse mundo tão singular; sua atmosfera é constantemente eletrizada; seus animais são luminosos, a exemplo das plantas, e sua Humanidade está em idênticas condições. A temperatura é ali muito elevada e os habitantes não tiveram quase motivo para inventar vestimentas. Ora, acontece que certas paixões ali se traduzem pela iluminação de uma parte do corpo. É, em ponto maior, a reprodução do que ocorre em vossas campinas terrenas, onde se assinalam, nas formosas noites de verão, os vaga-lumes, consumindo-se silenciosamente em amorosa flama.

O aspecto dos casais luminosos é curioso de observar à noite, nas grandes cidades. A coloração da fosforescência difere segundo os sexos, e a intensidade varia conforme as idades e temperamentos. O sexo forte acende uma flama vermelha, mais ou menos prolongada, e o sexo gracioso uma flama azulada, por vezes pálida e discreta. Os pirilampos da Terra servem apenas para dar idéia mui rudimentar da natureza das impressões experimentadas por aqueles seres especiais. Nos lampiros do Norte, que se encontram na França, os do sexo masculino têm asas e não são luminosos, enquanto que os do sexo contrário são luminosos, porém privados do privilégio aéreo. Já nos vaga-lumes da Itália os dois sexos têm a liberdade das asas e a faculdade de se tornarem luminosos. A Humanidade de que se trata aqui possui todas as vantagens deste último tipo. É um mundo de lucíolas humanas, de bela estatura.

Nesse mundo de que vos narro aspectos as noites são iluminadas por fosforescentes claridades. Visitei outros onde as noites não existem de modo algum, porque não são subordinados às alternativas diurnas e noturnas que se sucedem na Terra, e sim iluminados constantemente, em toda a sua esfera, por muitos sóis que não os deixam jamais privados de luz por um instante sequer. Lá, o sono não se manifesta, nem para os homens, nem para os animais, nem para as plantas. No vosso planeta, o sono, que consome a terça parte da existência, tem por origem primitiva o movimento de rotação da Terra, mergulhando sucessivamente as diferentes regiões do globo na luz solar ou na luz da Lua. Nesses orbes, de eternos dias, não se dorme nunca, e muita surpresa causaria lá saber-se da existência de Humanidade cuja vida, na razão de um terço, se escoa na letargia semelhante à morte.

O homem que viveu na Terra oito decênios, dormiu e perdeu quase três!

Certos caracteres fisiológicos da vida terrestre são encontrados entre muitas espécies de Humanidade siderais. Assim, da mesma forma que, na Terra, no mundo das formigas, o dia das suas estranhas núpcias aéreas acarreta o esgotamento e a morte de todos os do sexo masculino; de igual maneira que, no mundo das abelhas, os procriadores são impiedosamente sacrificados; do mesmo modo que, entre as aranhas, estes são devorados pelas companheiras, se não fugirem imediatamente; de igual forma que um grande número de insetos jamais vê a sua progenitura, e põem os ovos, previdentemente, em local onde os récem-vindos encontrem a primeira alimentação; por idêntico motivo, mundos existem onde a velhice é desconhecida: ardentes amores consomem, em fantástico delírio, todos os seres empenhados em fruir o momento de hoje, sem cogitar do desconhecido amanhã. O sexo ativo não vê o dia seguinte das núpcias; o sexo passivo, ovíparo, dorme o derradeiro sono, depois de haver assegurado a perpetuidade da espécie.

Esses recantos celestes, onde não se envelhece nunca, não são quiçá os mais mal aquinhoados. Enquanto que, na Terra, os tempos finais da idade avançada fazem saudade dos iniciais, suprimem as voluptuosas alegrias da juventude, trazem enfermidades, fazem lenta e tristemente descer ao túmulo; naqueles felizes mundos, a vida humana começa à maneira da dos insetos, primeiro humilde, grosseira, pesada, material (à semelhança das larvas e das lagartas), depois, passado ligeiro sono, dá lugar à expansão da força e da beleza, e, tal qual as borboletas aéreas e gentis, os humanos terminam sua existência no fogo das paixões superiores, na alegria e na luz. São planetas privilegiados, os da vida ascensional, enquanto que na Terra cada ser humano representa desgraçadamente o tipo da vida descontínua.

Um dos mundos mais graciosos que visitei tem por habitantes pássaros unicamente. Poder-se-ia chamar, com verdade, mundo dos pássaros.

