Caibar Schutel Parábolas e Ensinos de Jesus


A TRADIÇÃO E O MANDAMENTO



Baixar 1.39 Mb.
Página5/5
Encontro07.10.2019
Tamanho1.39 Mb.
1   2   3   4   5

A TRADIÇÃO E O MANDAMENTO

“Então vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram-lhe: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão. Respondeu-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição: Pois Deus disse: Honra a teu pai e a tua mãe, e também: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, seja morto; mas vós ensinais: Aquilo que eu te poderia dar já ofereci a Deus; o tal não precisará mais honrar a seu pai nem a sua mãe. Assim invalidais a Palavra de Deus por causa da vossa tradição.”

(Mateus, XV, 1-6.)
A pretensão e o orgulho religioso se têm revoltado em todos os tempos contra os princípios fundamentais da Religião, substituindo o mandamento pela tradição.

Essa obra nefasta do farisaísmo se vai eternizando a ponto de chegarmos ao esquecimento das coisas divinas, como acontece em nosso século.

O homem tradicionalista não conhece absolutamente a Religião. Preso aos dogmas e preceitos humanos, limita-se ao culto exterior, deixando o interior cheio de rapina e podridão.

Eis o maior dos pecados: comer o pão sem lavar as mãos. Ontem, como hoje, não era pecado comer o pão com o suor alheio, mas quem chegasse a comê-lo sem “lavar as mãos”, cometia crime de lesa-divindade!

Estando de mãos limpas, bem lavadas com sabonete fino, todos podem tomar parte na “mesa da comunhão”, certos de que dali sairão limpos de pecados.

Os figurões já sabem disso: lavam as mãos, ornam as igrejas com imagens e lanternetas; e os pobres que passem fome, os enfermos que se lamentem, os desprotegidos da sorte que chorem!

Desde que as capelas estejam ornadas, as imagens bem vestidas, os altares dourados e os sinos bimbalhando, apresentando-se o culto com vida, pereçam os pobres na sua nudez, gritem os sofredores, conserve-se frio e sem lume o fogão dos infelizes!

Obedecida a tradição, que importa o mandamento!

O mandamento é de Deus e Deus não se vê; a tradição é dos homens e ai estão os homens guardando a tradição, “tesouro” que lhes legaram seus pais e avós!

Não é isso o que se observa em toda parte! Onde estão os hospitais, os asilos, as escolas para as crianças órfãs?

E aqueles que ainda se vêem, com que descaso são mantidos, e como são dirigidos!

Não há dúvidas de que há absoluta paridade entre a época atual e aquela em que Jesus veio ao mundo.

Os mesmos escribas e fariseus de outrora se manifestam hoje, e de modo, parece, ainda mais impertérrito que os de então.

Em todas as classes sociais a perversão de caráter se salienta de maneira tão nojenta que é preciso andar no mundo sem ser do mundo, para se poder fazer alguma coisa em proveito próprio.

Fariseus surgem de todos os lados com perguntas insidiosas; escribas pervertidos desnaturam a missão da Imprensa; falsos profetas e obreiros fraudulentos especulam com as coisas mais santas, levando a confusão aos lares e às sociedades)

Decididamente não se vê mais que tradição — mãos lavadas!

A Misericórdia não mais alimenta os corações e a Fé há muito não aquece as almas com a sua chama vivificadora. Atualmente, o que se vê são holocaustos e sacrifícios, e a palavra de Deus invalidada por causa da tradição.

Os ensinos de Jesus permanecem encerrados por aqueles que se dizem seus representantes, para que a tradição continue a vigorar e os mandamentos das Igrejas não sejam absorvidos pelos mandamentos de Deus.

O culto não é dado ao Criador, como o Espírito ensinou a Abraão, a Moisés e pelos lábios de Jesus, mas à criatura, contra os preceitos do Decálogo e os ensinos cristãos, tão esquecidos em nossa época.

Entretanto, tenhamos fé, nem tudo está perdido. Quando o Sol se esconde no poente e a Terra é envolvida no manto de trevas, tudo parece caos, confusão, mas, daí a pouco surge a alvorada e o mesmo Sol ilumina o mundo e dá-lhe vida.

Tenhamos fé: a uma época de miséria sucede outra de fartura, assim como às seis vacas gordas sucederam as magras, e as espigas bem granadas vieram substituir as chochas.

EXAME DAS RELIGIÕES

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Adoram-me, porém, em vão, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.”

(Mateus, XV, 8-9.)
A religião não consiste num amálgama de dogmas e na proclamação de mistérios.

A Religião é parte da Verdade, que se concede aos que a procuram e lhes é dada de acordo com o seu grau de elevação moral.

O conhecimento da Religião cresce nas almas, na proporção do progresso moral e espiritual de cada uma.

Como acontece com a aquisição de quaisquer ramificações do saber, a Religião não prescinde do estudo, da análise, do livre-exame.

Paulo, doutor dos gentios, aconselhava a seus ouvintes, para obtenção do conhecimento da Religião, o exame nítido, racional, inteligente de todas as Escrituras; por esse meio chegariam ao conhecimento da Verdade: Examinar tudo, mas abraçai só o que for bom (I Tess., V, 21.)

Pedro remata a sua Epístola Universal com a bem significativa sentença: “Crescei no conhecimento e na graça de N. S. Jesus Cristo.” (II Pedro, III, 18.)

João diz peremptoriamente numa das suas cartas, condenando a ignorância: “Deus é luz; se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos em trevas, mentimos e não praticamos a verdade.” (I João, I, 5-6) Tiago não é menos categórico, quando pretende avivar-nos sobre as tentações e provações, lembrando-nos suas causas e efeitos: “A fortaleza deve completar a sua obra para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma.”(I, 4.)

O conhecimento das circunstâncias que nos cercam se deve completar com o conhecimento da nossa individualidade e dos nossos deveres religiosos; do contrário não teremos fortaleza para resistir às tentações e vencer as provas.

O homem religioso não é, pois, o escravo do culto que repete maquinalmente as orações do breviário, mas, sim o que estuda e compreende as Revelações que lhe são transmitidas.

“Examinar tudo e abraçar só o que for bom” é examinar todos os sistemas religiosos e fazer com inteligência e critério a seleção do que for bom, rejeitando os erros que as religiões ensinam como artigos de fé.

Está claro que um sistema religioso que proclama a infalibilidade de seus sacramentos pretende ser intangível e não admite se lhe repudie uma palavra, quanto mais um preceito!

O crítico, por mais competente que seja, filiado a esse credo terá de submeter-se ainda ao que não julgue bom.

Por exemplo: o católico e o protestante, embora repugne à sua razão os dogmas das penas eternas e do Diabo, não têm liberdade para impugnar sua religião; têm, à força, de submeter-se a eles ou então serem excluídos da comunhão a que pertencem.

Para gozar das regalias do todo, é princípio de Teologia, indispensável se torna que o adepto aceite as partes integrantes do princípio conjeturado.”

“Quem não aceita a parte prejudica o todo, não pode, ipso facto, fazer parte desse todo.”

A sentença de Paulo, pelo que se vê, caduca em face do exame de uma religião única, porque tendo de aceitar o todo é impossível rejeitar o que não for bom.

O mesmo acontece às demais recomendações epistolares de Pedro, Tiago e João.

Para os sacerdotes do Catolicismo e Protestantismo, a sua religião é a verdade revelada, integral, completa. Aqueles que fizeram profissão de fé é porque chegaram ao conhecimento da verdade máxima, não têm de crescer no conhecimento e na graça de N. S. Jesus Cristo; já estão crescidos, não têm mais que crescer, atingiram o ponto culminante da verdade religiosa, sabem tanto quanto o Cristo, seu conhecimento é mesmo igual ao de Deus, porque para essas religiões, Jesus Cristo é o próprio Deus que se manifestou na segunda pessoa da Trindade.

Conclui-se que, falecendo aos católicos e protestantes os atributos de perfeição com que a sua religião deveria revesti-los, estão eles, sem dúvida, fora da Verdadeira Religião, necessitando, portanto, pôr em prática as recomendações apostólicas para obterem o conhecimento da Verdade, cujos preceitos se resumem na memorável sentença de Paulo: “Examinai tudo, mas abraçai só o que for bom.”

Foi, portanto, com justa razão que o Cristo repetiu aquelas palavras ao povo de então, semelhante ao de hoje, discípulos dos escribas, saduceus e fariseus: “Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Adoram-me, porém, em vão, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.”




O FERMENTO DOS FARISEUS E DOS SADUCEUS

“Quando os discípulos passaram para o outro lado, esqueceram-se de levar pão. Disse-lhes Jesus: Olhai e guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus. Eles, porém, discorriam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. Jesus percebendo-o, prosseguiu: Por que estais discorrendo entre vós, por não terdes pão, homens de pouca fé? Não compreendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens e de quantos cestos levastes? Nem dos sete pães para quatro mil, e de quantas alcofas levantastes? Como não compreendeis que não vos falei a respeito de pão? Mas eu vos disse: guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduces. Então entenderam que lhes não dissera que se guardassem do fermento dos pães, mas sim da doutrina dos fariseus e dos saduceus.”

(Mateus, XVI, 5-12.)
Numa das grandes viagens missionárias que fizera, Jesus havia saído de Genesaré, passara por Tiro e Sidon, atravessara a Galiléia e chegara a Magdala, nesse largo percurso operando grandes maravilhas, quer curando enfermos, quer saciando a fome a quatro mil pessoas de uma vez, e, de outra, alimentando, miraculosamente, cinco mil pessoas, com a multiplicação dos pães.

Os seus feitos tinham por fim salientá-lo como o Salvador dos desiludidos das religiões humanas. Ele quis, em sua passagem pela Terra, deixar essas provas da sua autoridade moral e científica.

Saindo do Monte Carmelo, na Galiléia, onde multiplicara os pães e os peixes pela segunda vez, Jesus passou numa barca para os confins de Magdala, tendo depois os doze discípulos ido ao encontro do Mestre.

Era costume de alguns dos apóstolos, devido às longas tiradas que faziam com o seu amado Mestre, carregar os pães com que deveriam alimentar-se em caminho. Dessa vez, porém, dado o caso da multiplicação dos pães no deserto, que haviam saciado a fome de uma multidão enorme, composta de homens, mulheres e crianças, os discípulos deixaram de levar pão.

Sentados em torno de seu Mestre, como costumavam fazer para ouvirem seus ensinamentos, Jesus começa recomendando-lhes, com grande insistência, que se acautelassem contra o fermento dos fariseus e saduceus.

Não compreendiam eles, porém, o que queria dizer aquela expressão: “fermento dos fariseus e dos saduceus”; julgavam que o Senhor os censurara por não terem levado pão.

Por haver Jesus empregado a palavra fermento, julgavam eles tratar-se de pão, porque para a panificação é necessário fermento.

Então lhes diz Jesus: “Não compreendeis que não vos falo de pão, nem vos censuro por não terdes trazido pão? Pois acabastes de ver como fiz aparecer pães para quatro mil pessoas e sobraram muitos cestos e pedaços. Eu, que já fiz isso a uma enorme multidão, não poderei fazer o mesmo no momento em que sentirdes fome e vos seja preciso comer pão? Homens de pouca fé, de rude compreensão, por que estais discorrendo inutilmente? Por que pensais só no pão da terra, que vós comeis mas dentro de poucas horas, sentis de novo a necessidade de comer? Por que não pensais no Pão do Céu que vos saciará para sempre? Pois se eu falei do fermento dos fariseus e dos saduceus, como discorreis sobre o pão?”

Foi então que os discípulos compreenderam que Jesus se referia à doutrina dos fariseus e dos saduceus.

Se é verdade que há necessidade de fermento na feitura do pão, também é verdade clara que grande é a diferença que existe então entre o pão e o fermento.

O pão sacia a fome, embora por momentos, e se transforma em corpo, auxilia o trabalho, anima a palavra, para que o Evangelho ressoe e a luz brilhe.

O fermento azeda o estômago, molesta as vísceras, mata o corpo, impede a palavra, tolhe o Evangelho, extingue a luz, sufoca a verdade.

Quão grande é a diferença entre o pão e o fermento!

Pois se o fermento, que é feito de farinha se torna tão perigoso, tão venenoso, tão mortífero, que diremos do fermento religioso?

A religião dos fariseus e dos saduceus era tão prejudicial, causava tanto mal às almas, que Jesus não se animou a chamá-la religião nem doutrina, chamou-a fermento!

Os fariseus e os saduceus eram os sacerdotes, os padres daquela época, os mesmos que não perdiam ocasião de perseguir a Jesus. Mas por que o faziam?

Porque Jesus ensinava ao povo a Religião de Deus e dizia abertamente que o que os sacerdotes ensinavam não era religião nem doutrina: era fermento!

Fermento de dogmas, fermento de sacramentos, fermentos de orações, fermento de cultos, fermento de cerimônias, fermento de procissões, fermento de imagens; e todos esses fermentos juntos envenenavam as almas por tal forma, que ninguém podia conseguir a salvação.

Jesus veio salvar o homem da dor e o único meio era aplicar o remédio para a salvação do homem; Jesus veio salvar o homem do naufrágio, havia de fazer que ele abandonasse a barca apodrecida que tinha os cascos carcomidos e estava naufragando com a tripulação.

A Religião não consiste em dogmas, nem em cultos exteriores; isto não passa de fermento religioso!

Guardar-se do fermento dos fariseus e dos saduceus é sábia precaução recomendada por Jesus.

Cuidado com os fermentos que, com inscrições atraentes de religião, prejudicam os homens. Cuidado com o fermento dos padres e dos pastores!

Religião é fé e misericórdia!


IMORTALIDADE E RELIGIÃO

“Indo Jesus para as bandas de Cesaréia de Filipo, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem? Responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias, ou algum dos profetas. Mas Vós continuou ele, quem dizeis que sou eu? Respondeu Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és Simão Bar Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares sobre a Terra será ligado nos Céus; o que desligares sobre a Terra, será desligado nos Céus, Então ordenou a seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo.”

(Mateus, Cap. XVI, 13-20.)
A Religião está para a imortalidade como o corpo ,para a alma. Não há corpo sem alma, nem pode haver Religião sem Imortalidade; por isso todas as “religiões” que em vez de acoroçoarem, agridem e negam os fenômenos, os efeitos da Imortalidade, não passam de espectros, de fantasmas cobertos com o manto da Religião, mas que, na verdade, são sombras de misticismo que se esvaem aos primeiros clarões da Verdade.

Um corpo sem alma é morto; uma religião sem Imortalidade é cadáver embalsamado, que hoje ou amanhã será inhumado.

A Religião é um corpo vivo de ação permanente em que o cérebro e o coração proclamam as grandezas da Imortalidade.

A Religião é a grande reveladora da Vida na Eternidade. A Religião é a reveladora; a Imortalidade é a revelação. Nascidas Juntas, uma completa a outra.

A Revelação é a Pedra sobre a qual edificou Cristo a sua Igreja: super hanc petram edificado ecclesiam meam; a Imortalidade é a Revelação. A Religião de Jesus em tempo algum será destruída, porque disse o Mestre e Senhor: “Minha palavra não passará.”

Mateus, V, 18: Donec transeat coelum et terra, iota unum, aut unus apex non praeteribit a lege, donec omni fiant. (Vulgata.)

A Religião de Jesus tem o seu fundamento na Imortalidade; a sua Palavra é de Vida Eterna. As “religiões” do mundo são produtos dos concílios e propriedades dos padres.

A Religião de Jesus Cristo nasceu da Revelação, criou-se na Revelação, vive e viverá animada pelos influxos vivificantes da Revelação; a Revelação é a sua luz, o seu calor, a sua vida; por isso ela tem permanecido e permanecerá por todos os séculos dos séculos.

Não há Religião sem Imortalidade, nem Imortalidade sem Religião.

A verdadeira Religião tem obrigação de demonstrar a Imortalidade, porque a Imortalidade é a sua base inabalável.

Assim como o corpo externa e proclama a existência da alma que lhe dá vida; assim como as “sombras” se manifestam nos ares e os “deuses” descem à Terra para responder aos apelos de Imortalidade, que lhes fazem os homens, a Religião há de aceitar, há de referendar, há de incutir, há de propagar a verdade das manifestações dos Espíritos que são os Reveladores da Revelação!

A Religião de Jesus tem por base a Revelação.

Quando Simão Pedro disse, respondendo a Jesus, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”, Jesus aclamou-o bem-aventurado porque “O MEU PAI QUE ESTA NOS CÉUS TO REVELOU”, e acrescentou: super hanc petram edificabo ecclesiam meam, Isto é sobre a Revelação edificarei a minha Igreja (10).

A Religião do Cristo é a sublime escada que une a vida da Terra à vida do Céu. A sua luz devem caminhar todas as almas, porque só ela é o Céu das nossas fagueiras esperanças, e a esperança da nossa felicidade eterna.




REENCARNAÇÃO OU PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS CORPÓREAS

“Os discípulos dirigem-se a Jesus e perguntam-lhe: Por que dizem os escribas que importa vir Elias primeiro? Jesus lhes responde: Elias certamente há de vir restabelecer todas as coisas. Eu, porém, vos digo que Elias já veio e eles não o conheceram, antes, fizeram dele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer em suas mãos. Então conheceram seus discípulos que era de João Batista que ele lhes falava.”

(Mateus, XVII, 10-13.)
A reencarnação é um dos princípios fundamentais do Cristianismo.

A idéia de que João Batista era o Espírito de Elias reencarnado, tornou-se tão firme nos discípulos de Jesus que não admitiam, absolutamente, dúvida a respeito. E é de notar que o Senhor não dissuadiu seus discípulos desse pensamento; ao contrário, confirmou-o categoricamente: “Se vós quereis bem compreender, João Batista é o Elias que há de vir.” (Mateus, XI, 14-15).

E o Mestre acrescenta: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

No tempo de Jesus, como sói acontecer hoje, havia muita gente sem ouvidos para ouvir estas coisas; a Palavra do Nazareno era, pois, dirigida unicamente a quem tinha ouvidos para ouvir.

A reencarnação das almas, dissemos noutro capítulo, é a glorificação da Justiça Divina, ao passo que a doutrina da vida única destrói todos os atributos do Criador.

Além disso, essa doutrina salienta as qualidades boas ou más, como peculiares ao Espírito e não ao corpo e diz que, pelo progresso, os bons ficarão ainda melhores e os maus se tornarão bons, dependendo essas aquisições do trabalho que cada um de nós desenvolva para benefício próprio. O corpo não é mais que um agente, um instrumento para a manifestação dessas qualidades. Ao deixar o corpo, o Espírito leva consigo tudo o que tem de bom ou de mau, e, durante as sucessivas encarnações, ele se depura, expurgando a maldade e aperfeiçoando-se na bondade.

O Espírito é semelhante a um operário que empreita uma obra, e o corpo é o instrumento que ele usa para executar o serviço. Quando perde ou quebra a ferramenta, o operário adquire outra ou outras, até executar a obra; o Espírito, quando o corpo morre, toma outro corpo, ou outros corpos, tantos quantos sejam necessários para terminar a tarefa.

O Supremo Artífice do Universo dá a seus operários tantos instrumentos, tantos corpos quantos sejam necessários para que eles cumpram suas missões.

Bonita doutrina! dirão uns; belos ensinos! dirão outros; mas tudo isso não passa de palavras, palavras que soam bem, mas somente palavras; e perguntarão: “Se assim fosse certamente nos lembraríamos da nossa existência ou das nossas existências passadas.

Responderemos também com uma interrogação: quem pode penetrar nas profundezas do subconsciente?

A faculdade da memória tem sido assunto de estudo dos filósofos de todos os tempos e, atualmente, embora muita luz se tenha feito sobre essas dobras obscuras da consciência, a faculdade da memória tem seus caprichos que só depois de evoluirmos muito poderemos descobrir.

Por exemplo: nesta mesma existência alimentamo-nos no seio materno e não nos recordamos deste ato por nós mesmos praticado.

Mesmo depois de adultos, decoramos um discurso, uma poesia, que recitamos numa reunião, e no correr dos anos esquecemo-nos das palavras, das frases e até do tema sobre que versou aquela dissertação. Há fatos que ocorreram na nossa vida de que não temos a mais leve recordação!

Como lembrar-nos de fatos que se passaram em outras vidas, que tivemos com outros corpos, os quais, certamente, eram diferentes em perfeição dos que temos hoje?

O esquecimento do passado é necessário ao nosso bem-estar presente e ao nosso progresso; permite ação mais livre e nos ajuda a passar mais suavemente pelas provas a que nos submetemos.

Se todos conservassem a lembrança de existências passadas, com a nitidez que se deseja, essa lembrança, como é natural, associar-se-ia à recordação de todas as pessoas com quem vivemos e ficaríamos conhecendo não só a nossa vida anterior como a dos que nos cercam, principalmente se os seres com quem convivemos tivessem convivido conosco na precedente vida.

E o que resultaria daí?

Não é difícil prever a série de perturbações e contrariedades a que ficaríamos submetidos.

A vida de todos ficaria devassada para uns e outros.

Herodes ou Caifás, por exemplo, se estivessem em nosso meio, teria de suportar o desprezo de todos, e quem sabe se não lhes seria negado o pão e a água!

Suponhamos que se desse o caso de o leitor ser a reencarnação de Herodes, e de se recordar de sua existência ao tempo de Jesus. Não seria uma vida de prantos, de humilhação, de desespero que teria o amigo de passar, sem necessidade alguma, prejudicando até seus afazeres atuais e o seu progresso?

O perdão que Deus nos concede, é o esquecimento das faltas; se não houvesse esse esquecimento, viveríamos sob a dor pungitiva dos crimes praticados, pois é certo os praticamos, dada a inferioridade em que todos nos achamos. Não é o remorso que nos dilacera de dor?

Eis por que Deus, em seus altos desígnios, não permite que nos recordemos de nossas existências passadas.

Entretanto, alguns há que se lembram, não só da sua passada existência, como de diversas vidas que tiveram na Terra. Outros há a quem é revelada a existência anterior.

E não são poucos os que se recordam de sua vida transata. Teófilo Gautier, Alexandre Dumas, afirmaram ter-se recordado de suas existências passadas. Lamartine chegou a descrever lugares, rios, vales e a sua própria casa da Judéia, onde vivera em vida anterior, sem que nesses lugares tivesse estado na sua última existência.

Juliano, o Apóstata, afirmava ter sido Alexandre da Macedônia; Pitágoras dizia recordar-se de várias existências, citando aquelas em que fora Herneotínio, Eufórbio e por fim um dos argonautas.

Não é preciso citar mais nomes.

Cada um de nós revela o que foi; por isso uns nascem com disposição para o bem, outros para o mal. O “pecado-original” consiste nos erros e faltas de nossa passada encarnação, erros que precisamos corrigir para obtermos a felicidade que desejamos. E Deus nos concede sempre meios e tempo para esse trabalho de aperfeiçoamento. O Senhor não apaga, a quem quer que seja, a lâmpada da esperança; os nossos trabalhos, as nossas dores, as nossas fadigas nunca são esquecidos pelo bom Deus.

Não cabe nesta obra outras considerações ainda mais persuasivas sobre o estudo da reencarnação em face da Ciência, por exemplo, o do Espiritismo Experimental. O leitor estudioso deve, a esse respeito, consultar os livros de Gabriel Dellanne: Evolução Animica, O Espiritismo Ante a Ciência e A Reencarnação; de Léon Denis: No invisível e O Problema do Ser do Destino e da Dor, e de Rochas: As Vidas Sucessivas e a Exteriorização da Motilidade.


PEDRA REJEITADA

“Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos?”

(Mateus XXI, 42.)

“A pedra que os edificadores rejeitaram se tornou a cabeça “da esquina. Da parte do Senhor se fez isto; maravilhoso é aos nossos olhos.”

(Salmos CXVIII, 22-23.)

“Estavas vendo até que uma pedra foi cortada sem mão, a qual feriu a estatua nos pés de ferro e de barro, e os esmiuçou.”

(Daniel, II, 34.)

“Indo Jesus para as bandas de Cesaréia de Filipo, perguntou aos seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem? Responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas. Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondeu Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Hades não prevalecerão contra ela, Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares sobre a Terra, será ligado nos Céus; e o que desligares sobre a Terra será desligado nos Céus.”

(Mateus, XVI, 13-20.)
A Revelação é a base fundamental da Religião.

Toda a Moral, toda a Filosofia, toda a Ciência tem por base a Revelação. Ela é o fundamento de todo o progresso, é a PEDRA inamovível sobre a qual se ergue o edifício da Verdade, que abriga a Humanidade.

Infelizmente assim não têm entendido os homens que se constituíram guias dos povos, pastores de almas, os dirigentes da opinião pública de todos os tempos.

Todos esses edificadores de sistemas filosóficos, religiosos e científicos têm posto de lado a PEDRA sobre a qual se arrima a verdadeira construção. Por isso vemos a Ciência sem ideal, a Filosofia sem lógica e a Religião sem provas, sem razão e sem sentimento, agitando a Humanidade num desvairamento tão acentuado, que se pode contar o número daqueles que procuram orientar-se pela bússola da verdadeira Vida.

Daí a resolução divina em colocar a “Pedra Rejeitada” como “Cabeça de Esquina”; e os que nela tropeçam são esmagados!

Se examinarmos a História veremos sábios e dou tos de todos os tempos reduzidos a zero pelo poder irrepreensível da Revelação! Ainda mesmo os que se julgavam intangíveis às forças que esse poder encerra, tiveram de ceder, Deus sabe como, às injunções superiores, pagando até com a vida, o tributo que lhe deviam.

A História Sagrada é um registro admirável da ação persistente e irreprimível da Revelação; ora são os Gênios, os Espíritos Protetores do nosso mundo que, utilizando-se da Revelação, nos guiam na íngreme estrada da Evolução; ora são os seus prepostos, que, na sua ação benfazeja, abatem reinos, aniquilam poderes e ferem com a espada flamejante da Verdade os falsos apóstolos, os ministros fraudulentos que, na louca pretensão de infalibilidade, atiram as almas aos báratros insondáveis do fanatismo e da superstição!

Exemplifiquemos:

Na infância da Humanidade, Abraão recebe a Revelação da unidade de Deus e do seu poder sobre o Universo todo: foi a Primeira Revelação. Nenhum mandamento, nenhum preceito foi estabelecido nesta manifestação. Mais tarde os prepostos divinos baixam ao Sinai e Moisés recebe o Decálogo que, além de referendar a Manifestação Abraâmica, prescreve deveres necessários aos povos daquela época.

Simples em sua clareza, claro em sua manifestação, o Espírito do Sinai estabeleceu em dez preceitos as bases da moral social que prepararia as gentes para um novo surto às regiões esclarecidas da Espiritualidade.

Infelizmente, como sói acontecer em todas as manifestações do Alto, a má interpretação humana, mesclando-se ao pensamento divino, desnaturou o Decálogo, transformando-o num Código draconiano onde quase se prescreve o “dente por dente, olho por olho”.

Mas a verdade primitiva, apesar de tudo, permanece para aquele que tem olhos para ver.

Passam-se os tempos, novos tempos vêm e o Céu delibera enviar à Terra uma Nova Mensagem, visível e tangível; é a Revelação Cristã, vestida com todos os esplendores do Espírito. Este é que testifica a verdade do Verbo; exaltando o valor da pedra a (Revelação), que foi posta como pedra angular dos seus ensinos, mas que foi rejeitada pelos edificadores, tornou-se a Cabeça da Esquina na qual tropeçam os incientes e deturpadores da Lei.

O divino Messias não deixa de dar essa Pedra como fundamento de sua Religião, não deixa de mencionar a Revelação como sendo o fundamento da sua Igreja: Super hanc petran edificabo ecclesiam meam, “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Parece bem claro o texto para que nos detenhamos em mais considerações.

A palavra do homem é o resultado da carne e do sangue, mas a confissão de Pedro não saiu da carne ou do sangue, mas sim da Revelação Divina: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”

Novamente os tempos se esvaem e a Humanidade progride.

Passam-se quase 20 séculos; mas a palavra não passa, e a Revelação dá um novo impulso ao mundo paralisado pelas idéias avoengas, malsãs que fazem abstração da alma: Eis que o Espiritismo, como um Pentecostes solene, derrama sobre a Terra os clarões da sua sublime Revelação.

“Eu tenho ainda muitas coisas para vos dizer mas não as podeis suportar agora; porém o Espírito da Verdade, que permanecerá convosco, vos guiará em toda a verdade.”

Revelação Abraâmica, Revelação Mosaica, Revelação Cristã, Revelação Espírita; aquela, a primeira; esta, a última; Revelação das Revelações!

Reúne, congrega, esclarece, explica todas as revelações passadas e anuncia as futuras; é a Revelação Básica da Moral, da Filosofia, da Ciência, da Religião.

Eis em suas linhas gerais o caráter brando e instrutivo da Revelação.

Examinemô-la agora por outro prisma:

O reinado de Nabucodonosor havia atingido seu apogeu quando morre o grande rei, sucedendo-lhe no trono seu neto Baltazar.

Certo dia, é dado um grande banquete em palácio. Homens e mulheres da sua corte, convivas, faziam brindes com esses vasos deixados por Nabucodonosor, quando uma mão fluídica aparece próxima à parede. O rei treme de pavor, seu corpo tirita de assombro, mas a mão, movida por força indômita, escreve: Mane, Thecel, Phares!

É a “pedra cortada sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro, e os esmiuçou.”

É a Reve1ação — aguilhão terrível contra o orgulho e a vaidade — que veio pôr termo a um reinado improfícuo!

Prossigamos na análise:

Oprimidos pela escravidão do Faraó no Egito, os Israelitas sofrem as mais duras provações. O poder despótico do rei não dá tréguas aos escravos, quando o Senhor, compadecido de seus filhos, chama a Moisés e Arão, reveste-os de dons e envolve-os nas graças da Revelação!

Não é preciso transcrever os prodígios operados ante o Faraó por aqueles insignes varões. Os magos, com toda a sua arte e seu encanto, não conseguiram dominar as “pragas” que envolviam os egípcios, e, se chegaram a imitar algumas delas, foi para servir de castigo ao rei endurecido, proclamando, por fim, o Espírito, a liberdade de Israel e a subjugação de seus terríveis opressores!

Leiam a História, porque é dela que extraímos estes fatos gloriosos que exaltam a Revelação, caracterizada por todos esses fenômenos objetivos e subjetivos, cuja causa única é a presença do Espírito revestido de seus elevados atributos!

No ano 916 antes da Era Cristã, Achab, rei de Israel, mandara edificar um templo ao deus Baal, onde pontificavam 450 sacerdotes do mesmo ídolo.

Foi quando o Profeta Elias, apresentando-se ante o rei, disse-lhe: “Tão certo como Deus existe, não há de chover do céu nem uma gota de orvalho sobre esta terra má, até que eu o consinta.” E durante três anos e seis meses não choveu: depois Elias pediu chuva ao céu e o céu deu chuva e a terra produziu seus frutos.

Logo depois, o mesmo Elias combate com os 450 sacerdotes de Baal. Dois holocaustos foram armados e enquanto o de Baal, com seus 450 padres, permanece inócuo, o de Elias, a rogos deste, é devorado pelas chamas que ele atrai do céu!

A Revelação é extraordinária, admirável! Com o seu auxílio Moisés faz passar os israelitas pelo Mar Vermelho a pés enxutos, e Elias, abre, a seu turno, as águas do Jordão e o atravessa livre. dirigindo-se para Jericó.

Foi a Revelação que bateu às portas de Nínive e fez o povo vestir-se de cilício, cobrir-se de cinza e jejuar.

Foi a Revelação que moveu os lábios e a pena de Isaías para que proclamasse as grandezas de Deus; é ela que em todos os tempos suscitou profetas e constituiu apóstolos; foi ela que se mostrou admirável e gloriosa a Jacó: este, adormecido sobre a pedra de Betel, símbolo da mesma Revelação, viu os Céus abertos, e, por uma escada que repousava sobre a Terra, subirem e descerem Espíritos, no seu dever contínuo de evolução e auxílio de progresso aos que ainda em atraso pediam o carinho dos seus superiores para se elevarem aos píncaros supremos da Espiritualidade.

Todo homem, toda a Humanidade é perfectível: de século em século, de ano em ano, de dia em dia, a Humanidade conquista novas luzes que lhe dão superioridade moral, material e espiritual. Esta verdade é axiomática. Todos os progressos conquistados nos são proporcionados pela Revelação.

Infelizmente não se tem compreendido assim, porque os edificadores, na ânsia de glórias e subordinados a idéias bastardas, rejeitaram a PEDRA ANGULAR, que, afinal, foi posta como CABEÇA DE ESQUINA!

TRÍADE DEVASTADORA — AI DE VÓS QUE NEGLIGENCIAIS OS PRECEITOS DA LEI!

“Ai de vós escribas e fariseus hipócritas! Porque fecham aos homens o Reino dos Céus; pois nem vós entrais, nem deixais entrar os que desejam entrar!

“Ai de vós, porque rode ais a Terra e o Mar para fazer um prosélito, e o fazeis em dobro mais filho da Geena do que vós!

“Ai de vós, guias de cegos que dizeis: quem jurar pelo santuário, isso nada é; mas quem jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado ao que jurou!

“Ai de vós que dizimais o endro, a hortelã, o cominho e vos esqueceis dos pontos principais da Lei, que são a justiça, a misericórdia e a fé!

“Ai de vós que limpais o exterior do copo e do prato, mas estais cheios de rapina e podridão! Bois semelhantes aos sepulcros branqueados, que, por fora parecem vistosos, mas por dentro são cheios de ossos e imundícies.

“Ai de vós que erigis os túmulos dos profetas, que os vossos pais mataram! Bois, na verdade, filhos daqueles que mataram os profetas. Raça de víboras, como escapareis da condenação da Geena ?”

(Mateus, XXIII, 13-33.)


A população mundial está dominada por uma tríade devastadora: Política, Religião, Ciência; Política sem ideal e sem caráter, Religião sem fé, Ciência sem sabedoria.

Todas as baixezas que caracterizam e deprimem a pobre Humanidade, todas as enfermidades físicas, morais e espirituais que afetam os homens, têm fundas raízes nessa árvore genealógica de todos os vícios e paixões más que bestializam as pobres almas e as agrilhoam a esse terrível suplício de Tântalo.

“Mistério humano”, semelhante ao da “Trindade Papalina”, que escravizou os mais sagrados dotes da Liberdade e da Justiça, produto teratológico do egoísmo e do orgulho dos Átilas e dos Herodes de todos os tempos: “tríade devastadora”, demolidora pelos seus princípios, astuciosa pelas suas manifestações, pérfida pelos seus fins mercatórios, tem aniquilado todos os ditames do bom senso, abastardado todas as inteligências e abafado todas as luzes com que o Sol pujante do progresso aquece a Terra.

Nos governos, como nas igrejas e nas academias, lavra desoladamente o dolo, a má fé, a fraude consciente, o monopólio das posições para a exploração do direito das gentes, o espírito de mercância que, na pretensão astuta de poder, de crer e de saber, não respeita a Justiça, espezinha a Caridade e agride a Verdade, a célica virtude à qual o Cristo dedicou uma vida inteira.

É de indispensável urgência uma reação forte, vigorosa contra esse mal acabrunhador que vem, há longos séculos, falseando todos os princípios da ordem, todas as manifestações da moral, todas as luzes da sabedoria!

E o Espiritismo aí está, com os seus prepostos visíveis e invisíveis, para dar o golpe fatal às instituições cujo maquiavelismo ensombra as consciências, mantendo-as na ignorância dos Divinos Preceitos do Cristianismo.

A sua tarefa é a mesma inscrita no estandarte do Cristianismo, erguido bem alto pelo grande Apóstolo dos Gentios: Restaurare Omnia — restaurar tudo, o indivíduo, a família, a sociedade, os governos, a Religião, a Ciência.

Infundir o Espírito Novo nas gerações, presente e vindoura, e aniquilar para sempre o Reinado da Matéria, que tanto tem infelicitado a Humanidade.

A luta está travada, e dos formidáveis monumentos que simbolizam a supremacia humana, não ficará pedra sobre pedra, que todas serão derribadas!

Os pegureiros do enorme rebanho, que do Alto velam pelo destino das almas, já entraram em ação decisiva, e a Tríade Devastadora será precipitada como a Grande Babilônia, cidade que nunca mais será achada. Então sob os impulsos regeneradores do progresso e bafejos incessantes da Verdade, governos e povos, igrejas e crentes, academias e alunos se orientarão na senda gloriosa do porvir, guiados pelo Espírito, em busca da felicidade imperecível.

A nós espíritas resta a solidariedade na fé, a união no trabalho, a energia na luta para que cada qual, em seu posto, cumpra a tarefa que lhe foi confiada.

Ai dos escribas e fariseus!

Ai dos cegos, guias de cegos! Ai dos sepulcros caiados!

Ai dos sacerdotes, rabinos, pastores e políticos venais!



ODRES NOVOS — VINHO NOVO — ODRES VELHOS — PANOS NOVOS E VESTIDOS VELHOS

“Ninguém cose remendo de pano novo em vestido velho; de outra forma o remendo novo tira parte do velho, e torna-se maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos, porque o vinho fará arrebentar os odres e perder-se-á o vinho e também os odres; pelo contrário, vinho novo é posto em odres novos.”

(Marcos, II, 21-22.)
Não vale pôr remendo de pano novo em vestido velho; vai-se o vestido e fica o remendo.

Querer corrigir os erros das “religiões” com fragmentos da Nova Revelação, é querer remendar vestido velho com pano novo.

As religiões sacerdotais são odres velhos curtidos de dogmas, de sacramentos; não suportam absolutamente a força da Nova Verdade vinda do Céu.

Essas comparações foram feitas por Jesus a propósito da pergunta que lhe fizeram acerca do jejum que os discípulos de João Batista observavam e os de Jesus não.

“Como podem os meus discípulos jejuar se eu estou com eles?” (Lucas, V, 33-39.)

“Minha Palavra não cabe nas vossas Igrejas; justamente por isso ela não vos foi oferecida diretamente, mas foi anunciada de cima dos telhados, nos montes, nos campos, nas praças e nos mares.

“Tirar um fragmento da Verdade, que eu leguei ao mundo todo, para suprimir o jejum dos discípulos de João e dos fariseus, seria o mesmo que pôr remendo de pano novo na rotura de um vestido velho.”

As Igrejas, em tempo algum, serviram de receptáculo, de vaso sagrado para o Vinho Novo da Revelação.

O Decálogo não foi transmitido aos hebreus pelos sacerdotes nem pelas Igrejas do Egito, mas no Monte Sinai, pela mediunidade de Moisés.

