Camille Flammarion Narracoes do Infinito



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Segunda narrativa 4

Refluum temporis

I


Quœrens – As revelações interrompidas pela aurora, ó Lúmen, deixaram, desde então, minha alma ávida de penetrar mais fundo o singular mistério. De igual modo que a criança, a quem se mostrou um fruto saboroso, deseja nele meter gulosamente os dentes, e quando prova mais deseja, assim minha curiosidade procura novos júbilos nos paradoxos da Natureza. É acaso temerária indiscrição submeter-vos algumas questões complementares que meus amigos me comunicaram, desde o dia em que os fiz participantes da nossa conversação? E posso pedir continueis a narrativa das vossas impressões de além-Terra?

Lúmen – Não posso, meu amigo, consentir em tal curiosidade. Embora perfeitamente disposto que seja vosso Espírito para bem receber minhas palavras, estou persuadido, não obstante, de que as particularidades do meu assunto não vos tocaram harmonicamente, não tiveram todas aos vossos olhos a evidência da realidade. Acusou-se de mística a minha narrativa. Não se compreendeu que aqui não existe romance, nem fantasia, e sim uma verdade científica, um fato físico, demonstrável e demonstrado, indiscutível, e que é tão positivo quanto a queda de um aerólito ou a translação de um projétil de canhão. O motivo que vos impediu, a vós outros, de bem apreender a realidade do fato, reside em que o caso se desenrola fora da Terra, numa região estranha à esfera de vossas impressões, e não acessível aos sentidos terrestres. É natural que não compreendais (perdoai minha franqueza, mas no mundo espiritual predomina a franqueza: os pensamentos são mesmo visíveis). Só compreendeis o que pertence ao mundo das vossas impressões. E porque estais propensos a ter por absolutas as vossas idéias a respeito do Tempo e do Espaço, que são relativas, tendes o entendimento fechado às verdades que residem fora da vossa esfera, e que não se acham em correspondência com as vossas faculdades orgânicas terrestres. Assim, meu amigo, eu vos prestarei meritório serviço, prosseguindo a narrativa das minhas observações extraterráqueas.

Quœrens – Não é por espírito de curiosidade, crêde-me sinceramente, ó Lúmen, que me permito evocar-vos do alto do mundo invisível, onde as almas superiores devem fruir inenarráveis júbilos. Compreendi, melhor do que a vossa acusação o admite, a grandeza do problema, e é sob a inspiração de uma avidez estudiosa que procuro aspectos mais novos ainda do que os precedentes (se assim me posso expressar), ou melhor, mais grandiosos e mais difíceis de compreender ainda. À força de refletir, cheguei a crer que quanto sabemos é nada, e o que ignoramos é tudo. Estou, pois, disposto a tudo acolher e, por isso, vos peço: deixai-me partilhar das vossas impressões.

Lúmen – Em verdade, meu amigo, eu vo-lo asseguro, ou não estais muito disposto a entendê-las, ou estais. No primeiro caso, não as compreendereis; na segunda hipótese, sereis mui crédulo e não lhes apreciareis o valor. Por isso, volto...

Quœrens – Ó meu companheiro querido dos dias terrestres!...

Lúmen – Além de tudo, os fatos que eu teria de narrar são muito mais extraordinários do que os precedentes.

Quœrens – Eu sou a semelhança de Tântalo no centro do seu lago, na mesma condição dos Espíritos do vigésimo-quarto canto do Purgatório, igual aos braços estendidos para os pomos odorantes das Hespérides, na ânsia do desejo de Eva...

Lúmen – Algum tempo depois da minha partida da Terra, os olhos de minha alma se voltaram melancolicamente para esta pátria, quando atento exame sobre a interseção do 45º grau de latitude boreal e do 35° de longitude mostrou-me um cinzento triângulo de terra firme, acima do mar Negro, ao bordo do qual, ao oeste, um triste grupo de pobres irmãos meus terrestres se entrematavam encarniçadamente. Entreguei-me à meditação sobre a barbárie dessa instituição, pseudogloriosa – a Guerra, que ainda pesa sobre vós outros –, e reconheci que nesse recanto da Crimeia sucumbiam oitocentos mil homens, ignorando a causa do seu mútuo massacre. Nuvens passaram sobre a Europa. Estava agora, não em Capela, mas no Espaço, entre essa estrela e a Terra, na metade da distância de Vega, e, saído da Terra desde algum tempo, eu me dirigia a um montão de estrelas que se distingue, da vossa pátria, à esquerda do astro precedente. Meu pensamento, no entanto, de tempos a tempos retornava para a Terra. Um pouco depois da observação de que falei, meu olhar, incidindo sobre Paris, foi surpreendido ao ver a Capital presa de uma insurreição popular. Examinando com atenção acurada, divisei barricadas nos bulevares, próximo da Prefeitura Municipal, nas ruas extensas, e cidadãos alvejando-se mutuamente a golpes de fuzil. A primeira idéia que me ocorreu foi a de que uma nova revolução se processava aos meus olhos e que Napoleão III fora derrubado do trono imperial; mas, por uma correspondência secreta das almas, minhas vistas foram atraídas para certa barricada do arrabalde de Santo Antônio, na qual estava estendido o arcebispo Denis-Auguste Affre, que eu conhecera ligeiramente. Seus olhos extintos miravam, sem ver, o céu onde me encontrava; sua mão segurava um galho verde. Estavam, pois, ante mim os dias de 1848, e em particular o 25 de Junho. Alguns instantes (ou horas, talvez) se escoaram, durante os quais minha imaginação e meu raciocínio buscaram, pela ordem natural, a explicação de tal fato particular: ver 1848 depois de 1854, quando meu olhar, de novo atraído para a Terra, assinalou uma distribuição de bandeiras tricolores, em extensa praça da cidade de Lião. Procurando distinguir a personagem oficial que fazia tal distribuição, consegui identificar os uniformes e recordei-me de que, depois da ascensão de Luís Filipe, o jovem Duque de Orleães havia sido enviado a aplacar as agitações da capital da indústria francesa. Conclui-se disso que, após 1854 e 1848, estava diante do meu olhar um acontecimento ocorrido em 1831. Pouco mais tarde, minha visão incidiu sobre Paris em dia de festa. Gordo rei, de abdômen proeminente, face rubicunda, era conduzido em caleche suntuosa e atravessava nesse momento a Ponte-Nova. O tempo era magnífico. Jovens vestidas de branco estavam dispostas, qual corbelha de alvos lilases, sobre o terrapleno da ponte. Estranhos animais, coloridos de nuanças claras, corriam ao longo de Paris. Era evidentemente a reentrada dos Bourbons em França. Eu não teria compreendido esta última particularidade, se não houvesse recordado que, em tal ocasião, tinham sido lançados para os ares artísticos balões em forma de animais. Vistos do alto do céu, pareciam correr desajeitadamente sobre os telhados das casas. Rever um acontecimento transcorrido eu compreendia, explicando-o pelas leis da luz; mas, rever esses eventos em sentido contrário à sua ordem real, eis o que me parecia fantástico, e mergulhava o meu entendimento numa estupefação crescente. No entanto, estando os fatos diante dos meus olhos, não os podia negar, e excogitava, por isso, qual a hipótese que poderia dar conta de semelhante singularidade.