Não há ali outras espécies vivas, salvo as borboletas e as flores voadoras. A evolução orgânica não conduz, lá, nem aos pesados quadrúpedes, nem aos saurianos, nem aos répteis, nem aos moluscos, nem aos peixes. É uma vida aérea, encantada, toda de movimento, de brilhantes colorações, de canção e de amor. Por toda parte ninhos, flores, asas. Nessas espécies aladas, a raça superior, a raça intelectual, a raça humana é verdadeiramente privilegiada. Ela não conhece da vida senão os mais delicados sentimentos do coração, luta apenas pelas volúpias e brilha eternamente na alegria e na luz. Não se discute nunca, mas se canta sempre. Em um sistema solar cujo foco central emite principalmente luz hidrogenada, na qual as radiações mais rápidas são preponderantes, os organismos humanos não têm a humilhação dos nossos, nisso que concerne às uniões amorosas. Não é vergonhoso ver, nos livros de Medicina da nossa pretensa civilização, agrupamentos de palavras tais, por exemplo órgãos gênito-urinários? É uma infâmia. No sistema de que vos dou notícia, só se poderá cogitar de órgãos gênito-cerebrais. Lá, tudo é nobre, tudo é divino, tudo é puro, e seria enorme surpresa ouvir-se falar das grosseiras associações da anatomia terrestre.

Nesse mundo, mais sutil do que o vosso, o organismo feminino não está sujeito aos períodos inconvenientes desagradáveis, e muitas vezes dolorosos, que fazem da metade das mulheres terrestres verdadeiras vítimas. As flores dão frutos na inalterável serenidade de encantadora primavera. Que variedade prodigiosa entre as diversas regiões do Cosmos!

Recordo haver chegado, certo dia, em uma viagem, buscando novos mundos, a um iluminado por uma espécie de sol crepuscular. Sombrio vale se estendia ante mim; estranho espetáculo se ofereceu aos meus olhares. Em árvores disseminadas pelos dois flancos do local, pendiam seres humanos envoltos em sudários. Estavam presos aos galhos pela cabeleira e assim dormiam no mais profundo silêncio. Mas, o que me havia parecido sudário era, em realidade, um tecido formado pelo alongamento dos seus próprios cabelos amalgamados e encanecidos. E porque me pasmasse ante essa situação, fui inteirado de que é aquele o processo de sepultamento e de ressurreição ali. Sim, nesse mundo, que pertence à constelação de Fênix, os seres humanos desfrutam da faculdade orgânica dos insetos do vosso planeta, que têm o dom de adormecer em estado de crisálida, para se transformarem em aladas borboletas. Vale isso por uma dupla raça humana, e os estagiários da primeira fase, os seres mais grosseiros e mais materializados, só aspiram a morrer, para que possam ressurgir na mais esplêndida das metamorfoses. O período anual desse mundo é um pouco mais longo do que os de Netuno e atinge aproximadamente dois séculos terrestres. Vive-se ali dois terços do ano em estado inferior, um terço (inverso) em condições de crisálida e, na primavera seguinte, os suspensos sentem insensivelmente a vida retornar em sua carne transformada; movem-se, despertam, deixam a carcaça na árvore e desprendem-se, seres alados maravilhosos, cigarras extraterrestres, arrebatando-se nas regiões aéreas, para viverem um novo ano fenixiano, isto é, os dois séculos do vosso tão efêmero planeta. Existem ali planetas cuja meteorologia, longe de ser incoerente e insuportável, qual a da Terra, está admiravelmente regulada, onde, por exemplo, chove somente durante a noite, aproximadamente a quinta parte do ano, em épocas fixas. Só de tal circunstância resulta imensa superioridade na organização dos atos da vida exterior; as cerimônias, as reuniões, as viagens, os passeios, as mais simples parcelas de recreio são ali estabelecidas de antemão, sem que os habitantes desse mundo se vejam expostos a todos os contratempos que constantemente perturbam os projetos terreais.