O Cristianismo não foi dado ao mundo do Templo de Jerusalém, nem pelos fariseus, nem pelos escribas, nem pelos saduceus, nem pelos essênios, nem pelos samaritas nos, nem do Monte Garizim, mas por Jesus, Homem independente de todas as Igrejas e de todas as seitas religiosas.

O Espiritismo, tal como a Primeira Revelação, a Cristã, também foi e continuará a ser manifestado ao Mundo, fora de todas as Igrejas e de todas as ortodoxias.

“Não se põe vinho novo em odres velhos: pela fermentação os odres partem-se e o vinho se derrama.”

Acresce ainda a circunstância do paladar: o que se acostumou ao vinho velho não quer o novo. Assim também aqueles que se acostumaram com velhas religiões, não podem querer a nova, mesmo porque a “religião”, dizem, é como o vinho: quanto mais velho melhor.

Para odres velhos, vinho velho; para velhos incrustados dos parasitos das velhas religiões, religião velha!

As túnicas com que os cristãos se vestem no Mundo Espiritual não são feitas de remendos, assim como os odres que têm de receber o vinho novo, não são os velhos; daí o aviso a Nicodemos, mostrando-lhe a necessidade de renascer da carne e do Espírito.

O espírito velho prejudica deteriora a carne nova, ou seja a nova geração; pela mesma forma o espírito novo não pode ser assimilado pela carne velha (a velha geração). É necessário que se dê o renascimento do espírito, pela modificação das idéias, e o do corpo, sem o que não se verá o Reino de Deus. A esta operação Paulo, chamou: “a substituição do homem novo pelo despojamento do homem velho”; e acrescentou: “os que são de Cristo se tornam novas criaturas”. Debalde, por isso, é esperar de religiosos, anquilosados pelas tradições e dogmas avoengos, a modificação e regeneração dos costumes; assim como é utopia julgar que, dos parasitos que compõem a ciência oficial, venha o progresso da Ciência, e por eles nasça uma filosofia racional que exalte a pesquisa, o livre-exame orientado pelos sãos princípios da Lógica.

Pela mesma maneira se pode aplicar a parábola aos representantes dos governos corrompidos que têm acendido o fogo da guerra, devastando nações, oprimindo povos, degradando o caráter nacional, empobrecendo o erário, erigindo a politicagem de campanário, adstrita a interesses subalternos.

Esses religiosos, cientistas e políticos não podem receber o vinho novo, são vestidos velhos, nos quais não cabe o remendo de pano novo, de idéias novas de paz, de ordem e progresso. São odres velhos, que estouram ao contato do espírito novo, só assimilável pela nova geração.

“Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; não se põe vinho novo em odres velhos!”


A FÉ E O AMOR

“Uma mulher que havia doze anos padecia de uma hemorragia e que tinha sofrido bastante às mãos de muitos médicos e gastado tudo o que possuía, sem nada aproveitar, antes ficando cada vez pior, tendo ouvido falar a respeito de Jesus veio por detrás entre a multidão e tocou-lhe a capa; porque dizia: se eu tocar somente as suas vestes, ficarei curada. E no mesmo instante cessou sua hemorragia, e sentiu no seu corpo que estava curada do seu flagelo.

“E Jesus disse-lhe: Filha, a tua fé te curou; vai-te em paz e fica livre de teu mal.”

(Marcos, V. 25-34.)


Sabedoria e santidade são os dois atributos para a aquisição da felicidade.

A Luz dá sabedoria, a Religião dá santidade, mas só, o Amor resume toda a Lei e a Profecia.

A Esperança consola é anima; a Caridade robustece e ampara; a Fé salva; o Amor anima todas estas virtudes; o Amor é a Lei.

Os homens titubeiam; a Humanidade degrada; tudo parece perdido como a nau batida pela tempestade! Eis que aparece o Amor e faz ouvir sua voz convincente: tudo se acalma!

A bonança sucede à impetuosidade dos ventos e à fúria dos mares! a luz sucede às trevas como o dia sucede à noite!

Não há o que melhor manifeste a Lei de Deus do que o Amor. Seu nome, escrito unicamente com quatro letras, indica os quatro pontos cardeais da felicidade espiritual; suas letras são luzes; sua luz brilha mais e aquece melhor que o Sol!

A Esperança está ligada à Imortalidade; mas a Fé é inseparável do Amor.

A mulher enferma, cheia de fé, aproxima-se do Senhor, toca-lhe as vestes. “Assim fazendo, pensou, ficarei curada do mal que há muitos anos me aflige”. E o milagre efetuou-se!

Assim também sucederá a todos aqueles que tiverem fé e de Jesus se aproximarem: “0 que me seguir não verá trevas.”

Todos os que tiverem Fé, e com Fé buscarem vencer as dificuldades, triunfarão porque o Amor coopera com a Fé para abater barreiras, destruir domínios, aniquilar empecilhos e suprimir dificuldades.

“Se tiveres fé, disse Jesus, dirás a este monte: passa-te para lá e ele passará.”

“Se tiveres fé, dirás a esta figueira: transplanta-te para além, e assim acontecerá.”

A missão exclusiva de Jesus foi reviver os corações na Fé, para que as almas cheguem às alturas do amor de Deus.

Em todas as suas excursões, o Mestre semeava Fé, para que as gentes, com o seu produto, granjeassem os tesouros do Amor.

É assim que, cultivando seus ensinos, nós alçaremos os mundos de luz que se movimentam no Éter acionados pela vontade de Deus.

A Luz dá Sabedoria e salva; Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida; o Amor é a Lei.




A TRANSFIGURAÇÃO NO TABOR

“Seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, e os levou em particular a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; e as suas vestes tornaram-se resplandecentes e em extremo brancas, como nenhum lavandeiro sobre a Terra as pode alvejar. E lhes apareceu Elias com Moisés, e estes falavam com Jesus.

“Então Pedro disse a Jesus:

“Mestre, bom é estarmos aqui, e façamos três tabernáculos: um para ti, outro para Moisés e outro para Elias.” Porque não sabia o que havia de dizer: pois estavam aterrorizados. E veio uma nuvem que os envolveu; e dela saiu uma voz dizendo: Este é o meu filho dileto; ouvi-o!

“E eles olhando de repente em redor, não viram mais ninguém consigo, senão só a Jesus.

(Marcos, IX, 2-8.)


Jesus tomou três de seus discípulos, Pedro, Tiago e João, e levou-os ao Monte Tabor, e mostrou-se a esses, que havia escolhido para apostolar a Causa, tal como era no Mundo da Verdade; ou seja, apareceu-lhes em Espírito; tão belo e radiante estava, que o Evangelista, por não conhecer outra expressão para descrever a apresentação do Cristo de Deus, disse “haverem-se tornado em extremo resplandecentes as suas vestes”; acrescentando Mateus: “O seu rosto brilhava como o Sol!”

Diz mais o texto que Jesus, em sua alta e divina sabedoria, resolveu invocar os Espíritos de Moisés e de Elias, que vieram trazer a excelência do seu” testemunho para a glorificação da lei de Deus, que ele, Jesus, estava ensinando aos seus discípulos.

E ainda, para maior convicção daqueles que representavam o Colégio Apostólico, uma nuvem os envolveu e a Voz do Céu clamou, apontando-lhes Jesus: “Este é o meu filho dileto — OUVI-O!”

Como vemos, o Divino Mestre revestiu-se de todos os esplendores, cercou-se de todos os testemunhos, para demonstrar a seus futuros seguidores a tarefa que lhes estava confiada: testemunho da Terra — os três discípulos que iriam transmitir aos demais as cenas indescritíveis que presenciaram: testemunho do Mundo dos Espíritos — representado dignamente pelos Espíritos de Moisés e de Elias, que apareceram positivamente a todos; testemunha do próprio Jesus que, destacando-se do corpo material com que subira ao monte, apresentou-se com o Corpo Imortal com que ascenderia ao Infinito; testemunho, finalmente, do Supremo Pai, que, ecoando na nuvem de fluidos amorosos com o seu divino Verbo confirmou, mais uma vez, a sua dileção pelo Filho Amado, que deveria ser ouvido e obedecido por aqueles que, mais tarde, teriam de apregoar suas Palavras Redentoras pelo mundo todo!

Conclui-se daí que os esplendores do Cristo não são materiais, mas espirituais; as manifestações do Cristo não são carnais, mas manifestações de Espíritos.

Ouvir a Cristo deve, pois, ser o nosso principal anelo.

Ouvir a Cristo pelos discípulos, ouvir a Cristo pelos representantes do Mundo Espírita, ouvir a Cristo pela voz que fala nas nuvens, porque todos dão testemunho do Cristo, em terra, nos ares, no Mundo Espiritual.

A lei do Cristo Jesus demonstra a existência da alma, pelo desdobramento e transfiguração; demonstra a imortalidade da alma, com a aparição e comunicação de Moisés e de Elias; e o Verbo, nas nuvens, sanciona o divino Amor abrangendo o Infinito para que a “Palavra não passe e seja cumprida integralmente”.

A Transfiguração é a pregação do Cristianismo com todas as forças da sua Vida Eterna.


A PROVA DA RIQUEZA

“Jesus olhando ao redor de si disse: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! Os discípulos ficaram surpreendidos com estas palavras. Mas Jesus tornou a dizer-lhes: Filhos, quão difícil é entrar no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! É mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus. E eles ficaram sobremaneira admirados, dizendo entre si: Quem pode então ser salvo? Jesus olhando para eles, disse: Aos homens é isto impossível, mas a Deus, não; porque a Deus tudo é possível.

(Marcos, X, 23-27.)
A opulência tem as suas virtudes, os seus feitos gloriosos, mas são grandes os escolhos dos que se acham na opulência.

Espíritos predestinados, talvez para concorrerem com maior soma de benefícios para o engrandecimento material, moral e espiritual de seus irmãos, eles, as mais das vezes, se esquecem da missão que vieram desempenhar.

O orgulho insuflado pelos bajuladores, pelos servis, que não conhecem outro deus que o do ouro, tem transviado muitas almas, conduzindo-as a rudes e penosas provações, pelo mau emprego da fortuna que o Criador lhes concedeu para o seu aperfeiçoamento e o aperfeiçoamento de seus semelhantes.

O homem rico tem mais dificuldades a vencer que o pobre. Além de tratar de si e dos seus, além de procurar manter as exigências sociais, além de estudar e estudar muito porque dispõe de mais tempo que o pobre, ainda lhe cabe o dever restrito de exercer a Caridade, quer socorrendo os necessitados do corpo, quer ensinando os ignorantes, dirigindo a todos palavras de conforto, de coragem, de resignação.

Deus não condena a riqueza e ninguém é condenado, por ser rico.

O que Deus condena é o mau uso que se faz da fortuna.

“Como é difícil entrar um rico no Reino dos Céus! É mais fácil — disse Jesus — passar um camelo pelo fundo duma agulha do que um rico se salvar.”

Esta sentença do Mestre vem em apoio das provas por que passam aqueles que pediram bens de fortuna para se lhes oferecer ocasião de mais benefícios prestarem a seu próximo, e, portanto, progredirem mais rapidamente. E basta ler em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, a comunicação do Espírito da Condessa Paula, desencarnada em 1851, para ver que o dinheiro é também um poderoso auxiliar para conquistarmos a fortuna imperecível que os ladrões não roubam, as traças não roem e a ferrugem não consome.

Aqueles que pediram pobreza, porque não se julgaram à altura de desempenhar os deveres impostos pela riqueza, devem manter a coragem e resignação, pois a verdadeira fortuna é a que nos proporcionam as virtudes que praticamos e das quais nos cercamos.

Aos ricos, repetimos o último trecho da comunicação da Condessa Paula:

“E vós ricos, tendes sempre em mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imorredoura, não existe na Terra; procurai antes saber o preço pelo qual podeis alcançar os benefícios do Todo Poderoso.”


DEVERES ESPÍRITAS

O GRANDE MANDAMENTO

“Chegou um dos escribas e, tendo ouvido a discussão e vendo que Jesus lhes havia respondido bem, fez-lhe esta pergunta: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Respondeu Jesus: O primeiro é; Ouve, ó Israel: O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um só; e amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes. Disse-lhe o escriba: Na verdade, Mestre, disseste bem que Ele é um; e não há outro senão Ele; e que o amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios. Vendo Jesus que ele havia falado sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do Reino de Deus.

“E ninguém mais ousava interrogá-lo.

(Marcos, XII, 28-34.)


Três são os deveres indispensáveis à criatura humana: 1o para com Deus; 2o para consigo mesmo; 3o para com seu próximo. Nisto resumiu Jesus a lei e os Profetas.

Sendo Deus o autor de nossa existência, o nosso verdadeiro Pai, devemos dedicar, primeiramente a Deus, todos os nossos haveres, a nossa própria Vida.

Os deveres do homem estão em relação com o seu grau de adiantamento, com as suas aptidões físicas, intelectuais e psíquicas.

Ninguém pode dar senão o que tem, mas é fora de dúvida que devemos dar a Deus tudo o que temos. E como os haveres que dedicamos a Deus são retribuídos com centuplicados juros, cumpre-nos aproveitar todas essas dádivas para proveito próprio e em proveito do próximo.

É do cumprimento desses deveres que começa a felicidade.

Satisfeitos os deveres que temos para com Deus, ocorre-nos tratar daqueles que se relacionam com a nossa própria individualidade. É claro que essas obrigações são de natureza material, intelectual e espiritual.

O homem veio à Terra para progredir e esse progresso depende do bom emprego que faça do tempo para zelar do seu corpo, proporcionando-lhe a natural manutenção, e cultivar o espírito, oferecendo-lhe luzes: luzes de Vida Eterna; luzes de sabedoria verdadeira; luzes de moral perfeita.

O corpo é um intermediário para as recepções e manifestações exteriores; é preciso que o tratemos e nos utilizemos dele como quem trata e se utiliza de uma máquina para executar o trabalho de que está encarregado.

O Espiritismo abrange a parte material e a parte psíquica do indivíduo; exige tratamento do corpo e cultivo do Espírito, sem detrimento um do outro.

Pela mesma maneira nos cumpre fazer para com o nosso próximo.

Próximo é aquele que se aproxima de nós, seja em corpo, seja em Espírito:

Há próximos que estão longe de nós e próximos que estão perto.

Na esfera do Espírito prevalece a lei da similaridade. No terreno da matéria a lei da atração.

Os principais próximos são os que nos estão ligados pela lei da afinidade psíquica.

Os próximos secundários são os que se valem de nós para suprir a sua necessidade; necessidade de ordem material ou de ordem espiritual, porque os nossos deveres para com o próximo, para com nós mesmos e para com Deus são de ordem material e espiritual.

O homem que cumpre o seu dever, a nada mais fica obrigado. Quando o homem faz o que pode. Deus faz por ele o que ele por si mesmo não pode fazer.

Feliz daquele que faz tudo o que pode e deve fazer, pois esse é o bom emprego do talento para aquisição de outros tantos talentos.

Três são os deveres indispensáveis do homem: para com Deus, para consigo mesmo, para com o seu próximo.

O preceito é este: ama a Deus; ama a ti mesmo; ama ao teu próximo; instrui-te e procura instruir teu próximo. Faze tudo isso de todo o teu entendimento, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças.

Não há outro mandamento.



OS SINAIS DOS TEMPOS

“Ao sair Jesus do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Olha, Mestre, que pedras e que edifícios! Disse-lhe Jesus: Vê estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que Dão seja derribada.

“Estando ele sentado no Monte das Oliveiras, defronte do templo, perguntaram-lhe em particular Pedro, Tiago, João e André: Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá quando elas estiverem para se cumprir? Então Jesus começou a dizer-lhes: Vede que ninguém vos engane. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu, e enganarão a muitos. Quando, porém, ouvirdes falar de guerras, e rumores de guerras, não vos assusteis: porque é necessário que assim aconteça mas não é ainda o fim. Pois se levantará nação contra nação, e reino contra reino. Haverá terremotos em vários lugares, e haverá fomes: estas coisas são o princípio das dores. Estais vós de sobreaviso; pois vos hão de entregar aos tribunais e sereis açoitados nas sinagogas, e haveis de comparecer diante dos reis e governadores por minha causa, para lhes servir de testemunho. Mas é necessário que primeiro o Evangelho seja pregado a todas as nações, E quando vos conduzirem para vos entregar, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas falai o que vos for dado naquela hora, porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo. Um irmão entregará à morte a seu irmão e um pai a seu filho; e os filhos se levantarão contra seus pais e os farão morrer. Sereis também odiados de todos por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

“Quando, porém, virdes a abominação da desolação estar onde não deve (quem lê entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes; o que se achar no eirado, não desça e nem entre para tirar as coisas de sua casa; e o que estiver no campo, não volte para tomar sua capa. Mas ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Rogai que não suceda isso no Inverno; porque aqueles dias serão de tribulação, tal qual nunca houve desde o princípio da criação por Deus feita até agora, nem haverá jamais. E se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém seria salvo; mas por causa dos eleitos, que ele escolheu, os abreviou.

“Então se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo acolá! não acrediteis; levantar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas, e farão milagres e prodígios, para enganar os eleitos se possível fôra. Estais vós de sobreaviso; de antemão vos tenho dito todas as coisas.

“Mas naqueles dias, depois daquela atribulação, o Sol escurecerá, a Lua não dará mais claridade, as estrelas cairão do céu e as potestades celestes serão abaladas. Então se há de ver o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. E Ele enviará os anjos e ajuntará os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da Terra à extremidade do céu.”

(Marcos, XIII, 1-27.)
Este trecho do Evangelho, provavelmente da última fase da vida de Jesus, é digno do nosso estudo e atenção.

Já o Mestre havia lançado o seu libelo contra os escribas e fariseus, os cegos guias de cegos, que irigiam os sepulcros dos profetas a quem seus pais haviam trucidado; aos traficantes das graças de Deus; aos vendilhões do templo. Ele já havia lamentado Jerusalém, que matava os profetas e enviados que transpunham suas portas quando, ao chamarem os discípulos sua atenção para as grandezas do templo, aproveitou-se da oportunidade para proferir, perante eles, o seu Sermão Profético como o chamam os Evangelhos.

Foi nessa ocasião que Jesus falou aos discípulos dos tempos que haviam de chegar e das ocorrências que se desenrolariam no mundo, até a iniciação de uma nova fase de vida para a Humanidade;

Sem outro exórdio que pudesse desviar a atenção dos admiráveis painéis por meio dos quais mostrou aos que o cercavam os fatos que se desenrolariam depois da sua passagem para a Espiritualidade, começou Jesus a falar do grande e suntuoso Templo de Jerusalém, do qual não ficaria pedra sobre pedra.

Era este o final maior dos acontecimentos que estavam próximos, foi justamente o que se realizou.

Do Templo de Jerusalém não ficou pedra sobre pedra, como também não ficará pedra sobre pedra de todos os monumentos que o orgulho, a vaidade e o egoísmo humano edificaram em nome de Deus!

Grande era a missão que cumpria ao Mestre levar a termo, e de retirada do Templo onde Ele havia apostrofado os sacerdotes, o Mestre seguira para o Monte das Oliveiras, sítio predileto onde, por várias vezes, se tinha reunido com seus discípulos, mostrando-lhes do alto do pico, cuja vista abrangia extensos horizontes, as belezas da Natureza matizada pelos reflexos do Sol.

Sentado na relva, melancólico e pensativo, começou então o Mestre a responder às perguntas daqueles que deveriam apostolar a sua causa, salientando os fatos que assinalariam o fim dos tempos do mundo sacerdotal, que precederia o início do mundo espiritual, ou seja da fase iniciativa do Reinado do Espírito sobre a matéria. Tomando como símbolo das grandezas humanas o Templo de Jerusalém, Jesus fez ver a seus discípulos que todas essas pompas luxuosas, que adormecem o Espírito e aniquilam o sentimento, distraem os homens de seus deveres para com Deus e o próximo, impedindo as almas de cumprirem seus deveres evangélicos.

O Mestre já havia também predito os grandes martírios que teria de sofrer, predições que se realizaram à letra; mas que tudo isso era preciso que se cumprisse; e que Ele voltaria ao mundo no tempo da restauração final da sua Palavra. Mas, antes disso, o mundo teria de passar por grandes transformações e a Humanidade por grandes sofrimentos.

Perguntando-lhe os discípulos a época em que ocorreriam esses acontecimentos, Jesus começou por ensiná-los a raciocinar, ensinando-lhes a discernir os homens e os Espíritos, a fim de poderem distinguir os tempos preditos.

“Cuidado! Ninguém vos engane, porque muitos virão em meu nome dizendo: eu sou o Cristo, e enganarão a muitos.

“Se alguém vos disser: eis aqui o Cristo ou ei-lo ali, não acrediteis; porque hão de levantar-se falsos Cristos e falsos profetas e mostrarão tais sinais e milagres que, se fora possível, enganariam até os escolhidos.

“Se disserem que o Cristo está no deserto, não saiais; se disserem que está no interior da casa não acrediteis porque assim como o relâmpago sai do Oriente para o Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem.”

Com esta exposição Jesus fez ver que a sua vinda não seria como daquela vez, em que fora crucificado; viria em Espírito, presidindo o grande movimento de espiritualização do mundo, tal como se está verificando sob os auspícios do Espiritismo! Frisou bem os mistificadores, que apresentariam “Cristo” fechados em câmaras e no interior das casas, assim como os que aparecem nos desertos, arrebatam multidões curiosas e constituem redutos de fanáticos.

E foi só depois de bem exaltar o sentimento e o raciocínio de seus discípulos, que o Filho de Deus julgou acertado narrar as dores por que o mundo teria de passar e as lutas que seus seguidores teriam de sustentar na obra da regeneração humana.

“Haveis, primeiramente, de ouvir rumores de guerra, mas não vos assusteis, porque não é ainda nessa ocasião que virá o fim, pois levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome e terremotos em vários lugares; mas tudo isso é o principio das dores.”

Esta predição está realizada e continua a se verificar; as guerras que têm assolado ultimamente o planeta não deixam dúvida sobre a realização da previsão. Os ataques contra a palavra apostólica, levando os divulgadores da aos tribunais, têm continuado desde os primeiros tempos do Cristianismo.

Desde os tempos de Nero, prosseguindo sempre, estendendo-se à alçada da Igreja de Roma, que entregava os “hereges” ao braço forte para lhes serem infligidos os maiores suplícios, a história dos inquisidores e da Inquisição, compondo páginas de sangue na História da Humanidade, deixam ver claramente o cumprimento também desse trecho do Evangelho.

A Grande Guerra de 1914-18, que fez mais de 30 milhões de vítimas; a grande peste que levou outras tantas ou ainda mais; as lutas que fervilham em todo o mundo não são mais que os sinais característicos, preditos pelo Nazareno, do fim dos tempos em que o mundo terá de passar por uma completa reforma no que se refere à moral.

Jesus acrescentou que, em virtude da iniqüidade a que os homens se entregariam, o amor se esfriaria e não haveria mais caridade; os afetos se extinguiriam e o caráter se abastardaria.

É o que estamos vendo por toda a parte! O luxo, as pompas, a ganância do ouro, o desejo da multiplicação de fortunas; o egoísmo endeusado; e, de outro lado, o desprezo para com os necessitados, para com os enfermos e abandonados!

Em vez de hospitais, erguem-se igrejas; em vez de casas de instrução, constroem-se cadeias; em vez de luz, a Humanidade veste-se de trevas!

Um dos mais característicos “sinais dos tempos” é a Pregação do Evangelho, como está escrito:

“Este Evangelho será pregado pelo mundo todo; então virá o fim.” Graças ao Espiritismo, ou seja, aos Espíritos da Verdade, este convite para seguir a Cristo se está realizando como um aviso amoroso da vinda, em Espírito, de Jesus, que restabelecerá na Terra o Reinado do Espírito.

A pregação do Evangelho é o machado posto à raiz das árvores infrutíferas; é a exortação à regeneração dos costumes para a espiritualização dos homens.

Outro característico igual é: “a abominação da desolação predita pelo Profeta Daniel, que se havia de verificar no lugar santo.”

É fato bem patente aos olhos de todos: o que os homens chamam lugar santo são as igrejas; e não há quem conteste a desolação que lavra nas igrejas!

Que é atualmente religião? Nada. O que é uma igreja? Um lugar abominável, onde se pode encontrar tudo menos amor a Deus, caridade, amor ao próximo, respeito, moral!

A Igreja atual é um ponto de diversão como qualquer outro, é um botequim de festas onde se mercadejam frangos e leitões.

Que é a religião do povo, hoje?

Onde está a fé, a Esperança, a Caridade, que unem, sustentam, amparam e elevam a massa popular? O que há são tráficos de missas, tráficos de batismos, tráficos de casamentos, tráficos de nascimentos e tráficos de mortos! Tudo é mercadoria, tudo se vende na religião do povo, tudo se mercadeja nas igrejas dessa Babilônia!

A Imortalidade, a comunhão das almas e dos santos, desapareceu do Credo; o Diabo venceu a Divindade: o Inferno tragou o Céu!

Não há crença, não há fé; para a massa do povo, tudo termina com a morte; a Igreja proclamou: pulvis est, et in pulveris reverteris, “és pó e ao pó tornarás”, spiritus qui vales non redit. “Os mortos não retornam”. O túmulo é então, a última palavra da vida! Eis o sinal certo do fim dos tempos; eis a desolação e a abominação, predita por Jesus, imperando no “lugar santo”!

As últimas predições do Mestre, exaradas no referido capítulo, versam sobre os fenômenos físicos, os sinais no céu. Todos dizem: “o tempo está mudado”. De fato, o tempo está mudado e essa mudança foi predita por Jesus há quase dois mil anos, para assinalar o fim do Mundo da Carne e o advento do Mundo do Espírito.

Finalmente, diz o texto: “As estrelas cairão do céu e as potestades serão abaladas.”

Essas Estrelas mais não são que os Espíritos Superiores, que viriam tomar parte nessa restauração, mesmo porque só eles serão capazes de abalar as potestades, os governos civis e religiosos, da Terra e do Espaço, que conduziram os homens à degradação em que se acham!

Eles vêm ajuntar os escolhidos dos quatro ventos e chamá-los a formar esse Reino desejado, que pedimos cotidianamente ao Senhor no Pai Nosso.

Vamos concluir, aconselhando o leitor a tomar um lugar nas fileiras do Cristo, porque só assim ficará resguardado dos males futuros que farão ruir o mundo velho com suas paixões, para, removidos os escombros, erguer-se em cada alma uma cátedra onde o Espírito da Verdade possa pontificar!




A CEIA PASCOAL

“Chegada a hora pôs-se Jesus à mesa e com ele os apóstolos. E disse-lhes. Tenho ansiosamente desejado comer convosco esta Páscoa antes da minha paixão; pois vos digo que nunca mais a hei de comer, até que ela se cumpra no Reino de Deus. Depois de receber o cálice, havendo dado graças, disse: Tomai-o e distribui-o entre vós; pois vos digo que desde agora não beberei o fruto da videira até que venha o Reino de Deus. E tomando o pão e tendo dado graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: Este é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Depois da ceia tomou do mesmo modo o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que será derramado por vós.” (Lucas, XXII, 14-20.)

“Estando eles comendo, tomou Jesus o pão e, tendo dado graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei; este é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças e deu-lhes, dizendo: Bebei dele todos; porque este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que hei de beber de novo convosco no reino do meu Pai. (Mateus, XXVI, 26-29.)

“Estando eles comendo, tomou Jesus o pão e, tendo dado graças, partiu e deu-lhes, dizendo: Tomai-o; este é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças, e deu-lhes; e todos beberam dele. E disse-lhes: Este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que nunca mais beberei do fruto da videira. até aquele dia, em que hei de beber de novo no Reino de Deus.” (Marcos, XIV, 22-25)


Narram as Escrituras que o Profeta Ezequiel, arrebatado em Espírito, de Babilônia, onde se achava cativo, foi em Jerusalém, e nesta cidade um Anjo mostrou-lhe um Santuário, que tinha a porta fechada; e disse-lhe que “fora daquela porta assim fechada, assentar-se-ia o Príncipe à mesa, para comer o pão na presença do Senhor” (Ezequiel,44,1-3).

Extraordinário transporte espírita! Belíssima visão profética! Maravilhosa comunicação premonitória, que se realizou à letra, algumas vintenas de anos depois!

Arrebatado em Espírito, com grande antecedência, viu o Profeta Ezequiel a cena estupenda que se deveria desdobrar através dos tempos: “Jesus, o Príncipe da Paz, sentado a uma mesa a partir o pão com seus discípulos, na cidade de Jerusalém”, tal como relembramos neste escrito, pela leitura dos Evangelhos.

No “Santuário” só podia ser repartido “o pão da proposição”, pelos sacerdotes; para Jesus, que tinha por missão infundir no Espírito Humano a Nova Lei do Amor do Perdão e da adoração a Deus em Espírito e Verdade, o Santuário fechou as portas!

Era preciso que assim acontecesse para que a Doutrina Cristã sofresse a contingência das duras impugnações com que os reacionários de todos os tempos entravam todas as idéias novas, até a mais nobre e pura, a mais santa e verdadeira com que Deus quis auxiliar seus filhos.

Entretanto, o Pão não ficou inteiro e repartiu-se com tanta fartura que até hoje, 20 séculos depois, podemos com ele saciar a nossa fome de entendimento! Milagre ainda maior do que aquele que multiplicou peixes e pães que saciaram 5.000 pessoas. Aqueles pães e peixes, embora matassem a fome de tanta gente e sobrassem ainda doze cestos de sobras, não chegaram até nós; ao passo que este Pão se reflete através das gerações e envolve nossa alma em fluidos benéficos, que verdadeiramente saciam o Espírito.


Respingando com minuciosa atenção os trechos evangélicos acima transcritos, vemo-los em íntima relação com os capítulos 13, 14, 15 e 16 do Evangelho de João, que recomendamos à atenção dos leitores. E assim chegamos à conclusão, pondo em concordância os quatro Evangelhos, que o fim de Jesus, celebrando a Ceia, não foi comer o pão, por isso diz o Evangelista: “Tomando o pão partiu-o; deu-o aos discípulos e disse-lhes: tomai e comei, este é o meu corpo, que vai ser dado por vós; e com o cálice cheio de vinho, ofereceu-lhes, dizendo: bebei, este é o sangue do Novo Testamento que vai ser derramado em vosso benefício.”

Por esta passagem se vê claramente que Jesus não 1ratava do pão material nem do vinho de uva, mas da sua Doutrina, que é o alimento do Espírito, e precisa ser repartido com todos, para que todos os Espíritos não sintam fome de conhecimentos religiosos; para que todos sejam saciados com esse Pão que nos dá um corpo novo, incorruptível, imortal.

As duas espécies: pão e vinho, não são mais que alegorias, que dão idéia da letra e do espírito; assim como a carne e o sangue especificam a mesma idéia: letra e espírito.

Queria Jesus mais uma vez lembrar a seus discípulos que o seu corpo — que é a sua Doutrina — não pode ser assimilada unicamente à letra, mas precisa ser estudada e compreendida em espírito e verdade; por isso o Mestre acrescentou, quando os judeus se escandalizaram por haver ele dito que seus discípulos necessitavam comer a sua carne e beber o seu sangue: “A carne para nada presta, o espírito é que vivifica; as palavras que eu vos digo são espírito e vida.”

Não é, pois, com o pão, nem com a hóstia, que devemos comungar, mas, sim, com a Palavra do Cristo, com a sua Doutrina.

Diz Davi nos Salmos 78 – 24 e 26, profetizando sobre Jesus:

“O trigo do Céu desceu à Terra, e os anjos deram de comer aos homens”.

Duas coisas notamos nesta passagem: primeiro, o trigo é do Céu: segundo, os anjos é que deram de comer aos homens.

Ora, se o trigo é do Céu, o pão não pode ser material, mas sim espiritual; e se os anjos é que deram de comer aos homens, está se cumprindo em nossos dias a palavra profética de Davi, porque a Doutrina do Cristo está sendo oferecida em todos os pontos do globo, a todos os homens, pelos Espíritos.

Anjo quer dizer espírito mensageiro de Deus. E não são estes que vêm relembrar-nos a Palavra Divina e descerrar aos nossos olhos as portas da Imortalidade?

Jesus Cristo, encarnando a palavra de Deus, o Verbo, disse que ela é Pão; Davi profetizando sobre a distribuição do Pão aos homens, afirmou que essa tarefa estava a cargo dos Anjos.

Eis o característico bem saliente da nossa Doutrina, fac-símile da Pura Doutrina de Jesus, ou seja a mesma Doutrina de Jesus: “ser pão, e ser repartida por Anjos”.

O Pão da Vida, que é o Pão do Céu, não pode mesmo ser ministrado por homens, tenham eles o título que tiverem, embora se revistam de todas as aparências sugestivas para atrair as almas.

Continuemos, entretanto, a examinar se esta afirmação é ou não a verdade sagrada.

Qual foi o primeiro Pão espiritual que a Bíblia nos diz ter sido dado aos israelitas?

— Os dez mandamentos (ou seja, o Decálogo), escritos nas Tábuas da Lei.

Quem os escreveu?

— Moisés? Não! Diz o texto que Moisés subiu ao Sinai e Jeová (um dos Espíritos Guias de Israel) foi quem os escreveu pela mediunidade de Moisés.

Quem fez Davi e Isaías escrever? Quem fez mover os lábios de Malaquias, de Jeremias, de Ezequiel e Daniel? Não foram os Anjos, os Espíritos, segundo se lê nos próprios textos destes livros encerrados na Bíblia?

Quem anunciou à Maria o nascimento do Messias, e, portanto, a materialização do Verbo de Deus? Não foi um Espírito chamado Gabriel?

Quem falou por Estevão e anunciou por Ágabo coisas que se iam realizar, e, de fato, se realizaram? Não foram os Espíritos?

Qual homem na Terra se pode julgar com autoridade para falar das coisas do Céu? Homem, um só. Jesus, porque nele havia encarnado o Verbo de Deus e ele era o Pão, podia dar-se a si mesmo, a todos; mas desde que o mundo existe, não consta nas páginas da História que outro homem o igualasse.

— Os Apóstolos! Poderia alguém dizer. Mas os Apóstolos não foram Apóstolos enquanto não receberam o Espírito no Cenáculo.

Todo o pão que eles distribuíram, durante sua estadia na Terra, foi manipulado pelos Anjos, pelos Espíritos de Deus, que depois da explosão de Pentecostes nunca os deixaram. Foi neste dia que eles receberam o “batismo” e foi nesse dia que ficaram “batizados”, porque “estar batizado” é estar envolto, é estar imerso nos fluidos vivificadores dos Espíritos Santos.

E se assim não é, quais foram as obras que eles praticaram, qual Doutrina pregaram antes de receberem o espírito, no Cenáculo?

O homem que, num calmo momento de meditação, olhar para o passado, verá assombrado as transformações profundas, maravilhosas mesmo, operadas à sua atenção desprevenida. E se olhar para a vida do mundo, abismar-se-á ao ver como o dia a dia, minuto por minuto, o tempo, supremo iconoclasta, vem destruindo as mais basilares teorias, as mais incontroversas idéias, os mais sólidos monumentos, as mais inatacáveis fortalezas erguidas pela vontade humana!

Mas a Palavra de Jesus foi e será inatingível; a Palavra de Jesus não passou: é permanente, eterna, imutável! Assim está escrito e assim se há de cumprir. Ela é indispensável à evolução da Humanidade e há de realizar, sem dúvida alguma, a sua missão providencial, libertadora, reformando todas as instituições decrépitas e alimentando, como Pão que é, todos os homens que, à procura de novos estádios de liberdade, buscarem o seu espírito vivificante.

A Lição da Ceia e do Lava-pés é a Lição do Amor, da Humildade, para aquisição das glórias vindouras.




O PRECURSOR DO CRISTIANISMO

“Eis que eu vos enviarei o Profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.”

(Malaquias, IV, 5.)
“Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote chamado Zacarias, da turma de Abia; sua mulher era descendente de Arão, e chamava-se Isabel. Ambos eram justos diante de Deus, andando irrepreensíveis em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. E não tinham filhos, porquanto Isabel era estéril, e ambos de idade avançada.

“Estando Zacarias a exercer diante de Deus as funções sacerdotais na ordem da sua turma, coube-lhe por sorte, segundo o costume do sacerdócio, entrar no santuário do Senhor e queimar incenso. E apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, em pé à direita do altar do incenso. Zacarias, vendo-o, ficou turbado, e o temor o assaltou. Mas o anjo lhe disse: Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, a quem chamarás João; e terás gozo e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. Porque ele será grande diante do Senhor, e não beberá vinho nem bebida forte; já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor Deus deles; ele irá diante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, converter os desobedientes, de maneira que andem na prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo dedicado. Perguntou Zacarias ao anjo: Como terei certeza disto? Porque eu sou velho e minha mulher já é de idade avançada. Respondeu o anjo: Eu sou Gabriel que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e a trazer-te estas boas novas, e tu ficarás mudo e não poderás falar, até o dia em que estas coisas acontecerem, porque não deste crédito às minhas palavras, que a seu tempo se hão de cumprir. O povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se, enquanto ele se demorava no santuário. Quando ele saiu não lhes podia falar, e perceberam que tinha tido uma visão no santuário; e ele lhes fazia acenos e continuou mudo.

“Cumpridos os dias do seu ministério, retirou-se para sua casa.

“Depois destes dias Isabel, sua mulher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo: Assim me fez o Senhor nos dias em que ele pôs os olhos sobre mim, para acabar com o meu opróbrio entre os homens.” (Lucas, I, 5-25.)


“Naqueles dias levantando-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou a Isabel. Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança deu saltos no ventre dela, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! Como é que me vem visitar a mãe de meu senhor?” (Lucas, I, 39-43.)
“Chegando o tempo de dar à luz, Isabel teve um filho. “Os seus vizinhos e parentes, sabendo da grande misericórdia que o Senhor manifestara para com ela, participaram do seu regozijo. No oitavo dia vieram circuncidar o menino, e iam dar-lhe o nome de seu pai Zacarias. Sua mãe, porém, disse: Não, mas será chamado João.

“Disseram-lhe: Ninguém há entre teus parentes que tenha este nome. E perguntavam por acenos ao pai, que nome queria que lhe pusessem. Ele pedindo uma tabuinha, escreveu: João é o seu nome. E todos se maravilharam.

“Imediatamente lhe foi aberta a boca e solta a língua, e começou a falar, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os vizinhos; e divulgou-se a notícia de todas essas coisas por toda a região montanhosa da Judéia, e todos os que delas souberam as guardavam no coração, dizendo:

“Que virá a ser então este menino? Pois, na verdade a mão: do Senhor era com ele.”

