Camille Flammarion Narracoes do Infinito



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Primeira narrativa 1

Resurrectio præteriti

I


Quœrens – Vós me haveis prometido, ó Lúmen!, fazer a narrativa dessa hora, estranha entre todas, que se seguiu ao vosso derradeiro suspiro, e descrever de que modo, por uma lei natural, embora mui singular, revistes o passado no presente e penetrastes um mistério que havia permanecido oculto até hoje.

Lúmen – Sim, meu velho amigo, vou cumprir a promessa e, graças à longa correspondência de nossas almas, espero compreendereis esse fenômeno estranho, conforme o classificastes. Há contemplações cuja força o olhar mortal não pode suportar. A morte, que me libertou dos frágeis e fatigáveis sentidos do corpo, ainda não vos tocou com a sua mão emancipadora. Pertenceis ao mundo dos vivos. Apesar do isolamento de ermo, nessas reais torres do arrabalde Saint-Jacques, onde o profano não vem perturbar vossas meditações, fazeis, sem embargo disso, parte da existência terrestre e das suas superficiais preocupações. Não vos admireis, pois, no instante de vos associar ao conhecimento do meu mistério, do convite para que vos isoleis, mais ainda, dos ruídos exteriores e me presteis toda a intensidade de atenção de que o vosso Espírito seja capaz de concentrar nele próprio.

Quœrens – Serei todo ouvidos, para vos escutar, ó Lúmen!, e todo o meu Espírito estará concentrado em vos compreender. Falai, sem receio nem circunlóquio, e dignai-vos de me fazer conhecedor das impressões, ignotas para mim, que sucedem à cessação da vida.

Lúmen – Por onde desejais comece a narração?

Quœrens – Se bem recordardes, a partir do momento em que, mãos trêmulas, eu vos fechei os olhos. Gostaria que daí partisse a vossa origem.

Lúmen – Oh! a separação do princípio pensante e do organismo nervoso não deixa na alma nenhuma espécie de recordação. É como se as impressões do cérebro, que constituem a harmonia da memória, se apagassem inteiramente e fossem logo restabelecidas sob outro modo. A primeira sensação de identidade que se experimenta depois da morte assemelha-se à que se sente ao despertar, durante a vida, quando, acordando pouco a pouco, à consciência da manhã, ainda se está penetrado pelas visões da noite. Chamado pelo futuro e pelo passado, o Espírito busca, por seu turno, retomar a plena posse de si mesmo e deter as impressões fugitivas do sonho esvaecido, que passam ainda nele com o respectivo cortejo de quadros e acontecimentos. Às vezes, absorvido em tal retrospecção de um sonho cativante, sente sob as pálpebras, que de novo se fecham, os elos tênues da visão reatados e o espetáculo prosseguir; recai, então, no sonho e numa espécie de meio-sono. Assim se balança nossa faculdade pensante ao sair desta vida, entre uma realidade que não compreende ainda e um sonho não desaparecido completamente. As mais diversas impressões se amalgamam e confundem, e se, sob o peso de sentimentos perecedouros, tem saudades da Terra de onde vem exilado, é então oprimida por um sentimento de tristeza indefinível que pesa sobre nossos pensamentos, nos envolve de trevas e retarda a clarividência.

Quœrens – Experimentastes essas sensações imediatamente após a morte?

Lúmen – Após a morte? Mas não existe morte. O fato que designais sob tal nome, a separação do corpo e da alma, não se efetua – por assim dizer – sob uma forma dita material, comparável à separação química de elementos dissociados que se observa no mundo físico. Não se percebe essa separação definitiva, que vos parece tão cruel, mais do que a pode perceber o recém-nascido, saindo do ventre materno. Somos verdadeiramente nascidos para a vida celeste, tal qual o fomos para a existência terrestre. Apenas, não estando a alma envolta nas faixas corporais que a revestem na Terra, adquire ela mais prontamente a noção do seu estado e da sua personalidade. Tal faculdade de percepção varia todavia – essencialmente – de uma para outra alma. Há as que durante o viver nunca se elevaram rumo do céu, nem sentiram o desejo de penetrar as leis da Criação. Essas, dominadas ainda pelos apetites corporais, permanecem longo tempo em estado de perturbação e de inconsciência. Outras existem, felizmente, que, desde esta vida, voaram com as suas aspirações aladas rumo aos cimos do belo eterno. Estas, vêem chegar com calma e serenidade o instante da separação; elas sabem que o progresso é a lei da existência, que entraram no Além, numa vida superior à de aquém; seguem, passo a passo, a letargia que sobe ao coração e, quando o último movimento, vagaroso e insensível, pára em seu curso, elas estão já acima do corpo e daí já observaram o adormecimento. Libertando-se dos liames magnéticos, sentem-se rapidamente arrebatadas por uma força desconhecida rumo do ponto da Criação, a que as suas aspirações, sentimentos e esperanças as atraem.

