Camille Flammarion Narracoes do Infinito



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II


Quœrens – Que situação extraordinária para o vosso Espírito analista, ó Lúmen! E qual o meio que vos permitiu chegar a conhecer a realidade?

Lúmen – Os anciães da montanha tinham prosseguido a conversação, enquanto as reflexões precedentes se sucediam em meu espírito. Subitamente, ouvi o mais idoso, espírito venerável cuja cabeça nestoriana se impunha à admiração e ao respeito, exclamar, em tom tristemente ressonante: “De joelhos, meus irmãos, imploremos indulgência ao Deus universal. Essa terra, essa nação continua a ensopar-se em sangue: uma nova cabeça, a de um rei, acaba de tombar!”

Seus companheiros pareceram compreendê-lo, porque ajoelharam sobre a montanha e prosternaram os alvos rostos contra o chão.

Para mim, que ainda não estava habituado a distinguir figuras humanas no meio das ruas e praças públicas, e que não havia acompanhado a observação particular dos anciães, permaneci de pé e insistindo no exame do quadro distante.

– Estrangeiro – disse o velho –, condenais a ação unânime de vossos irmãos, pois que não vos unistes à prece que fizeram?

– Senador – respondi –, não posso condenar, nem aplaudir, pois não sei do que se trata. Chegado a esta montanha há pouco, desconheço a causa da vossa religiosa imprecação.

Então, aproximei-me do velho e, enquanto seus companheiros se ergueram e entretinham em mútua conversação, eu lhe pedi que me narrasse as suas observações.

Ensinou-me que, dada a intuição de que são dotados os Espíritos do grau dos habitantes desse mundo, e também pela faculdade íntima de percepção que lhes coube em partilha, possuem uma espécie de relação magnética com as estrelas vizinhas. Tais estrelas são em número de doze ou quinze, as mais próximas; fora desse perímetro a percepção resulta confusa. “Nosso Sol é uma dessas estrelas contíguas.” Conhecem, pois, vagamente, mas com exatidão, o estado das Humanidades que habitam os planetas dependentes desse Sol, e seu grau relativo de elevação intelectual ou moral.

Além disso, quando uma grande perturbação atravessa uma dessas Humanidades, seja na ordem física, seja na ordem moral, eles sofrem uma espécie de comoção recôndita, à semelhança do que acontece com uma corda, vibrando, ao fazer entrar em vibração outra corda colocada à distância.

Desde há um ano (um ano deste mundo é equivalente a dez dos nossos) eles se haviam sentido atraídos por uma emoção particular para o nosso planeta terrestre e os observadores tinham seguido com interesse e inquietude a marcha desse mundo. Haviam assistido ao fim de um reino, à aurora de uma liberdade resplendente, à conquista dos direitos do homem, à afirmação dos grandes princípios da dignidade humana. Depois, haviam visto a causa sagrada da Liberdade posta em perigo por aqueles que deveriam constituir-se seus primeiros defensores, e a força brutal substituir o raciocínio e a persuasão. Compreendi que se tratava da revolução de 1789 e da queda do velho mundo político diante do novo. Desde algum tempo, principalmente, havia, com intensa mágoa, acompanhado os frutos do terror e a tirania dos bebedores de sangue. Eles temiam pelos dias da raça humana e duvidavam, daí para o futuro, do progresso dessa Humanidade emancipada, que alienava – ela própria – o tesouro que acabara de conquistar.

Guardei-me bem de declarar ao Senador ter chegado da Terra e nela vivido até contar setenta e dois aniversários de existência. Ignoro se ele teve alguma intuição a respeito, mas eu próprio estava tão estranhamente surpreendido de tal visão, que meu espírito se identificara com isso e não mais pensava na minha pessoa.

Minha vista afinal se adaptara ao espetáculo observado, e destaquei, no meio da praça da Concórdia, um cadafalso rodeado de formidável aparelhamento de guerra, de tambores, canhões, e de uma densa multidão pintalgada, empunhando chuços.

Uma charrete, guiada por certo homem vermelho, conduzia os despojos mortais de Luis XVI, dirigindo-se para os lados do arrabalde de Saint-Honoré.

Um populacho ébrio parecia ameaçar o céu. Cavaleiros se seguiam, sabre em punho. Viam-se, rumo dos Campos Elíseos, fossas, nas quais caíam os curiosos.

Mas, essa agitação, concentrada no local tumultuoso, não se estendia à cidade – que parecia morta e deserta. O terror a mergulhara em letargia.



Eu não assistira ao acontecimento de 1793, pois esse fora o ano do meu nascimento, e experimentava indizível interesse em ser testemunha de tal cena, da qual os historiadores me haviam informado. Muitas vezes eu discutira o voto da Convenção Nacional, mas confesso que a execução de homens da estirpe de Lavoisier, o criador da Química; Bailly, historiador da Astronomia; André Chenier, o dulcíssimo poeta; ou a condenação de Condorcet, para o qual não tinham a escusa da razão de Estado, haviam-me causado mais indignação do que o suplício de Luís XVI. Ser testemunha dos acontecimentos dessa época transcorrida despertava em mim interesse sem igual. Todavia, por imenso que fosse tal interesse, podereis calcular que estivesse dominado por um sentimento mais poderoso ainda: achar no ano de 1864, e estar assistindo, presentemente, a um acontecimento desenrolado durante a Revolução Francesa.

Quœrens – Parece-me, com efeito, que esse sentimento de impossibilidade devia tornar singularmente perturbada a vossa contemplação, pois, em última análise, ali estava uma visão que sentimos radicalmente ilusória e da qual não podemos admitir a realidade, mesmo assistindo a ela.

Lúmen – Sim, meu amigo, impossível. Logo, compreendereis em que estado de ânimo me encontrava, enxergando, com os meus olhos, um tal paradoxo realizado? Certa expressão popular diz que, por vezes, não se pode crer nos próprios olhos. Era o meu caso; impossível negar; impossível admitir.

