Camille Flammarion Narracoes do Infinito



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Terceira narrativa 6

Homo homunculus


Quœrens – Eu vos escutei com interesse, ó Lúmen!, sem estar, eu o confesso, inteiramente persuadido de que tudo quanto tivestes a bondade de me narrar seja realidade absoluta. Estou sob a impressão de um possível vôo imaginativo. Em verdade, é muito difícil crer que se possam ver tão distintamente todas as coisas. Quando há nuvens, por exemplo, não podeis observar através delas o que se passa na superfície da Terra. O mesmo ocorre do interior das casas.

Lúmen – Desenganai-vos, meu amigo: as ondulações do éter atravessam obstáculos que poderíeis supor intransponíveis. As nuvens são formas de moléculas entre as quais um raio de luz pode muitas vezes passar. E a luz não é o que ela parece ser: raios invisíveis para os vossos olhos atravessam os corpos opacos e certos aspectos da Terra poderiam, mesmo através das nuvens, levar sua fotografia ao longe no Espaço. Tal irradiação é um movimento vibratório do éter; pode ser visto por outro processo que não o exercitar da retina e do nervo óptico. As vibrações do éter são perceptíveis por outros sentidos que não os vossos. Se for a derradeira objeção que tendes a fazer, confessemos estar longe de irrespondível.

Quœrens – Tendes particular maneira de resolver todas as dificuldades. Talvez seja isso um privilégio dos seres espirituais. Tive sucessivamente que admitir vosso transporte a Capela, com velocidade superior à da luz; que chegastes a um mundo independentemente de reencarnar ali; que vossa alma permanece liberta de qualquer invólucro corporal; que vossa percepção ultraterrestre é bastante poderosa para distinguir desde o alto tudo quanto se passa aqui; que podeis avançar ou recuar no Espaço, a vosso arbítrio; enfim, que as próprias nuvens não constituem empecilho a que possais distinguir a superfície do nosso globo. Devemos convir que em tudo isso há bem grandes dificuldades para a compreensão.

Lúmen – Quanto sois terrestre ainda, meu velho amigo, e quanto vos surpreenderíeis agora, se vos demonstrasse a infantilidade dessas objeções, e bem assim que quaisquer outras opostas nesse sentido seriam puros efeitos da vossa ignorância nativa! Que pensaríeis, se vos dissesse não existir um entre os homens que tenha uma idéia, ao menos, do que se passa sobre a face da própria Terra, e que nenhum compreende a Natureza?

Quœrens – Em nome das indiscutíveis verdades da ciência moderna, eu ousaria supor ser vossa intenção impor...

Lúmen – Deus seja louvado! Escutai, meu amigo. As maravilhosas descobertas da ciência contemporânea deveriam abrandar a esfera das vossas concepções. Vindes de descobrir a análise espectral! Pelo exame de modesto raio de luz lançado de longínqua estrela, constatais que elementos constituem essa estrela inacessível e lhe alimentam o fulgor. Aí está, meu jovem irmão espiritual, um acontecimento mais estupendo – por si só – do que todas as conquistas dos Alexandres, dos Césares, dos Napoleões; do que todas as descobertas dos Ptolomeus, dos Colombos, dos Gutenbergs; do que todas as bíblias dos Moisés, dos Confúcio, dos Jesus.7 Pois quê! imensidades cavam abismos que vos separam de Sírio, Arcturus, Vega, Capela, de Castor e Pólux, e vós analisais as substâncias constitutivas desses sóis, parecendo que os pegais nas mãos e os submeteis ao cadinho do laboratório. E vos recusais a admitir que, por processos de vós desconhecidos, a visão da alma possa apreender, por ela mesma, o aspecto luminoso de um mundo distante e nele distinguir os mínimos detalhes? O telégrafo leva em um instante inapreciável vosso pensamento da Europa à América através dos abismos do Oceano; dois interlocutores conversam em voz baixa a milhares de quilômetros de distância, e não quereis admitir minhas comunicações somente porque não as compreendeis de todo, completamente? E compreendeis de que modo o despacho voa e se transmite? Não, não é verdade? Deixai, pois, de conservar dúvidas que nem mesmo têm o valor de ser científica.

Quœrens – Minhas objeções, meu caro mestre, não possuem outro intento que obter novas luzes para minha inteligência. Estou longe de negar a realidade de tudo quanto me fizestes bondosamente conhecer; mas, procuro adquirir uma idéia racional e exata.