Quœrens – A palestra que ora inauguro convosco, meu caro mestre, traz à memória os diálogos de Platão sobre a imortalidade da alma; e igual a Fedro que o solicitava a seu mestre, Sócrates, no próprio dia em que este devia beber a cicuta – para obedecer à iníqua sentença dos Atenienses –, eu vos pergunto, ó vós, que haveis transposto o termo fatal, que diferença essencial distingue a alma do corpo, de vez que este perece, enquanto que a primeira não morre jamais?

Lúmen – Não darei a essa questão uma resposta metafísica, qual a de Sócrates, nem uma solução dogmática, qual a dos teólogos, mas uma resposta científica, porque vós, tal qual eu, dais valor somente aos fatos constatados pelos métodos positivos. Ora, pode-se distinguir no ser humano três princípios diferentes, ainda que reunidos:

1ª: o corpo material; 2ª: o corpo astral; 3ª: a alma.

Menciono-os nessa ordem para seguir o método a posteriori. O corpo material é uma associação de moléculas, formadas elas próprias de agrupamentos de átomos. Os átomos são inertes, passivos, governados pela força, e entram no organismo pela respiração e pelos alimentos, renovam incessantemente os tecidos, são substituídos por outros e, eliminados, vão pertencer a outros corpos. Em alguns meses, o corpo humano é totalmente renovado, e nem no sangue, nem na carne, nem no cérebro, nem nos ossos resta mais um único dos átomos que constituíam o todo alguns meses antes.

Por intermédio da atmosfera, principalmente, os átomos viajam sem cessar de um para outro corpo. A molécula de ferro é sempre a mesma, quer esteja incorporada ao sangue que pulsa sob a têmpora de um homem ilustre, quer pertença a um vil fragmento enferrujado. A molécula de oxigênio é idêntica, brilhe no olhar amoroso da noiva, ou, reunida ao hidrogênio, projete sua flama em um dos mil luzeiros das noites parisienses, ou, ainda, tombe em gota de água do alto das nuvens. Os corpos atualmente vivos são formados da cinza dos mortos e, se todos os mortos ressuscitassem, faltariam aos vindos por último muitos fragmentos pertencentes aos primeiros. E, durante a vida mesmo, numerosas mudanças ocorrem, entre amigos e inimigos, entre homens, animais, plantas, trocas que causariam singular espanto ao olhar analisador. Quanto respirais, comeis ou bebeis, já foi respirado, bebido ou comido milhares de vezes. Tal é o corpo: um complexo de moléculas materiais que se renovam constantemente.

O corpo astral é, por assim dizer, imaterial, etéreo, fluídico. É por ele que o Espírito está associado ao corpo material; é o envelope da alma, a substância física do Espírito.

Pela energia vital a alma grupa as moléculas, seguindo certa forma, e constitui os organismos.

A força rege os átomos passivos – incapazes de se conduzirem eles próprios, inertes; a força os chama, faz que lhe obedeçam, toma-os, coloca-os, dispõe todos conforme certas regras e forma esses corpos tão maravilhosamente organizados que o anatomista e o fisiologista contemplam. Os átomos são permanentes; a força vital não. Os átomos não têm idade; a força vital nasce, envelhece, morre. Um octogenário não é mais idoso do que o jovem de quatro lustros. Porquê? Os átomos que o constituem estão, naquele, apenas há alguns meses e, além disso, não são nem velhos, nem novos; analisados, os elementos constitutivos do seu corpo não têm idade. O que envelheceu, pois, no octogenário? A sua energia vital, a qual outra coisa não é que uma transformação da energia do Universo, e esgotada no corpo. A vida se transmite pela geração. Ela mantém o corpo instintivamente sem ter consciência dela própria: tem um começo e um fim; é uma força física inconsciente, organizadora e conservadora do corpo.

