Autobiografia



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chapa offset
a gráfica continuávamos a encomendar fora a pré-impressão, mandávamos os textos e as imagens e eles compunham os impressos enviando-nos os fotolitos. Por esta altura já tinha comprado uma máquina “offset” – o offset é um método de impressão em que uma chapa de alumínio, pré-sensibilizada, de 0,30 mm de espessura é processada também com luz ultravioleta que sensibiliza a chapa mantendo o que se quer imprimir, dissolvendo o que não se quer num banho químico. A este processo chamamos “transporte”. Colocando esta chapa na máquina de impressão ela transmite a um rolo forrado com uma espécie de borracha (cautchú) o que se revelou e este rolo é que vai entrar em contacto com o papel - por isso o nome “offset” ou impressão indirecta ao contrário da impressão dita tipográfica em que a chapa entra em contacto directo com o papel. Também como a passagem é rotativa, o produto final, ou seja, a tinta no papel fica mais suave, mais acetinada. A impressão tipográfica como é “chapada” o aspecto visual é mais rude. Estas máquinas de offset também possuem a particulariedade de entre cada impressão a chapa ser lavada com água ou mais recentemente com álcool. Esta lavagem limpa-a de eventuais resíduos, quer de partículas de papel, quer de restos de tinta da impressão anterior e confere mais limpeza e nitidez ao trabalho final.

O processo de impressão é trabalho minucioso e preciso, por isso o pessoal especializado tem de sobretudo gostar do que faz. Doutro modo não terão a sensibilidade necessária à observação do que imprimem.

Com esta máquina abrangemos mais tipos de trabalho e baixam os custos de impressão. Um atraso na entrega de um trabalho pelo nosso fornecedor de fotolito vai ser fundamental para a etapa seguinte.

Entretanto nasce o João, tem a Joana pouco mais de quatro anos de idade. O rapaz, talvez com pressa de nascer, resolve pregar uma partida e nascer no átrio da ordem da Trindade, em pleno Inverno (3 horas da madrugada de 22 de Dezembro). Sem médicos e sem parteiras por perto foi uma enfermeira que de passagem completou o parto e o embrulhou num cobertor. Deve ter sido a estreia nestas andanças. Um dos médicos depois de o consultar, achou que o bebé tinha um problema cardíaco e preferiu chamar o INEM. Foi uma espera angustiante, eu descia e subia aquelas escadas um sem número de vezes, interrogando o médico, que me dizia que era por precaução. Mas não me acalmava e quando a equipa do INEM chegou, trazia uma incubadora mecânica. Aparatosa, a máquina, ainda provocou em mim uma angústia maior. No entanto o cardiologista da equipa médica preferiu mantê-lo à beira da mãe do que levá-lo para um hospital central. O pior passou e viemos todos passar o Natal a casa.

O passo seguinte e que me irá integrar completamente no mundo gráfico foi a compra do primeiro computador. Nesta altura o Macintosh da Apple com o seu sistema operativo Mac-OS (macintosh operating system), dominava a preferência dos profissionais gráficos, mas este sistema era caro e, por isso, incomportável para mim. No entanto a Microsoft estava a desenvolver sobre o seu sistema operativo MS-DOS (microsoft disk operating system) uma interface WYSIWYG - o “Windows”. Assim decidi-me, por um 486 com 16 MB de RAM e um disco de 256 MB, windows 3.1, dois programas gráfico, o pagemaker para texto corrido e o corel draw para desenho vectorial e edição de imagem, em conjunto com uma impressora laser de 600 pontos por polegada, num investimento de quase 1.200.000$00 em 1994.

A empresa que nos vende o sistema oferece-nos um pequeno período de formação e aí vou eu na companhia de outro funcionário aprender a trabalhar com o computador. Se ele sabia já muito acerca disto eu nunca tinha visto uma tecla de computador à minha frente e por isso têm de me ensinar tudo... Começamos então com o mais básico, como lidar com o sistema operativo, abrir pastas, gravar ficheiros que então era pelo sistema 8+3 (oito caracteres de nome de ficheiro mais três de designação de extensão - cada uma significa o programa que o criou). Seguindo para o Pagemaker que era, na altura, o programa utilizado pelos gráficos. No entanto eu queria era que me ensinassem a manusear o Corel. Que quê? Corel?: - tem de aprender sozinho, não há quem o ensine nem aqui e em todo país não deverá haver muitos. O programa de eleição dos profissionais era o “FreeHand”, que era bom para o sistema Mac mas que se arrastava no Windows. Mas aprender onde? Não havia escolas para isso, não havia quem ensinasse, internet como a conhecemos hoje nem pensar. Aos poucos com o manual de instruções em inglês fui fazendo uns desenhos muito simples. Lembro-me de estar horas e horas para fazer uma “acção”. De dia, de noite, quando havia um tempinho lá ia eu para o Corel. Até para juntar dois segmentos de recta estive horas...mas lá ia devagarinho aprendendo conforme as necessidades. Enquanto isso o funcionário que comigo estivera na formação fazia no Pagemaker o serviço necessário à produção das máquinas. E quando chegou a hora de imprimir a partir do Corel foi outra aventura; ele não fazia impressão em “espelho”, para nós fundamental. Devido ao efeito cónico da luz na máquina de transporte é necessário que a camada da impressão esteja o mais junto à chapa e isso só é possível se fizermos a impressão “por baixo” do suporte de impressão que sai da impressora laser ou de máquinas de saída de alta resolução - na laser, utilizada para trabalhos em traço ou com um número reduzida de trama utilizámos um suporte de poliester transparente, nas máquinas de saída de alta resolução, utilizada para trabalhos mais precisos e que envolvam fotografia, utiliza-se uma película fotográfica. Se não há remédio, remediado está, simples, faz-se o espelho no próprio software. Parecia sanado o problema, mas não... o software não espelhava as caixas de texto e quando as convertíamos, elas perdiam a formatação... Não demorou muito até avançarmos para uma versão superior do programa.

