As relaçÕes entre textos



Baixar 78.23 Kb.
Encontro19.02.2018
Tamanho78.23 Kb.

INTERTEXTUALIDADE, POLIFONIA E HETEROGENEIDADE
Introdução
Segundo Platão e Fiorin1, “todo texto é produto de uma criação coletiva: a voz do seu produtor se manifesta ao lado de um coro de outras vozes que já trataram do mesmo tema e com as quais se põe em acordo ou desacordo”. Isso significa que um texto não surge do nada.Todo texto se constitui pelas vozes vindas de outros textos. “Os textos têm a propriedade intrínseca de se constituir a partir de outros textos. Por isso, todos eles são atravessados, ocupados, habitados pelo discurso do outro.”

Isso ocorre, por exemplo, quando um professor cita um texto de algum autor, quando uma obra literária é adaptada para o cinema, quando um escritor ou compositor comete o plágio, quando um texto é traduzido, quando um autor faz uma paródia de um texto de outro autor, quando dizemos um provérbio durante uma conversa, quando reafirmamos ou negamos algo, quando falamos com ironia etc.

Neste polígrafo, serão analisadas três formas de presença da voz do outro no texto. Cada forma será uma remissão às teorias já estudadas na disciplina: a intertextualidade (sob a perspectiva da Linguística Textual representada por Ingedore Koch), a polifonia (pela Teoria da Enunciação de Oswald Ducrot) e a heterogeneidade (pelo viés da Análise do Discurso fundada por Michel Pêcheux).

Intertextualidade








“Propomo-nos a falar de intertextualidade desde que se possa encontrar num texto elementos anteriormente estruturados, para além do lexema, naturalmente, mas seja qual foi seu nível de estruturação.” (Jenny, 1979 apud Koch, 2002, p.62)2


Algumas vezes, a presença da voz do outro (um trecho de outro texto, por exemplo) é mostrada de tal forma que se pode perceber claramente o limite entre a voz de quem fala ou escreve e a voz que é citada. Isso acontece, por exemplo, numa citação como esta, feita por um aluno:

Com a pesquisa, descobri que Faraco e Moura, em sua Gramática definem o artigo como “a palavra que se antepõe ao substantivo para definir ou indefinir o ser nomeado por este substantivo”, mas esta definição pode ser ampliada.


Como se pode perceber, neste pequeno texto, a voz do outro texto está demarcada pelas aspas. O que também poderia ter sido feito pelo uso de itálico ou negrito:

Com a pesquisa, descobri que Faraco e Moura, em sua Gramática definem o artigo como a palavra que se antepõe ao substantivo para definir ou indefinir o ser nomeado por este substantivo, mas esta definição pode ser ampliada.

Ou seja, neste tipo de citação (chamada literal), é clara a separação entre a voz dos autores citados e a voz do autor-aluno, o que pode ser representado num esquema assim:


Com a pesquisa, descobri que Faraco e Moura, em sua Gramática definem o artigo como
mas esta definição pode ser ampliada.


a palavra que se antepõe ao substantivo para definir

ou indefinir o ser nomeado por este substantivo

Além disso, a fonte (autoria) do texto citado é apresentada, como se o autor dissesse: quem apresenta esta definição não sou eu, são eles: Faraco e Moura. A voz do outro é mostrada, demarcada e citada exatamente como foi dita, sem alterações.

Outras vezes, pode acontecer a não-marcação do limite entre os espaços das duas vozes pelo uso de aspas e, mesmo assim, a multiplicidade de vozes ser percebida. É o caso das citações livres (também chamadas não-literais):

Faraco e Moura apresentam uma definição de artigo considerando a sua anteposição ao substantivo e a sua função definidora ou indefinidora do ser que este nomeia.


Neste caso, as palavras literais do texto fonte não podem ser recuperadas, mas é possível apreender um sentido global, ou, pelo menos, a interpretação que o aluno faz do texto fonte:

Faraco e Moura apresentam uma definição de artigo considerando a sua anteposição ao substantivo e a sua função definidora ou indefinidora do ser que este nomeia.





Artigo - anteposição ao substantivo

- função de definição ou indefinição do ser que o substantivo nomeia


Agora observe a importância do verbo de dizer na referência à outra voz.