A primeira hipótese foi esta: E sem dúvida alguma a Terra que estou vendo, e por um secreto destino, somente de Deus conhecido, a história de França repassa proximamente pelas mesmas fases já atravessadas; a nação avançou até um certo maximum, que acaba de fulgir às vistas maravilhadas dos povos, e eis que retorna rumo das suas origens, por uma oscilação que pode existir, à semelhança das variações da agulha imanada das bússolas, a exemplo dos movimentos dos astros. As personagens que me pareceram ser no momento o Duque de Orleães e Luís XVIII, são talvez outros príncipes que estão repetindo exatamente quanto os primeiros fizeram.

Tal hipótese, todavia, me pareceu pouco verossímil, e me detive em outra mais racional.

Dada a multidão de estrelas e de planetas que gravitam em torno de cada uma delas, perguntava-me eu, qual a probabilidade para que se encontre no Espaço um mundo exatamente igual à Terra?

O cálculo das probabilidades responde a esta questão. Quanto maior o número dos mundos, maior será a probabilidade de que as forças da Natureza hajam dado origem a uma organização semelhante à terrestre. Ora, o número exato dos mundos ultrapassa toda a numeração humana escrita ou passível de ser escrita. Se compreendemos o Infinito, ser-nos-á talvez permitido dizer que esse número é infinito. Daí concluir eu que há mui alta probabilidade em favor da existência de muitos mundos exatamente semelhantes à Terra, à superfície dos quais se realiza a mesma história, a mesma sucessão de acontecimentos, e que se acham habitados pelas mesmas espécies vegetais e animais, a mesma Humanidade, os mesmos homens, as mesmas famílias, identicamente.

Perguntei-me, em segundo lugar, se tal mundo, sendo análogo à Terra, não lhe poderia ser simétrico. Aqui ingressava eu na geometria e na teoria metafísica das imagens. Cheguei a admitir possível que o mundo em questão fosse semelhante à Terra, mas todavia inverso. Quando vos examinais diante de um espelho, vereis que o anel-aliança (de casamento), posto na mão direita, passou para o dedo anular da mão esquerda, o que modifica o seu símbolo; que, se piscais o olho direito, o sósia piscará o esquerdo; que, se estendeis o braço direito, vossa imagem esticará o braço esquerdo. É impossível, pois, que, na infinidade de astros, exista um mundo exatamente inverso do orbe terráqueo? Seguramente, em uma infinidade de mundos, o impossível, ao contrário, seria não existir tal mundo, e mais facilmente milhares em vez de um. A Natureza deverá ter-se não só repetido, reproduzido, mas ainda desempenhado, sob todas as formas, o papel da Criação. Pensei, pois, que o mundo onde via essas coisas não era a Terra, e sim um globo semelhante, cuja história era precisamente o inverso da vossa.



Quœrens – Tive também a idéia de que podia ser assim. Mas, não vos foi fácil ter a certeza do acontecimento e constatar se tratava da Terra, ou se outro astro se achava sob vossa vista, examinando a respectiva posição astronômica?

Lúmen – Foi o que fiz sem tardança, e tal exame me confirmou a minha idéia. O astro onde acabava de aperceber quatro fatos análogos a outros tantos acontecimentos terrestres, porém inversos, não me pareceu estar na mesma posição primitiva. A pequena constelação do Altar não existia mais e desse lado onde vos recordais me aparecera a Terra no meu primeiro episódio havia um polígono irregular de estrelas desconhecidas. Fiquei, assim, na persuasão de que não era a nossa Terra sob o meu olhar; a dúvida não me foi mais possível e persuadi-me de haver por terreno de observação um mundo muito mais curioso, de vez que não era a Terra, e sua história parecia representar, em ordem inversa, a história do nosso mundo.

Alguns acontecimentos, é verdade, não me pareceram ter o respectivo correspondente na Terra; mas, em geral, a coincidência foi muito notável, tanto mais quanto meu desapreço aos falsos instituidores da guerra me havia feito esperar que tal burlesca e desalmada loucura não existisse em outros mundos e que, ao contrário, a mor parte dos sucessos por mim testemunhados eram ainda combates ou preparativos.