Quœrens – Não seria uma concepção do vosso Espírito, um produto da vossa imaginação, uma exumação da vossa lembrança? Adquiristes a certeza de que se tratava de uma realidade, e não de um reflexo singular da memória?

Lúmen – Foi o primeiro raciocínio que me veio ao espírito, mas era de todo tão evidente estar sob meus olhos a Paris de 1793 e o acontecimento de 21 de Janeiro, que não pude duvidar por muito tempo. E, por outra parte, tal raciocínio estava de antemão derribado pela circunstância de me haverem os velhos da montanha precedido na observação dos fatos – que eles viam, analisavam e se comunicavam mutuamente a ação do momento, sem conhecer de qualquer modo a História da Terra e sem saber que eu conhecesse essa História. E, depois, tínhamos sob o olhar um fato presente, e não um acontecimento do passado.

Quœrens – Mas, então, se o passado se pode assim fundir no presente, se a realidade e a visão se consorciam desse modo, se as personalidades mortas de há muito podem ser vistas ainda, agindo no cenário da vida; se as novas construções e as metamorfoses de uma cidade do tipo de Paris podem desaparecer e deixar ver em seu lugar a cidade de outrora; se, enfim, o presente pode esvair-se para ressurreição do passado; em qual certeza podemos doravante confiar? Em que se torna a ciência de observação? Que será das deduções e das teorias? Sobre o que estão fundados nossos conhecimentos, que nos parecem os mais sólidos? E se aquelas coisas são verdadeiras, não deveremos de futuro duvidar de tudo, ou crer em tudo?

Lúmen – Essas considerações, e outras, meu amigo, me absorveram e atormentaram; mas, todas elas não puderam destruir a realidade que eu via. Quando adquiri a certeza de que tínhamos presente, sob os olhos, o ano 1793, refleti imediatamente que a própria ciência, longe de combater essa realidade (pois duas verdades não se podem opor uma à outra), devia dar-me disso a cabível explicação. Interroguei a Física e esperei a sua resposta.

Quœrens – Quê! O fato era real?

Lúmen – Não somente real, mas também compreensível e demonstrável. Ides receber a explicação astronômica. Examinei, inicialmente, a posição da Terra na constelação do Altar, da qual vos falei. Orientando-me em relação à estrela polar e ao zodíaco, assinalei que as constelações não eram muito diferentes das que são vistas da Terra e, afora algumas estrelas particulares, sua posição continuava sensivelmente a mesma. Orion reinava no equador terrestre; a Grande Ursa, detida em seu curso circular, tendia ainda ao Norte. Reportando-me às coordenadas dos movimentos aparentes, suspensos daí em diante, constatei então que o ponto onde eu via o grupo do Sol, da Terra e dos planetas devia marcar a 17ª hora da ascensão reta, isto é, ao 256° grau, mais ou menos (eu não dispunha de aparelho para tomar exata mensuração). Observei, em segundo lugar, que esse ponto se encontrava rumo do 44° grau de distância do pólo Sul. Tais pesquisas tinham por fim identificar a estrela sobre a qual havia eu pairado e deram lugar a que eu concluísse encontrar-me num astro situado rumo do 76° grau de ascensão reta, e do 46° de declinação boreal. Sabia, por outro lado, pelas palavras do ancião, que o astro onde nos achávamos não estava muito distanciado do nosso Sol, pois este se incluía entre os astros vizinhos. Com a ajuda de tais elementos, pude facilmente encontrar nas minhas reminiscências qual a estrela em concordância com as posições assim determinas. Uma única a isso correspondia; era a estrela, de primeira grandeza, Alfa do Cocheiro, denominada também Capela ou a Cabra. Não havia a menor dúvida a respeito.

Assim, eu estava então certamente num mundo dependente do sistema dessa estrela. De lá, o brilho do nosso Sol fica reduzido ao de uma simples estrela e, em conseqüência da viagem que faz, vai colocar-se em perspectiva diante e na constelação do Altar, situada precisamente em oposto à do Cocheiro, para o habitante da Terra. Desde então, procurei recordar qual era a paralaxe dessa estrela. Lembrava-me de que um dos meus amigos, astrônomo russo, já a havia calculado, e seu cálculo – confirmado – dava a essa paralaxe 0”,046.3

Expresso em milhões de quilômetros, o número é 681.568.000. Assim, o astro sobre o qual eu me encontrava distava da Terra 681 trilhões 568 milhões de quilômetros.

Elucidado desse modo o problema, estavam três quartas partes resolvidas. Ora, eis aqui agora o fato capital, aquele para o qual chamo a vossa particular atenção, pois nele reside, no momento, a explicação da mais estranha das realidades. Sabeis que a luz não vence instantaneamente à distância de um lugar a outro, e sim sucessivamente. Não deixastes de assinalar decerto que, atirando uma pedra em águas tranqüilas, uma série de encíclicas se sucedem em redor do ponto onde a pedra caiu. Assim se dá com os sons no ar, quando passam de um extremo a outro, assim ocorre com a luz no Espaço: ela se transmite gradualmente por ondulações sucessivas. A luz de uma estrela emprega, pois, certo tempo para chegar à Terra e essa duração depende naturalmente da distância entre uma e outra.