(Lucas, I, 57-66.)
“Ora, o menino crescia e se fortalecia em espírito, e habitava nos desertos até o dia de sua manifestação a Israel.” (Lucas, I, 80.)
“No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Ituréia e da Província de Traconites e Lisânias tetrarca de Abilínia. Sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a Palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a vizinhança do Jordão, pregando o batismo do arrependimento para remissão de pecados, como está escrito no livro das palavras do Profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: preparai o Caminho do Senhor, endireitai as suas veredas; todo o vale será aterrado e todo o monte e outeiro será arrasado, os caminhos tortos far-se-ão direitos, e os escabrosos, planos; e todo o homem verá a salvação de Deus.

“Dizia, então, às multidões que saíam a ser batizadas por ele: Raça de víboras, quem vos recomendou que fugísseis da ira vindoura? Dai, pois, frutos dignos do vosso arrependimento, e não comeceis a dizer dentro de vós: Temos como pai Abraão; porque vos declaro que dessas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não dá bom fruto, é cortada e lançada ao fogo. Perguntava-lhe o povo: que havemos então de fazer? Respondeu-lhes: Aquele que tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e aquele que tem comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu ele: Não cobreis mais que aquilo que vos está prescrito. Perguntaram-lhe também uns soldados: e nós que havemos de fazer? Respondeu-lhes: a ninguém façais violência, nem deis denúncia falsa: contentai-vos com o vosso soldo.” (Lucas, III, 1-14.)


“Assim, pois, com muitas exortações, anunciava o Evangelho ao povo; mas o Tetrarca Herodes, sendo repreendido por ele por causa de Herodias, mulher do seu irmão, e por todas as maldades que Herodes havia feito, acrescentou ainda sobre todos, a de fazer encerrar a João no cárcere.” (Lucas, III, 18-20.)
“O rei, embora entristecido, contudo por causa dos seus juramentos e também dos convivas, mandou dar-lhe, e ordenou que degolassem a João no cárcere. E foi traz ida a sua cabeça num prato, e dada à moça; e ela a levou à sua mãe.” (Mateus, XIV, 9-11.)
“Enquanto desciam o monte, ordenou-lhes Jesus: a ninguém conteis esta visão, até que o Filho do Homem ressuscitados mortos. Perguntaram-lhe os discípulos: por que dizem então os escribas que Elias deve vir primeiro? Respondeu ele: Na verdade Elias há de vir e restaurará todas as coisas; declaravas, porém, que Elias já veio, e não o conheceram, antes fizeram-lhe tudo quanto quiseram: assim também o Filho do Homem há de padecer em suas mãos. Então os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista.” (Mateus, XVII, 9-13.)
Era chegado o tempo de o mundo receber o complemento da Revelação do Sinai e o Cristo de Deus se aprestava para descer das Regiões Luminosas aos antros do mundo físico.

Uma falange inumerável de Espíritos preparou-se para auxiliar o Mestre na sua tarefa missionária. Uns teriam de preceder à sua vinda; outros, acompanhá-lo na sua missão; outros, afinal, viriam secundar-lhe os esforços, em Espírito, na nossa atmosfera terrestre, auxiliando da melhor maneira que por Deus lhes fosse permitido.

As Escrituras dizem que, pela boca do Profeta Malaquias, havia sido dado o anúncio da nova encarnação de Elias, que fora, de fato, também o maior dos profetas da antiga dispensação.

Vinha ele, como o Anjo Mensageiro, diante da Face do Senhor, para anunciá-lo aos povos, pois tão ilustre pessoa necessitava, à sua chegada, que algumas luzes estivessem acesas, para iluminarem a incomparável figura que vinha representar, no mundo, o Verbo Divino.

Chegado o tempo da recepção do Espírito que fora Elias, e que deveria ser João Batista, um Espírito mensageiro do Alto, e conhecido na Terra pelo nome de Gabriel, dirige-se a uma família da Judéia, cujos chefes idosos e sem filhos, tinham por nome Zacarias e Isabel, e lhes anuncia a encarnação desse filho, que era o Profeta Elias, fiquem dariam todos os cuidados paternais.

A mensagem do Espírito não foi aceita por Zacarias, necessitando o Espírito revelador tornar, ao que deveria ser o pai da criança, mudo durante todo o tempo da gravidez de sua esposa, como prova do aviso que lhe fora dado.

E assim aconteceu, tendo sido dado pelo Espírito até o próprio nome do infante, que deveria chamar-se João, que quer dizer o Enviado.

Como se nota nos Evangelhos, o nascimento de João Batista veio precedido de augúrios e de promessas espirituais para aqueles que buscavam o Reino de Deus.

Durante o tempo de gravidez da esposa de Zacarias, colóquios espirituais, arroubos dai ma, êxtases se verificaram no lar daqueles que veriam muito breve o aparecimento do grande missionário, que seria a Voz clamando no deserto das consciências.

Por ocasião da visita de Maria, mãe de Jesus, à sua prima Isabel, o Espírito saudou Maria, como se depreende da narrativa, e esta, também envolta nos fluidos dos divinos Mensageiros, pronunciou a inspirada prece que hoje corre mundo com o título Magnificat: “A minha alma engrandece o Senhor, o meu Espírito se alegrou em Deus meu Salvador...”

Afinal, chegado o tempo determinado, Isabel teve um filho e só então soltou-se a língua de Zacarias, cujas primeiras palavras foram para lembrar o nome de João, que o Espírito havia posto naquele que seria seu filho carnal.

Estas manifestações foram divulgadas por toda a região montanhosa da Judéia, e as populações se quedavam apreensivas, porque diziam: “a mão do Senhor está com este menino”.

Zacarias tomado pelo Espírito, falou acerca do futuro de seu filho, e da missão que ele vinha desempenhar no mundo.

O escopo do Evangelho é anunciar a todos o caminho da Salvação, e indicar os meios para se encontrar o mesmo.

Esse livro não foi escrito para narrar genealogias, nem publicar biografias, que pouco aproveitariam ao progresso da Humanidade e ao realce da Religião.

É esse, sem dúvida, o motivo pelo qual o Evangelista cala sobre a vida do Batista, até o dia da sua manifestação a Israel, ou seja, o dia em que o Precursor saiu abertamente ao mundo para o exercício da sua nobre tarefa; o texto do Evangelista limita-se a estas palavras: “O menino crescia e se fortalecia em espírito e habitava nos desertos, até o dia da sua manifestação a Israel.”

Que teria feito ele no decorrer desse tempo? O Evangelista não o diz, mas é muito fácil prever-se.

Fazia provavelmente o que faz toda a gente pobre, todos os que não são acariciados pela fortuna do mundo: trabalhava, lutava, esforçava-se para a manutenção da existência material.

Passai em revista a vida de todos os grandes homens que nos legaram centelhas de verdades imperecíveis, de todos os próceres do pensamento, de todos os gênios que vieram trazer-nos o progresso material, moral e espiritual, e vereis que desde a infância até a velhice, eles se têm manifestado ao mundo como máquinas que trabalham incessantemente, vivendo mais para os outros que para si próprios.

Assim deveria acontecer a João Batista, operário do trabalho espiritual, já exercitado nas lides da vida corpórea.

Aquele que vinha anunciar a vinda do Messias e aparelhar o seu caminho, não podia deixar de cumprir os preceitos que nos mandam trabalhar para viver.

João Batista não podia ter passado uma vida de ócio, embrenhado desde a infância nos desertos, para fugir aos deveres materiais impostos a todas as criaturas.

E quando o Evangelho diz que o Batista habitava os desertos, dá a entender o menosprezo que seus contemporâneos faziam daquelas individualidades, que, por “não se trajarem de finas roupas e não habitarem palácios”, deixavam de merecer a atenção dos seus concidadãos e com especialidade a dos grandes da sua época.

É possível que, antes de iniciar a sua missão, como era costume dos antigos profetas, João se retirasse para o deserto a fim de preparar-se, pelo jejum e oração, para o desempenho dos seus deveres sagrados.

E foi esta certamente a explicação que Jesus quis dar e deu veladamente aos que procuravam a João, aos que, nas cercanias da cidade de Naim, desejavam ver a João: “O que saíste a ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Ou um homem vestido de roupas finas? Mas os que se vestem ricamente e vivem no luxo, assistem nos palácios dos reis.”

Nessa mesma ocasião o Divino Mestre, dando a conhecer a todos o grande Espírito que o precedera, como revelador da sua vinda, disse: “João é um profeta, muito mais que profeta, porque é da sua pessoa que está escrito: eis, aí envio ante a tua face o meu anjo, que há de preparar o teu caminho.”

Mas, afinal, chegamos à fase luminosa da vida do Mensageiro do Alto, em que a sua luz brilha como um relâmpago, e a sua voz ecoa como um trovão.

Foi no décimo-quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia e sumos sacerdotes, Anás e Caifás, que circulou pela Palestina o boato do aparecimento de um profeta que agitava as massas populares em torno de sua respeitável figura; e nas margens do Jordão, por onde passava, as multidões afluíam para ouvirem-no. Uns, dele se acercavam seguindo seus passos redentores; outros, ávidos de manifestações físicas e sinais exteriores, pediam-lhe, o batismo da água, julgando, sem dúvida, que a perfeição e a pureza podem viver no corpo quando o espírito está sujo!

A uns e outros João atendia dando a cada um o de que cada um precisava para expiação das faltas e redenção de Espírito.

Gênio franco, leal, sincero, intemerato, austero, o Batista, cuja missão principal era preparar almas para o Senhor, aparelhar veredas por onde Jesus pudesse passar; aterrar vales, arrasar montes e outeiros, aplainar estradas escabrosas, destruir as tortuosidades para que as estradas se tornassem direitas; trazia ele um arsenal de instrumentos para cortar árvores seculares, abater matas que ensombravam as consciências, arrancar raízes de nefastas plantas que prejudicavam a seara, para que a semente do Evangelho, que ia ser semeada, produzisse o fruto necessário!

E, assim, é que profligou o orgulho de classe e de família; combateu com grande tenacidade os vicias; atacou com admirável energia as paixões; despertou nas almas o desejo do arrependimento por meio das boas obras que deveriam praticar; profligou, enfim, a vaidade humana, fazendo ver que Deus poderia suscitar até das próprias pedras filhos a Abraão; e afirmou que a salvação para o Reino de Cristo não consistia senão no desinteresse, no desapego aos bens terrenos, na severidade de costumes, na limpidez do caráter, no cumprimento do dever!

Aos que lhe perguntavam: “o que havemos de fazer para estarmos com o Cristo”, respondia: “aquele que tem duas túnicas dê uma a quem não tem; o que tem comida, faça o mesmo”.

A uns publicanos que dele se aproximaram solicitando-lhe o batismo, respondeu: “não cobreis mais do que aquilo que está prescrito”.

A uns soldados que foram ter a ele, disse: “a ninguém façais violência, nem deis denúncia falsa; contentai-vos com o vosso soldo”.

Não pararam aí as instruções que o Mensageiro de Deus nos legou para que nos aproximemos do Cristo.

Salientando muito bem a sua tarefa, deixando bem claro o papel que ele representava em face da espiritualização das almas, nunca quis assumir a missão que só a Jesus estava afeta. É assim que dizia franca e peremptoriamente de nada valer o seu batismo de água, pois o que viria depois dele teria de batizar com o Espírito Santo e Fogo.

Só a Jesus devia ser dada a glória por todos os séculos!

Mas essas palavras não agradaram as almas afeitas às coisas materiais: os espíritos contumazes se revoltaram contra a nova doutrina; o sacerdócio tecia, em segredo, maquinações maléficas contra o Enviado; o tetrarca da Galiléia, ferido em seu amor-próprio pela revelação, por parte do profeta, de desonestidades que praticara; Herodias, sua cunhada, cercada de uma corte enorme de aduladores, deliberaram, como meio mais eficaz, prender o Profeta da Revelação Cristã, dando-lhe, por fim, a morte afrontosa da decapitação!

E assim foi: cingindo a coroa do martírio, tecida pelos grandes da sua época, desapareceu do cenário do mundo, alçando-se aos altos empíreos das glórias imortais, aquele grande Espírito, sábio, generoso e santo, que dedicou sua existência terrestre a serviço de muitos homens que, após a sua vinda, têm bebido, nos seus ensinamentos, o elixir restaurador que nos dá vida, para caminharmos em busca do Cristo Jesus.

Tal é, num ligeiro esboço biográfico, a história do grande missionário que chamamos o Precursor do Cristianismo, ou o Batista da Revelação Cristã.



MARIA DE MAGDALA

“Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. E entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora, e esta, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo-se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés e ungia-os com perfume. Ao ver isto, o fariseu que o convidara, dizia consigo: se este homem fosse profeta; saberia quem é que o toca e que sorte de mulher é, pois é uma pecadora. Então Jesus disse ao fariseu: Simão, tenho uma coisa para te dizer. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários, e o outro cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou a dívida a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Respondeu Simão: suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. E virando-se para a mulher, disse a Simão: vês esta mulher? Entrei na tua casa e não me deste água para os pés, mas estamos regou com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela porém, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não ungiste a minha cabeça com óleo, mas esta com perfume ungiu os meus pés. Por isso te digo: Perdoados lhe são os seus pecados, que são muitos, porque ela muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. E disse à mulher: perdoados são os teus pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer consigo mesmos: Quem é este que até perdoa pecados? Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.” (Lucas, VII, 36-50.)


“Ora, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, chegou-se a ele uma mulher que trazia um vaso de alabastro com precioso perfume, e lho derramou sobre a cabeça, quando ele estava à mesa. Vendo isto, os seus discípulos indignaram-se e disseram: Para que este desperdício? Pois o perfume podia ser vendido por muito dinheiro e ser este dado aos pobres. Mas Jesus percebendo isto, disse-lhes: Por que molestais esta mulher? Pois ela me fez uma boa obra. Porquanto os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes; porque derramando ela este perfume sobre o meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. Em verdade vos digo que onde quer que for pregado em todo, o mundo este Evangelho, será também contado para memória sua, o que ela fez.” (Mateus, XXVI, 6-13.)
“Quando iam de caminho, entrou ele em uma aldeia; e uma mulher chamada Marta hospedou-o. Esta tinha uma irmã chamada Maria, a qual, sentada aos pés de Jesus, ouvia o seu ensino. Marta, porém, andava preocupada com muito serviço; e chegando-se disse: Senhor, a ti não se te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Dize-lhe, pois, que me ajude. Mas respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e te ocupas com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; porque Maria escolheu a boa parte que não lhe será tirada.” (Lucas, X, 38-42.)
“Logo depois andava Jesus pelas cidades e aldeias, pregando e anunciando as boas novas do Reino de Deus, e iam com ele os doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades; Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais o serviam com os seus bens.” (Lucas, VIII, 1-3.)
“Era o dia da Parasceve(11), e ia começar o sábado. E as mulheres que tinham vindo da Galiléia com ele, seguindo a José, viram o túmulo e como o corpo de Jesus fora posto nele; voltando depois, prepararam aromas e bálsamos.” (Lucas, XXIII, 54-56.)
“Maria, porém, estava junto à entrada do túmulo, chorando. E enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos com vestes brancas, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira, outro aos pés. Eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Respondeu ela: Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, virou-se para trás e viu a Jesus em pé, mas sem saber que era ele. Perguntou-lhe Jesus: Mulher por que choras? A quem procuras? Ela supondo ser o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela virando-se disse-lhe: Mestre! Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi contar aos discípulos: Vi o Senhor, e ele disse-me estas coisas!” (João, XX, 11-18.)
Maria Madalena é a mulher de quem Jesus expeliu sete espíritos maus. Cheia de gratidão pela graça que obtivera, vai à casa de Simão, sabendo que Jesus lá estava; sem se preocupar com a dignidade do fariseu, sem temer escândalos nem preconceitos, lança-se aos pés do Divino Mestre e lhe oferece tudo o que tem: perfume, lágrimas, coração e espírito! A extraordinária mulher não abandona mais o seu Salvador: segue-o por toda parte acompanhada daquele préstito de mulheres que, como ela, haviam recebido graças e espalhavam sobre os passos do extraordinário Messias o eterno perfume das suas esperanças.

Lição profunda que precisa tornar-se conhecida para proveito de todos.

Não é só pela inteligência que o homem se eleva a Deus, mas também pelo coração, pelo sentimento.

O sentimento é a alma da virtude, é o motor das grandes ações.

É o sentimento que transforma e modela a alma; é ainda o sentimento que exprime todos os afetos puros, todas as gratidões imorredouras.

Tanto na mulher como no homem, o sentimento é a corda vibrátil das grandes emoções.

Platão, impulsionado pela palavra de Sócrates, põe de lado tudo o que é do mundo e com seu Mestre vai cultivar a Beleza e a Bondade, que sintetizam a sabedoria universal.

Madalena, arrebatada pelo amor de Jesus, renuncia aos gozos da Terra e segue os passos do Galileu Humilde, em sua alta missão de regeneração e redenção.

A palavra do Moço da Galiléia, repassada de doçura, cheia de mansidão, a arrebata, e, com ele, inicia sua tarefa de caridade e de amor!

A Doutrina Judaica, cheia de preconceito para com as mulheres, foi esmagada pelo brado do amor divino, pelo Verbo poderoso de Deus!

Libertador da mulher, o Cristo outorgou-lhe a missão de amar e profetizar; revestiu-a das faculdades preciosas do Espírito para a realização do divino desiderato de unir ambos os mundos, ambas as Humanidades: a Humanidade que se arrasta na Terra, e a Humanidade que flutua nos Céus!

A história de Maria de Magdala é a história da reabilitação da mulher; para o cumprimento de seus deveres cristãos, Jesus não faz seleção de sexo em seus trabalhos missionários. Ao contrário, acerca-se das mulheres, que, mesmo sem que Ele falasse, pressentiam, naquela eminente Figura, o Messias prometido.

A intuição lhes dizia, no fundo dai ma, que elas estavam diante do Filho de Deus.

Não era preciso que Jesus lhes demonstrasse sua Individualidade, que fizesse milagres e prodígios para que cressem: elas adivinhavam. E é sem dúvida por esse motivo que o Mestre, na folga de seus trabalhos missionários, tinha prazer em descansar ria Aldeia de Betânia, onde, com especialidade, se hospedava em casa de Marta, Maria e Lázaro. Era ali que ele se abria em suas consolações mais doces e que, em amenas palestras, falava da Vida de além-túmulo, cujos ensinos não ousava ainda confiar a seus discípulos.

Nos tempos primitivos havia um grande desprezo pela mulher.

A mulher era um ser secundário, sem primazia intelectual, entretanto, não podiam deixar de reconhecer na mulher um instrumento suscetível às manifestações psíquicas.

Quer da manifestação dos fenômenos de animismo, quer dos fenômenos propriamente espíritas, o sexo feminino sobrepuja o chamado sexo forte; é mais passível, mais dócil, mais dotado de sensibilidade, e, pois, de mediunidade.

Segundo afirmam diversos observadores, dentre estes Pitrés, um terço das mulheres é dotado de mediunidade, ao passo que no sexo masculino só um quinto de homens possui essa faculdade.(12)

Em 360 pessoas magnetizadas por Bertillon, 265 eram mulheres, 50 homens, e 45 meninos. De um estudo feito em 17.000 indivíduos, a mulher representa percentagem medi única de 12 por cento, ao passo que o homem não excede a 7 por cento, quase a metade. Que quer dizer esta estatística, se não que as mulheres são mais suscetíveis às coisas divinas que os homens? Os sacerdotes das antigas religiões, que eram profundos no estudo da alma, compreendiam muito bem o poder da mulher como intermediária entre o mundo visível e o invisível. E tanto isso é verdade que a mulher era escolhida para todos os fins de mediunidade.

O Oráculo de Delfos, tão famoso na História, era dirigido por sacerdotes, por homens, mas o exercício do mediunismo estava afeto às mulheres.

Entre os judeus, segundo refere o Velho Testamento, as mulheres mantinham relações com os Espíritos. Maria, irmã de Moisés, era profetisa, assim como Débora e Holda. No Endor o Espírito de Samuel é evocado por uma mulher. Vemos em o Novo Testamento que a profecia era exercida por mulheres, de preferência a homens.

O Apóstolo Paulo chega a desligar e a adormecer a medi unidade de uma moça, que disso tirava proventos para seus senhores.

Na Galiléia e na Betânia, as mulheres mereciam mais confiança para a profecia do que os homens.

Por fim, os sacerdotes deliberaram destituir a mulher, privando-a das suas funções proféticas. É possível que daí se originasse o vestuário e a raspagem do rosto dos padres.

O grande criminalista, Cesar Lombroso, dedica um capítulo do seu livro Espiritismo e Hipnotismo a este fato, em verdade digno de exame.

Por que o padre usa batina? Por que o padre não usa barba e bigode?

Mas não entremos nessas indagações; continuemos com nosso tema, que é a libertação da mulher das peias materiais.

Maria, de Betânia, é uma figura saliente no Evangelho; seu amor acendrado por Jesus faz dela a verdadeira mulher espiritual. Muitos escritores sacros exaltam o nome de Maria Madalena, e a própria Igreja chegou a santificá-la. São Modesto, grande prelado, diz que Madalena era a cabeça e diretora das pessoas de seu sexo, que iam após Jesus Cristo. No começo do século VIII, as Igrejas do Oriente e do Ocidente estabeleceram o culto a Madalena, Os religiosos gregos tributavam-lhe culto e a consideravam igual aos Apóstolos.

De fato, a simpática figura, a quem dedicamos uma página do nosso livro, é digna da mais expressiva consideração e do mais acrisolado amor.

Se estudarmos a vida de Maria Madalena, veremos a extrema dedicação que ela votava a Jesus. O amor gentílico foi substituído, naquela criatura, pelo amor divino, e, por toda parte, ela segue, com rara abnegação, o seu Salvador!

Em todos os passos dolorosos da Vida do Redentor, aparece Maria como o símbolo, a personificação da mulher espírita.

Arrastado ao Calvário, Maria acompanha a Jesus: pregado este na cruz infamante, ela não o abandona: ajoelhada; de cabelos em desalinho, participa da agonia!

Jesus expira, lançam seu corpo num sepulcro; ela afasta-se, porque, a isso é constrangida por soldados pretorianos; mas não se contém; enquanto uns fogem atemorizados e outros se escondem e temem, ela, a mulher extraordinária, não pensa em si mesma, não cogita dos males que lhe poderiam advir, mas prepara bálsamos perfumados e volta ao sepulcro para dar o seu testemunho de amor sincero àquele que lhe dera a vida da alma, deixando ver que, nem mesmo a morte tem poder para extinguir do seu espírito os sinceros afetos que devota a seu Mestre!

E foi então que, caminhando de um lado para outro, no paroxismo de sua dor, Maria é mais uma vez agraciada com a visão do seu Senhor, que, em voz maviosa chama-a pelo seu próprio nome: “Maria!”

Louca de júbilo, precipita-se aos pés de Jesus Espírito, e ele pede-lhe evitar o contato, porque não havia ainda dado conta ao Pai celestial da sua tarefa. Logo após, estando ela com outras santas mulheres, Jesus lhes aparece e dá-lhes a recomendação: “Ide e dizei a meus irmãos que partam para a Galiléia, porque será lá que eles me verão.”

E na mesma tarde a mensagem tem o seu cumprimento: “Estando os onze reunidos, com as portas fechadas, viram Jesus entrar. Ele tomou o seu lugar entre eles, falou-lhes com doçura, increpando-os pela sua incredulidade, depois lhes disse: “Ide para Jerusalém, e não vos retireis de lá até que se cumpram os dias em que haveis de receber o Espírito, para depois sairdes por toda parte a pregar o Evangelho.”

Enfim, Madalena é o espelho no qual as mulheres cristãs devem mirar-se para serem felizes não só nesta vida como também na outra.

O Espiritismo, salientando o papel que Madalena desempenhou no Cristianismo, vem concorrer para a libertação da mulher do fardo do mundo e do jugo das religiões sacerdotais. Vem garantir-lhe o direito do estudo, do livre-exame e até do apostolado.

É no trabalho espírita, porque não lhe faltam dons, que a mulher pode progredir com maior facilidade; é pelo estudo e pela instrução que ela se libertará do preconceito e das modas nefastas que a deprimem, tornando-a fator da concupiscência e da sensualidade.

O mundo se transforma; a mulher precisa renovar-se no Espírito do Cristo!

Dotada de sensibilidade e receptividade para as revelações do Além, ela deve tornar-se dócil, estudar, instruir-se, para libertar-se do jugo da Igreja, e, consciente de seus deveres e de seus dons, auxiliar a obra de espiritualização, sob o influxo do Espírito da Verdade, encarregado de realizar, na Terra, o Reino de Deus.


MONOGENIA DIABÓLICA

“Estava Jesus expelindo um demônio, e era este mudo; e tendo saído o demônio, falou o mudo, e maravilhou-se a multidão; mas alguns deles disseram: É por Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expele os demônios; outros, para o experimentarem, pediam um sinal no céu. Ele, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Todo o reino dividido contra si mesmo será desolado, e cairá uma casa sobre outra. Também se Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Pois dizeis que expulso os demônios por Belzebu. Se expulso os demônios por Belzebu, por quem os expelem os vossos filhos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se pelo dedo de Deus expulso os demônios, logo é chegado a vós o Reino de Deus. Quando o homem valente, bem armado, guardar a sua casa, os seus bens estarão seguros; mas quando sobrevier outro mais valente e o vencer, tirar-lhe-á toda a armadura em que confiava e repartirá os seus despojos, Quem não é por mim é contra mim, e quem comigo não ajunta, espalha.”

(Lucas, XI. 14-23.)
As Doutrinas Romana e Protestante, não há negar, constituem edição aumentada e ilustrada da Religião Judaica. Seus pontos de contato são tão frisantes, mormente no que se refere à Romana, seus sistemas tão salientes, que pode-se afirmar sem medo de errar, são elas um prolongamento do Judaísmo.

A construção filosófica que serve de base à Doutrina Judaica pouco difere da que orienta os asseclas do Romanismo e do Protestantismo.

O espírito de orgulho não se salienta mais naquela do que nestes; as estultas pretensões de posse da verdade absoluta, mantidas pelos sacerdotes judeus, caracteriza hoje os padres e pastores; a ambição do poder, que forçava o sacerdócio hebreu a adorar a César, verifica-se nos sacerdotes de Roma, que se aliam e dão a sua sanção moral aos governos pouco dignos, aos grandes, embora sejam estes ladravazes e corruptos.

A moeda de César, com que o fariseu tentou a Jesus, predomina no clero de Roma.

O egoísmo de seita não se traduz mais à letra do Judaísmo que à letra e ao espírito do Catolicismo.

Se o Romanismo não tivesse aperfeiçoado as exterioridades e os ritos do seu culto, sua doutrina seria o fac-símile daquela que condenou Jesus como um ser desequilibrado e demoníaco!

Outra coisa digna de nota no Romanismo, e no que sobrepuja o Judaísmo, são as pompas e o fausto de que se reveste.

Nunca se viu, em todas as épocas, sacerdócio mais amigo de grandezas, de ouro, de pedrarias, de púrpura, de brocado, de lentejoulas, de dourados, de prateados, de diamantes, de safiras, de esmeraldas, de topázios, de rubis, e coroas, de diademas, de ornatos; de palácios, de palacetes, de monumentos luxuosamente ornamentados, como aqueles em que ministram os sacerdotes da Religião de Roma! As pompas, as cerimônias, as solenidades, as festas e festanças, os festins e festividades com que o Romanismo agita povos, cidades, vilas e aldeias, ultrapassam todas as cerimônias e pompas do Judaísmo, tão condenadas pelo Cristo, ultrapassam mesmo — duro é dizê-lo, mas ninguém o pode contestar — as festas do boi Ápis dos egípcios, as bacanais gregas, as saturnais romanas, as festas de Cibele e a dos doidos da Idade Média!

Se por outro lado passarmos em revista o dogmatismo feroz com que o Judaísmo mantinha escravizado o povo inteiro, não deixaremos de verificar que, na sinagoga, ainda havia um raio de tolerância que permitia o confronto das Escrituras, ao passo que na Igreja nada mais se ouve que o duro e monótono ritual, que não afeta a inte1igência nem !oca o sentimento!

Satanás e Inferno Eterno, figuras salientes do Judaísmo, ajustaram-se perfeitamente ao Romanismo e Protestantismo, estendendo ainda mais a sua ação!

As preces pagãs, condenadas nos Evangelhos, constituem fonte de renda para a Igreja, e os sacramentos, habilmente revistos, foram revestidos de pompas que proporcionaram propinas vantajosas às finanças religiosas de Roma. O Hades dos gregos e a Geena dos Judeus foram 1ransformados em Inferno, Purgatório, Limbo, e o “Reino dos Céus, que o Mestre disse achar-se em nós, foi deslocado para além do firmamento, e só têm direito à entrada aqueles que levarem ingresso do representante de S. Pedro!

O Código Penal e o Código Civil do Judaísmo também passaram por uma inteligente revisão, sendo-lhes acrescentados direitos e ordenações atenuantes e parágrafos agravantes. As indulgências, as promessas, os óbolos não foram esquecidos para consubstanciar a vida do Romanismo e fortificar o seu poder.

É quase que absoluta a paridade existente entre o Romanismo e o Judaísmo. O Catolicismo é, pois, uma ramificação, ou seja, um complemento ilustrado do farisaísmo, e por constituição manogênica, após sucessivos crescimentos, se apresenta tal como o ser que lhe deu origem, com a simples diferença do progresso realizado devido às influências do meio e do tempo.

Seus pontos de contato são tão frisantes, seus sistemas tão salientes, suas práticas tão semelhantes, que não é para admirar tenha o Catolicismo repelido o Espiritismo, pelo mesmo motivo pelo qual o Judaísmo repeliu o Cristianismo, e, usando até, na impugnação, a mesma proposição atirada à face do Cristo Jesus: “É por Belzebu que ele expele os demônios.”

Mas é chegado o tempo de brilhar a Luz: e assim como desapareceram da Terra o iguanodonte, e o megalossáurio, o Catolicismo, como o Judaísmo, semelhante a múmias que relembram um passado de ignorância e de atraso, servirão como padrões a lembrar essas gerações incultas, amortalhadas na noite dos tempos.

Quanto a Satanás e Belzebu, pedimos ao leitor consulte nosso livro O Diabo e a Igreja em Face do Cristianismo.



EXPLOSÃO DE MEDIUNIDADE

“Quando o homem valente, bem armado, guardar a sua casa, os seus bens estarão seguros; mas quando sobrevier outro mais valente do que ele e o vencer, tirar-lhe-á toda a armadura em que confiava e repartirá os seus despojos.

(Lucas, XI, 22.)
Parece-nos chegado o tempo de o Espiritismo reivindicar os seus direitos, alienados pelas seitas parasitárias, que têm mantido a ignorância das massas e entravado o progresso da Humanidade.

Cremos que essa manifestação, mesmo em seus primórdios, será o grande acontecimento do século, assinalando uma nova etapa de progresso espiritual para os povos e as nações.

A explosão da medi unidade assinalada nas Escrituras, como grande fator das manifestações espíritas não só entre crentes mas entre descrentes, não deixará de realizar-se, e o tempo vem próximo em que os religiosos de todas as religiões, católicos, protestantes, muçulmanos, budistas, ocultistas ou teosofistas, até mesmo judeus intransigentes, ver-se-ão forçados a procurar a Verdade, que se lhes descortinará inteira.

“Enquanto o homem valente, bem armado, guarda a sua casa, seus bens estão seguros: mas quando sobrevém outro mais valente do que ele e o vence, tira-lhe toda a armadura em que confiava e reparte os seus despojos”.

Esta doutrina, em seu cumprimento, realizará, sem dúvida, o mais alto desiderato espírita, solucionando a questão religiosa obscurecida pelos mercadores da fé e pelo menosprezo das gentes para com as coisas espirituais.

A mediunidade, que existe em estado latente em quase todas as criaturas humanas, terá a sua manifestação espontânea, e então, sobrevindo uma nova luz, luz que tem sido vedada pela classe sacerdotal, a sociedade desenvolver-se-á pelos sentimentos afetivos e fraternais de auxílio recíproco, que a comunicação do Espírito lhe facultará.

O momento atual denuncia uma ação decisiva do Alto para resolver o problema, não dizemos da unificação das crenças, mas da unificação dos crentes sob as sólidas bases da verdadeira fraternidade. (13)

Falamos desiludidos da unificação das crenças, pois é impossível que os guardas fiéis da fé avoenga, presos como estão aos interesses do mundo, possam render-se mesmo à evidência da Palavra Viva.

A resolução desse problema vital não está afeta ao homem; é obra do Céu e o Céu em todos os momentos difíceis da Humanidade tem feito sentir a sua ação, por vezes de modo violento, o que não é dado ao homem prever.

Não há dúvida de que atravessamos um momento crítico. Em seu Sermão Profético, Jesus, após ter assinalado os pródromos da “grande tribulação” que precederia a sua vinda, lembra, com a parábola da figueira, o advento do Reinado de Deus, que virá substituir o Reinado Sacerdotal, transformando por completo a face moral e espiritual do planeta.

A explosão da mediunidade, cujos elementos já se fazem notar em todos os lares, e ainda mais dentro das igrejas, repetimos, vai ser o acontecimento sensacional do século; a profecia de Joel, repetida por Pedro no Cenáculo de Jerusalém, verá a sua ampla realização, pois, diz o Senhor:

“Nos últimos dias derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos mancebos terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos.”




SALVAÇÃO PELA FÉ

“E disseram os Apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. O Senhor respondeu: se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este sicômoro: arranca-te e transplanta-te ao mar; e ele vos obedeceria. Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou guardando gado, quando ele voltar do campo lhe dirá: Vem já sentar-te à mesa; e que antes não lhe dirá: Prepara-me a ceia e cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo; e depois comerás tu e beberás. Porventura, agradecerá ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado?”

(Lucas, XVII, 5-9.)
A Fé é O maior tesouro da alma.

A Fé é o grande ascensor, é a luz que ilumina os nossos destinos, enriquece a nossa inteligência e exalta o nosso coração. A Fé é o emblema da perfeição, é a insígnia do Poder.

Por isso disse Jesus a seus discípulos: “Se tivésseis Fé do tamanho de uma semente de mostarda, diríeis a este sícômoro: transplanta-te no mar, e ele vos obedeceria.”

A Fé transplanta sicômoros e transporta montanhas.

A Fé é um cabedal que valoriza a alma, como o ouro segundo o mundo, valoriza o homem.

Na esfera material o homem vale pelo que tem. Na esfera espiritual cada um vale pela Fé que possui.

Assim como acontece no mundo material, acontece no mundo moral e psíquico.

No mundo terreno aparecem os haveres terrenos; no Mundo dos Espíritos, os haveres intelectuais e espirituais.

Para se possuir legalmente haveres da Terra, é indispensável o trabalho, o raciocínio, o esforço.

Para se adquirir a verdadeira Fé, haver maior que todos os haveres da Terra, também é indispensável o trabalho, o raciocínio, o estudo o esforço.

A prosperidade, quando não vem do latrocínio, do dolo, é produto do esforço do trabalho. A prosperidade espiritual é uma conquista do Espírito humano.

Os haveres materiais se resumem no dinheiro; os haveres espirituais se caracterizam pela firmeza da Fé, que motiva e sustenta a crença.

A Fé, por isso mesmo, é o tesouro que sustenta as finanças da Esperança e da Caridade.

O dinheiro facilita o bem estar físico. A Fé felicita o homem, não só espiritualmente, como também fisicamente.

Mas, assim como o dinheiro não se ganha sem o trabalho honesto, para que ele seja bem ganho, a Fé não se adquire sem grande esforço.

Que disse o Mestre, quando os discípulos lhe pediam lhes aumentasse a Fé?

“Eu não posso dizer que vos senteis já à mesa e que comais. Trabalhai primeiramente: preparai a ceia, isto é, trabalhai; cingi-vos, ou seja, ilustrai-vos; servi-me para aprenderdes a fazer o que eu desejo.”

A Fé não se compra nos templos de mercadores, nem nas feiras; não se dá por esmola, nem se adquire por herança.

As Graças caem dos Céus, como as chuvas; a Esperança brilha longínqua como um astro perdido no espaço infinito; a Caridade aquece, vivifica, ilumina e ampara como o Sol, mas a Fé só se obtém pelo cumprimento dos mais sagrados deveres, e, especialmente, pela aquisição de conhecimentos, pois, di-lo Allan Kardec: “Fé verdadeira é a que pode encarar a razão face a face, em qualquer época da Humanidade”. É a “Fé racionar que o Espiritismo proporciona.

A Fé é substância, como substância é a semente de mostarda.

Todas as graças tem Deus concedido aos homens menos a Fé! Por isso se vê todas as religiões e todos os religiosos dessas religiões dotados de dons, a nos cativarem pela bondade, nos maravilharem por sua paciência, nos atraírem por sua caridade. Entretanto, em todas as religiões e entre todos os religiosos dessas religiões, notamos logo a ausência de Fé.

E por que assim acontece?

Porque a Fé não se adquire sem estudo, sem trabalho, sem o exame-livre, sem o exercício do livre-arbítrio. E as religiões e os religiosos, em matéria de livre-exame, de livre-arbítrio para o estudo, são como os cegos em face da luz, são como os surdos em relação aos sons: por isso não têm Fé.

Quem lhes cega o entendimento?

O dogma, o orgulho de saber, o espírito preconcebido.

Quem lhes aferroa os ouvidos?

Onde há presunção de sabedoria, dogma, não há Fé, porque o dogma se mascara com a túnica da Fé e toma, usurpa o lugar da Fé.

Poderosa é a Fé para combater o dogma, assim como transporta montanhas e transplanta sicômoros; mas a Fé não se impõe pela força, a cada um foi dada a liberdade de abater o dogma, remover essa pedra que sepulta a alma humana.

Quando o Senhor proporcionou a recuperação de Lázaro, fê-lo com “a condição de os homens removerem a pedra do sepulcro.

A Fé não cabe num sepulcro com lápide.

Pediram os Apóstolos ao Senhor: “Aumentar-lhes a Fé “

Que fez o Senhor?

Propôs-lhe a parábola:

“Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura, ou guardando gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já sentar-te à minha mesa; e que antes não lhe dirá: prepara-me a ceia, cinge-te, serve-me enquanto eu como e bebo; e depois comerás tu e beberás?”

A Fé é comida. A Fé é bebida. E assim como o comer e o beber não se obtêm sem o adquirir e o fazer, também a Fé não se conquista sem a aplicação de meios adequados à sua obtenção.