A alma é um ser intelectual, pensante, imaterial na essência. O mundo das idéias, no qual vive, não é o mundo de matéria: não tem idade, nem envelhece; não muda em um mês ou dois, igual ao corpo, pois, decorridos ano, lustro, decênio, sentimos que conservamos a nossa identidade, que o nosso eu permanece. De outro modo, se a alma não existisse, se a faculdade de pensar fosse função do cérebro, não poderíamos continuar a dizer que temos um corpo: este seria o corpo que teríamos na ocasião. Além disso, de período em período, nossa consciência mudaria, não possuiríamos mais a certeza, nem mesmo o sentimento da nossa identidade, e não seríamos mais responsáveis pelas resoluções segregadas pelas moléculas que haviam passado por nosso cérebro muitas dezenas de meses antes. A alma não é a força vital, pois esta é mensurável, transmite-se por geração, não tem consciência intrínseca, nasce, aumenta, declina e morre – estados diametralmente opostos aos da alma, imaterial, imensurável, intransmissível, consciente. O desenvolvimento da força vital pode ser representado geometricamente por um fuso que inche insensivelmente até ao meio e depois decresça até anular-se na outra extremidade. No meio da vida, a alma não desincha (se se pode usar a comparação) para diminuir em forma de fuso e ter um fim, mas continua a abertura da sua parábola, lançada no Infinito. Além disso, o modo de existência da alma é essencialmente diverso do da vida. É um modo espiritual. O sentimento do justo ou do injusto, do verdadeiro ou do falso, do bom ou do mau; o estudo, as matemáticas, a análise, a síntese, a contemplação, a admiração, o amor, o afeto ou a antipatia, a estima ou o desprezo, em uma palavra, as preocupações da alma, quaisquer que sejam, pertencem à ordem intelectual e moral, que os átomos e as forças físicas não podem conhecer, e que existe tão verdadeiramente quanto a ordem material. Jamais o trabalho químico ou mecânico das células cerebrais, por mais sutil que se suponha, poderia dar em resultado um julgamento intelectual, por exemplo, concluir que 4 multiplicado por 4 é igual a 16 ou que a soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos.

Esses elementos da entidade humana são encontrados no conjunto do Universo:

1º - os átomos, os mundos materiais, inertes, passivos;

2º - as forças físicas, ativas, que regem os mundos e que se transformam umas nas outras;

3º - Deus, o Espírito eterno e infinito, organizador intelectual das leis matemáticas às quais as forças obedecem; ser incognoscível, no qual residem os princípios supremos do verdadeiro, do belo e do bem.



A alma é ligada ao corpo material pelo corpo astral, intermediário, que ela conserva depois da morte. Quando a vida se extingue a alma se separa naturalmente do organismo e cessa qualquer relação imediata com o Espaço e o Tempo, pois não tem densidade alguma, nem peso. Depois da morte ela se encontra desprendida do corpo e permanece maior ou menor interregno na atmosfera. Relativamente livre, a alma pode deslocar-se facilmente e, às vezes, projetar-se mesmo a imensas distâncias, com a rapidez do pensamento. Sabeis que do Sol à Terra, ou desta aos planetas, a gravitação se transmite quase instantaneamente com uma velocidade maior do que a da luz. A transmissão da alma, mônada-psíquica, no Espaço, é da mesma ordem. Assim, estamos no céu, imediatamente depois da morte, de igual modo que o havíamos estado, aliás, durante todo o período da existência. Somente não temos mais o peso que nos prende ao planeta. Acrescentarei, todavia, que a alma demora algum tempo para desprender-se do organismo nervoso e, por vezes, permanece muitos dias, meses mesmo, magneticamente ligada ao antigo corpo que não deseja abandonar. Não raro, conserva, por largo período, seu organismo fluídico, além de que, dotada de faculdades especiais, pode transportar-se rapidamente de um ponto a outro do Espaço.