Lúmen – Ficai certo, meu amigo, de que nunca me formalizo, de modo algum, e para elevar ao meu grau a esfera das vossas concepções posso, imediatamente, abrir vosso olhar ante a insuficiência das vossas faculdades terrestres, e sobre a pobreza fatal da ciência chamada positiva, convidando-vos a refletir em que as causas das vossas impressões são unicamente modalidades de movimento, e que quanto orgulhosamente se denomina ciência não passa de percepção orgânica muito limitada. A luz, por intermédio da qual vossos olhos enxergam, o som, veículo para que vossas orelhas ouçam, são diferentes modos de movimento que vos impressionam; os odores, os paladares, etc., são emanações que vêm chocar em nosso nervo olfativo ou em nosso paladar. É ainda movimento vibratório que se transmite ao cérebro. Podeis apenas apreciar alguns desses movimentos através dos sentidos de que fostes dotados, principalmente pela vista e pelo ouvido. Vós outros acreditais (ingenuamente) ver e compreender a Natureza? Não representa nada, quanto alcançais. Recebeis alguns dos movimentos em atividade sobre o vosso átomo sublunar: eis tudo. Fora das impressões que apreendeis há uma infinidade de outras que não podeis alcançar.

Quœrens – Perdoai, mestre! porém esse novo aspecto da Natureza não me parece bastante claro para que o possa bem compreender. Detalhai...

Lúmen – O aspecto, para vós, efetivamente é novo, mas uma reflexão atenta fará que o assimileis. O som é formado por vibrações que, executando-se no ar, vêm ferir a membrana do vosso tímpano acústico e vos dão a impressão de tons diversos. O homem não percebe todos os sons. Quando as vibrações são muito lentas (aquém de 40 por segundo), o som é muito baixo; a orelha não o apreende. Quando as vibrações são demasiado rápidas (acima de 36.000 por segundo), o som se torna muito agudo: vosso ouvido não o capta mais. Acima ou abaixo desses dois limites do organismo humano, existem ainda vibrações perceptíveis por outros seres, certos insetos, por exemplo. Os mesmos raciocínios são aplicáveis à luz. Os diferentes aspectos desta, as nuanças e as cores dos objetos são identicamente devidos a vibrações que tocam vosso nervo óptico e nele produzem a impressão de intensidades diversas da luz. Vossos olhos não vêem tudo quanto poderia ser divisado por outros órgãos. Quando as vibrações são muito lentas (inferiores a 458 trilhões por segundo), a luz é bastante fraca: vosso olhar não a vê. Quando muito velozes (para além de 727 trilhões por segundo), a luz ultrapassa a vossa faculdade orgânica de percepção e se torna invisível para vós outros. Acima e abaixo dessas duas fronteiras, vibrações etéreas existem perceptíveis por outros seres. Não conheceis, pois nem vos é possível conhecer, senão as impressões que possam fazer vibrar as cordas da vossa lira corporal que se chamam nervo óptico e nervo auditivo.

Imaginai, por um instante, a extensão das coisas imperceptíveis para vós outros. Todos os movimentos ondulatórios que existem no universo, entre aqueles que dão a cifra de 36.000 e os que fornecem a de 458 trilhões (458.000.000.000.000) na mesma unidade de tempo, não podem ser percebidos, nem vistos por vós, e fatalmente permanecerão desconhecidos às vossas faculdades de apreensão. Experimentai medir tal escala. A ciência contemporânea começa a penetrar um pouco por esse mundo invisível, e sabeis que acabam de mensurar as vibrações inferiores a 458 trilhões (os raios caloríficos, invisíveis, infravermelhos) e as superiores a 727 trilhões (raios químicos, também invisíveis ultravioleta). Os métodos científicos, porém, têm capacidade apenas para estender um pouquinho a esfera da percepção direta, sem poder elastecê-la muito. O homem permanece isolado no meio de infinito.

Mais ainda: inumeráveis outras vibrações existem na Natureza, as quais, não estando em correspondência com a vossa organização e não podendo ser recebidas por vós, permanecem sempre de vós ignoradas. Se tivésseis outras cordas em vossa lira, dez, cem, mil..., a harmonia da Natureza se traduziria mais completamente, fazendo que entrassem em vibração, cada uma na gama correspondente. Poderíeis atingir uma grande quantidade de fatos, que se desdobram em vosso redor sem que deles possais adivinhar a existência sequer, e, ao invés de duas notas dominantes, seria possível formar idéia do conjunto do concerto. Sois, porém, de lastimável pobreza, da qual não deveis duvidar, pois que é pobreza geral, em tal grau, que impossível se torna a compareis com a riqueza de certos seres superiores aos habitantes da Terra.