O som percorre 340 metros por segundo. Um tiro de canhão é ouvido pelos artilheiros vizinhos da peça no preciso momento em que parte; um segundo depois por aqueles que estejam na distância de 340 metros; 3 segundos pelos que se acham a 1 quilômetro; 12 segundos para os a 4 quilômetros; 2 minutos para os ao decuplo desta distância; 5 minutos para os que, colocados a 100 quilômetros, ouçam ainda esse trovão dos homens. A luz se transmite com uma velocidade muito maior, porém não instantânea, conforme acreditavam os antigos. Ela percorre 300.000 quilômetros por segundo e faria oito vezes o giro do Globo em um segundo, se pudesse fazer voltas; emprega 15 segundos e 1/4 para vir da Lua à Terra; 8 minutos e 13 segundos se partir do Sol; 42 minutos para nos chegar de Júpiter; 2 horas saindo de Urano e 4 horas para fazer a viagem desde Netuno. Vemos, pois, os corpos celestes, não tal qual eles são no momento em que os observamos, mas tal qual eram no instante da partida do raio luminoso que nos chegou. Se um vulcão, por exemplo, entrasse em erupção em um desses mundos referidos, não o veríamos projetar suas chamas senão 1 segundo e 1/4 depois, se se tratasse da Lua; 42 minutos decorridos, se estivesse em Júpiter; 2 horas mais tarde, se viessem de Urano; 4 horas após, caso proviessem de Netuno. Se nós nos transportássemos para além do sistema planetário, as distâncias seriam incomparavelmente mais vastas e maior a demora na chegada da luz. Assim, o raio luminoso saído da estrela mais próxima da Terra, a Alfa do Centauro, despende mais de 1.400 dias para nos atingir; o que procede de Sírio emprega perto de um decênio para atravessar o abismo que nos separa desse sol.

Estando a estrela Capela separada da Terra pela distância que mencionei, é fácil calcular, à razão de 300.000 quilômetros por segundo, quanto tempo necessita a luz para franquear tal intervalo. O cálculo feito dá sete decênios, 20 meses e 24 dias. O raio luminoso que sai de Capela, para vir à Terra, não nos chega senão depois de marchar, ininterruptamente, esses 14 lustros, 20 meses e 24 dias.

Igualmente, o raio luminoso que parte da Terra, para atingir a estrela, ali não chega antes de tal decurso.

Quœrens – Se o raio luminoso que nos vem dessa estrela emprega aquele tempo para atingir o nosso mundo, a luz que nos traz é pois a de quase 864 meses do momento da partida?

Lúmen – Haveis compreendido com exatidão. E aí está precisamente o fato que importa bem penetrar.

Quœrens – Assim, em outros termos, o raio luminoso é semelhante a um correio que nos traz as novidades da situação do país de onde vem e que, se demora 3.744 semanas em chegar, nos traz as notícias do país relativas ao momento da sua partida, isto é, de sete decênios anteriores ao instante em que nos chegam.

Lúmen – Adivinhastes o mistério. Vossa comparação demonstra haverdes erguido uma ponta do véu. Para falar mais exatamente ainda, o raio luminoso seria um correio trazendo, não notícias escritas, mas a fotografia, ou, mais rigorosamente ainda, o próprio aspecto do país donde saísse. Vemos esse aspecto tal qual era no momento em que os raios luminosos enviados de cada um dos pontos do país no-lo fazem conhecido – na ocasião, repito, em que de lá saíram. Nada é mais simples, mais incontestável. Quando, pois, examinamos ao telescópio a superfície de um astro, não a vemos tal qual ela é no instante em que a observamos, e sim tal qual era ao tempo em que a luz, que ora nos chega, foi emitida pela dita superfície.

Quœrens – De sorte que se uma estrela cuja luz, suponhamos, necessita dois lustros para nos chegar, fosse subitamente aniquilada hoje, nós a estaríamos vendo durante esse decênio, de vez que só ao termo de tal tempo nos chegaria o seu derradeiro raio luminoso?

Lúmen – Precisamente isso. Em uma palavra, os raios de luz que as estrelas nos enviam não nos chegam instantaneamente, e sim empregando um certo tempo em transpor a distância de separação, não nos mostrando as estrelas tal qual são agora, mas tal qual eram por ocasião em que partiram esses raios de luz transmissores do respectivo aspecto. Aí está uma surpreendente transformação do passado em presente. Para o astro observado, é o que já se passou, o já desaparecido; para o observador, é o presente, o atual. O passado do astro é rigorosa e positivamente o presente do observador. E porque o aspecto dos mundos muda de um ano a outro, e mesmo da véspera para o dia seguinte, pode-se representar esse aspecto igual a um escapamento no Espaço avançando no infinito para se revelar aos olhos dos longínquos contempladores. Cada aspecto é seguido de um outro, e assim sucessivamente; e, na forma de série de ondulações, levam ao longe o passado dos mundos, que se torna presente aos observadores escalonados na sua passagem. Isso que cremos ver presentemente nos astros já se passou, e o que lá está ocorrendo nós não vemos ainda.

Identificai-vos, meu amigo, com esta representação de um fato real, por isso que vos interessa muito apreender tal marcha sucessiva da luz, e compreender com exatidão essa verdade incontestável: o aspecto das coisas, quando trazido pela luz, apresenta essas coisas, não tal qual elas são presentemente, mas tal qual eram anteriormente, segundo o intervalo de tempo necessário para que a respectiva imagem, assim trazida, percorra a distância que delas nos separa.



Não vemos astro algum qual é no momento, mas qual o era no instante em que dele saiu o raio luminoso que nos chega. Não é o estado atual do céu que nos é visível, mas a sua história passada. Há mesmo tais e tais astros que não existem mais, desde há dez milênios, e são vistos ainda, por isso que o raio luminoso deles chegado saiu de lá muito tempo antes da sua destruição. Tal estrela dupla, da qual buscais com mil cuidados e muitas fadigas determinar a natureza e os movimentos, não existe mais, desde quando começaram a haver astrônomos sobre a superfície da Terra. Se o céu visível fosse aniquilado hoje, seria visto ainda amanhã, e ainda no ano próximo e ainda durante um século, um milênio, cinco, dez milênios, e por mais, excetuadas apenas as estrelas muito próximas, que se extinguiriam, sucessivamente, à proporção do decurso de tempo necessário para que os respectivos raios luminosos, delas emanados, transpusessem a distância que nos separa: Alfa do Centauro extinguir-se-ia primeiro, em 48 meses, Sírio em 120, etc. E fácil agora, meu amigo, aplicar a teoria científica à explicação do estranho fato do qual fui testemunha. Se da Terra se vê a estrela Capela, não tal qual é no momento da observação, e sim tal qual foi 864 meses antes, de igual maneira de lá não se vê a Terra senão com idêntica diferença de aspecto, correspondente a igual período de tempo. A luz despende o mesmo tempo para percorrer os dois trajetos.