Quœrens – É a primeira vez que assimilo, sob uma forma sensível, este fato não sobrenatural da morte, e compreendo a existência individual da alma, sua autonomia do corpo e da vida, sua personalidade e sobrevivência, sua situação tão simples no céu. Esta teoria sintética me prepara, eu o creio, para compreender e apreciar vossa revelação. Um acontecimento singular, dissestes, vos impressionou a entrada na vida eterna. Em que momento sobreveio?

Lúmen – Ei-lo, meu amigo. Deixe-me seguir na narrativa. Soavam, bem sabeis, as doze pancadas da meia-noite, no tímpano do meu velho carrilhão e o plenilúnio, em meio do seu curso, derramava seu pálido clarão sobre meu leito mortuário, quando minha filha, meu neto e amigos de estima saíram do aposento, no intuito de repousar um pouco. Quisestes permanecer assistindo-me e prometestes à minha filha não abandonar o lugar até ao amanhecer. Eu vos agradeceria esse devotamento, terno e dedicado, se não fôssemos qual dois verdadeiros irmãos. Teria decorrido meia-hora, mais ou menos, pois o astro das noites declinava para a direita, quando vos peguei a mão e anunciei que a vida já me abandonava as extremidades. Assegurastes-me o contrário; mas, eu observava com calma meu estado fisiológico e conhecia que poucos instantes restavam ainda a respiração. Dirigistes sutilmente vossos passos para o aposento dos meus filhos, mas (ignoro por que concentração de esforços) pude conseguir gritar, detendo tal intento. Voltastes, olhos lacrimosos, meu amigo, e dissestes: Sim, vossas derradeiras vontades foram observadas e amanhã cedo será tempo ainda de fazer vir vossos filhos. Havia nessas palavras evidente contradição, que apreendi, sem isso deixar perceber. Lembrai-vos de que, então, pedi que fosse aberta a janela? Que bela noite de Outubro, mais bela do que as dos poetas da Escócia cantada por Ossian! Não longe do horizonte, e sob meus olhos, distinguiam-se as Plêiades, veladas pelas brumas inferiores. Castor e Pólux remigiavam vitoriosamente no céu, algo mais distante. E, ao alto, formando triângulo constelado com as precedentes, admirava-se, na constelação do Cocheiro, bela estrela de áureos raios, a que, desenhada à borda das cartas zodiacais, se denomina Capela, ou a Cabra. Vedes que a memória não me falha. Quando abristes a janela de todo, os perfumes das recentes rosas, adormecidas sob a asa da Noite, chegaram até mim e confundiram-se às claridades silenciosas das estrelas. Exprimir a doçura que derramaram em minha alma essas impressões – as derradeiras que a Terra me enviava, as últimas que tocavam os sentidos ainda não atrofiados – ficaria para além das possibilidades da minha linguagem: nas minhas horas de mais terno enlevo, de mais suave ventura, jamais senti essa alegria imensa, tal serenidade gloriosa, semelhante prazer já celeste, que me foram dados por esses minutos de êxtase, escoados entre o sopro odoroso das flores e o meigo olhar das estrelas longínquas. E, quando regressastes para junto de mim, eu também voltara ao mundo exterior e, juntas as mãos sobre o peito, deixei que meu olhar e meu pensamento rogassem unidos e subissem ao Espaço. E porque meu ouvido fosse bem depressa se fechar para sempre, recordo as derradeiras palavras que pronunciei: Adeus, meu velho amigo; sinto que a morte me conduz... rumo às regiões desconhecidas, onde nos reencontraremos um dia. Quando a aurora desmaiar as estrelas, haverá aqui apenas o meu corpo mortal. Repeti à minha filha a última expressão da minha vontade: que ela eduque os filhos, tendo em mira os bens eternos.

E porque choráveis e dobrastes os joelhos diante do meu leito, acrescentei: Repeti a bela prece de Jesus. E começastes a dizer em tom vacilante o Pai-nosso...