Os sentidos que possuís bastam para vos indicar a existência possível de outros, não somente mais poderosos, porém até de espécie completamente diversa. Pelo sentido do tato, por exemplo, conseguis identificar a sensação do calor, mas é fácil imaginar a existência de um sentido especial (análogo àquele pelo qual a luz vos dá o aspecto dos objetos exteriores), tornando o homem capaz de julgar da configuração, da substância, da estrutura interna e das outras qualidades de um objeto, pela ação das ondas caloríficas deste emitidas. Idêntico raciocínio poderia ser formulado com relação à eletricidade. Podeis de igual modo idealizar a existência de um sentido que, sendo para os olhos o mesmo que o espectroscópio é para o telescópio, desse o conhecimento dos elementos químicos dos corpos.

Assim, já sob o ponto de vista científico tendes bases suficientes para imaginar dos modos de percepção de todo diferentes dos característicos da Humanidade terrestre. Tais sentidos existem em outros mundos, e bem assim uma infinidade de maneiras de perceber a ação das forças da Natureza.

Quœrens – Confesso, ó mestre, singular e nova claridade se fez em meu entendimento e as vossas explicações valeram para mim por uma interpretação genial da realidade. Havia eu imaginado já a possibilidade de semelhantes coisas, mas não as pude adivinhar, envolto que me encontro ainda pelos sentidos terrestres. Bem certo é que se necessita estar fora do nosso círculo para julgar verdadeiramente o conjunto das realidades. Assim, dotados que somos de alguns sentidos restritos, podemos conhecer apenas os fatos acessíveis à percepção desses sentidos. O resto permanece, naturalmente, ignorado. E será tal resto muito, ao lado do que conhecemos?

Lúmen – Esse resto é imenso, e quanto sabeis é quase nada. Não somente vossos sentidos deixam de perceber os movimentos físicos que, a exemplo da eletricidade solar e terrestre (cujos eflúvios se cruzam na atmosfera), o magnetismo dos minerais, das plantas e dos seres, as afinidades dos organismos, etc., se tornam invisíveis para vós; mas ainda percebem menos os movimentos do mundo moral – as simpatias e antipatias, os pressentimentos, as atrações espirituais, etc. Eu vos digo, em verdade: quanto sabeis, e tudo que pudésseis conhecer, por intermédio dos sentidos terreais, é nada em face do que existe.

Esta verdade é tão profunda que se poderia fazer coexistirem na Terra seres substancialmente diferentes de vós, desprovidos de olhos e orelhas, e de qualquer dos vossos sentidos, mas dotados de outros, capazes de perceber o que não percebeis, vivendo no mesmo mundo convosco, capazes de conhecer o que não podeis conhecer e, ainda, formando da Natureza uma idéia completamente estranha à que formais.



Quœrens – Isso agora excede de todo a minha mentalidade.

Lúmen – E melhor ainda, ó meu terrestre amigo, posso acrescentar, com toda sinceridade, que as percepções por vós recebidas, que constituem a base da vossa ciência, não são, mesmo, percepções da realidade. Não. Luzes, claridades, cores, aspectos, tons, ruídos, harmonias, sons diversos, perfumes, sabores, qualidades aparentes dos corpos, etc., não são outra coisa além de formas. Essas modalidades entram em vosso pensamento pelos portais dos olhos e das orelhas, do olfato e do paladar, e vos apresentam aparências, mas não a essência mesma das coisas... A realidade escapa inteiramente ao vosso Espírito e estais em absoluto incapazes de compreender o Universo... A matéria, ela própria, não é o que julgais. Ela não tem absolutamente nada de sólida; vosso corpo mesmo, um pedaço de ferro e de granito não têm mais solidez do que o ar que respirais. Tudo isso é composto de átomos, que não se tocam sequer e se acham em perpétuo movimento. A Terra, átomo do Céu, corre no Espaço com a velocidade de 106.000 quilômetros por hora, ou de oito vezes o seu diâmetro; mas, relativamente às suas dimensões, cada um dos átomos que constituem vosso próprio corpo e circulam em vosso sangue corre com velocidade ainda maior. Se vossos olhos fossem bastante capazes de bem observar essa pedra, eles não a veriam mais, porque a atravessariam. Reconheço, porém, na perturbação íntima do vosso encéfalo, concentrado em circunvoluções fechadas, e nas agitações fluídicas que atravessam vossos lóbulos cerebrais, que não compreendeis absolutamente nada das minhas revelações. Não prosseguirei, pois, neste assunto, apenas esboçado aqui no intuito de mostrar quanto seria profundo vosso erro de ligar importância às dificuldades oriundas da vossa sensação terrestre e de vos deixar entender que nem vós, nem homem algum sobre a Terra, podeis formar idéia, mesmo aproximada, do Universo. O homem terrestre é um homúnculo.