Depois de uma batalha que me pareceu muito semelhante à de Waterloo, vi a das Pirâmides. Um sósia de Napoleão imperador se tornara Primeiro Cônsul e vi a Revolução suceder ao Consulado. Algum tempo decorrido, notei a praça do castelo de Versalhes repleta de carruagens de luto e, em um atalho aberto de Ville-d'Avray, reconheci o lento caminhar do botânico João Jaques Rousseau, o qual, sem dúvida, nesse momento filosofava sobre a morte de Luís XV. O acontecimento que mais feriu minha atenção foi, em seguida, uma das festas de gala do começo do reino de Luís XV, dignas sucessoras das da Regência, nas quais o Erário da França escorria em pérolas de água por entre os dedos de três ou quatro cortesãs adoradas. Vi Voltaire, em gorro de algodão, em seu parque de Ferney, e mais tarde Bossuet passeando no pequeno terraço do seu palácio episcopal de Meaux, não distante da colina cortada em nossos dias pela via-férrea, mas não distingui o menor traço desta indústria. Nessa mesma sucessão de acontecimentos, via os caminhos repletos de carros-diligência, e sobre os mares vastos navios de vela. O vapor havia desaparecido, com todas as usinas que move em nossos dias. O telégrafo estava aniquilado e bem assim todas as aplicações da eletricidade. Os balões, que se tinham mostrado de tempos a tempos em meu campo de observação se haviam perdido e o último que eu vira fora o globo informe aerizado em Annonay, pelos irmãos Montgolfier, em presença dos Estados-Gerais. A face do mundo estava transformada. Paris, Lião, Marselha, o Havre, Versalhes notadamente, estavam irreconhecíveis. Aquelas primeiras haviam perdido seu imenso movimento; a última tinha ganhado um brilho incomparável. Eu me havia formado uma idéia incompleta do esplendor realengo das festas de Versalhes; estava agora satisfeito por assistir a uma, e não foi sem interesse que reconheci Luís XV, em pessoa, no esplêndido terraço do Oeste, rodeado de mil senhores enfitados. Era de tarde; os derradeiros fulgores de um ardente Sol se reverberavam na fachada palaciana e casais galantes desciam gravemente os degraus da escadaria de mármore, ou se inclinavam rumo das alamedas silenciosas e sombrias. Minha vista se limitava de preferência sobre a França, ou pelo menos na região do mundo desconhecido que me representava a França, porque é agradável estar longe, bastante longe da sua pátria, e nela sonhar sempre, deixando que, a cada vez, a ela retorne o pensamento com júbilo. Não creiais que as almas desencarnadas sejam desdenhosas, indiferentes, libertas de toda recordação; teríamos assim bem triste existência. Não. Guardamos a faculdade de nos recordar, e nosso coração não se absorve na vida do Espírito. Foi, pois, com um sentimento de júbilo íntimo (do qual vos deixo a apreciação) que revi toda a História da nossa França desenrolar-se, qual se as fases se houvessem positivado em uma ordem inversa. Depois da unificação do povo, vi a soberania de um potentado. Após isso, a feudalidade dos príncipes Mazarin, Richelieu, Luís XIII e Henrique IV apareceram-me em Saint-Germain. Os Bourbons e os Guises recomeçaram para mim as suas escaramuças; acreditei distinguir a matança de São Bartolomeu.

Alguns fatos particulares da história de nossas províncias reapareceram, tal, por exemplo, uma cena de diabruras de Chaumont, que tive ocasião de observar diante da igreja de S. João, e o massacre dos Protestantes em Vassy. Comédia humana! muitas vezes tragédia! Subitamente, vi erigir-se no Espaço o cometa magnífico, em forma de sabre, de 1577. Em um plano brilhantemente adornado, divisei Francisco I e Carlos V saudando-se. Luís XI me apareceu sobre um terraço da Bastilha, acompanhado das suas duas sombras pandilheiras. Mais tarde, meus olhos, voltando-se para uma praça de Ruão, distinguiram forte fumarada e chamas; no meio delas, consumia-se o corpo de Joana d'Arc, a virgem de Orleães.

Na persuasão de que esse mundo era a exata contra-partida da Terra, eu adivinhava de antemão os acontecimentos que ia ver. Assim, quando, depois de haver avistado S. Luís, que morria sobre cinzas perto de Tunis, assisti à oitava cruzada, depois à terceira (onde reconheci Frederico Barbaroxa, com a sua barba), e ainda à primeira (na qual Pedro, o Eremita, e Godofredo me recordaram o Tasso), senti medíocre admiração. Desejei, em seguida, ver, sucessivamente, Hugo Capeto encabeçar uma procissão em pluvial de oficiante; o concílio de Tauriacum decidir que o julgamento de Deus vai pronunciar-se na batalha de Fontanet, e Carlos, o Calvo, fazer massacrar 100.000 homens e toda a nobreza Merovíngia; Carlos Magno coroado em Roma, a guerra contra os Saxões e Lombardos; Carlo Martel martelando os sarracenos; o rei Dagoberto fazendo edificar a abadia de Saint-Denis, de igual modo que vi o papa Alexandre III colocar a primeira pedra de Notre Dame; Brunehaut (ou Brunhilde) arrastado, nu, pelas ruas, preso a um cavalo; os Visigodos, os Vândalos, os Ostrogodos, Clóvis, Meroveu (ou Merowig), aparecer no país dos Salienos – em uma palavra, as origens mesmas da história de França, desenrolando-se em sentido retrospectivo da sua sucessão –, foi efetivamente o que ocorreu. Muitas questões históricas de grande importância, que haviam permanecido obscuras até então, foram tornadas visíveis para mim. Assim, constatei, entre outras, que os franceses são originários da margem direita do Reno e que os alemães nenhuma razão têm para disputar esse rio e principalmente a margem esquerda.

Existia em verdade, para mim, um interesse maior – que eu não saberia expressar – em assistir às particularidades de acontecimentos dos quais possuía vaga idéia formada através dos ecos não raro enganadores da História, e de visitar países transformados desde muito tempo. A vasta e brilhante capital da civilização moderna havia rapidamente envelhecido ao nível das cidades ordinárias, embora bastilhada de torres ameadas. Admirei alternativamente a bela cidade do século XV, os tipos curiosos da sua arquitetura, a célebre torre de Nesle; os vastos mosteiros de Saint-Germain-des-Prés. Lá, onde flore agora o jardim da Torre Saint-Jacques, reconheci o pátio sombrio do alquimista Nicolau Flamel. Os telhados redondos e pontudos ofereciam o aspecto bizarro de cogumelos nas bordas de um rio. Depois, essa aparência feudal havia desaparecido, para abrir lugar a um pesado castelo erguido no meio do Sena, rodeado de algumas choupanas, e, enfim, a uma verdadeira planície onde se distinguiam apenas algumas choças de selvagens. Paris não existia mais, e o Sena rolava suas águas silenciosas por entre ervas e salgueiros. Ao mesmo tempo, salientei que dessa civilização o foco se havia deslocado e descido rumo ao Sul. Devo confessar-vos, meu amigo, em circunstância alguma experimentou minha alma um sentimento assim de tão vivo júbilo, quanto no momento em que me foi dado ver a Roma dos Césares em seu esplendor. Era um dia de triunfo e, sem dúvida, sob os principados sírios, pois, no meio das magnificências exteriores, de carros luzidos, de auriflamas de púrpura, duma assembléia de damas elegantes e de ministros de ribalta, distingui um imperador molemente estendido em amplo e dourado carro, inteiramente vestido de seda clara e coberta de pedrarias, de ornamentos de ouro e prata refulgindo sob o Sol de meio-dia. Só poderia ser Heliogábalo, o sacerdote do Sol. O Coliseu, o templo de Antino, os arcos de triunfo e a coluna Trajano estavam erguidos, e Roma se encontrava em toda a sua beleza arqueológica, derradeira beleza que era apenas uma cena de teatro para coroados. Algo mais tarde, assisti à grandiosa erupção do Vesúvio, que sepultou Herculano e Pompéia.