Mundos há onde os movimentos vitais, o respirar, a assimilação, os períodos orgânicos, o dia e a noite, as estações, o ano, são de extrema lentidão, embora o sistema nervoso dos humanos aí seja muito desenvolvido e o pensamento tenha prodigiosa atividade. A vida parece de duração sem fim. Os que morrem de velhice excedem um milênio, porém estes são raros, de modo que só alguns poucos puderam ser conservados nas memórias históricas dessa Humanidade. A guerra jamais foi ali inventada, de vez que só existe uma raça, um povo, um idioma único. A constituição natural dos organismos é notável: as doenças são quase desconhecidas e não existem ali médicos. Resulta que, para a intensa atividade cerebral, a duração da vida se torna uma perspectiva sem fim e não tarda a constituir pesado fardo. Também ali todo mundo sai da vida pela morte voluntária. Essa prática foi gradualmente insinuada nos costumes desde mui remota antiguidade, e os raros macróbios que, por um motivo qualquer, não a adotam, são considerados criaturas excepcionais, originais, mais ou menos extravagantes. A morte voluntária é a lei geral.

Enfim, falarei ainda do mais extraordinário mundo que imaginar se possa para o astrônomo, um mundo onde a noite seria sem estrelas e onde, conseqüentemente, a Ciência não pôde surgir? Essas qualidades de mundos também existem. São os que se acham situados em certas regiões da imensidade, de onde as estrelas se encontram distanciadas. Nenhuma fere a vista humana. Ficam todas para além do alcance dessa vista e o telescópio não foi ali inventado. Nenhum habitante desse mundo pode duvidar que existem. Também os cidadãos dessas moradas estão absolutamente certos de que são os únicos habitantes no Infinito. A organização política desses mundos é radicalmente teocrática.

Em nossa terceira conversação eu vos assinalei vibrações do éter que não podem ser percebidas pelos sentidos humanos terrestres: são raios invisíveis para nós outros. Minhas considerações teóricas resultaram de fatos práticos e reais para mim em minhas excursões intersiderais. Poderia citar mundos onde os humanos têm olhos que não enxergam nenhum dos raios do espectro solar que vossa vista percebe, desde o vermelho até o violeta, mas que vêem certos raios elétricos invisíveis para vós outros e para os quais o vidro é opaco, enquanto que a madeira, os tecidos e a carne são transparentes. Esses seres vêem principalmente o seu próprio esqueleto. A Natureza é, para tais olhos, toda diferente do que se apresenta para os vossos. Em uma floresta, eles não vêem as árvores, mas somente a seiva sob o aspecto de fontes que jorram. Em um canteiro de jardim, não vêem as flores, e sim filetes líquidos e emanações, formando para eles toda uma outra ordem de coisas. A luz, o calor e a eletricidade não são para os sentidos deles a mesma coisa que para os vossos representam. Seus olhos se tornam cegos para as vibrações compreendidas entre 450 e 750 trilhões, do infravermelho ao ultravioleta, porém se tornam clarividentes para as superiores a 750 trilhões até 2 sextilhões.

O corpo humano terrestre deve sua forma e seu estado ao meio atmosférico e às condições de densidade, peso e nutrição dentro das quais a evolução vital terrestre se exerceu. O ser humano provém da fusão de um microscópico corpúsculo masculino com um minúsculo óvulo feminino. Tal fusão dá lugar a um pequeno fruto, que se transforma em embrião, e neste aparecem gradualmente o local do coração, da cabeça, dos membros e dos diversos órgãos. O sistema nervoso desse embrião é comparável a irradiações de fios delicados, partindo de um ponto central que se tornará o cérebro. Sob a influência da luz solar, vibrações do ar, odores e sabores, um desses nervos se desenvolveu na periferia para formar o olho, primeiro informe, quase cego e rudimentar, dos trilobitas e dos peixes do período siluriano, e que afinal se tornou o admirável aparelho visual dos pássaros, dos vertebrados e do homem; o nervo auditivo foi desenvolvido pelos mesmos processos; o sentido do olfato e o do paladar marcharam paralelamente; estes dois últimos são os mais antigos, os mais necessários à vida, com o do tato, o mais remoto de todos e o mais primitivo. Por assim dizer, só dois sentidos põem o homem em relação com o mundo exterior: a vista e o ouvido, mas ainda é a vista que estabelece verdadeiramente a comunicação com o Universo.

Milhões de filetes nervosos vão do cérebro à carne, sem dar origem a nenhum sentido, salvo a tecla, por assim dizer, das sensações íntimas e pessoais, sendo que uma já foi até classificada de sexto sentido. Vós me entendeis.

Ora, não há razão alguma para tudo quanto se passou e estacionou no vosso minúsculo planeta, também se haja passado e estagnado de igual forma por toda parte.