O hospital atenderá somente os pacientes da capital, ___________ o médico-chefe do setor de emergência do Hospital das Clínicas.


denuncia / confessa / exige



O tradutor _______ que faria o trabalho em 3 dias.


prometeu / insinuou / garantiu / ameaçou / retrucou / bravateou

Koch (2002) diferencia quatro formas de analisar a intertextualidade:


1) De conteúdo X de forma/conteúdo

Intertextualidade de conteúdo: entre textos científicos de uma mesma área, entre matérias de jornais no mesmo dia ou no período de tempo em que dado assunto é focal, entre diferentes matérias de um mesmo jornal, entre textos literários de uma mesma escola.

Intertextualidade de forma/conteúdo: na imitação, na paródia, em textos que reproduzem a linguagem bíblica, a de determinado escritor ou de um dado segmento da sociedade.
2) Explícita X implícita

Intertextualidade explícita: quando há citação da fonte no intertexto, como ocorre nos trabalhos acadêmicos, nas resenhas e nas traduções.

Intertextualidade implícita: quando não há citação da fonte, cabendo ao interlocutor recuperá-la na memória, como é o caso das alusões e da paródia.
3) Captação e subversão

Captação: quando o texto incorpora o intertexto para seguir-lhe a orientação argumentativa e para tomá-lo como argumento de autoridade.

Subversão: quando o texto incorpora o intertexto para colocá-lo em questão, mostrar sua improcedência ou ridicularizá-lo.
4) Com intertexto próprio, com intertexto alheio ou com intertexto atribuído a um enunciador genérico

Com intertexto próprio: também chamada autotextualidade.

Com intertexto alheio: tomado de um autor determinado.

Com intertexto atribuído ao um enunciador genérico: enunciações que fazem parte do repertório de uma comunidade, como é o caso dos provérbios.


Analise esta introdução de um artigo acadêmico a partir das formas apresentadas por Koch:



Discursividade online

Solange Leda Gallo


Tematizarei aqui o efeito de sentido que estou tratando como online, por oposição ao que se conhecia como ao vivo, outro efeito de sentido produzido pela mídia. Nesta perspectiva, podemos compreender o online como uma das discursividades específicas da rede internet.

Em um trabalho anterior (Gallo, 2011), desenvolvi uma análise da qual depreendi dois tipos de condições de produção de textos da internet: condições constitutivas de acontecimentos enunciativos1, e constitutivas de acontecimentos discursivos. (...)

Hoje proponho um maior aprofundamento nessa questão.

Começarei por discutir a condição comum a todos esses materiais da internet, que é a condição de parecerem/serem/estarem online. Mobilizarei, ainda, para este estudo, uma análise que desenvolvi no meu doutorado, análise de emissões radiofônicas produzidas ao vivo, em uma rádio aberta, por alunos de uma escola de Paris.


___________________

1 A noção de acontecimento enunciativo enquanto “o que instala sua própria temporalidade” é de Guimarães (2002).




Monte Castelo

Legião Urbana


Ainda que eu falasse a língua dos homens. 
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor. 


Que conhece o que é verdade. 
O amor é bom, não quer o mal. 
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver. 


É ferida que dói e não se sente. 
É um contentamento descontente. 
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens. 


E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.


É solitário andar por entre a gente. 
É um não contentar-se de contente. 
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade. 


É servir a quem vence, o vencedor; 
É um ter com quem nos mata a lealdade. 
Tão contrario a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem. 


Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor. 


Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens. 


E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;


É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;


É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor


Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Camões





Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, capítulo 13, versículos 1 a 13
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que retine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes,k e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disse me aproveitaria.

O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso, não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade;

Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.

A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.

Quando eu era criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face.

Hoje conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.
Observe a intertextualidade presente no texto a seguir, que é o fragmento de uma tradução:
(...) se referem a heróis culturais capazes de se transformar em flechas e que são mestres na caça com o arco; por essa razão, duplamente impróprios para desempenhar o papel de isca na caça às águias, sob sua aparência animal de gato selvagem e de racum*.

* O racum (raton laveur para os franceses) é um mamífero plantigrado e carnívoro (Procyon lotor) que habita o México, Estados Unidos da América e sul do Canadá. De pelagem em geral cinzenta, com manchas brancas e pretas na face, é um dos dois únicos animais norte-americanos com cauda anelada. Semelhante ao urso lavador americano é o nosso guaxinim ou mão-pelada (P. cancrivorus). (Nota de Almir de Oliveira Aguiar e M. Celeste da Costa e Souza, tradutores da 1a. edição pela Ed. Nacional.)

(LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Tradução de Tânia Pellegrini. Campinas, Papirus, 1989. p.67)


Polifonia

Um galo sozinho não tece uma manhã:


ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

(João Cabral de Melo Neto)




Koch (2002, p.73) defende que “o conceito de polifonia recobre o de intertextualidade, isto é, todo caso de intertextualidade é um caso de polifonia, não sendo, porém, verdadeira a recíproca: há casos de polifonia que não podem ser vistos como manifestações de intertextualidade”. Isso ocorre quando a presença da voz do outro é menos visível. Veja os exemplos:


Você está mentindo. Eu não colei na prova.
Neste caso, o que é negado é o que disse a outra voz:


Você está mentindo. Eu não colei na prova.

Você colou na prova.

Para a análise da polifonia, Ducrot3 diferencia locutor de enunciador.

Um enunciado pode apresentar mais de um locutor, como ocorre, por exemplo, na retomada da fala do interlocutor, nas citações em textos acadêmicos. Trata-se do que, na seção anterior, foi chamado de intertextualidade explícita.

A: Eu não estou bem.

B: Eu não estou bem; não pense que você vai me comover com isso.


O trecho sublinhado não é atribuído ao locutor B, mas sim ao locutor A. Portanto, o enunciado dito por B apresenta dois locutores: A e B.


Um enunciado também pode apresentar um locutor e dois enunciadores. Pode-se dizer que cada enunciador é um ponto de vista acionado pelo locutor. O que é um pouco mais amplo que a intertextualidade implícita, pois “basta que se apresentem, no mesmo enunciado, perpectivas diferentes, sem a necessidade de utilizar textos efetivamente existentes”. (Koch, 2002, p.65)
Assim, um enunciado composto de negação apresenta dois enunciadores:

Não me abandone!


E1: Você pretende me abandonar.

L ----------------------------------------

E2: Não me abandone!

O mesmo ocorre com o enunciado que apresenta um conector de oposição:



Resposta a um convite para sair:

O tempo está bom, mas estou com um problema no pé.
E1: O tempo está bom => conclusão: vou sair

L --------------------------------------------------------------

E2: Estou com um problema no pé => não vou sair


Ou que apresenta um ato ilocutório indireto:



Está calor aqui.


E1: Está calor aqui.

L -----------------------

E2: Abra a janela.

Um implícito:



A segunda filha de Maria tem 15 anos.


E1: Maria tem uma filha de 15 anos.

L --------------------------------------------

E2: Maria tem outra filha.

Ou uma ironia:



Como você foi bem na última prova, valia 10 e tirou 2!


E1: Você foi bem.

L -----------------------

E2: Você foi mal.

A ironia é uma forma menos visível de delimitação dos espaços das vozes que constituem o texto, pois não deixa marca (como a negação e os conectores de oposição) e só pode ser percebida pelo ouvinte ou leitor quando este tem determinado conhecimento sobre o falante ou autor, sobre a situação de interlocução e sobre os fatos do mundo. Isso porque é preciso compreender que o falante está dizendo o contrário do que está falando.


Analise a polifonia presente nos textos a seguir:


(ATENÇÃO! ISSO NÃO É UMA PIADA)



Fonte: http://naotenhopreconceito.tumblr.com




Dia do trabalho – uma data ofensiva aos empresários


1 de maio de 2013

By Professor Hariovaldo


Hoje só deveria ser feriado se fosse para comemorar a prisão de Lula e o fim do Partido dos Trabalhadores, pois o dia do trabalho, assim como o partido dos trabalhadores, é uma ofensa aos empresários, capitães de indústria e demais comandantes da economia brasileira e mundial. É uma data amaldiçoada, infame e caluniosa pois o patrão, o empresário ou o industrial é o único que deveria ser louvado neste dia porque sem ele não existiria trabalho para ninguém, sendo portanto, os operários e empregados seus devedores eternos. A data deveria ser comemorada com mais trabalho e de forma gratuita, como sinal de gratidão àqueles que propiciam o pão de cada dia na mesa dos empregados.

Por isso, amados irmãos, esse dia é uma mentira, uma invenção comunista, e não é à toa que não é festejada nos Estados Unidos, um país rico, sem miséria e sempre próspero, pela força do trabalho dos grandes empresários. Aliás, quem criou essa data foram os comunistas, na vã tentativa de espalhar o bolchevismo satânico pelo mundo, no que felizmente fracassaram retumbantemente. Mas a data infame permanece e deve ser abolida pois representa uma lembrança indevida do movimento marxista mundial. Assim sendo, toda pessoa consciente deve pedir a prisão do Lula, assecla maior dos trabalhadores comunistas, e a abolição do feriado do dia do trabalho para exterminar qualquer referência aos movimentos socialistas.

http://www.hariovaldo.com.br/site/2013/05/01/dia-do-trabalho-uma-data-ofensiva-aos-empresarios/


Energia eólica não é mais um “moinho de vento”

O leilão de energia nova realizado esta semana trouxe uma novidade.