Por um momento vi Roma em chamas e, embora não haja podido destacar Nero no seu terraço, persuadi-me de que tinha sob meu olhar o incêndio do ano de 64 e o sinal das perseguições cristãs. Algumas horas decorridas, minha atenção estava presa em examinar os vastos jardins de Tibério, em Capreia (hoje Capri), e acabava de ver esse imperador chegar perto do tabuleiro de rosas, rodeado de um grupo de mulheres nuas, quando, em conseqüência da rotação da Terra, a Judéia veio colocar-se sob minhas vistas, que adivinharam imediatamente Jerusalém. Jesus, carregando sua pesada cruz, subia custosamente a colina do Gólgota, escoltado por uma tropa de soldados e seguido pela populaça de judeus. Esse espetáculo é um daqueles que jamais esquecerei. Foi para mim bem diferente do que para os assistentes de então, pois a glória futura (e contudo passada) da Igreja cristã se desenrolava, a meu ver, no nível de uma coroação do divino sacrifício... Não insisto; compreendeis quais os diversos sentimentos que agitaram minha alma nesta observação suprema...

Revindo mais tarde rumo a Roma, reconheci Júlio César estendido sobre a sua pira, tendo à cabeceira Antônio, cuja mão esquerda segurava, creio, um rolo de papiro. Os conjurados desciam apressadamente às bordas do Tibre. Remontando, por legítima curiosidade, à vida de Júlio César, eu o reencontrei com Vercingétorix no meio dos Gauleses, e pude constatar que de todas as hipóteses dos nossos contemporâneos a respeito de Alésia, nenhuma acerta com o lugar verdadeiro, atendendo-se a que essa fortaleza estava situado sobre...



Quœrens – Perdoai minha interrupção, mestre, mas aguardei com empenho a ocasião de vos solicitar um esclarecimento sobre ponto particular do ditador. Uma vez que revistes Júlio César, dizei-me, eu vos rogo, se a sua figura se assemelha em verdade à que o imperador Napoleão III, que reina atualmente sobre a Gália, nos dá na grande obra que escreveu sobre a vida do famoso capitão. É verdade que o ditador romano e o general corso têm a mesma cabeça, a mesma fisionomia?

Lúmen – Sim. A semelhança é notável, tanto quanto a semelhança moral, a ponto de me haver perguntado a mim mesmo se Júlio César e Napoleão Bonaparte não constituem uma só e única personalidade em duas reencarnações diferentes.

De qualquer modo que seja, retrocedi de Júlio César aos cônsules e aos reis do Lácio, para me deter um instante no rapto das Sabinas, com o que fiquei bastante satisfeito por poder observar diretamente esse tipo de costume antigo. A História aformoseou muitas coisas e reconheço que a maior parte dos fatos históricos foram totalmente diferentes do que se nos apresentou. Nesse mesmo momento apercebi o rei Candaulo, em Lídia, na cena do banho, que vós conheceis; a invasão do Egito pelos Etíopes; a república oligárquica de Corinto; a oitava olimpíada da Grécia; e Isaías profetizando na Judéia. Vi construir as pirâmides por levas de escravos, dirigidos por chefes montados em dromedários. As grandes dinastias da Bactriana e da Índia, eu as vi, e a China me mostrou as artes maravilhosas que já possuía antes mesmo do nascimento do mundo ocidental. Tive oportunidade de perquirir a respeito da Atlântida de Platão e constatei efetivamente que as opiniões de Bailly sobre esse continente desaparecido não são destituídas de fundamento. Na Gália só se distinguiam vastas florestas e pântanos; os próprios druidas haviam desaparecido e os selvagens dali muito se pareciam aos que ainda hoje habitam a Oceânia. Era bem a idade da pedra reconstituída pelos arqueólogos modernos. Mais tarde ainda, vi que o número de homens diminuía pouco a pouco e que o domínio da natureza parecia pertencer a uma grande raça de símios, ao urso das cavernas, ao leão, à hiena, ao rinoceronte. Chegou o momento em que me foi impossível distinguir sequer um único homem na superfície do mundo, nem mesmo o menor vestígio da raça humana. Tudo havia desaparecido. Os tremores de terra, os vulcões e os dilúvios pareciam assenhoreados da superfície planetária, não permitindo a presença do homem em meio de tais ruínas.



Quœrens – Confessar-vos-ei, ó Lúmen, aguardar com impaciência o momento de vossa chegada ao Paraíso terrestre, a fim de saber de que forma se apresenta a criação da raça humana sobre a Terra. Estou até surpreso de não haverdes parecido cogitar de tão importante observação.

Lúmen – Eu vos relato unicamente quanto vi, meu curioso amigo, e guardar-me-ei bem de substituir os testemunhos dos meus olhos pelas fantasias da imaginação. Ora, não vislumbrei qualquer remoto traço desse Éden tão poeticamente descrito pelas teogonias primitivas. Além disso, seria bem extraordinário que a semelhança do mundo que eu tinha sob os olhos e a Terra chegasse até elas, tanto mais quanto, se o paraíso terreal tem sua razão de ser no berço da Humanidade, nas graciosas lendas orientais, não vejo em que ele possa ter a mesma razão nos fins da sociedade humana.