Ah! se conhecêsseis os organismos que vibram sobre Marte ou em Urânus; se vos fosse dado apreciar os sentidos em atividades sobre Vênus e num satélite vizinho do anel de Saturno; se alguns séculos de viagem vos tivessem permitido a observação das formas da vida nos sistemas de estrelas duplas, sensações da vista nos sóis coloridos, impressões de um sentido elétrico (vosso desconhecido) nos grupos de sóis múltiplos; se uma comparação ultraterrestre, em suma, vos tivesse fornecido elementos de novo conhecimento, compreenderíeis que seres vivos possam ver, ouvir, sentir – ou, para melhor expressar, conhecer a Natureza –, sem olhos, sem orelhas, sem olfato; que um indeterminado número de sentidos existem em outros mundos, sentidos essencialmente diferentes dos vossos, e que há, dentro da Criação, uma quantidade incalculável de fatos maravilhosos que vos é atualmente impossível imaginar. Nessa contemplação geral do Universo, meu amigo, se apercebe da solidariedade que une o mundo físico ao mundo psíquico; sabe-se de mais alto a força íntima que eleva certas almas experimentadas pelos grosseiros choques da matéria, porém depuradas pelo sacrifício, rumo às regiões solenes da luz espiritual; e compreende-se a imensa felicidade reservada a esses seres, os quais, mesmo sobre a Terra, conseguem eximir-se das paixões corporais.



Quœrens – Voltando à transmissão da luz no Espaço: será que a luz não se perde, afinal? Será que o aspecto da Terra fica eternamente visível e não se atenua, ao contrário, em razão do quadrado da distância, para se aniquilar a um certo termo?

Lúmen – Vossa expressão, afinal, não tem aplicação, atendendo-se a que não existe fim no Espaço. A luz se atenua, é verdade, com a distância, os aspectos se tornam menos intensos, porém nada se perde inteiramente. Um número qualquer, perpetuamente reduzido pela metade, por exemplo, jamais poderá ficar igual a zero. A Terra não é visível por todos os olhos a uma determinada distância, mas o seu aspecto existe nesse tempo, mesmo que não seja percebido, e vistas espirituais podem distingui-lo. Ademais, a imagem de um astro, levada nas asas da luz, se afasta por vezes a insondáveis profundezas nos obscuros desertos do vácuo.

Há no Espaço vastas regiões sem estrelas, países dizimados pelo tempo, de onde os mundos se foram sucessivamente distanciando pela atração de focos exteriores. Ora, a imagem de um astro, atravessando esses negros abismos, se encontra na condição análoga à da imagem de uma pessoa ou objeto que o fotógrafo obtém na câmara escura.

Não é impossível que essas imagens encontrem em tais vastos espaços um astro obscuro (a mecânica celeste constatou a existência de muitos), de condição particular, cuja superfície (formada de iodo, quiçá, a acreditar-se na análise espectral) seria sensibilizada e capaz de fixar sobre ela mesma a imagem do mundo longínquo. Assim viriam gravar-se os acontecimentos terrestres sobre um globo obscuro. E se tal globo gira sobre si próprio, tal qual os outros corpos celestes, apresentará sucessivamente suas diferentes zonas à semelhança da face terrestre e tomará a feição de fotografia contínua dos acontecimentos sempre subseqüentes. Demais, descendo ou subindo, segundo um eixo perpendicular ao seu equador, a linha onde as imagens se reproduzissem descreveriam, não mais um círculo, e sim uma espiral, e, após terminar o primeiro movimento de rotação, as imagens novas não coincidiriam com as antigas e não se superporiam, e sim se seguiriam acima ou abaixo. A imaginação poderá agora supor que tal mundo não é esférico, mas cilíndrico, e ver assim no Espaço uma coluna imperecível sobre a qual se gravariam e enrolariam na superfície os grandes acontecimentos da história terrestre... Eu próprio não vi tal realização tendo deixado a Terra havia pouco tempo, mal pude encetar a contemplação dos primeiros panoramas das maravilhas celestes. Assegurar-me-ei proximamente da realidade desse fato, se se verificou dentro da riqueza infinita das criações astrais, quer pela Natureza mesma, quer pela indústria das suas humanidades longínquas.