Perdoai-nos... nossas ofensas tal qual perdoemos... àqueles que nos... hajam... ofendido...

Tais são os pensamentos finais que chegaram à minha alma por intermédio dos sentidos. A vista se me perturbou ao fixar a estrela Capela e não sei mais de quanto se seguiu imediatamente a esse instante. O ano, os dias e as horas são constituídos pelo movimento da Terra. Fora desses movimentos, o tempo terrestre não existe mais no Espaço; é, pois, absolutamente impossível ter noção desse tempo. Creio, sem embargo disso, ter ocorrido no próprio dia do meu trespasse o acontecimento que vou narrar, pois, conforme percebereis desde logo, meu corpo ainda não fora sepultado, quando a visão se apresentou à minha alma.



Nascido em 1793, estava, em Outubro de 1864, no meu septuagésimo segundo ano de existência, e não me senti mediocremente surpreendido ao constatar-me animado de ardor e agilidade de espírito não menos intensos do que nos mais belos dias da minha adolescência. Não possuía corpo, porém não me julguei incorpóreo, pois senti e vi que uma substância me constituía, embora não houvesse nenhuma analogia entre tal elemento e aqueles que formam os corpos terrestres. Não sei de que modo atravessei os espaços celestes e qual a força que me aproximou depressa de um sol magnífico, cujo dourado esplendor, aliás, não me deslumbrou e que estava rodeado, qual mostrara à distância, de grande número de mundos, envoltos cada qual em um ou muitos anéis. Por essa mesma força, da qual era eu inconsciente, fui levado rumo de um desses anéis, espectador de indefiníveis fenômenos de luz, pois o Espaço estrelado estava, dir-se-ia, atravessado por pontes de arco-íris. Não via mais o sol de ouro; estava numa espécie de noite colorida de nuanças multicores. A visão da minha alma atingira potência incomparavelmente superior à dos olhos do organismo terrestre que recentemente deixara; e, circunstância notável, esse poder me parecia subordinado à vontade. Tal poder visual da alma é tão maravilhoso que não me deterei hoje em descrevê-lo. Basta que vos faça pressentir isto: em lugar de ver simplesmente as estrelas no firmamento tal qual as contemplais da Terra, eu distinguia também de modo nítido os mundos que lhes gravitam em redor; e, detalhe estranho, quando não mais desejava divisar a estrela, a fim de não ser forçado ao exame desses mundos, ela desaparecia de minha visão, deixando-me em excelentes condições para observar apenas um de tais globos.2 Além disso, quando minha visão sobre um mundo em particular chegava a distinguir os detalhes da superfície, os continentes e os mares, os nevoeiros e os rios, e, embora não visse aumentar perceptivelmente, qual acontece com o auxílio dos telescópios, conseguia, por intensidade particular de concentração na “vista” de minha alma, enxergar o objeto sobre o qual ela convergia, no mesmo grau em que se distingue uma cidade, uma campina. Chegando a esse mundo anelar, apercebi-me de que me revestira de uma forma idêntica à dos seus habitantes, tal qual se houvesse a minha alma atraído para ela os átomos constitutivos de um novo corpo. Na Terra, os corpos são compostos de moléculas que não se tocam e se renovam constantemente pela respiração, alimentação e assimilação. Aqui, o envoltório da alma se forma de modo mais rápido. Eu me senti vivo em mais alto grau do que os seres sobrenaturais cujas paixões e saudades foram cantadas por Dante. Uma das faculdades essenciais dos habitantes desse novo mundo é decerto a de enxergar muito longe.

Quœrens – Mas, meu amigo (perdoai minha observação quiçá ingênua), a essa tão grande distância, os mundos e os planetas que circulam em torno das estrelas não se confundem com o próprio centro de atração? Por exemplo, a tão grande longitude, onde vos achastes, os planetas do nosso sistema não ficaram confundidos nessa estrela, no nosso Sol? Pudestes distinguir a Terra?