Quœrens – Mestre, acompanhei atentamente vossas explicações. Não sendo luminosa, brilha a Terra, à distância, igual a uma estrela?

Lúmen – A Terra espelha no Espaço a luz recebida do Sol. Quanto maior a longitude, mais o nosso planeta se parece a uma estrela, concentrada toda a luz do Sol em um disco que se torna cada vez menor. Assim, vista da Lua, essa superfície parece 14 vezes mais luminosa do que a do plenilúnio, pois é 14 vezes mais vasta. Observada do planeta Vênus, daria a aparência do mesmo brilho que tem Júpiter, visto da Terra. Contemplada de Marte, converte-se em estrela da manhã e do crepúsculo vespertino, oferecendo fases iguais às que Vênus apresenta. Assim, embora não tenha brilho próprio, brilha de longe, a exemplo da Lua e dos planetas, pela luz que recebe e reflete do Sol no Espaço. Ora, assim como os acontecimentos de Netuno sofrem um atraso de 4 horas, vistos da Terra, assim também os da Terra passam pela mesma demora quando observados da órbita de Netuno. Por isso, de Capela, a Terra é vista com aquele dito retrocesso de sete decênios, aproximadamente.

Quœrens – Por muito estranhos e raros que sejam esses aspectos para mim, compreendo agora perfeitamente por que, transportado à estrela Capela, não vistes a Terra no seu aspecto de 1864, data da vossa morte, mas na situação de Janeiro de 1793, por isso que a luz gasta 872 meses para atravessar o abismo que separa o globo terrestre daquela estrela. E compreendo, com a mesma clareza, não se tratar de uma visão ou fenômeno de memória, nem de um ato maravilhoso ou sobrenatural, mas de um fato presente, positivo, natural e evidente; e que, com efeito, quanto ocorrera na Terra, havia muito, só então poderia chegar ao conhecimento do observador colocado àquela longitude. Permiti, porém, intercale uma questão incidente. Para que, procedendo da Terra, testemunhásseis esses fatos foi indispensável franquear tal distância, do nosso mundo à Capela, com velocidade maior do que a da própria luz?

Lúmen – Sobre isso já vos falei, quando disse que eu acreditava tê-la transposto com a rapidez do pensamento, e que no dia mesmo da minha morte eu me encontrei no sistema daquela estrela – que tanto apreciei e admirei durante a minha estada na Terra. A velocidade da gravitação poderá dar uma imagem do que é a do pensamento, pois, vós o sabeis, é quase instantânea.

Quœrens – Ainda uma objeção. Para que se possa ver, assim, de tão alto, a superfície do nosso globo, é necessário estar o céu puro, sem nuvens e sem brumas?

Lúmen – Não, não é indispensável. órgãos especiais podem ver através de corpos opacos; a luz visível não é a única que existe: há raios invisíveis percebidos, por exemplo, pela fotografia.

Quœrens – Ah! mestre, verdadeiramente, embora tudo se explique assim, tal visão não é menos estupenda. Em verdade, é um fenômeno extraordinário esse de ver – atualmente – o passado presente e de não o poder ver senão por esse modo pasmoso, e ainda o de não poder ver os astros tal qual o são no momento em que são examinados, nem tão-pouco vê-los tal qual foram – simultaneamente –, e sim apenas o que foram em épocas diversas, segundo suas distâncias e o tempo que a luz de cada um gastou para chegar a Terra! Assim, nenhum olhar humano vê o universo sideral tal qual é!

Lúmen – O espanto legítimo que experimentais na contemplação desta verdade, meu amigo, é apenas o prelúdio, ouso dizê-lo, do que vai agora aprender. Sem dúvida, parece, à primeira vista, muito extraordinário que, distanciando-se bastante no Espaço, encontre alguém maneira de assistir realmente a acontecimentos de eras desaparecidas e ressubir o rio do passado. Mas não reside nisso o fato que tenho a comunicar e que ides achar mais imaginário ainda, se quiserdes ouvir mais extensamente a narrativa da jornada que se seguiu à minha libertação do cárcere terrestre.

Quœrens – Falai, eu vos peço, estou sequioso de vos escutar.

III


Lúmen – Depois de haver desviado meu olhar das cenas sangrentas da praça da Revolução, eu me senti atraído para uma habitação de antiquado estilo, fazendo face para a Notre Dame, e situada no terreno ora ocupado pelo átrio. Diante da porta interior (paravento), havia um grupo de cinco pessoas, que estavam meio deitadas sobre bancos de madeira, cabeça descoberta exposta ao Sol. E porque pouco depois se levantassem e se dirigissem a seus lugares, reconheci em uma a pessoa de meu pai, tão moço qual jamais eu imaginara, minha mãe, mais jovem ainda, e um de meus primos, falecido no mesmo ano da morte de meu pai, aproximadamente há 8 lustros. É difícil, à primeira vista, reconhecer as pessoas, pois, ao invés de serem vistas de face, são olhadas do alto, como que de um andar superior. Não me surpreendeu muito tal encontro. Recordei-me então ter ouvido dizer, na minha juventude, que meus parentes residiam, antes do meu nascimento, na praça Notre Dame.

Com estupefação maior no sentir do que no poder expressar, senti minha vista fatigada e cessei de distinguir qualquer coisa, tal qual nuvens se houvessem estendido sobre Paris. Acreditei, por minutos, que um turbilhão me arrastava. De resto, já o haveis decerto compreendido, não possuía mais a noção do tempo.