Quœrens – Se o raio luminoso partido da Terra jamais se destrói, ó mestre! as vossas ações se tornam eternas?

Lúmen – Vós o dissestes. Um ato que se realizou não poderá ser apagado e nenhuma potência terá força para o desfazer. Um crime é praticado em pleno campo deserto. O criminoso se afasta, permanece incógnito e supõe que o ato por ele realizado passou para sempre. Lavou as mãos; arrependeu-se; acredita sua ação apagada. Em realidade, porém, nada se destrói. No momento em que o crime foi consumado, a luz o apanhou e o transmitiu pelo céu com a rapidez do relâmpago; foi incorporado em um raio de luz eterna, e eternamente se transmitirá no infinito. Eis uma boa ação praticada ocultamente; o benfeitor a escondeu: a radiação, visível ou não, dela se apossou. Longe de ser esquecida, subsistirá para todo o sempre.

Napoleão ceifou em plena floração da existência cinco milhões de homens, na média de seis lustros de idade, os quais deviam viver mais sete lustros, segundo os cálculos das probabilidades e das leis da vida humana. Isso vale por 175 milhões de anos que ele destruiu em vidas, sendo metade, aproximadamente, apenas para satisfazer sua ambição pessoal. Ele merecia, em expiação, ser conduzido no raio de luz que partiu das planícies de Warteloo, em 18 de Junho de 1815, distanciar-se no Espaço com a mesma velocidade da mesma luz, e ter constantemente ante os olhos o momento crítico em que viu esboroar-se, para sempre, a fogueira da sua vaidade, e sofrer, sem trégua, a dor do mesmo desespero, e ficar preso a esse raio de luz durante os milhares de séculos destruídos pela sua responsabilidade. Realmente, sem padecer tal vertiginosa viagem, ele tem constantemente ante a visão esse indelével pesadelo.

E se vos fosse dado entrever o que se passa na ordem moral, tão nitidamente quanto observais o que ocorre na ordem física, reconheceríeis vibrações e transmissões de uma outra natureza que fixam, nos arcanos do mundo espiritual, as ações e até os mais secretos pensamentos.

Quœrens – Vossas revelações são espantosas, ó Lúmen! Deste modo, são nossos destinos intimamente ligados à construção do próprio Universo. Eu pensei, algumas vezes, no problema especulativo de uma comunicação qualquer entre os mundos, com o auxílio da luz. Muitos físicos têm idealizado a possibilidade de se estabelecer um dia comunicações entre a Terra e a Lua, e mesmo entre os planetas, por meio de sinais luminosos. Mas, se pudesse fazer sinais da Terra a uma estrela, e se a luz respectiva empregasse, por exemplo, um século de percurso, o sinal da Terra não chegaria ao seu destino antes desse tempo e a resposta não nos viria antes de igual intervalo. Decorreriam dois séculos entre a pergunta e a resposta. O observador terrestre teria morrido de há muito, quando chegasse ao observador a sua mensagem sideral, e a este teria, sem dúvida, acontecido o mesmo, quando a sua resposta fosse lá recebida!...

Lúmen – Isso seria, com efeito, uma conversação entre vivos e mortos.

Quœrens – Perdoareis, mestre, uma derradeira questão, um tanto indiscreta... uma última, pois vejo Vênus empalidecer e sei que vossa voz vai cessar de se fazer ouvir.

Se as ações são de gênero a se tornar visíveis das regiões etéreas, poderemos ver, após nossa morte, não somente nossas próprias ações, mas ainda as dos nossos semelhantes, aquelas que nos interessem, bem entendido.

Por exemplo, um par de almas gêmeas e sempre unidas gostará de rever durante séculos as doces horas que passaram juntas na Terra; distanciar-se-á no Espaço com a velocidade igual à da luz a fim de manter ante o olhar a mesma hora ditosa. Por outras palavras, um esposo seguirá com interesse a vida completa de sua companheira e, no caso de surgir algum particular detalhe inesperado, ele poderá examiná-lo com detença, e bem assim quantos lhe pareçam interessantes à sua sensibilidade... Poderá mesmo, se a companheira desencarnada residir em alguma região vizinha, atraí-la para observarem em comum tais fatos retrospectivos. Nenhuma negativa poderia prevalecer ante esse flagrante testemunho. Quem sabe se os Espíritos se proporcionam assim o espetáculo de alguns fatos íntimos?