E a prova é que, não há muito ainda, visitei dois mundos onde os seres humanos possuem dois sentidos a respeito dos quais não tendes a menor idéia da Terra.

Um desses sentidos poderia ser classificado de elétrico. Um dos filetes nervosos de que vos falei há pouco se desenvolveu, ramificou, multiplicado, numa forma de buzina, a qual, no escalpelo e no microscópio, mostraria tubos justapostos cuja extremidade exterior recebe os eflúvios elétricos e os transmite ao cérebro, de maneira quase idêntica à do vosso nervo óptico, quando transmite as ondas luminosas, e à do auditivo, com relação às sonoras.

Os entes munidos de tal sentido percebem o estado elétrico dos corpos, dos objetos, das plantas, das flores, dos animais, da atmosfera, das nuvens, o que constitui para eles um manancial de conhecimentos ocultos para vós outros.

As sensações orgânicas de tais seres são de todo diversas das vossas. Seu modo de existência difere também completamente. A causa da formação e do desenvolvimento desse sentido é o estado de saturação elétrica de tal mundo. A tensão elétrica não é bastante forte sobre a Terra para exercer ação importante na organização dos seres. Não é, entretanto, nula, e disso se tem prova na crepitação, por vezes fosforescente, da cabeleira de certas mulheres, na sua sensibilidade especial, na irritabilidade nervosa dos contactos no meio da atmosfera seca e fria dos países muitas vezes visitados pelas auroras boreais. Ditos efeitos são encontrados, mais nítidos, em certos peixes elétricos, da classe da tremelga (torpedo), do ginoto (enguia), do siluro (bagre) e seus congêneres. Essa fauna elétrica, que não pôde no vosso planeta atingir todo seu desenvolvimento, representa o estado normal em certos mundos. Lá, o sentido principal é o elétrico; a vista fica em segundo plano.

No mundo número dois, o que mais me aturdiu foi a existência de um outro sentido ainda, muito diferente: o do rumo. Outro filete nervoso, partindo do cérebro, deu lugar a uma espécie de orelha dotada de ligeiras asas por intermédio da qual a criatura percebe a direção. Sabe-se, assim, sem o auxílio da vista, se se marcha para o norte, sul, este ou oeste. A atmosfera está repleta de emanações que vos são desconhecidas. Esse sentido singular se orienta sem erro possível. Também serve para descoberta de coisas ocultas no interior do solo e dá diversas noções da Natureza que para vós outros são absolutamente interditas.

Poderia assim mostrar-vos que nos canteiros do jardim da Criação existe infinita diversidade, e que seria necessário uma eternidade para saborear os respectivos frutos e flores.



Quœrens – Meu caro mestre, ainda sou muito terrestre, muito sem dúvida, devido à minha juventude, e longe de atingir essa metade da vida de onde começa a descida subseqüente, feita com serenidade, rumo às praias eternas em que tantas promessas nos aguardam. É isso que explica certamente a razão pela qual este planeta me parece bom e a sua Humanidade verdadeiramente bem sucedida. Ontem ainda, em Paris mesmo, eu expunha as vossas teorias uranográficas a uma senhorita, que as escutou com interesse. Ela não me fez objeção alguma; simplesmente me olhava muito, com todo o esplendor de uma beleza admirável. E, mau grado meu, contemplando-a, dizia a mim mesmo: Podem elas ser mais belas em outros mundos do que aqui?

Lúmen – Sim, meu amigo, sois muito terrestre. Felizes os vossos olhos, por serem tão imperfeitos e não poderem perceber mais do que a superfície desses corpos! Não quero dissecar o vosso poético encantamento. Além disso, eu o confesso, à Natureza terreal não falta harmonia. Mas essa harmonia existe em todos os mundos, muitas vezes em graus incomparavelmente superiores. Os lobos e as lobas se acham belos e os hipopótamos se buscam à noite, sob o luar argênteo, no lodo dos pântanos selvagens. Tudo é relativo e um homem do sistema de Arcturus desdenharia absolutamente a mulher mais formosa da Terra.

Mas, meu caro amigo, não me é possível entretê-lo com as curiosidades todas do Universo. Que vos baste haver levantado o véu para vos permitir entrever a incomensurável diversidade que existe nas produções animadas de todos os sistemas disseminados no Espaço.