Quando revi distintamente os objetos, notei um grupo de crianças correndo na praça do Panteão. Esses colegiais me pareciam saídos da aula, pois conduziam bolsas e livros, e tinham a aparência de regressar aos lares, saltitando e gesticulando. Dois entre eles atraíram minha atenção em especial, porque pareciam alterados por uma rixa qualquer e começavam uma luta particular. Um terceiro avançou para separá-los, mas recebeu um encontrão de ombros que o atirou ao chão. No mesmo instante vi uma senhora correr para o menino. Era minha mãe. Ah! jamais, nunca, em meus setenta e dois anos de existência terrestre, entre todas as peripécias, todos os espantos, todos os golpes imprevistos, todas as bizarrias de que foi tal existência pontilhada, entre todos os acontecimentos, todas as surpresas, acaso da vida – jamais experimentei comoção igual à que me sacudiu – quando, nesse menino, me reconheci eu mesmo!

Quœrens – Vós mesmo?

Lúmen – Sim, eu mesmo. Com os meus louros cabelos cacheados, aos cinco de idade, meu lencinho bordado pelas mãos daquela mãe que correra a me acudir, minha blusinha azul celeste e meus punhos sempre amarrotados. Estava lá, o mesmo menino do qual vistes a imagem meio esvaecida na pequena miniatura colocada na lareira. Minha mãe veio, tomou-me nos braços, ralhando a meus camaradas, e me conduzia pela mão à nossa casa, então situada na abertura atual da rua do Ulm. Depois, vi que, tendo atravessado o interior, nos achamos ambos num jardim onde havia muita gente.

Quœrens – Mestre, perdoai uma reflexão crítica. Confesso que me parece impossível que alguém possa ver-se a si mesmo! Vós não vos podeis tornar em duas pessoas. E uma vez que havíeis atingido a idade setuagenária, a vossa condição infantil fora para o passado, estava desaparecida, anulada desde muito. Vós não podíeis ver uma coisa inexistente. Pelo menos, não posso compreender que, sendo velho, vos fosse possível ver a própria personalidade com a idade atual de criança.

Lúmen – Qual razão vos impede de admitir esse ponto no mesmo grau dos precedentes?

Quœrens – Porque ninguém se pode ver, num duplo, simultaneamente, criança e velho!

Lúmen – Vós não raciocinais de modo completo, meu amigo. Haveis assimilado o fato geral, para admiti-lo, mas não observastes suficientemente que este último fato cabe de modo completo no primeiro. Admitis que o aspecto da Terra despende 864 meses para chegar a mim, não é certo ? que os acontecimentos não me chegam senão com este intervalo de tempo para sua atualidade? em uma palavra, que eu vejo o mundo tal qual ele era naquela época. Admitireis paralelamente que, vendo as ruas de tal tempo, eu veja, na mesma ocasião, os meninos que corriam então nas ditas ruas. Não está bem esclarecido?

Quœrens – Inteiramente.

Lúmen – Muito bem! Então, se eu vejo o grupo de crianças e eu fazia parte dessa infância, porque pretendeis não me veja tão bem quanto as outras ?

Quœrens – Mas vós não estais mais nesse grupo!

Lúmen – Ainda uma vez, esse grupo não existe mais, atualmente; mas eu o vejo tal qual existia à época em que partiu o raio luminoso que hoje me chegou. E desde que diviso os 15 ou 18 meninos componentes do todo, não há razão para que o menino que era eu desaparecesse, pelo fato de ser eu mesmo quem observa. Outros observadores vê-lo-iam em companhia desses camaradas. Porque quereis houvesse uma exceção quando eu próprio olho? Eu os vejo a todos, e a mim com eles.

Quœrens – Eu não havia apreendido inteiramente o caso. É a evidência, com efeito. Abrangendo um grupo de crianças do qual fizestes parte, não poderíeis deixar de ver a vós próprio, desde que víeis a todos os outros.

Lúmen – Ora, compreendereis em que estranha estupefação devia precipitar-me uma tal visão? Esse menino era bem eu, em carne e osso segundo a expressão vulgar e significativa. Era eu no início do meu segundo lustro de idade. Eu me via, tão bem quanto os companheiros do jardim que brincavam comigo. Não era miragem, visão, espectro, reminiscência, ilusão: era realidade pura, positivamente a minha personalidade, meu pensamento, meu corpo. Estava lá, sob meus olhos. Se meus outros sentidos tivessem tido a perfeição da minha vista, parece-me que eu teria podido tocar-me e ouvir-me a mim próprio. Eu saltava naquele jardim e corria em torno do lago rodeado de balaustrada. Algum tempo depois, meu avô me colocou sobre os joelhos e me fez ler em um grande livro.

Mas, basta! Renuncio descrever essas impressões. Deixo-vos o cuidado de as experimentar em vós mesmo, se estais bem identificado com a realidade física desse fato, e me limito a declarar que jamais semelhante surpresa caiu sobre minha alma.

Uma reflexão principalmente me atarantou. Eu me dizia: esse menino sou eu, e bem vivo. Ele cresceu e deve viver mais onze vezes a idade que tem. Sou eu, real e incontestavelmente, eu mesmo.

E, de outro lado, eu que estou aqui com os 72 de vida terrestre, eu que penso e vejo estas coisas, sou tanto eu quanto sou essa criança. Eis-me, pois, em dois: lá embaixo, na Terra; aqui, em pleno Espaço. Duas pessoas completas, e não menos distintas uma da outra. Observadores, colocados onde estou, poderiam ver esse menino no jardim tal qual o vejo e também me ver igualmente aqui: a mim, em dois. É incontestável. Minha alma está nessa criança, e igualmente aqui; é a mesma, a alma única, animando, no entanto, esses dois seres. Que estranha realidade! E não posso dizer que me engano, que estou em ilusão, que um erro óptico me domina. Ante a Natureza e ante a Ciência, eu me vejo, ora menino e ora velho, lá e aqui... lá, descuidoso e alegre; aqui, pensativo e emocionado.



Quœrens – É estranho realmente.

Lúmen – E positivo. Buscai, na criação inteira, e encontrareis um paradoxo mais notável do que esse?

