Cairbar Schutel Vida e atos dos apóstolos



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PAULO PERANTE O SINÉDRIO

O nome de Jesus, sua doutrina de imortalidade e amor, não podia deixar de ser anunciada aos grandes nos Tribunais.

Os pequenos ouviam-na em toda a parte: nas praças, nas ruas, nas sinagogas; os grandes, que a condenavam sem conhecê-la precisavam, também, ouvi-la, e nos mesmos tribunais onde ela e seus Apóstolos eram condenados, ela também aparecia com seus revérberos e cintilações que eram a frisante condenação do farisaísmo sacerdotal e da plutocracia dominante, cuja alma e coração imersos em tesouros mal adquiridos, nada queriam das coisas do Céu. E para que entrasse nos palácios e nos tribunais fazia-se mister que seus Apóstolos fossem arrastados a essas casas de poder e de justiça e sofressem os maiores vilipêndios.

Deus a ninguém deixa desamparado, nem àquele, que julgam nada precisar d'Ele, os quais são sempre os mais miseráveis de todos os homens.

Paulo subiu ao Sinédrio, para que, com o concurso da Palavra Divina, fosse extraída a peçonha daquelas víboras pontificantes e um dia, também eles se tornassem dignos da entrada no Reino dos Céus.

A reunião revestiu-se de toda a solenidade. Recostados em cômodas poltronas, os principais dos sacerdotes e os membros do supremo conselho que dirigiam os negócios do Estado, deram a palavra a Paulo para expor os motivos da sua prisão.

“Paulo fixando os olhos no Sinédrio, disse: Irmãos, eu me tenho portado diante de Deus com toda a boa consciência até o dia de hoje”. (Atos XXIII, 1).

“Ananias, que era o sumo sacerdote daquele ano, mandou aos que estavam ao lado de Paulo que lhe dessem na boca.

“Então, Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui sentado para me julgar segundo a Lei, e contra a Lei mandas que eu seja ferido?

“Os que estavam ali perguntaram: injurias tu o sumo sacerdote de Deus?

“Paulo respondeu: Eu não sabia, irmãos, que ele era sumo sacerdote; porque escrito está: não falarás mal do chefe do teu povo”.

O Apóstolo ficou logo compreendendo que lhe iam privar da liberdade de falar e de fazer a sua exposição; deliberou atacar o ponto principal da sua ida ao tribunal. E sabendo que uma parte dos que ali se achavam pertencia aos saduceus e a outra aos fariseus, clamou no Sinédrio; Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; por causa da esperança na outra vida e da ressurreição dos mortos, é que eu estou sendo julgado”.

Essa lembrança do Apóstolo foi uma bomba que caiu no Sinédrio: houve logo grande dissensão entre fariseus e saduceus, e a multidão se dividiu.

Para os fariseus havia anjos e espíritos e, portanto ressurreição.

Mas os saduceus negavam tanto uma como outra coisa.

Houve, então, grande clamor e alguns escribas dos fariseus tomaram a palavra, dizendo: “Não achamos neste homem mal algum, e quem sabe se lhe falou algum espírito ou anjo?”

“E tornando-se grande a dissensão, o tribuno temendo que Paulo fosse despedaçado pelo povo, mandou que os soldados descessem e levassem a Paulo para a cidadela (castelo forte que defende a cidade, espécie de fortaleza)”.

Paulo fazia tudo, sofria tudo e tudo operava nele por amor a Jesus e à sua Palavra o Homem extraordinário, valente, dedicado, sincero, ele narrava como sendo uma grande honra para si o haver padecido por exercer a alta missão que lhe fora confiada pelo Nazareno.

Ele não ocultava suas humilhações, não escondia suas feridas, que julgava outras tantas coroas e condecorações com que deveria celebrar a vitória contra os seus inimigos tigrinos.

Lembrando aqueles que se gloriavam pessoalmente por haverem feito alguma coisa pela pregação do Evangelho, e a outros que oprimiam a liberdade, ele escreve aos Coríntios, II Epist. Cap. 11, v. 22 e seguintes: Naquilo em que alguém se faz ousado, com insensatez falo, também sou ousado. São hebreus? Também eu. São israelitas? também eu o São descendentes de Abraão? também eu o São ministros de Cristo? falo como fora de mim, ou ainda mais; em trabalhos muito mais, muito mais em prisões, em açoites sem medida, em mortes muitas vezes. Dos Judeus, muitas vezes recebi quarenta açoites menos um, três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, um dia e uma noite passei no abismo; e muitas vezes estive em jornadas, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos na solidão, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalho e fadiga, em vigílias muitas vezes, com fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez; além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece que eu não enfraqueça? Quem é levado a tropeçar que eu não abrase? Se é necessário gloriar-me, gloriar-me-ei das coisas da minha fraqueza. O Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito para sempre, sabe que não minto. Em Damasco o tetrarca do rei Aretas guardava a cidade dos damascenos, para me prender; e num cesto me desceram por uma janela da muralha abaixo, assim escapei das suas mãos”.

No cap. XII ele narra as suas visões e diz:

“É necessário que me glorie, ainda que não convém, mas passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há quatorze anos (se no corpo não sei; se fora do corpo não sei, Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro Céu. E conheço o tal homem (se no corpo ou separado do corpo, não sei; Deus o sabe) que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras indizíveis, as quais não é lícito ao homem referir. De tal me gloriarei; de mim, porém, não me gloriarei senão nas minhas fraquezas. Pois se desejar gloriar-me não serei insensato, porque falarei a verdade; mas abstenho-me para que ninguém julgue de mim fora do que se vê em mim ou do que ouve em mim, e por causa da extraordinária grandeza das revelações. Porquanto, para que eu não me engrandecesse demais, foi-me dado um espinho na carne, mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de eu não me engrandecer demais. Acerca disto, três vezes implorei ao Senhor que o Espinho se apartasse de mim. Mas ele disse-me: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, de boa vontade, antes me gloriarei nas minhas fraquezas para que a força de Cristo repouse sobre mim. Pelo que folgo em fraquezas, em afrontas, em necessidades, em perseguições, em angústias por amor do Cristo; pois quando estou fraco, então estou forte”.

A vida de Paulo é uma epopéia de luz, não pelo sofrimento em si, mas pela difusão do Ideal Cristão no meio de grandes tribulações.

Enfim, como se depara na passagem dos Atos acima referida, Paulo contou mais uma vitória entre os seus perseguidores, e como recompensa a tão grandes feitos, Espírito de Jesus lhe apareceu felicitando-o e incumbindo-lhe de uma nova empresa, conforme veremos no próximo capítulo.







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