Quœrens – Creio, ao contrário, que seria mais justo supô-lo ligado aos fins do que ao começo, em resultado e recompensa, do que em forma de prelúdio incompreendido, de uma vida de sofrimento. Mas, de vez que não vistes o Éden, não insisto no assunto.

Lúmen – Chegou, enfim, ao término da observação desse mundo singular, cuja história era precisamente o inverso da vossa, a ocasião de ver animais fantásticos de monstruosidade combatendo-se nas praias de vastos mares. Serpentes gigantes, armadas de patas formidáveis; crocodilos que voavam nos ares, agitando asas orgânicas mais longas que o seu próprio corpo, peixes disformes, cuja goela teria deglutido um touro; aves de rapina travando terríveis batalhas nas ilhas devastadas. Continentes inteiros, cobertos de vastas florestas; árvores de folhagem enorme cresciam umas sobre as outras, vegetais sombrios e severos, porque o reino vegetal ainda não possuía então nem flores, nem frutos. As montanhas vomitavam cascatas inflamadas; os rios tombavam em cataratas; o solo dos campos abria-se em forma de fauces profundas, deglutindo colinas, bosques, ribeiros, árvores, animais. Bem depressa, impossível se me tornou distinguir mesmo a superfície do Globo; um mar universal parecia cobri-lo e o reino vegetal, e assim também o animal, se apagaram lentamente para dar posto a monótonas verduras lavradas de brilhos e fumaças brancas. Era, desde então, um mundo agonizante. Assisti às derradeiras pulsações do seu coração, reveladas por fulvos clarões intermitentes. Pareceu-me depois que chovia simultaneamente sobre a superfície inteira, pois o Sol não iluminava mais que nuvens e goteiras de chuva. O hemisfério oposto ao Sol pareceu-me menos sombrio do que antes e apagadas claridades se deixavam aperceber através das tempestades. Esses clarões ganharam intensidade e se propagaram sobre a esfera total. Amplas fendas apareciam vermelhas, lembrando o ferro em brasa das forjas. E porque o ferro sucessivamente queimado na ardente fornalha se torna vermelho-claro, depois alaranjado, em seguida amarelo, passando a branco e incandescente, assim o mundo passou por todas as fases do aquecimento progressivo. Seu volume aumentou; o movimento de rotação foi mais lento. O globo misterioso ficou semelhante a uma esfera imensa de metal fundido, envolta de vapores minerais. Sob a ação incessante da sua fornalha interior e dos combates elementares dessa estranha química, adquiriu proporções enormes e a esfera de fogo passou a esfera de fumaça. Desde então, iria desenvolvendo-se sem cessar e perdendo a personalidade. O Sol, que primitivamente a iluminava, não a ultrapassava mais em brilho e ela própria agrandou a sua circunferência de tal modo que se tornou evidente, para mim, estar o planeta vaporoso destinado a perder a sua existência mesma por efeito de reabsorção na atmosfera crescente do Sol.

Assistir a um fim de mundo é ocorrência rara. Por isso, em meu entusiasmo, pensava comigo mesmo, com uma espécie de vaidade: Eis, pois, um fim de mundo, ó Deus, e eis o destino reservado às inumeráveis terras habitadas!

– Não é o fim – respondeu uma voz à minha idéia íntima –; é o começo.

– Quê? É o começo? pensei eu em seguida.

– O princípio da Terra mesma – respondeu a mesma voz –. Tu reviste toda a história da Terra, distanciando-te dela com velocidade superior à da luz.

Tal afirmação não me surpreendeu mais do que o primeiro episódio da minha vida ultraterrestre, pois, já familiarizado com os efeitos chocantes das leis da luz, estava desde então preparado para toda a nova surpresa. Eu havia duvidado do fato por certos detalhes que não vos pude narrar, para não perturbar a unidade da minha exposição, porém, sem embargo, incomparavelmente mais extraordinárias ainda do que a sucessão geral dos acontecimentos.



Quœrens – Mas, se se tratava realmente da Terra, como se explica que a vossa observação astronômica, feita antes para reconhecimento na constelação do Altar, vos haja indicado, ao contrario, que o mundo por vós examinado não era a Terra, nem uma estrelinha do Altar?

Lúmen – É que essa constelação, em conseqüência da minha viagem no Espaço, havia mudado de posição. Em lugar das estrelas de terceira grandeza e das de quarta que constituem essa figura (vista da Terra), meu distanciamento rumo da nebulosa havia reduzido tais astros a pequenos pontos imperceptíveis. Estavam lá outras estrelas brilhantes, sem dúvida alguma do Cocheiro, estrelas diametralmente opostas às precedentes, quando se observa da Terra, mas que se interpuseram quando foram por mim transpostas. As perspectivas celestes haviam mudado, já, e impossível quase se tornava determinar a posição do nosso Sol.

Quœrens – Não tinha pensado nessa inevitável mudança de perspectivas para além de Capela. Assim sendo, tratava-se mesmo da Terra à vossa vista. Ademais, sua história se desenrolou em sentido inverso da realidade. Vistes os velhos acontecimentos chegando depois dos fatos modernos. Por que processos pôde a luz fazer-vos assim subir o rio do Tempo?

Além disso, ó Lúmen, dissestes haver observado particularidades curiosas relativas à própria Terra. Desejaria particularmente formular algumas questões a respeito de tais detalhes. Ouvirei, pois, com interesse, as histórias extraordinárias que devem completar esta narrativa, persuadido de que, tal qual ocorreu anteriormente, elas responderão antecipadamente à minha curiosidade.


II


Lúmen – A primeira circunstância se prende à batalha de Waterloo.

Quœrens – Ninguém melhor do que eu recorda essa catástrofe, pois recebi uma bala na espádua, perto do Mont-Saint-Jean, e um golpe de sabre em cima da mão direita, vibrado por um dos biltres de Blücher.

Lúmen – Pois bem, meu velho camarada, assistindo de novo a essa batalha, eu a vi de modo diferente daquele pelo qual se desenrolou. Julgareis disso bem depressa.

Quando reconheci o campo de Waterloo, ao sul de Bruxelas, divisei primeiramente um considerável número de cadáveres, sinistra assembléia da morte deitada sobre o chão. Ao longe, por entre o nevoeiro, lobrigava-se Napoleão chegando em recuo, com o seu cavalo seguro pela rédea; os oficiais que lhe faziam séqüito marchavam igualmente retrocedendo! Alguns canhões deveriam começar o seu ribombo, pois, de tempo em tempo, eram vistas as tristes luzes dos seus clarões. Quando a minha vista se aclimatou suficientemente ao panorama, vi, em primeiro lugar, que alguns soldados mortos despertavam, ressuscitavam da noite eterna e se levantavam de um só movimento! Grupos a grupos, um grande número ressuscitou. Os cavalos mortos despertaram tal qual os cavaleiros e estes remontaram nos bucéfalos. Tão logo dois ou três mil desses homens voltaram à vida, eu os vi formarem em perfeita linha de batalha; as duas hostes se defrontaram e começaram batendo-se com encarniçamento, furor mesmo, que quase se poderiam tomar por desespero. Uma vez iniciada a luta pelas duas partes, os soldados ressuscitavam mais rapidamente: Franceses, Ingleses, Prussianos, Hanoverianos, Belgas; capotes cinzentos, uniformes azuis, túnicas vermelhas, verdes, brancas, levantam-se do exército francês, distingui o imperador; um batalhão em quadrado o envolvia: a Guarda-Imperial havia ressurgido!

Então, os imensos batalhões avançaram dos dois campos, precipitando suas pesadas ondas humanas: da esquerda e da direita entrecruzaram-se os esquadrões. Os cavalos brancos faziam flutuar ao vento sua aérea crina. Recordo o estranho desenho de Raffet e recordo-me do epigrama espectral do poeta alemão Sedlitz:

Rufa o tambor estranhamente,
com toda a força o som ressoa;
por essa força ressuscitam
quantos soldados lá morreram.

E deste outro:



É a grande revista que,
em ponto de meia-noite,
tenta nos Campos Elíseos
o César já falecido.”

Era bem Waterloo, mas um Waterloo de além-túmulo, porque os combatentes eram ressuscitados. Afora isso (singular miragem), marchavam em recuo uns contra os outros. Uma tal batalha produziu efeito mágico, que me impressionava, tanto mais fortemente, porque eu imaginava ver o autêntico acontecimento e esse se apresentava estranhamente transformado na sua imagem simétrica. Detalhe não menos singular: quanto mais se combatia, mais o número de lutadores aumentava; a cada claro aberto pelo canhão nas fileiras cerradas, um grupo de mortos ressuscitava imediatamente para preencher falhas. As tropas escoaram o dia a estraçalhar-se pela metralha, canhões, balas, baionetas, sabres, espadas; quando a imensa batalha terminou, não havia um só morto, um único ferido; os uniformes, há pouco rasgados ou em desordem, voltaram a bom estado, os homens se tornaram válidos; as fileiras corretamente formadas.

Os 340.000 soldados que constituíam os dois exércitos se afastaram lentamente, um e outro, como se a ardente peleja não houvesse tido outro fim senão fazer ressuscitar, sob a fumaça do combate, os cem mil cadáveres e feridos jacentes no plano algumas horas antes. Que batalha exemplar e digna de inveja!

Infalivelmente, estava ali o mais singular dos episódios militares. E o aspecto físico fora sobrepujado pelo aspecto moral, quando refleti que tal batalha tivera em resultado, não o vencer Napoleão, mas, ao contrário, pô-lo sobre o trono. Em vez de perder a pugna, o imperador a ganhara, e de prisioneiro se tornou soberano. Waterloo fora um 18 brumário!



Quœrens – Só compreendo pela metade, ó Lumen!, esse novo efeito das leis da luz, e muito vos agradeceria se me désseis mais clara explicação, caso a tenhais apreendido.

Lúmen – Eu vo-la deixei adivinhar, há pouco, ao dizer-vos que me distanciava da Terra com uma velocidade maior do que a da luz.

Quœrens – Explicai-me, porém, de que maneira esse distanciamento progressivo no Espaço vos mostrou os acontecimentos em ordem inversa daquela em que se realizaram?

Lúmen – A teoria é bem simples. Suponde que partis da Terra com uma velocidade exatamente igual à da luz; tereis sempre convosco o aspecto que a Terra apresentava no instante da vossa partida, por isso que vos afastais do globo com a velocidade igual à que leva esse cenário através do Espaço. Ainda mesmo que viajásseis durante dez ou cem séculos, tal aspecto vos acompanharia sempre, à semelhança de um retrato que nunca envelhecesse, apesar do tempo encanecer o original dessa fotografia.

Quœrens – Esse fato eu já o compreendi em nossa primeira palestra.

Lúmen – Bem. Suponhamos agora que vos distanciais da Terra com uma velocidade superior à da luz. Que acontecerá? Encontrareis, à medida que avançardes no Espaço, os raios saídos antes de vós, isto é, as fotografias sucessivas que, de instantes em instantes, se evolam para a imensidão. Se, por exemplo, partis em 1867, com a velocidade idêntica à da luz, olhareis eternamente esse panorama de 1867; se, porém, marchais mais rápido, ireis contemplando os raios de luz que partiram em cada ano anterior e levam gravada a fotografia respectiva de cada tempo.

Para melhor pôr em evidência a realidade desse fato, peço aprecieis raios luminosos saídos da Terra em diferentes épocas O primeiro será o de um momento qualquer do primeiro dia de Janeiro de 1867. À razão de 300.000 quilômetros por segundo, terá, no instante em que vos falo, feito um certo percurso desde a ocasião da sua passagem pela Terra, e se encontra agora a uma determinada distância, que exprimirei pela letra A. Consideremos a seguir outro saído um século antes, em 1 de Janeiro de 1767: levará dez decênios de avanço sobre o primeiro e se encontrará a uma longitude muito maior, distância que designarei pela letra B. Terceiro raio, que localizo em 1 de Janeiro de 1667, estará ainda mais longe, num trajeto igual ao que percorre a luz em 36525 dias. Chamarei C o local onde se encontrará esse terceiro raio. Enfim, um 4°, 5°, 6° corresponderão, respectivamente, a 1 de Janeiro de 1567, 1467, 1367, etc., e estarão escalonados a distâncias iguais, D, E e F, mergulhados cada vez mais no infinito.

Eis, pois, uma série de fotografias terrestres em degraus da mesma linha, de distância em distância, no Espaço. Ora, o Espírito que se afasta, passando sucessivamente pelos pontos A, B, C, D, E, F, neles encontrará, sucessivamente também, a história secular da Terra em tais épocas.

Quœrens – Mestre! a que distância estarão essas fotografias umas das outras?

Lúmen – O cálculo é dos mais fáceis; o intervalo que as separa corresponde ao percorrido pela luz durante um século. Ora, à razão de 300.000 quilômetros por segundo, vereis que viajou 18 milhões em um minuto, mil e oitenta milhões em uma hora, vinte cinco bilhões novecentos vinte três milhões e duzentos mil em um dia, nove mil trilhões quatrocentos e sessenta e sete bilhões duzentos oitenta milhões em um ano, tendo em conta os bissextos. Disso se conclui, em conseqüência, que o intervalo entre dois pontos que guardam um século de distância será de 946 trilhões e 728 bilhões de quilômetros aproximadamente.

Eis, disse eu, uma série de fotografias terrestres escalonadas no Espaço a intervalos respectivos. Suponhamos agora que entre cada uma dessas imagens seculares se encontram escalonadas, a seu turno, as imagens anuais, guardando entre cada uma a distância que a luz percorre em um ano, e a que venho de me referir; e pois que de permeio a cada imagem anual temos as de cada dia; e pois que cada dia contém as das horas e cada hora, afinal, a imagem dos seus minutos, e estes a dos segundos que os formam, e o todo sucedendo-se de acordo com a distância correspondente a cada um deles; teremos em um raio de luz, ou, para melhor dizer, em um jato de luz composto de uma série de imagens distintas, justapostas, a inscrição cósmica da história da Terra.



Quando o Espírito viaja nesse raio etéreo de imagens com velocidade superior à da luz, encontra sucessivamente as antigas. Chegando à distância onde se acha então o aspecto partido em 1767, já remontou a um século de história terrestre. Atingindo o ponto no qual encontra o panorama de 1667, terá alcançado dois séculos. Quando chega à fotografia de 1567, o Espírito já reviu três séculos, e assim por diante. Eu vos disse, de início, dirigir-me então a um montão de estrelas situado à esquerda de Capela. Esse conjunto se encontra a uma longitude incomparavelmente maior do que a da própria estrela, embora da Terra pareça estar à ilharga, por isso que os dois raios visuais são vizinhos. Tal proximidade aparente é devida apenas à perspectiva. Para vos dar idéia do distanciamento provável desse longínquo universo, direi não ser ele menos vasto do que a Via-Láctea. Pode-se assim imaginar a que distância seria preciso transportar a Via-Láctea, para que ficasse reduzida ao aspecto daquela nebulosa. Meu sábio amigo, Arago, fez tal cálculo (que não ignorais, pois ele o repetia em cada ano do seu curso no Observatório, e foi publicado postumamente). Seria necessário supor a Via-Láctea mudada a uma distância igual a 334 vezes a sua extensão. Ora, despendendo a luz 150 séculos na travessia da Via-Láctea – de um extremo ao outro, a conclusão é que deverá empregar 334 vezes 150 séculos, ou seja, mais de 50.000 séculos para vir de lá. Eu havia remontado o raio da Terra até essas remotas regiões e se a minha visão espiritual fosse mais perfeita eu teria podido distinguir, não somente a história retrospectiva 5 de cem ou mil séculos, mas ainda a de cinqüenta mil séculos.

Quœrens – O Espírito pode, pois, pela sua própria potência, atravessar todo gênero de espaços incomensuráveis dos céus?

Lúmen – Pelo seu próprio poder, não, mas servindo-se das potências da Natureza. A atração é uma dessas energias. Ela se transmite com velocidade muitíssimo superior à da luz, e as teorias astronômicas – as mais rigorosas – são forçadas a considerar tal transmissão no nível de quase instantânea. Acrescentarei que, se pude apreender os acontecimentos de tais longitudes, isso não foi pela apreciação visual física que vós conheceis, e sim por um processo diferente, mais sutil, que pertence à ordem psíquica. Os movimentos etéreos constitutivos da luz não são luminosos eles próprios, vós o sabeis. Um órgão visual não é necessário para os perceber. Vibrando a alma sob sua influência, percebe-os tão bem (e muitas vezes incomparavelmente melhor) quanto um aparelho de óptica orgânica. É de óptica psíquica. Assim, por exemplo, a atração atinge instantaneamente os cento e quarenta e nove milhões de quilômetros que separam a Terra do Sol, enquanto que a luz emprega para isso 493 segundos.

Quœrens – Quanto tempo dura tal viagem, rumo desse universo longínquo?

Lúmen – Não percebestes já que o tempo não existe, fora do movimento da Terra? Que eu haja empregado um ano ou uma hora em tal exame, é a mesma duração ante o infinito.

Quœrens – Eu havia pensado isso: as dificuldades físicas me parecem enormes. Permitis agora, que vos submeta uma estranha idéia que me surgiu no cérebro?

Lúmen – É precisamente para atender às vossas reflexões que vos faço estas narrativas.

Quœrens – Eu me perguntava se essa mesma inversão poderia ter lugar para o ouvido tal qual para a vista; se, podendo ver um acontecimento ao avesso da sua realidade, seria possível ouvir um discurso – começando pelo fim. É sem dúvida uma questão frívola e talvez de aparência ridícula, mas, no terreno do paradoxo, por que estacar?