Eis que bem depressa vem a aurora, que põe em fuga os Espíritos, e vai fazer desmaiar a nossa palestra, tal qual a luz de Vênus se esmaece à aproximação do dia terrestre. Desejo agora acrescentar aos aspectos precedentes uma observação assaz curiosa, inspirada pelas mesmas contemplações.

Ei-la: Se um Espírito sutil partisse da Terra no momento da fulguração de um relâmpago e viajasse durante uma hora ou mais tempo com a luz, veria o relâmpago durante tanto tempo quanto o olhasse. Esse fato é estabelecido segundo os princípios já expostos. Se, porém, em vez de se distanciar exatamente com a velocidade da luz, o fizesse com uma rapidez algo inferior, eis a seguir o que poderia observar.

Admitamos que essa viagem de afastamento da Terra, durante a qual o Espírito sutil olha o relâmpago, dure um minuto, e suponhamos que o clarão perdure por espaço de um décimo de segundo. O contemplados continuará enxergando o relâmpago durante seiscentas vezes a sua duração; mas, se em vez de voar parelho cem a velocidade da luz, mover-se mais lentamente, e, por exemplo, empregar um décimo de segundo para chegar ao mesmo ponto, não verá sempre o mesmo momento do relâmpago, e sim sucessivamente os diversos momentos que constituíram a duração total do relâmpago, que foi igual a um décimo de segundo. Naquele minuto inteiro, teria tido vagar para ver, primeiro, o começo do clarão, e de analisar o desenvolvimento, as fases e a continuação, até ao fim. Concebei que estranhas descobertas poderiam ser feitas na natureza íntima do relâmpago, aumentado 600 vezes na ordem de sua duração! Que pugnas espantosas teríeis tempo de perceber em suas flamas! Que pandemônio! Que sinistro de átomos! Que mundo oculto, por sua fugacidade, aos olhos imperfeitos dos mortais!

Se pudésseis ver pelo pensamento, separar e contar os átomos que constituem o corpo de um homem, esse corpo desapareceria para vós, porque há nele bilhões e bilhões de átomos em movimento e, para o olhar do analista, o conjunto se tornaria uma nebulosa animada pelas forças da gravitação. Swedenborg não imaginou que o Universo, visto em conjunto, tem a forma de colossal gigante? É o antropomorfismo. Mas tudo se assemelha. O que sabemos de mais seguro é que as coisas não são tal qual nos parecem, nem no espaço, nem no tempo. Voltemos, porém, ao relâmpago retardado.

Quando viajais com a velocidade da luz, vedes constantemente o aspecto existente no momento da partida. Se permanecêsseis durante um ano levado por essa mesma rapidez, teríeis ante os olhos, durante um ano, o mesmo acontecimento. Mas, se para melhor apreciar um acontecimento que não houvesse durado mais de alguns segundos (o desabar de um monte, uma avalanche, um tremor de terra, por exemplo), o Espírito sutil, posto em ação por mim, parte de modo a apreciar o começo da catástrofe e, diminuindo um pouco a marcha em relação à da luz, de modo que não veja constantemente o princípio, mas o imediato momento que o seguiu, depois o segundo, e assim sucessivamente, de maneira que não chegue ao fim antes de uma hora de exame, e seguindo quase a luz, o acontecimento dura para ele uma hora, ao invés de alguns segundos; ele vê os penhascos ou as pedras suspensos no ar e pode, assim, render-se conta do modo de produção do fenômeno e das peripécias retardadas. Já podeis, nas possibilidades científicas terrestres, apanhar fotografias instantâneas dos momentos sucessivos de um fenômeno rápido, tais o relâmpago, um bólido, as vagas do mar, erupções vulcânicas, a queda de um edifício, e fazê-los em seguida passar aos olhares com lentidão calculada ante a persistência retiniana. De igual maneira, mas em sentido contrário, podeis fotografar o aparecimento da flor em botão até seu total desabrochar e daí até ao fruto, o desenvolvimento de uma criança, desde o nascer até a idade madura – e projetar essas fases sobre um fundo apropriado, fazendo desfilar em alguns segundos a vida de um homem ou de uma árvore.

Li, em vosso pensamento, haverdes comparado esse processo ao de um microscópio que aumentasse o tempo. É exatamente isso: vemos assim o tempo amplificado. O processo não pode receber rigorosamente a denominação de microscópio, mas, mais depressa, o de cronoscópio, ou o de crono-telescópio (ver o tempo de longe).

