Autobiografia



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as sameiras
ambém era altura da brincadeiras com as “sameiras” – as tampas da garrafas da cerveja e dos sumos – por vezes enfeitadas com as tampas de plástico de alguma garrafa de vinho que encaixavam na perfeição e faziam um chapéuzinho, outras vezes enchíamos-as com casca de laranja para as tornar mais pesadas e lá dávamos a volta ao quarteirão pela borda do passeio fazendo corridas com os outros. E se tínhamos “sameiras” raras, fazíamos daquilo objectos de colecção, apesar de eu não ter muito aptidão para o coleccionismo. O “jogo do botão” era outra das nossas brincadeiras. Uma linha no chão junto à parede, jogávamos o botão contra a parede para cair o mais perto possível da linha, mas para cá dela. Quem ganhasse o maior número de vezes ficava com o botão do outro...aí entrava a parte do desespero das mães que não sabiam o que fazíamos aos botões das roupas que trazíamos vestidas!

Comecei a ir sozinho para o Colégio e aí também comecei a conhecer novos amigos que além de andarem comigo no colégio eram praticamente meus vizinhos.

Já devia estar próximo dos meus treze anos quando tive, e desta vez não por opção, de mudar de escola – o Colégio ia fechar e aí quando quase todos os meus amigos vieram para o Portuense no Marquês eu fui para o Almeida Garrett no centro do Porto. Que maçada! Arranjar novos amigos.

Ao contrário do João de Deus, o Almeida Garrett era frequentado maioritariamente por filhos de emigrantes que os punham a estudar cá e filhos de lavradores abastados do interior. A disciplina também, ao contrário do João de Deus era baseada no “quero, posso e mando”. Se no João de Deus éramos incentivados à vontade própria, aqui somos marionetas. Não se podia fazer isto, nem aquilo, nem falar com aquele, nem...nem...nem. Os conflitos entre alunos, professores, auxiliares eram constantes. As relações de grande amizade e quase maternal que os professores tinham connosco no João de Deus aqui não se mantinham – eram frias, impessoais. Nos recreios era permitido fumar. No João de Deus, até os mais velhos, se nos viam a tentar nos repreendiam logo...acho que foi aqui que comecei.

Por esta altura o meu avô Joaquim morreu...foi um choque...já estava acamado fazia algum tempo. A bronquite asmática, mal de família, apoquentava-o e o meu pai algumas vezes carregou a botija de oxigénio ladeira acima, para casa dos avós. O meu avô que muitas vezes me acompanhava até as bouças perto de minha casa para eu brincar e andar de bicicleta, o meu primeiro tombo a sério foi com ele perto: – Oh vô, olha...monte abaixo...até a bicicleta andar por cima de mim e eu por cima dela a rebolar por ali abaixo até parar nas moitas. Ele a correr, aflito, ao meu encontro. O meu avô que me ensinou a regar a horta.

Aqui, no Almeida Garrett, esperávamos nos corredores a chegada dos professores e com eles presentes começávamos a entrar na sala. Uma das minhas brincadeiras era: na aula anterior quando saíamos deixava o apagador no alto da porta e a porta entreaberta....quando a abrissem... azar meu!...um dia a professora de matemática entrou primeiro. Escusado será dizer que fui parar à direcção do colégio de onde saí com uma repreenção das antigas.

Um sublinhava tudo o que o livro tinha, deixava uns “e” e os “mas” aqui e ali sem sublinhado... outro em plena aula de matemática, depois de a professora lhe perguntar qualquer coisa, disse: – não estou para ser gozado!!! e saiu porta fora – acho que se tinha apaixonado por ela!...outro rapava o cabelo, outro tinha-o pelas costas abaixo...

Numa manhã começaram a procurar alguns alunos e a levá-los dali para fora. Um agora, outro mais tarde um pouco, mais outro. Alguma coisa se passava e era grave. Estávamos na aula de história com um professor, padre, anafado, que chorava ao ler os “Esteiros” (só anos mais tarde percebi o porquê!) e largava perdigotos de toda a maneira e feitio (coitado do Farinhas, levava com a maior parte deles). Achávamos aquilo muito estranho, alguns mais velhos como o José atreviam-se a perguntar o que se passava...mas nada....ninguém falava. Até que o professor nos começou a explicar: Os militares tinham saído para a rua e estavam a tentar derrubar o Governo. – Mas porquê? Perguntávamos nós, inocentes, nunca tínhamos tido até aquele dia percepção da realidade. Alguns talvez. O pai, o irmão, o tio já tinham tido problemas, mas na generalidade ainda éramos muito novos para nos apercebermos da ditadura, que se nesta altura já era um pouco mais liberal, até há poucos anos tinha sido brutal. Lembro-me da alegria do meu pai com a revolução (infelizmente, essa alegria, iria durar pouco tempo). Viemos também para a rua festejar. Nesse tempo o meu pai tinha um Ford Capri, uma máquina e lembro-me de algumas provocações, mas que não saíram muito do decoro....



Uma junta dita de salvação nacional tinha tomado o poder. As instalações da RTP e das principais estações de rádio foram ocupadas por militares – nesse tempo havia poucas, quase todas controladas pelo Estado e uma, a Rádio Renascença ligada à Igreja. Era importante controlar a rádio e a televisão, já que tinha sido por esse meio que se tinha dado o mote para o início da revolução e era importante prevenir qualquer contra-golpe. Os senhores das fotografias das salas de aula estavam perto do fim como governantes. Afinal aqueles senhores tinham governado o País nos últimos 48 anos e nem sempre do agrado da maioria. Um deles tinha tomado o poder muitos anos antes, depois da República surgida com o fim da Monarquia ter sido um autêntico desastre. Aliás, como esta estaria podre quando deu lugar aquela!

Estávamos a 25 de Abril de 1974. Poucos dias depois o 1.º de Maio foi uma autêntica festa, era o primeiro festejado em liberdade. Para mim, ser feriado não era novidade. Durante muitos anos o meu pai não trabalhava nesse dia por ser feriado inerente à profissão. Os tipógrafos e os metalúrgicos já festejavam este dia com feriado. Os líderes de partidos outrora na clandestinidade começam a voltar a Portugal, sendo recebidos por enormes multidões. Aparecem partidos novos, de inspiração comunista, trotskista, maoista, leninista, partidos de inspiração cristã, sociais-democratas e de todas as tendências quase diariamente. Os movimentos de esquerda aliando-se aos militares afectos às “democracias” do leste europeu controlavam o país e as forças armadas e os governos sucedem-se uns aos outros. Em 11 de Março o primeiro presidente após revolução, entretando substituído, tenta um novo golpe militar, imediatamente sanado pelos militares que ainda controlavam o país. Estava instalado o PREC. As confrontações entre militantes dos partidos de esquerda e dos partidos mais moderados sucedem-se e algumas sedes são destruídas. De norte a sul os proprietários de terras e fábricas são alvo de ocupações pelos operários, agora chamados de trabalhadores

F
os “retornados”


oi durante este período que a minha família também sofreu a desaventura de vermos as instalações da pequena oficina de tipografia ocupada pelos operários. Pura e simplesmente comunicaram aos meus pais que já não podiam entrar no que era deles?!. Também com a revolução, as “nossas” províncias ultramarinas foram entregues aos movimentos locais que lutavam pela independência já há muitos anos. Nos acordos de descolonização com esses movimentos de libertação os nossos representantes nunca acautelaram os interesses dos portugueses continentais que lá viviam e aliado aos problemas surgidos com a governação interna desses novos países, provocaram um enorme êxodo de portugueses a regressar à Metrópole (assim chamávamos a Portugal, naquela altura). Estima-se em 500.000 a 750.000 o número de “retornados”, como vieram a ficar conhecidos. Desalojados de tudo. Gente traumatizada. Entre eles, muitos da minha família. Tios, primos, segundos primos, família que eu nem sabia que tinha, voltavam. Apesar da tristeza pelo motivo que os trouxe, também havia a alegria do reencontro de gente que não se via há muitos anos. Na aflição da fuga da terra que os tinha acolhido nos últimos anos, muitos traziam consigo pouco mais do que a roupa que tinham no corpo e contavam histórias, algumas não muito agradáveis. O branco tinha subjugado o preto durante muitos anos e estes, agora, na hora da libertação, vingavam-se de humilhações sofridas. Nós pouco tínhamos também para ajudar. Esta gente que agora chegava traziam também novos costumes, ideias mais arejadas, porque apesar de tudo lá fora a mentalidade era outra. Começa-se a ouvir as palavras haxixe e marijuana, a coca-cola, outrora bebida proibida começa a aparecer nos cafés. Trazem consigo também receitas culinárias típicas de África e moldam ainda mais a nossa cozinha tradicional. Até no relacionamento com os outros são mais abertos. Eu tenho 15 anos na altura e começo a desenvolver uma paixoneta com uma segunda prima que também chegara. Nesta altura o meu pai mais alguns destes familiares retalia da ocupação sofrida poucos meses antes e tomam pela força a fábrica, de nada servindo porque, logo após, as forças militares voltam a por tudo com estava....

Quatro da manhã de um dia como qualquer outro, uns quantos carros militares param à porta do prédio em que habitávamos em alto alvoroço, tocando na campaínha do prédio insistentemente. Aberta a porta do prédio subiram as escadas apressados e quando chegam ao apartamento já o meu pai lá estava à porta a ver que pretendiam. Provocaram sensação de medo em todos nós. Após breve mas intenso diálogo com o meu pai, retiram... – É para me apresentar amanhã de manhã no quartel-general. No dia seguinte foi e após umas horas lá voltou a casa. Era só para explicar porque e como tinha comprado uma aparelhagem de música! Ridículo! Foram pessoas chamadas lá só porque tinham comprado pescada no mercado! Era a revolução no seu melhor!....



P
revista cor-se-rosa da época
ara conseguir manter a família, o meu pai começou, além de trabalhar à comissão para outras casas do ramo, a fazer bóias de pesca. Com um pequeno torno que construiu com base num berbequim molda-as a partir de madeira de balsa, cola uma pequena haste plástica no topo, um pequeno arame na base e enverniza, pinta e volta a envernizar esses pequenos objectos que depois vende às casas de especialidade ou aos colegas de pesca. A mãe que desde que casara, além das tarefas domésticas e da minha educação não tinha voltado a trabalhar, começa a colar bolsas de cartolina para uma tipografia que pagava esses trabalhos a quem os quisesse fazer em casa.

Com o fim da censura prévia, começam a surgir os primeiros filmes pornográficos. Salas de cinema e teatro tradicionais da cidade, como o Sá da Bandeira ou o Júlio Deniz fazem sessões ininterruptas com lotações esgotadas. Garganta Funda (não, não é o do Watergate), o Diabo em Miss Jones e o Garranhão Italiano este com o Silvester Stallone em início de carreia são títulos que ficam para a história. Aparecem revistas e bandas desenhadas com o mesmo tema. As revistas cor-de-rosa, como a Flama e o Século Ilustrado, por mostrarem uma sociedade agora caída em desagrado deixam de ser publicadas. Depois aparecerão novos títulos como a Gente, a Maria e Ana. Jornais como o Avante começam a circular livremente. Em breve, jornais de conotação fascista também aparecerão.



Foi também nesta altura que aparece o “cubo mágico”. Nunca resolvi o puzzle sem ajuda de cábulas. Foi, talvez o brinquedo mais vendido em todo o Mundo e faziam-se concursos para ver quem o resolvia mais depressa.

E
o cubo de Rubik



o cubo de Rubik
u entretanto tinha deixado o Almeida Garrett com um chumbo no 5.º ano do liceu....se no ano anterior, após a revolução tudo passou por decreto, naquele ano não. Os estudantes organizaram manifestações, concentrações e mais algumas coisas mas tivemos que repetir o ano. Passei para o Colégio Portuense, no Marquês, onde fui encontrar muitos amigos que comigo tinham estado no João de Deus. O Carlos, o Silveira e mais uns quantos voltávamos a nos encontrar. Aqui passei bons tempos com professores magníficos. O de matemática era talvez o melhor de todos. Por vezes dava a aula no recreio sentado no beiral de uma janela enquanto nós, em redor dele, fazíamos os exercícios que ele ditava. No exame final tive a melhor nota de toda a minha vida de estudante. Também aqui tive dois episódios muito marcantes. O professor de Português e de História perguntava frequentemente aos alunos a matéria anterior e numa das aulas, eu por ter já respondido por duas ou três vezes, mandou-me calar para dar a vez a outros...não me calei... – Lima, rua! Disse ele. – É uma injustiça. Mas ele não quis saber e tive mesmo de sair. Como era norma estabelecida que quem não tivesse o livro não podia assistir à aula, eu, ainda revoltado, na aula seguinte não o levei. Quando lhe comuniquei o facto. – Eu fui injusto contigo na última aula, podes assistir a esta e aceita as minhas desculpas! Outro episódio foi passado com o professor de Francês e director do Colégio, o Sr. Padre Barros. Ao tempo, eu com o número 5 ocupava a ultima cadeira da primeira fila, ficando por isso no canto da sala à beira de uma janela (era alta, eu não via nada cá para fora, por isso não me distraía). Era altura do Carnaval e um dos colegas largou uma bombinha de mau cheiro na sala. O professor veio pelo meio das duas filas perguntando a cada um se tinha sido ele!.. um a um responderam que não! Os meus colegas até já se tinham levantado e diziam: – Foge, Lima.....mas fugir para quê? Não tinha sido eu. Chegou até mim. – Então, foste tu. – Não, eu não Sr. Padre. – Foste, os teus colegas não mentem! E continuou o diálogo, foste, não fui, foste... até que ele deitou a mão a um pedaço de madeira que estava no beiral da janela....e aí sim fugi dali por cima da carteira de um colega, mas sempre afirmando que não tinha sido eu. Ainda hoje não sei se ele estava mesmo com a ideia de me dar com ela!!! O colégio que já não era de construção recente tinha algumas partes em mau estado. A parede que dava para um pequeno quintal vizinho também era uma delas. Neste quintal havia dois cães de porte grande e por vezes nós pendurados no muro, resolviamos assorrear um pouco. Numa das vezes, éramos aí uns cinco pendurados a ulular com os cães. Pois tanto estávamos nós em cima do muro como o muro em cima de nós e nós no chão, atrapalhados, já a imaginar os dentes dos cães ferrados à nossa perna...afinal os cães tinham apanhado um susto maior do que o nosso e fugido em direcção contrária mais depressa do que nós nos pusemos a pé. É também nesta altura que começo a frequentar cafés, tanto perto de minha casa, como perto do colégio. De casa o Cubango do Faria, um personagem, perto do Colégio o Pax e o Pereira, além do Café dos “Índios”, são postos de paragem no início, intervalos e fim das aulas. As mesas de bilhar são uma atracção e passamos horas a jogar. Por vezes o Sr. Padre Barros aparecia no Pax e corria connosco à frente dele até ao Colégio. É o tempo do Cinema do Terço, ali no Marquês, ainda com o chão em areia e cadeiras de esplanada, que repetia os filmes que tinham estreado noutras salas meses antes e todos os dias filmes diferentes. Mas mesmo assim víamos o mesmo filme 5 ou 6 vezes...Não havia mais nada para fazer? Cinema!..Aqui acabo o 5.º ano do liceu com umas notas razoáveis.

O Colégio Portuense vai fechar. Por isso tenho, mais uma vez de mudar de escola. A continuação em ensino particular está fora de causa, a situação financeira da família não é a mais recomendada. Ao trabalharmos à tarefa, quando não há trabalho não há dinheiro. Por vezes ajudo a minha mãe a colar caixas e os dois conseguimos colar uns milhares ao trabalharmos 10 horas, pena é que não haja trabalho para todos os dias. O meu pai continua com as bóias, que ainda não saiem perfeitas. O pouco conhecimento de vernizes e tintas não dá qualidade ao produto. A minha avó, que depois da morte do meu avô praticamente mora cá em casa ajuda-nos com a pequena reforma que recebe mensalmente. Por estes e outros motivos vou estudar para o Liceu António Nobre. Português, psicologia, introdução à política são disciplinas obrigatórias, matemática, fisíca-química e desenho são as opcionais, temos ainda educação física. Pela primeira vez estou numa turma mista, se se pode chamar isso a 25 rapazes para 5 raparigas. É ainda o tempo de confrontação política dentro das escolas, com os simpatizantes de esquerda a reunir-se num dos lados do polivalente, os de direita no lado oposto e os neutros, como eu, a ficar numa das alas. Na política, o golpe dos moderados em 25 de Novembro estabelece um pouco de ordem no país. O Copcon, polícia militar do PREC é extinta e o seu mentor afastado. Surge no poder uma esquerda moderada tanto militar como politicamente. Um militar é eleito Presidente da República numa eleição livre, coisa que não acontece em Portugal há muitos anos. Um político da esquerda moderada é nomeado primeiro-ministro. Parece que o país caminha para a normalidade. Puro engano. A entrega dos campos, fábricas aos seus legítimos proprietários ainda ia levar uns bons anos a concretizar-se. A via-sacra de pessoas como o meu pai, passava por constantes apelos a quem de direito quando visitavam o Porto e a deslocações constantes a Lisboa sem contudo resolverem estes casos. Apesar de atingido por este regime como nunca tinha sido atingido pela “ditadura” não consigo simpatizar com qualquer dos blocos. Afinal, nos últimos anos desta tinha existido uma ligeira abertura do regime. Tinham deixado criar, na Assembleia Nacional, uma ala liberal. É de pensar que sem revolução, a continuar a abertura proposta por certas figuras do anterior regime a transição para o regime democrático seria mais suave e por assim mais firme. Mas, como em tudo na vida, os “ses” valem o que valem. Alguns políticos atravessam os dois regimes saindo daquela ala liberal para líderes de partidos, agora também e ainda na oposição livre ao regime instalado.



Pelo Liceu António Nobre passei dois anos até reprovar em 4 das 6 disciplinas do 7.º ano (actual 11.º) e por aqui fiquei nos estudos escolares.

Estamos em Junho de 1977, tempo de santos populares e de bailinhos organizados principalmente nos bairros camarários de cidade. Com o 25 de Abril apareceram Comissões de moradores em todos eles e em algumas ruas também. Estas comissões serviam para os cidadãos em conjunto obterem mais depressa aquilo que pretendiam, fosse umas obras na rua, fosse a instalação de luz eléctrica num local de passagem, água ou saneamento que nesse tempo ainda não era um bem adquirido por toda a cidade. Estas comissões normalmente organizavam também estes bailaricos. Foi num destes que conheci a minha primeira namorada, Margarida.



C
Certificado de habilitações
omeço a ajudar os meus pais em permanência. Quer o meu pai com as bóias quer a minha mãe com a colagem de caixas. As bóias já saíam com mais perfeição e vendiam-se bem, começando nós a melhorar financeiramente. Mas aí começam os conflitos com o pai. As saídas à noite, o chegar tarde, o levantar tarde (espero que os meus filhos não cheguem a ler isto) agudizam as relações entre nós. Assim proponho ao meu pai iniciar um trabalho fora de casa que aceita e até me ajuda com os seus conhecimentos. Vendas porta a porta, encicolpédias, quadros, decorações mas é a vender cursos por correspondência fora do grande Porto, que me mantenho mais tempo e que me dá um prazer enorme. O contacto com uma realidade diferente da citadina, as pessoas, os seus costumes, a sinceridade natural dos rurais é uma realidade nova para mim. Gente que ao nos ver calcorrear os caminhos nos dizia que não comprariam nada, mas para entrarmos em suas casas e nos sentássemos à mesa com eles. Pouco tempo depois vou trabalhar para um estabelecimento comercial na rua de Sá da Bandeira, nosso cliente das bóias, para o sector que me considerava mais à vontade - pesca desportiva.

Apanhei o trolei na paragem em frente a casa em direcção ao Bolhão e desci aquele bocado de Sá da Bandeira para entrar onde iria ser o local de trabalho por uns meses. O fato comprado para ocasião, aliado à gravata não foi uma indumentária bem escolhida para o que me reservaram. Andavam em obras para abrir uma secção de campismo e era preciso arrumar centenas de artigos numa espécie de águas-furtadas. Suava por todos os lados, mas aguentei firme até me mandarem levar uma tenda familiar lá para cima: - quem? Eu? Sozinho? - Sim! Porque não? Perguntou o encarregado. - Porque eu não levo isso – respondi. Foi o meu primeiro conflito laboral e o início de uma relação complicada com um superior. Nessa secção trabalhavam também um dos sócios, Carlos e além do encarregado, Barroso, o Garcia e o Delfim. Por vezes, na altura de mais clientes, outros nos vinham ajudar. A minha relação com o patrão Carlos sempre foi amistosa, afinal por um primo dele, que também trabalhava nessa casa, mas noutro sector, é que eu fui para lá, e com o Delfim, por termos berços parecidos. Com o chefe, iniciámos mal e assim continuamos e com o Garcia as distâncias culturais eram tão grandes que nem procurei amizade e da parte dele o sentimento era o mesmo. No entanto nesta altura a idade é um posto e eu por ser o mais novo, certas tarefas eram mim, tais como abrir e fechar as grades das montras, abrir e recolher os toldos. Num balcão com uns quantos metros, vendíamos mais de 5000 referências de artigos e para um recém-chegado saber a colocação de toda um parafernália de objectos (anzóis de muitos tamanhos, feitios e cores, bóias também de todos os tamanhos, linhas de pesca, canas, carretos, peças para 50 ou 60 modelos de carretos) não era uma tarefa difícil, mas saber o local onde se guardavam era complicado. Então: - Oh Garcia onde estão os anzóis 12 cobre, redondos? - Aí, nessa caixa, não mais à direita, em cima, “puxa!” ainda ontem perguntaste mesma coisa! Ridicularizando o novato em frente do cliente que estava a atender e ainda dos outros que estavam à espera. E em altura de começar a época a casa estava cheia. Felizmente como eu era pescador desportivo muitos já me conheciam e apesar de demorar um pouco a encontrar as coisas eles sabiam que eram bem atendidos. Por vezes ia até outras secções como o campismo e aí o como Senhor Barroso porque não marcava os preços em nada eu tinha de andar sempre atrás dele a perguntar o preço disto e daquilo...Também foi a altura de começar a fazer embrulhos do que vendia...e os primeiros que fiz não duraram até a cliente sair para a rua! Que vergonha!.. mas “pratica e serás mestre”... Foi o que fiz.

Até que...uns meses mais tarde, com o Barroso mais interessado na parte do campismo e o Garcia doente em casa, eu mudei a localização de todos os artigos na minha secção....os da direita para a esquerda, os de cima para baixo e assim sucessivamente...o Delfim à distância, ele estava mais na parte de caça, sorria como quem estava já a ver o que se iria passar. Quando voltaram à secção, passaram uns bons dias até acertar com o sítio das coisas.

- Seu vigarista, seu incompetente, seu.....ainda descia os três degraus da escada e dirigia-se a mim nestes termos. Uns dias antes tinha estado lá a comprar uma bobine nova para um carreto. Por aquela altura o fabricante de carretos tinha decidido refazer as referências das peças e tinha-se criado uma pequena confusão. O cliente tinha levado uma bobine para um modelo e queixava-se que eu o tinha enganado vendendo uma que não servia: - Desculpe, tem alguma reclamação a fazer? Perguntei eu. - Se tem o patrão é aquele senhor ali ao fundo. Dirigiu-se para o patrão Carlos barafustando e passados uns segundos chamaram-me: Sr. Lima, que se passa afinal? Os carretos compreendem três blocos, a máquina em si, a embraiagem e a bobine onde enrola o fio. Ora o cliente tirava a bobine e queria lá enfiar outra bobine mas acoplada a uma embraiagem, enquanto a antiga ainda lá estava....É claro que nunca conseguíria. - Oh Sr. Carlos é assim, disse eu aos dois e exemplificando, tirei a embraiagem antiga e coloquei a nova com a bobine de fio. Não sei quem ficou mais espantado, sei é que o patrão Carlos deu uma descompostura ao cliente, tendo eu naquela ocasião, amenizado as coisas entre eles. Outras situações se seguiram, umas mais hilariantes do que outras, como aquela em que duas meninas entraram e perguntaram a alguém se tinha guizos...debandada geral, todos a rirem-se. O perguntado de tanto se rir, também, desapareceu atrás do balcão, agachou-se atrás dele. Ou daquela em que alguém se lembrou de estender o isco da pesca no balcão e uma senhora caiu redonda... o isco rabiava por todo lado...ou o colega, que numa das ante-vésperas de Natal, quando uma senhora lhe solicitou embrulho separado para mais de trinta “bibelots”... Desapareceu e nunca mais voltou nessa noite...deixando a senhora espectada à espera.

Entretanto à mãe foi diagnostícado cancro no útero... foram meses de tratamento e hospitilizações constantes... Lembro-me de uma das vezes quando chegada a casa manifestou a felicidade dela. Os médicos tinham-na dado como curada…mas pouco tempo depois a doença regrediu atacando agora nos intestinos...mais uns meses de tratamentos cada um mais agressivo do que o anterior...

Até que numa manhã fui acordado pelo meu pai logo às primeiras horas... A mãe morrera. Nestes últimos dias, semanas, a angústia tinha sido enorme, vendo-a acabar aos poucos, não reconhecendo sequer marido ou filho, apelando constantemente à presença da mãe, minha avó. Que senti nessa hora?...Dor certamente, mas, se calhar também, não um conforto, mas um alívio por sentir que o sofrimento de alguém que amo, acabou...



Uns meses antes, através de sucessivos processos judiciais, os meus pais recuperaram a oficina que por direito lhes pertencia...tinham passado 6 anos e meio, a indústria gráfica tinha nesse período avançado muito a nível tecnológico e era preciso recuperar o tempo perdido. No entanto, além de ter sido entregue, na condição de manter os postos de trabalho, foi entregue sem matérias-primas, sem encomendas em carteira, sem fundo de maneio, tornando por tudo isso a recuperação muito difícil. A agravar as coisas estávamos no meio de uma crise económica geral muito grave. O País caminha a passos largos para o abismo, com a inflação na ordem dos 30%, o escudo a desvalorizar dia-a-dia, provoca um desemprego até agora nunca visto, os salários em atraso começam a manifestar-se e vai provocar uma intervenção do FMI em Portugal (estamos em fins de 1982, não em 2010!). Eu tinha deixado o emprego e estava a apoiar o meu pai na reconstrução da tipografia. O pai, depois de recuperar a oficina e após a morte da mãe começa a pensar em voltar a fazer as bóias de pesca. Assim, comprámos máquina de produção industrial para esse efeito, alugando a tipografia a outras pessoas. Fui a Itália, comprar e aprender a trabalhar com essas máquinas e durante os preparativos para a viagem toda a gente me avisava que tivesse muito cuidado porque os italianos eram isto e aquilo...certo é que foi roubado, dinheiro e documentos na estação de Campanhã, ainda o comboio estava parado... Consegui em 24 horas resolver o problema e no dia seguinte estava a caminho de Itália...

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