A Fé é a sabedoria consubstanciada no amor que nos conduz a Deus. Esta é a Fé que salva!




PROVAS DA IMORTALIDADE, QUE JESUS DEU A SEUS DISCÍPULOS

“Nesse mesmo dia, dois dentre eles caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios, conversando ambos de tudo quanto se tinha passado. E aconteceu que quando eles falavam e conferenciavam a seu respeito, Jesus veio unir-se a eles e caminhava ao lado deles, mas seus olhos estavam como que fechados, a fim de que eles não pudessem reconhecê-lo, Ele lhes disse: Sobre o que conversais e por que estais tristes?

“Um deles, chamado Cleofas, tomando a palavra lhe disse: Sois tão estrangeiro em Jerusalém que não sabeis o que se tem passado ali naqueles dias? O quê? lhes disse ele. Eles responderam: Sobre Jesus Nazareno, que foi profeta poderoso diante de Deus e de todo o povo, e de que modo os principais dos sacerdotes e os nossos senadores o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, esperávamos que fosse ele quem resgatasse Israel, e, entretanto, depois de tudo isto, eis já o terceiro dia que estas coisas sucederam. Por outro lado certas mulheres, das que conosco estavam, nos encheram de pasmo, tendo ido de madrugada ao túmulo; e não havendo achado o seu corpo, voltaram, declarando que tinham visto anjos, os quais diziam estar ele vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo, e acharam que era assim como as mulheres haviam dito, mas não o viram. Então ele lhes disse: ó insensatos e tardios de coração, para crer em tudo quanto os profetas disseram! Não era preciso que o Cristo sofresse todas as coisas e que entrasse assim na sua glória? E começando por Moisés e depois por todos os profetas, ele lhes explicava o que tinham dele dito as Escrituras. E quando estavam perto da aldeia para onde iam, ele deu mostras de que ia mais longe — mas eles o forçaram a parar, dizendo: ficai conosco, porque é tarde e o dia está na sua declinação; e entrou para ficar com eles.

“Estando com eles à mesa, tomou o pão, abençoou e, tendo partido, lhes deu.

Ao mesmo tempo se lhes abriram os olhos e eles o reconheceram; mas ele desapareceu diante deles. Então disseram um ao outro: Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

“Levantando-se no mesmo instante, voltaram para Jerusalém, e acharam juntos os onze apóstolos e os que com eles estavam reunidos, os quais diziam: É verdade que o senhor ressuscitou e apareceu a Simão? “E os dois contaram também o que lhes havia acontecido em caminho e como reconheceram Jesus no partir do pão.

“Enquanto assim conversavam, Jesus apresentou-se no meio deles e lhes disse: A paz esteja convosco; sou eu, não temais. Mas na perturbação e espanto de que se achavam possuídos, eles julgavam ver um Espírito.

“E Jesus lhes disse: Por que vos perturbais? E por que se sugerem tantos pensamentos em vossos corações? Olhai para as minhas mãos e para os meus pés e reconhecei que sou eu mesmo; tocai-me, e considerai que um Espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho.

“Depois de ter dito isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas como não acreditavam ainda tão cheios estavam de alegria e admiração, ele lhes perguntou:

“Tendes aqui alguma coisa que se coma? Eles lhe apresentaram uma posta de peixe e um favo de mel. Comendo Jesus diante deles tomou o resto, lhes deu e disse-lhes: Eis o que eu vos dizia quando ainda estava convosco; que era necessário que tudo quanto estivesse na Lei de Moisés, nos Profetas, nos Salmos, se realizasse. Ao mesmo tempo lhes abriu o espírito a fim de que entendessem as Escrituras e disse: é assim que está escrito e é assim que era preciso que o Cristo sofresse, e que ressuscitasse dentre os mortos, no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados em todas as nações, principiando de Jerusalém. Ora vós sois testemunhas destas coisas. E eu vou enviar-vos o dom de meu Pai que vos tem sido prometido; entretanto, demorai na cidade até que sejais revestidos da força lá do Alto.”

(Lucas, XXIV, 13-49.)
Magnifica narrativa! Quem poderá negar-lhe a veracidade e o sucesso que causou aos povos daquele tempo tão estupenda manifestação?

Era passado o sábado gordo, o Sol brilhava no firmamento em caminho do poente; caminhavam dois homens em busca de Emaús, e no caminhariam relembrando as cenas sanguinolentas verificadas no Gólgota; a morte do inocente, a tirania de Herodes, o servilismo de Pilatos, Anás e Caifás, os sumos sacerdotes; a degradação e a indiferença de uns e a malevolência de outros; a perversão da opinião pública que preferiu Barrabás a Cristo! Caminhavam sob a impressão pungente da morte dolorosa que se dera àquele em que eles viam a redenção de Israel, quando Jesus redivivo lhes aparece, com eles conversa e, censurando a insensatez com que interpretavam as Escrituras, acompanha-os e se lhes mostra, no partir do pão, quando se achavam prontos para a ceia!

“Insensatos e tardos de coração” — embora discípulos do Nazareno — não podiam, sem que se lhes abrisse o entendimento, compreender as verdades reveladas pelos profetas ou médiuns, precursores da Boa Nova Cristã.

Mas a crença na Verdade não os havia ainda libertado do erro; voltaram os dois para Jerusalém, onde se uniram aos onze apóstolos e ao narrarem a aparição do Senhor a Simão, e como o reconheceram ao partir do pão, eis que Jesus no meio deles se apresenta, envolvendo-os nos eflúvios de sua Paz: Pax vobis; ego sum, nolite timere. Paz seja convosco: sou eu, não temais.

Julgando ver um ser impalpável, idêntico aos Espíritos de diversas categorias que, é certo, tinham visto muitas vezes, assustaram-se, mas Jesus, que já tinha subido ao Pai e do Supremo Criador recebera a Palavra, segundo a qual deveria tornar-se não somente visível, mas ainda tangível àqueles que deviam secundar os seus pés, ordena-lhes que o toquem e considerem que “os Espíritos que lhes têm aparecido não são de carne e osso”.

Era mesmo difícil aos futuros Apóstolos do Cristianismo acreditarem na materialização de Espíritos, fato que, provavelmente, até aquele momento somente três entre eles haviam observado.

O Amado Filho de Deus não se agasta com a falta de compreensão dos doze e prefere dar-lhes provas convincentes da Verdade anunciada: Tendes aqui alguma coisa que se coma? Eles apresentaram-lhe uma posta de peixe e um favo de mel, e Jesus comeu diante deles.

Destarte ficaram preparados para receber o DOM que lhes fora prometido, ordenando-lhes o Mestre que demorassem na cidade até que fossem revestidos da Força do Alto.

O fogo de Pentecostes ainda não tinha baixado do Céu, mas o cumprimento da profecia de Joel ia ter o seu início.

Os Apóstolos precisavam receber o batismo de fogo do Amor de Deus; no Cenáculo ia ter lugar a mais importante sessão espírita que a História relembra. Os médiuns de variedades de línguas, de prodígios, de maravilhas iam ser desenvolvidos e os DONS de Curar, da Fé, da Palavra, da Escrita, da Ciência, de Discernir os Espíritos iam ser concedidos aos Discípulos para o exercício de sua elevada missão.




A EXPLOSÃO DE PENTECOSTES

“Então os levou até Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. E enquanto os abençoava, apartou-se deles e foi elevado ao Céu. Eles, tendo-o adorado, voltaram para Jerusalém com grande gozo; estavam continuamente no templo bendizendo a Deus,”

(Lucas, XXIV, 50-53.)
“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar, e, de repente, veio do Céu um ruído como de vento impetuoso que encheu toda a casa onde estavam sentados e lhes apareceram umas como línguas de fogo, as quais se distribuíram, para repousar sobre cada um deles, e todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.”

(Queira o leitor ter a bondade de consultar o Novo Testamento e ler todo o capítulo, que deixamos de transcrever devido à sua extensão.)

(Atos dos Apóstolos, II.)
Tendo Jesus conduzido seus discípulos para Betânia, abençoou-os e deles se separou.

Narra o Evangelista Lucas que, depois de terem os Apóstolos prestado ao Divino Nazareno o culto de gratidão pelo muito amor que o Mestre lhes votara, voltaram para Jerusalém, cheios de alegria e constantemente se achavam no templo louvando e bendizendo a Deus.

Preparavam-se certamente os discípulos do Redivivo para receberem o Poder do Alto, Poder que lhes havia sido prometido, para o desempenho de sua missão.

De modo que, concentrados pelo espírito de oração e meditação nas coisas divinas, tornaram-se aptos para assimilarem o Espírito em suas mais portentosas manifestações.

Cumpriu-se o dia de Pentecostes — todos estavam concordemente reunidos, quando, de repente, veio do Céu um som, como de um vento veemente e impetuoso e encheu toda a casa em que se achavam. E por eles foram vistas como que línguas de fogo, que pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.

Em Jerusalém habitavam judeus e varões religiosos de todas as nações.

Correndo aquela voz, ajuntou-se a multidão e estava confusa porque cada um os ouvia falar em sua própria língua. E todos pasmaram e se maravilharam, dizendo uns aos outros: “Não são galileus todos estes homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um na nossa própria língua?”

O dom das línguas, o dom de curar, o dom das maravilhas, o dom da ciência, todas as graças tinham sido dispensadas aos continuadores da Missão de Jesus; eram eles os intermediários (médiuns) dos Espíritos santificados, para que a Doutrina fosse a todos transmitida!

A sessão realizada no Cenáculo foi assistida por partos, medos, elamitas e os que habitavam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frigia, a Panfília, o Egito, e partes da Líbia junto de Cirene e forasteiros romanos, tanto judeus como cretenses, árabes; todos ouviram e observaram as maravilhas do Invisível!

Mas, uma assembléia pública composta de homens de diferentes condições e moral idade, não pode ter opinião uníssona. Daí o fato de uns atribuírem os fenômenos à embriaguez dos apóstolos; outros não tomavam a sério os fatos e blasonavam.

Foi nessa ocasião que o Apóstolo Pedro levantou-se e esclareceu:

“Estes homens não estão embriagados, mas é o que foi dito por Joel: Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei do meu Espírito sobre toda a carne, os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões, os vossos velhos terão sonhos.”

“Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado (com o batismo do Espírito) e recebereis o dom do Espírito Santo, porque a promessa vos pertence, aos vossos filhos e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar.”

E assim realizou-se, sob a direção suprema de Jesus, a sessão para o desenvolvimento dos médiuns, que deveriam transmitir a seus irmãos da Terra, a Palavra do Céu.



Pentecostes foi a palavra que escolheram para exprimir tão notável acontecimento. Deriva do grego Pentekosté e significa “qüinquagésimo”, ou seja, 50 dias.

De dois Pentecostes nos fala a História: Pentecostes dos judeus e Pentecostes dos cristãos: o primeiro é uma glorificação do Antigo Testamento, o segundo, do Testamento Novo.

A festa judaica de Pentecostes era celebrada para relembrar o dia em que Moisés recebera as Tábuas da Lei, os mandamentos do Sinai.

A recepção do Decálogo efetuou-se justamente cinqüenta dias depois dos israelitas comerem o Cordeiro Pascoal, já libertados da escravidão do Egito.

A festa cristã de Pentecostes é celebrada cinqüenta dias depois da Ressurreição de Jesus Cristo.

Que coincidente relação parece existir entre uma e outra festa!

Os judeus festejavam a sua libertação do jugo de Faraó e dos egípcios; os cristãos festejavam a sua libertação do jugo das trevas da morte pelas aparições de Jesus Cristo e o concurso de seus prepostos do Mundo Espiritual.

Além disso, outra coisa admirável se observa entre o Pentecostes cristão e o do Antigo Testamento; um e outro celebram a promulgação da lei Divina; cinqüenta dias depois do maravilhoso livramento do povo judeu, Deus dá a Sua lei a Moisés, no Monte Sinai; e cinqüenta dias depois da mais pujante prova de Vida Eterna, que o maior de todos os Espíritos dá à Humanidade para o seu livramento dos grilhões da morte, desce o Espírito Santo sobre os discípulos do Nazareno, e, sobre a Pedra Fundamental da Revelação, ergue a Igreja Viva que deveria “transmitir à Terra os ensinos do Céu!



O VERBO DE DEUS

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por Ele, e nada do que tem sido feito foi feito sem Ele. Nele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens. A Luz resplandece nas trevas, e contra ela as trevas não prevaleceram. Houve um homem enviado por Deus, e chamava-se João; este veio como testemunha para dar testemunho da Luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz. Havia a verdadeira Luz que, vinda ao mundo, alumia a todo homem. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam, aos que crêem em seu nome, deu Ele o direito de se tornarem filhos de Deus: os quais não nasceram do sangue nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de Verdade, e vimos a sua glória, glória como do Filho Unigênito do Pai; João deu testemunho dele e clamou dizendo:

“Este é o de quem falei: Aquele que há de vir depois de mim, tem passado adiante de mim, porque existia antes de mim. Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça: porque a Lei foi dada por intermédio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o Filho Unigênito que está no seio do Pai, esse o revelou.”

(João, I, 1-18.)


O Verbo de Deus é a causa eficiente de todas as coisas.

“Tudo foi feito por Ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem Ele.”

Ele estava no Espírito de Jesus, a Vida que era a Luz dos homens. A Luz resplandeceu nas trevas, e contra ela as trevas não prevaleceram, porque a Luz rebrilhou além do túmulo quando os homens a julgaram extinta.

Houve um homem, João Batista, que, sendo o maior dos profetas, teve a missão de dar testemunho da Luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio.

João não era a Luz, porque a Luz só estava na Vida; o Espírito de Jesus era a Vida; João só veio para testificá-lo: havia a verdadeira Luz, que, vinda ao mundo, alumia a todo homem.

O Cristo estava no mundo, o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos os que o receberam, deu Ele o direito de se tornarem filhos de Deus: os quais não nasceram do sangue, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

O Verbo se fez carne, viveu com um corpo humano, habitou entre nós, cheio de graça, de poder, de verdade; o Verbo com a Luz afugentou as trevas; com a Vida aniquilou e venceu a Morte, fazendo-se o Caminho sem Trevas e sem Morte para subir ao Pai; vimos a sua glória, glória como a do Unigênito de Deus, porque nenhum outro, senão Jesus, Sacrário do Verbo de Deus, desempenhou missão igual.

João Batista deu testemunho de Jesus Cristo, dizendo: “Este é o de quem falei: Aquele que há de vir depois de mim, tem passado adiante de mim, é mais adiantado do que eu, porque já existia antes de mim; o seu Espírito é Primogênito do Pai, com relação a este mundo, que já é uma construção sua. Pois todos nós recebemos da sua graça porque somos seus súditos. Ele é o Governador da Terra.”

A lei foi dada por intermédio de Moisés, que foi o médium encarregado de receber a Lei, para reger o povo hebreu, que se achava sob a sua direção; mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo, porque só Ele foi Portador do Verbo de Deus, que é a Graça e ao mesmo tempo, a Verdade; por isso Jesus é a Verdade. Ninguém jamais viu a Deus, porque Deus não se revelou pessoalmente ao mundo, mas unicamente pelo seu Verbo; esse o revelou; por isso o Verbo “era Deus”.

Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida; o Sal da Terra, a Luz dos Homens; só por Ele subiremos ao Pai; tudo isso o Verbo de Deus disse e João Batista o testificou.




O BATISMO DE JESUS E O BATISMO DAS IGREJAS

“E disse-lhes Jesus: Ide; por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo; mas o que não crer será condenado.”

(Marcos, XVI, 15-16.)
Naqueles dias Jesus veio de Nazaré da Galiléia, e por João foi batizado no Jordão. Logo ao sair da água, viu os Céus abrirem-se e o Espírito Santo, como pomba, descer sobre ele; e ouviu-se uma voz dos Céus: Tu és o meu filho dileto, em ti me agrado.”

(Marcos, I, 9-11.)


“Depois veio Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João para ser batizado por ele. Mas João objetava-lhe: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Respondeu-lhe Jesus: Deixa por agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele anuiu. E batizado que foi Jesus, saiu logo da água; e eis que se abriram os Céus e viu o Espírito de Deus descer como pomba e vir sobre ele; e uma voz dos Céus disse: Este é o meu filho dileto, em quem me agrado.”

(Mateus, III, 13-17.)


“Quando todo o povo havia recebido o batismo, tendo sido Jesus também batizado e estando a orar, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu como pomba sobre ele em forma corpórea, e veio uma voz do Céu: Tu és o meu filho dileto e em ti me agrado.”

(Lucas, III, 21-22.)


“No dia seguinte viu João a Jesus que vinha para ele, e disse: Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Este é o mesmo de quem eu disse: Depois de mim há de vir um homem que tem passado adiante de mim porque existia antes de mim Eu não o conhecia, mas para que ele fosse manifestado a Israel, é que eu vim batizar com água. E João deu testemunho dizendo: Vi o Espírito descer do Céu como pomba, e permaneceu sobre ele. Eu não o conhecia, mas o que me enviou a batizar com água disse-me: Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele; esse é o que batiza com o Espírito Santo. E eu tenho visto e testificado que ele é o Filho de Deus.”

(João. I. 29-34.)


Não basta ler os Evangelhos; é preciso estudá-los. Os que se limitam a uma simples leitura dos Evangelhos não têm o direito de citá-los para fazerem prevalecer suas idéias preconcebidas.

Quantos Evangelhos foram escritos para fazer um Evangelho?

Quatro: Evangelho segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João, sem enumerar as cartas apostólicas dirigidas às diversas Igrejas existentes naquele tempo.

Não se pode, portanto, limitar a interpretação da Palavra a um Evangelho; é preciso pôr todos eles em confronto, e, além de tudo, é indispensável buscar na letra dos Evangelhos o espírito que vivifica.

Pelo que se depreende da leitura dos quatro Evangelhos, com referência ao batismo, ficamos compreendendo que esta expressão — batismo — tem uma significação muito diferente daquela que as Igrejas lhe deram.

Examinemos detidamente os quatro Evangelistas. Marcos limita-se a dizer que Jesus foi batizado por João no Rio Jordão e que dissera a seus discípulos que fossem por todo o mundo, pregassem o Evangelho a toda criatura; o que cresse e fosse batizado seria salvo, mas o que não cresse seria condenado.

Mateus diz que Jesus fez questão de receber o batismo de João, e acrescenta que, ao sair Jesus da água, o povo que estava presente ouviu uma voz que disse: “Este é o meu Filho dileto”; e que essa voz vinha dos Céus. Diz mais o trecho que “Viu os Céus abrirem-se e o Espírito, como pomba, descer sobre ele.”

Aquele ouviu-se, do texto, comparado como o viu, indica bem claramente que foram muitos os que ouviram, mas um só viu. O leitor verá mais adiante que a manifestação visual atingiu unicamente a João Batista, ao passo que a auditiva, atingiu a todos que estavam por essa ocasião no Jordão.

Este ponto é importante para a boa interpretação.

Lucas diz somente que: tendo o povo recebido o batismo de João, Jesus também o recebeu.

João não diz que Jesus houvesse recebido o batismo de João, mas parece esclarecer bem o fim do encontro que o Mestre teve com o Batista:

Eu não o conhecia, mas para que ele fosse manifestado a Israel, é que eu vim batizar com água. Eu não o conhecia, mas o que me enviou a batizar com água, disse-me: Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, esse é o que batiza com o Espírito Santo. Eu tenho visto e testificado que esse é o Filho de Deus.

O texto, por si só, é tão claro que dispensa qualquer interpretação. Até justificar plenamente o motivo por que João fora batizar.

O Evangelista nada diz sobre a recepção do batismo por Jesus, ou de Jesus ter sido batizado por João. Será possível que este Evangelista, que acompanhava todos os passos de seu Mestre Amado, silenciasse sobre o batismo, ponto que, ao ver das Igrejas, é o mais importante, se de tato Jesus tivesse sido batizado por João?

Em face dos Evangelhos, pode-se afirmar peremptoriamente que o Batista batizou a Jesus?

Mas nós sabemos que esse ato se realizou, visto Mateus tê-lo afirmado; o motivo principal, entretanto, não se prende ao batismo-sacramento, mas sim à pregação do Cristo, à manifestação de Jesus, como veremos.

Jesus, diz Mateus, apresentou-se a João para receber o seu batismo.

Mas com que fim? Será que o Espírito mais puro que veio à Terra ter-se-ia maculado, de modo a necessitar lavar-se dessas manchas? E julgava João ter o seu batismo virtude superior a do Cordeiro de Deus, como ele o chamou?

Está claro que, sendo Jesus limpo e puro, não poderia: pedir asseio nem pureza a uma água como a do Jordão.

Os padres e ministros, afeitos ao batismo, dizem que Jesus assim procedeu para dar exemplo. Mas exemplo de que? No Evangelho nada consta dessa lição de exemplo. Exemplo de submissão? Mas João Batista era o primeiro a dizer que o seu batismo nenhum valor tinha, e que o fim a que foi destinada essa “prática” não foi outro que o de ficar conhecendo a Jesus e manifestá-lo, apresentá-lo às multidões.

Jesus não quis dar exemplo de espécie alguma, mas o seu fito foi dar-se a conhecer a João, o seu Precursor, para que ele se desempenhasse da missão de apresentá-lo como o Messias que devia vir. E o espírito testificou quando disse ao Batista: “Este é o meu filho dileto em quem me comprazo.”

No versículo 31 do capítulo I do Evangelista João lê-se que “João Batista não conhecia a Jesus mas tinha ciência da sua vinda”, e, mais ainda, que o fim de João batizando o povo era atrair grande multidão a ver se no meio desse povo poderia encontrar o Messias e reconhecê-lo como o Espírito o havia anunciado.

No versículo 33, João repete novamente não conhecer a Jesus, mas o que o enviou a batizar com água, disse-lhe: “Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, esse é o que batiza com o Espírito Santo; eu tenho visto e testificado que ele é o Filho de Deus.”

Jesus não podia dizer a João: “Eu sou o Messias” porque mesmo naquele tempo muitos tratantes se diziam “messias” representantes de Deus.

Ele tinha de revelar-se como Messias e não se dizer Messias, e o Espírito precisava testificar, como aconteceu.

Acresce ainda outra circunstância: João não exaltava o seu batismo. E tanto é assim que aos que vinham a ele pedindo o batismo, o Profeta do Deserto dizia: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Dai, pois, frutos dignos de arrependimento e não digais dentro de vós: temos Abraão por pai. . .” (Mateus, III, 7-9.)

O batismo de João, desvirtuado pelas seitas que dividiram o Cristianismo, não é mais que o arrependimento, a mudança de vida, para a recepção da Doutrina de Jesus e o conseqüente batismo do Espírito. E foi assim que Pedro e André, que eram discípulos de João Batista, se fizeram discípulos de Jesus.

Mas, digamos mais alguma coisa sobre, o batismo, já que a isso nos propusemos.

Todos sabem que as Igrejas Romana e Protestante como também a Ortodoxa, tem cada qual a sua espécie de batismo. Dentre todas, porém, a que mais se salienta pelos seus aparatos é a Romana.

Falemos, de preferência sobre esta, porque é, para nós, a religião tradicional, a que se constitui obrigatória no nosso país, a que obrigava todos a se submeterem a seus sacramentos, até à proclamação da República, a qual, graças a Deus, nos livrou de tal opressão e cativeiro.

O “batismo de Roma” consiste em duas ou três palavras pronunciadas pelo padre, que aplica água, azeite e sal, ao “catecúmeno”. Diz a Igreja que, com esse sacramento, o indivíduo fica limpo do “pecado original” e, salvo de todas as penas, está apto para entrar no Céu.

Façamos uma análise profunda desse sacramento, com a seguinte comparação.

Tomemos duas crianças, ambas filhas de pais cristãos: uma morreu depois de receber o batismo, a outra também morreu, mas antes de receber tal sacramento.

Segundo a Igreja, uma foi para o Céu, outra para o Limbo.

Mas, que mérito tem a criança que se batizou para ir ao Céu, e que demérito tem a que não se batizou para ir ao Limbo, se tanto uma como a outra não Influíram para tal fim?

A que recebeu o batismo, não o recebeu pelos seus esforços, por sua vontade; a que deixou de receber tal “graça” também nada fez para que assim acontecesse; como pode o Supremo Senhor, que é todo amor e justiça, galardoar uma e condenar outra?

Outra consideração também nos ocorre:

A Igreja, para justificar o “seu batismo”, diz ser ele o antídoto do pecado original que, de Adão e Eva, se transmitiu a todo o gênero humano.

Mas, que Deus é esse em quem a Igreja crê existirem sentimentos tão revoltantes de ódio a ponto de castigar pecados antigos, de pessoas que nenhuma afinidade tinham conosco, exercendo a sua vingança em toda a Humanidade!?

“O filho, diz Ezequiel, não responde pelas faltas dos pais, nem estes pelas daqueles.”

O Evangelho diz: “Cada um é responsável por suas obras.” E isto é claro, lógico e racional. Até o “peru da fábula”, com que o sr. Jaubert ganhou o prêmio nos jogos florais de Toulose, defende-se da acusação que lhe moviam por haver o “Adão dos Perus” pecado, e dizem que, além da unânime absolvição do Tribunal, ganhou palmas do auditório.

Mas deixemos de lado a ironia inocente e argumentemos.

Vamos escolher um casal, marido e mulher, que, quando crianças, foram batizados na Igreja. Mais tarde apareceu na cidade onde residiam um bispo ou “missionário”, e o batismo foi confirmado com o “crisma”.

Está claro que o pecado que assinalava esses dois entes desapareceu, se que “o batismo apaga o pecado original”.

Logo depois eles têm um filho: essa criança não pode absolutamente ter vestígio algum de pecado, visto seus pais já se haverem libertado desse sinal ignominioso!

Ou quererão os sacerdotes dizer que o Espírito é oriundo de Adão e Eva, e não de Deus? Mas se assim é, o sacerdócio desconhece os Evangelhos e os princípios mais rudimentares da Religião!

A nosso ver, que está de pleno acordo com os textos evangélicos, o verdadeiro batismo não ultrapassa os limites do Espírito.

Nunca, de forma alguma, pode ser um ato material.

Promover a educação da criança, ensiná-la a amar a Deus e ao próximo, a ser humilde, boa, caritativa, indulgente, laboriosa e espiritual, eis o começo do preparo espírita para a conseqüente recepção do batismo do Espírito Santo, cuja tarefa está confiada exclusivamente a Jesus e àqueles designados por Ele, como se depreende da leitura dos Evangelhos.

Acresce ainda outra circunstância, que melhor elucida a questão do batismo: este vem depois de estabelecida a crença.

A crença deve, portanto, preceder sempre o batismo. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo; mas o que não crer, será condenado.” (Marcos, XVI, 15-16.)

Nesta passagem vê-se claramente que é condição imprescindível para a recepção do batismo — o crer; a crença precede sempre à “graça” do batismo. Por esse motivo Jesus mandou os seus discípulos pregarem o Evangelho a toda criatura. É de notar que Jesus não os enviou a batizar, mas sim a pregar o Evangelho, para que o “batismo” viesse depois pelo Espírito.

Assim o entendeu sabiamente Paulo, o Doutor dos Gentios, conforme se depara nos Atos dos Apóstolos, XIX, 1-7: “Enquanto Apoio estava em Corinto, Paulo, tendo atravessado as regiões mais altas, foi a Éfeso; achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes o Espírito Santo quando crestes? Responderam eles: Não, nem sequer ouvimos falar que o Espírito Santo é dado, ou que há Espírito Santo. Que batismo pois, recebestes? perguntou ele. Responderam-lhe eles: o batismo de João. Paulo, porém, disse: João batizou com o batismo do arrependimento dizendo ao povo que cresse naquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, velo sobre eles o Espírito Santo, e falavam em diversas línguas e profetizavam. Eram ao todo cerca de doze homens.”

Esta interpretação está de pleno acordo com as palavras do Batista, no capítulo III, 7-12 do Evangelho segundo Mateus.

Conclui-se, pois, que o intuito de João Batista, indo ao Jordão batizar com o batismo do arrependimento, em primeiro lugar foi atrair as multidões para recomendar aos homens: “Preparei o caminho do Senhor; endireitai as suas veredas; arrependei-vos do mal; praticai o bem; espiritualizai-vos.” Em segundo lugar foi, como disse o próprio João, “para que Jesus fosse manifestado a Israel” e ao mesmo tempo para que ele, o Batista, ficasse conhecendo a Jesus, de acordo com o sinal que lhe daria Aquele que o tinha enviado, ou seja: “Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, esse é o que batiza com o Espírito Santo.” (João, 1-33.)

A seu turno, Jesus não foi a João Batista com o fim de receber batismo de espécie alguma, mas sim para apresentar-se ao seu precursor como o Messias anunciado e fosse, por sua vez, anunciado por João como o Enviado de Deus, revestido de todos os sinais do Céu, como se verificou ao ouvir-se a voz: “Tu és o meu Filho dileto, em ti me agrado.” (Marcos, I, 11 .)

A questão do batismo tem preocupado grandes pensadores da Era Cristã.

Desde os Apóstolos, uns eram de opinião que se devia efetuar o batismo da água por imersão, ao passo que outros julgavam essa prática de nenhum valor.

No capítulo III, 22, do Evangelista João, lê-se que Jesus foi com seus discípulos, para a Judéia e “ali se demorava com eles, e batizava.” Mas no mesmo Evangelho, talvez devido à controvérsia já existente sobre o batismo, o mesmo Evangelista, no capítulo IV, 2, diz claramente que “Jesus mesmo não batizava, mas sim, seus discípulos.”

Em I Cort., I, 14-17, há um trecho em que se nota a dissensão que havia por causa do batismo, onde Paulo diz: “Dou graças que a nenhum de vós batizei, senão a Cristo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados no meu nome. E batizei também a família de Estéfanas; além destes não sei se batizei algum outro. Pois não me enviou Cristo a batizar, mas a pregar o Evangelho; não em sabedoria de palavras, para que não seja vã a cruz do Cristo.”

Pedro diz em Atos dos Apóstolos, X, 47, ter ordenado batizar com água, em nome de Jesus Cristo, uns gentios que tinham recebido o Espírito Santo, mas parece ter-se arrependido daquele ato, quando” referindo-se ao batismo, diz na sua I Epístola Capítulo III, 21: “... através das águas, a qual, figurando o batismo, agora vos salva, NÃO A PURIFICAÇÃO DA IMUNDÍCIE DA CARNE, mas a questão a respeito de uma boa consciência para com Deus.”

Pelo que se observa, apesar de ser o batismo por imersão aplicado aos que já haviam recebido a palavra e tinham crido, ainda assim era esse ato condenado por muitos seguidores de Jesus.

No tempo de Tertuliano muitos filósofos cristãos insurgiram-se contra a virtude do batismo, por entenderem que uma simples ablução com água não pode ter o condão de lavar os pecados e de abrir o caminho para o Céu.

Foi esse o modo de se expressar de ilustres homens do século II, que deu origem ao Tratado do Batismo, de Tertuliano, obra que parece também condenar o batismo das crianças, embora não participe da opinião dos seus contemporâneos, que condenavam o batismo tal como era feito.

São inúmeras as seitas que, desde o começo, dividiram o Cristianismo, e não aceitavam terminantemente o batismo, prática que serviu como pedra de escândalo na interpretação da Palavra clara, simples e humilde do Meigo Rabi da Galiléia.

Os marcosianos, os valentinianos, os quintilianos sustentavam que a graça, como dom espiritual, não podia nascer de sinais visíveis e exteriores.

Os selencianos e os hermianos rejeitaram também a água, mas, interpretando materialmente, à letra; os Evangelhos, substituíram aquela matéria pelo fogo!

Na Idade Média houve muitas agremiações religiosas oriundas do Cristianismo que combatiam “o batismo da Igreja”, tais como os maniqueus, os albigenses e outros. Eles declaravam peremptoriamente que, com o simples batismo pela água, era absolutamente impossível comunicar ao neófito o Espírito Santo: para eles, o verdadeiro batismo espiritual consistia na imposição das mãos, invocando sobre o neófito o Espírito Santo e salmeando a oração dominical.

Os valdenses e outros rejeitavam como inútil o batismo das crianças, por não haver ainda naquela idade a fé indispensável.

Os anabatistas rejeitavam o batismo das crianças como inútil, porque exigiam para a validade do sacramento a fé do neófito, a qual não julgavam substituível pela fé dos padrinhos.

Santo Tomás de Aquino sustentava que a eficácia do batismo dependia da própria fé do neófito, que não podia ser substituída pela fé dos padrinhos.

Os armênios julgam o batismo mero símbolo e afirmam, no tocante ao batismo das crianças, não verem nessas crianças culpa alguma para serem condenadas por não terem sido batizadas.

Os quakers negam em absoluto a utilidade do batismo.

Finalmente, longe iríamos se passássemos para estas páginas a síntese do que se tem escrito e discutido sobre o batismo.

Submetido ao crivo da razão, ao calor da discussão, ele não pode permanecer, porque não é de Jesus Cristo; é palavra que passa, é “matéria” que seca e desaparece como a flor da erva; é um culto, como tantos outros, oriundas da adoração ao “bezerro de ouro”, que tem absorvido judeus e gentios, desviando suas vistas dos preceitos preconizados pelo Filho de Deus, cujos ensinos o Espiritismo vem restabelecer, convencendo os homens da Justiça, da Verdade e da Lei.


ASCENSÃO ESPIRITUAL

“Partiu, pois Jacó, de Berseba, e foi para Harã; chegou a um lugar onde passou a noite, porque já o Sol era posto; e tomou uma das pedras daquele lugar e a pôs por sua cabeceira e deitou-se naquele lugar.

“E sonhou: e eis que uma escada era posta na Terra, cujo topo tocava no Céu; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela; e o Senhor estava em cima e disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaac; essa Terra em que estás deitado ta darei a ti e à tua semente; e a tua semente será como o pó da Terra, e estender-se-á ao Ocidente, ao Oriente, ao Norte e ao Sul, e em ti na tua semente serão benditas todas as famílias da Terra. E eis que estou contigo e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta Terra; porque não te deixarei, até que haja feito o que te tenho dito.

“Acordado Jacó do seu sono, disse; na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não sabia.”

“Então levantou-se Jacó pela madrugada e tomou a pedra que tinha posto por sua cabeceira, e a pôs por coluna e derramou azeite em cima dela; e chamou o nome daquele lugar — Be-tel (Casa de Deus); o nome, porém, daquela cidade, antes era luz. E Jacó fez um voto dizendo: Se Deus for comigo, me guardar nesta viagem, e me der pão para comer e roupa para vestir; e eu em paz tornar à casa de meu pai; o Senhor será o meu Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será a casa de Deus e de tudo quanto me der pagarei o dízimo.

(Gênese, XXVIII, 10-22.)


“Jesus vendo a Natanael aproximar-se dele, disse: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo! Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu Jesus: Antes que Filipe te chamasse eu te vi, quando estavas debaixo da figueira. Replicou-lhe Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel. Disse-lhe Jesus: Por eu te dizer que te vi debaixo da figueira, crês? Maiores coisas do que estas verás. E acrescentou: Em verdade vos digo que vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.”

(João, I, 47-51.)


A ascensão espiritual é uma escada sublime, que, assentada na Terra, vai ter aos Céus, mas, na sua trajetória, o homem só pode subir esses degraus por meio da Revelação, porque a Revelação é o poderoso motor que movimenta a alma para a realização dos seus destinos imortais!

Dormindo na “cidade da luz”, Jacó vê a escada que lhe é mostrada, por onde sobem e descem anjos sob, a suprema direção do Senhor, que se acha no topo dessa escada. E a Revelação lhe fala: “Eu sou o Senhor, Deus de Abraão e de Isaac; esta Terra em que estás deitado te darei e a teus descendentes, que serão tão numerosos como as areias do mar, e estarei contigo e te guardarei onde quer que estejas e por onde quer que fores, porque não te deixarei.”

Jacó desperta e admira-se de que o senhor ali estivesse. Pela madrugada tomou a pedra sobre a qual inconscientemente reclinara a cabeça, colocou-a como a coluna que deve prevalecer, derramou sobre a pedra simbólica o azeite, que é o símbolo da fé, e chamou aquele lugar de casa de deus em vez de cidade da luz.

Na verdade é preciso que se esteja na luz para ver a casa de Deus, que é a Revelação.

Onde está Deus, está a Revelação, porque a Revelação é a Palavra de Deus convidando o homem à ascensão espiritual.

Comparemos o sonho de Jacó com a parábola do filósofo:

“No meio de uma cadeia de montanhas eleva-se aos ares um pico isolado, sobre o qual se percebe confusamente um antigo edifício.

Um ousado viajante forma o projeto de o escalar.

“As ervazinhas suspensas aos flancos dos precipícios, um tronco carunchoso, uma pedra movediça, tudo lhe serve de ponto de apoio: trepa, salta, arrasta-se e, finalmente, coberto de suor e fatigado, chega ao desejado vértice; e levantando os braços aos Céus, exclama cheio de alegria: Sempre venci!

“Toda a cadeia de montanhas se desenrola a seus pés. Os mais belos horizontes se abrem diante dele. O que só via em parte, agora abrange e domina num lance de vista.

“Em baixo, ao longe, vê obstáculos contra os quais desfaleceram seus primeiros esforços, e ri-se da sua inexperiência; de pé, contempla os que finalmente vencerão, e admira-se da própria audácia.

“Os companheiros, muito fracos para vencerem as dificuldades do caminho, não o puderam seguir senão com a vista, mas nesse dia ficara conhecido um atalho, porque só é visível esse caminho, do alto da montanha. É por aí que desce, então, o viajante que chegou ao alto da montanha, é por aí que ele se coloca à frente dos companheiros que ficaram no sopé do monte e lhes diz: Segui-me! Ele os conduzirá sem perigo e sem fadiga até o cimo, cuja conquista tanto lhe custara.

Graças a ele, a montanha já se tornou acessível!

Todos os viajantes podem, do alto, admirar o famoso edifício, os panoramas sublimes, os magníficos horizontes que dali se descobrem.”

Eis a imagem da nossa ascensão às gloriosas paragens da Imortalidade.

Os homens comuns caminham sem se elevar ao vértice da montanha, porque vão e voltam em delongas por caminhos que não os conduzem às alturas espirituais.

Por vezes elevam-se ao meio do morro, mas voltam atraídos aos planos inclinados, porque não transitam pelo verdadeiro caminho, o atalho que conduzi-los-ia com segurança ao ápice da montanha.

Mas vamos aclarar a parábola.

A cadeia de montanhas constitui as diversas religiões sacerdotais; o edifício antigo é a Revelação sobre a qual Jacó alicerçou toda a sua fé; as ervinhas suspensas aos flancos são as virtudes que nos conduzem ao amor a Deus e ao próximo; o declive, que atira os homens ao precipício, são as más paixões.

