As memórias de Henry Molaison



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As memórias de Henry Molaison
Henry Molaison morreu no dia 8 de dezembro de 2008. Foi uma grande perda para quem tenta entender como funciona nossa memória. Molaison foi a pessoa que mais contribuiu para o progresso deste campo nos últimos 55 anos. Morto, Molaison vai continuar nos ajudando a entender sua memória. Esta é a proeza que o cientista Jacopo Annese pretende realizar nos próximos meses.
Até os vinte anos Molaison era um mecânico que sofria convulsões severas. Em 1953 o cirurgião William Beecher resolveu repetir em Molaison um procedimento que aparentemente ajudava pacientes epilépticos. Com um pequeno aspirador ele removeu praticamente todo o hipocampo, a amígdala e uma pequena região chamada de giro do hipocampo de cada um dos hemisférios do cérebro de Molaison. A esperança era que esta versão da lobotomia curasse Molaison das convulsões. O resultado foi assustador, tão assustador que nenhum outro paciente foi jamais submetido a esta operação e Molaison passou a ser objeto de estudo de mais de uma centena de neurologistas. Até 2008 foram publicados mais de mil trabalhos científicos sobre Molaison.
Quando se recuperou da cirurgia, e já sem as convulsões, Molaison passou a ter um comportamento estranho. Levou semanas para Beecher e uma psicóloga chamada Milner descobrirem o que estava acontecendo. Molaison parecia normal. Se lembrava de sua vida antes da operação e era perfeitamente capaz de memorizar o conteúdo das conversas. O problema é que meia hora após a conversa tudo que havia sido discutido ou ensinado havia evaporado, desaparecido da memória. Com a operação Molaison não perdeu a memória do passado nem sua capacidade de formar novas memórias. O que ele perdeu foi a capacidade de converter memórias recém adquiridas em memórias duradouras. Na verdade foi estudando Molaison que os cientistas descobriram como formamos nossas memórias. Primeiro produzimos uma memória de curto prazo que é perdida rapidamente (usada, por exemplo, para lembrarmos o número de telefone que acabamos de ouvir e iremos discar em seguida). Mas, se a informação é importante, acabamos guardando a informação na nossa memória de longo prazo (o novo número for do telefone de nossa mãe). Tudo indica que a parte do cérebro que converte memórias de curto prazo em memórias de longo prazo foi removida do cérebro de Molaison. Mas o mais importante é que o fato de Molaison não ter perdido as memórias de longo prazo nem a capacidade de formar as memórias de curto prazo demonstra que estas três funções estão localizadas em regiões diferentes do cérebro. Foram descobertas como esta que tornaram Moalison famoso.
Mas a segunda parte da contribuição de Moalison para a ciência esta começando agora. Jacopo Annese preservou o cérebro de Moalison e vai iniciar seu estudo detalhado. Apesar de ter sido submetido a inúmeros raios-X e NMRs não sabemos exatamente os limites do que foi removido do cérebro na cirurgia de 1953. Para poder estudar o cérebro em detalhe vai ser necessário cortá-lo em 2.600 fatias e fotografar cada fatia. No total serão 40 mil fotos por fatia, um total 100 milhões de fotos. De posse destas imagens Annese vai montar virtualmente o cérebro de Moalison e colocar o resultado na internet. Deste modo será possível fazer um passeio virtual pelo interior do cérebro de Moalison (http://thebrainobservatory.ucsd.edu). Mas será que com um cérebro incapaz armazenar novas memórias e uma mente que durante 50 anos só teve 30 minutos de passado recente Moalison foi um homem feliz?

Mais informações em: The Brain Collector. Science vol.324 pag.1634 2009


Fernando Reinach (fernando@reinach.com)




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