Eu, curioso, começo a mexer em tudo, inclusive no sistema operativo, e por vezes aquilo encrava. Então eu lá chamo os técnicos para virem corrigir os problemas. Uma das técnicas, numa das vezes, reclamou que eu não podia mexer naquilo assim. Resposta pronta: - não posso mexer? Então o computador é meu e eu não posso mexer? Só me lembro da cara de espanto dela.

Uns anos antes o meu primo Joaquim juntamente com os pais resolvem voltar a Portugal, tendo o José Luís permanecido na África do Sul, onde tinha já constituído família. O Joaquim após completar estudos especializa-se em informática e começa a ajudar-me e a ensinar-me muita coisa acerca do funcionamento dos computadores. Eu, com as costas forradas - se alguma coisa correr mal ele arranja - cada vez explorava mais.



No entanto, desenhar logotipos começa a ser complicado sem um digitalizador para se obter uma base de trabalho. Aí o Joaquim tem uma daquelas ideias brilhantes. - Uns anos antes, eu tinha comprado um fax, que fez as delícias na altura. Um aparelho que através de uma linha telefónica enviava qualquer manuscrito para outro aparelho igual no outro lado da linha telefónica. Nessa altura era normal ficarmos em frente do aparelho a vê-lo processar e com dúvidas telefonávamos para o destinatário a confirmar a recepção. Este aparelho veio facilitar e muito, a vida de muita gente e a nós gráficos muito particularmente. Até esta altura era normal deslocarmo-nos a casa do cliente inúmeras vezes, para primeiro vermos o que ele queria e depois para lhe mostrarmos as provas necessárias para confirmação do serviço a executar. Agora as deslocações reduziram muito. Passou a ser possível recepcionarmos um qualquer manuscrito e processá-lo no computador e enviá-lo de volta ao cliente para aprovação. O Joaquim ligou uma placa de fax no computador a uma linha telefónica, do aparelho de fax mandava-se o documento para o computador e aí estava a imagem digitalizada no monitor. A partir desta base seria muito mais fácil desenhar o que se pretendia. Durante algum tempo, portanto o meu trabalho baseou-se em preparar a pré-impressão do trabalho gráfico que depois seguia para a impressão. Trabalhos como facturas, recibos, cartas, envelopes começaram a ser feitos por mim. Já se imprimia trabalhos mais elaborados, como calendários, prospectos (flyer’s) mas a pré-impressão era efectuada ainda em gabinetes exteriores. Por isso começo também a trabalhar com photoshop, para edição de imagem. O pacote corel tem um programa de edição de imagem mas nunca me entusiasmou muito. Mais uma vez com recurso a manuais e livros publicados acerca do programa começo a estudá-lo. O photoshop é um autêntico “iceberg” - mas com o que está à vista lá consegui fazer um catálogo para um dos meus clientes de referência, que eu sabia à partida que qualquer coisa que corresse mal não seria muito grave. Com um digitalizador que o meu primo me arranjou, lá processei umas fotos de embalagens de colas e vernizes que tinha obtido com uma máquina fotográfica que eu tinha na altura, e lá fiz um A3 com fotos dos dois lados do papel. Quando dei o trabalho por finalizado chegou a hora de o fazer sair do computador para os suportes de impressão. Tinha que o levar para o gabinete de saída, mas como? O trabalho final tem 80 MB, as disquetes, suporte amovível na altura só tem capacidade para 1,4 MB. Havia, e há, um processo de colocar em disquetes um ficheiro maior, repartindo-o por várias, mas apesar de não ser muito fiável tinha que ter muitas disquetes. Entrei pelo gabinete deles e partiram todos para a gargalhada geral - eu levava o computador debaixo do braço, qual portátil. - Oh Sr. Lima, dizia qualquer coisa e nós emprestávamos isto. Disse o Filipe, do gabinete de fotolito apontando para um pequeno aparelho azulado – era uma “drive” que suportava ficheiros até 100 MB – a “zipdrive” . Não tardou muito a que eu tivesse uma. Naquela altura os computadores têm uma “rom - read only memory” muito mais pequena que os actuais tem de “ram - random acess memory” . Quer dizer temos actualmente uma memória virtual para processar o que estamos a fazer no momento do que tínhamos para armazenar tudo o que queríamos. Não é difícil imaginar que passado um tempo o meu computador tivesse três discos internos. O que acontecia muitas vezes é que executávamos uma acção e podíamos ir tomar um cafézinho.

Entretanto, mais uma vez, o meu primo entra em acção. Instala-me um programa e mostra-me o funcionamento dele. – Olha, tens aqui uma casa e metes um número, aqui tens outra e metes outro número e aqui nesta dá para somar as duas! Olhei para ele como quem diz. - Este tipo endoideceu, para que quero eu isto?



Por vezes até me esqueço de ir para casa. A Luciana mostra-se à altura e mesmo com dois filhos atura as minhas distracções todas. É a trave mestra, a minha âncora.

A

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