Lúmen – Haveis aproveitado, à primeira vista, a única objeção geométrica que parece contrariar a observação precedente. Com efeito, a uma certa distância, os planetas são absorvidos nos clarões do seu sol e nossos olhos terrestres teriam dificuldade em distingui-los. Sabeis que, a partir de Saturno, não se diferencia mais a Terra. Mas, convém acentuar que tais dificuldades dependem tanto da imperfeição da nossa vista quanto da lei geométrica do decrescimento das superfícies. Ora, no mundo a cujas margens acabava de aportar, os seres, não encarnados em um envoltório grosseiro igual ao da Terra, e sim mais livres e dotados de faculdades de percepção elevadas a eminente grau de potência, podem, conforme vos disse já, isolar a fonte ilumiradora do objeto iluminado e, por isso, perceber distintamente os detalhes, que, a tamanhas distâncias, seriam de todo encobertos aos olhos dos organismos terrestres.

Quœrens – E para tais observações eles se servem de instrumentos superiores aos nossos telescópios?

Lúmen – Se, para tornar menos difícil à compreensão essa maravilhosa faculdade visual, é mister concebê-la munida de instrumentos ópticos, vós a podeis assim admitir teoricamente. Lícito vos é imaginar óculos que, por uma sucessão de lentes e dispositivos de diafragmas, aproximam sucessivamente os mundos e isolam da vista o foco iluminador, para deixar à observação somente o mundo objeto do estudo. Devo, porém, advertir que esses seres são dotados de um sentido especial, diferente da vista ordinária, e que o sabem desenvolver por processos ópticos muita eficazes. Fica entendido que tal poder visual e respectiva construção óptica são naturais nesses mundos, e não sobrenaturais. Atentai um pouco em os insetos que dispõem da faculdade de encolher ou alongar seus olhos à maneira de tubos de binóculos, de intumescer ou achatar o cristalino para dele fazer uma lente de diversos graus, ou ainda de concentrar no mesmo foco uma série de olhos assentados, à feição de outros tantos microscópios para surpreender o infinitamente pequeno – e podereis de modo mais fácil conceber a faculdade de tais seres ultraterrestres.

Quœrens – Sem poder figurá-la, embora, pois que está além do meu conhecimento-experiência, posso conjeturar essa possibilidade. Assim, pudestes ver a Terra e mesmo distinguir de tão alto as cidades e as aldeias do nosso baixo mundo?

Lúmen – Deixai-me prosseguir minha narrativa. Cheguei, pois, ao anel mencionado, cuja largura é bastante vasta para que 200 Terras qual a vossa possam nele rodar enfileiradas, e me encontrei sobre uma vasta montanha coroada de palácios vegetais. Pelo menos me pareceu que esses castelos feéricos cresciam naturalmente, ou eram apenas o resultado de um fácil ajustamento de ramos e flores altas. Cidade bastante populosa. Sobre o cimo da montanha onde aportara, notei um grupo de anciães, em número de 25 ou 30, os quais se fixavam, com a atenção mais obstinada e mais inquieta, em uma bela estrela da constelação austral do Altar, nos confins da Via-Láctea. Não notaram a minha chegada junto deles, tanto a sua múltipla atenção estava exclusivamente concentrada no exame da estrela, ou de um mundo do respectivo sistema.

Quanto a mim, chegando a essa atmosfera, me vi revestido de um corpo físico igual aos deles e, surpresa maior ainda, não me admirei de ouvir que falavam a respeito da Terra, sim, da Terra, nessa linguagem universal do Espírito que todos os seres compreendem, desde o Serafim até as árvores da floresta. E não só falavam da Terra, mas, particularmente, da França.

– Porque esses massacres regulares? – eles se diziam –. “Haverá necessidade de que a força bruta reine soberana? A guerra civil irá dizimar esse povo até ao último dos seus defensores e lavar com rios de sangue as ruas da Capital, ainda há pouco tão tranqüila, tão intelectual, tão elegante e tão brilhante?