O viajante que subiu ao Cume é Jesus, seguido de seus mensageiros, onde se destaca Allan Kardec, que nos ensinou o caminho para também galgarmos o ápice.

Os companheiros que tentaram a ascensão são todos os que atualmente se esforçam por chegar a esse lugar, mas que, outrora, presos à atração da Terra e vencidos pelas dificuldades, pararam na estrada.

Todos os que estudam, pesquisam, analisam, estão caminhando. Os Evangelhos nos aparecem iluminados pelos fulgores do Espírito; a morte perde o seu caráter fúnebre e a Espiritualidade da Vida reflete-se em nossas almas, como as estrelas no espelho das águas.

São dois mundos que se entrelaçam, são dois planos de vida que se mostram solidários, um como complemento do outro; são duas Humanidades que, numa permuta de provas e de afetos, se declaram solidárias, são, finalmente, anjos que descem a auxiliar outros, que, pelo esforço, também se tornarão anjos, porque trabalharão para subir.

A ascensão espiritual é o resultado da mesma lei do progresso material e da evolução intelectual: tudo vibra tudo se harmoniza no amor e na solicitude de Deus para com todos os seus filhos.




COLÓQUIO DE JESUS COM NICODEMOS

“Havia um homem dentre os fariseus, chamado Nicodemos, principal entre os judeus; este foi ter com Jesus à noite e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; pois ninguém pode fazer estes milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele, Jesus respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer sendo velho? pode, porventura; entrar novamente no ventre de sua mãe e nascer? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus; O que é nascido da carne é carne, o que é nascido do Espírito é Espírito. É-vos necessário nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai: assim é todo aquele Que é nascido do Espírito. Como pode ser isso? perguntou-lhe Nicodemos. Respondeu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel e não entendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que falamos o que sabemos e testificamos o que temos visto e não recebeis o nosso testemunho. Se vos tenho falado das coisas terrenas, e não me credes, como me crereis, se vos falar das celestiais? Ninguém subiu ao Céu, se não aquele que desceu do Céu, a saber, o Filho do Homem. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.”

(João, III, 1-15.)
Este Evangelho prega o encontro de Jesus com Nicodemos: ou por outra, a visita que Nicodemos fez ao Nazareno, à noite.

Vamos estudá-lo em sua simplicidade edificante e procuremos compreendê-lo, porque do seu conhecimento nos vem uma soma considerável de luzes e verdades.

Diz o trecho que: “Havia um homem dentre os fariseus, chamado Nicodemos, principal entre os judeus e este foi ter, à noite, com Jesus.”

Os fariseus eram, como foi descrito no capítulo, “Fermento dos Fariseus e Saduceus”, um grupo muito grande indivíduos, que formavam uma Religião, como atua mente é grande o número de pessoas que compõem a Religião de Roma.

Entretanto, quanto à pessoa deste chefe do farisaísmo, não era um homem mau, ao contrário, dentre todos os sacerdotes dessa religião, dois salienta o Evangelho que se mostraram tolerantes para com a palavra de Jesus Cristo. Um era Gamaliel, que foi mestre de Paulo, antes que este apóstolo se tornasse cristão; e o outro foi Nicodemos.

Mas vós sabeis que o orgulho, o respeito humano o preconceito constituem embaraços muito grandes para a nossa espiritualização, para nos aproximarmos de Jesus.

Nicodemos era, pois, um homem bom, e, por esse motivo, desejava imensamente encontrar-se com Jesus, para conversar com o Mestre sobre assunto religioso, porque tivera notícias das pregações do Nazareno e das curas que ele fazia.

Mas como era rico, principal entre os judeus, era “mestre da religião farisaica” e não queria que o povo os outros sacerdotes da sua seita soubessem dos seus desejos mais íntimos; e para que tudo ficasse escondido, em reserva, resolveu procurar Jesus à noite, porque assim ninguém ficaria sabendo da visita.

Por isso diz o Evangelista João: Nicodemos “foi ter com Jesus à noite.

Em chegando à casa onde o Mestre estava hospedado, que era na cidade de Jerusalém, por ocasião de uma festa de Páscoa, que os Judeus celebravam, o “principal fariseu” entabulou conversação com Jesus, dizendo-lhe: “Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, pois ninguém pode fazer estes milagres que fazes, se Deus não estiver com ele.”

Por esta saudação, vós podeis perfeitamente compreender que Nicodemos não era um descrente, ou inimigo de Jesus; ao contrário, era um crente nos milagres operados por Jesus, que consistiam, quase que totalmente, em curas de enfermos diversos.

Quanto, pois, a essa parte que se relaciona com os fatos produzidos pelo Nazareno, Nicodemos neles acreditava, portanto em desacordo com os demais sacerdotes da sua “religião”; enquanto estes diziam que Jesus agia sob a influência do Diabo, Nicodemos cria piamente que a influência que assistia o Nazareno era divina; tanto assim que ele diz: Ninguém pode fazer estes milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele. O que faltava pois a Nicodemos para se tornar cristão, para seguir a Jesus? Desde que ele acreditava nos fatos, nos fenômenos, como os chamamos hoje; desde que achava que esses fatos eram autorizados por Deus, não os atribuindo à origem diabólica, por que não se apresentou logo como um dos discípulos do Nazareno?

Isto quer dizer que não basta crer nos milagres, nos fatos, nas curas que assinalam, por certa forma, o Cristianismo, para sermos cristãos.

Precisamos também crer na palavra, na doutrina que Jesus pregava.

Em nosso tempo, como vemos, a maioria do povo também crê nos fenômenos, nas curas, e muitos são os que pedem remédios para a cura de suas enfermidades; são milhares os Nicodemos que, às ocultas, desejam conversar sobre Espíritos, sobre as almas, e que procuram saber a razão das causas que os determinam, mas, também como Nicodemos, continuam filiados às suas religiões, que amaldiçoam a legítima doutrina de Jesus, hoje, como os fariseus amaldiçoavam a mesma doutrina, ontem. Não basta crer nos fatos; é preciso compreendê-los depois de os haver estudado.

Não basta dizer que os fatos vêm de Deus, é preciso saber como eles vêm de Deus. E para chegar ao conhecimento desses fatos, temos de estudar justamente o que Jesus fazia questão que fosse estudado, ou seja, a Vida Eterna.

O ponto principal das pregações de Jesus era a Vida Eterna.

Em torno da Vida Eterna é que sempre giravam os maravilhosos conceitos da sua filosofia, da sua doutrina de verdadeira fé, de amor puro e imaculado.

Todas as sentenças de Jesus eram luzes, iluminando a Vida Eterna, a Vida Imortal.

No Sermão do Monte, o Mestre, para consolar os sofredores, os humildes, os perseguidores, os mansos de coração, nada lhes dá, presentemente, senão a certeza da felicidade na Imortalidade, e, por certa forma, se esforça para que todos esses que choravam e viviam coagidos e famintos tivessem certeza absoluta da Imortalidade, dessa vida do além que é a Vida Eterna, na qual seriam todos fartos e providos de tudo o que necessitassem se ouvissem e cressem na sua Palavra.

Nicodemos, como se vê no texto do Evangelho, embora não fosse mau homem, estava tão impregnado dos ensinamentos da Religião Farisaica, consistentes quase que só em cultos e práticas exteriores, que vacilava a respeito da outra vida, duvidava que o homem, depois de morto o corpo, pudesse continuar a viver, e que houvesse, de fato, uma vida real além do túmulo.

Jesus conhecia essa parte fraca de Nicodemos, e foi por isso que, logo após a saudação do “primaz dos judeus”, disse: Em verdade, em verdade te digo, que se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.

Estas primeiras palavras, ditas assim de supetão ao sacerdote de uma religião que se dizia a única verdadeira, tem profunda significação para aqueles que desejam estudar, conhecer e seguir a Religião de Jesus Cristo.

Assim como a criança recém-nascida não tem religião alguma, não está presa a nenhuma doutrina e nenhum conhecimento tem de coisa alguma, assim também devem colocar-se aqueles que querem estudar a Religião de Jesus Cristo, porque a alma, estando cheia de religião antiga, que foi obrigada a receber por doação dos ascendentes, não pode receber a Religião do Cristo, assim como uma casa que está habitada por uma família não tem lugar para receber outra família ou outros moradores.

Jesus, dizendo a Nicodemos: Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus, disse antecipadamente ao “primaz dos judeus” que, fosse quem fosse, não alcançaria a graça do Reino de Deus se continuasse preso ao Reino do mundo, no qual prevalecem as doutrinas dos sacerdotes, as doutrinas e religiões de invenção humana.

Precisava, primeiro de tudo, sair desse reinado, deixar essa obediência, pôr de lado todos esses dogmas, todos esses sacramentos, todos esses cultos, todos esses falsos ensinos, e tornar-se ignorante como uma criança que nasce de novo.

Assim como uma criança nasce para este mundo, tendo vindo do outro e nada se lembrando desse outro mundo donde veio, assim também o homem deve deixar aquela religião arcaica, na qual vive sem conhecer a verdade e sem ter consolação de espécie alguma, para depois aprender o que o Cristo Jesus está ensinando.

Por outras palavras: pôr de lado todo espírito preconcebido, todo orgulho de saber, todo egoísmo de virtudes, toda presunção de estar de posse da verdade; porque o “camelo” assim carregado não pode entrar no Reino do Céu.

Acresce ainda outra circunstância: ninguém pode carregar dois pesos; embora a doutrina de Jesus seja leve o “camelo” sobrecarregado e quase sem poder andar com tanta carga, não a suportará; assim como não se podem impor a quem quer que seja dois jugos. O boi, que tem um jugo que já lhe molesta muito o pescoço, que sangra e caleja, não admitirá mais outro jugo, embora seja suave como a palavra do Mestre, pois em última hipótese, ele não ficará sabendo qual o jugo que lhe pesa; por isso, assim como o camelo precisa alijar uma carga, para tomar a si outro fardo; assim como o boi precisa libertar-se do jugo que o oprime, para atrelar-se a outro jugo, assim também o homem precisa atirar para longe de si todas as crenças velhas que lhe pesam na consciência e lhe oprimem a alma, para receber a Religião amorosa de Jesus, que, como disse o Mestre, não pesa, é suave e agradável de ser carregada.

É este o primeiro nascimento que Jesus proclamou como condição de Salvação para todas as criaturas humanas, e especialmente para os sacerdotes de todas as religiões humanas, mesmo porque Jesus falava naquela ocasião a um religioso que era sacerdote e principal representante de religiosos e sacerdotes dessas religiões.

Pelo que se depreende da nova pergunta de Nicodemos a Jesus, já se pode concluir: ele, não lhe convindo nascer de novo por esta forma — abandonar sua seita, seus dogmas, seus cultos, suas honras, suas vaidades, seus preconceitos — fingiu não entender a palavra, a ordem expressa do Redentor do Mundo.

E então muito admirado por haver o Mestre proferido tal sentença, perguntou: “Como pode o homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, entrar novamente no ventre materno e renascer?”

Ao que Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus; o que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer: necessário vos é nascer de novo.”

Por este trecho vemos, bem claro, que as condições de salvação impostas por Jesus são duas: “nascer da água e nascer do Espírito”.

Vamos analisar a primeira proposição: “nascer da água”

Que pretende o Mestre dizer com isto: “nascer da água?”

Não pode ser outra coisa senão: nascer neste mundo, com um corpo carnal; pois todos os corpos orgânicos e inorgânicos são, em última análise, produtos da água.

Sem água em nosso mundo não haveria nascimento, crescimento e vida.

Tudo nasce da água, tudo vive da água; os peixes nos mares, nos lagos e nos rios, donde vem? Da água. Os animais nos campos e nas matas, donde vêm, senão da água?

Os pássaros que perambulam na Terra e voam nos ares, não é da água que vêm?

Até as ervas nascem da água!

Plantai uma semente ou um galho, uma muda; deixai-os sem água e eles não nascerão. Tirai os peixes das águas e eles morrerão. Os animais dos campos, das matas; os pássaros rasteiros e dos ares; os homens das roças e das cidades, todos eles, sem água, não nasceriam, não cresceriam, não viveriam porque a água é condição de vida para os corpos, e até nosso próprio corpo contém três quartas partes de água, com a qual se alimenta, vive, cresce e se nutre.

Água por dentro, água por fora; e até a própria criança no ventre materno não dispensa a água que a envolve e lhe dá vida.

É da água que vem tudo; portanto, “nascer da água” não quer dizer outra coisa, senão nascer neste mundo com corpo da natureza que é peculiar ao gênero humano.

Notai! o trecho do Evangelho é bem claro: “nascer da água”.

Explicação mais clara do que esta, nem mesmo a água, por mais límpida e cristalina que seja.

Não é preciso pedir emprestado o dogma do batismo das Igrejas, para explicar uma coisa que o próprio Evangelho, que é a Palavra de Jesus, ensina e explica com toda a clareza.

Aqueles que vêm a este mundo e ficam imbuídos dessas crenças irrisórias, crenças que nada ensinam, que nada explicam, e que, tendo empanados os olhos por esses cultos e sacramentos sacerdotais chegam a ponto de só crerem nesta vida; descrêem completamente da Vida Eterna, da Vida do Espírito, da Vida no Espaço, da Imortalidade, como aconteceu com Nicodemos, que não compreendia a Palavra do Mestre; só poderão salvar-se e entrar no Reino de Deus morrendo, para verem face a face a Vida Eterna, a Imortalidade, e depois voltarem a este mundo, “nascendo da água com um corpo de carne”, fazendo-se crianças para então, sem preconceitos, sem vaidades, sem orgulho, estudarem a doutrina de Jesus e receberem essa chave com a qual se abre a porta do Reino do Céu.

Vamos passar agora à segunda condição de salvamento: “nascer do Espírito”.

Como atrás ficou explicado, segundo os dizeres de Jesus, há necessidade de nascer da água, para entrar no Reino de Deus isto é, é preciso entrar na vida material, na vida carnal, justamente esta vida em que vivemos com um corpo de carne.

Mas como esta vida não é bastante para efetuarmos a nossa ascensão para a felicidade, mesmo neste mundo, Deus nos facultou, como premissa da Vida Eterna, a Vida Espiritual, a Vida Moral, porque o homem não vive só do corpo, não vive só de pão.

Esta Vida Espiritual não é uma coisa visível, pois afeta somente o nosso Eu íntimo, o nosso Espírito que também é invisível.

É uma vida interior que sentimos, proclamada por todos os povos, por todos os códigos de Moral e esboçada maravilhosamente por Jesus Cristo no seu Evangelho.

É nesta vida que se manifestam os prazeres e os sofrimentos, também invisíveis. De um lado: as virtudes, a santidade, a paz de consciência, a alegria de coração; de outro: as paixões más, o remorso, a tristeza.

Dizendo Jesus: “forçoso é nascer do Espírito”, chamou a atenção de Nicodemos para esta Vida interior, a fim de que ele ficasse sabendo que, sendo ele, Jesus, portador de um Espírito novo, que deve normalizar em todas almas a Vida do Espírito, todos os que quiserem entrar no Reino de Deus precisam nascer desse Espírito, viver nesse Espírito; assim como os que entram na vida carnal, nascem da água e vivem da água.

O nascimento, tanto da água como do Espírito, é indispensável.

Não é bastante nascer da água, não basta tomar , corpo de carne neste mundo e nascer aqui, não basta s encarnarmos aqui nesta Terra, precisamos, principalmente, “nascer do Espírito”; por isso o Mestre acrescentou no versículo 6: O que é nascido da carne é carne; o e é nascido do Espírito é Espírito.

Quando visitou o Mestre, Nicodemos já havia “nascido da água”, mas não havia nascido do Espírito; por isso Jesus lhe disse: “0 que é nascido da carne, é carne”, ler dizer: “aquele que só no mundo terreno vê meio de nascimento e de vida”, é material, porque ainda não percebeu que o homem não é somente carne, é também Espírito; e assim como o homem tem corpo material e espiritual, existe também Mundo Material e Mundo Espiritual.

Nicodemos permanecia boquiaberto e admirado diante de Jesus, pois não compreendia a Doutrina Nova que o Nazareno lhe pregava; Jesus insiste, afirmando: “Não te maravilhes de eu te dizer, necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do Espírito.”

Esta lição vem confirmar mais uma vez a primeira sentença pronunciada pelo Mestre, logo que Nicodemos o saudou: Em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

Jesus insiste com Nicodemos para que ele se torne como uma criança, que não sabe donde veio, nem para onde vai; e fez uma comparação do conhecimento que temos sobre o vento: “Sabemos que o vento existe porque ouvimos a sua voz, seu ruído, seu sussurro; mas não sabemos donde ele vem, nem para onde vai.”

Nicodemos acreditava que o Espírito vinha de Adão e Eva e que de lá todos descendiam; e que, ao sair deste mundo, iria para o Seio de Abraão ou para a Geena. Acreditava assim, porque assim eram os artigos de fé da Religião Farisaica, da qual era sacerdote; mas Jesus afirmou não ser verdadeira essa crença, quando disse: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai”: assim é aquele que é nascido, que acaba de nascer do Espírito; abjura essas crenças falsas, caducas, e fica crendo só no Espírito, embora não saibas donde vem, nem para onde vai; porque depois, com vagar, aprenderás; o camelo estando descarregado e o boi sem jugo, fácil lhes será receber o fardo leve e o jugo suave, prometido e oferecido por Jesus a todos os que se acham prontos para o trabalho.

Mas Nicodemos, por mais que Jesus explicasse, não encontrava meios de compreender; ou então fingia não compreender; porque lhe era preciso abandonar as crenças velhas de sua religião, que lhe tentavam dizer donde ele vinha e para onde ia, embora o próprio Nicodemos não cresse nas afirmativas falsas da Religião de que era sacerdote.

E continuando a manifestar admiração, vira-se para Jesus e pergunta: “Como pode ser isto?”, ao que o Mestre lhe respondeu: “Tu és Mestre em Israel e não entendes estas coisas? Se vos falei de coisas terrestres, e não restes, como crereis, se vos falar das celestiais?”

Por sua vez, Jesus se mostra admirado por não compreender Nicodemos a sua Palavra tão clara. “Tu és Mestre, tu ensinas os outros e não entendes isto que te estou ensinando? Se eu somente estou falando daquilo que podes ver com teus olhos, e que todos podem observar todos os dias — Se eu te mostro os Espíritos nascendo em corpos, e os corpos nascendo da água: falo-te de coisas que qualquer pessoa pode saber, porque são coisas que se vêem sempre, bastando só prestar atenção, e tu não entendes; como poderei falar-te das coisas celestiais., que ninguém pode ver com os olhos da carne, e que se acham ocultas ao homem que só é nascido da carne?

Jesus prosseguiu: Nós falamos o que sabemos e testificamos o que temos visto; assim acontece com o que acabo de dizer-te; e não recebes meu testemunho; esse próprio testemunho que está diante de tuas vistas; como poderei falar-te daquilo que não está ao alcance de tua vista?

Terminou Jesus lembrando a Nicodemos uma passagem das Escrituras, que diz haver Moisés levantado uma serpente, no deserto, por ocasião em que os israelitas atravessaram certa região, depois da saída do Egito, onde proliferavam víboras peçonhentas, cujas picadas matavam instantaneamente. Todos aqueles que olhavam a Serpente de Bronze não sofriam mal, embora fossem picados pelas víboras.

É que a Ele, Jesus, importava também sofrer todas as injustiças, todo o repúdio dos homens, ser levantado, ser crucificado; porque assim a sua vida seria um exemplo luminoso da doutrina que Ele pregava, e todos aqueles que e tornassem crentes nas suas palavras, teriam a Vida Eterna, ou seja, não ficariam limitados, como estão os demais homens, à vida terrena, como o próprio Nicodemos estava.




OS ENSINOS DE JESUS A MULHER SAMARITANA

“Quando, pois, o Senhor soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele, Jesus, fazia e batizava mais discípulos que João (se bem que Jesus mesmo não batizasse, mas sim seus discípulos), deixou a Judéia e voltou para a Galiléia. Precisava atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto das terras que Jacó deu a seu filho José; a ali a Fonte de Jacó. Cansado da viagem, estava Jesus assim sentado ao pé da fonte; era cerca da hora sexta. Uma mulher da Samaria veio tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim que sou mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicam com os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: Se tivesses conhecido o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe terias pedido, e ele te haveria dado água viva. Ela lhe respondeu: Senhor, não tens com que a tirar, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior que nosso pai Jacó que nos deu este poço, do qual ele bebeu e seus filhos e os seus gados? Replicou-lhe Jesus: Todo o que bebe desta água tornará a ter sede; mas quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede; pelo contrário a água que eu lhe der, virá a ser nele uma fonte de água que mana para a Vida Eterna.

“Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem venha aqui tirá-la. Disse-lhe ele: Vai, chama teu marido e vem cá. Respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Disseste bem que não tens marido; porque cinco maridos tiveste, e o que agora tens, não é teu marido; isso disseste com verdade.

“Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte; e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, a hora vem em que nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus; mas a hora vem e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o

Pai em Espírito e Verdade; porque são estes que o Pai procura; para seus adoradores. Deus é Espírito; e é necessário que os que o adoram, o adorem em Espírito e em Verdade. Eu sei, respondeu a mulher, que vem o Messias (que se chama Cristo); quando ele vier, anunciar-nos-á todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo.”

(João, IV, 1-26.)


Os tempos que atravessamos são de renascimento dos Evangelhos, de pregação da Palavra Divina. Parece que temos chegado ao terceiro dia, isto é, ao dia da Ressurreição do Cristianismo, única doutrina que, em sua pureza primitiva, nos proporciona toda a consolação de que necessitamos na luta pela vida e toda a luz que não podemos dispensar para a purificação de nossas almas!

Chegando Jesus a Sicar, cidade de Samaria, repousou perto da Fonte de Jacó, quando, à hora sexta, uma mulher veio tirar água. O Mestre pediu-lhe de beber e ela admirou-se de lhe pedir água um “judeu”, porque os judeus não se comunicavam com os samaritanos, por motivos religiosos.

Jesus fez-lhe ver, então, que o “dom” de Deus era ,mais do que judeu, mais do que samaritano, e disse a mulher: “Se tu conhecesses o “dom” de Deus e quem te pede água, tu lhe terias pedido “água” e ele te daria, porque quem beber da “água” que eu lhe der, nunca mais terá sede.” A mulher julgou primeiro que Jesus lhe oferecia um meio menos trabalhoso de obter água, sem buscá-la no Poço de Jacó, mas depois de ter o Mestre afirmado que a “Fonte” jorrava para a “Vida Eterna”, e depois de haver revelado à samaritana fatos ocorridos em sua existência, maravilhada pelos ensinos incomparáveis que recebera naquele momento, ensinos que nunca tivera ocasião de ouvir dos mestres samaritanos, deixou o cântaro e foi imediatamente para a cidade chamar o povo para que fosse ver Aquele Homem que lhe dissera tudo o que ela tinha feito e perguntava insistentemente: “Não será este o Cristo?”

Este quadro, que desenha os puros sentimentos de fraternidade em sua eloqüente lição, nos repete a adoração a Deus, em Espírito e Verdade. Ele ensina mais, que o “dom” de Deus é a luz que nos guia para a Verdade, que essa luz não é privilégio de castas, de seitas, de famílias. Jesus, sendo judeu de nascimento e afirmando que não era verdadeira a adoração no Templo de Jerusalém, assim como não o era no Monte Garizim dos samaritanos, dá-nos uma idéia clara de que, estando Deus em toda a parte, em toda a parte devemos adorá-lo, esforçando-nos por cumprir a sua Lei.

Ensinou mais o Mestre, que a Água que sacia toda sede é a que jorra do Alto, a sua Doutrina, ministrada pelo Espírito de Deus. É assim que, num grande dia de festa em Jerusalém, Ele levantou-se e exclamou: “Quem tiver sede venha a mim e beba. Quem crê em mim, como disse a Escritura, do seu interior manarão rios de água viva.” (João, VII, 37-38.)

Explicando as palavras do Mestre, diz João no versículo seguinte: “Disse isso a respeito do Espírito que iam receber os que nele cressem.” A água é, pois, a doutrina ministrada pelo Espírito.

Doutrina de vida, de luz, de verdade, de paz!

Doutrina que abrange ambos os mundos, carnal e dos Espíritos, Doutrina única, que nos garante a felicidade eterna!




O PARALÍTICO DA PISCINA

“Havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Ora, em Jerusalém, junto à porta das ovelhas, há um tanque, que em hebraico se chama Betsaida, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia um grande número de enfermos, cegos, coxos, paralíticos, esperando que se movesse a água. Porque descia um anjo em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que entrava no tanque, depois de se mover a água, ficava curado de qualquer doença que tivesse. Achava-se ali um homem, que havia trinta e oito anos estava enfermo. Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim desde muito tempo, perguntou-lhe: Queres ficar são? Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água for movida; mas enquanto eu vou, outro desce antes de mim. Disse-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda. Imediatamente o homem ficou são, tomou o seu leito e começou a andar. Era sábado aquele dia, pelo que disseram os Judeus ao que havia sido curado: Hoje é sábado, e não é lícito levar o teu leito. Ele respondeu: Aquele que me curou, esse mesmo me disse: Toma o teu leito e anda. Eles lhe perguntaram: quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda? Mas o que havia sido curado, não sabia quem era, porque Jesus se tinha retirado, por haver muita gente naquele lugar. Depois Jesus o encontrou no templo e lhe disse: Olha, já estás são; não peques mais; para que te não suceda coisa pior. O homem foi dizer aos judeus que Jesus era quem o havia curado. Por isso os judeus perseguiram a Jesus, porque fazia estas coisas nos sábados. Mas Jesus disse-lhes: Meu Pai não cessa de agir até agora e eu também; por isso, pois, os judeus procuravam com maior ânsia tirar-lhe a vida, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.”

(João, V, 1-18.)
O progresso humano tem como base a Revelação. Ela a luz que em todos os tempos tem iluminado as gerações para que conheçam os esplendores divinos.

Sem Revelação não há Ciência, nem Arte; não há Filosofia, nem Religião.

Na infância do Espírito, a Revelação é como um véu que deixa passar unicamente uma certa porção de luz, para que não se lhe ofusque o entendimento; mas, à medida que o Espírito evolui; à proporção que a inteligência se desenvolve, o sentimento se aperfeiçoa e o Espírito cresce em conhecimentos, a Revelação lhe abre horizontes novos, auxiliando sua ascensão para a posse da liberdade total no seio dos espaços infinitos.

Se consultarmos a História da Ciência, veremos que os novos inventos e as novas descobertas são oriundos da revelação pessoal, cujo executor, Espírito missionário que aqui veio para tal fim, não é mais que um emissário do invisível que, no momento da realização de sua tarefa, é cercado dos Mensageiros da Imortalidade para o bom cumprimento da tarefa que veio desempenhar.

A navegação marítima e aérea; a locomoção terrestre pelo vapor e pela eletricidade, aí estão como provas do que dizemos, do progresso que nos anima bafejado pelo calor intenso da Revelação.

A Arte de hoje está mais aperfeiçoada que a de ontem.

Novos instrumentos têm facultado aos homens trabalho que ontem lhes seria impossível executar.

O mesmo se vê na Filosofia e na Religião. Segundo a Lei Mosaica e o atraso daquela época, Deus vingava a iniqüidade dos pais nos filhos até a 3a geração”.

Por essa ocasião proclamava-se a lapidação de adúlteras na praça pública e prevalecia a lei da resistência: “dente por dente, olho por olho”.

Depois, com a evolução religiosa, os profetas, sob o influxo da Revelação, ou seja, da comunicação dos Espíritos encarregados do progresso humano, projetaram mais intensamente a sua luz, até a recepção do Cristianismo, doutrina excelente que não se pode comparar ao Mosaísmo.

Daí a distinção da Velha e da Nova Dispensação: Antigo e Novo Testamento.

A Nova Dispensação marca uma nova era no mundo; pois, abolidos os artigos e parágrafos do Código Antigo, que lesavam a Lei do Perdão e da Caridade e proclamados estes Preceitos como único meio de salvação, deu-se Deus a conhecer na magnitude de seu amor, confirmando o que dissera pela boca do profeta: “Não quero a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta e se salve.” (Ezequiel, XVIII, 23.)

Na escala evolutiva dos conhecimentos religiosos, como em todas as manifestações do pensamento, a evolução, seja no terreno material ou no plano espiritual, não faz transições bruscas. Com muita razão disse o filósofo: Natura non facit saltus, “A Natureza não dá saltos”.

A leitura da História Religiosa vem em apoio desta afirmação.

Na junção do Mosaísmo com o Cristianismo aparece a figura majestosa de João Batista, o maior dos Profetas, ora com o machado em punho a cortar pelas raízes as árvores estéreis, ora de pá, charrua e picareta, derrubando outeiros, arrasando montes, nivelando vales, de modo a aplainar veredas novas ao intelecto humano, onde a semente do Cristianismo deveria germinar, brotar, crescer, florescer e frutificar!

Entrelaçando num mesmo elo as verdades religiosas proclamadas na Antiga Lei com as erigidas pela Nova Lei, o Profeta separa e exclui, como quem separa o joio do trigo, as idéias nocivas ao desenvolvimento humano, para que possam prevalecer as verdades promissoras que o Cristo gravou nos corações dos que querem seguir seus passos amorosos.

Em torno dessas verdades se reuniram os humildes, os sedentos de justiça, os famintos de verdades novas, os sofredores vencidos ao peso do mundo, os aflitos a quem as trevas oprimiam a razão, os perseguidos por amor à Justiça, todos os que, extasiados ante a grande figura do Profeta, tomaram novas veredas, que deveriam conduzi-los a Jesus.

E foi para estes que o Mestre prometeu o galardão nos Céus; foi para estes que reservou as bem-aventuranças, inclusive a graça de serem chamados filhos de Deus, e de verem a Deus.

Enfim surgiu o Cristianismo, que apresenta uma concepção de moral inexcedível, embora no sentido filosófico e científico (pois o Cristianismo é Filosofia, Ciência e Religião). Mas o Cristo não disse tudo, dado o atraso do povo de então. Foi o que deu motivo à Terceira Revelação, a mais extraordinária e pujante manifestação da Vida na Eternidade.

A Humanidade não para a sua marcha e quando parece deter-se por um instante, as águas se agitam ao influxo dos anjos e os coxos continuam a caminhar em busca da perfeição!

Existia em Jerusalém uma fonte que o povo considerava milagrosa; segundo acreditavam, periodicamente descia àquelas paragens um anjo, que movimentava as águas: o enfermo que se achasse no tanque no momento em que se movia a água, de lá saía completamente são.

Como é natural, uma romaria de estropiados procurava na água de Betsaida a cura para seus males.

Dentre um número avultado de coxos, cegos e paralíticos, que lá se achavam à espera que a água se moves-se, estava um homem que havia 38 anos ficara paralítico. Jesus, cujos olhares perscrutadores desciam aos foros mais recônditos da consciência humana, tomado de compaixão pelo mais enfermo de todos os doentes e o mais desprotegido que lá estava, e para dar um ensinamento que deveria repercutir através das gerações, sem aguardar a agitação das águas, ele próprio, revestido do poder que lhe vinha de Deus, deliberou curar o paralítico, cujos 38 anos haviam sido de martírio e, portanto, de reparação dos pecados que havia cometido. E com um gesto de generosidade se dirige ao enfermo e lhe diz: “Queres ficar são?”

O doente, com sua crença infantil e sem conhecer aquele que consigo falava, lhe responde: “Senhor! Não tenho quem me ponha no tanque quando a água se mover.”

Disse-lhe então Jesus: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” E imediatamente, ao influxo da Divina Palavra, a paralisia desapareceu; os membros desataram-se-lhe e o homem ficou são!

São muitos os ensinamentos que colhemos deste episódio. No primeiro realça o fato físico da cura, que ultrapassa todo o entendimento humano; no segundo, o ensino moral que a Nova Revelação salienta e explica, tal como nenhuma outra filosofia é capaz de fazer.

A poderosa ação de Jesus, cuja autoridade sobre os Espíritos maléficos era extraordinária, aliada à manipulação dos fluidos atmosféricos convertidos em substância medicamentosa, explica a cura do enfermo há tantos anos paralítico.

A Fluidoterapia já representa hoje um papel de destaque na Medicina e os próprios médicos não desconhecem o seu valor, embora lhe dêem nomes novos, como sugestão, hipnotismo, etc. Esse método de curar foi usado pelos apóstolos e discípulos de Jesus, e os médiuns-curadores dele se utilizam, atualmente, com grande proveito.

O Espiritismo, revelando à Humanidade onde haurir as forças e consolações nas vicissitudes da vida, ensina que podemos perfeitamente, por intermédio dos mensageiros de Deus, conseguir a cura de nossos males.

Não há milagres nesta ordem de fatos, mas simplesmente fenômenos de uma natureza toda espiritual, que os inscientes não podem compreender por não se dedicarem ao estudo de suas leis e à investigação de sua origem.

Encarado pelo lado científico, o fato aí está, tal como narra o Evangelho, e em Ciência não é costume admitir-se unicamente palavras; exigem-se fatos, e fatos que se possam verificar, como aconteceu ao do paralítico da piscina, o qual não passou despercebido aos sacerdotes do tempo de Jesus.

Encarando a narração do Evangelho pelo lado moral, perguntamos a nós mesmos: por que só um enfermo mereceu a graça de cura sem a agitação das águas, enquanto os outros permaneceram esperando o momento azado para entrar no tanque?

É que, sem dúvida, todos os que ali estavam, como acontece ainda hoje com a maioria dos enfermos que buscam as curas espíritas, buscavam unicamente a cura do corpo, a cura dos males físicos, enquanto que o paralítico provavelmente não só desejava a liberdade do corpo, como também a do Espírito.

A “água movida” poderia restabelecer o físico, mas, como matéria que é, não atingia a alma. É o que acontece às águas de várias fontes, mesmo do nosso país — Caldas, Lindóia, Caxambu, Cambuquira.

As nossas águas termais curam também os que têm dinheiro e que delas se abeiram em estações. Os que não o têm, ficam ao redor das piscinas sem terem quem os ponha nos tanques, ao moverem-se as águas, mas, muitas vezes, recebem do Alto a virtude que os liberta dos males. E assim como a água do Poço de Jacó não saciava e nunca saciou completamente a sede da samaritana, a água da piscina, a seu turno, não podia também curar completamente os enfermos; era uma cura aparente, exterior, que deixava os enfermos, sujeitos a moléstias ainda mais graves.

Mas o ponto principal do trecho evangélico é que, sem entrar na piscina, o paralítico havia 38 anos, ficou são.

Mas qual o motivo, já perguntamos, por que Jesus limitou a cura a um, quando tantos se achavam em redor da piscina? Seria porque Jesus não poderia ou não quereria curar os outros?

É, talvez, porque só o paralítico, pela sua crença estivesse apto a receber a cura, e os outros, não. É, com certeza, porque os outros não acreditavam que Jesus pudesse curá-los, e tivessem mais fé na água da piscina do que no Mestre; preferiam a água material à espiritual!

Pode ser ainda porque os demais, em grande atraso espiritual e moral, rejeitaram as exortações do Mestre, pois não era costume ir Jesus curando cegamente sem anunciar aos enfermos a Palavra da Vida.

Parece não haver dúvida sobre esta hipótese da exortação. As palavras do Mestre, ao encontrar-se ele com o paralítico no templo — “Olha, não peques mais para que te não suceda coisa pior”, dão indício de que houve, por ocasião da cura, exposição doutrinária que enunciou o motivo da moléstia.

Ocorrendo a cura do paralítico num sábado, os Judeus, que eram fiéis observadores dos dias, das horas, das práticas exteriores e ritos de sua Igreja, revoltaram-se contra Jesus por haver “violado o sábado”, e quiseram impedir o “curado” de levar sua cama. Mas os recém-sarado, sem obedecer ordens subalternas, limitou-se a responder: “Aquele que me curou, disse — Toma o teu leito e caminha.”

“Ele me disse que caminhasse, eu não posso deixar de ouvir sua palavra para ouvir a vossa, que nunca teve poder de me curar, nem mesmo de me colocar no tanque quando a água se movia.”

Voltando à recomendação de Jesus — “Olha, não peques mais para que não te aconteça coisa pior”, parece querer o Mestre dizer ao paciente, como nos íamos referindo, que aquela enfermidade tinha por causa o pecado que ele cometera. Cessada que foi a ação do pecado, sob a palavra de Jesus, cessou imediatamente a moléstia, sendo restituída a liberdade ao doente.

Mas os judeus eram cegos de Espírito, não viam o que Jesus lhes mostrava; como acontece com a maioria da Humanidade atual, ainda semelhante a um rebanho de ovelhas cegas guiado por cegos, os judeus, em vez de aprenderem a lição que lhes era oferecida, deliberaram perseguir a Jesus, sob o pretexto de que ele curara num sábado!

Então o Mestre dirige-se animosamente a eles e diz-lhes: “O meu pai não cessa de agir”, quer dizer: “O que está descrito na vossa Lei, que Deus descansou no 7o dia, após a criação do mundo, não é verdade, porque Deus, o meu Pai, trabalha sem cessar, e eu também trabalho sempre.”

E assim, prodigalizando a todos os momentos de sua vida na Terra, lições substanciosas e edificantes aos que dele se acercavam, Jesus estabeleceu o amor a Deus e a Caridade, princípios básicos da Religião que devemos abraçar.




A RESSURREIÇÃO - O ESPÍRITO - A FÉ

“Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos, ouvirão a voz do Filho do Homem e sairão: os que fizeram o bem para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição do juízo.”

(João V, 28-29.)

“Quando vier o Espírito da Verdade, que procede do Pai, dará testemunho de mim, e vós também dareis porque estais comigo desde o começo.”

(João XV, 26-27.)

“Vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações; e eu vos confiro domínio real, assim como meu pai mo conferiu, para que comais e bebais à minha mesa no meu reino; e vos sentareis sobre tronos para julgardes as doze tribos de Israel.”

(Lucas, XXII, 28-30.)

“O Espírito é que vivifica, a carne para nada aproveita.” (João, VI, 63.)

“Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este sicômoro: arranca-te e transplanta-te no mar; e ele vos obedeceria.”

(Lucas, XVII, 6.)


Completara-se o período de 40 dias durante o qual Jesus, Senhor e Salvador nosso, depois da crucificação e morte de seu corpo, permanecera com seus discípulos, congregando-os num mesmo Espírito para que pudessem, Igreja Militante, dar começo à nobre missão que lhes havia sido outorgada.

As aparições diárias de Jesus àquela gente que deveria secundá-lo no ministério da Divina Lei, haviam abrasado seus corações; e seus suaves e edificantes ensinamentos, cheios de mansidão e humildade, tinham exaltado aquelas almas, elevando-as às culminâncias da espiritualidade, saneando-lhes o cérebro e preparando-os, vasos sagrados, para receber os Espíritos santificados pela sua Palavra, como antes lhes havia ele prometido, conforme narra o Evangelista João.

Tinha o Mestre de deixar a Terra, transpor os mundos que flutuam em derredor do Sol e elevar-se à sua suprema morada, para prosseguir na tarefa que Deus lhe confiara.

Avizinhava-se o momento da partida. Ele iria, mas com ampla liberdade de ação. Sempre que lhe aprouvesse viria observar o movimento que se teria de operar entre as “ovelhas desgarradas de Israel”, as quais ele queria reconduzir ao “sagrado redil”.

Ao dar-lhes suas últimas instruções, recomendou-lhes que não saíssem de Jerusalém, (Lucas, XXIV, 49), onde veriam o cumprimento da promessa de que lhes falara, e que era a comunhão com o Espírito.

Nesse ínterim, os discípulos o interrogaram a respeito do tempo em que o reinado de Deus viria estabelecer-se no mundo. Ao que lhes respondeu: “Não vos compete saber tempos nem épocas da transformação do mundo, mas sim serdes minhas testemunhas em toda a Terra, da Doutrina que ouvistes, para que o Espírito seja convosco.”

Deveriam os discípulos identificar-se com o Espírito e conhecer o Espírito da Verdade, para, com justos motivos, anunciar às gentes, a Nova da Salvação que libertá-las-ia do mal.

Quem seria, pois, esse Espírito da Verdade, esse extraordinário Consolador que, portador de todos os dons e com todos os poderes, viria realizar tão grande missão?

Seria um ente singular, miraculoso, abstrato, sem significação decisiva e patente para os novos arautos, propulsores do progresso humano?

Certamente que não. O Espírito Santo, Espírito da Verdade. Espírito Consolador, conquanto representado em unidade a Ciência o Amor, a Filosofia, há de forçosamente constituir a coletividade de Espíritos evoluídos, não mais sujeitos às vicissitudes terrenas, e em completa harmonia de vistas para o bom exercício da alta missão que, de fato desempenharam e continuam a desempenhar.

O Espírito Santo não é um símbolo, uma entidade abstrata, misteriosa, mas as altas individualidades, os ilustres sábios e santos do Mundo Espiritual, que assumiram o encargo de executar a lei Divina, e o fazem aqui na Terra pelo ministério dos profetas, ou seja, pelos médiuns, porque profeta, na linguagem antiga, outra coisa não é senão médium.

O Evangelho emprega no singular a expressão Espírito Santo, não para designar uma pessoa, mas uma coletividade, como nós empregamos a palavra governo, para exprimir a junta governativa de um país ou de uma cidade.

Os discípulos que iam receber a investidura de Apóstolos, constituíam a Igreja Militante, isto é, a que age na Terra; assim como os Espíritos que compõem a unidade santificante, constituem a Igreja Triunfante.

De maneira que, em rigor, podemos afirmar que, atualmente, segundo se depreende do trecho, Pedro, Paulo, João, todos os Apóstolos e os chamados Santos que se distinguiram por suas virtudes, fazem parte dessa Unidade — Espírito Santo, assim como no tempo em que eles estavam no mundo, outros Espíritos Santos, do mundo Espiritual, vieram testemunhar-lhes e transmitir, por seu intermédio, as mensagens divinas que lhes cabia divulgar.

Mas, narram os Atos dos Apóstolos que, havendo Jesus concluído os ensinos preparatórios para que seus discípulos pudessem receber o Espírito, estes viram o Grande Messias, de volta à eterna morada, ir-se elevando aos ares até que desapareceu as olhos de todos.

Maravilhados com tão singular ascensão, cheios de alegria, admirados do extraordinário poder do Divino Mestre, eles se mantinham, olhos fitos no céu, quando foram atraídos por dois elevados Espíritos que, trajando vestiduras brancas, se puseram a seu lado, e lhes perguntaram: “Galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus que se elevou neste momento dentre vós para ser acolhido nos Céus, pela mesma maneira virá, quando precisar visitar a Terra.” (Atos, I, 10-11)

Quantos fenômenos interessantes, quantos fatos espíritas de aparições, de comunicações, de visões, narra o Evangelho! Quantas provas de imortalidade deu o ilustre Nazareno a seus discípulos! Quantas luzes irradiam desta passagem que estamos estudando!

Como poderiam aparecer dois varões com vestiduras brancas, se não houvessem Espíritos no Espaço? Donde poderiam vir eles se não houvesse uma outra Vida além do túmulo? Como poderia Jesus ficar quarenta dias, depois de sua morte, com seus discípulos, se o homem fosse todo matéria? E como poderia ele se elevar aos espaços se esse corpo, que sobrevive à morte corporal, não fosse de natureza espiritual, como o proclamou o Apóstolo dos Gentios! .

Foram esses fatos portentosos que ergueram os galileus conturbados pela morte de seu Mestre; foram essas aparições que os encheram de fé e fizeram que arrostassem todos os tropeços, afrontassem todos os suplícios, vencessem todas as barreiras! Foi o grito da Imortalidade que lhes despertou o raciocínio, venceu-lhes a timidez, vivificou-lhes o cérebro e o coração para que saíssem por toda parte a anunciar a todas as gentes, a Palavra do Deus Vivo, os esplendores da Vida Eterna!

Ao influxo de generosos sentimentos, cheios de vida, revestidos de energia, iluminados por essa Esperança que só a verdadeira Fé pode dar, é que eles, descendo do Monte das Oliveiras, onde haviam recebido as ordens do Filho de Deus, voltaram para Jerusalém, onde ficaram aguardando a recepção da ilustre visita do Espírito Consolador, para iniciarem a missão redentora que com tanta coragem desempenharam.

E, então, passaram, mais ou menos dez dias em profunda meditação, em fervorosas orações, mantendo, na doce calma do Cenáculo, os sentimentos da mais viva Fraternidade, que os envolvia com as meigas carícias dos olhares de Deus.

Dentre todos, além dos onze apóstolos, salientavam-se as santas mulheres, e o total formado era de 120 pessoas, que perseveraram unânimes em oração e recordando os altos ensinamentos que seu Mestre lhes legara.

A História do Cristianismo é a suave melodia que canta a glória desses acontecimentos maravilhosos de que nos falam as Escrituras, começados no Sinai e sancionados pelos reaparecimentos do Grande Enviado.

Quem estudar com boa vontade e critério, todo esse desenrolar de manifestações espíritas, todos esses fenômenos supra-sensíveis e supra-normais relatados por todos os profetas e patriarcas referidos no Velho Testamento e referendados, no Novo, por uma soma não menos considerável de fatos, que estão em íntima ligação com o Mundo Espiritual; quem estudar com espírito desprevenido todas essas manifestações espíritas que tanta esperança nos vêm dar, não pode deixar de ter uma fé viva, robusta, inteligente, racional, de que o fim da Religião é preparar-nos, não só para a vida presente, como também e, especialmente, para a futura, onde, na Pátria Invisível, prosseguiremos nosso labor de aperfeiçoamento pua nos aproximarmos de Deus.

Justificada nesses princípios, nossa Fé se ergue poderosa, inabalável, semelhante àquela “casa construída sobre a rocha”, lembrada na parábola.

É o sentimento da Imortalidade que nos anima, é a certeza da outra Vida que nos faz viver nesta com a fronte erguida, sem desfalecer, embora sangrando os pés por estradas pedregosas, dilacerando as carnes nos espinhos que tentam impedir nossa marcha triunfal para o Bem, para a Verdade, para Deus.

É, revestidos da Imortalidade, que singramos os mares borrascosos da adversidade em frágil batel, sem que ondas impetuosas nos afastem do norte da Vida.

Sem essas luzes que nos vêm do Além, sem essas claridades que surgem dos túmulos, sem esse poderoso farol habilmente manejado pelos Espíritos do Senhor, como poderíamos manter a estabilidade na Fé?

Sem dúvida alguma, o Espiritismo é a base em que se fundamenta essa crença que nos arrima e fortalece.

É ele ainda que nos ensina a benevolência, o amor, a humildade, o desapego aos bens do mundo; as altas lições de altruísmo, de abnegação que a Imortalidade nos impõe.

Como poderíamos, ante uma sociedade materializada e metalizada, renunciar a gozos, fortuna, posições, comodidades, se não tivéssemos a certeza das nossas convicções e se essas convicções não se assentassem em fatos positivos, palpáveis, visíveis, tangíveis que os Espíritos nos proporcionam?

Como poderíamos, nesta época de depressão moral que atravessamos, de mercancia vil, de rapina descarada, de toda sorte de baixezas, como poderíamos esforçar-nos para nos livrarmos da corrupção do século, até com prejuízo da nossa vida material?

Qual é o homem racional que, tendo certeza de que tudo acaba no túmulo, renuncia a fortuna, prazeres, bem-estar, em benefício de terceiros, em benefício de outros que terão também, forçosamente, como fim da existência, uma cova rasa no quadrado de um cemitério?

Qual é esse louco que, podendo comer, beber, folgar, alimentar-se do suco da vida, tendo certeza de que tudo termina com a morte, vai viver do bagaço, vai repartir o seu sangue com os maltrapilhos e párias que enchem as ruas e as praças?

Olhai as grandes catedrais com todas as suas pompas, perscruta seus sacerdotes, observa os felizes do mundo com suas comodidades, sua fortuna, inquiri suas crenças e vereis que a Fé não lhes anima o coração!

Saí pelas ruas, pelas praças, agitai a bandeira da imortalidade e vereis todos esses gozadores atirar sobre vós e o vosso estandarte, as mais duras imprecações, as mais loucas diatribes!

É que lhes falta a Fé para o raciocínio, falta-lhes o critério que nasce da mesma fé, falta-lhes a verdade para melhor se guiarem na trilha do dever imposto por Deus.

Entretanto, assim como pensam, agem. Só crêem nesta vida, aproveitam dela tudo o que ela tem de bom, porque, de fato, é irrisório e irracional sacrificar prazeres e comodidades para ter em recompensa as voragens do nada.

Sem a Fé, nenhum sentimento generoso poderá erguer a alma humana; sem a Fé, nenhuma caridade, nenhuma esperança, nenhuma virtude pode nascer, crescer, florescer, frutificar na consciência dos homens.

A Fé é o principal motor da Religião, é o fator de todos os atos nobres, de todos os arroubos da alma, de todas as boas ações.

Ela remove todas as dificuldades para aquele que caminha para Deus; brilha na inteligência como o Sol no espelho das águas; dignifica o homem, eleva-o, ilumina-o e o santifica!

Não há palavra que ocupe menor número de letras e mais saiba falar ao cérebro e ao coração.

Com uma só sílaba exprime tudo o de que necessita a criatura para conseguir a sua salvação.

Ter Fé é ter certeza nos nossos destinos imortais, é guiarmo-nos por essa estrada grandiosa, iluminada, que o Cristo nos legou.

Ter Fé é ser possuidor do maior tesouro que a alma humana pode adquirir na Terra.

Foi interpretando essa grande virtude, que Paulo dedicou toda a sua grande Epístola aos romanos à Fé, chegando a afirmar que todos os grandes da Antiguidade, pela Fé, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas, taparam as bocas aos leões, extinguiram a violência do fogo, evitaram o fio de espadas; de fracos se tornaram fortes, fizeram-se poderosos e puseram em fuga exércitos estrangeiros!

O Espiritismo vem fazer realçar estes três fatores do progresso humano: a Ressurreição, o Espírito e a Fé, como partes integrantes de um mesmo todo e Indispensáveis ao outro, testemunhos vivos que se afirmam e se completam.

Colunas principais do Cristianismo, são eles que nos dão a visão da Outra Vida, na qual colheremos os frutos do nosso trabalho, dos nossos esforços pelo nosso próprio aperfeiçoamento



O PÃO DA TERRA E O PÃO DO CÉU

“No dia seguinte a multidão, que ficara do outro lado do mar, notou que não havia ali senão uma barca e que Jesus não tinha entrado nela com seus discípulos, mas que estes tinham partido sós; chegaram, porém, outras barcas de Tiberíades, perto do lugar onde comeram pão, depois de o Senhor ter dado graças. Quando, pois, a multidão viu que Jesus não estava ali, nem seus discípulos, entraram nas barcas e foram a Cafarnaum em procura de Jesus. Depois de o terem achado no outro lado do mar, perguntaram-lhe: Mestre, quando chegaste aqui? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Vós me procurais, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a Vida Eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque sobre ele imprimiu o seu selo o Pai, que é Deus.”

(João, VI, 22-27.)
Há pão do Céu, assim como há pão da Terra; há alimento para a alma, assim como o há para o corpo; o alimento do corpo acaba, entretanto, como o corpo; o da alma permanece para a Vida Eterna.

Quem somente trabalha pelos manjares da Terra, não tem a comida do Céu; quem trabalha pela comida do Céu tem o pão da Terra e o pão que permanece para a Vida Eterna.

Há muitas espécies de trabalho da mesma forma que há diversas qualidades de trabalhadores; trabalhos da Terra, trabalhos do Céu na terra.

Aqueles jazem como túmulos bem ornados nas necrópoles, que desabam ao rugir das tempestades; os do Céu aparecem nas alturas, iluminados pelo fulgir dos astros e brilho das estrelas.

O que é da Terra, na Terra permanece; o que é do Céu, persiste na Vida Eterna.

No trabalho exclusivamente terreno, os membros cansam, o suor goteja, o cérebro se aniquila, a vida se extingue.

No trabalho do Céu, a fronte se eleva, a alma se engrandece, o corpo se fortalece, a mente se aclara, e a vida se eterniza.

Quem só trabalha para o que é da Terra, trabalha para o que perece. Quem trabalha para o que é do Céu, trabalha para o engrandecimento moral e espiritual de si próprio e de seus semelhantes, trabalha pela comida que permanece para a Vida Eterna.

Há Trabalho e trabalho; assim como há Pão e pão; assim como há tesouros na Terra e Tesouros no Céu.

Quem vive do Espírito busca as coisas do Céu; quem vive da carne busca as coisas da Terra; a carne para nada serve, o Espírito é que continua a viver.

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas sim pela comida que permanece para a Vida Eterna. “


RECONHECIMENTO E GRATIDÃO

“De caminho para Jerusalém, passava Jesus pela divisa entre a Samaria e a Galiléia. Ao entrar ele numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, que ficaram de longe, e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós! Jesus logo que os viu disse-lhes: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. E em caminho ficaram limpos. Um deles, vendo-se curado, voltou dando glória a Deus em alta voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe, e este era samaritano. Perguntou Jesus: Não ficaram limpos os dez? Onde estão os outros nove? Não se achou quem voltasse a dar glória a Deus senão este estrangeiro? E disse ao homem: levanta-te e vai; a tua fé te curou.”

(Lucas, XVII, 11-19)
“Muitos dos seus discípulos se retiraram, e não andavam mais com Jesus. Perguntou, então Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna: e nós temos crido e conhecemos que tu és o Santo de Deus.”

(João, VI, 66-69)


“Marta, preocupada com o serviço, chegando-se ao Senhor disse: a ti não se te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Manda-lhe, pois, que me ajude. Mas respondeu-lhe o Senhor: Marta, está muito ansiosa e te ocupas com muitas coisas, entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; porque Maria escolheu a boa parte que não lhe será tirada.”

(Lucas, X, 40-42.)


“Aí tendes uma guarda; ide segurá-lo como entendeis. Partiram eles e tornaram seguro o sepulcro, selando a pedra e deixando ali aguarda”.

(Mateus, XXVII, 65-66.)


“Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas pára ir embalsamá-lo.”

(Marcos, XVI, 1.)


Reconhecimento e gratidão são as duas expansões da alma humana, que assinalam muito bem o estado moral de cada indivíduo.

O reconhecimento é o testemunho da genuinidade de uma coisa, de um fato, de uma pessoa.

O reconhecimento é princípio inteligente que nos aproxima da verdade.

Como ato de discernimento, o reconhecimento pode dar lugar ao bom ou mau juízo que façamos de um objeto ou de uma pessoa.

Como virtude moral, o reconhecimento é o princípio da gratidão: onde aquele chega a seu mais elevado cimo, esta começa a sua espiral que se eleva ao infinito.

O reconhecimento, que é discernimento espiritual, obedece sempre ao estado de espírito do julgador.

O reconhecimento, como produto do benefício, é a confissão do bem, pelo bem que o bem nos fez.

A gratidão grava a idéia do bem e mantém, pelo autor do benefício, vivo sentimento de carinho.

O reconhecimento lembra a idéia do benefício. A gratidão aviva a lembrança do benfeitor.

O reconhecimento é um movimento de inteligência, variável, como variável é a inteligência em cada ser humano.

A gratidão é uma confirmação da razão, sancionada por gesto do coração.

Há reconhecimento e há gratidão; onde aquele para, por não poder continuar o seu caminho, esta começa num sulco de luz, a ascensão para a Eternidade.

Não há virtude mais nobre, por isso mesmo mais rara que a gratidão. Ela nos conduz pelo amor e nos eleva a Deus.

Muitas são as almas reconhecidas, mas poucas são as que têm gratidão.

Dos dez leprosos curados em terras da Palestina, só um voltou a dar graças ao Senhor. De todos os restabelecidos pelo Senhor não se contam, talvez, três, que lhe seguissem os passos. De todos os que ouviram dos melodiosos lábios a Palavra de Salvação, insignificante foi o número dos agradecidos; inúmeros foram os que reconheceram o Verbo de Deus, e muito maior em número foram os que, apesar de O reconhecerem, repudiaram a sua Palavra.

Padres, doutores, rabinos, escribas, fariseus, governadores e césares, depois que reconheceram o Poder do Verbo Divino, é que resolveram crucificar o Inocente!

E aquele mesmo que depois de haver mostrado o seu reconhecimento na mais alta expressão de inteligência, 1ava as mãos ao derramamento de sangue e acede ao sacrifício da vítima, porque não tem coragem de ser grato.

O mundo está cheio de reconhecidos, mas vazio de gratidão.

De oitenta e quatro discípulos que seguiam o Mestre Nazareno, setenta e dois abandonaram-no em meio do caminho dando motivo à pergunta do Humilde Galileu aos outros doze: “E vós também não vos quereis retirar? Ao que respondeu Pedro: Para quem havemos nós de ir, Senhor? Tu tens Palavras de Vida Eterna!”

O reconhecimento incita o interesse; a gratidão reveste o amor.

Marta e Lázaro são reconhecidos, mas só Maria tem gratidão: “Venit mulier habens alabastrum unguenti nardi spicati pretiosi et fracto alasbastro, effudit super ejus — uma mulher com um frasco de fino perfume de nardo ungiu-O”. (Marcos, XIV, 3.)

Nicodemos, movido pelo reconhecimento, vai ao encontro de Jesus, mas como não tem gratidão, espera a noite para se aproximar do Filho de Deus: Nicodemos hic venit ad Jesum nocte. (João, 111, 1-2.)

No reconhecimento só age o interesse.

Na gratidão é o amor que fala.

Para guarda do sepulcro, Herodes envia milícia; Madalena leva flores e perfumes.

O reconhecimento é o princípio inteligente que nos aproxima da Verdade; a gratidão é um dever que a ela nos alia.

Na vida particular, como na vida social, há reconhecimento e gratidão; mas aquele, quando lustrado pela nobreza de caráter, é o princípio em que germinam as graças que nos dão a pureza de sentimento.

O reconhecimento é, finalmente, para a gratidão, o que a bolota é para o carvalho.

Assim como aquela só se transforma em árvore por força do tempo e poder dos elementos, o reconhecimento só se caracteriza em gratidão depois de um cultivo acurado da lei do Amor lembrada pelo Cristo e de uma evolução proveitosa do Espírito nos ciclos ascendentes da Verdade.


A PALAVRA DE VIDA ETERNA

“Muitos dos seus discípulos se retiraram e não andavam mais com ele. Perguntou então Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de Vida Eterna; e nós temos crido e conhecemos que és o Santo de Deus.”

(João, VI, 66-69.)
A Imortalidade é a luz da vida; ela é a alma da nossa alma; a esperança da nossa Fé; e a mãe do nosso amor.

Sem imortalidade não pode haver alma, sem alma não há esperança, fé, amor; e sem esperança, fé e amor tudo desaparece de nossas vistas: família, sociedade, religião, Deus!

A imortalidade é a base, o alicerce, a rocha viva onde se assenta essa trilogia sublime, é o farol luminoso que esclarece todas as virtudes, que ilumina toda sabedoria, que nos desvenda, finalmente, os arcanos dos nossos destinos, resplandecendo sobre nossas cabeças o amor de Deus, essa auréola de santidade que brilha na fronte dos justos.

Urge, pois, que busquemos, primeiramente, a imortalidade, para crermos firmemente na Palavra de Jesus. Urge que estudemos a imortalidade, que conversemos com a imortalidade, que ouçamos a imortalidade com seus substanciosos ensinos, a fim de, firmes e resolutos, orientarmos a nossa vida, regularmos os nossos atos na senda religiosa que nos foi traçada.

O homem não pode atender ao dever religioso sem conhecer, e não pode crer que estudou a esse respeito sem que tenha a certeza da imortalidade, a convicção cientificamente comprovada do prosseguimento da vida além do túmulo, onde, pelos seus esforços, pelos seus trabalhos, poderá conquistar a verdadeira felicidade.

Só a fé no futuro nos livra do obscurantismo, do fanatismo, da ignorância.

A Palavra de Vida Eterna é a maior preciosidade que Jesus nos legou.

E assim compreenderam seus discípulos quando, ao inquirir-lhes o Mestre se não queriam também se retirar como o fizeram os demais que o seguiam cegamente e com interesse em pães e peixes, responderam: “Para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna”.

Jesus fez muitas maravilhas: curou enfermos, multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho, acalmou mares e ventos, mas essas maravilhas não prendiam os doze discípulos; não foi por elas que eles continuaram a acompanhar a Jesus, mas sim porque: “Só Ele tinha a palavra de Vida Eterna.”

A Palavra de Vida Eterna vale mais que todas as maravilhas, mais que o mundo todo, porque as maravilhas se acabam, o mundo se extinguirá, mas a Vida Eterna perdurará para sempre, e aí colheremos os frutos do nosso labor, o mérito dos nossos esforços.

Quando Pedro respondeu a Jesus: “Só tu tens palavras de Vida Eterna”, ele já havia visto a Vida Eterna. Jesus já o havia levado ao Tabor, onde chamou os Espíritos de Moisés e de Elias, que há muito tinham desencarnado, para lhe testificar a existência da Vida Eterna.

Moisés e Elias já tinham atravessado os umbrais da morte, e, entretanto, vieram demonstram que a morte não existe na acepção da palavra, mostrando-se assim aos três apóstolos, Pedro, Tiago e João.

Há vida, não só na Terra, também há Vida Eterna.

A Vida Eterna é o princípio básico da vida na Terra.

E é de notar que o Mestre não se contentou em dizer e a provar que há Vida Eterna, com a manifestação de Moisés e de Elias. Ele mesmo voltou da Vida Eterna, após a Tragédia do Gólgota, para confirmar essa Nova de Salvação.

Tomé não acreditava, porque não estivera no Tabor; duvidava da Vida Eterna. E quando os outros discípulos contaram a Tomé que Jesus lhes havia aparecido, respondeu que só acreditaria se suas mãos tocassem os sinais dos cravos e o sinal da ferida produzida pela lança.

É de notar que o Divino Modelo não se negou a essas provas, mas, ao contrário, facultou-as para que o seu discípulo recebesse a verdadeira crença.

Mas as aparições de Jesus não se limi1aram aos discípulos; apareceu a muitas mulheres e a mais de quinhentas pessoas, segundo narram os Evangelhos.

Tudo se extingue neste mundo: o dinheiro se acaba, as grandezas terrenas se esvaem, mas a Palavra de Jesus permanece para sempre!

Quem quiser ser feliz, mesmo nesta vida, precisa buscar a Palavra de Jesus e dela não se separar. De modo que, havendo, como há, Vida Eterna e nela permanecendo a Palavra de Jesus, sempre seremos discípulos daquele que veio ao mundo para salvar e não para condenar o mundo. E ouvindo seus preceitos, imitando seus exemplos, pedindo à Vida Eterna as luzes precisas para nos guiarmos no mundo efêmero em que nos achamos, não nos faltarão graças e misericórdias para vencermos as lutas e extinguirmos as trevas que nos oprimem.




BUSCAI A VERDADE E A LIBERDADE

“Jesus disse aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”

(João, VIII, 31-32.)
O homem é um ser dotado de razão e de sentimento. São estes os dois pólos da Vida Psíquica através da qual se realça o eixo do Ideal mantenedor da evolução gradativa do Espírito!

O homem é um ser polarizado pelo raciocínio e vivificado por sentimentos de virtude, por afetos que o prendem à Fraternidade e só quando usa esses atributos em busca da Verdade, ergue-se, dignifica-se, eleva-se e santifica-se.

Fora dessa esfera de ação e de educação o homem é besta! Besta porque não sente, besta porque não pensa!

Pensar é existir; assimilar afeições, virtudes, amor; é viver: Cogito, ergo sum!, “Penso, logo, existo!”

Há homens que pensam; há homens que sentem; uns e outros estão nos primórdios da vida. É preciso, entretanto, que o pensar seja acompanhado do sentir, porque o pensar sem o sentir, o sentir sem o pensar, são faculdades abstratas que encaminham, a alma para o grande Ideal, mas não o libertam completamente na ignorância e do atraso.

Na alma livre o pensar se completa com o sentir, e o sentir, com o pensar, porque a Verdade não teme o erro, a luz não pode ser absorvida pelas trevas.

Todos os grandes pensamentos só podem ser assimilados depois de sentidos, e todos os nobres sentimentos só podem ser compreendidos depois de pensados.

Quando Descartes proclamou: Cogito, ergo sum, não só pensou, como sentiu; pensou existir e sentiu a vida em si próprio.

A compreensão não vem só do raciocínio, mas do raciocínio aliado ao sentimento: são estes os dois grandes faróis luzentes da Estrada da Vida.

Abri clareiras ao vosso entendimento pelo raciocínio; alargai as esferas do sentimento; não vos atemorizeis ante as alturas e longitudes, porque a águia e o condor não transpõe o círculo do seu vôo; os pássaros têm seus limites nos ares!

Homens! Voai, desprendei-vos da escuridão da ignorância que cerceia a vossa inteligência e vos ata a pesados dogmas!

Voai! Dai expansão à vossa razão, deixai palpitar os vossos corações aos generosos sentimentos para ascenderdes às esferas da Ciência e do Amor, onde a Verdade brilha com todos os seus esplendores!

Lembrai-vos, ó homem! que sois dotado de razão e sentimento!

Buscai a Palavra de Jesus, permanecei na sua palavra, sede verdadeiramente seus discípulos, e “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”!




O CEGO DE SILOÉ

“Jesus, ao passar, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe seus, discípulos: Mestre, quem pecou para que este nascesse cego, ele ou seus pais? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais, mas isto se deu para que as obras de Deus nele sejam manifestas. É necessário que façamos as obras de quem me enviou, enquanto é dia; vem a noite, quando ninguém pode trabalhar. Estando eu no mundo, sou a luz do mundo. Tendo assim falado e fazendo lodo com saliva, aplicou-o nos olhos do cego, dizendo: Vai lavar-te no tanque de Siloé (que quer dizer, Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou com vista. Então os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como mendigo, perguntavam: Não é este o que se assentava para mendigar? É ele mesmo, respondiam uns; não é, mas é parecido com ele, diziam outros. Porém ele dizia: Sou eu mesmo. Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos? Respondeu ele: Aquele homem chamado Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse: Vai a Siloé e lava-te: então fui, lavei-me e fiquei vendo. E eles perguntaram: Onde está ele? Respondeu: não sei”.

“Levaram aos fariseus o que fora cego. Ora, era sábado o dia em que Jesus fez lodo e lhe abriu os olhos. Então os fariseus, por sua vez, perguntaram-lhe como recebera a vista. Ele respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e agora vejo. Pelo que alguns dos fariseus diziam: como pode um homem pecador fazer tais milagres? E havia dissensão entre eles. Tornaram a perguntar ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto que te abriu os olhos? É profeta, respondeu ele. Mas os judeus não acreditaram que ele tivesse sido cego e tivesse recebido a vista, enquanto não chamaram os pais dele e os interrogaram: É este vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Como, pois, vê agora? Responderam seus pais: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego; mas como agora vê, não sabemos, ou quem lhe abriu os olhos, nós não sabemos; interrogai-o, já tem idade; ele mesmo falará por si. Isto disseram seus pais porque tinham medo dos judeus; porquanto estes já tinham combinado que se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga. Por isso disseram seus pais: Ele já tem idade, interrogai-o. Então chamaram pela segunda vez o homem que fora cego e lhe disseram: Dá glórias a Deus: nós sabemos que este homem é pecador. Ele respondeu: Se é pecador não sei: uma coisa sei: Eu estava cego e agora vejo. Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? Como te abriu os olhos? Ele lhes respondeu: Já vô-lo disse e não ouvistes: por que quereis ouvir outra vez? Porventura quereis também vós tornar-vos seus discípulos? E injuriaram-no e disseram: Discípulo dele és tu; mas nós somos discípulos de Moisés, mas este não sabemos donde ele é. Respondeu-lhes o homem: g maravilhoso que não saibais donde ele é, e contudo, ele me abriu os olhos. Sabemos que Deus não ouve a pecadores, mas se alguém temer a Deus e fizer a sua vontade, a este ele ouve. Desde que há mundo, nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este homem não fosse de Deus, nada poderia fazer. Eles lhe replicaram: Tu nasceste todo em pecados e nos estás ensinando? E lançaram-no fora.”

“Soube Jesus que o haviam lançado fora e encontrando-o lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem? Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele? respondeu o homem.

“Disse-lhe Jesus: Já o viste e é ele quem fala contigo. E ele disse: creio Senhor; e o adorou. Jesus prosseguiu: Eu vim a este mundo para um juízo, afim de que os que não vêem, vejam; e os que vêem, se tornem cegos. Ouvindo isto alguns dos fariseus, que estavam com ele, perguntaram-lhe: Porventura somos nós também cegos? Respondeu-lhes Jesus: Se fósseis cegos, não teríeis pecado algum; mas agora dizeis: Nós vemos; fica subsistindo o vosso pecado.”

(João, IX, 1-41)


A vida de Jesus é uma lição extraordinária. Fonte de ensinamentos inesgotáveis que jora para a Vida Eterna, só por ela seremos capazes de nos fortalecer para o cumprimento dos desígnios divinos.

Todos os mestres da Terra têm errado e continuam a errar, só Jesus falou a Eterna Verdade, que irá sendo assimilada à proporção que crescermos no seu conhecimento e à medida que as graças de Deus abundarem em nós.

Jesus passava e viu um homem que era cego de nascença, e logo que viu o cego conheceu tudo. Pela natureza da cegueira conheceu não só que o cego o era de nascença, mas também que seus pais não haviam pecado para que o cego assim nascesse, isto é, que a “mazela” não era hereditária.

Conheceu mais o médico excelente que a cegueira desse homem não provinha de pecado que ele houvesse cometido; mas, antes, que aquela enfermidade longe de ser um castigo, era uma graça de Deus, para que suas obras fossem manifestas.

Três coisas podemos supor deste trecho que acabamos de ler:

1o Que a cegueira de nascença é produzida por pecados dos pais.

2o Que a cegueira de nascença é produzida por pecados do próprio cego.

3o Que a cegueira de nascença é graça de Deus para que suas obras sejam manifestas.

Vamos analisar estas três proposições em ligeiros detalhes.

A cegueira de nascença é produzida por pecado dos pais?

Dura coisa é ir contra os ensinos sagrados, ou sofismar com o sentido das Escrituras.

Como poderemos afirmar, de um lado, que “os filhos não pagam pelos pecados dos pais”, e, de outro, dizer que “a cegueira de nascença é produzida por pecados dos pais?”

Não será, porventura, uma injustiça e uma blasfêmia afirmar-se que, se os pais roubaram, injuriaram, mataram perseguiram, os filhos venham a sofrer as conseqüências destes desatinos, destes pecados, destes males praticados por seus progenitores?

Se Jesus disse aos seus discípulos que cada um é responsável por suas obras, como posso eu responder pelos pecados de meus pais?

Jesus nunca faltou com a verdade; sua palavra é de vida e de luz; nele não há trevas; como afirmar que a “cegueira pode ter como causa os pecados dos pais?”

Está escrito no trecho do Evangelho, que acima transcrevemos, que, havendo os apóstolos perguntado ao Mestre: “Quem pecou para que este homem nascesse cego, ele ou seus pais?”, Jesus respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais.”

Pela pergunta dos apóstolos compreendemos que eles acreditavam ser a cegueira de nascimento ocasionada, ou por pecados de pais, ou por pecado do próprio Espírito.

E pela resposta que Jesus lhes deu, também podemos compreender que essa crença não era destituída de fundamento, porque, se fosse, Jesus, que lhes estava ensinando, que era o Mestre de todos eles, lhes diria: “Errais, no vosso pensamento, porque o pecado dos pais não pode cegar os filhos, assim como ninguém pode pecar antes de nascer.”

Mas Jesus não lhes disse isto: deixou que alimentassem a sua crença, o seu modo de pensar, e se limitou a afirmar, quanto àquele cego, que: “nem ele pecara; nem seus pais, mas se havia produzido aquela cegueira para que as obras de Deus fossem manifestas”.

De fato, de acordo com os ensinos do Cristo, iluminados pelo Espiritismo, os filhos não podem pagar pelos pecados dos pais, mas os pecados dos pais podem chegar ao auge de cegar os filhos.

Eis aqui a interpretação da crença dos apóstolos, que Jesus não quis destruir: Se os pais furtam, os filhos não são responsáveis pelo furto; se eles matam, os filhos não são responsáveis pela morte; se eles mentem, caluniam, difamam, os filhos não têm de responder pela mentira, pela calúnia, pela difamação; mas se os pais educam os filhos nessas paixões, nesses vícios, esses defeitos dos pais se refletem nos filhos e os filhos pagam as conseqüências funestas dessa má educação; pela mesma forma, os pais têm de prestar severas contas a Deus pelas faltas que seus filhos praticarem, visto serem elas causadas pela educação que receberam no lar.

De modo que, quer falando moralmente, quer falando espiritualmente, os pais são condenados pelas faltas dos filhos, e os filhos são condenados pelas faltas dos pais

Conta-se a história de uma mulher que nunca soube dar educação ao filho e que, tornando-se este ladrão e assassino, fora condenado à forca. Solicitado, como era de uso noutros tempos, a fazer o seu último pedido, disse ter desejo de beijar sua mãe antes de morrer. Foi-lhe dada permissão e para tal fim fizeram a velha subir as escadas da forca, onde se achava o filho prestes a ser executado. Ele abraçou a mãe, e, chegando o seu rosto ao dela, com os dentes arrancou-lhe um pedaço de carne da face, e disse: “Tu és culpada do meu suplício; ele é o resultado da educação que me deste.”

Eis aí um fato que resume milhares de outros fatos que se verificam no mundo: de filhos sofrerem o pecado dos pais e pais sofrerem o pecado dos filhos.

Assim como acontece no plano moral, também acontece no plano espiritual.

Haverá mal que mais tenha feito sofrer os filhos do que a “religião” chamada “dos nossos pais?”

Não é este o maior dos pecados dos pais, pelo qual pagam os filhos?

O que acontece aos filhos de católicos e de protestantes que herdam, como se a religião fosse dinheiro, casa ou fazenda, a “religião de seus pais”?

Nós, que temos tido a felicidade de estar em relação com o mundo espiritual e de conversar com os “mortos”, sabemos bem de perto quão grandes são os sofrimentos dos que carregam para o Além-Túmulo essa herança sem valor. Embora os comunicantes não deixem de ser Espíritos de certa categoria, passam muito tempo em grande perturbação; caminham de um lado para outro sem encontrar o Céu, o Inferno e o Purgatório, que haviam recebido por “herança” de seus pais; e começam a verificar que os sacramentos que receberam nenhum benefício lhes fez, e até despertarem desse terrível pesadelo, bebem o fel que lhes foi dado, em vez da água pura da Revelação Espiritual! E a dor por que passam também os pais, perturbados, ao verem assim alucinados seus filhos, a ponto de não os conhecerem, nem quererem ouvi-los, para se iniciarem na Vida Espiritual!

Mesmo excluindo esse quadro muito comum, que se desenrola no outro plano da Vida, não será um sofrimento atroz para um pai, pensar que seu filho foi para o “Inferno Eterno”, que lhe ensinaram existir do outro lado do túmulo? Ou então o filho que vê morrer seu pai ou sua mãe, julgar esses entes queridos condenados para sempre ao Reino de Plutão?

Eis como o pai paga pelo filho, e o filho pelo pai.

Quando Jesus disse que: “quem amasse mais a seu pai, a sua mãe, a seus irmãos, a seus amigos, do que a Ele não seria digno dEle”, quis afirmar que o pecado de crenças falsas e preconceitos dos pais é tão venenoso, tão prejudicial, que chega a contaminar os filhos, obscurecendo-lhes a visão da Vida Espiritual.

Donde vêm as guerras, o ódio, o egoísmo, as dissenções? Não será das más crenças dos pais, refletindo-se nos filhos?

Diz a sentença popular: “tal pai, tal filho”, fazendo alusão a essa herança prejudicial que impede o progresso da família e da sociedade.

Encontrando Jesus o “cego de nascença”, viu logo que a cegueira era de nascimento e não provinha do pecado dos pais, por isso deliberou curar o cego.

Se a cegueira desse cego viesse do pecado dos pais, é bem possível que o Mestre não se arrojasse a fazer tão dificultosa cura.

De quantos cegos espirituais está cheio o mundo, sem que o próprio Jesus atualmente os possa curar!

E isso por que? Porque a cegueira é proveniente do pecado dos pais; a “religião enganosa” dos pais fez belidas nos olhos dos filhos; e como a vista é coisa melindrosa, eles não permitem que se lhes tire a catarata.

A cegueira pode ter por causa o pecado do próprio cego.

Como analisar esta hipótese sem admitir a lei da Reencarnação?

Como pode Deus criar uma alma pecadora, e, por ser pecadora, condená-la à cegueira?