Lúmen – O paradoxo é apenas aparente. As leis do som diferem essencialmente das da luz. O som percorre somente 340 metros por segundo, e seus efeitos nada têm em absoluto de comum com os da luz. Todavia, é evidente que, se avançamos no ar com uma velocidade superior à do som, ouviremos ao inverso os sons saídos dos lábios de um interlocutor. Se, por exemplo, este recitasse um alexandrino, o audiente, distanciando-se com a predita rapidez – a partir do instante em que ouvisse a última sílaba –, encontraria sucessivamente as outras onze – pronunciadas antes – e ouviria o verso ao avesso.

Quanto à teoria em si, ela nos inspira uma reflexão curiosa, e é que a Natureza teria podido fazer com que o som não percorresse 340 metros por segundo, e sua velocidade, dependente da densidade e elasticidade do ar, fosse diversa do que é, mais lenta, muito mais demorada mesmo. Porque, por exemplo, não se transmite ele no ar com a velocidade de alguns centímetros apenas por segundo? Ora, vede que resultaria, se assim fosse. Os homens não se poderiam falar, andando. Dois amigos, em palestra; um dá um passo, dois passos à frente, distanciando-se cem centímetros, suponhamos. E porque o som empregaria muitos segundos para transpor esse metro, resultaria que, ao invés de ouvir a continuação da frase pronunciada pelo amigo, o avançado ouviria de novo, em ordem inversa, os sons constitutivos das frases anteriores. Que mal, se não se pudesse conversar, caminhando, e que três quartas partes das criaturas não se pudessem entender? Estes reparos, meu amigo, me tentam, relativamente às vossas meditações, a um assunto bem digno de atenção e do qual muito pouco se há cogitado até aqui: a adaptação do organismo humano ao ambiente terrestre. A maneira pela qual o homem vive, e percebe, suas sensações, seu sistema nervoso, sua estatura, seu peso, sua densidade, sua locomoção, suas funções, em uma palavra, todos os seus atos são regidos, constituídos mesmo, pelo estado do vosso planeta. Nenhuma de vossas ações é absolutamente livre, independente: o homem é o resultado dócil, ainda que inconsciente, das forças orgânicas da Terra. Sem dúvida, não sendo a alma humana função do cérebro, existindo autônoma, desfruta de liberdade relativa; mas essa liberdade é inteiramente ligada às suas faculdades, sua potência e sua energia; ela se determina segundo as causas que a decidem. Ao nascer de todo homem, aquele que conhecesse exatamente as faculdades dessa alma e as circunstâncias que rodeiam essa vida, poderia, por antecipação, escrever tal vida em todos os seus detalhes. O organismo é o produto do planeta, mas não é em conseqüência de uma fantasia divina, dum milagre, de uma criação direta que o homem está constituído tal qual se encontra. Sua forma, em suma, tem causa no estado do vosso planeta, na atmosfera que respirais, na alimentação que vos nutre, no peso sobre a superfície da Terra, na densidade dos materiais terráqueos, etc.. O corpo humano não difere, anatomicamente, do de um mamífero superior e, se remontardes às origens das espécies, encontrareis transformações graduais estabelecendo, por testemunhos irrecusáveis, que toda a vida terrestre, desde o molusco até o homem, é o desenvolvimento de uma só e única árvore genealógica. A forma humana tem por origem a forma animal; o homem é a borboleta saída da crisálida das idades paleontológicas.

De tal fato resulta a conseqüência de que, nos outros mundos, a vida orgânica difere da existente aqui, e de que as humanidades – resultantes, lá tanto quanto aqui, das forças em atividades em cada planeta – sejam absolutamente diversas em suas conformações da gente terreal. Por exemplo, nos mundos onde não se come, o tubo digestivo e as entranhas desapareceram. Nos mundos fortemente eletrizados, os seres são dotados de um sentido elétrico. Em outros a vista é constituída de raios ultravioletas e os olhos nada têm de comum com os vossos, nem vêem o que vedes, e sim o que não enxergais. Os órgãos se acham em relação com as respectivas funções.

Quœrens – Não somos, pois, o tipo absoluto da Criação? E a Criação é, ela mesma, um perpétuo vir a ser, uma resultante, segundo as forças em atividade?

Lúmen – A própria alma se encontra nesse caso. Há tanta diversidade entre as almas quanta entre os corpos. Para que ela exista, na condição de ser independente, com consciência de si mesma, para que conserve a lembrança de sua identidade e esteja apta para a imortalidade, é necessário que desde esta vida ela saiba que existe em realidade. De outra forma, terá avançado no amanhã da morte tanto quanto na véspera e cairá, qual um sopro insensível, no cego turbilhão do Cosmos, na igual condição de qualquer outro centro de força inconsciente. Muitos homens na Terra blasonam de admitir apenas a matéria (sem saberem, aliás, o que estão dizendo, pois não a conhecem) e, além desses, outros, mais numerosos ainda, que não pensam coisa alguma, não são imortais, por não terem consciência da sua existência. Os Espíritos que vivem realmente da vida espiritual são apenas os que estão aptos para a imortalidade.

Quœrens – E são muitos?

Lúmen – Eis, meu amigo, a aurora que, de novo, me convida a regressar ao seio do Espaço – povoado de coisas desconhecidas da Terra, veio fecundo no qual os Espíritos reencontram os salvados das existências transcorridas, os segredos de muitos mistérios, as ruínas de mundos destruídos e a gênese de mundos futuros. Seria de resto supérfluo alongar esta narrativa de detalhes inúteis. Minha intenção foi mostrar que, para ter o espetáculo de um mundo e de um sistema de vida inteiramente opostos ao vosso, basta distanciar-se da Terra com velocidade superior à da luz.

Nesse arrojo da alma, rumo aos horizontes inacessíveis do infinito, se encontram os raios luminosos refletidos pela Terra e pelos outros planetas desde há milhares e miríades de ciclos anuais, e, observando-se os planetas de tão longínqua distância, pode-se assistir de visu aos acontecimentos da sua história passada. Assim se sobe o rio do Tempo até suas nascentes. Uma tal faculdade deve iluminar, para vós, de novas claridades as regiões da eternidade. Eu me prometo fazer-vos bem depressa conhecer as conseqüências metafísicas, se, segundo espero, admitistes o valor científico da documentação deste estudo ultraterrestre.






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