Lúmen – No céu, ó meu terrestre amigo, pouco se apreciam essas lembranças de ordem material, e muito me admiro de que estejais a isso preso ainda. O característico que vos deve particularmente impressionar, no conjunto dos fatos que constituem as nossas duas palestras, é que, em virtude das leis da luz, podemos rever os acontecimentos depois de ocorridos, e até mesmo quando depois de consumados, se hajam dissipado, em realidade.

Quœrens – Acreditai, mestre, que essa verdade jamais se apagará da minha memória. Foi precisamente esse ponto que me maravilhou. Esquecei a minha digressão anterior. Para vos falar a verdade, o que ultrapassa de muito a minha imaginação, desde a vossa primeira palestra, foi o pensar que a duração da viagem do Espírito pode ser não somente nula, negativa, mas ainda retrógrada. Tempo retrogrado! duas palavras que decerto estranham o encontrar-se juntas. Ousa-se acreditar? Partis hoje para uma estrela, e chegais ontem! Que disse eu? ontem? chegareis há 26.300 dias. E ireis mais e mais longe e lá chegareis há um século! Seria necessário reformar a gramática.

Lúmen – É incontestável. Falando em estilo terrestre, não há erro em exprimir-se assim, pois que a Terra está em 1793, etc., para o mundo onde chegamos. Aliás, tendes sobre o vosso globo mesmo certos paradoxos aparentes que, de longe, dão uma idéia disso. Por exemplo, o do recado telegráfico, que, enviado de Paris ao meio-dia, chega a Nova Iorque, às 6 horas e 55 minutos da manhã.

Mas, não são as aplicações particulares ou os aspectos curiosos que convém guardeis em vosso espírito, e sim a revelação de que eles são a forma da metafísica da qual se tornam a expressão sensível. Sabeis que o tempo não é uma realidade absoluta, mas somente uma transitória medida causada pelos movimentos da Terra no sistema solar. Considerado pelo olhar da alma e não pelos olhos do corpo, esse quadro não fictício, mas real, da vida humana, tal qual foi sem dissimulação possível, atinge, por um lado, o domínio da teologia – nesse em que se explica fisicamente um mistério ainda inexplicado: o do julgamento particular, e feito por nós mesmos, de cada um após a morte. Sob o ponto de vista do conjunto, o presente de um mundo não é uma realidade momentânea, que desaparece logo em seguida à sua aparição, um aspecto sem consistência, um alçapão no qual o futuro – atingido de catarata – tomba perpetuamente no passado, um plano matemático no Espaço; é, bem ao contrário, urna realidade efetiva que se distancia deste mundo com a rapidez da luz e, embrenhando-se gradualmente no infinito, se converte assim num presente eterno.

A realidade metafísica desse vasto problema é tal, que pode ser concebido no grau da onipresença do Universo em toda a sua duração. Os acontecimentos se esvaem para o local que lhes deu origem, mas perduram no Espaço. Essa projeção sucessiva e sem fim, de todos os fatos consumados em cada um dos mundos, se efetua no seio do Ser infinito, cuja ubiqüidade toca por esse modo cada coisa em uma permanência eterna.

Os acontecimentos realizados na superfície da Terra, desde sua origem, são perceptíveis no Espaço a distâncias tanto mais longínquas quanto mais são eles recuados. Toda a história do globo e a vida de cada um dos seus habitantes poderiam ser, pois, vistas à vez, pelo olhar que abrangesse esse Espaço. Compreendemos opticamente, desse modo, que o Espírito eterno, presente em toda a parte, veja todo o passado em um mesmo momento. O que é verdade em nossa Terra é verdade de todos os mundos do Espaço. Assim, a história inteira de todos os universos está presente à vez na universal ubiqüidade do Criador. Que olhos transcendentes possam realmente ver semelhante história, pouco importa: ela existe, ela está inscrita.

Posso ajuntar que Deus conhece todo o passado, não somente por essa vista direta, mas ainda pelo conhecimento de cada coisa presente. Se um naturalista, qual o foi Cuvier, soube reconstruir espécies animais desaparecidas, apenas com o auxílio de ossamentas, o Autor da Natureza conhece pela Terra atual a Terra do passado, o sistema planetário e o Sol da época pretérita, e todas as condições de temperatura, de agregações, de combinações pelas quais os elementos chegaram a formar os compostos existentes atualmente.