A duração de um reino poderia, pelo mesmo processo, ser aumentada segundo o arbítrio de um partido político. Assim, por exemplo, Napoleão II, tendo reinado apenas três horas, poderia ser visto reinar durante três lustros sucessivamente, dispersando-se os 180 minutos constitutivos das três horas ao longo dos 180 meses, com o distanciar-se da Terra em velocidade um pouco inferior à da luz, de maneira que, partindo no primeiro minuto em que as Câmaras reconheceram Napoleão II, não se chegue ao derradeiro minuto de seu reinado fictício antes de três lustros. Cada minuto seria visto durante um mês, cada segundo por espaço de doze horas.

Ademais, a medida do tempo não é essencialmente relativa e apropriada às nossas impressões? Isso, porém, não é mais do que um desvio no itinerário da nossa viagem.

Acompanhando-me em Espírito nessa excursão intersideral, passastes algumas horas longe da Terra. É conveniente isolar-se, por vezes, assim, pelas celestes veredas. A alma tem maior posse de si mesma e, nessas reflexões solitárias, penetra profundamente através da realidade universal. A Humanidade terráquea, já compreendestes, é, tanto no moral quanto no físico, a resultante de forças virtuais da Terra. A forma humana, o talhe e o peso dependem dessas forças. As funções orgânicas são determinadas pelo planeta. Se a vida está repartida, entre vós outros, em trabalho e repouso, em atividade e em sono, isso se deve à rotação do globo, que produz a noite: nos mundos luminosos, naqueles em que um hemisfério é eternamente iluminado por um sol ao qual apresenta constantemente a mesma face, e sobre aqueles que são perpetuamente alumiados por vários sóis alternativos, não se dorme. Se sois forçados a comer e beber, tal é devido à condição imperfeita da vossa atmosfera. Os corpos dos seres dispensados da necessidade de comer não têm a mesma vossa construção, pois dispensam estômago e ventre. Os olhos terrestres vos mostram o Universo sob um determinado aspecto; o olhar saturniano o vê de modo diferente, pois os dali são dotados de sentidos que percebem outras coisas vedadas a vós outros, de igual modo que não podem ver o que vedes na Natureza.

Assim, cada mundo foi, é e será habitado por várias raças, isto é, essencialmente diversas, e que, por vezes, não são vegetais, nem animais. O tipo Homem não é universal. Há seres pensantes de todas as formas possíveis, de todas as dimensões, de todos os pesos, cores, sensações e caracteres. O Universo é um infinito. Nossa existência terrestre é apenas uma fase nesse infinito. Diversidade inesgotável enriquece o campo maravilhoso do sempiterno Semeador.

O papel da Ciência é estudar o que os sentidos terreais são capazes de apreender. O da Filosofia está em formar a síntese de todas essas noções restritas e determinadas e desenvolver a esfera do pensamento. Que tarefa seria, se eu vos pretendesse entreter, não somente com a variedade física, mas também com a diversidade intelectual e moral das Humanidades! As variantes seriam também consideráveis; mas compreenderíeis menos ainda.

Para vos assinalar apenas um exemplo, observai que, em vossa Humanidade terrestre, o valor intelectual e moral para nada serve, não é aplicado ao progresso, resulta nulo, não tem futuro, se aquele que o possui não dispuser da vontade e do poder de o colocar em evidência, seja pela vitória das suas idéias, seja por interesse pessoal. Jamais se vai buscar o mérito oculto. É mister que se patenteie ele próprio e se avilte à luta contra a intriga, a cupidez e a ambição. É a antítese do que devera acontecer. Resulta que os mais altos valores permanecem desconhecidos e improdutivos, e que as honras sociais e a fortuna sejam quase sempre conquistadas pelos intrigantes sem valor.

Pois bem, ainda há pouco, em uma das regiões mais luminosas da Via-Láctea, um sistema de mundos que visitei me apresentou em todos os seus orbes, sem exceção, uma ordem intelectual absolutamente diversa. Lá, a organização dos Estados é constituída de tal sorte, que os homens escolhidos, pelas suas virtudes, para o governo dos cidadãos, não têm outras funções além de irem oferecer aos valores intelectuais as posições que lhes devem pertencer. Busca-se descobrir as inteligências, tal qual vós outros procurais encontrar ouro e diamantes. É para proveito da Humanidade. Não se criaram academias, mas não se conceberia que um homem de valor, em lugar de ser por elas solicitado, estivesse na contingência de perder seu tempo em visitas de lisonja, para se ver em seguida preferido muitas vezes um nulo dourado que soube captar os sufrágios. É verdade que o referido sistema de mundos está em grau intelectual muito superior.