Pela primeira vez, o preço da energia eólica ficou perto do preço da gerada hidraulicamente.

O megawatt saiu a R$ 99, uma expressiva queda ante os R$ 136,80 do leilão realizado ano passado e mais ainda se considerado o preço de R$ 148 do primeiro leilão do qual participaram usinas eólicas, em 2009. E ligeiramente inferior aos R$ 102 por MW por que foi arrematada a energia da expansão da usina de Jirau, no Rio Madeira.

O preço mostra que a geração de energia pelos ventos não só vai se tornando economicamente viável – pelo barateamento dos equipamentos, fabricados em escala cada vez maior aqui como também pelo domínio da tecnologia e, em alguns casos, como o da fabricação de pás, até liderança neste setor, como é o caso da Tecsis, de Sorocaba, recentemente capitalizada num acordo entre a Unipar, a gestora de investimentos Estáter e o BNDESPAR, que fabrica dois terços das pás usadas pelos geradores da GE Wind, uma das gigantes mundiais.

“Combustível” para essa geração não falta. Há medido um potencial de 150 mil megawatts, equivalente a dez usinas de Itaipu. E esse é um cálculo conservador, com medição dos ventos a 50 metros do solo, o que é superado pelas torres mais modernas, que passam dos 100 metros, o que poderia representar um acréscimo de 50% no potencial total.

Mesmo não sendo uma solução estrutural, a energia eólica é capaz de, como fonte complementar, suprir parte expressiva de nossas necessidades, trabalhando dentro de um sistema interligado e coordenado, que permita “economizar” energia retida nos reservatórios das hidrelétricas nos períodos de ventos constantes e “gastá-la” nos momentos em que cair a capacidade de geração eólica.

Metade do potencial de geração está no Nordeste – especialmente no Rio Grande do Norte e Ceará – e é mais intenso na época de águas baixas no Rio São Francisco, que abastece de energia a região. Sudeste (Espírito Santo e noroeste fluminense) e Sul também têm boa capacidade de gerar eolicamente energia.

Esse é um setor onde aproveitamos, hoje, menos de 1% do que podemos usar. E é de enorme potencial. Em países com alto uso de energia eólica, como a Alemanha, a fabricação de componentes para aerogeradores já gera mais emprego que a indústria automobilística.

Mas, para isso, é preciso investir. E as oportunidades estão aparecendo. O BNDES também financia projetos eólicos, exigindo um índice de 60% de conteúdo nacional nos equipamentos. E o Banco do Brasil, em associação com o Banco Votorantim, lançou fundos de investimentos para pessoas físicas, livres de imposto de renda, para financiar projetos de energia sustentável, em geração eólica, com biomassa e pequenas centrais hidrelétricas, com prazos de cinco a 30 anos e retorno estimado em inflação mais 7,5% ao ano.

A estimativa é que captem meio bilhão para investimento. É pouco, perto do que este negócio pode movimentar e representar como fonte de renda segura e permanente. E de energia renovável e limpa.

Por: Fernando Brito


Heterogeneidade

Meu poema

é um tumulto

a fala

que nele fala

outras vozes arrasta em alarido.

(Ferreira Gullar)

Assim como o conceito de polifonia abarca o de intertextualidade, o conceito de heterogeneidade abarca ambos. Ou seja, um texto que apresenta um intertexto (uma citação, por exemplo) é heterogêneo, o que apresenta diferentes pontos de vista (caso da negação, do conector de oposição, da ironia etc.) também é heterogêneo. Mas, mais do isso, como apontado na introdução deste polígrafo, todo texto é heterogêneo.

Nas perspectivas abertas pela Análise de Discurso, o enfoque da heterogeneidade se destaca, desde a disposição para evidenciar, mediante análise, os modos de funcionamento da linguagem pelos sujeitos, fazendo aparecer sentidos outros, vinculados a historicidades diferentes, que se apagam pela própria natureza da língua e da equivocidade do sujeito que interpreta os acontecimentos, sempre de um modo diferente. É certo que as palavras passam a significar diferentemente em historicidades outras, embora os significantes sejam os mesmos. Pôr em questão a transparência da linguagem, ao se efetivar a leitura analítica, procurar pontos de deriva é o que pede a análise de discurso. Nesse processo, no qual se lida com a equivocidade e a falha, emerge o sentido outro, o diferente. O próprio interdiscurso se movimenta a cada novo “gesto de interpretação” através do qual os sujeitos de linguagem imprimem-lhe um novo sentido, construindo a memória coletiva do dizer, com seu trabalho de significação. (Mutti, 2000)4


Nessa perspectiva teórica, para abordar a heterogeneidade, além do aproveitamento dos termos utilizados nas perspectivas antes descritas, trabalha-se também com as noções de interdiscurso (cujo escopo é mais amplo que o da noção de intertexto, pois é tomado como o lugar de toda possibilidade de dizer, o já-lá, o já dito, o possível de ser dito) e de memória (que não é cognitiva, mas social). Os saberes presentes no interdiscurso intervêm pela memória – isso tanto na produção como na leitura de um texto. Isto é, é porque há elementos já-lá no interdiscurso que um texto pode ser produzido e pode ser lido. A memória social é o que torna possível produzir e ler um texto.



O gorro de Clementis.

A foto mostra um comício realizado para milhares de pessoas em 1948, quando os comunistas tomaram o poder no país. Fazia frio e Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald, antes que o companheiro de partido discursasse para a multidão. Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição, julgado e enforcado. O governo comunista apagou a imagem de Clementis de todas as fotos em que ele aparecia. De Clementis, só restou o gorro de pele que fora colocado na cabeça de Gottwald.





1) 2)

Faixa com charge de Latuff, que denunciava a atuação do Ministério Público, retirada da fachada da boate Kiss em Santa Maria.



“Nesse momento, o crescimento da economia é da ordem de 0,5%.”


- Pode-se aplicar uma taxa a um crescimento da economia, isto é, a economia pode ser

medida.


- Esse crescimento costuma ser calculado dentro do prazo de um ano.

- Como o local do crescimento não é indicado, imagina-se que faça parte de um

universo nacional.

A análise do enunciado acima necessita de saberes já presentes no interdiscurso e que são acionados por uma memória social. Segundo Achard5 (1999, p.13), “não existe em parte alguma um texto de referência explícita que forneceria a chave” e ainda “jamais podemos provar ou supor que esse implícito (re)construído tenha existido em algum lugar como discurso autônomo”.

É por isso que os sujeitos tomam a palavra “retomando o que ignoram ser da ordem do já-dito” o que leva ao fato de que os discursos são repetições, ou melhor, “há repetições que fazem discurso” (Courtine e Marandin6,1980, p. 28).
Tomando os textos a seguir como objetos de análise, analise o que precisa ser acionado do interdiscurso, pela memória social, para que os textos possam ser interpretados.


João Carlos vivia em uma pequena casa construída no alto de uma colina árida, cuja frente dava para leste. Desde o pé da colina se espalhava em todas as direções, até o horizonte, uma planície coberta de areia. Na noite em que completava 30 anos, João, sentado nos degraus da escada colocada à frente de sua casa, olhava o sol poente e observava como a sua sombra ia diminuindo no caminho coberto de grama. De repente, viu um cavalo que descia para a sua casa. As árvores e as folhagens não o permitiam ver distintamente; entretanto observou que o cavalo era manco. Ao olhar de mais perto verificou que o visitante era seu filho Guilherme, que há 20 anos tinha partido para alistar-se no exército, e, em todo esse tempo, não havia dado sinal de vida. Guilherme, ao ver seu pai, desmontou imediatamente, correu até ele, lançando-se nos seus braços e começando a chorar.





1 SAVIOLI, Francisco Platão, FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. 3.ed. São Paulo: Ática, 1998.

2 KOCH, Ingedore G.V. O texto e a construção de sentidos. 6.ed. São Paulo: Contexto, 2002.

3 DUCROT, Oswald. Esboço de uma teoria polifônica da enunciação. In: _____. O dizer e o dito. Revisão técnica da tradução: Eduardo Guimarães. Campinas: Pontes, 1987.

4 MUTTI, Regina M.V. A heterogeneidade na linguagem e sua evidenciação: uma introdução. In: III Seminário Pesquisa em Educação Região Sul, 2000, Porto Alegre. Anais.

5 ACHARD, Pierre. Papel da memória. In: _____. Papel da memória. Trad. José H. Nunes. Campinas: Pontes, 1999.

6 COURTINE, J.-J., MARANDIN, J.-M.. Quel objet pour l’analyse du discours? In: CONEIN, B. Et al. Matérialité discoursives. Lille: Presses Universitaires de Lille, 1981. p.21-33.





©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal