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PARÁBOLA DO SERVO TRABALHADOR



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PARÁBOLA DO SERVO TRABALHADOR

“E disseram os Apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. E o Senhor respondeu: Se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a este sicômoro: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ele vos obedeceria.

“Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou guardando gado, lhe dirá, quando ele voltar do campo: Vem já sentar-te à mesa? Antes lhe dirá: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; e depois comerás tu e beberás? Porventura agradecerá ao servo, por ter este feito o que lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de haverdes feito tudo o que vos foi ordenado; dizei: Somos servos inúteis, fizemos o que deviam os fazer.”

(Lucas, XVII, 7-10.)


Era costume, antigamente, utilizar-se dos servos que trabalhavam na lavoura ou guardavam gado: ao chegarem, à tarde, preparavam a ceia para o seu amo, serviam a mesa, e, depois, ceiavam. Aquele que assim não fizesse deixaria de cumprir o seu dever, e o que assim procedia, não fazia mais que cumprir sua obrigação, porque para tal mister fora contratado e recebia seu salário. Não se jactava de assim proceder, visto o prévio ajuste que houvera entre ele e o patrão.

Jesus, que se aproveitava sempre do que ocorria cotidianamente, para dar boas lições àqueles que deviam ser, mais tarde, os seus apóstolos, ao pedirem estes ao Senhor que lhes aumentasse a fé, depois de exaltar as virtudes da fé e o poder que a mesma mantém, lhes propôs a chamada Parábola do Servo Trabalhador.

Quis o Mestre fazer ver a seus discípulos que a fé é o salário dos bons obreiros, e para que esse salário seja aumentado, é preciso que os obreiros cumpram primeiramente seus deveres, mas sem jactância, com humildade, como quem se considera pago com as graças recebidas para desempenhar a sua tarefa. (7)

A lavoura é o símbolo da Religião, que deve ser cultivada por todos; o gado constitui ou representa “esses todos”, ou seja, os que se querem instruir na Religião, os guardadores de gado; o dono da lavoura ou do gado é Jesus que nos veio trazer esse alimento de Vida Eterna.

A fé, como já dissemos, não é uma coisa abstrata, como não é abstrata a semente de mostarda. Assim como esta é alguma coisa substancial, também a fé contém tão poderosos elementos que os que a possuem chegam a operar maravilhas, como “arrancar sicômoros e arrojá-las ao mar”!

A semente de mostarda, quando chocha, é estéril, não dá espigas, não serve para condimento, não se presta como medicamento, enfim não tem valor algum.

A fé que se acha nestas condições também não tem valor algum. E o que diremos da fé que nem mesmo aparenta a semente chocha da mostarda?

Acresce outra circunstância que observamos na parábola: os apóstolos não acreditavam nessa fé que se recebe de um jacto, como a prescrevem as Igrejas; achavam que ela é suscetível de aumento, tanto que pediram a Jesus: “Senhor, aumenta-nos a fé.” E o Senhor não os dissuadiu dessa crença, antes alimentou-lhes a esperança, estimulando-os ao trabalho e à perseverança, ao cumprimento do dever, que é o meio pelo qual alcançariam tal desiderato.

O Espiritismo, que é o Consolado r prometido por Jesus para relembrar aos homens tudo o que Ele disse, explica, em espírito e verdade, a sua palavra e traz, a todos, o complemento dos Ensinos Cristãos, que não podiam ser dados naquela época devido ao atraso intelectual de então. O Espiritismo vem cumprir a sua missão, oferecendo aos homens a explicação sucinta da Religião em suas modalidades científica e filosófica.


PARÁBOLA DO JUIZ INÍQUO

“Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que deviam orar sempre e nunca desanimar, dizendo: Havia em certa cidade um juiz, que não temia a Deus, nem respeitava os homens. Havia também naquela mesma cidade uma viúva que vinha constantemente ter com ele, dizendo: Defende-me do meu adversário. Ele por algum tempo não a queria atender; mas depois disse consigo: se bem que eu não tema: a Deus, nem respeite os homens, todavia como esta viúva me incomoda, julgarei a sua causa, para que ela não continue a molestar-me com as suas visitas. Ouvi, acrescentou o Senhor, o que disse este juiz injusto; e não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite, embora seja demorado a defendê-los? Digo-vos que bem depressa lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na Terra?”

(Lucas, XVIII, 1-8.)
A iniqüidade é a falta de eqüidade, é a justiça revoltante. O iníquo é o homem perverso, criminoso, seja ele juiz, doutor, nobre, rico, pobre, rei.

Na esfera moral, mesmo aqui na Terra, não se distinguem os homens pelo dinheiro e pelos títulos que possuem, mas, sim, pelo seu caráter. O iníquo não tem caráter, ou, por outra, tem caráter iníquo, pervertido. Mas ainda esse, quando tem de resolver alguma questão e o solicitante resolve bater à sua porta até que dê provimento ao seu pedido, para não ser incomodado, e porque é iníquo, resolve, com presteza, o problema, não para servir, mas para ficar livre de continuar molestado.

Foi o que sucedeu com o juiz iníquo ante a insistência da viúva.

De modo que a demora do despacho na petição da viúva foi causada pela iniqüidade do juiz. Se este, fosse eqüitativo, justo, reto, de bom caráter, cumpridor de seus deveres, a viúva teria recebido deferimento do seu pedido com muito maior antecedência.

Seja como for, o despacho foi dado, embora a custo, após reiteradas solicitações, importunações cotidianas, e o juiz, apesar de iníquo, para não ser “amolado”, resolveu a questão.

“Ora, disse Jesus, ouvi o que disse esse juiz iníquo; e não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam noite e dia, embora seja demorado em defendê-los? Digo-vos que bem depressa lhes fará justiça.”

Se a justiça, embora demorada, se faz na Terra até contra a vontade dos juizes, como não há de ser ela feita pelo Supremo e Justo Juiz do Céu?

A deficiência não é, pois, de Deus, mas sim dos homens, mormente na época que atravessamos, em que o Filho do Homem bate a todas as portas, inquire todos os corações e os encontra vazios de fé, vazios de crença, vazios de amor a Deus, vazios de caridade!

Antigamente havia juizes iníquos; hoje, pode-se dizer que nem só os juizes, mas até os peticionários são iníquos!

A iniqüidade lavra como um incêndio devorador, aniquilando as consciências e maculando os corações: homens iníquos, lares iníquos, sociedades iníquas, governos iníquos, leigos iníquos, sábios iníquos; tudo isso devido à crença sacerdotal, aos dogmas das seitas dominantes! Mas o Senhor aí está a destruir a iniqüidade, e, com ela, os iníquos.




PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO

“Propôs também a seguinte parábola a alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam aos outros: Subiram dois homens ao templo para orar: um fariseu e outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava dentro de si desta forma: Ó Deus, graças te dou, que não sou como os demais homens, que são ladrões, injustos, adúlteros — nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, porém, estando a alguma distância, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo:

“Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha, será exaltado.”

(Lucas, XVIII, 9-14.)


A seita farisaica era a mais prestigiada no tempo de Jesus, a mais influente, a mais dominadora, a que mais se salientava. Era uma espécie de Catolicismo Romano.

Os fariseus, entretanto, eram servis observadores das práticas exteriores, do culto e das cerimônias. A religião, para eles, era uma aparência de virtudes: preferiam sempre a letra da lei, que mata, ao espírito que vivifica! Eram hipócritas, inimigos encarniçados das inovações, cheios de orgulho e de excessivo amor ao domínio.

Eles tinham uma aversão especial aos publicanos, a quem consideravam gananciosos, e também porque, inimigos do fisco, tinham de pagar a estes os impostos que lhes cabia na coleta.

De maneira que os publicanos eram, para os fariseus, homens desprezíveis da baixa sociedade, e, portanto, cheios de mazelas, “ladrões, injustos, adúlteros”, não só porque não se curvavam muitas vezes às práticas dos sacerdotes fariseus, como, também, porque uma prevenção partida ria anterior os havia separado da seita farisaica, ou do Judaísmo. Jesus, que muito se ocupou em desmascarar a hipocrisia dos fariseus, julgou acertado propor esta parábola, cujas principais figuras eram: um fariseu e um publicano.

Quis o Mestre mostrar que o orgulho de seita, o orgulho de classe, o orgulho de família, o orgulho pessoal — finalmente, o orgulho em suas múltiplas formas, é mais prejudicial à salvação do que mesmo “o publicanismo”, como o concebiam os fariseus! Ainda mais: quis demonstrar que no publicano, com todos os seus senões, ainda se encontrava um gesto de humildade, o que não acontecia no fariseu.

O publicano conhece os seus defeitos, sabe que é pecador; nem ousa levantar os olhos para o céu; limita-se a bater no peito e a dizer: “O Deus, sê propício a mim pecador!” Enquanto o fariseu reconhece em si somente qualidades boas, e a sua prece é uma acusação aos outros, até ao pobre publicano que lá estava rogando ao Senhor o perdão de suas faltas!

O orgulho é um dragão devorador, que destrói todas as qualidades do Espírito; enquanto a humildade, ao olhar de Deus, nos eleva à dignidade dos justos!

Vale mais ser publicano e miserável, do que fariseu coberto de ouro e de pedras preciosas.



SEGUNDA PARTE

ENSINOS DE JESUS – OS APÓSTOLOS

“E andando ao longo do Mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, também chamado Pedro, e André, lançarem a rede ao mar; porque eram pescadores. E disse-lhes: Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. Imediatamente eles deixaram as redes, e o seguram. Jesus, passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam na barca com seu pai, consertando as suas redes; e os chamou: Eles, logo deixando a barca e seu pai, o seguiram.”

(Mateus IV, 18-22.)
“Depois de reunir Jesus os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem, e para curarem todas as doenças e enfermidades. Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, que também se chama Pedro, e André, seu irmão, Tiago e João, filhos de Zebedeu; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o Publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes.”

(Mateus, X, 1-4.)


“Naqueles dias retirou-se para o monte a orar, e passou a noite, orando a Deus. Depois de amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de Apóstolos, a saber: Simão, a quem deu ainda o nome de Pedro, e André seu irmão; Tiago e João; Felipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu; e Simão, chamado Zelote; Judas Iscariotes, que se tornou traidor; e descendo com eles, parou num lugar plano onde se achava grande número de seus discípulos e muito povo de toda a Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidon, que foram para ouvi-lo e ser curados das suas enfermidades; e os que eram atormentados por espíritos imundos, ficavam sãos; e todo povo procurava tocá-lo, porque saia dele uma virtude que os curava a todos”.

(Lucas VI, 12-19.)


A missão religiosa está sempre adstrita a duas naturezas de obreiros: profetas e apóstolos; é assim que ela se manifesta, se difunde, se completa.

A obra cristã é uma evidência do que afirmamos: o Maior Profeta — João Batista, anuncia o Maior Enviado — Jesus Cristo; e este, por sua vez, constitui Apóstolos que levam ao entendimento dos homens o pensamento divino.

João Batista, o expoente máximo do ministério dos profetas, teve por missão anunciar a vinda do Redentor. É a grande alma que, como uma aurora benfazeja, brilhou no advento do Cristianismo.

Os Apóstolos vieram dar cumprimento à Palavra do Cristo.

Pelo texto acima exarado, compreendemos muito bem a missão apostólica, Jesus, depois de elevar o seu pensamento ao Pai Celestial, para receber Suas intuições, desce do monte, escolhe os Apóstolos que o deveriam auxiliar na divina missão, e, dirigindo-se a um lugar onde se achavam vários prosélitos e uma multidão de povo que, saídos de diversas cidades, tinham ido ouvi-lo e ser curados por ele, dá-lhes a substanciosa lição de como deveriam exercer a nobre missão, para cuja tarefa os constituíra obreiros: prega o Evangelho, cura muitos doentes e expulsa os espíritos imundos que obsidiavam diversos dentre a multidão.

Numa breve narrativa é impossível fazer referência minuciosa a todos os Apóstolos. Congregamo-los, reuni-los, sintetizamos todos eles no Apóstolo Pedro, que, parece, era o orador oficial da turma, segundo se depreende dos Atos dos Apóstolos e de outras passagens evangélicas.

O que se nota em Pedro vê-se mais ou menos, mutatis mutandis, em todos eles; homens simples, rústicos, saídos da plebe, filhos do povo. Pedro, pois, bem pode caracterizar o Colégio Apostólico.

Qual é a biografia desse homem?

A História, baseada unicamente nos Evangelhos, só nos diz que Pedro nasceu em Betsaida, Galiléia, e que era filho de um certo Jonas, acrescentando que o seu nome legítimo era Simão. Pedro vivia com sua mulher e sua sogra em Cafarnaum, na margem do Lago Genesaré, onde exercia a profissão de pescador, estendendo a sua ação de pesca no Mar da Galiléia.

O período inicial da vida cristã de Pedro, data do tempo em que Jesus, deixando a cidade de Nazaré, fixou residência em Cafarnaum.

Foi nessa cidade — a Galiléia dos gentios — caminho do mar, além do Jordão, que o humilde Nazareno começou suas pregações, convidando o povo ao arrependimento, e anunciando a aproximação do Reino dos Céus.

Um dia Jesus se fez ao longo do mar e viu dois indivíduos lançando suas redes. Eram os irmãos Pedro e André, que se achavam no exercício de sua profissão.

O Mestre chama-os e diz-lhes: “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens.”

Imediatamente eles deixaram as redes e seguiram a Jesus!

Desse dia em diante, nunca mais, nem um só instante, o futuro Apóstolo separou-se do Incomparável Doutrinador.

Que lição! Que extraordinário e substancioso exemplo nos é dado pelo Apóstolo Pedro, cuja vida foi toda dedicada ao amor a seus semelhantes por amor de Jesus!

É lícito supor que, se Jesus tivesse escolhido para seu discípulo um rico e letrado, este não teria mais docilidade, mais constância, mais dedicação pelo seu Mestre do que teve Pedro!

Entretanto, Pedro era um pescador que passara a vida inteira em sua barca, preso à profissão que escolhera por inclinação.

Quem o demoveria da sua canoa, de seus remos, da sua rede, de seus peixes, que lhe proviam, e aos seus, a existência corporal?

Quem o afastaria do aconchego do lar, onde repousava das fadigas do dia, a não ser o Excelso Salvador do Mundo? Que outro alguém lhe poderia proporcionar carícias e doces, imperiosas, convincentes, cativantes palavras de libertação, como as que saíam dos lábios do Filho de Maria?

Pedro, não há dúvida, foi um dos mais amados discípulos de Jesus, o que, em companhia de João e Tiago o seguia em suas curas e nos momentos mais imperiosos, especialmente naqueles em que se salientaram os mais transcendentes fenômenos do Cristianismo!

Nas ocasiões de maior ensinamento, quando havia necessidade da manifestação dos mais eloqüentes fenômenos, estes três apóstolos eram sempre encontrados ao lado de Jesus.

No Lago de Genesaré, sob as ordens do Mestre e pelo poder de Sua clarividência, efetuaram os discípulos a “pesca maravilhosa” tão saliente nos Evangelhos.

Na sua própria casa, em Cafarnaum, Pedro obtém de Jesus a cura de sua sogra, que jazia no leito com terrível febre.

Ao longo das estradas, nos campos, nas cidades, os discípulos assistiam aos fenômenos de curas e expurgos de espíritos malignos, fatos que lhes deveriam servir de lição para o seu futuro ministério. No Mar da Galiléia, eles viam, absortos, sob as ordens do Mestre, a cessação da tempestade que ameaçava de naufrágio a frágil barquinha que vogava como uma casca de noz sobre as ondas encrespadas, batida pelo vento enfurecido!

No Tabor, dia em que Jesus evocou os Espíritos de Moisés e de Elias e se transfigurou para demonstrar positivamente a Imortalidade, os três discípulos acompanharam o Mestre, assistindo boquiabertos àquela fulgurante prova da Verdade Espírita que hoje anunciamos!

Por ocasião da Ressurreição, eles viram e conversaram com o Nazareno, obtendo assim mais firmeza em suas convicções imortalistas.

Todos esses fatos, todas essas lições, aliadas à docilidade de Jesus, deveriam certamente concorrer para o trabalho a que os futuros operários do Evangelho se aplicariam para verem realizado o desiderato cristão.

Mas é bom salientar que, apesar de todas essas lições transcendentes e vivificadoras, os apóstolos só o foram, em verdade, depois que Jesus, deixando este mundo, lhes enviou o Espírito Consolador, o Espírito da Verdade, quando estavam eles reunidos no Cenáculo de Jerusalém; eles o receberam na forma de “línguas de fogo”, e deu-se lugar ao cumprimento da promessa que o Mestre lhes havia feito, para que pudessem exercer livremente a sua tarefa missionária.

Foi então que o Verbo eloqüente da Verdade fulgiu esplendoroso pelos lábios do “pescador de homens”! Foi nessa ocasião que os seus dons, em estado latente, se desenvolveram, e os enfermos foram curados, e os Espíritos malignos foram expelidos dos obsidiados! Foi então que o Evangelho luziu como um Sol a derramar luzes, a exaltar os Espíritos, a aquecer os corações na arena gloriosa do Cristianismo!

Não nos deteremos para salientar os feitos apostólicos que assinalam os fastos do Cristianismo. O estudante do Evangelho verá através dessas páginas as inúmeras conversões, libertações e curas, que, por intermédio dos Apóstolos, foram operadas. Basta lembrar a pregação de Pentecoste, que, só de uma feita, arrebatou para o redil cristão três mil pessoas; ou a passagem referente à porta chamada Formosa, do Templo de Jerusalém, onde se restituiu a saúde e a locomoção a um coxo de nascença(8).

O grande desinteresse dos Apóstolos é uma das notas salientes dos Evangelhos e da História do Cristianismo.

Não deixemos de citar este exemplo: “Havendo um dia Simão, o Mago, o Astrólogo, oferecido a Pedro certa quantia para que este lhe concedesse a graça da imposição das mãos, Pedro lhe respondeu: Pereça contigo o teu dinheiro, pois julgaste adquirir com ele o dom de Deus; arrepende-te da tua maldade, pois vejo que estás em fel de amargura e nos laços da iniqüidade.”

Para concluir diremos:

A Missão Apostólica é de conversão e de regeneração sob os ditames básicos do Amor, síntese da Doutrina do Cristo. A missão religiosa, como se nos depara, não está afeta aos sacerdotes e sim aos Apóstolos de todos os tempos. A estes cabe a representação do Cristo, de acordo com a sua Doutrina, em que o espírito sobrepuja a letra.


AS BEM-AVENTURANÇAS – UM TRECHO DO SERMÃO DO MONTE

“Vendo Jesus a multidão, subiu ao monte; e depois de se ter sentado, aproximaram-se seus discípulos; e ele começou a ensiná-los, dizendo:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. “Bem-aventurados os que têm sido perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

“Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande é o vosso galardão nos Céus; pois assim perseguiram aos profetas que existiram antes de vós.”

(Mateus, V, 1-12.)


No mundo há alegrias, porém mais existem dores e tristezas. Já dizia que “o homem vive pouco tempo na Terra e a sua vida é cheia de tribulações” — Brevi vivens tempore repletur multis miseriis.

A Escritura chama à Terra um Vale de Lágrimas e compara a vida do homem à do operário que apenas à noite come o seu pão banhado de suor.

Sentimo-nos, neste mundo, vergados ao peso da dor; hoje, amanhã ou depois, ela não deixa de visitar-nos. O peso dos infortúnios acompanha a Humanidade em todos os séculos.

O homem vem ao mundo com um grito; um gemido de dor é o seu último suspiro!

Do berço ao túmulo, a estrada da vida está semeada de espinhos e banhada de lágrimas! Quantas ilusões, quantas amarguras, quantas dores passamos neste mundo!

A dor é uma lei semelhante à da morte; penetra no tugúrio do pobre como no palácio do rico. Neste mundo ainda atrasado, onde viemos progredir, a dor parece ser a sentinela avançada a nos despertar para a perfeição.

Max Nordau dizia: “Ide de cidade em cidade e batei de porta em porta; perguntai se aí está a felicidade, e todos vos responderão. Não; ela está muito longe de nós!”

Mas se é verdade que o Senhor permitiu que os sofrimentos nos assaltassem, não é menos verdade que também nos proporciona a Esperança, com que aguardamos dias melhores. “Bem-aventurados os que sofrem, pois serão consolados.”

A Esperança é a estrela que norteia as nossas mais belas aspirações; é a estrela que ilumina a noite tenebrosa da vida, e nos faz vislumbrar a estância de salvamento. A vida na Terra é um caminho que nos conduz às paragens luminosas da Vida Eterna; não é um repouso, mas uma preparação para o repouso.

Paulo, o Apóstolo dos Gentios, recordando-nos numa das suas luminosas Epístolas a Vida Real, disse: “Dia virá em que despiremos a veste mortal para vestir a da imortalidade.

Atravessamos a existência na Terra como o soldado atravessa um campo de fogo e de sangue, e os bravos e os fortes de espírito cravam nas muralhas o seu estandarte e levantam o grito de vitória!

É isto o que nos ensina o Espiritismo com a sua consoladora Doutrina.

Tomado de compaixão pelo mundo, o Cristo desce das alturas, senta-se sobre um alto monte, atrai a si multidões de desventurados e começa o seu monumental sermão com as consoladoras promessas:

“Bem-aventurados os pobres, os aflitos, os que choram, porque deles é o Reino dos Céus!” A “palavra boa”, a Esperança, proporciona sempre resignação, coragem e fé aos desiludidos das promessas do mundo.

O homem que confia e espera em Deus, vê nos sofrimentos o resgate de suas faltas, o meio de se purificar da corrupção! É preciso ter fé, é preciso ter Esperança. Dizei ao moribundo que, em verdade não morrerá, e ele, animado pela vossa palavra, enfrentará a morte e não sofrerá o seu aguilhão!

A Esperança é a consolação dos aflitos, a companheira do exilado, a amiga dos desventurados, a mensageira das promessas do Cristo!

Perca o homem tudo: bens, fortuna, saúde, parentes, amigos, mas se a Esperança, Filha do Céu, o envolve, ele prossegue em sua ascensão para o bem, para a vida, para a Imortalidade!

Do alto do monte, tomado de tristeza pelas desventuras humanas, o Senhor ensinava às multidões os meios de conquistar, com o trabalho por que passavam, o Reino dos Céus. E a todos recomendava resignação na adversidade, mansidão nas lutas da vida, misericórdia no meio da tirania, e higiene de coração para que pudessem ver Deus. Nessa autêntica oração, o Senhor já previa que seriam injuriados e perseguidos todos aqueles que, crendo na sua Palavra, encontrassem nela o arrimo para suas dores, o lenitivo para seus sofrimentos; mas recomenda, antecipadamente, não nos encolerizarmos com o mal que nos fizerem, para que seja grande o nosso galardão nos Céus. Disse mais: que exemplificássemos a nossa vida como os profetas que nos precederam, porque “bem-aventurados têm sido todos os que são perseguidos por causa da justiça”.

Lutemos contra a dor, aproveitando essa prova que nos foi oferecida, para a vitória do Espírito, liberto dos liames terrenos!

Empunhemos a espada da Fé e o escudo da Caridade, com todos os seus atributos, e o Reino de Deus florescerá em nós, como rogamos diariamente no Pai nosso, a prece que Jesus nos legou.




POBRES DE ESPÍRITO E ESPÍRITOS POBRES

“Bem-aventurados os pobres de espírito, Reino dos Céus.”

(Mateus, V, 3.)
Deus quer Espíritos ricos de amor e pobres de orgulho. Os “pobres de espírito” são os que não têm orgulho, os espíritos ricos são os que acumulam tesouros nos Céus, onde a traça não os rói e os ladrões não os alcançam.

Os “pobres de espírito” sãos os humildes, que nunca mostram saber o que sabem, e nunca dizem ter o que têm; a modéstia é o seu distintivo, porque os verdadeiros sábios são os que sabem que não sabem!

É por isso que a humildade se tornou cartão de ingresso no Reino dos Céus.

Sem a humildade, nenhuma virtude se mantém. A humildade é o propulsor de todas as grandes ações e rasgos de generosidade, seja na Filosofia, na Arte, na Ciência, na Religião.

Bem-aventurados os humildes; deles é o Reino dos Céus!

Os humildes são simples no falar; sinceros e francos no agir; não fazem ostentação de saber nem de santidade; abominam os bajulados e servis e deles se compadecem.

A humildade é a virgem sem mácula que a todos discerne sem poder ser pelos homens discernida.

Tolerante em sua singeleza, compadece-se dos que pretendem afrontá-la com o seu orgulho; cala-se às palavras loucas dos papalvos; suporta a injustiça, mas folga com a verdade!

A humildade respeita o homem, não pelos seus haveres, mas por suas virtudes. A pobreza de paixões, de vícios, de baixas condições que prendem ao mundo, e o desapego de efêmeras glórias, de egoísmo, de orgulho, amparam os viajores terrenos que caminham para a perfeição.

Foi esta a pobreza que Jesus proclamou: pobreza de sentimentos baixos, pobreza de caráter deprimido. Quantos pobres de bens terrenos julgam ser dignos do Reino dos Céus, e, entretanto, são almas obstinadas e endurecidas, são seres degradados que, sem coberta e sem pão, repudiam a Jesus e se fecham nos redutos de uma fé bastarda, que, em vez de esclarecer, obscurece, em vez de salvar, condena!

Não é a ignorância e a baixa condição que nos dão o Reino dos Céus, mas, sim, os atos nobres: a caridade, o amor, a aquisição de conhecimentos que nos permitam alargar o plano da vida em busca de mais vastos horizontes, além dos que avistamos!

Se da imbecilidade viesse a “pobreza de espírito” que dá o Reino dos Céus, os néscios, os cretinos, os loucos não seriam fustigados na outra vida, como nos dizem que são, quando de suas relações conosco.

Pobres de espírito são os simples e retos, e não os orgulhosos e velhacos; pobres de espírito são os bons que sabem amar a Deus e ao próximo, tanto quanto amam a si próprios.

Pobres de espírito são os que estudam com humildade, são os que sabem que não sabem, são os que imploram de Deus o amparo indispensável às suas almas.

Para estes é que Jesus disse: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”

MANSIDÃO E IRRITABILIDADE

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra.”

(Mateus, V, 5.)
A delicadeza e a civilidade são filhas diletas da mansidão.

Pela mansidão o homem conquista amizades na Terra e bem-aventurança no Céu.

Inimiga da irritabilidade que gera a cólera, a mansidão sempre triunfa nas lutas, vence as dificuldades, enfrenta os sacrifícios.

Os mansos e os humildes de coração possuirão a Terra, porque se elevam na hierarquia espiritual e se constituem outros tantos propugnadores invisíveis do progresso de seus irmãos, guiando-lhes os passos nas veredas do Amor e da Ciência — nobres ideais que nos conduzem a Deus!

“Aprendei de mim, disse Jesus, que sou humilde e manso de coração.”

É em Jesus que devemos buscar as lições de mansidão de que tanto carecemos nas lutas da vida.

Embora enérgico, quando as circunstâncias o exigiam, o Sublime Redentor sabia fazer prevalecer a sua Palavra pelo poder da verdade que a embalsamava, e sem ódio, sem fel, combatia os vícios, os embustes que deprimiam as almas.

Sempre bom, lhano, sincero, caritativo, prodigalizava a seus ouvintes os meios de adquirirem o necessário à vida na Terra e à felicidade no Céu.

“Não vos encolerizeis para que não sejais condenados.”

A irritabilidade produz a cólera e a cólera é uma das causas predominantes de enfermidades físicas e males psíquicos.

A cólera engendra a neurastenia, as afecções nervosas, as moléstias do coração: é um fogo abrasado r que corrompe o nosso organismo, é o vírus peçonhento que macula nossa alma.

Filha do ódio, a cólera é um sentimento mesquinho das almas baixas, dos Espíritos inferiores.

Sem mansidão não há piedade, sem piedade não há paciência, sem paciência não há salvação!

A mansidão é uma das formas da caridade que deve ser exercitada por todos os que buscam a Cristo.

É da cólera que nasce a selvageria que tantas vítimas tem feito.

Da mansidão vem a indulgência, a simpatia, a bondade e o cumprimento do amor ao próximo.

O homem prudente é sempre manso de coração: persuade seus semelhantes sem se excitar; previne os males sem se apaixonar; extingue as lutas com doçura, e grava nas almas progressistas as verdades que soube estudar e compreender.

Os mansos e humildes possuirão a Terra, e serão felizes, o quanto se pode ser no mundo em que se encontram.




RESIGNAÇÃO E INDIFERENÇA

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”

(Mateus, V, 6.)
Bem-aventurados os que se revoltam contra a injustiça, mas são resignados e calmos.

Ai dos indiferentes, dos acomodatícios, dos covardes, dos servis, que em proveito próprio aplaudem a injustiça!

Há muita diferença entre a resignação e a indiferença.

A resignação é a conformidade ativa nos inevitáveis acontecimentos da vida.

A indiferença é a submissão passiva às injustiças deprimentes.

A resignação é cheia de amor, de sentimentos nobres, de elevadas paixões.

A indiferença nulifica o amor, aniquila a nobreza dalma, destrói as virtudes e deprime a moral.

A resignação nas provas é obediência aos decretos de Deus.

A indiferença nos sofrimentos é dureza de coração e ausência de submissão à vontade divina.

O resignado é santo, porque a resignação nasce da paciência, e a paciência é filha dileta da Caridade. O indiferente é um anormal: tem cérebro e não pensa; tem coração e não sente; tem alma e não ama.

O resignado não aparenta sofrimento, porque conhece a Lei de Deus e a ela se submete com humildade.

O indiferente também não mostra sentir a dor, mas, orgulhoso e alheio aos ditames celestes, repele de si a idéia do sofrimento.

A resignação é excelente virtude, que precisamos cultivar; a indiferença é manifestação do egoísmo, que precisamos extirpar.

A resignação é a coragem da virtude.

A indiferença é a covardia da paixão vil.

Aquela eleva, dignifica, enaltece, santifica.

Esta deprime, desmoraliza, deprava e mata.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”

Bem-aventurados os que não se submetem às injustiças da Terra, nem pactuam com os opressores, os vis turibulários das altas posições!


HIGIENE DO CORAÇÃO

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.”

(Mateus, V, 8.)
Há corações limpos e há corações sujos. Para aqueles reservou o Senhor a visão de Deus.

E assim como há necessidade da higiene do corpo, para que o corpo funcione regularmente, com mais forte razão faz-se preciso higiene do coração, para que o Espírito ande bem.

É preciso limpar o coração para se ver a Deus. Ninguém há de coração sujo que tenha olhos abertos para o Supremo Artífice de Todas as Coisas.

“A boca fala do que o coração está cheio; do interior procedem as más ações, os maus pensamentos.”

Coração sujo, homem sujo; coração limpo, alma límpida, apta para ver Deus.

Faz-se mister limpar o coração. Mas, de que forma começar esse asseio?

É preciso que nos conheçamos primeiramente; é preciso conhecermos o coração. Nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo! Saber quem somos e os deveres que nos cumpre desempenhar; interrogar cotidianamente a nossa consciência; exercitar um culto estritamente interno, tal é o início dessa tarefa grandiosa para a qual fomos chamados à Terra.

A limpeza de coração substitui o culto externo pelo interno. As genuflexões, as adorações pagãs, as preces, cantadas e mastigadas, nenhum efeito têm diante de Deus.

O que o Senhor quer é a limpeza, a higiene do coração.

Fazer culto exterior sem o interior, é o mesmo que caiar sepulcros que guardam podridões!

Limpar o coração é renunciar ao orgulho e egoísmo com toda a sua prole malfazeja! É pensar, estudar, compreender; é crer no Amado Filho de Deus pelos seus ditames redentores!

É ser bom, indulgente, caridoso, humilde, paciente, progressista; é, finalmente, renunciar ao mal para abraçar o bem; deixar a aparência pela realidade; preferir o Reino! dos Céus ao Reino do Mundo, pois só dentro do Supremo

Reinado poderemos ver Deus!


LUZ MORTIÇA E SAL INSÍPIDO

“Vós sois o sal da Terra; se o sal se tiver tornado insípido, como se poderá restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do Mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; e ninguém acende uma candeia e a coloca sob o alqueire, mas no velador e assim alumia a todos os que estão na casa.

“De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus.”

(Mateus, V, 12-16.)


O homem espiritual é o que procura satisfazer a razão e o sentimento de seus semelhantes, ora transmitindo-lhes, com lógica e coerência, os ensinamentos de Jesus, ora praticando essa Doutrina Sublime, incomparável em sua grandeza, pelas verdades e consolações que nos proporciona.

O indiferente, o fanático, o supersticioso, o negador o maldizente, o hipócrita, o que se não esforça pelo seu engrandecimento e não trabalha pelo bem geral, é sal insípido, é luz mortiça, que para nada mais presta!

O que não auxilia os pobres, o que não ensina os ignorantes, o que não se condói do mal alheio e não procura aliviá-lo, é sal insípido, só serve para ser pisado pelos homens, é luz mortiça que entenebrece em vez de iluminar.

Os discípulos de Jesus são a luz do mundo e o sal da terra; a sua tarefa é esclarecer seus semelhantes e ao mesmo tempo procurar conservá-los fiéis aos ditames cristãos, proporcionando-lhes consolações.

O sal insípido não condimenta; a luz mortiça não ilumina!

“De tal modo brilhe a vossa luz, que os homens, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus.”




OS DOIS TESTAMENTOS E A REVOGAÇÃO DA LEI

“Não penseis que vim para revogar a Lei e os Profetas; não vim revogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo: passará o Céu e a Terra, mas de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til sem que tudo se cumpra.”

(Mateus, V - 17-18.)
Assim como não existem duas “leis” em vigor, uma em oposição à outra, também não podem existir dois “Testamentos” em validade, ambos contradizendo-se, defraudando-se aniquilando-se.

Existe a Lei, existem os Profetas; existiram os Profetas e existiram a Lei e os Profetas.

Jesus não veio revogar a Lei e os Profetas, mas cumprir; lembrar o cumprimento da Lei, trabalhar pelo cumprimento da Lei, ensinar o cumprimento da Lei, impor o cumprimento da Lei.

Jesus é a Luz do Mundo: essa luz ilumina a Lei, distingue-a do que não é Lei, orientando todas as almas de um modo racional, inteligível, para cumprirem a Lei, obedecerem a Lei, praticarem as ordenações da Lei.

Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida: sendo sua principal missão cumprir a Lei, a Lei deve, forçosamente, limitar-se, circunscrever-se ao Caminho que Ele personificou, à Verdade de que Ele foi o paradigma, à Vida de que deu o mais vivo exemplo.

A Lei está intimamente ligada à incomparável personalidade de Jesus: O que a Jesus não se liga, não se adapta, não se ajusta, não é Lei; não é, portanto, Caminho, não é Verdade, não é Luz, não é Vida: é desvio, é falsidade, é morte, é treva.

“De modo nenhum passará da Lei um só i, ou um só til, sem que tudo se cumpra.”

A Lei é eterna, é de todos os tempos, de todos os povos; o seu escopo é felicitar os homens unindo-os pelo mesmo ideal a Deus. O Ideal é o Amor.

“O Amor a Deus e ao próximo é a síntese, o resumo de toda a Lei e os Profetas.”

Tudo o que inspira desamor a Deus e ao próximo, não é Lei, nem provém da Lei ou dos Profetas; tudo o que divide, desune, desarmoniza a família humana, está fora da Lei; tudo o que tolhe a liberdade, o livre exame, a compreensão, não está compreendido na Lei.

A Lei foi dada por intermédio de Moisés, mas a graça e a verdade da compreensão da Lei foi dada por Jesus Cristo; Ele é a Luz e a Verdade.

A Lei não é de Moisés; se fosse, passaria com Moisés, como a lei de Moisés do dente por dente, olho por olho passou, para não mais voltar; não só desapareceram dela o i, e os til, como também todo o valor, toda a potência, todos os caracteres.

Para que a Lei se cumpra, é preciso que desapareçam todos os opressores que, constituindo-se guardas da Lei, não a praticam, mas corrompem-na. Para que a Lei se cumpra, é preciso que o Velho Testamento seja posto à margem, porque “Na verdade, nenhum outro fundamento pode ser posto entre o céu e a Terra senão Jesus Cristo.”

O maior dos Profetas anuncia o Maior dos Enviados; o maior Enviado exalta o ministério dos Profetas, adstrito à Lei sintetizada no amor a Deus e ao próximo.

Os sacerdotes foram postos à margem, como infratores da Lei; as igrejas de pedra estão fora da Lei: delas não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada. (Lucas XXI, 6.)

Os sacerdotes têm uma lei que não é a Lei, assim como os cientistas e os políticos têm uma lei, que não é a Lei; suas igrejas, suas academias, seus palácios têm os seus mandamentos, mas estes mandamentos não constituem a Lei de Deus, são mandamentos e ordenações que estão fora da Lei: têm passado, estão passando e passarão para desaparecerem para sempre.

Não pode haver dois Testamento, não pode haver duas leis de Deus: há um Deus, um batismo, uma só fé, uma única verdade. A lei das sinagogas, dos templos, do monte, foi revogada pelo Cristo: “É chegada a hora, e agora é, em que não adorareis a Deus em Jerusalém, nem no Monte Garizim, mas sim em espírito e verdade, porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.” (João, IV. 21-24.)

A lei das igrejas não é parte integrante da Lei, ela é a mesma das sinagogas, dos templos, dos montes; a lei das igrejas foi denunciada como infração da Lei, por Jesus Cristo.

A Lei não passará, nem um i nem um til deixará de ter o seu cumprimento.

O Espiritismo repete as palavras de Jesus: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas, não vim revogar, mas cumprir.”




O JURAMENTO

“Tendes ouvido o que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo que absolutamente não jureis; nem pelo Céu, porque é o trono de Deus; nem pela Terra, porque é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei; nem jureis pela vossa cabeça, porque nem um só cabelo podeis tornar branco ou preto; mas seja o vosso falar: sim, sim; não, não; pois tudo o que passa disto é de má procedência.”

(Mateus, V, 33-37.)
O Evangelho é uma espada de dois gumes que, manejada à direita e à esquerda, é capaz de destruir erros seculares e preparar a Humanidade para o cumprimento da Palavra Divina.

É impossível compreender-se o Espiritismo sem o Cristianismo” Este é, na verdade, a base fundamental da Nova Revelação.

Jesus não veio destruir a lei de Deus, mas torná-la conhecida. E o Espiritismo repete as palavras do Filho de Deus.

Sendo o nosso fim fazer renascer nas almas o sentimento cristão, faz-se mister desembaraçá-la dos interesses de seita, que as prendem ao jugo dos dogmas.

A palavra de Jesus não pode passar, nem uma vírgula lhe será tirada; a luz há de resplandecer nas trevas para iluminar aos homens a senda da perfeição que o Mestre veio traçar.

Quem poderá dispor, ainda que seja de um fio de cabelo, para contrariar a lei de Deus, se a ninguém é dado torná-lo realmente branco ou preto!

O homem de bem, aquele que tem por norma de vida o Evangelho, nada faz sem pensar, sem deixar o raciocínio amadurecer, sem buscar, rias inspirações do Alto, os conselhos para as suas decisões, que nunca atingem o juramento e se baseiam sempre no sim e no não! Sim, sim; não, não; o que passa dar, é de má procedência.

O juramento pode ser uma instituição humana, mas não divina. E com que autoridade ordenamos a nossos semelhantes jurar sobre o Evangelho, quando é nesse mesmo Livro que se lê a expressa proibição do juramento, que no próprio dizer de Jesus “é de má procedência!”

O Senhor dotou-nos de inteligência, razão e liberdade, para que não nos escravizemos a quem quer que seja.

O juramento é uma condição de servidão que degrada: deprime-nos o caráter e nos força à execução de atos que muitas vezes reprovamos.

A exigência do juramento teve começo nas agremiações religiosas, que se desviaram do Cristianismo, para manter seus princípios dogmáticos.

Precisamos libertar-nos das religiões opressoras que exploram a consciência humana e lhes escravizam a razão.

Sim, sim; não, não. E o que está escrito; é o que nos cumpre proferir em nossas resoluções.

A RELIGIÃO DOS HOMENS E A RELIGIÃO DE DEUS

“Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás ao teu inimigo. Eu porém vos digo: Amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o seu Sol sobre os bons e sobre os maus, e vir suas chuvas sobre os justos e injustos. Porque, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos o mesmo? E se saudardes somente aos vossos irmãos, que fazeis de especial? Não fazem os gentios também o mesmo? Sêde vós, pois, perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito.”

(Mateus, V, 43-48.)
“Mas os fariseus, sabendo que Jesus fizera calar os saduceus, reuniram-se; e um deles, doutor da Lei, para o experimentar, fez-lhe esta pergunta: Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo semelhante a este é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos resumem toda a Lei e os Profetas.”

(Mateus, XXII, 34-40.)
A Religião dos homens não é a Religião de Deus. A religião dos homens se resume nos sacramentos: batismo, confissão, crisma, matrimônio, missas, extrema-unção, procissões, festas, dias-santos.

A Religião de Deus é caridade, misericórdia, paz, paciência, tolerância, perdão, amor a Deus, amor ao próximo.

A religião dos homens é misericórdia sujeita ao numerário.

A Religião de Deus está isenta do dinheiro do mundo. A religião dos homens circunscreve a razão e o sentimento, prescrevendo a ignorância; não admite a evolução.

A Religião de Deus reclama o estudo e proclama o progresso.

A religião dos homens consiste em dogmas e mistérios que a consciência repele e o sentimento repudia.

A Religião de Deus derriba as barreiras do sobrenatural e afirma que nunca disse, nem dirá a última palavra, porque é de evolução permanente.

A religião dos homens escraviza as almas, escraviza a inteligência, anula a razão, condena a análise, a investigação, o livre-exame.

A Religião de Deus manda ao indivíduo, como Paulo, examinar tudo, crescer em todo o conhecimento, fazer o estudo crítico do que lhe for apresentado para separar o bom do mau e não ter tropeço no “dia do Cristo”.

A religião dos homens não tem espírito: para ela o Evangelho é letra-morta, não tem a Palavra de Jesus; seus santos são de pau e barro; suas virtudes, de incenso e alfazema; suas obras são folguedos, festanças com alarido de sinos, de foguetes, de fanfarra; seus ornamentos, de fitas e papéis de cores.

A Religião de Deus é vivificada pelo Espírito da Vida Eterna, é acionada pelas Revelações Sucessivas, baseia-se na Palavra de Jesus, nos Evangelhos, nas Epístolas Apostólicas. Seus santos são Espíritos vivos, puros, ou que se estão purificando e que vêm comunicar-se com os homens na Terra, para guiá-los à Verdade; suas virtudes são as curas dos enfermos operadas por esses Espíritos, as manifestações de materializações, de transportes, de fotografia, que vêm dar a certeza da Imortalidade e estabelecer a Verdadeira Fé.

A religião dos homens é a aflição, o desespero, a morte; ao doente ela só oferece a confissão auricular; ao agonizante, a extrema-unção e depois da morte o De-Profundis com as subseqüentes missas, que constituem um gravame eterno para a família do morto.

A Religião de Deus é a consolação, a esperança, a vida: ao doente dá remédios, fluidos divinos para lenir o sofrimento; ao agonizante desvenda o Reino da Imortalidade e afirma o prosseguimento da Vida independente da vida na Terra; dá de graça a misericórdia, cerca o paciente de amor e a todos recomenda a oração gratuita como meio de auxiliar os que sofrem.

A religião dos homens é composta de uma hierarquia que começa no pequeno cura de aldeia para se elevar através das dignidades de cônego, monsenhor, bispo, arcebispo, cardeal, ao caporal maior, o Sumo Pontífice Infalível, o Papa; cada qual se distingue pela tonsura, vestimenta, rubis, pedrarias de esmeraldas, brilhantes, diamantes e roupagens de seda, de púrpura, de holanda: obrigando o hábito a fazer o monge.

A Religião de Deus é ministrada pelo Espírito, por intermédio dos dons espirituais de que fala o grande Apóstolo da Luz em sua gloriosa Epístola, hoje de divulgação mundial; ela não distingue o religioso, o cristão, pelo hábito, pela opa, pela batina, pelos anéis, pela coroa, pela mantilha, pelos rosários, pelas medalhas, pelas cruzes, porque qualquer tartufo ou “tartufa” pode usar essas insígnias; mas reconhece o cristão, o religioso pelo caráter, pelo critério, pela fé que dele emana, pela caridade que o caracteriza, pela esperança não fingida que manifesta.

A religião dos homens persegue, anatematiza, odeia e calunia os que são descrentes.

A Religião de Deus perdoa, ora, auxilia, serve e ampara seus próprios perseguidores, detratores, caluniadores e adversários.

A religião dos homens se ilumina à luz do azeite, da cera, da eletricidade.

A Religião de Deus é a Luz do Mundo e de todo o Universo.

A Religião dos homens é insípida, corruptível; usa o sal material.

A Religião de Deus é o Sal da Terra: conserva, transforma, purifica.

A religião dos homens tem igrejas de pedra, de terra, de cal, de ferro, de madeira.

A Religião de Deus tem por Igreja, como disse o Apóstolo, almas, espíritos vivificantes.

As igrejas dos homens são de matéria inerte, caem ao embate dos ventos, das tempestades, das correntezas.

Contra a Igreja de Deus os elementos não prevalecem; ela é imperecível e se nos mostra cada vez mais viva, mais luminosa.

A religião dos homens é a opressão, o orgulho, o egoísmo, a mercancia.

A Religião de Deus é a da liberdade, da humildade do amor, do desinteresse. A religião dos homens não é a Religião de Deus: a religião dos homens é dos homens e para os homens.

A Religião de Deus é a Luz Universal que proclama a Verdade, o Caminho e a Vida, repetindo a Palavra do incomparável sábio e santo, Jesus o Cristo: Amai os vossos inimigos; orai pelos que vos caluniam; que a vossa justiça seja maior que a dos escribas e fariseus; ama; a Deus e ao próximo, porque neste amor se fundam a Lei e os Profetas; sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai Celestial!




A VIDA NA TERRA E A VIDA ETERNA

“Não andeis cuidadosos da vossa vida, pelo que haveis de comer ou de beber, nem do vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e o vosso Pai as alimenta; não valeis, vós muito mais que elas? E qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? E por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles! Se Deus veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: “Que havemos de comer? Ou: Que havemos de beber? Ou: Com que nos havemos de vestir? Pois os gentios é que precisam destas coisas: porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o Seu reino e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não andeis, pois, ansiosos pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

(Mateus, VI, 25-34.)
O escopo da vida na Terra é o aperfeiçoamento do Espírito. Aquele que assim compreende eleva-se, dignifica-se, e, livre dos entraves materiais, sobe às alturas inacessíveis ao sofrimento, alcançando a felicidade eterna.

Aquele que assim não quer compreender rebaixa-se, desmoraliza-se, e, absorvido pelas más paixões, desce às voragens da dor, para expiar e reparar as faltas, as transgressões das leis divinas.

O que vive da carne, morre; o que vive do Espírito é imortal.

Lutas, fadigas, trabalhos e dores são luzes para os vivos e sepulcros para os mortos.

Uns pairam calmos e resistentes acima das misérias terrestres; outros jazem sob os escombros amontoados pelo tufão inclemente da adversidade!

O que vê com os olhos da carne, vê misérias, estertores, morte; o que vê com os olhos do Espírito, vê flores que murcham, prados devastados, regatos que secam fontes que não vertem água, avarias, mutilações, cadáveres putrefatos; mas vê também cores que são perfumes, luzes que são forças, vidas que despontam, seres que se agitam, almas que vivem e Espíritos que vivificam.

No panorama do Universo as duas faces da Vida se mostram como o verso e reverso da medalha: cada efígie tem a sua cotação acima ou abaixo da “paz cambial”.

Nada se perde, nada se desvaloriza na equação proposta para chegar-se à incógnita da Perfeição Espiritual.

A Lei vê passar o tempo, as gerações, a Terra e o céu, mas permanece inflexível, aperfeiçoando as gerações, a Terra, o céu, na sua ação lenta, mas decisiva e depuradora.

O escopo da vida é o cumprimento da Lei, e o cumprimento da Lei é a Perfeição.

Os que transgridem a Lei descem pelos tremedais das paixões vis aos báratros tenebrosos da dor; mas, aguilhoados pela dor, sobem aos cimos das ,glórias imortais!

Os que cumprem e proclamam o cumprimento da Lei, voam por entre luzes, cores e perfumes às Eternas mansões dos Espíritos Soberanos, onde a harmonia, a verdade e a paz imperam na plenitude de seus direitos divinos.

A vida na Terra, para aqueles que na Terra têm o seu tesouro, como que termina no túmulo, porque só com o renascimento alcançarão a Vida Eterna.

A Vida na Terra, para os que acumulam tesouros nos Céus, é a senda luminosa que liga a Terra aos Céus, é a estrada comunicativa que lhes permite a passagem para se apossarem desse tesouro.

Os que vivem na Terra pela Terra, são da Terra; os que vivem na Terra sem serem da Terra, são dos Céus.

A vida na Terra é efêmera; a Vida nos Céus é eterna; e a posse da Vida Eterna consiste no cumprimento da Lei: “Buscai o Reino de Deus e a sua justiça, que tudo o mais vos será dado por acréscimo.”




AS DUAS ESTRADAS E AS DUAS PORTAS

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; porque estreita é a porta e apertada a estrada que conduz à Vida e poucos são os que acertam com ela.”

(Mateus, VII, 13-14.)
Duas são as estradas que se apresentam aos homens: a da Evolução e a da Degradação.

Também são duas as portas que se abrem à pobre criatura humana: a porta da Vida e a porta da Morte.

Aqueles que caminham pela Estrada da Evolução, hão de, forçosamente, passar pela porta estreita que conduz à Vida.

Os que descem o declive da degradação, hão de atravessar a porta larga para viverem na Morte!

Há vida na Vida e há “vida” na Morte!

Na vida da Terra há morte; na Vida do Espaço a vida venceu a Morte.

A Estrada da Evolução é apertada, poucos são os que acertam com ela, mas grande é o número dos que não querem acertar, pois ouviram dizer que ela é “apertada”.

A Estrada da Degradação é larga, muitos são os que por ela passam e dela não querem sair, por ser espaçosa e facultar-lhes uma série considerável de diversões.

A Estrada do Progresso vê-se com os olhos da alma, e a alma a deseja, ardentemente, para a aquisição de seus destinos felizes; a da Degradação proporciona no presente os gozos efêmeros do mundo e o homem material por ela caminha preso a essas delícias perecíveis.

A Estrada do Progresso, por ser apertada, exige conhecimentos, reclama atenção, critério, raciocínio, para que não se decline para a direita ou para a esquerda.

A Estrada da Degradação é guarnecida de todos os atrativos, festejada com todas as músicas: nela os cinco sentidos humanos se fascinam, embriagam-se pelas sensações exteriores, aniquilando o Espírito que fala à consciência, adormecendo a alma que deixa de agitar a razão.

Para subir-se pela Estrada da Evolução e entrar-se pela porta do Progresso, é preciso Prudência, Fortaleza, Temperança, Retidão, Fé, Esperança e Caridade. Por isso: “Estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à Vida, e poucos são os que acertam com ela.”

A Estrada da Degradação é a da Soberba, da Avareza, da Luxúria, da Ira, do Ódio, da Gula, da Preguiça, da Inveja, de que o mundo está cheio; eis porque: “Larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e muitos são os que por ela entram.”

Entrai pela Porta Estreita porque é a que dá entrada à Vida Eterna.




OS DOIS FUNDAMENTOS

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as observa, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa e ela não caiu; pois estava edificada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as observa, será comparado a um homem néscio, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e foi grande a sua ruína”.

(Mateus, VII, 24-27.)
Nesta alegoria Jesus compara a crença com um edifício; a boa crença é semelhante ao sólido edifício construído sobre a rocha; a má crença é como um edifício de má construção, levantado sobre a areia movediça.

Há, pois, duas crenças: a crença verdadeira e a falsa crença.

A boa crença nasce do estudo, do livre-exame, da observação; é a crença ativa, racional, científica.

A má crença é passiva, tradicional, hereditária; aceita os dogmas que lhe são sugeridos, sem consciência, sem análise, sem convicção.

A crença verdadeira representa o edifício construído sobre a rocha; a falsa, a edificada sobre a areia movediça.

A alegoria é magnífica.

Quem quer construir um bom edifício, de duração e que possa, pela sua solidez, resistir às intempéries, procura um bom terreno, cava alicerces, bate e assenta sobre esses alicerces uma base de pedras para que os alicerces suportem o peso da casa. Só depois é que ergue as paredes e conclui o prédio.

Outros há que não fazem questão de terreno, nem de alicerces. Constróem em qualquer lugar e até mesmo sem alicerces. Estas casas não oferecem garantia e se tornam perigosas aos moradores.

Assim é a Religião: quem procura com boa vontade e livre de idéias preconcebidas a Verdade, e está disposto a abraçá-la, está edificando sobre a rocha; quem se submete a qualquer doutrina, sem consciência do que faz, edifica sem base e em terreno movediço.

Mas, assim como não é bastante encontrar o terreno para ter a casa feita, também não basta encontrar a Verdade para tê-la em si. É preciso construir a crença, como se constrói uma casa.

Logo que se acha o terreno, dele toma-se posse e se começa a construção: primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o telhado, depois o acabamento interior e exterior.

Assim também quando se encontra a Verdade, depois de tê-la procurado e de se estar certo pela investigação, exame, raciocínio, que é, de fato, a Verdade, urge tratar da construção da crença, a começar do alicerce e este há de ser forçosamente o mesmo posto por Jesus, a Revelação Divina, como disse ele aos seus discípulos: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. (Mateus, XVI, 13- 19.) E assim, com o material vindo do Céu e com o trabalho e esforço que empregamos, vamos, pouco a pouco, construindo o edifício da crença que tanto mais sólido e mais belo será, quanto maior for a dedicação que tivermos para ver terminada essa obra grandiosa, que será o nosso eterno abrigo.

Jesus comparou ambas as formas de crença, uma, a um edifício bem construído, e a outra, a uma casa mal edificada.

Um edifício bem construído guarda-nos das intempéries e das tempestades, livra-nos dos malfeitores, dá-nos sossego e paz.

Assim a verdadeira crença: consola-nos nas provações, livra-nos das emboscadas dos Espíritos maléficos, dá-nos calma, coragem e fortaleza para vencermos.

Uma casa mal edificada corre o risco de ser abalada pelas tempestades e ruir ao influxo da correnteza; sujeita a ser assaltada, sempre nos causa sobressaltos.

A crença cega é semelhante a uma casa assim construída ou adquirida; essa crença popular, tradicional, hereditária, sem Evangelho, sem Jesus Cristo, sem exame, sem raciocínio, no primeiro momento de adversidade, ameaça tais ruínas que põem em perigo seus próprios adeptos.

A crença não é mercadoria que se adquire na praça, nem dádiva que se aceita para ser agradável. Ela começa pelo estudo e pela investigação; cresce em nós à medida que a cultivamos. A crença é que nos ilustra e nos faz aproximar de Deus.

As casas mal edificadas estão sujeitas à demolição. A crença bastarda deve ser repudiada para dar lugar a nova edificação sobre sólidos fundamentos.

Examine cada qual a sua crença e observe se a “casa” é de sólida construção e está erguida sobre fundamento inamovível.




JESUS E O CENTURIÃO

“Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião e rogou-lhe: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente. Disse-lhe: eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas dize somente uma palavra e o meu criado há de sarar. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Jesus ouvindo isto admirou-se e disse aos que o acompanhavam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé. E digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente, e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai-te, e como creste, assim te seja feito. E naquela mesma hora sarou o criado.”

(Mateus, VIII, 5-13.)
Cafarnaum, era uma das grandes cidades da Galiléia, muito próxima à foz do Rio Jordão, onde João Batista costumava fazer suas pregações, convidando o povo ao arrependimento dos pecados.

E como ficava na estrada comercial que ia da cidade de Damasco ao Mar Mediterrâneo, o governo romano tinha lá uma milícia composta de cem soldados, sob a direção de um comandante.

Esse comandante tinha o título de centurião, justamente porque comandava cem soldados. Pelo que se compreende do trecho que acabamos de ler, logo que o centurião teve conhecimento da entrada de Jesus na cidade de Cafarnaum, sem mais detenças fardou-se e foi à procura do Moço Nazareno, e, encontrando-o logo, queixou-se do mal de que sofria o seu criado: “O meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente.”

Ora, sendo Cafarnaum uma cidade populosa, de certa importância, a ponto de ser guardada por uma milícia de cem soldados, comandada por um centurião, havia forçosamente alguns “médicos” ali residentes — pois naquele tempo já os havia; tanto assim que um deles, Lucas, se tornou apóstolo de Jesus.

Pelo que diz o Evangelho, podemos ainda ficar sabendo que a moléstia que acometera o criado do Centurião era paralisia, e paralisia que ocasionava grandes sofrimentos; sabemos ainda mais, que a moléstia do homem era grave, e que esse servo do centurião, segundo afirma Lucas, que era médico, estava até moribundo, nas vascas da agonia, às portas da morte. É impossível, pois, que o centurião, que era pessoa de recursos, e que muito estimava o seu servo, não houvesse chamado médicos para tratá-la!

O doente não podia ter ficado até aquele momento sem medicação, embora a medicação não lhe tivesse dado melhoras.

Provavelmente desanimado com o tratamento da Ciência daquele tempo, o centurião, homem instruído, sabendo das curas que Jesus havia operado, pois, pouco antes de entrar em Cafarnaum, o Mestre tinha curado um leproso, deliberou valer-se do Grande Médico Espiritual para curar o servo.

E sabiamente agiu o centurião, porque seu pedido foi recebido com toda a consideração:

“Eu irei curá-lo”, disse Jesus. Admirável frase esta: “Eu irei curá-lo”!

Qual é o médico que, sem ver o doente, sem perscrutar, sem examinar; sem ver os olhos, tocar o ventre, o fígado, o peito ou as costas; sem auscultar o coração ou os pulmões; sem fazer análise de urina, ou de escarros, ou de fezes; sem inquirir do doente, ou da pessoa que o assiste, onde sente dor; se come, se bebe, se tem febre, pode dizer categoricamente a qualquer que o chama para socorrer um sofredor: “Eu irei curá-lo”?

Sabemos que todos os médicos podem dizer, ao serem chamados para assistir um doente: “Eu irei tratá-lo”, mas dizer: “eu irei curá-lo”?!

Só houve um na Terra que, sem tomar pulso, sem pôr termômetro, sem perguntar sintomas e sem ver o doente, nem lhe saber o nome, nem lhe indagar a idade, pode afirmar sábia e categoricamente, quando lhe pediram auxílio: “Eu irei curá-lo”!

Eis porque sempre afirmamos que Jesus foi o maior de todos os médicos e que ninguém foi, nem é tão sábio quanto ele. O Mestre não tratava de doente, não alimentava moléstias; curava os doentes, matava as moléstias. A sua ação no mundo foi verdadeiramente estupenda, extraordinária, maravilhosa. Só ele era capaz de fazer o que fez; só ele é capaz ainda hoje de fazer o de que nós precisamos; e o fará, se, como o centurião, soubermos implorar-lhe assistência.

Vimos que Jesus se prontificou imediatamente a ir à casa do centurião para curar o enfermo. Mas, que pensou o centurião sobre a resposta do Mestre?

“Senhor! Não sou digno de que entres em minha casa; porém dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. Porque também sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; ao meu servo: faze isto, e ele o faz.”

Quantos ensinamentos se tiram destas palavras, que, não sendo de Jesus Cristo, foram, entretanto, proferidas diante dele e mereceram a sua aprovação! “Eu não sou digno de que entres em minha casa.” É esta a frase que todos nós deveríamos sempre, em nossas preces, em nossos rogos e de todo o coração, dizer ao Mestre, quando, todos os dias, lhe solicitamos graças e benefícios: “Senhor! dá-nos isto ou aquilo; faze-nos este ou aquele benefício, mas não venhas à nossa casa, porque não somos dignos de que entres em nosso lar. Nossas paixões, nossos vícios, nossa inferioridade e o nosso coração pequenino nos fazem envergonhar em tua presença.”

Mas, infelizmente, não é isso o que dizemos. Todos chamam a Jesus em suas casas, todos querem vê-lo a seu lado; e alguns há que pretendem encerrá-lo em armários, ou então devorá-lo, metê-lo no ventre!(9)

Vede que iniqüidade, que natureza avara de humildade tem a criatura humana!

O criminoso se constrange diante do magistrado: o réu se envergonha em face dos juizes; a criatura humana, negra de ignorância, asquerosa de orgulho e de vaidade horrenda de egoísmo, julga-se tão iluminada, tão casta, tão pura, a ponto de se dizer irmã do Coração de Jesus; desse Coração Imaculado, puríssimo, que não palpita senão para fazer sentir o amor; que não movimenta as suas aurículas senão para transmitir, aos sofredores, uma parcela do seu puríssimo afeto; que não fala senão para abençoar e ensinar; que não brilha senão para arrancar as almas das trevas, da devassidão, das mentiras e dos enganos!

Não, não era preciso que o Espírito Puríssimo entrasse em casa do centurião para que o servo desse comandante ficasse livre da enfermidade; assim como não era preciso que o centurião fosse pessoalmente abrir as “portas do cárcere” para libertar dele um prisioneiro que desejasse soltar.

“Também eu sou um homem sujeito à autoridade, Senhor; não és só tu que estás sob o domínio da autoridade; eu também o estou; com a diferença de que a minha autoridade é da Terra e a tua é do Céu. O meu chefe é o governador romano; o teu chefe é o Governador do Universo. Mas, apesar disso, eu tenho soldados à minha disposição; assim como também sei que tu tens legiões de Espíritos santificados pela tua Palavra, que estão sob o teu domínio. Eu digo a um dos meus soldados: vai para lá, e ele vai; a outro: vem para cá, e ele vem; a outro: faze isto ou aquilo, e ele o faz; tu, pela mesma forma, mandas na tua milícia; teus soldados e teus servos fazem tudo o que tu ordenas, assim como os meus fazem tudo quanto eu ordeno. “Dize só uma palavra, e o meu criado há de sarar”, porque eu também, quando quero fazer qualquer coisa, seja prender um turbulento ou libertar um prisioneiro, digo só uma palavra, são cumpridas imediatamente as minhas ordens!

E Jesus, maravilhado ante a fé que amparava o centurião, cheio de alegria diante das palavras do soldado romano, vira-se para seus discípulos e lhes diz: “Em verdade vos afirmo, que nem mesmo em Israel achei tamanha fé!”

A luz não foi feita senão para iluminar, assim como a Verdade para libertar, a Esperança para consolar e animar, a Caridade para amparar e purificar, e a Sabedoria para guiar e engrandecer!

Todas estas virtudes, todos estes dons celestiais, que enchem a criatura de bem-estar e de paz, são raios coloridos de um mesmo Sol, são reflexos multicores de uma mesma Estrela, que orienta os povos, que encaminha as nações, que eleva a dignidade humana, e cujas luzes penetram no coração, sobem ao cérebro e se expandem na alma. Essa venturosa claridade dos céus a que nós chamamos Fé, implantada no Espírito humano, nasce como o grão de mostarda da parábola, cresce e torna a crescer; cresce sempre sem parar, e, quando lhe chega o momento feliz de não mais elevar suas hastes, de não mais alongar seus galhos, de não mais engrossar seu tronco, de não mais estender suas raízes; quando chega esse momento, em que a nossos olhos parece completada a conta de seus dias, concluído o seu itinerário, finda a sua vida, é então que lhe é chegado o momento de maior crescimento, de maiores trabalhos, de mais produtiva Vida, porque é então que ela vai frutificar, para, depois, estender-se em ramificações cada vez mais consideráveis e crescentes, a ponto de se fazer seara e cobrir extensão considerável de terreno! Foi esta a Fé que Jesus saudou com alegria, quando a viu cultivada pelo soldado romano; foi esta a Fé, engrandecida pelos conhecimentos, purificada pela humildade, santificada pela prece na pessoa do centurião, que o Mestre justificou, dizendo: “Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei tamanha fé!”

Além de dizer aos seus discípulos perto do centurião: “Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”, o Mestre acrescentou, ainda, como para servir de incentivo àqueles que o ouviam, para que estudassem, para que fizessem também crescer a fé que possuíam:

“Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores e ali haverá choro e ranger de dentes.”

Aqueles que estiverem fora das Igrejas que paralisam o crescimento da Fé; aqueles que têm a felicidade de não pertencer a esse Reino do Mundo, onde os sacerdotes aprisionam as almas, a política deprime o caráter e a ciência balofa entenebrece; aqueles que estão no Oriente ou no Ocidente, de um lado ou de outro, mas não estão dentro do Reino do Farisaísmo; aqueles que não são filhos desse reino, porque só têm como paternidade, como domínio o Reinado de Deus — esses hão de subir às regiões da felicidade e da luz, onde estão os Espíritos Puros que viveram outrora neste mundo — Abraão, Issac e Jacó! Hão de sentar-se à mesa espiritual, onde lhes serão oferecidos novos e ainda mais saborosos manjares, para engrandecerem mais ainda a sua Fé, para tornarem-na maior, mais robusta, mais viva, mais luminosa, mais sábia, mais divina!

E os filhos deste reino, deste reino da mentira, da mercancia, do orgulho, da hipocrisia, das exterioridades e da idolatria, ficarão imersos nessas mesmas trevas por eles criadas; estagnaram a crença, como uma poça d'água na estrada; abdicaram os direitos do crescimento, do engrandecimento, da floração dessa plantinha cuja semente Jesus lhes colocara no coração; não terão nem árvore para sombra, nem flores para perfume, nem frutos para alimento; e chorarão de fome, e quebrarão os próprios dentes ao rangê-los no sofrimento nas trevas!

E havendo Jesus dado todos esses ensinamentos a uns, e bênçãos a outros, pois que tanto os ensinamentos, como os aplausos do Mestre, são bênçãos de perfeição, ou seja, de aperfeiçoamento, depois de Jesus haver exaltado a Fé do Centurião, concluiu a sua lição dizendo ao comandante da milícia:

“Vai-te, e como creste, assim te seja feito!”

“Como creste, assim te seja feito” e o centurião foi e encontrou o seu criado curado, são.

Como creu o centurião?

Por que forma acreditava ele que a cura de seu servo se devia operar?

Naturalmente que, com a autorização e a mandado de Jesus, alguns dos Espíritos que acompanhavam o Mestre, na sua Missão, iriam à casa do centurião e a cura se operaria. Porque, como disse ele ao nazareno, “não precisas vir a minha casa, Senhor, mas com uma palavra tua meu servo há de sarar”; pela mesma forma que com uma palavra minha, os prisioneiros são postos em liberdade.”

Foi assim que o centurião creu, e foi assim que seu servo foi curado; e assim foi que Jesus afirmou ter ele de sarar, quando disse: “Como creste, assim te seja feito!”


AS DUAS MORTES

“Vendo Jesus uma multidão em redor de si, mandou passar para a outra margem do lago. E chegou um escriba e disse-lhe: Mestre, seguirte-ei para onde quer que fores. Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm seus covis, e as aves do céu seus pousos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.

“E um outro discípulo disse-lhe: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai. Porém Jesus respondeu-lhe: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.”

(Mateus, VIII, 18-22.)


Existem duas vidas, devem conseqüentemente existir duas mortes: a morte concreta e a morte abstrata.

Quando o homem morre, os membros se lhe enrijecem, seu calor desaparece, suas células se multiplicam e se avolumam; a putrefação anuncia a desagregação molecular e a personalidade desfigurada desaparece nas voragens do túmulo.

Quando a alma morre, é o censo moral que se enrijece; e o frio da descrença caracteriza o cadáver; são as más paixões que denunciam a decomposição do indivíduo e ei-lo, sepulcro ambulante, em trânsito pelas necrópoles dos vícios, ostentando suntuoso mausoléu!

Há alma morta em corpo vivo, porque, assim como o corpo sem alma é morto, o Espírito sem a Fé que vivifica e felicita é um ser inerte como um cadáver.

O corpo morto tem olhos e não vê, tem ouvidos e não ouve, tem boca e não fala, tem cérebro e não raciocina, tem braços e não se move, tem pernas e não anda, tem nariz e não cheira; o tato desaparece e até o coração, o fígado, o estômago, os intestinos, que produzem trabalho mecânico, jazem quedos, inertes, glaciais. A alma, quando morta, também perde a sensação e a percepção: não pensa, não sente a Vida, não percebe a Moral; nenhum som, nenhuma cor, nenhum perfume, nenhum ato generoso, nenhuma ação Divina consegue despertar esse “Lázaro” encerrado em sepulcro de carne!

Como é terrível a morte da alma! Mais estranha e penosa coisa é a morte da alma que a morte do corpo.

A morte do corpo é a libertação do Espírito; a morte da alma é a sua escravidão ao serviço da carne.

Há morte do corpo e há morte da alma.

Glorioso é o dia da morte do corpo para os Espíritos que vivem; terrível é o dia da morte do corpo para os Espíritos mortos. Entretanto para uns, como para outros, há ressurreição; aqueles ressurgem para a glória e estes para a condenação; daí a proposição de ficarem os mortos incumbidos do enterro dos seus mortos!

Existem duas mortes: a morte concreta, que destrói a personalidade (o corpo — a figura aparente do Eu); e a morte abstrata, que adormece, desfigura, deprime a individualidade, o ser que prevalece na Vida Eterna.

A morte do corpo, para a alma morta, é o arrebatamento do indivíduo que fica forçado a alhear-se de todos os bens da Terra, de todos os gozos mundanos e até dos seres que o cercavam na vida do mundo.

A morte da alma é a abstração de tudo o que interessa à Vida Imortal, é a ausência de todos os bens incorruptíveis, é o desconhecimento da Divindade, é a pobreza dos sentimentos nobres, do caráter, da virtude.

Existem duas vidas, existem duas mortes; existem duas estradas, duas portas; existem dois senhores, sigamos o Senhor do Céu e deixemos que os mortos enterrem os seus mortos!

A TEMPESTADE ACALMADA

“E entrando Jesus na barca, seus discípulos acompanharam-no, e eis que se levantou no mar tão grande tempestade que as ondas cobriam a barca; mas Jesus dormia. Os discípulos, aproximando-se, acordaram-no dizendo: Salva-nos, Senhor, que perecemos. Ele lhes disse: Por que temeis, homens de pouca fé? Então erguendo-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. E todos se maravilharam dizendo: Que homem é este, que até o mar e os ventos lhe obedecem?”

(Mateus, VIII, 23-27.)
A autoridade de Jesus é verdadeiramente universal.

Espírito Superior que preside os destinos do nosso planeta, conhece-lhe a natureza, bem como a atmosfera que o circunscreve, assim como os Espíritos que atuam nos elementos; é sabedor, portanto, de que todos os fenômenos sísmicos e atmosféricos são dirigidos por seres inteligentes encarregados das manifestações da Natureza.

O Mestre, contemplando o temporal que se desencadeara no Mar da Galiléia, deliberou fazê-lo cessar, a rogo de seus discípulos, e, para que estes não perigassem, ordenou que o mar se acalmasse e os ventos não prosseguissem na sua faina destruidora!

Está claro que Jesus não se dirigiu ao mar e aos ventos, mas, sim, aos Espíritos que agitavam a atmosfera e encapelavam as águas. O vento e o mar não poderiam compreender, para obedecer às ordens do Mestre.

Esses fenômenos obedecem sempre a uma causa e Jesus, atuando sobre a causa, fez cessar o efeito!

Ensina, também, esta passagem, que com a fé em Jesus podemos, se lhe rogarmos, obter a calma nas tempestades da vida.

A Nova Revelação, com seus fatos maravilhosos, vem pôr-nos a par de tantas coisas que a ignorância humana considerava milagres, mas que não são mais que produtos ou resultados da ação de Espíritos que, em redor de nós, trabalham constantemente.

O MAIOR PROFETA

“Ipse et Elias qui venturus est.”

(Mateus, XI, 14.)
O maior Profeta precede o maior Enviado; aquele é a Voz, este a Ação; um clama, exorta, previne; outro aplaina vales, arrasa montes, derriba árvores, e, em sua passagem pela Terra, deixa um Caminho firme, vasto, imenso, luminoso, que se eleva à morada eterna do Pai!

João batiza com água os arrependidos, para apagar neles as nódoas dos eleitos; Jesus, com fogo, destrói e calcina as doutrinas humanas que lhes obscurecem as almas; se aquele limpa, o outro alveja, para que o Espírito de Deus reflita neles o “amor de Deus e do próximo, que resume a Lei e os Profetas”.

João representa os Profetas: é o maior dos profetas, dos nascidos de mulher; Jesus é a Graça e a Verdade, que recebeu no Tabor os testemunhos da Lei, pelo Espírito de Moisés, e da Profecia, pelo Espírito de Elias; o nosso Mestre é o maior dos enviados: a VOZ O ACLAMOU, quando disse: “ESTE É O MEU FILHO DILETO — OUVI-O.”

Todas as VOZES do Pai Celeste deram testemunho do Nazareno; a Lei, a Profecia, a Graça e a Verdade; de fato, Ele é o Filho Unigênito de Deus em sabedoria e Amor.

João é o maior expoente da Profecia, porque profetizou a vinda e a missão do Maior dos Enviados. O Espírito do Cristo é maior do que tudo e do que todos porque ele foi e é o expoente do Verbo de Deus: Et verbum caro factum est et habitavit in nobis: “O verbo se fez carne e habitou entre nós.”

Na Antiga Dispensação, Elias é o mais poderoso dos Profetas; na Nova Dispensação, João Batista é o maior; na Novíssima, Allan Kardec é o elevado bom senso, a sublimação da Profecia em seu mais elevado surto: Et si vultis recipere, ipse est Elias, quiventures est! “E se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.”

Elias é o poderoso dominador das ÁGUAS; de fronte para o alto fez parar as chuvas por três anos e seis meses; ergue um holocausto a seu Deus, o fogo o consome, o céu cobre-se de espessas nuvens e as chuvas caem em jorros para fertilizar a Terra! Nas margens do Jordão, sua paragem predileta, a um sinal de sua capa as águas se abrem e ele passa a pé enxuto.

Elias é o Profeta das águas; João avoluma as águas do Jordão com a multidão que ouve a sua VOZ; Allan Kardec faz mana r do coração, dos rins e do ventre dos que buscam a Jesus Cristo, rios de água viva, desvendando os arcanos do Espírito da Profecia; mas quem batiza com o Espírito do Pai é Aquele que É sobre todos!

Elias apelou para as águas e para o fogo; João para a água e para o sofrimento; Allan Kardec para o sentimento e para a razão, mas os três são um mesmo Espírito. Um fere e castiga, outro corrige e ensina, o último vivifica e salva!


O ESPÍRITO DE SISTEMA E AS NOVAS VERDADES

“Veio João não comendo nem bebendo, e dizem: Ele tem demônio. Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis um homem glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! E contudo a sabedoria é justificada pelas suas obras.”

(Mateus, XI, 18-19.)
“Então lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; e ele o curou, de modo que o mundo falava e via. E toda a multidão, admirada, dizia: É este porventura, o Filho de Davi? Mas os fariseus, ouvindo isto, disseram: Este não expele os demônios senão por Belzebu, chefe dos demônios.”

(Mateus, XII, 22-24.)


O mundo não tem progredido senão à custa de lutas e sofrimentos. Todas, as novas descobertas, todas as grandes verdades, todos os grandes homens não têm conseguido exercer a sua missão no nosso planeta senão com grandes sacrifícios e depois de uma luta terrível contra o espírito de ignorância, que ensombra todas as camadas sociais!

Percorrendo atentamente as páginas dos Evangelhos, vemos a luta incessante que Jesus sustentou contra o espírito de sistema que compunha, não só a classe sacerdotal, mas também a classe doutoral do seu tempo.

Nos Atos dos Apóstolos acham-se narradas as perseguições que sofreram os discípulos do Mestre Nazareno, que também enfrentaram não menores lutas com os “sábios” daquela época.

Mas não foram só eles que se sacrificaram neste mundo em que os grandes são os depositários das crenças avoengas.

Cada jato de luz que vibra na mansão das trevas agita os ignorantes sistemáticos, assim como os lampejos do Sol alvoroça os morcegos e as corujas que só se comprazem com a noite.

A árvore secular das idéias sistemáticas e preconcebidas dos nossos avós não pode cair com um ligeiro sopro, assim como a árvore dos bosques não cai ao primeiro golpe do machado; é preciso muitas “machadadas” e grande trabalho para arrasar a floresta inculta das concepções humanas. E o progresso não se faz de uma vez; vem paulatina, gradativamente, presenteando-nos com suas generosas dádivas, para que, ofertando aos poucos seus inestimáveis dons, nos tornemos afeitos ao trabalho e ao es tudo, fonte principal de todo o entendimento humano.

Que tem sido a vida de todos os grandes homens que nos têm legado o bem-estar que agora possuímos? Aí está a História, de cujas páginas não se poderá excluir uma só letra, e que demonstra o quanto pode o espírito de classe, os conservadores de rotina unidos aos poderes conjugados do papado.

Disse um sábio contemporâneo, falando de Allan Kardec: “Aquele que se adiantou cem anos a seus contemporâneos, precisa de mais cem anos para ser compreendido”.

Esta verdade se reflete em todas as épocas históricas.

Antes do Cristo, Sócrates havia sido consumado pela sicuta, por causa da sua doutrina, precursora do Cristianismo. E depois do Cristo, quantos suplícios infligiram aos Apóstolos, quer no ramo da Ciência, quer no ramo da Religião! É quase incalculável o número de mártires que passaram pelo batismo da perseguição.

Galileu teve de reparar a “insólita pretensão” que teve de ver a Terra girar em torno de seu eixo, fato este ensinado atualmente no mundo todo e abraçado pela Congregação Papalina, que, afinal, abjurou a crença antiga de “parada do Sol por ordem de Josué”.

Giordano Bruno foi queimado vivo por afirmar a existência de outros mundos.

Bailly, o célebre astrônomo francês, e Lavoisier, o grande químico, foram guilhotinados durante a Revolução Francesa; Priestley, Pai da Química Moderna, viu incendiada a sua casa e destruída a sua biblioteca, entre exclamações da populaça inconsciente: “Não queremos mais filósofos!”

Com grande dificuldade lutou Cristóvão Colombo para nos deixar este grande legado, a América, onde nascemos, donde tiramos o pão cotidiano, e onde atualmente vivemos!

Quando Arago apresentou à Academia o seu trabalho sobre a navegação a vapor, levantou-se uma tempestade tão grande que quase a sua descoberta naufragou entre apupos e maldições da gente sábia!

A Lei da Gravitação foi considerada uma heresia, uma blasfêmia contra os ensinos ortodoxos, e Newton não pode escapar ao desprezo de grande número dos seus contemporâneos.

Os estudos da eletricidade dinâmica, feitos por Galvani, foram repelidos pelo mundo; entretanto, todos nós hoje gozamos, não só desta descoberta, como também de todas as que nos proporcionam comodidade e bem-estar. É que a Verdade termina sempre pelo triunfo, e quando ela começa a iluminar, os obstáculos não conseguem senão retardar-lhe a marcha, mas chegado o termo, vem a vitória!

Quanto tempo levou em lutas o magnetismo, antes que os sábios lhe abrissem as portas das academias?

Mas os fatos se impunham e a verdade conseguiu triunfar na luta que lhe moviam seus perseguidores.

Pois bem; todas essas lutas, essas perseguições, esses trabalhos que sofreram as grandes verdades e seus defensores, se têm repetido em relação ao Espiritismo e aos seus seguidores.

Uns acoimam-no de diabólico; outros dizem que ele produz loucura; outros que é contrário à Religião. São as mil bocas da ignorância falando do que não estudaram!

São as investidas do espírito de sistema contra as novas idéias, que vêm desenraizar erros, decepar a árvore secular da ignorância, causa de todos os sofrimentos na Terra.

Enfim, o mundo não se transforma sem lutas; é da luta que vem a vitória e, então, a verdade aparece.

Nos tempos antigos, como hoje, a luz não pode ser trevas. O argumento demoníaco está ainda muito valorizado pelos sectários. Mas estão próximos os tempos em que a Verdade dominará, guiando os homens para os seus destinos imortais!




O SÁBADO E O TEMPLO

“Naquele tempo, em um sábado, passou Jesus pelas searas; e seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer. Os fariseus, vendo isto disseram-lhe: os teus discípulos estão fazendo o que não é lícito fazer nos sábados. Ele, porém, lhes disse: Não lestes o que fez Davi, quando ele e seus companheiros tiveram fome? Como entrou na casa de Deus e como eles comeram os pães da proposição, os quais não lhe era lícito comer, nem aos seus companheiros, mas somente aos sacerdotes? Ou não lestes na Lei que, aos sábados os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Digo-vos, porém: Aqui está quem é maior que o templo. Mas se vós tivésseis conhecido o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado os inocentes, porque o Filho do Homem é senhor do sábado.”

(Mateus, XII, 1-8.)
Que é o sábado?

Um dia convencional para designar o sétimo da mana.

Que é o templo?

Uma casa feita por mãos humanas onde se os sectários de uma crença.

Se subirmos algumas centenas de léguas num balão, onde ficou o templo? Onde está a grandeza do templo?

Se nos elevarmos algumas milhas no espaço, onde está o sábado? Onde estão os sete dias da semana? Onde está o dia? Onde está a noite? Que é a noite?

Todo o hemisfério está banhado de luz e nas alturas tudo é luz!

O sábado, como o templo, pertence à Terra.

Aquele que é da Terra, só trata das coisas da Terra: do sábado, do templo, do dia, da noite; porque não conhece as coisas do Mundo Espiritual.

A religião da Terra consiste em holocaustos e sacrifícios, mas nem uns nem outros pertencem à Religião do Céu.

“Misericórdia quero e não sacrifício”: sem preocupações estéreis com espigas que se possam colher em dias de sábado, ou de quaisquer pães de proposição que haja nos templos!

Jesus é maior que o templo.

O discípulo não deve ser maior, mas deve ser como o Mestre.

O discípulo de Jesus é maior que o templo. Jesus é senhor do sábado; o discípulo de Jesus é senhor do sábado.

O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.

O sábado fica na Terra, a alma sobe para o Céu.

O templo! Caem as chuvas, sopram os ventos e é grande a ruína daquela casa.

O Espírito! Quanto mais sopram os ventos, mais o Espírito se eleva; quanto mais descem as chuvas, mais para o alto se dirigem as almas!

Formal desprezo manifesta o Mestre para com o templo: “Aqui está quem é maior do que o templo.”

Coisa secundária é o sábado: “O Filho do Homem é senhor do sábado.”

Sábado, templo, sacerdotes, holocaustos e sacrifícios, não fazem parte da Religião de Deus, são preceitos e formalidades humanas que desaparecem ao rugir da tempestade e ao correr do tempo.


O ENSINO DA RELIGIÃO

“Todo o escriba instruído no Reino dos Céus é semelhante a um pai de família, que do seu tesouro tira coisas novas e velhas.”

(Mateus, XII, 52.)
Depois da exposição das sete parábolas comparativas ao Reino dos Céus e à sua aquisição. Jesus, para melhor gravar no Animo de seus discípulos a necessidade do estudo de toda a Religião e de toda a Filosofia em suas fases evolutivas do saber humano, comparou todos os fatos e teorias que deles ressaltam e a História registra com um tesouro, que um pai de família possui e onde existem moedas velhas e moedas novas, bens antigos, mas de valor, e bens de aquisição recente, constituindo todos o mesmo tesouro.

Há muita coisa velha que não se pode desprezar, assim como há muita coisa nova que não podemos pôr à margem, sem prejudicar nosso tesouro.

É assim a Religião.

Ela não consiste só nas aquisições do passado, mas na recepção dos fatos e idéias presentes e futuras, que a enriquecem.

A Religião de Jesus é uma religião de progresso, de evolução, e, não, de paralisação.

O próprio Cristo disse: “Muitas coisas tenho para vos dizer, mas não as podeis suportar agora; porém, quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade; vos fará lembrar tudo quanto vos tenho dito e vos anunciará as coisas que estão para vir.” (João, XVI, 12- 13) .

Aqueles que limitam a Religião a um artigo de fé ou a um dogma, desvirtuam os seus princípios, paralisam a sua marcha, extinguem, finalmente, a chama sagrada que deve sempre arder ao impulso de renovados combustíveis.

Nas Ciências, nas Artes, nas indústrias o homem progride não só mantendo os velhos conhecimentos que não são senão os elementos primordiais para novas formas que a eles se adaptam, como também pelas novas aquisições com que engrandecem o seu saber.

O mesmo se dá na Religião. A religião primitiva, revelada a Abraão, não prescrevia ordenação, mas se limitava a ensinar ao homem a existência do Deus único, ilimitado em atributos, Criador de tudo quanto existe.

A esta seguiu a doutrina do Sinai, que, confirmando a Primeira Revelação, ampliou seus ditames com as prescrições morais observadas no Decálogo. Entretanto, a religião não estancou aí o seu manancial, que se avolumava constantemente, pois a fonte viva da Revelação jorra sem cessar. E assim como à Revelação Abraâmica seguiu-se a Revelação Mosaica, à esta sucedeu a Revelação Cristã.

Quase dois mil anos depois de Moisés, veio o Revelador Vivo da Doutrina do Amor, que, longe de revogar esta lei, afirmou que lhe vinha dar cumprimento.

Tudo o que procede do Amor prevalece desde o começo e prevalecerá eternamente: é “palavra que não passa”. Tudo o que não é do Amor, não pode fazer parte da lei e passará, assim como passa a erva e como passa tudo o que não é permanente.

O “escriba instruído no Reino dos Céus” sabe muito bem que no grande tesouro da Religião há moedas velhas e moedas novas de Amor, que constituem a sua riqueza; por isso, para beneficiar seus filhos, tira desse tesouro as moedas de que necessita e com as quais enriquece os que lhe estão sujeitos.

Não há religião cristalizada: a verdadeira Religião é progressiva. Aos velhos conhecimentos ajunta outros novos, à medida que, pelo nosso esforço, nos preparamos para recebê-los. Essa medida, a seu turno, dilata-se com a nossa boa vontade, pelo estudo, pela pesquisa, pela investigação e por meio da prece, que nos põe em relação com os Espíritos Superiores encarregados de auxiliarem nossa evolução espiritual.

Não pode ser de outra forma, porque a Religião não se limita à Terra; ela se estende a todos os mundos planetários e interplanetários, a todos os sóis, a todas as constelações e dilata-se pelo Universo inteiro, onde seres inteligentes vivem, estudam, amam e progridem!

Cada um tem o seu grau de evolução, que é tanto maior quanto mais intensa é a vontade, o desejo do estudo e do progresso, e ninguém pode assimilar conhecimentos superiores à sua inteligência e ao seu grau de cultura moral e espiritual.

Foi por isso que Jesus disse a seus discípulos, como se depara no capítulo XVI, 12, 13, de João: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que estão para vir.”

Este trecho é característico e plenamente demonstrativo do que afirmamos: a Religião não é um punctum stans, uma divindade imóvel, mas sim um punctum fluens, fonte viva, que jorra incessantemente água pura e cristalina! E assim como as revelações não cessam: à Abraâmica sucedeu a Mosaica e a está a Cristã, a Revelação Espírita, que é a Revelação das Revelações, como complemento da Revelação Messiânica, vem trazer, aos homens, novos conhecimentos filosóficos, novos conhecimentos científicos, novos conhecimentos religiosos, todos oriundos dessa fonte, cujo manancial se tem mostrado inesgotável através dos séculos!

E o “escriba instruído no Reino dos Céus” sabe muito bem disso; por esse motivo, e também porque, cauteloso, não deixa de adquirir conhecimentos com os quais enriquece o seu tesouro, dele tira coisas novas e velhas, como faz o bom pai de família, para instruir aos que lhe estão afetos.


JESUS ANDA SOBRE O MAR — O PEDIDO DE PEDRO

“Na quarta vigília da noite foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar. Os discípulos vendo-o andar sobre o mar, perturbaram-se e exclamaram: É um fantasma! E de medo gritaram. Mas Jesus imediatamente lhes falou: Tendo ânimo, sou eu: não temais. Disse Pedro: Se és tu, Senhor, ordena que eu vá por cima das águas até onde estás. E ele disse: Vem. E Pedro saindo da barca andou sobre as águas e foi para Jesus. Quando, porém, sentiu o vento teve medo e, começando a submergir-se gritou: Salva-me, Senhor! No mesmo instante Jesus, estendendo sua mão, segurou-o e disse-lhe: Por que duvidaste, homem de pouca fé? E entrando ambos na barca, cessou o vento. Então os que estavam na barca adotaram-no dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus.”

(Mateus, XIV, 25-33.)
A vida de Jesus e seus feitos são verdadeiramente maravilhosos. O seu poder dominava todos os elementos; a sua sabedoria conhecia todos os mistérios; por isso a sua ação era prodigiosa. Médium Divino que resumiu todos os dons e conversava com todos os grandes Profetas do Além que o seguiam em sua Missão e o auxiliavam, Ele caminha por sobre o mar a pés enxutos, de acordo com a lei da levitação dos corpos que o Espiritismo ensina e explica atualmente.

Seus discípulos, vendo-o caminhar sobre as águas, e como era noite, não o conheceram distintamente, julgando tratar-se da aparição de algum Espírito, fato que parece, tinham já observado várias vezes, dado o temor que lhes sobreveio e sua exclamação: “É um fantasma!”

Depois de o Mestre se haver dado a conhecer, foram tomados de confiança e Pedro suplicou-lhe permissão para ir ao seu encontro “por cima das águas”

Acedendo Jesus, Pedro sai da barca envolto nos fluidos de seu Mestre, e também auxiliado na levitação pelos Espíritos que acompanhavam a Jesus, até que, vacilando, isto é, perdendo a fé, perdeu o auxílio superior e se foi submergindo!

Reconhecendo, cheio de temor, o desamparo divino, apela novamente para Jesus, sendo por este amparado; ao contacto com o Nazareno, volta-lhe a fé, e foi transportado para a barca em companhia do Mestre.

Este fato maravilhou tanto aos que estavam na barca, que adoraram a Jesus, dizendo: “Verdadeiramente és Filho de Deus!”







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