Admitindo uma única existência terrestre para cada indivíduo, não se explica porque uns nascem cegos, outros surdos, outros aleijados, outros idiotas, outros estúpidos; ao passo que outros são sadios e inteligentes!

As religiões dominantes não explicam essas anormalidades.

Encarando-se a questão em face da Filosofia Espírita, aquilo que parecia hipótese, o viver muitas vezes na Terra, torna-se realidade. Chega-se à conclusão de que o Espírito já existia antes do nascimento do corpo, e continua a existir depois da morte desse mesmo corpo, e, por uma série de vidas sucessivas, se vai aperfeiçoando, passando por provas necessárias ao seu progresso e adquirindo conhecimentos indispensáveis à sua evolução.

O que é deformado fez mau uso dos seus membros; o aleijão é o resultado do mau emprego dos órgãos que o Espírito fez, quando encarnado de outra vez na Terra.

A língua foi dada ao homem para falar bem; se ela falar mal, estará desviando o seu Itinerário e paralizar-se-á um dia, como a locomotiva fora dos seus trilhos.

Os olhos são duas luminárias para guiar o corpo, como diz o Evangelho — se eles não desempenham esses mister, se escurecem.

É a isto que se chama “cegueira produzida pelo próprio cego”.

Entretanto este pecado é mais fácil de extinguir-se do que o outro, esta cegueira é mais fácil de ser curada do que a outra, que resulta do pecado dos pais, porque quando foi o próprio cego que pecou, o pecador é um só, e quando foram os pais que pecaram, os pecadores são três: o pai, a mãe e o filho; o pai porque ensinou, a mãe porque confirmou, o filho porque aceitou e referendou o pecado, passando-o à sua descendência.

De cegos por pecados próprios, diz o Evangelho haver Jesus curado muitos durante a sua peregrinação na terra. Além daqueles a quem abriu os olhos diante dos mensageiros de João Batista e em outras ocasiões narradas pelos Evangelistas, refere Mateus que, logo após a ressurreição da filha de Jairo, curou a dois que O seguiam e clamavam: “Filho de Davi, tem compaixão de nós”.

Quando Jesus passava na Estrada de Jericó, outros dois clamavam: “Filho de Davi, tem misericórdia de nós.” E o Divino Mestre fê-los recuperar a vista.

Passemos à terceira hipótese:

A cegueira de nascença é graça de Deus para que suas obras sejam manifestas

Todas essas doenças incuráveis que Jesus curou, durante a sua passagem por este mundo, são graças de Deus; e os doentes, longe de serem pecadores ou sofrerem a conseqüência do pecado de seus pais, eram Espíritos missionários, Enviados para que neles as obras de Deus fossem manifestas. Foi isto que Jesus quis dar a entender, quando curou o “cego de nascença”, e disse, em primeiro lugar, “que nem ele nem seus pais pecaram, mas deu-se isso para que as obras de Deus fossem manifestas”; e, em segundo lugar, quando mandou o “cego” lavar-se na piscina de Siloé.

Siloé quer dizer Enviado, e mandando Jesus lavar-se o cego naquela piscina, quis mostrar a seus discípulos e aos mais, que assistiam à cura, que aquele “cego” era “Enviado”. Enviado para que as obras de Deus fossem manifestas publicamente por seu intermédio.

Passemos agora ao cego propriamente dito.



Exame feito no cego.

Jesus passou, viu um homem cego, viu que a causa da cegueira não era pecado próprio do cego, nem de seus pais.

Viu mais, que a cegueira, em vez de ser treva, era luz, e deliberou curar o homem, porque, curando-o, as obras de Deus seriam manifestas.

Havia muitos anos vivia o homem que era cego, e vivia andando pelas ruas porque era mendigo e esmolava.

Todos os dias os fariseus encontravam esse homem e nunca se deram ao incômodo de examiná-la, nem de tentar curá-la. Foi preciso que os vizinhos do cego o levassem à sinagoga, à igreja, para ser examinado pelos sacerdotes do farisaísmo que, apesar de todos os testemunhos de cegueira, não quiseram crer que o homem tivesse sido cego de nascença!

Inquiriram as testemunhas, mas não creram nas testemunhas; inquiriram os pais do cego, e não acreditaram nos pais do cego; inquiriram o cego e não acreditaram no cego; finalmente, por causa de todas as informações e afirmações, o cego foi expulso da igreja!

Sabendo Jesus disso, deliberou dar uma lição aos fariseus, pois era mister fazer a obra de Deus resplandecer ainda com mais intensidade.

Chamou, então, o que fora cego e lhe perguntou: “Crês tu no Filho de Deus?” “Quem é ele Senhor?”, perguntou o cego. “Sou eu que falo contigo”, respondeu Jesus. o homem que fora cego tornou: “Creio Senhor, e o adorou Jesus então disse abertamente: Eu vim a este mundo para um juízo, a fim de que os que pão vêem vejam; e os que vêem se tornem cegos.

Esta sentença mostra a justiça dos desígnios de Deus e a sua admirável sabedoria.

O cego que era pobre, que mendigava, despido de sabedoria, de aparatos, fora da igreja, foi curado, viu Jesus, afirmou sua crença no Filho de Deus e o adorou.

Os fariseus, que não eram cegos, que não eram pobres, que não mendigavam, que eram cheios de sabedoria terrena, que eram sacerdotes e estavam dentro das igrejas, viram Jesus, mas não creram em Jesus, não o receberam e até o perseguiram e crucificaram!

Que triste contraste entre os fariseus e o cego!

E por que é assim? Porque o cego se fez cego por amor à glória de Deus, para que a glória de Deus fosse manifesta; ao passo que os fariseus se fizeram videntes por ódio à glória de Deus, para que a glória de Deus não fosse manifesta.

O que não via começou a ver, e os que pensavam ver se tornaram cegos! Cegos, completamente cegos; cegos da pior espécie de cegueira: a cegueira espiritual, moléstia que permanece na Vida Eterna!

Tão cegos eram os fariseus, e tanto mais cegos se tornaram, que chegaram ao auge de não mais se conhecer e de nem mesmo saber que eram cegos! Tal foi a confusão em que se achavam que perguntaram à Jesus: “Porventura somos nós também cegos?”

E Jesus respondeu-lhes, fazendo alusão ao cego de nascença a quem havia curado, porque não tinha pecado e por ser necessária a manifestação das obras de Deus “Se fôsseis cegos não teríeis pecado algum, mas o vosso pecado fica subsistindo, porque vós dizeis: Nós vemos.”

Mas, que viam os fariseus?

Viam o mundo, viam as ruas, viam as casas, viam as coisas da Terra, viam o dinheiro!(14)

Mas, será isto, verdadeiramente, ver? Se assim é, qualquer asno também vê. O asno também vê as ruas, as casas, os carros.

Os fariseus viam como vêem os asnos, mas não viam como vêem aqueles que querem ver manifestas as obras de Deus. Na verdade, eles não viram Jesus, não viram a cura do cego, não viram o cego, não viram as obras de Deus que foram manifestas a todos! Entretanto, o cego fora curado diante deles, Jesus estava à sua frente, e as obras de Deus foram manifestas ante os seus olhos!

As graças de Deus luzes que nos iluminam o caminho da Vida, que nas mostrem as obras divinas, desvendando-nos o reino da felicidade imortal.

Quem ama a Deus e procura cercar-se de suas obras, se é cego, fica vendo; se é surdo, ouve; se é mudo, fala; porque as obras de Deus vivificam os nossos sentidos para nos extasiar com as suas maravilhas.




VIDA E DESTINO

“Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim, são ladrões e salteadores. Eu sou a porta: se alguém entrar, por mim, será salvo; e entrará, sairá e achara pastagem. O ladrão não vem senão furtar, matar e destruir; eu vim para que elas tenham vida e a tenham em abundância.”

(João X, 8-10.)
A vida é uma luta acérrima, um caminhar incessante para a realização do destino. O destino é a luz que, quanto mais dela nos aproximamos, mais clareia e realça os horizontes da vida.

A vida material tem nascente e ocaso: nasce com as carícias promissoras da aurora; morre abafada nas trevas da noite!

E a vida nasce e renasce tantas vezes quantas são as areias do mar e os átomos do ar!

Na Terra imperam ai alternativas: o dia estende seu luzente lençol de gaze, iluminando, aos olhos humanos, as belezas da Natureza; a noite obumbra as alegrias e as esperanças com o seu manto tenebroso.

No alto fulgem estrelas, mas se avolumam nuvens; ora, a aragem derrama fluidos nas pétalas das rosas e dos jasmins, perfumando a atmosfera; ora, estrugem os raios concentrando a seiva das plantas no caule trêmulo de terror!

Nas fases tão diversas da vida terrestre, à pureza dai ma sucedem as paixões malsãs, e, a estas, a enfermidade e a velhice acabrunhadora.

Enquanto louras crianças correm e folgam nos prados atapetados de musgos e sombreados por arvoredos, e os moços fascinados pelas grandezas e dominados pela volúpia embrenham-se nos tremedais, os velhos e desvalidos curvados ao peso dos anos e das dores, caminham para o túmulo na esperança do renascimento!

Na alegria e na tristeza, na abastança e na miséria, na velhice e na mocidade, na saúde e na enfermidade, na :sabedoria e na ignorância, na vida e na morte, o Espírito pode paralisar a sua marcha ascensional para a Verdade, mas não se exime do seu destino!

Nas encostas das montanhas também raiam claridades e descem chispas luminosas.

A luz do destino projeta auroras do nascimento à morte e realça, na sua plenitude, os horizontes da Vida Eterna.

Tenhamos fé: a vida é luta acérrima para a conquista da perfeição; o destino é grandioso e acena com promissoras felicidades. Tudo caminha para a luz!

No caminho palmilhado pelo Cristo, brilham as verdades precursoras do destino; Ele é a Luz que clareia aos homens o roteiro da perfeição; nele está a Vida de todas as grandes almas; Ele é o caminho, a Verdade e a Vida; Ele nos guia para o destino e o destino é a Vida Eterna, onde reinam as mais perenes felicidades.

Tenhamos fé e caminhemos na Luz da Vida pelo caminho traçado por Jesus; Bom Pastor, ele quer que tenhamos vida, e nô-la dá em abundância!


AS CONVERSÕES NA HORA DA MORTE

“Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se alguém andar de noite tropeça, porque nele não há luz.”

(João XI, 9-10.)
Um dos fatos significativos que se tem observado nas religiões dos homens, e com muita especialidade na Igreja Romana, é o da conversão do herege nas proximidades da morte.

Esses fatos são mesmo comuns, seja porque o refratário à crença, ao aproximar-se a hora fatal agarra-se a todas as tábuas que julga de salvação e declara-se convertido; seja porque, mesmo contra a vontade do delinqüente, e quando se trata de personagem de renome, a Igreja o torna converso.

O fato é que escritores materialistas, livres-pensadores, que passaram a vida inteira negando os “santíssimos sacramentos” da Igreja, e até viveram em atitude hostil aos reverendíssimos prelados, na antevisão da morte aproximam-se, ou diz-se que se aproximaram da Religião de Roma, e, alguns, da Religião Protestante.

Parece uma lei fatal, que em Psicologia poder-se-ia chamar de inversão de idéias, essa que desune os sábios e pensadores personalistas da Igreja, e, in-extremis, os une de novo, como logo após ao batismo da pia.

O fenômeno, entretanto, é perfeitamente explicável.

O indivíduo que pertencia à Igreja por herança ou doação, que lhe fizeram seus antepassados, chegando a idade da razão, não se conforma com os artigos de fé que lhe foram impostos; considera-se, ou consideram-no excomungado, e na expansão do gênio, seja na Arte, na Ciência ou na Filosofia, alveja com certeiras setas os dogmas sacerdotais. E quando o estro declina e desaparece, como uma chama, por falta de combustível, torna ao seu primitivo ponto, inconsciente, como era antes quando dileto filho da Igreja!

Entretanto, convém não esquecer que nenhum sábio, filósofo, artista ou douto, quando em plena cerebração de suas idéias geniais, tomou a sério o problema do ser e do destino, e mesmo em suas palavras escritas e verbais, quando alguém fazia referência à divindade, não se mantinha na altura de verdadeiro filho de Deus.

Esta proposição é digna de nota.

Cada um deles, salientando-se o mais possível em sua esfera de ação, criava religião pessoal que, forçosamente, teria de ser absorvida por outra do mesmo gênero, humana, que contasse maior influência, maior número de indivíduos, como mantenedores materiais e morais de tal sistema

O número é sempre vencedor, a força maior vence a menor; enquanto a ação perdura, perdura a reação, mas quando aquela declina, esta vence; e assim a religião do número tem vencido.

O poeta na expansão do seu estro, o músico e o pintor absorvidos pela melodia de sons e harmonia das cores, o filósofo abstraído com a ética dos indivíduos, o sábio fascinado pelas maravilhas da criação, o douto extasiado com as letras, encerrado nas bibliotecas, cada qual compenetrado das funções que lhe exalta a personalidade, esquecem-se dos deveres espirituais para consigo, para com seus semelhantes, para com Deus!

Então cada um cria o seu deus, a quem erigem altares, onde eles próprios são louvados como criadores, em detrimento do Criador!

Quando chega o momento da desilusão, em que a musa se esvai, os ouvidos se cerram, a vista escurece, a razão adormece, a Ciência se torna bastarda e a sabedoria não corresponde às exigências da alma, desaparece o deus que criaram, abatem-se os altares, e eles, retrocedendo à crença hereditária, batem às portas das Igrejas, que muito se honram em contar como filhos, embora mortos, tão grandes personalidades!

Não é a alma, em busca da salvação, que à Igreja causa regozijo, mas a honra do nome do morto, que lhe satisfaz o orgulho!

A sensibilidade é como a infância: entrega-se inconscientemente forçada pelas circunstâncias, como o recém-nascido ao batismo sectário.

Na véspera da morte física, como no começo da vida terrena, o homem, que não descortinou os horizontes da alma, da Imortalidade, não inquiriu os arca nos celestes, as magnificências de Deus, é sempre o mesmo: infantil em seu nascimento, infantil em sua decrepitude.

“Se alguém andar de dia não tropeça, porque vê a luz do mundo mas se alguém andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.”

Não é a Arte, a Poesia, a Ciência, a Filosofia, a eloqüência, a sabedoria terrena que dão a luz espiritual; não são os títulos honoríficos, auríferos e doutorais que abrem os olhos da alma; não é a água, o sal, o óleo e meia dúzia de palavras em língua morta, mas sim o estudo imparcial da religião, estudo isento de preconceito e de personalismo; é o estudo humilde com o propósito de conhecer a verdade para abraçá-la, é a submissão aos desígnios de Deus, Causa Eficiente de tudo quanto existe.

A lei fatal do arbítrio, do estudo, do trabalho, do livre-exame e sobretudo da vivência cristã obriga a grandes e pequenos, sábios e ignorantes.

Não há doze horas no dia? Pois, estuda, trabalha, examina e pesquisa enquanto te favorece a razão, para que, quando te faltarem as forças e a morte de ti se aproximar, não te atemorize nem te trague nas trevas!




NAS PEGADAS DE JESUS

“Tenho-vos dito estas coisas estando ainda convosco; mas o Parácleto, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”

(João, XIV, 25-26.)
A Religião de Jesus é a eterna Religião da Luz e da Verdade. Ela não se limita à prática de simples virtudes, tal como os homens a julgam. Abrangendo os amplos horizontes da Vida Espiritual, ensina-nos os meios indispensáveis para a aquisição da Imortalidade.

A Religião de Jesus não desaparece no túmulo, mas ergue-se como um Sol majestoso além da campa; onde tudo parece mergulhar em trevas, no nada, a Verdade, a Vida se manifesta com todo o fulgor!

A Religião de Jesus não é a Religião da Cruz, mas a Religião da Luz! Não é a Religião da Morte, mas a da Vida! Não é a Religião do Desespero, mas a da Esperança! Não é a Religião da Vingança, mas a da Caridade! Não é a Religião dos Sofrimentos, mas a da Felicidade!

A morte, o desespero, o martírio, os sofrimentos, são oriundos das religiões humanas, assim como a Cruz é o instrumento de suplício inventado pelos carrascos da velha Babilônia, da Roma Primitiva, cujos senhores massacravam corpos e almas, infringindo os preceitos do Decálogo.

A Religião de Jesus não é a Religião da Força, mas sim a Religião do Direito.

Quando as multidões absortas se aproximavam do Mestre querido, para ouvirem suas prédicas ungidas de Fé, perfumadas de Caridade e cintilantes de Esperança, nunca o Moço Nazareno lhes acenou com uma Cruz; nunca pretendeu colocar sobre os ombros de seus infelizes irmãos o peso do madeiro infamante.

Ao contrário, atraía-os com olhares de piedade e em suas sublimes exortações, em seus amorosos conselhos, para todos tinha palavras de perdão, de afeição, de consolação.

Aos aflitos e desanimados dizia: “Vinde a mim vós que vos achais sobrecarregados; aprendei de mim. Que sou humilde e manso de coração; tomai sobre vós meu jugo, que é suave, meu fardo, que é leve, e achareis descanso para as vossas almas.”

A grande missão de Jesus foi abater todas as cruzes que o mundo tinha levantado; foi arrasar todos os calvários. Ele foi o portador do bálsamo para todas as feridas, do consolo para todas as aflições, da luz para todas as trevas.

Só aquele que tiver a ventura de percorrer as páginas do Novo Testamento e acompanhar os passos de Jesus desde o seu nascimento até à sua morte e gloriosa ressurreição, bem poderá avaliar no que consiste a Doutrina do Ressuscitado.

É admirável ver o Grande Evangelizador no meio da plebe maltrapilha, repartindo, com todos, os tesouros do seu amor! Falava-lhes a linguagem do Céu; convidava-os à regeneração, à perfeição; fazia-lhes entrever o futuro cheio de promessas salutares; animava-os a buscarem as coisas de Deus; finalmente, procurava gravar naquelas almas, turbadas pelo sofrimento, o benévolo reflexo da Vida Eterna, que ele tinha por missão oferecer a todas as almas.

Jesus não foi o emissário da espada, o gladiador que leva o luto e a morte à família e à sociedade; mas sim o Médico das Almas, o Príncipe da Paz, o Mensageiro da Concórdia; o Grande Expoente da Fraternidade e do Amor a Deus.

Ao longo das estradas pedregosas por onde passou, pelas cidades e aldeias o Mestre concitava os seus ouvintes a serem bons, apontava-lhes os tesouros do Céu e a todos garantia o auxílio desse Deus Invisível, cujo amparo se estende aos pássaros do céu, aos lírios dos campos.

Após o seu admirável Sermão do Monte, e para demonstrar a ação de suas palavras, cura um leproso que, prostrado a seus pés, o adora, dizendo: “Senhor, se quiseres, bem me podes tornar limpo!”

Na sua viagem para Cafarnaum, um centurião aproxima-se dele, pede-lhe a cura de um seu criado: a milícia celestial se agita e o doente se restabelece.

Chegando à cidade de Cafarnaum, entra em casa de Pedro e encontra de cama, presa duma febre maligna, a sogra deste. Imediatamente, ao toque de suas mãos compassivas, a pobre velha se ergue.

Acompanhado de seus discípulos, numa barca no Mar da Galiléia, a tempestade se desencadeia, o vento sopra rijo e as ondas se encapelam. Os discípulos, tomados de pavor, apelam para o Mestre, e a uma palavra sua os ventos cessam, o mar se acalma.

Chegados à outra banda, ele expele uma legião de Espíritos malignos que obsidiavam um pobre homem.

Ao sair novamente da terra dos gadarenos e de volta a Cafarnaum, uns homens se aproximam do Nazareno e levam-lhe um paralítico que jazia em um leito. O doente recebe o perdão de suas faltas e o homem, curado, rende graças a Deus.

Jairo, um chefe de sinagoga, sabendo os grandes prodígios operados por Jesus, corre ao seu encontro, pede-lhe libertar sua filha da morte. Enquanto Jesus caminha para a casa de Jairo, uma mulher que sofria, havia doze anos, moléstia incurável, toca-lhe na túnica e sara. Chegado o Mestre à casa do fariseu, livra a mocinha das garras da morte!

Eis que Jesus sai da casa de Jairo, dois cegos correm após o Mestre, clamando: “Filho de Davi, tem misericórdia de nós!” Seus olhos se abrem e eles saem a divulgar, na Galiléia, as grandes coisas que o Senhor lhes fez.

No mesmo instante um grupo de homens traz ao filho de Deus um mudo endemoninhado; Jesus expulsa o Espírito maligno e o mudo recupera a fala!

E à proporção que as graças eram dadas, a multidão crescia, porque nelas crescia a Palavra de Deus; e Jesus andava por toda parte anunciando a todos o Reino de Deus: contava parábolas, fazia comparações e, sob a forma de alegoria, transfundia nas almas a Vontade Suprema para que todos, removendo obstáculos, pudessem, com o auxílio divino, libertar-se dos sofrimentos acabrunhadores por que passavam.

Durante um longo período de três anos consecutivos, Jesus, todo dedicado à alta missão que tão bem desempenhou, não perdeu um só momento para deixar bem esclarecida a sua tarefa libertadora.

Grande Reformador Religioso, aboliu todos os cultos, todos os ritos, todos os sacramentos de invenção humana, que só têm servido para dividir a Humanidade, formar seitas, constituir partidos, em prejuízo da unificação dos povos, da fraternidade que ele soube proclamar bem alto.

E foi por isso que fariseus e escribas, sacerdotes, doutores da lei e pontífices congregados em conciliábulo maléfico, concitaram a turba bestializada contra o Meigo Rabino, e, unidos aos Herodes, aos Caifases, aos Pilatos e Tartufos; uns por malevolência sanguinária, outros por ambição e orgulho, outros por avareza, vil mercancia, covardia e subserviência, levaram o Meigo Evangelizador ao Patíbulo infamante, torturando-o com morte acintosa.

Mas o triunfo da Verdade não se fez demorar; quando todos julgavam morto o Redentor do Mundo, quando julgavam haver abafado a sua Doutrina de Amor, eis que a Pedra do Sepulcro, onde haviam depositado o corpo do Moço Galileu, estremece ao toque de dois luminosos Espíritos; a cavidade da rocha se mostra vazia; Jesus aparece a Maria Madalena, ressoa por toda parte o eco da Ressurreição!

Triunfante das calúnias, das injúrias, dos tormentos, dos suplícios, da morte, o Filho Amado de Deus reenceta suas substanciosas lições, embalsamando seus amorosos discípulos com os eflúvios da Imortalidade, únicos que nos garantem Fé viva, Esperança sincera e Caridade eterna!

Não valeu a prevenção dos sacerdotes, a ordem de Pilatos; não valeram os selos que lacravam o sepulcro e os soldados que o guardavam; no alvorecer do primeiro dia da semana tudo foi derribado, e o Cristo, ressuscitado, voltou à arena mundial, vitorioso na luta contra os seus terríveis algozes!

E em sua narrativa cheia de simplicidade, diz o Evangelho, por todos os Evangelistas, que o Cristo Jesus apareceu depois de morto, comunicou-se com os onze apóstolos, apareceu aos demais discípulos, e, depois, a mais de quinhentas pessoas das cercanias de Jerusalém; explicou-lhes novamente as Escrituras, repetiu-lhes a sua Doutrina, que não pode ficar encerrada num túmulo, nem numa Igreja; produziu diante deles fenômenos estupendos, como a Pesca Maravilhosa, anunciou-lhes todas as coisas que deviam acontecer, garantiu-lhes a vinda do Consolador, prometeu-lhes, além disso, a sua assistência até a consumação dos séculos, não só a eles, mas a todos os que lhe seguissem os passos e alou-se às altas regiões do Espaço, donde velaria por todos.

A Religião de Jesus não consiste em dogmas e promessas falazes; é a Religião da Realidade.

Religião sem manifestações e comunicações de Espíritos, é a mesma coisa que cidade sem habitantes ou casa sem moradores.

A Religião consiste justamente nessa comunhão de Espíritos, nesse auxílio recíproco, nessa afeição mútua.

Por que é o Cristo a nossa esperança e a nossa fé? Porque lhe dedicamos amor, respeito, veneração? Porque nele confiamos nas nossas aflições? Porque lhe fazemos preces? Porque lhe devotamos admiração e lhe rendemos graças?

Porque sabemos que ele pode e vem iluminar-nos a vida, robustecer-nos a crença, proteger-nos e amparar, auxiliar-nos e acariciar, como um pai devotado proporcionaria a felicidade e o bem-estar a seus filhos.

Pois, sendo Cristo as primícias do Espírito, como afirma o Apóstolo Paulo; estando nós certos de que Ele ressuscitou, apareceu, comunicou-se, porque não podem fazer o mesmo aqueles Espíritos que nos foram amigos, parentes, aqueles que viviam conosco, mantendo mútua afeição?

Na Epístola aos Coríntios diz o Apóstolo da Luz: “Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou e é vã a nossa fé.”

A ressurreição do Cristo implica a ressurreição dos mortos; e se fosse contrária à Lei de Deus, a manifestação, a aparição, a comunicação dos mortos, Jesus teria infringido essa Lei; teria ido de encontro ao seu primeiro mandamento, que diz termos obrigação de obedecer ao nosso Pai Celestial, amá-la de todo o nosso coração, entendimento e alma e com todas as nossas forças!

Mas já que o Cristo apareceu e se comunicou, é sinal certo de que a Lei de Deus consiste na comunicação dos Espíritos. Jesus não invocou, no Tabor, os Espíritos de Moisés e Elias?

Esta é a Religião de Jesus, pois se baseia em fatos irrefutáveis; esta é a Religião da Fraternidade, porque tem por base a afeição verdadeira, que não termina no túmulo; seguir as pegadas de Jesus é o bastante para que sejamos por ele guiados e vençamos também como ele venceu, a morte, com o triunfo da Ressurreição.



O SERMÃO DO CENÁCULO

(João, XIV - XVIII.)


O Sermão do Cenáculo é tão importante, edificante e substancial quanto o Sermão do Monte.

Este é a entrada do Espírito na Vida Perfeita; aquele é a força, a esperança e a fé para prosseguirmos nessa tão gloriosa senda.

O Sermão do Monte é a prédica pública, dirigida à multidão que, sequiosa da Verdade, corria pressurosa a beber, na fonte primordial, os ensinos que lhes aclaravam o entendimento e lhes afagavam o coração oprimido.

O Sermão do Cenáculo é o conjunto de conselhos, exortações e recomendações que Jesus dirige particularmente àqueles que, de fato, querem ser seus discípulos.

Leiam os capítulos XIV, XV, XVI e XVII de João e verão nesse discurso de Jesus, a bela, insofismável, concisa e maravilhosa Doutrina Cristã que o Respeitável Mestre fundou na Terra.

O Lava-pés e a Ceia não passam de símbolos, pretexto para a reunião, onde o Mestre deveria exortar, consolar e fortificar seus discípulos, para que, com fé e coragem, resistissem às provas por que iriam passar com a Tragédia do Gólgota.

O principal de tal reunião não consiste, pois, na Ceia e no Lava-pés, como julgaram as Igrejas e os sacerdotes. O principal consiste nos Ensinos que dai decorrem, como luzes cintilantes, através das páginas dos Evangelhos.

Depois de haver Jesus repartido com aqueles que deveriam cuidar da sua Doutrina, o Pão, que para Jesus simbolizava a mesma Doutrina, e o Vinho que, como essência da Vida, representa o Espírito que há de vivificá-la sempre; depois de, munido de uma bacia e cingido de uma toalha, lavar e enxugar os pés de todos, em sinal de humildade e pureza dai ma, começa o seu memorável discurso com as doces palavras de resignação, conforto e esperança: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus? Crede também em mim; na Casa de meu Pai há muitas moradas...” E prosseguindo em seus ditames garante-lhes que, nem ele, Jesus, deixaria de os assistir e proteger, como” também sob a sua direção, o Pai Celestial lhes enviaria o Espírito Consolador, cuja falange de Mensageiros os auxiliaria na sua gloriosa tarefa.

Jesus proporciona-lhes toda a sorte de auxílio, garante-lhes todas as bem-aventuranças, diz-lhes que continuaria a viver, voltaria, se manifestaria e lhes daria assistência por todos os séculos dos séculos!

Faz ainda mais; avisa-lhes que não se manifestaria ao mundo, porque o mundo não estava preparado para recebê-lo; os homens não tinham os “corpos lavados” quanto mais os pés para seguí-lo. Garante, por fim, a seus futuros apóstolos, o Amor de Deus, e acrescenta que tudo o que lhes havia dito fora com o assentimento do Pai: que a Palavra não era sua, mas sim de Deus.

Após este substancioso intróito, transfundiu em seus discípulos o espírito vivificante da fé na imortalidade e, em forma de Parábola, prosseguiu em suas exortações.

Começa o Mestre comparando-se a uma Videira, e “ anuncia que é a “Verdadeira Videira”.

A videira é composta de tronco, galhos, folhas, frutos. Os galhos saem do tronco e têm por fim produzir folhas: e frutos.

Assim também seus discípulos devem estar unidos a ele, como os galhos à videira, e para permanecerem na Videira precisam dar frutos, como galhos que são da Videira Verdadeira. E faz-lhes ver que a “vara que não der frutos será cortada e lançada fora”, mostrando assim a necessidade do trabalho espiritual para a frutificação da virtude. E assim como o galho, a vara recebe a seiva da videira, labora, manipula-a para que brotem frutos, — as uvas — assim também os apóstolos ou discípulos recebem o Espírito da Fé do seu Mestre, para trabalharem com esse Espírito, abençoada seiva, a fim de brotarem os frutos desse labor.

A fim de melhor frisar a necessidade do cumprimento desse dever, Jesus diz que o Viticultor da Videira, representado nele, é o Pai Celestial, é o Criador de todas as coisas, é, finalmente, Deus.

Com esta afirmação o Mestre quis dizer que sua obra é divina, celestial e, portanto, nenhuma potestade conseguirá destruí-la, pois o Viticultor não deixará de zelar pela sua Videira.

Então o Senhor abre a seus seguidores o seu amoroso coração, embalsamado dos mais puros sentimentos e dos mais vivos afetos e lhes diz: “Assim como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor; e se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.”

Disse mais: que eles só seriam seus amigos se fizessem o que ele lhes ordenara, e passou então a preveni-los do que lhes estava para acontecer: “que o mundo os aborreceria, que eles seriam perseguidos, mas não se dessem por vencidos, porque venceriam”.

Insistiu tenazmente para que todos esperassem a “vinda do Espírito da Verdade, dos Espíritos encarregados de guiar seus passos, de lhes alumiar o Caminho, de lhes fortificar a Fé”. Disse que esses Espíritos dariam testemunho dele, e fariam mais ainda: “convenceriam o mundo do pecado, da justiça e do juízo”.

Determinou a seus discípulos dissessem às gerações não ter ele dito a última palavra, mas, ao contrário, haver ainda muita coisa a dizer; não o fazia porque eles não compreenderiam, mas o Espírito da Verdade ficaria encarregado dessa missão; Apóstolos invisíveis estariam sempre com aqueles que quisessem receber a sua Palavra, e além de explicá-la a contento, anunciariam as coisas que teriam de acontecer.

Finalmente, o Mestre oferece, aos seus seguidores, sua Palavra de despedida; demonstra a sua compaixão por todos; exorta-os novamente para que se precavenham nas tribulações; anima-os à vitória; mostra-se-lhes como vencedor e lhes anuncia a aproximação da hora em que iam ser espalhados, cada um para o seu lado.

Conclui, afinar, a sua tocante prédica com uma prece, uma oração, um brado dalma para melhor santificar as suas palavras, para fazê-las vibrar na alma de seus discípulos, para unir aquela Igreja Nascente aos Agentes da Divina Vontade; para unir aquele punhado de homens, que para o futuro seriam baluartes da Verdade; finalmente, para lhes demonstrar que estava em íntima ligação com o Pai dos Espíritos e que dEle havia recebido todas as ordens.

É de ver que Jesus, nessa mesma prece, não só orou por aqueles que consigo se achavam; mas pediu até por nós, que meditamos hoje nos seus ensinos e por todos aqueles que mais tarde receberão esses ensinos.

Esses atos, essas palavras, esse espírito de dedicação, esse zelo sobre-humano, esse caráter edificante com que o Divino Mestre ilustrou todos os momentos de sua vida, ungidos sempre daquela caridade que excede a todo entendimento humano; essa prece extraordinária, admirável, em que, num colóquio de amor com o Supremo Criador, resumiu, deu conta da sua grandiosa missão e ao mesmo tempo solicitou para todos o amparo dos Céus, só podiam ser apreciados à luz do Espiritismo, porque é, na Verdade, esta Doutrina que estava destinada pelo próprio Jesus a transfundir na alma humana a seiva vivificante do Evangelho.

O Sermão do Cenáculo encerra, como o do Monte, todas as condições doutrinárias, para felicitar o homem na Terra e divinizá-lo nos Céus.

Quem ouve estas Palavras e põe em prática esses ensinamentos edifica sua casa sobre rocha; e embora soprem os ventos e corram as águas, a casa permanece e o amparo dos bons Espíritos nunca falta a seus moradores.




COMUNHÃO DE PENSAMENTO

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas; pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

(Mateus, XI, 29-30.)
“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que por meio da sua palavra hão de crer em mim; a fim de que todos sejam um, e que, como tu, Pai, és um em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho dado a glória que tu me tens dado, para que sejam um como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que sejam aperfeiçoados em um.”

(João, XVII, 20-23.)


“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”

(João, XIV, 6)


Comunhão vem do latim communio, que quer dizer, “sociedade, participação mútua”, e, segundo Cícero, “parentesco, relações comuns de opiniões e crenças”.

Pensamento é ato particular do Espírito, ou uma operação de inteligência.

Comunhão de pensamento é, portanto, participação do Espírito.

Comungar vem da palavra communicare, “comunicar, conversar, participar, corresponder-se”. O Pe. Manuel Bernardes diz:

“A confiança com que os santos da Terra se “comunicam com os santos do Céu.”

Garret diz: “Comungava silenciosamente comigo nestas graves meditações.”

Comungar em pensamento é ter o mesmo modo de pensar: a mesma crença religiosa, científica, política ou literária.

Os homens de ciência têm a sua exegese implacável; os literatos estão sujeitos a certas e determinadas regras; os políticos têm a sua comunhão exclusivista, e o sectarismo religioso a sua comunhão de pensamento intolerante, como se depara em nossos dias.

Mas o homem verdadeiramente religioso, discípulo de Jesus, deve comungar em pensamento com o seu Mestre.

Por isso é que o Nazareno assim se expressou: “A prendei de mim que sou humilde e manso de coração; tomai o meu jugo e o meu fardo; sede um comigo, assim como eu sou um com o Pai Celestial: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; só por mim ireis ao Pai.”

Se comungamos em pensamento com Jesus, estamos na Caridade, Deus Caritas est, e Deus nos dá a graça da sabedoria do Céu.

Para que comunguemos com os homens, em pensamento, é preciso que os homens comunguem em pensamento com Jesus.

Só em Jesus encontramos a força para domar as nossas paixões, só ele tem a Verdade que esclarece, a Vida que alimenta; só nele vemos o Caminho que nos conduz a Deus.

E para comungar em pensamento com Jesus é preciso estudar seus ensinamentos e pôr em prática suas ordenações.

A humildade, o estudo, o trabalho, o raciocínio, a boa vontade, a prece, são os elementos indispensáveis para chegarmos ao Mestre e com ele aprendermos a ser humildes e mansos de coração, para podermos desvendar as maravilhas da Vida Eterna!


CRUZ E CRUZES

“Eles tomaram a Jesus; e ele próprio carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, e em hebraico Gólgota, onde o crucificaram e com ele outros dois, um de cada lado e Jesus no meio.

“Pilatos escreveu também um título e o mandou colocar no alto da cruz; nele estava escrito: JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS.”

(João, IXX, 17-19.)


Cruz! Madeiro infamante, que serviste de instrumento ao suplício do meu Mestre! Símbolo de torturas e desventuras, emblema da malícia humana, invento satânico do ódio e da vingança, primórdio de todos os aparelhos, de todas as máquinas, de todos os utensílios, de todas as grades, de todos os ferros, lança, punhal, cutelo, que massacram corpos e espezinham almas! eu te maldigo; como a luz maldiz as trevas, como a verdade maldiz o erro como o amor maldiz o mal!

És tu, santo dos fariseus e custódia dos ignorantes que até hoje perambulas pelas estradas e pelas ruas, apregoando virtudes mortíferas, afamada pelos parvos e mercadores, depois da cena trágica do Gólgota; e pela magia de mil olhares em ti concentrados, arrastas todos os dias, às trevas do espaço, milhões de espíritos que gritam como um mocho agoureiro das necrópoles e esvoaçam, cegos como vampiros, sem arimo, sem alimento e sem repouso.

Maldita cruz! As tuas vítimas clamam pela minha voz, e as suas penas serão o juízo, perante as almas da tua condenação!

Cruz maldita do suplício da Palestina, que entravaste dois mil anos de progresso humano! Cruz que te firmaste irredutível ante a mais poderosa Vontade de Deus que se mostrou na Terra! Cruzes pequeninas, que participastes no massacre de ladrões, de adúlteros, de párias, de falsários; cruzes de todos os tamanhos que consumastes as obras dos teus inventores, servindo de patíbulo para os inovadores, os descobridores, os gênios propulsores da evolução mundial; caí, malditas, quebrai os vossos braços, debulhai as vossas células e desaparecei no inferno do nada! Soprai, ventos do Progresso! Livrai do nosso planeta as larvas dessa esfinge que caiu; iluminai, sóis da Espiritual idade, para que ó disco da morte se apague das consciências e não mais obsedie as almas com as suas miragens enganosas!

Cruz traiçoeira, mãe de todas as cruzes, que falseaste a Justiça e Misericórdia de Deus, cai, e na tua queda fragorosa esmaga os Herodes, os Caifases, os Anases que cultuam os teus dons, que incensam as tuas virtudes, que endeusam o teu nome, que lutam, que trabalham, que se esforçam para ver-te de pé como atrativo ao seu domínio, como sugestão da tua força; cai, some-te, e arrasta-te para as tuas trevas com teus turiferários; desaparece com o Dragão que estende seus tentáculos pela Terra toda!

Cai, madeiro infamante! Quebra os teus braços; desagrega as tuas moléculas...

A brisa serena da madrugada já se faz sentir, e os arrebóis promissores do sétimo dia despontam belos e esplendorosos nos horizontes do nosso mundo.

A cruz, emblema da morte, vai cair, para dar lugar ao Espírito, personificação da ressurreição. . .