Eu não compreendia nada de tais palavras, eu que viera da Terra com uma velocidade igual à do pensamento e que, na véspera ainda, respirava o ambiente de uma cidade calma e pacífica. Reuni-me ao grupo e fixei com eles meu olhar na estrela de ouro. Bem depressa, escutando sua conversação e buscando avidamente distinguir as coisas extraordinárias das quais falavam, divisei, à esquerda da estrela, uma esfera azul-pálido: era a Terra. Não ignorais, meu amigo, que, apesar do aparente paradoxo, a Terra é verdadeiramente um astro do céu (e isso eu vos recordei há pouco). De longe, de uma das estrelas vizinhas do nosso sistema, este aparece, à visão espiritual de que falei, no grau de uma família de astros composta de oito mundos principais, unidos em torno do Sol. Júpiter e Saturno chamam primeiramente a atenção, devido ao seu tamanho; depois, não se tarda em destacar Urano e Netuno e, em seguida, mais perto do Sol-estrela, Marte e a Terra. Vênus é mais difícil de perceber e Mercúrio fica invisível, devido à sua quase absoluta proximidade do Sol. Tal é o sistema planetário do céu.

Minha atenção se prendeu exclusivamente na pequena esfera terrestre, junto da qual reconheci a Lua. Bem depressa notei as alvas neves do pólo boreal, a Europa tão retalhada, o Mediterrâneo azul, o triângulo amarelo da África, os contornos do oceano, e, porque minha atenção estava unicamente fixada sobre o nosso planeta, o Sol-estrela se eclipsou da minha visão. Depois, sucessivamente, pouco a pouco, consegui distinguir na esfera, em meio de regiões azuladas, uma espécie de recorte de cor bistre e, prosseguindo minha investigação, vislumbrar uma cidade no meio do dito recorte. Não tive dificuldade em reconhecer que o recorte era a França e a cidade Paris. O primeiro sinal de identificação da capital francesa foi o listão prateado do Sena, que tão faceiramente descreve tantas circunvoluções sinuosas a oeste da grande metrópole.

Servindo-me do aparelho óptico, penetrei em maiores detalhes. A nave e as torres de Notre Dame, que eu via por cima, formavam bem uma cruz latina na ponta oriental da cidade. Os bulevares estendiam suas faixas ao norte. Ao sul reconheci o jardim de Luxemburgo e o Observatório. A cúpula do Panteão toucava com um ponto cinzento a montanha Santa Genoveva. A oeste, a grande avenida dos Campos Elíseos desenhava no solo a sua linha reta; divisava-se, mais distante, o bosque de Bolonha, os arredores de Sannt-Cloud, os bosques de Meudon, Sèvres, Ville d'Avray e Montretout. Tudo, porém, era paisagem de inverno, árvores despidas de folhagem, um triste dia de Janeiro, enquanto que eu deixara a Terra em Outubro. Tive, em pouco, a certeza de que era bem Paris o alvo da minha vista; mas, porque não compreendesse melhor as exclamações dos meus vizinhos, fiz esforços para mais exatamente realçar os detalhes.

Minha visão se deteve de preferência sobre o Observatório, pois estava no meu bairro favorito, o qual, durante oito lustros, deixara apenas por alguns meses. Ora, julgue qual teria sido minha surpresa, quando meu olhar se adaptou mais completamente ao cenário e percebi não mais existir avenida entre o Luxemburgo e o Observatório, e que essa magnífica aléia de castanheiros dera lugar a jardins de mosteiros. Um desses retiros ocupava o lindo centro do vergel. O bulevar S. Miguel não existia mais, nem a rua dos Médicis; era um amálgama de ruelas, e julguei reconhecer a antiga rua do Este, a praça S. Miguel onde outrora uma antiga fonte fornecia água aos moradores do arrabalde, e uma série de outras ruazinhas que eu havia visto antigamente. Pareceu-me estar sob meus olhos o plano de Turgot, com as suas ruas e edificações. O Observatório estava despojado das cúpulas; as duas alas laterais haviam igualmente desaparecido. Pouco a pouco, prosseguindo minha investigação, constatei que, particularizando, Paris mudara profundamente. Meus rancores de artista contra as invasões da edilidade parisiense despertaram, mas foram rapidamente superados por outras cogitações mais fortes. O Arco triunfal da Estrela não existia mais, nem as avenidas opulentas que nele vinham confinar. O bulevar de Sebastopol não existia também, nem a gare do Este, e nenhuma linha de via-férrea! A torre S. Jaques estava enfeixada em um cortejo de velhos prédios e a coluna da Vitória lhe estava aproximada. A coluna da Bastilha também ausente, pois eu teria com facilidade reconhecido o gênio dourado que a encimava. Na praça Vendôme a coluna da Grande Armada havia desaparecido e a rua da Paz não se via também. A rua de Rivoli sumira-se. O Louvre não estava concluído, ou então demolido. Entre o trecho quadrado do Louvre e as Tulherias, viam-se casebres amontoados, uma pequena igreja, velhos terraços e mansardas. Na praça da Concórdia não se distinguia mais o obelisco, mas parecia ver-se enorme pedestal e ante ele grande e grulhante multidão contida por tropas militares. Não se avistavam a igreja Madalena e a rua Royale. Havia uma ilhota por detrás da ilha S. Luís. Os bulevares exteriores não eram outra coisa que o velho muro da ronda, e as fortificações tinham destruído seus contornos. Enfim, embora reconhecendo a capital da França, pelos edifícios que lhe restavam e por alguns quarteirões não transformados, estava sem saber que pensar de tão maravilhosa metamorfose, que, da véspera para o outro dia, tão radicalmente mudara o aspecto da velha cidade.