Acrescentarei ainda, pois falamos da diversidade moral das Humanidades, que um dos planetas que me pareceu dos mais felizes é um orbe do grupo de Vega, onde a hidra da Guerra (que devora entre vós outros 1.100 homens por dia, desde há 50 séculos) foi decapitada de modo bem simples. Recentemente ouvi contar a história do que ocorreu.

Um dia, as Câmaras dos diferentes povos (porque havia também nações separadas) votaram a mesma lei, declarando que os interesses das nações entram por vezes em rivalidades inevitáveis, cabendo à sorte das armas ainda em certas circunstâncias decidir; importava considerar, no entanto, que os povos são os verdadeiros soberanos e constituem a base fundamental da Humanidade, e que era inútil, oneroso e inconveniente derramar sangue de um tão grande número de homens. Foi decidido que se limitaria daí em diante o resultado desses choques a um combate único, singular, entre os chefes de Estado, e que, quando a honra e a dignidade dos povos o exigissem, os dois chefes das nações beligerantes se defrontariam em duelo público, o qual somente cessaria com a morte de um dos ditos representantes oficiais das pátrias em rivalidade.

A lei foi aplicada em todo o seu rigor. E, após dois ou três duelos, e em menos de meio século, os chefes dos diferentes países entenderam-se para assegurar uma confederação amiga de Estados-Unidos de todos os povos do planeta, sob a previdência desses representantes oficiais, formando o Grande Conselho Internacional da República Universal, e a guerra desaparecia para sempre. A paz reina ali desde há 100 séculos. Em vez de serem regidas por força bruta, onerosa para todos e de uma selvageria bestial, as rivalidades de interesses são discutidas em Conselhos de criaturas razoáveis.

Há, meu caro amigo terrestre, mundos incomparavelmente superiores à Terra, sob o ponto de vista da sabedoria e da felicidade, e também sob o aspecto das condições físicas e orgânicas de que falamos há pouco. Estas narrativas de além-túmulo não têm tido outro intuito senão dar-vos uma exposição sumária das realidades siderais desconhecidas da Terra.

Agora, tendes uma idéia do posto infinitamente pequeno, porém real, ocupado pela Humanidade terrestre no Universo; sabeis elementarmente o que é o Céu, e bem assim o que é a Vida... e o que é a Morte.

A conclusão destas palestres, meu caro Quœrens, reside toda ela no seu princípio. Quis que soubésseis que a lei física da transmissão sucessiva da luz no Espaço é um dos elementos fundamentais das condições da vida eterna. Por essa lei, todo acontecimento é imperecível e o passado resulta presente. A imagem da Terra de há sessenta séculos está atualmente no Espaço, à distância que a luz percorreu nesses sessenta séculos; os mundos situados em tal região vêem à Terra daquela época. Nós outros podemos rever a nossa própria existência diretamente, e nossas diversas existências anteriores: basta para tanto estar à distância conveniente dos mundos onde houvermos vivido. Há estrelas vistas da Terra que não existem mais, por isso que extintas, depois de haverem emitido os raios luminosos que agora somente vos chegam; de igual modo que poderíeis receber a voz de um homem distante, o qual poderia estar morto no momento de se lhe ouvir a voz, dada a hipótese de ser acometido de apoplexia imediatamente depois de haver projetado um grito. Assim, estas conversações estabeleceram que os acontecimentos do passado existem sempre, levados no éter do Espaço infinito.

Sinto-me feliz por me haver esse quadro permitido traçar ao mesmo tempo um panorama da diversidade das existências planetárias, e bem assim das inúmeras formas vivas desconhecidas da Terra. Aqui ainda, as revelações de Urânia são mais vastas e mais profundas do que as de todas as suas irmãs. A Terra não passa de um átomo no Universo.