CRISTIANISMO E IMORTALIDADE

“Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé compraram aromas para ir embalsamá-lo. Muito cedo, no primeiro dia da semana, foram ao túmulo, tendo já saído o Sol. E diziam entre si: Quem nos há de remover a pedra da entrada do túmulo? E olhando notaram que a pedra já estava removida; pois era muito grande. Entrando no túmulo, viram um moço sentado ao lado direito, vestido de um alvo manto e ficaram atemorizadas. Ele lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; ele ressurgiu, não está aqui; vede o lugar onde o puseram. Mas ide dizer a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis, como ele vos disse. E saindo, fugiram do túmulo porque o temor e o espanto as tinham acometido, e não disseram nada a ninguém porque estavam possuídas de medo. Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expelido sete demônios. Ela foi noticiá-lo aos que haviam andado com ele, os quais estavam em lamento e choro. Estes, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e que tinha sido visto por ela não acreditaram.”

(Marcos, XVI, 1-11.)
“No fim do sábado, ao alvorecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e outra Maria foram ver o sepulcro. E eis que tinha havido um grande terremoto; pois um anjo do Senhor descera do Céu e, chegando-se ao sepulcro, removera a pedra e sentara-se sobre ela. A sua aparência era como relâmpago, e a sua veste branca como a neve. E os guardas, receosos dele, temeram e ficaram como mortos. Mas o anjo disse às mulheres: Não temais; porque sei procurais a Jesus, que foi crucificado: ele não está aqui; vinde e vede o lugar onde ele jazia. Ide depressa dizer a seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e vai diante de vós para a Galiléia; lá o vereis. Olhai que vô-lo tenho dito. Elas deixaram apressadamente o túmulo, tomadas de medo e grande gozo e foram correndo avisar os discípulos. Eis que Jesus as encontrou e lhes disse: Salve! E elas, aproximando-se abraçaram-lhes os pés e adoraram-no.”

(Mateus, XXVIII, 1-9.)


“No primeiro dia da semana foram elas muito cedo ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E acharam n pedra removida do túmulo, e, entrando ali, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Ficando perplexas por causa disto, eis que apareceram ao lado delas dois varões com vestes resplandecentes; e como estivessem amedrontadas e olhassem para o chão, eles lhes disseram: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como ele vos falou, quando estava ainda na Galiléia, dizendo: O filho do Homem deve ser entregue às mãos dos pecadores e ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia. Então se lembraram das suas palavras e voltando do túmulo, contaram todas essas coisas aos onze e a todos os mais. E eram Maria Madalena, Joana, e Maria, mãe de Tiago; também as outras que estavam com elas, relataram estas coisas aos apóstolos. Estas palavras pareceram-lhes um delírio, e não acreditaram nelas. Mas Pedro, levantando-se, correu ao túmulo; abaixando-se, viu somente os panos de linho que ali ficaram; e retirou-se para casa, maravilhado do que havia acontecido.”

(Lucas, XXIV, 1-12.)


“No primeiro dia da semana Maria Madalena foi cedo ao túmulo, sendo ainda escuro, e viu a pedra removida. Correu ela e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava e disse-lhes: Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde o puseram. Então saíram Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam ambos, mas o outro discípulo correu mais ligeiro do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo; e tendo-se abaixado e olhando para dentro, viu os panos de linho postos no chão, porém não entrou. Chegou Simão Pedro, que o seguia e entrou no túmulo; ele também viu os panos de linho e o lenço, que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os panos, mas dobrado em lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, e viu e creu; porque ainda não compreendiam a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos. E voltaram os discípulos para casa.

Maria, porém, estava junto à entrada do túmulo, chorando. E enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos com vestes brancas, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? A quem procuras? Respondeu ela: Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram, Tendo dito isto, virou-se para trás e viu a Jesus em pé, mas sem saber que era ele, Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela supondo ser ele o jardineiro, respondeu; Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela virando-se disse em hebraico: Raboni! (que quer dizer Mestre). Disse-lhe Jesus: Não me toques, porque ainda não subi ao Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus, Maria Madalena foi contar aos discípulos: Vi o Senhor, e ele disse-me estas coisas.”

(João, XX, 1-18)
O Cristianismo é a Religião da Imortalidade. Sem esta não se compreende a Missão de Jesus, não se pode absolutamente compreender seu pensamento íntimo.

Em Jesus não se vêem só palavras, mas também os exemplos, e fatos que alicerçam a sua Doutrina.

Estes trechos dos Evangelhos provam exuberantemente nossa afirmação.

Já perguntamos: que seria o Cristianismo sem as aparições de Jesus?

Será possível que a incomparável Doutrina que ele fundou tivesse por epílogo a morte?

Neste caso, teriam razão aqueles que não crêem no Além-túmulo.

Mas, não é assim; a Imortalidade resplandece da sua Palavra, que é luz a nos iluminar o futuro!

A perda irreparável do Mestre consternava o coração de seus discípulos, quando as potestades superiores rasgam o véu da morte e aparecem a Madalena a lhe desvendar os mistérios da Vida do Além em sua pujança!

Seguindo esta aparição, manifesta-se também o recém-morto, que, demonstrando assim o prosseguimento da sua existência, recomenda, à sua mediadora, dar conta aos seus discípulos daquela manifestação, para que também eles assim fizessem, porque, como já havia dito, “o discípulo deve ser como o Mestre”.

A ressurreição é a Vida, e a Vida se manifesta no homem e ao homem.

Jesus é a Vida porque se manifesta vivo aos homens, para que os homens compreendam que o túmulo não é o fim: Jesus é a ressurreição.

O Espírito vive, insistamos, e a morte não é mais que uma transformação para um estado melhor.




DEMONSTRAÇÃO DA MORTALIDADE – A PESCA MARAVILHOSA

“Depois Jesus tornou a manifestar-se aos discípulos na Praia de Tiberíades; e manifestou-se deste modo: Simão Pedro. Tomé chamado Dídimo, Natanael que era de Caná. da Galiléia, os filhos de Zebedeu e outros dois de seus discípulos estavam juntos. Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Disseram-lhe os outros: Também nós vamos contigo. Saíram e entraram na barca e naquela noite nada apanharam. Mas ao romper do dia estava Jesus na praia; todavia os discípulos não sabiam que era ele. Perguntou-lhe Jesus: Moços, apanhastes algum peixe? Responderam-lhe: Não. Disse-lhes ele: Lançai a rede à direita da barca, e achareis. Lançaram-na, pois, e já não podiam puxá-la por causa do grande número de peixes. O discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor. Simão Pedro; quando ouviu que era o Senhor, tomou a sua veste (porque se achava despido) e lançou-se ao mar; mas os outros discípulos vieram na barquinha, puxando a rede com os peixes; porque estavam afastados da terra somente duzentos cúbitos. Ao saltarem em terra viram ali algumas brasas e um peixe posto em cima delas e pão. Disse-lhes Jesus: Trazei alguns dos peixes que acabastes de apanhar. Simão Pedro entrou na barca e puxou a rede à terra, cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes, e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede. Disse-lhes Jesus; Vinde almoçar. Nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se e, tomando o pão, deu-lhes, e do mesmo modo o peixe.

“Era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ressurgir dos mortos.”

(João, XXI, 1-14.)


Para melhor gravar na alma de seus discípulos a realidade absoluta da sobrevivência, Jesus, o Mestre e Senhor, não se satisfez com as provas que já lhes havia dado da Vida do Além; reiterou essas provas com outros tantos fatos inequívocos e peremptórios, que representam o quanto pode o Espírito desintegrado do seu corpo mortal e na sua existência real de Vida Eterna.

A “pesca maravilhosa”, a ação que o Mestre exerceu sobre seus seguidores, os atos que lhes apresentou, ao partir o pão, ao distribuir os peixes, enfim, repetindo caracteristicamente o que já havia feito, quando com eles vivia em sua manifestação corporal, aparecendo, comunicando-se, reatando relações com os entes que lhe eram caros, Jesus, não só lhes quis dar uma prova do seu amor, como também salientar que a aparição e comunicação dos Espíritos representa a Lei Providencial para que o homem compreenda em que consiste a Vida e o que é a Morte.

Parece claro e lógico que, se fosse condenada por Deus a comunicação entre ambos os mundos — o visível e o invisível — Jesus, o Mestre por excelência, o Representante, o Enviado do Supremo Senhor, o Executor de Suas leis, não teria sancionado com o exemplo essa lei que rege ambos os mundos.

Se é crime exercer esse ministério, como julgam erroneamente os corifeus das religiões sacerdotais, Jesus é criminoso, infrator da Lei, em vez de cumpridor da mesma!

E será crível que o Mestre, que se nos apresentou como o exemplo vivo da Verdade, ele que se afirmou o Caminho, a Verdade e a Vida, e que disse não passar da Lei um til sem que tudo fosse cumprido, infringisse a Lei com essas aparições e manifestações?

As aparições do Cristo autorizam forçosamente as aparições dos “mortos”, e, conseqüentemente, as suas comunicações conosco.

Paulo, que é doutor nesta matéria, diz: Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou, e é vã a nossa fé.

Ressurreição quer dizer “aparição, manifestação, comunicação”, palavras que, traduzidas em fatos, se acham estreitamente ligadas. E assim como os Apóstolos se inteiraram da Ressurreição do Cristo entretendo com ele relações de amizade e simpatia, os verdadeiros cristãos, que sabem que a vida em sua realidade é una e que a existência terrestre não é mais que uma fase da Vida Real, também se inteiram da ressurreição dos “mortos” comunicando-se com eles!

Se é pecado, se é crime entreter relações com os que se passaram para o Além, ipso facto não pode deixar de haver pecado nas comunicações do Cristo e nas dos santos, cujas narrativas enchem as páginas da História.




A INCREDULIDADE E A REALIDADE DO ESPÍRITO

“Tomé, chamado Dídimo, um dos doze, não estava com eles, quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele respondeu: Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum hei de crer.

“Oito dias depois estavam outra vez ali reunidos seus discípulos e Tomé com eles. Estando as portas trancadas, veio Jesus, pôs-se em pé no meio deles e disse: Paz seja convosco. Em seguida disse a Tomé: chega aqui o teu dedo e olha as minhas mãos; chega também a tua mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente. Respondeu Tomé: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Creste, porque me viste? Bem-aventurados os que não viram e creram.”

(João, XX, 24-29.)


O Amor de Jesus excede a todo o entendimento humano. Na sua abnegação e no desejo que mantinha de fazer crentes sinceros, não mediu as exigências do Apóstolo Tomé, que disse só acreditaria na sua ressurreição ou sobrevivência se o visse e o examinasse.

E Jesus, completamente materializado, torna-se visível e tangível ao seu discípulo, satisfazendo assim os imperiosos desejos que ele tinha de alicerçar sua fé sobre provas positivas. Ensinou mais o Mestre: que essa Fé não era negada a quem quer que fosse, e aqueles que acreditavam sem ver já se achavam amadurecidos na crença, pois que já haviam observados fenômenos, não tendo mais necessidade de provas positivas; por isso mesmo eram bem-aventurados.

Como se verifica, o modo de proceder de Jesus está em completo antagonismo com o dos sacerdotes das múltiplas Igrejas esparsas pelo mundo.

Enquanto estes exigem uma fé cega nos seus dogmas, Jesus procura demonstrar a Verdade com fatos palpáveis.

O Mestre não exige a escravidão da razão, o abastardamento do sentimento, antes respeita e proclama o livre-arbítrio de cada um, atributo esse concedido à criatura para o seu progresso moral, científico e religioso.

Consentindo Jesus que o seu Apóstolo o examinasse para poder crer, na ressurreição, preveniu também a todos, por certa forma, que o Consolador, o Espírito da Verdade, que ele enviaria em nome do Pai, reproduziria a sua Doutrina não só com palavras, mas com fatos da mesma natureza por ele produzidos. A Religião não consiste só em palavras e fatos.

“Assim como eu fiz, fazei vós também, disse o Divino Mestre a seus discípulos, porque eu fiz para vos dar o exemplo.”

Em suas pregações dizia sempre” Jesus aos que o seguiam: “Aquele que crê em mim, rios de água viva manarão de seu ventre”, aludindo assim ao Espírito que deveria ser dado a todos que o seguissem.

Sem comunicação não há revelação, e sem revelação o homem material, ignorante, orgulhoso, egoísta, não poderia ocupar-se com assuntos que se referem à sua vida espiritual; retardaria o seu progresso e sua felicidade”

Assim como não pode haver fraternidade e paz sem religião, não pode também haver religião sem comunhão espiritual.




O APÓSTOLO PAULO – O BRADO DA IMORTALIDADE

“Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos de Jesus, dirigiu-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que fossem daquela seita, tanto homens como mulheres, os levasse presos a Jerusalém. Caminhando ele, ao aproximar-se de Damasco, subitamente resplandeceu em redor dele uma luz do céu; e caindo em terra, ouviu uma voz dizer-lhe: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade e dirte-ão o que te é necessário fazer. Os homens que viajavam com ele pararam emudecidos, ouvindo a voz, mas sem ver a ninguém. Levantou-se Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada via; e guiando-o pela mão, conduziram-no a Damasco, e esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu.

Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias, e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! Respondeu ele: Eis-me aqui, Senhor. E o senhor ordenou-lhe: Levanta-te e vai à rua que se chama Direita e procura na casa de Judas a um homem de Tarso, chamado Saulo; pois ele está orando e tem visto um homem por nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recuperar a vista. Mas Ananias respondeu: Senhor, eu tenho ouvido a muitos, acerca deste homem, quantos males fez aos teus santos em Jerusalém; e aqui tem autoridade dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome. Mas o Senhor disse-lhe: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome perante os gentios e os reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe é necessário padecer pelo meu nome. Partiu Ananias e entrou na casa, e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, irmão, o Senhor Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. Logo lhe caíram dos olhos umas como que escamas, e recuperou a vista; e levantando-se, foi batizado; e depois de tomar alimento, ficou fortalecido. Demorou-se alguns dias com os discípulos, que estavam em Damasco; e logo nas sinagogas proclamava que Jesus era o Filho de Deus. Pasmavam todos os que o escutavam e diziam: não é este o que perseguia em Jerusalém aos que invocavam esse nome e que tinha vindo para cá para os levar presos aos principais sacerdotes? Porém Saulo muito mais se fortalecia e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que Jesus era o Cristo.”

(Atos dos Apóstolos, IX, 1-22.)


Paulo é o mais belo rebento da Arvore do Cristianismo.

Dentre todos os grandes na Fé, que se distinguiram pela sua dedicação e amor à causa de Jesus, Paulo é o Espírito cuja luz ultrapassa a todos os anseios da Caridade, é a Sabedoria que excede a todas as ciências, é o prodígio de todos os prodígios, é a coragem, a energia que afronta todas as grandezas, é o Gênio inigualável de todos os tempos.

Só de um Espírito se sabe, que a Humanidade reverencia, admira, adora e está em esfera superior a do Apóstolo das Gentes: Nosso Senhor Jesus Cristo.

Dotado de grande saber, iluminado por uma inteligência singular, revestido de um critério extraordinário, o Mestre dos Gentios teve a felicidade invejável de ser convertido à Verdade pelo Espírito de Jesus Cristo, que fez dele o seu Vaso de Honra, para que levasse às gentes a Palavra da Redenção!

A conversão de Paulo é o fato mais culminante da Vida do Cristianismo.

O brado de Damasco: Saulo, Saulo, Eu sou Jesus! Duro te é recalcitrar contra o aguilhão: é o brado da Imortalidade e Comunhão Espírita, que se repete, hoje, pelo mundo todo chamando os homens ao Caminho, à Verdade, à Vida!

Todos os discípulos de Jesus receberam o ensino oral da Divina Doutrina durante a encarnação do Messias; só Paulo o recebeu depois da desencarnação do Nazareno.

Todos presenciaram, testemunharam mil prodígios que o Embaixador de Deus produzira como prova da sua missão.

Somente Paulo foi testemunha de um prodígio que o fez arrostar todas as ameaças, todos os perigos, toda a perseguição: a aparição do Filho de Deus!

Todos receberam conselhos, dádivas, promessas; ora era o pedaço de pão, ora o vinho, ora os peixes, ora os milagres, ora a Doutrina, ora o auxílio pecuniário; Paulo recebeu o próprio Espírito do Mestre, que o assistia, como Elias repousava sobre Eliseu.

Por isso foi ele o maior de todos, por isso ele é o maior de todos: Já não sou mais eu quem vive, mas o Cristo é que vive em mim; já não sou mais eu quem fala e quem age, mas o Cristo é que fala e age em mim, dizia o grande missionário.

Paulo é o primus inter pares dos porta-vozes do Cristianismo; o seu desapego das mundanas glórias e dos vis interesses terrenos realça-se de modo frisante nas páginas do Novo Testamento: “Nunca fui pesado a quem quer que seja; para a minha subsistência, e para auxiliar os que me são próximos, estes braços me serviram.”

Paulo era tecelão, fabricava ou manipulava tendas de campanha.

Não houve dominador nem domínio com fortaleza para separar o Apóstolo do seu Mestre querido: “Quem me separará do amor de Cristo Jesus? A saúde, a enfermidade, a abundância, a miséria, as potestades, a vida, a morte? Nada me separará do Amor do Cristo.”

Conhecedor de todos os “mistérios”, de todo o motivo da Vida e da Morte, nas suas memoráveis Epístolas ressaltam, como chispas luminosas, a sobrevivência humana, a comunicação espírita a reencarnação, a evolução para a perfeição, para a salvação final de todos os seres vivos, na Vida Eterna e Bem-aventurada do “Deus Desconhecido” que ele anunciava a judeus e gentios.

Revestido de admirável humildade, era, entretanto, dotado de um gênio inflexível: nem as feras o apavoravam! Ferido na face pelo sumo sacerdote Ananias, no Sinédrio, não pode conter-se ante a afronta: “Deus te ferirá, parede branqueada! Tu estás aí sentado para me julgar segundo a Lei, e contra a Lei mandas que eu seja ferido?”

No Adriático, é ainda Paulo com a sua coragem cristã, que afronta a tempestade, embora prisioneiro que era, e salva a tripulação do desânimo e do naufrágio!

Na Ilha de Malta, uma víbora morde-lhe a mão e os indígenas exclamam: “Este homem é verdadeiramente homicida, foi salvo do mar, mas a Justiça não o deixou viver!”

Mas o Mediador de Jesus Cristo sacode o réptil no fogo, continua com a calma que lhe era habitual; e vendo novamente os gentios que o doutor do Apostolado Cristão era invulnerável ao veneno, proclamaram-no deus.

Paulo é verdadeiramente admirável: antigamente seus lenços, seus aventais, curavam os doentes, hoje, só o seu nome ergue o nosso espírito abatido por mundanas lides!

Salve, Apóstolo Venturoso, roga a teu Mestre por mim e ampara-me com o poder da tua fé e a luz da tua sabedoria!


A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

“Ora, estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e sua irmã Marta. Maria, cujo irmão Lázaro se achava doente, era a que ungira o Senhor com perfume e lhe enxugara os pés com seus cabelos. Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, aquele que amas, está doente. Ao saber disto, disse Jesus: Esta doença não é para morte, mas para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. Ora, Jesus estimava a Marta, e a sua irmã e a Lázaro. Tendo sabido, pois, que este estava doente, demorou-se ainda dois dias no lugar onde se achava. Então passado isto, disse aos discípulos: Voltemos para a Judéia. Perguntaram estes: Mestre, agora mesmo os judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá? Respondeu Jesus: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se alguém andar de noite, tropeça, porque, a luz não está nele. Assim falou e depois disse: Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo do sono. Disseram-lhe então os discípulos: Senhor, se dorme, ficará bom. Ora, Jesus tinha falado da morte de Lázaro; mas eles supunham que falas-se do repouso do sono. Disse-lhes, pois, Jesus abertamente: Lázaro morreu; e por vossa causa folgo de não me achar lá, para que creais; mas vamos ter com ele. Então Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: Vamos também nós para morrermos com ele.

Chegando Jesus, achou que estava Lázaro no túmulo havia já quatro dias. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. Muitos dos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as consolar pela morte do seu irmão. Marta, quando soube que vinha Jesus, foi encontrá-lo; Maria, porém, ficou sentada em casa. Disse, então, Marta a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, não teria morrido o meu irmão. E mesmo agora sei que tudo o que pedires a Deus, Deus to dará. Respondeu-lhe Jesus: teu irmão há de ressuscitar. Sei, replicou Marta, que ele há de ressuscitar na ressurreição, no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto viverá; e todo o que vive e crê em mim, nunca, jamais morrerá; crês nisto? Sim, Senhor, respondeu ela; eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo. E tendo dito isto, foi ela chamar a Maria, sua irmã, e lhe disse em particular. Aí está o Mestre e te chama. E ela ouvindo isto, levantou-se depressa e foi ter com ele (pois Jesus não havia ainda entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta o encontrara). Os judeus, que estavam com Maria, em casa e a consolavam, vendo-a levantar-se depressa e sair, seguiram-na pensando que ela ia ao túmulo para ali chorar. Quando Maria chegou no lugar onde estava Jesus, ao vê-lo, lançou-se-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se tivesses estado aqui, não teria morrido meu irmão. Jesus vendo-a chorar e chorar também os judeus que a acompanhavam, perturbou-se e perguntou: Onde o puseste? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê. Jesus chorou. Os judeus, então, diziam: Vede como ele o amava! Mas alguns deles diziam: Não podia este homem, que abriu os olhos ao cego, fazer que este não morresse? Jesus, gemendo outra vez em si mesmo, foi ao túmulo; este era uma gruta, a cuja entrada estava posta uma pedra. Jesus disse: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, ele já cheira mal, porque está morto há quatro dias. Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram então a pedra. E Jesus, levantando os olhos, disse: Pai, graças te dou que me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa desta multidão que me cerca, para que creiam que tu me enviaste. Tendo assim falado, clamou em alta voz: Lázaro, sai para fora! Saiu aquele que estivera morto, ligados os pés e as mãos com faixas, e envolto o seu rosto num lenço. Disse .Jesus: desatai-o e deixai-o ir.

“Muitos dos judeus que vieram ter com Maria e viram o que fizera Jesus, creram nele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus, e lhes contaram o que Jesus tinha feito.”

(João, XI, 1, 46.)
Esta narrativa, de uma simplicidade verdadeiramente singular, retrata uma das belíssimas cenas do Cristianismo, seja em seu aspecto religioso e moral, seja em sua modalidade científica ou filosófica.

Por ela se descobre logo a morte sob os seus dois aspectos: físico e psíquico.

Aquelas afirmações características de Jesus, ora dizendo: Lázaro dorme (não morreu) mas eu vou despertá-lo, ao fado desta outra: Lázaro morreu, despertam imediatamente a idéia de duas mortes: a morte corporal e a morte espiritual.

Com efeito, lendo-se, com toda a atenção o trecho evangélico, e pondo lado a lado o modo de ver de Jesus e o modo de ver do evangelista, compreendemos imediatamente que o Caso de Lázaro não passa de um caso psíquico, fenômeno cataléptico, que tanto pode durar 2 horas, como 4 ou 5 dias. Destes casos a Medicina não conhece perfeitamente as causas. A catalepsia apresenta todas as aparências da morte: rigidez, insensibilidade, perda de inteligência, aspecto cadavérico, etc.

Essa “moléstia” era muito comum na Judéia, onde os enterramentos eram imediatos.

Vemos, por exemplo, no capítulo V, versículo 5 e seguintes de Atos dos Apóstolos, que tendo Ananias e sua mulher Safira retido parte da importância de uma propriedade que venderam e deveria ser entregue aos Apóstolos, só pelo fato de Pedro repreendê-los severamente, caíram ambos mortos e em menos de 3 horas foram enterrados.

Nestes dois exemplos vemos não se tratar de morte real, mas de simples casos de sincope ou letargia.

Assim foi, certamente, o que aconteceu a Lázaro.

Vitimado por uma letargia, imediatamente fizeram-no enterrar, permanecendo no túmulo durante a crise cataléptica.

Jesus, conhecendo a natureza de seu amigo Lázaro e as crises a que ele estava sujeito; dotado ainda, o Mestre, como era, dessa vista dupla, ou clarividência, que transpõe distâncias e não conhece barreiras, verificou que Lázaro não fora atacado de uma enfermidade física, mas que a sua moléstia era toda de ordem psíquica, como se observa nos casos de sonambulismo, catalepsia; letargia. Foi isto que o fez demorar 4 dias para chegar a Betânia. Ele tinha certeza de que não houvera ruptura dos laços fluídicos que ligam o Espírito ao corpo.

E tanto é assim, que o despertou com voz alta e imperiosa: Lázaro, sai para fora, operando a ressurreição do seu amigo. Como verão depois os leitores, empregam o termo ressurreição na sua significação restrita.

Esclarecida, pois, a natureza da morte de Lázaro: morte psíquica, procuremos conhecer o fator indispensável dessa morte e suas causas.

A morte psíquica (não encontramos outra expressão mais adequada), é ocasionada sempre por uma modificação molecular que tira temporariamente as transmissões de relação que existe entre o corpo e o Espírito. Uma grande super-excitação, ou preocupação do Espírito, interrompe essas relações, mais ou menos como ocorre no momento do sono. Neste caso o Espírito não pensa mais no corpo e produz-se a insensibilidade. Vemos também certos casos nos quais, mesmo em vigília, ignoramos o que se passa em nosso corpo. No ardor do combate o militar não sabe se está ferido.

A morte psíquica é, pois, uma exteriorização do Espírito, exteriorização essa de graus variados, que vai desde a simples sugestão ao desdobramento da personalidade. Nesses casos, o indivíduo é sempre um indivíduo psíquico, cuja faculdade deve ser bem empregada e desenvolvida para não haver prejuízo coletivo.

Lázaro, membro principal daquela família de Betânia, e que tinha certa afinidade com Jesus, não podia deixar de ser um indivíduo-psíquico, mas que não cultivava suas faculdades e vivia alheio às coisas espirituais. O Evangelho não nos fala nesse homem senão quando narra a sua ressurreição, o que quer dizer que ele era como quem não existisse, era um morto que ali vivia tratando de outros lazeres, estranhos aos que enobrecem a alma e exaltam o coração. A sua materialidade se mostrou tão acentuada que chegou a morrer, embora não houvesse separação entre alma e corpo. E assim permaneceu 4 dias, e mais permaneceria se Jesus não viesse ressuscitá-lo, pois a sua “morte aparente” tomou feições tão nítidas de “morte real”, que chegaram a levá-lo para o túmulo, o que fez sua irmã Marta pensar que “já cheirava mal”.

A morte psíquica pode-se, pois, traduzir como desaparecimento do Espírito, assim como a morte física é o desaparecimento do corpo.

Com a ressurreição operou-se o “milagre” do aparecimento, do ressurgimento do Espírito no corpo e, consequentemente a ressurreição (reaparição do corpo), depois de removida a pedra e dada ordem imperiosa por Jesus para que Lázaro saísse do túmulo.

Encarando a questão pelo lado científico, observamos uma bela cura de catalepsia operada com o auxílio do magnetismo, de que Jesus era o maior de todos os representantes. Aliás, em todas as suas curas não adotava outro processo. Quem passar uma vista de olhos sobre as curas operadas pelo Grande Mestre, verá que nenhum outro processo foi por ele empregado, senão a imposição de mãos e a Palavra; ao paralítico ele disse: “Toma o teu leito e caminha”; ao cego disse: “Vê”; ao surdo: “Ouve”, e assim por diante.

Está a Ciência de hoje muito mais adiantada que a de 2.000 anos atrás, principalmente a Medicina? Estamos a apostar que mesmo com o auxílio dos soros e das transfusões, os grandes esculápios do nosso país e do estrangeiro não são capazes de ressuscitar os Lázaros que caminham todos os dias para os túmulos!

A propósito deste esclarecimento sobre a ressurreição de Lázaro, parece oportuno passar para estas páginas o modo de ver dos Espíritos, exarado em A Gênese Segundo o Espiritismo sobre as Ressurreições.

Tratando das “ressurreições” da filha de Jairo e do filho da Viúva de Naim, narrados nos Evangelhos eles dizem: “O fato da volta à vida corporal, de um indivíduo, realmente morto, seria contrário às leis de Natureza. Ora, não é necessário recorrer a essa derrogação para explicar as ressurreições operadas pelo Cristo

“Em certos estados patológicos, quando o Espírito não está mais no corpo, e o perispírito apenas a ele adere por alguns pontos, o corpo têm todas as aparências da morte e afirma-se uma verdade absoluta, dizendo que a vida está por um fio. Este estado pode durar mais ou menos tempo; certas partes do corpo podem mesmo entrar em decomposição sem que a vida esteja definitivamente extinta. Enquanto se não romper o último fio, o Espírito pode, quer por uma ação enérgica da sua própria vontade, quer por um influxo fluídico estranho, igualmente poderoso, ser de novo chamado ao corpo. Assim se explicam certos prolongamentos da vida contra toda a probabilidade, e certas supostas ressurreições. É a planta que brota de novo muitas vezes por uma só das suas radículas; mas, desde que as últimas moléculas do corpo carnal, ou este último, fique em estado de corrupção irreparável, a volta à vida é impossível”.

Fica assim bem entendida a ressurreição de Lázaro sob o ponto de vista científico.

Vitimado ou não por uma catalepsia, ou por outra moléstia qualquer, o fato é que a morte era aparente e não real; não se havia rompido o último fio, o perispírito ainda se achava ligado ao corpo por alguns pontos. Jesus, com seu grande poder, supriu as deficiências do paciente e fê-lo voltar à vida corpórea, reconstituindo-lhe o organismo afetado.

Encaremos agora o caso pelo lado religioso.

Sendo o objeto principal de Jesus dignificar a sua Doutrina, com fatos emocionantes que influíssem no cérebro e no coração de seus discípulos, não quis excluir da sua tarefa na Terra, as curas, por saber que são elas que mais influem na conversão de infiéis. E durante toda a sua peregrinação no mundo, onde quer que encontrasse um enfermo por curar, um paralítico deitado, um hidrópico em ofegante dispnéia, um cego, um surdo, um mudo, um leproso, com um aceno de suas divinas mãos, com uma palavra ungida de misericórdia, com um olhar envolto de amor e de bondade, destruía aqueles males, restaurando a saúde ao paciente.

As curas de Jesus tomam um grande capítulo dos Evangelhos. Poder-se-ia com elas escrever um livro, cujos ditames concorreriam, sem dúvida, para fazer sarar muitos enfermos que, sem fé e sem consciência dos salutares efeitos das forças superiores da Natureza, quando bem aplicadas, fariam desaparecer muitos males que afligem infelizes enfermos, que debalde imploram a saúde que a Ciência Acadêmica não dá, porque está absolutamente separada do Espírito do Cristianismo.

Não se diga, porém que essas curas se fizeram exclusivamente sob a direção de Jesus, ou que foi Jesus o único que a fez, em virtude da sua divindade miraculosa.

Em todos os tempos e em todos os países as curas espíritas têm sido objeto de meditação e admiração. E o próprio Jesus, quando organizou o seu Colégio Apostólico e enviou os Apóstolos, dois a dois, a pregarem o Evangelho, uma das principais coisas que lhes recomendou foi: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; de graça recebestes, de graça dai”. (Mateus, X, 1-9.)

Não vem ao caso mais citações, que não cabem nesta breve dissertação.

Conclui-se que, seja sob o ponto de vista científico, seja sob o ponto de vista religioso, a Ressurreição de Lázaro é uma das grandes lições que o Moço Nazareno nos legou; é indispensável, portanto, que a estudemos atenciosamente.

Mais duas palavras e terminaremos.

Ressurreição é termo que pode ser empregado sob o ponto de vista material e espiritual.

Quando dizemos que tal indivíduo “ressuscitou”, afirmamos que ele reapareceu, porque “ressuscitar” quer dizer “reaparecer”.

Esse reaparecimento se pode dar em corpo carnal ou em Espírito. Por exemplo: Lázaro “ressuscitou”, reapareceu com seu corpo carnal, que todos já julgavam morto.

Mas os “mortos” também ressuscitam em corpo espiritual. Foi assim que Moisés e Elias ressuscitaram no Tabor, assim Samuel ressuscitou no Endor, assim Jesus Cristo ressuscitou em Jerusalém e circunvizinhanças. Destes” morreram os corpos carnais, mas eles ressuscitaram em seus corpos espirituais.

A Imortalidade não é apanágio do corpo material, mas sim do corpo fluídico, celeste, espiritual.

A Ressurreição de Lázaro foi uma manifestação física do poder de Jesus; a Ressurreição de Jesus foi uma graça psíquica da Sabedoria Divina.




CONCLUSÃO

As várias edições desta obra demonstram a sua boa aceitação, a atenção que lhe têm dispensado estudiosos e espíritos de boa vontade.

É sinal de que este livro, representando o Espírito do Cristianismo, longe de constituir uma obra de princípios dogmáticos, ou de um credo personalista, guia o neófito no estudo dos Evangelhos, não só sob o ponto de vista religioso, como também moral, filosófico e científico.

De fato, não é possível separar a Religião desses outros fatores da elevação humana: Moral, Filosofia, Ciência, assim como não podemos compreendê-la sem os fundamentos sólidos, objetivos e subjetivos da Imortalidade. Convém repetir, pois, o que ficou exarado nas edições anteriores.

A Imortalidade para nós é tudo. É por ela que o mundo gira, os pássaros cantam, as feras rugem, os homens se movimentam e a luz se faz. A Imortalidade é a Vida, e a Religião está na Vida para poder estar em Deus.

De que valeria o conjunto das magníficas Parábolas do Mestre sem a Imortalidade sem a certeza da sobrevivência para aquisição da felicidade prometida.

De que valeriam seus imaginosos ensinos, envoltos em tanta doçura e humildade, seus apelos constantes de amor ao próximo, de amor a Deus, de desprendimento das coisas da Terra, de paciência nas provas, de indulgência para com os que nos ferem, de perdão de constante exercício para a perfeição, sem a sobrevivência, sem a Imortalidade?

Das Parábolas de Jesus e seus ensinos ressaltam as chispas de fogo que formam a eterna chama que ilumina a nossa vida imortal. Não constituem unicamente um apelo à Caridade, mas antes uma demonstração da Fé que dá a Esperança, e da Esperança que nos incita a trabalhar pelo nosso progresso, para sermos os próprios arquitetos da nossa existência futura, seja neste mundo ou em mundos extraterrestres, para os quais devemos voltar as nossas vistas.

O escopo das reedições deste livro é, pois, espiritualizar o homem, levá-lo à posse de si mesmo, entoar em seu íntimo um hino à imortalidade, fazer repercutir em sua alma as sublimes estrofes do Ressuscitado, os seus incessantes convites para que o sigamos, as suas reiteradas afirmativas de uma vida infinita, através dos mundos que constituem as moradas da Casa de Deus e do tempo sem ampulheta e sem ponteiros, para aqueles que já se certificaram de que a Vida é sucessão contínua de progresso para a perfeição, e que, quanto mais perfeitos são os Espíritos, maiores são as suas faculdades para estudarem os enigmas do Universo, as maravilhas da Criação.

Não há morte, não há fim; há passagem de um estado de inferioridade para um estado de superioridade, gradativa, sem hiatos, sem abismos, sem saltos bruscos, porque, na Natureza, seres e coisas obedecem a uma mesma lei de Relatividade, lei justa e eqüitativa promulgada nos Conselhos de Deus! Toda a criação goza dessa graça, todos os seres dela vivem e se alimentam, nela crescem, progridem, tornam-se adultos no entendimento, e, emergindo do instinto, flutuam no oceano luminoso da Inteligência, onde cantam a sua gloriosa epifania.

Permita o Supremo Senhor que esta despretensiosa obra leve aos lares em que entrar, a Paz, a Esperança e a Fé; que seja ela, para os que a compulsarem um fardo leve, um jugo suave, onde possam encontrar arrimo, orientação para uma vida nova, um consolo a mitigar dores ocultas uma porta aberta para a Verdade, para o Amor, para a Felicidade!

Jesus Cristo nos auxilie para que alcancemos com facilidade a graça prometida!


FIM


1 Em outros termos: ouviam, mas não escutavam; viam, mas não enxergavam.

2 Vide também O Espírito do Cristianismo.

3 Entende-se por “escolhido” aquele que, pela sua vivência cristã, já se libertou em grande parte do Reino do Mundo; não obstante periclita, ainda pode cair, donde a advertência do Apóstolo Paulo: “Aquele pois que cuida estar em pé, olhe não caia.” (I Coríntios, 10:12.)


4 Vide: Interpretação Sintética do Apocalipse.

5 Modernamente, a dracma é a unidade monetária da Grécia, dividida em 100 kepta e cotada a 30 por dólar (1968).


6 O Hades eram as regiões infernais na Mitologia Grega, correspondente ao Tártaro dos romanos e equivalente ao Interno aceito pelos católicos e protestantes. Não deve ser entendido como um “lugar”, mas como um estado de espírito, isto é, um estado de profundo sofrimento, Na pergunta 1011 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga: “Haverá no Universo lugares circunscrito para as penas e gozos dos Espíritos, segundo seus merecimentos?” Da resposta consta o seguinte: “As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos. Cada um tira de si mesmo o princípio de sua felicidade ou de sua desgraça. E como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou outra coisa.” Quando se diz que o Espírito “entrou no Hades”, isto quer dizer, figuradamente, que ele tomou conhecimento de si mesmo, viu-se na sua profunda miséria moral, cuja conseqüência é um indizível sofrimento e a impossibilidade de se aproximar dos Espíritos felizes.


7 É próprio do servo verdadeiramente útil o realizar sua tarefa com boa vontade e alegria; ele não só realiza o que lhe mandaram realizar, mas dá sempre um pouco mais; o servo inútil, não: faz exclusivamente o que lhe pediram fizesse, e, quando possível, até um pouco menos, alegrando-se com o pensamento de que “tapeou” o seu amo. A satisfação do trabalho bem feito e dadivoso caracteriza o Espirito Superior.


8 Ao pedido de esmola que lhe fez o coxo de nascença, Pedro retrucou: “Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!” (Atos, III, 6.)


9 Alusão à ingestão da hóstia, que, segundo o catolicismo, r encerra o próprio Jesus.

10 Vide: o Diabo e a Igreja.

11 Paracesve: a sexta-feira, entre os judeus, dia em que eles se preparavam para celebrar o sábado. Na Liturgia Católica é a sexta-feira santa.

12 Não obstante, cumpre observar que a mediunidade existe em estado latente na Quase totalidade das criaturas humanas, de ambos os sexos.

13 É o que atualmente se vem cumprindo (1976).

14 Viam a Lei, e diz Paulo: “É evidente que pela Lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da. fé.” (Gál., IV, 11.)





1   2   3   4   5


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal