Autobiografia


no João de Deus, assinalado à direita, à esquerda o meu colega Pedro Abrunhosa



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no João de Deus, assinalado à direita, à esquerda o meu colega Pedro Abrunhosa
lá fui eu parar ao Colégio João de Deus - responsável por grande parte da formação que tenho hoje - para a terceira classe. Na rua de Santa Catarina, o colégio funcionava em dois espaços distintos: um para a primária, compunha-se de 4 salas de aula e um recreio fechado e outro espaço virado para a rua da Alegria onde funcionava o restante ensino, desde o 1º ano do ciclo preparatório até ao 7.º ano (hoje 11.º)...onde nós, pequenos, nos aventurávamos a ir de vez enquando.

Cá em baixo, os mais pequenos, com o professor Moreira e o professor Vítor....e o director, padre Germano, que olhava por nós e nos responsabilizava pelos actos e acções que praticávamos... também nos incentivava a pensarmos por nós próprios e a defender as nossas ideias até ao fim, quer fosse na presença de colegas, professores ou mesmo directores....com a devida educação éramos livres de falar livremente. Ao outro director, padre Albano, só o víamos quando vinha à varanda e nos atirava uns caramelos espanhóis que eram disputados pela turbe como um troféu. Quantos joelhos arranhados ele arranjou! E por aqui fiz a terceira e a quarta classe com estes professores e se do Prof. Moreira não há nada a referir, do prof. Vítor há e muito. Figura esguia aí dos seus 45 anos, penteado à moda da altura, brilhante, fato impecável, camisa branca e gravata escura, tanto era o anjo como o diabo... e se poucas vezes contei os olhinhos havia colegas que eram alvo de preferência. Lembro-me perfeitamente do Silva, mais alto do que eu, fininho. Certo dia estávamos na sala e na passagem do professor, que circulava entre as filas de carteiras, caiu um grande estalo sobre o Silva...e rapidamente um pedido de desculpas, repetido um sem número de vezes. Afinal, como ele andava mais atrasado do que o resto da turma estava a fazer cópia e não caligrafia (na cópia copia-se palavra a palavra e na caligrafia letra a letra), o professor esqueceu-se e...mas ficou-me mais na memória o pedido de desculpas do que a bofetada – os grandes sabem reconhecer os seus erros rapidamente!!!!. Do prof. Vítor ficou também a recordação de pela primeira vez ver imagens tridimensionais nuns aparelhos de metal (estereoscópios), uma maquineta que tinha um suporte em que se colocava duas imagens da mesma fotografia e uns óculos por onde se espreitava e aquilo t
view-master

estereoscópio
ransformava-se em imagens a preto e branco mas em 3D....uau!!!...que espectáculo. Pedi uma coisa daquelas aos pais, tive o view-master O view-master tinha a mesma função mas era mais avançado......uma pequena máquina onde se inseria um disco com várias imagens (também duplicadas) e ao carregarmos num botão de prisão rodava para a seguinte...e víamos ali o super-homem, o batman, o nacional geographic, as cidades capitais europeias, a China, tudo, a cores e em 3D... E aqui vai o Lima chamado ao padre Germano por não saber a tabuada. Mas em vez de me dar uma reprimenda deu-me uma cábula!...um quadrado com 10x10 quadrados mais pequenos com mais uma carreira no topo e no lado esquerdo numerados de 1 a 10. Somando as carreirinhas escrevíamos a tabuada num ápice...mais uns rolinhos de papel. Estávamos na quarta classe a preparar o exame que seria feito na escola pública, ali na Fontinha.

Estamos em 1969, uns meses antes um dos senhores dos retratos caiu da cadeira, soubemos nós, e passados uns tempos puseram lá uma fotografia de um outro senhor. Começavam a ouvir-se mais uns rumores, a curiosidade de ver televisão e com autorização de estar mais tempo acordado permitia que ouvíssemos mais notícias. O meu pai trouxe um rádio enorme para casa e à noite mexia constantemente nos botões para ouvir as notícias da BBC e de uma rádio que emitia da Argélia. – Então as notícias dessas rádios não são as mesmas das outras estações que a mãe ouve? Não!...



Coimbra, Praga, Maio, Argélia, eram palavras soltas que ouvíamos muitas vezes sem compreender muito bem o significado. O pai chegava a casa e dizia à mãe: – Estiveram lá outra vez; quem? Pai! – Ninguém, ninguém, deixa lá. Soube mais tarde que os senhores da polícia faziam visitas regulares à tipografia em busca de qualquer coisa que se tivesse impresso e que estivesse contra o regime...livros, jornais, propaganda. Ao contrário de hoje, as notícias importantes circulavam em pequenos jornais impressos durante a noite clandestinamente. De porta fechada e luz no mínimo, quantas vezes em máquinas a pedal....faziam menos barulho...e não gastavam electricidade. As buscas da polícia serviam para procurar qualquer coisa que tivesse ficado esquecido, um bocado de papel que tivesse caído para o chão, uma chapa (molde tipográfico), qualquer coisa que pudesse incriminar as pessoas e permitisse enviá-las para a cadeia (como se em m
cábula para a tabuada
uitos casos fosse preciso isso!). As pessoas eram presas sem culpa formada – e mantidas lá por tempo indeterminado.Felizmente não tenho memória do meu pai ser preso. Acho que para lá de se ter que deslocar à polícia para responder nunca teve mais problemas além desses.

O pai também se dedicava à pesca desportiva. Competia com amigos ao fim-de-semana quer no mar, no rio ou em terra!....É, a sério! Divertiam-se a ver quem atirava a chumbeira mais longe....arranjavam um campo grande e iam para lá lançar um pedaço de chumbo de 50, 100 ou 120 grs. preso a uma linha de pesca. Era uma arte que até chegaram a praticar no antigo Estádio das Antas, já que faziam parte da secção de Pesca Desportiva do Clube. Assim, sábado de tarde e domingo normalmente a mãe e eu acompanhávamos o pai nestas deslocações....e se ao sábado a pesca era pertinho de casa, aos domingos faziam muitos quilómetros para ir pescar. Levantávamo-nos de madrugada e lá iamos os três estrada fora. Amarante, Marco, Abrantes, Tomar, no rio Douro, Ave, Mondego, Lima, eram poucos os domingos em que não se saía para a pesca. Aí conheci um rapaz um pouco mais velho do que eu, filho de um amigo do meu pai - o Tó-Zé - ainda éramos uns miúdos eu com 10 anos ele mais velho 3, e fomos amigos de domingo durante muitos e bons anos. Mais tarde pescamos juntos copiando o vício os nossos pais e fomos os dois campeões de juniores de pesca, ele num ano eu passado dois. Um dos amigos do meu pai, o Sr. Fernando era o alvo de uma das minhas brincadeiras preferidas na pesca - encher o cesto dos pescadores com grandes gôdos, daqueles bem pesados e eles ou não viam mesmo, nem sentiam o peso excessivo ou nem queriam ver e levavam os godos para casa....no fim de semana seguinte: – oh Zé! o teu filho encheu-me o cesto de godos outra vez ...diziam eles ao meu pai. – Tenho lá uma colecção deles..quando fores lá a casa ele vai levá-los todos ...gargalhada geral....o certo é que lá os tinha num cantinho do quintal. Mas nunca cumpriu a ameaça!



Juntamente com a minha mãe só a D. Tina, mulher do Sr Fernando, e a D. Lola, mãe do Tó-Zé, mulher do Sr. Costa, iam com os maridos para a pesca. Como passavam ali no meio do nada parte do Domingo, a D. Glória tirou a carta de condução, a seguir a mãe fez o mesmo e então com a mãe ao volante lá íamos passear as redondezas dessas cidades e vilas enquanto o pai pescava. Era também o tempo de coleccionar as “victórias”: uns cromos que eram os próprios invólucros do rebuçado, rebuçado? Um pouco de açúcar em ponto. O bacalhau, o carneiro e a cobaia eram os mais difíceis de sair e por isso, por vezes, andávamos há semanas a coleccionar já outra caderneta sem ter acabado a anterior e trocávamos por vezes umas dezenas de outras figuras por uma daquelas. É que acabando a caderneta recebíamos uma bola de futebol à seria, daquelas de couro, com um cordão a fechar, depois quando a cabeceávamos ficávamos com as marcas do cordão marcado na testa! Os supermercados, hipermercados e afins ainda vinham longe de aparecer e as compras semanais eram feitas ou no mercado da Areosa ou no do Bolhão. Naquele tempo diziamos: – vamos ao Porto! Como se fosse uma grande aventura. As mercearias de rua tinham um pouco de tudo e o arroz, o açúcar, a massa eram comprados lá, a granel. Por vezes, iamos nós, os rapazotes, à mercearia, a recado das mães, buscar isto ou aquilo para o almoço ou para o jantar e lá comprávamos as “victórias” a meio tostão cada (um escudo eram 10 tostões) e por vezes aquela barrigada de rebuçado fazia efeito e lá andávamos nós com dor de barriga. Outras coisas eram compradas ao “azeiteiro” – um homem que trazia assim uma espécie de caixa fechada em cima de uma carroça puxada por um burrito, abria uma das abas laterais da caixa e trazia lá azeite, azeitonas, tremoços e as senhoras do local reuniam-se por aquele bocado à volta da carrocinha comentando a vida. O leite, íamos ao fim da tarde, com as leiteiras (vasilhame de alumínio que se utilizava para o efeito) na mão, buscá-lo ao lavrador, acabado de tirar das vaquinhas. Fiz uma ou duas colecções de “vitórias” e lembro-me de a mãe me ajudar a colar as estampilhas na caderneta...mas por isto ou aquilo a cola colou bem demais e as folhas da caderneta ficaram todas coladas umas às outras...quando endureceu parecia um tijolo. Ficou por aí a minha tendência para as colecções. Num dos recados à minha mãe apareci em casa com uma garrafa de vinho espumante... – onde foste buscar isso, rapaz? perguntou a mãe...: – Ora! do furo - pequenos placas de cartão com furos e depois cobertas com um papel. Com um bico procurávamos no papel onde furar e caía uma bola colorida que estava lá escondida e segundo a cor da bola saía um prémio estipulado no escaparate – que te pedi para fazer, respondi eu. – Não acredito! Vamos lá confirmar isso! Acho que me zangei com a mãe nesse dia! Não era costume duvidar de mim!....


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