Detenho-me aqui; todas essas numerosas e diversas aplicações das leis da luz vos eram desconhecidas. Na Terra, nessa caverna obscura, tão judiciosamente qualificada por Platão, vegetais em plena ignorância das gigantescas forças em ação do Universo. O dia virá em que a ciência física descobrirá na luz o princípio de todo o movimento e a razão íntima das coisas. Já, desde há algum tempo, a análise espectral tornou possível identificar, no exame de um raio luminoso vindo do Sol ou de uma estrela, as substâncias que constituem esse Sol e essa estrela; já podeis determinar, através de uma distância de bilhões e trilhões de quilômetros, a natureza dos corpos celestes, dos quais recebeis apenas o raio luminoso! O estudo da luz vos prepara resultados mais magníficos ainda, na ciência experimental e em suas aplicações à filosofia do Universo.

Mas, eis que a refração da atmosfera terrestre estende para além do zênite a luz emanada do vosso Sol. As vibrações do dia impedem me comunique por mais tempo convosco...

Adeus, meu digno amigo. Adeus! ou antes, até breve! Talvez regresse algumas vezes para conversar ainda com o vosso Espírito, para demonstrar que jamais vos esqueço. Depois, mais tarde, quando a hora da vossa alforria terrestre houver soado à sua vez, quando o vosso corpo adormecer no derradeiro sono neste medíocre planeta, eu virei ante vosso Espírito, e faremos então uma viagem real através dos inenarráveis esplendores da imensidade. Nos sonhos mais temerários da vossa fantasia não formareis jamais uma idéia, sequer aproximada, das estupendas curiosidades, das maravilhas inimagináveis que vos aguardam.
FIM

Notas:


1Escrito em 1866. Publicado pela primeira vez na Revista do Século XIX, de l de Fevereiro de 1867. Desenvolvido, depois, pelas aplicações sucessivas do mesmo princípio de óptica transcendente.

2A Anatomia fisiológica transcendente explicará talvez esse fato, propondo admitir que uma espécie de punctum cœcum se desloca para disfarçar o objeto que não mais se deseja ver.

3Ninguém ignora que, quanto mais distante se encontra um objeto, mais ele parece menor. O que é visto no ângulo de um segundo, está distante 206.265 vezes do seu tamanho natural, qualquer que seja o objeto, pois existindo 1.296.000 segundos em uma circunferência, a relação desta para o diâmetro é de 3,14159, e

1.296.000 / (3,14159 x 2) = 206.265

A estrela Capela não divisando o meio diâmetro da órbita terrestre senão sob um ângulo 22 vezes menor, sua distância é 22 vezes maior; ela é, conseqüentemente, de 4.484.000 vezes o raio da órbita terrestre. As medidas micrométricas futuras poderão modificar as cifras desta paralaxe, mas em nada alterarão o princípio que serviu de base ao presente livro.


4Escrita em 1867.

5Esta concepção da história retrospectiva, dos acontecimentos revolvidos, foi assinalada por Henrique Poincaré em suas sábias dissertações matemáticas. Podem-se ler as linhas seguintes em sua obra “Ciência e Método” (págs. 71-72), publicada, em 1908:

As leis da Natureza ligam o antecedente ao conseqüente, de tal sorte que o antecedente é determinado pelo conseqüente tão bem quanto o conseqüente pelo antecedente. Flammarion havia imaginado outrora um observador que se distanciasse da Terra com velocidade maior do que a da luz, para o qual o Tempo teria mudado de significação e a história se tornaria retrospectiva – Waterloo precedendo Austerlitz. Para tal observador os efeitos e as causas seriam intervertidos.

E mais adiante (pág. 83):

Não estamos no final dos paradoxos. Retomemos a ficção de Flammarion, aquela em que o homem anda mais rapidamente do que a luz e para quem o Tempo mudou de símbolo; para ele todos os fenômenos pareceriam devidos ao acaso. Que quer isso dizer? Para Lúmen, pequenas causas pareceriam produzir grandes efeitos. Que ocorreria quando grandes causas gerassem pequenos efeitos? Eis a hipótese em que não atribuiríamos o fenômeno ao acaso, enquanto que Lúmen, precisamente ao contrário, tê-lo-ia por fruto do acaso. Ele veria surgir um mundo cada vez mais variado de uma espécie de caos primitivo; as mudanças que observasse seriam para ele imprevistas e impossíveis de prever e pareceriam oriundas de não-sei-que capricho; mas, este capricho seria diferente do nosso acaso, por isso que rebelde a toda lei, enquanto que o nosso acaso teria ainda as suas. Todos esses pontos demandariam longos desenvolvimentos, que ajudariam talvez a compreender a irreversibilidade do universo. – Henri Poincare.



6Escrita em 1867.

7Opinião pessoal de Lúmen.



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