Ora, que é o tempo? Suponde que um octogenário tem diante do olhar dois retratos representando, o primeiro, seu pai quando infante, saindo do primeiro lustro de idade, por exemplo, e o segundo, ele próprio, na idade atual de oitenta. Onde está a criança, onde está o velho? Sem dúvida, o genitor está mais idoso do que ele, mas esse tempo já passou, pois o genitor já faleceu. Suas duas existências foram sucessivas; é tudo que poderíamos dizer. Ante esses dois retratos, o pai é a criança, a criança um avô. Visto de mais longe, desaparecido o tempo, o passado dá lugar a um presente perpétuo. O tempo desaparece também em astronomia.

Eu vos dizia há pouco que ocasiona bastante fadiga mensurar as posições precisas de pares de estrelas duplas que não existem mais. A luz que recebeis hoje partiu há séculos e séculos, e desde essa época o par foi destruído por uma conflagração cósmica que vereis dentro de um milênio. Mas, estudais, apesar disso, o inexistente, e, muitas vezes, com verdadeira paixão. Não vos importa. Isso, aliás, é um prazer matemático. Não é inútil refletir a respeito dessas verdades: elas nos elevam acima das contingências pueris da vida.

Que acrescentarei agora à minha narrativa? Eu me segui, assim, crescendo na vasta cidade parisiense. Eu me vi, em 1804, ingressando no colégio e fazendo minhas estréias no momento em que o Primeiro Cônsul se coroava com a dignidade imperial. Conheci essa fronte dominadora e pensativa de Napoleão num dia em que passou em revista o Carrocel.

Não me havendo jamais encontrado em sua presença, fiquei satisfeito em vê-lo atravessar meu campo atual de observação. Em 1810 eu me revi na formatura da Escola Politécnica e em palestra no pátio com o melhor dos meus camaradas, Francisco Arago. Esse jovem já pertencia ao Instituto e substituía Monge na Escola, devido ao jesuitismo de Binet, do qual o Imperador se queixava. Encontrava-me desse modo na plenitude dos brilhantes tempos da minha adolescência e dos meus projetos de viagem de exploração científica, em companhia de Arago e Humboldt, viagens que este se decidiu empreender sozinho. Depois, eu me reconheci, mais tarde, sob os Cem-Dias, atravessando rapidamente o pequeno bosque do velho Luxemburgo, a rua do Este e a aléia do jardim da rua de S. Jaques, e vendo acorrer minha bem-amada para me receber sob os lilases em flor. Doces horas de solitude a dois, de confidências de coração, silêncios da alma, transportes do amor, efusões da tarde – vós vos oferecestes à minha vista emocionada, não mais no grau de saudades longínquas, porém na vossa atualidade absoluta!

Assisti de novo ao combate dos Aliados na colina de Montmarte, à sua descida na Capital, à queda da estátua da praça Vendôme, arrastada nas ruas, por entre gritos de alegria, ao campo dos ingleses e dos Prussianos nos Campos Elíseos, à devastação do Louvre, à viagem de Gand, à reentrada de Luís XVIII! A bandeira da ilha de Elba flutua sob meus olhares e, mais tarde, porque buscasse no Atlântico a ilha solitária onde a águia fora acorrentada, asas quebradas, a rotação do Globo aproximou de minha vista Santa-Helena, onde identifiquei o Imperador, imaginando junto de um sicômoro.



Assim passou cada ano presente ao meu olhar. Acompanhando sempre a minha própria individualidade, no meu casamento, nas minhas iniciativas, minha vida de relação, minhas viagens, estudos, etc., assisti ao desenvolvimento da história contemporânea. À restauração de Luís XVIII sucede o governo efêmero de Carlos X. As jornadas de Julho de 1830 mostraram as suas barricadas e, não longe do trono do Duque de Orleães, vi aparecer a coluna da Bastilha. Rapidamente passaram esses 216 meses. Apercebi-me no Luxemburgo, nessa avenida magnífica, que fora aberta por Napoleão e substituíra velhos mosteiros. Revi Arago no Observatório e a turba que se apertava às Portas do novel anfiteatro. Reconheci a Sorbona de Gousin e de Guizot. Depois, meu coração se constringiu, ao ver passar o enterro de minha mãe, senhora austera e talvez um pouco severa demais em seus julgamentos, porém que eu sempre muito amei, conforme sabeis. A singular pequena revolução de 1848 surpreendeu-me não menos vivamente do que quando me pareciam ser os próprios acontecimentos. Reconheci, na praça da Bolsa, Lamoricière, falecido no ano passado, e, nos Campos Elíseos, Cavaignac, também já desaparecido, há um lustro mais ou menos. O 2 de Dezembro veio encontrar-me observador na minha estação celeste, tal qual eu o havia sido na minha torre solitária, e, sucessivamente, se escoaram assim acontecimentos que me haviam emocionado, e outros de mim desconhecidos.

Quœrens – E esses acontecimentos passavam com rapidez ante vosso olhar?

Lúmen – Não saberia apreciar a medida do tempo; mas todo esse panorama retrospectivo se sucedeu de certo em menos de um dia... ou horas, talvez.

Quœrens – Nesse caso, não compreendo melhor! Perdoe a um velho amigo esta interrupção um tanto viva; mas, segundo havia imaginado, pareciam-me ser os próprios acontecimentos que se apresentavam aos vossos olhos, e não um simulacro unicamente, em virtude do tempo necessário ao trajeto da luz, esses sucessos estavam atrasados quanto ao momento da sua ocorrência. Se, pois, 864 meses terrestres passaram sob vosso olhar, eles deviam ter gastado esse período de tempo para vos aparecerem, e não algumas horas. Se o ano 1793 vos surgiu em 1864, o ano de 1864, em retrocesso, não deveria, conseqüentemente, aparecer antes de 1936.

Lúmen – Vossa objeção, nova, tem fundamento e demonstra que haveis perfeitamente compreendido a teoria desse fato. Sei que estais satisfeito por havê-la formulado. Também vou explicar porque não me foi necessário aguardar 864 novos meses para rever minha vida, e por que, sob o impulso de uma força inconsciente, eu a pude rever em menos de um dia. Continuando a seguir o desenrolar da minha existência, cheguei aos últimos tempos, notáveis pela transformação radical feita em Paris. Vi meus velhos e queridos amigos, vós inclusive, minha filha e seus lindos filhinhos, minha família e meu círculo de conhecidos; e, enfim, chega o momento em que, pela percepção dos raios ultravioleta, atravessando os mundos, eu me vi, deitado no meu leito de morte. Penetrei na câmara mortuária e assisti à derradeira cena, o que equivale dizer que eu regressara à Terra.

Atraída pela contemplação que a empolgava, minha alma havia depressa esquecido a montanha dos anciães e Capela. Tal qual acontece por vezes em sonho, abalava-se com o que via. Disso não me apercebi imediatamente, tanto a estranha visão absorvera todas as minhas faculdades.

Não vos posso explicar qual o poder que permite às almas transportarem-se tão rapidamente de um lugar a outro; mas, a verdade é que eu voltara à Terra, em menos de um dia, e que penetrei em meu aposento de dormir, no preciso momento de ser amortalhado.

Por isso que em tal viagem de regresso caminhava ao encontro de raios luminosos, eu encurtava sem cessar a distância que me separava da Terra; a luz tinha cada vez menos percurso a vencer e restringia assim a sucessão dos acontecimentos. No meio do caminho, os raios luminosos, chegando-me apenas com a metade do atraso (432 meses), não mais me mostravam a Terra dos 864 anteriores, mas a daquela metade de tempo. Nas três quartas partes do percurso, os aspectos eram os de 216 meses de retardo. Na metade do último quarto do tempo chegavam com a diferença de 108 meses decorridos, e assim por diante, de modo que a minha existência se condensou em menos de um dia, em conseqüência da volta rápida de minha alma vindo ao encontro dos raios luminosos.



Quœrens – Essa combinação de marchas não é menos estranho fenômeno!

Lúmen – Não vos acode ao espírito outras objeções, ouvindo-me?

Quœrens – Confesso que essa combinação foi a última, ou pelo menos me intrigou de modo a excluir qualquer outra no momento.

Lúmen – Eu vos farei notar a existência de umas outras, astronômicas, que revelarei imediatamente para que não reste dúvida. Tal combinação depende do movimento da Terra. Não somente o movimento diurno do Globo deveria impedir-me de bem apanhar a sucessão dos fatos, mas também esse movimento, sendo desmesuradamente acelerado pela rapidez do meu regresso rumo à Terra, e 864 meses escoando-se em menos de um dia – refleti ser surpreendente que eu de tal não me apercebesse. Mas, tendo visto apenas um número relativamente restrito de paisagens, de panoramas e de fatos, é provável que, retornado ao nosso planeta, eu me mantivesse, por mui rápidos instantes isolados, sobre pontos que sucessivamente me interessaram. De qualquer modo, devia render-me à evidência, e constatar que, sem fadiga, havia assistido à sucessão célere dos sucessos do século e da minha própria existência.

Quœrens – Essa dificuldade não me escapara, e pensei que haveis navegado no Espaço à maneira de um balão arrastado pela rotação do globo. Certo, a inconcebível rapidez com que deveis ter sido levado é das de causar vertigens; mas não me limito, todavia, a essa hipótese, meditando sobre vossa afirmativa.

Assinalando que a vossa visão, e assim a vossa insciente aproximação da Terra, eram devidas à intensidade de atenção sobre o ponto do globo onde vos víeis de novo, não é inadmissível que vos mantivésseis constantemente preocupado com o dito ponto.



Lúmen – A esse respeito, não vos afirmo coisa alguma, pois de tal permaneci inconsciente; mas, sobre isso, penso diferente. Não revi todos os acontecimentos da minha existência, mas apenas um pequeno número dos principais, que, sucessivamente escalonados, me mostraram o conjunto da minha vida. Apresentaram-se quase todos sobre o mesmo raio visual. Tudo quanto sei é que a atenção indizível, que me prendia soberana e imperiosamente à Terra, agia na forma de uma corrente que me religasse a ela, ou, se preferis a expressão, com o poder dessa força ainda misteriosa da atração dos astros, em virtude da qual os pequenos tombariam diretamente sobre os mais importantes, se não fossem retidos nas suas órbitas pela força centrífuga.

Quœrens – Cogitando desse efeito da concentração do pensamento relativamente a um ponto único, e da atração real que ele sofre logo, com relação a esse ponto, creio assinalar que aí está o eixo principal do mecanismo dos sonhos.

Lúmen – Dissestes a verdade, meu amigo, e vos posso afirmar, eu, que, durante largo tempo, fiz dos sonhos o assunto especial de minhas observações e estudos. Quando a alma, liberta das atenções, preocupações e tendências corporais, vê em sonho um objeto que a encanta e para o qual se sente atraída, tudo desaparece em torno de tal objeto – que permanece só e se constitui o centro de um mundo de criações; ela o possui inteiramente e sem reservas, contempla-o, dele se apossa e o faz seu, o universo inteiro se apaga da reminiscência, para deixar um domínio absoluto ao objeto da contemplação da alma, e, tal qual me aconteceu em meu regresso à Terra, não vê mais do que o dito objeto, acompanhado das idéias e das imagens que engendra e faz sucessivamente surgir.

Quœrens – Vossa rápida viagem a Capela, e assim vosso regresso não menos veloz à Terra, tinham, pois, por fundamento causal, essa lei psicológica, e agistes mais livremente ainda do que em sonho, porque vossa alma não mais estava peada pelas engrenagens do organismo. Recordo-me de que, em nossas conversações passadas, vós, com efeito, dissertastes muitas vezes a respeito da força da vontade. Assim, pudestes retornar ao leito de morte antes que vosso envoltório mortal fosse sepultado.

Lúmen – Regressei, e bendisse as saudades sinceras da minha família, acalmei as dores da nossa amizade ferida, esforcei-me por inspirar a meus filhos a certeza de que eu não era mais aquele envelope mortal, e que eu habitava a esfera dos Espíritos, o Espaço celeste, infinito e inexplorado.

Assisti ao meu próprio enterro e assinalei aqueles que se diziam meus amigos e que, por uma ocupação de medíocre importância, não se deram ao incômodo de levar meus despojos terreais à derradeira morada. Ouvi as variadas conversações que versavam sobre o meu cortejo funerário. Pareceu-me que muitos se entretinham principalmente com os seus interesses personalíssimos; mas verifiquei a presença de irmãos de pensamento no convívio dos quais sempre me encontrava e, embora nesta região de paz não tenhamos avidez de elogios, eu me senti feliz em constatar que uma suave lembrança da minha passagem pela Terra lhes havia ficado na memória.

Quando a pedra do túmulo caiu e separou a terra dos mortos da Terra dos vivos, dei um derradeiro adeus ao meu pobre corpo adormecido e, porque o Sol já descesse para o seu leito de púrpuras franjado de ouro, permaneci na atmosfera até à noite próxima, mergulhado na admiração dos belos espetáculos que se desdobravam nas regiões aéreas. A aurora boreal estendia por cima do pólo o seu turbante prateado, estrelas errantes choviam de Cassíope e a Lua-cheia, vagarosa, se elevava no Oriente, qual um novo mundo surgindo das ondas. Vi Capela cintilante, que me fixava com o seu luminoso olhar tão vivo, e distingui as coroas que a circundavam, príncipes celestes de uma divindade. Então, esqueci de novo a Terra, a Lua, o sistema planetário, o Sol, os cometas, para me deixar prender sem reservas à intensa atração da refulgente estrela, e fui transportado no seu rumo pela ação do meu desejo, com uma rapidez maior do que a das setas elétricas. Depois de algum tempo, cuja duração não me foi possível verificar, cheguei ao mesmo anel e à montanha onde estivera na antevéspera, e vi os anciães ocupados no seguimento da história da Terra, no período retardado de 860 meses. Estavam vendo os acontecimentos da cidade de Lião, do dia 23 de Janeiro de 1793

Confessar-vos-ei qual a causa misteriosa da minha atração para com a estrela Capela? Maravilha! Existem na Criação ligações invisíveis que não se rompem, qual acontece com os laços mortais, correspondências íntimas que subsistem entre as almas, apesar da separação pelas distâncias. Na noite desse segundo dia, porque a lua-esmeralda se incrustasse no terceiro anel de ouro (tal é a medida sideral do tempo), surpreendi-me percorrendo solitária avenida envolta de flores e perfumes. Flutuei nela alguns instantes, quando vi aproximar-se de mim a minha tão amada e cara Eivlys. Estava linda qual outrora; as primaveras desaparecidas resplenderam ante meus olhos. Não me deterei a descrever a alegria de tal reencontro, pois não é cabível aqui, e talvez um dia nos entretenhamos em falar a respeito das afeições ultraterrestres que sucedem às da vida carnal. Desejo apenas salientar, a propósito do reencontro em ligação com esta tese, que bem depressa procuramos juntos, no Céu, a Terra – a nossa pátria adotiva, onde desfrutáramos dias de paz e ventura. Estimamos, com efeito, dirigir nossos olhares rumo desse ponto luminoso onde a nossa condição atual nos permitia distinguir um mundo; sentíamos prazer em consorciar o passado da nossa saudade ao presente que nos chegava nas asas da luz. E no êxtase em que nos mergulhava essa singularidade tão nova para ambos, buscávamos ardentemente ressurgir ante a vista os acontecimentos da nossa mocidade. Assim, revimos, então, os amados tempos do nosso primeiro amor, o pavilhão do Convento, o jardim florido, os passeios dos arredores de Paris, tão faceiros e formosos, e nossas viagens, sozinhos os dois, através dos campos. Para reconstruir esses períodos, bastava avançarmos, juntos, no Espaço, em direção da Terra, até às regiões em que tais aspectos, trazidos pela luz, estavam gravados. Aí tendes revelada, meu amigo, a estranha observação que vos havia prometido. Eis a aurora que se avizinha, e já a estrela de Lúcifer empalidece sob a Alba Rósea. Volto às constelações...



Quœrens – Ainda uma palavra, ó Lúmen, antes de findar esta palestra. De vez que os aspectos terrestres só se transmitem sucessivamente no Espaço, deve haver, pois, um presente perpétuo para as vistas escalonadas nesse Espaço, até um limite fronteirado apenas pela extensão da visão espiritual.

Lúmen – Sim, meu amigo. Coloquemos, por exemplo, um primeiro observador na distância da Lua: ele se aperceberá dos fatos terrestres um segundo e 1/4 depois de ocorridos. Situemos um outro em distância quádrupla; esses acontecimentos sofrerão uma demora de 5 segundos. Um terceiro os verá com a diferença de 10 segundos. A uma distância dupla ainda da precedente, o quarto observador os distinguirá com o intervalo de 20 segundos. E assim sucessivamente. À distância do Sol, já existe uma diferença de 8 minutos e 13 segundos. Com relação a certos planetas, a demora será de muitas horas, conforme assinalamos já. Mais longe, são necessários dias inteiros. Para além ainda, meses, mais de um ano. Das estrelas mais próximas, só se percebem os acontecimentos terráqueos um, dois lustros depois de realizados. Há estrelas bastante longínquas, as quais a luz atinge com o retardo de alguns séculos, e mesmo em dezenas de séculos. Nebulosas existem onde a luz chega somente depois de uma viagem de milhões de ciclos anuais.

Quœrens – De sorte que, para ser testemunha de ocorrências históricas ou geológicas dos tempos passados, bastaria que esses observadores se afastassem suficientemente. Não se poderia rever verdadeiramente o dilúvio, o paraíso terrestre, Adão e...

Lúmen – Já vos disse, meu velho amigo, que a chegada do Sol ao hemisfério põe em fuga os Espíritos. Uma segunda palestra permitirá aprofundar melhor um assunto do qual só vos pude apresentar hoje o esquema geral, e que é fértil em novos horizontes. As estrelas me chamam, e já desapareceram. Adeus, Quœrens, adeus.




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