Ao meu pensamento acudiu, de início, a idéia de que, ao invés de pouco tempo, gastara, em vir da Terra, mais de um ano, lustro, decênio ou século.

E porque a noção do tempo é essencialmente relativa e a medida da sua duração nada tem de real, nem de absoluta, separada do globo terrestre, eu perdera, por esse motivo, toda a medida fixa, e a mim mesmo dizia que um ano ou até um século podia ter passado ante meu ser sem que me apercebesse, pois o tão vivo interesse tomado por essa viagem não me fizera achar o tempo longo – expressão vulgar indicadora dessa sensação em nosso espírito. Não tendo meio algum de me certificar da realidade, terminaria por crer sem dúvida que muitos séculos já me separavam da vida terrestre e tinha sob os olhos a Paris do século XXI, se eu não houvesse, então, aprofundado mais o exame do conjunto.

Com efeito, identifiquei sucessivamente o aspecto da cidade e cheguei, por gradação, a reencontrar terrenos, ruas e edifícios que havia conhecido na minha infância. O Palácio da Municipalidade me apareceu todo embandeirado e o castelo das Tulherias apresentava sua cúpula quadrada central. As torres feudais do Chatelet e da Santa-Capela assinalavam bem o antigo palácio. Um pequeno detalhe completou minha elucidação, quando, no centro do jardim de um velho mosteiro da rua S. Jaques, discerni um pavilhão cuja vista me fez estremecer. Fora ali que eu encontrara, adolescente, a mulher que me amou, com um profundo amor, a minha Eivlys, tão terna e tão devotada, que tudo abandonou para se entregar ao meu destino. Revi a pequena cúpula do terraço ante a qual íamos sonhar à tarde e estudar as constelações. Ah! com que júbilo acolhia eu esses passeios durante os quais, acertando o passo um pelo outro, caminhávamos as avenidas, fugindo aos olhos indiscretos do mundo ciumento. Revia o pavilhão, reconhecendo-o tal qual era então, e podeis calcular que tal vista bastou, ela só, para completar minhas indicações e convencer-me, com uma convicção invencível e inquebrantável, de que, longe de ter sob os olhos – conforme fora natural imaginar – a Paris de depois da minha morte, eu tinha ante mim a Paris desaparecida, a velha Paris do começo do século XIX, ou a do fim do XVIII.

Podeis compreender facilmente, no mínimo, que eu, apesar da evidência, não devia crer no que meus olhos viam. Parecia-me mais natural imaginar que Paris havia envelhecido tanto, sofrido tais transformações depois da minha partida da Terra (intervalo cuja duração me era totalmente desconhecida), que eu tinha sob a vista a cidade do futuro, se posso exprimir por esta imagem um fato que estava presente para mim. Prossegui, pois, atentamente minha observação, para constatar, de modo decisivo, que se tratava da antiga Paris, em parte demolida atualmente, o que eu tinha sob os olhos, ou se, por um fenômeno não menos incrível, era uma outra Paris, uma outra França, uma outra Terra.




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