De outra parte, o futuro é também completamente presente a Deus em seus germens atuais quanto o passado o é em seus frutos. Cada acontecimento é ligado de maneira indissolúvel com o passado e o futuro. Este será também atraído pelo presente, e portanto logicamente deduzível, e existe tão exatamente quanto o passado foi inscrito para que existisse e fosse reconhecível.

Para o Absoluto, o tempo não existe; o passado e o futuro são lidos na página aberta de um presente perpétuo.

Mas, repito, o ponto capital das nossas palestras foi fazer-se compreender que a vida passada dos mundos e dos seres existe sempre no Espaço, graças à transmissão sucessiva da luz através das vastas regiões do Infinito.



Quarta narrativa

Anteriores vitae


Depois do dia em que se deu o nosso último encontro, ó Lúmen, 104 semanas se escoaram. Durante esse período, insensível para vós – habitantes do espaço eterno, porém muito sensível para nós outros – os da Terra, elevei bastantes vezes meu pensamento rumo aos grandes problemas nos quais me iniciastes e novos horizontes se desvendaram ante a visão da minha alma. Sem dúvida também, desde aquela vossa partida da Terra, as observações e estudos vossos se acresceram sobre um campo de pesquisas cada vez mais vasto. Tendes, de certo, inumeráveis descobertas a entregar à minha inteligência melhor preparada. Ah! se sou digno, e se as posso compreender, narrai, ó Lúmen, as viagens celestes que conduziram vosso Espírito no rumo das esferas superiores, das verdades desconhecidas que vos foram reveladas, das perspectivas que vos foram abertas, dos princípios que vos foram ensinados sobre o misterioso assunto do destino dos homens e dos seres.

Lúmen – Preparei vossa alma, meu caro e velho amigo, para receber essas impressões estranhas, que nenhum espetáculo terrestre jamais produziu, nem seria capaz de engendrar. É necessário, não obstante, que torneis vosso Espírito inteiramente livre de qualquer preconceito terrestre. Quanto vou narrar, causará pasmo, mas recebei tudo, primeiramente com atenção, qual se fosse uma verdade constatada, e não com a idéia de romance. É um primeiro esforço que reclamo do vosso estudioso ardor. Quando houverdes compreendido (e compreendereis, se empregardes nisso um critério matemático e uma alma livre), concebereis que todos os fatos constitutivos da nossa existência ultraterrestre são, não somente possíveis, mas ainda verdadeiros e muito mais em harmonia íntima com as nossas faculdades intelectuais já manifestadas sobre a Terra.

Quœrens – Ficai certo, ó Lúmen, de que estou nisto de espírito liberto, despido de qualquer servidão intelectual, e disposto ardentemente a escutar essas revelações que ouvido humano jamais ouviu.

Lúmen – Os acontecimentos que se farão objeto desta narrativa não têm somente a Terra e os astros vizinhos por cenário, mas se estendem pelos campos imensos da Astronomia sideral e farão que conheçamos verdadeiras maravilhas. Sua explicação será dada, tal qual as precedentes, pelo estudo da luz – ponto mágico projetado de um astro a outro, da Terra ao Sol, da Terra às estrelas –, da luz, movimento universal que enche os espaços, sustém os mundos em suas órbitas e constitui a vida eterna da Natureza. Preparai-vos com o maior cuidado para ter diante dos olhos a transmissão sucessiva da luz no Espaço.

Quœrens – Sei que a luz, esse agente que torna os objetos visíveis ao nosso órgão visual, não se transmite instantaneamente de um ponto a outro, mas sucessivamente, tal qual tudo que se move. Sei que voa na razão de 300.000 quilômetros por segundo e que percorre três milhões em 10 segundos, ou seja, dezoito milhões em cada minuto. Sei que emprega mais de oito minutos em transpor a distância de 149 milhões de quilômetros que nos separam do Sol. A Astronomia moderna tornou essas noções muito familiares.

Lúmen – E vós imaginais exatamente o movimento ondulatório da luz?

Quœrens – Eu o creio. Comparo-o, de boa mente, com o do som, ainda que aquele se processe numa escala incomparavelmente mais vasta. Ondulações por ondulações, o som se propaga no ar. Quando os sinos vibram em continuado toque, seu mugido sonoro, que é percebido no mesmo momento em que o badalo bate por aqueles residentes em redor da igreja, só é recebido um segundo depois pelos que se encontram a três hectômetros e meio; dois segundos por quantos se achem além de sete hectômetros; três segundos mais tarde por aqueles estacionados à longitude de um quilômetro da igreja. Assim, o som chega, sucessivamente, de lugar em lugar, tão longe quanto possa ir. De igual modo, a luz vai, sucessivamente, de uma região mais vizinha a outra mais distante no Espaço, e se afasta dessa maneira, sem se extinguir, a longitudes que participam do infinito. Se pudéssemos ver, da Terra, um acontecimento que se desenrolasse na Lua; se, por exemplo, tivéssemos bons e eficientes instrumentos para perceber daqui a queda de um fruto tombado de uma árvore na superfície da Lua, não veríamos esse fato imediatamente à sua realização, mas 1 segundo e um quarto depois, por isso que, para vir da distância da Lua, a luz emprega 1 segundo e 1/4, aproximadamente. Se pudéssemos ver, igualmente, um acontecimento ocorrido sobre um mundo situado dez vezes mais longe do que a Lua, só o perceberíamos passados 13 segundos da sua realização. Se esse mundo estivesse cem vezes mais afastado da Lua, tomaríamos conhecimento do fato 130 segundos decorridos da sua efetivação; mil vezes mais distante, só depois de 1.300 segundos, ou 21 minutos e 40 segundos depois. E assim progressivamente, na proporção das longitudes.

Lúmen – É exato, e sabeis ser essa a razão pela qual o raio luminoso, enviado da estrela Capela à Terra, emprega 864 meses para atingir tal destino. Se, pois, recebemos hoje o aspecto luminoso da estrela, dali saído há 3.744 semanas, reciprocamente os habitantes de Capela só poderão ver, hoje, a Terra de há 864 meses antes. A Terra reflete no Espaço a luz que recebe do Sol, e de longe parece brilhante, tal qual vos parecem Vênus e Júpiter, planetas iluminados pelo mesmo Sol que a ilumina. O aspecto luminoso da Terra, sua fotografia, viaja no Espaço à razão de 300.000 quilômetros por segundo, e só chega à distância da estrela Capela depois de 3.744 semanas de marcha ininterrupta. Eu vos recordo esses elementos para que, tendo-os bem exata e, solidamente fixado no Espírito, estejais apto para compreender, sem esforço, os acontecimentos ocorridos em minha vida ultraterrestre depois da nossa última palestra.

Quœrens – Esses princípios de óptica são claramente estabelecidos por mim. No dia seguinte ao da vossa morte, em Outubro de 1864, quando vos acháveis (segundo me haveis confidenciado) rapidamente transferido a Capela, fostes surpreendido ao ver a cena dos astrônomos-filósofos dali observando a Terra de 1793 e um dos atos mais ousados da Revolução Francesa. Não fostes menos surpreendido revendo-vos criança, a correr nas ruas de Paris. E, aproximando-vos da Terra, a uma distância menor do que a de Capela, ficastes na zona onde chegava a fotografia terrestre partida à época da vossa infância, e vos revistes na idade de pouco mais de um lustro, não em reminiscência, mas em realidade. De vossas narrações anteriores, é o que tenha maior dificuldade de crer, isto é, de compreender e de apreender com exatidão.

Lúmen – O que desejo fazer-vos compreender agora é bem mais surpreendente ainda; porém, necessário se torna admitir os antecedentes para ouvir eficazmente o que se vai seguir. Distanciando-me de Capela e aproximando-me da Terra eu revi as minhas 3.744 semanas de existência terrestre, minha vida inteira, diretamente, tal qual se desdobrou, isso porque, avizinhando-me da Terra, tinha ante mim zonas sucessivas de aspectos terrestres, trazendo na sua extensão a história visível do nosso planeta, inclusive a de Paris e da minha pessoa ali residente. Percorrendo retrospectivamente, em um dia, o caminho que a luz vence em 864 meses, havia eu revisto toda a minha existência em 24 horas e chegava a tempo para o meu enterro.

Quœrens – Equivale a, retornando de Capela para a Terra, haverdes encontrado 72 fotografias escalonadas de ano em ano. A de maior longitude da Terra, aquela mais remotamente saída, a que se encontrava à altura de Capela, mostrava 1793; a segunda, que partira um ano depois, e ainda não chegada lá, levava a imagem de 1794; a décima, 1803; a trigésima sexta, chegada apenas à metade do caminho, dava o aspecto de 1829; a quinquagésima, 1843; a setuagésima primeira, 1864.

Lúmen – É impossível melhor assimilar essa realidade, que parece misteriosa e incompreensível ao primeiro golpe de vista. Agora eu vos posso narrar quanto me aconteceu em Capela, depois de haver revisto minha existência terrestre.



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