As Boas Novas Comentário de Gálatas, por E. J. Waggoner



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VIDA PELA FÉ DE CRISTO

 

Muitos lerão este livro, não por simples curiosidade, para saber o que outro pensa sobre a epístola aos gálatas, mas com o firme propósito de obter ajuda nesta parte tão controversa da Escritura. Gostaria, amado leitor, de fazer algumas poucas considerações pessoais antes de avançar no estudo.

Cada porção da Bíblia está relacionada com todo o restante. Assim que entendamos bem algo e fazemos disto uma parte de nós, se incorpora a nossa vida e nos ajuda na procura de mais conhecimento, da mesma maneira que cada bocado de comida que ingerimos e assimilamos contribui para gerar atividade na procura de mais pão diário. Se estudarmos com proveito a epístola aos gálatas, uma grande porta se abrirá ante nós para a totalidade da Bíblia.

O caminho para o conhecimento é algo tão simples que muitos o desconsideram. Mas é uma caminho franco, aberto a todos: “Meu filho, se receberes minhas palavras, e mantiveres meus Mandamentos dentro de ti, se emprestares ouvido à sabedoria, se inclinares teu coração à sabedoria, se clamares à inteligência, e à sabedoria deres sua voz, se a procurares como à prata, e a buscares como a tesouros escondidos, então entenderás a respeito do Eterno, e achará o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria, de Sua boca  nasce o conhecimento e a inteligência” (Prov. 2:1-6).

Deus apareceu em sonho a Salomão, e lhe prometeu sabedoria. Mas não foi por meio de um sonho descuidado que lhe veio a sabedoria. Salomão não foi para cama numa noite, para se levantar no dia seguinte como o mais sábio de todos os homens. Quis a sabedoria tão ardentemente que verdadeiramente sonhou à noite com ela. Mas trabalhou na procura dela durante o dia.

Se queres entender a Palavra de Deus, estude-a. Nenhum homem na terra pode lhe emprestar seu conhecimento. Pode ajudar-te no sentido de  que não leve tanto tempo como a ele custou; pode guiar-te em como e onde ir; mas seja o que for que alguém saiba realmente, depois de ter transitado mil e uma vezes por certa rua, você acaba conhecendo cada um dos portais e cantos, e podes trazer à sua mente a totalidade da área. De um mesmo modo, quando meditas repetidas vezes em certa porção da Escritura, poderá chegar a vê-la rapidamente em seu conjunto, como também nas diversas facetas, e uma vez alcançado tal nível, poderá apreciar nela o que ninguém na terra poderia explicar-te.

 

1   Depois, passados quatorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo a Tito.

2   E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão.

3   Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se;

 

"Passados quatorze anos”. Seguindo o curso natural da narrativa, significa quatorze anos depois da visita de Gálatas 1:18 que por sua vez aconteceu três anos depois da conversão de Paulo. Então, aquela visita aconteceu dezessete anos depois de sua conversão, ou se preferir, no ano 51 D.C., data que coincide com o conselho de Jerusalém, referido em Atos 15. O segundo capítulo de Gálatas fala sobre aquele conselho, dos tópicos que lá foram debatidos, e o que derivou deles.



No primeiro capítulo somos informados que alguns estavam perturbando os irmãos por meio de uma perversão do evangelho de Cristo, por meio da introdução de um falso evangelho que tentava se fazer passar pelo verdadeiro. Em Atos 15:1 lemos que vieram da Judéia alguns que ensinaram aos irmãos: 'Se não os circuncidais de acordo com o rito de Moisés, não podeis ser salvos”. Nisso consistia o outro evangelho que estavam tentando pregar aos irmãos, em vez do verdadeiro - em realidade não era outro, desde que não há mais que um.

Paulo e Barnabé não estavam de modo algum dispostos a apoiar esta nova pregação, resistiram a ela “de forma que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gál. 2:5). Os apóstolos “tiveram uma severa discussão e contenda” com os falsos irmãos (Atos 15:2). A controvérsia foi entre o evangelho autêntico e sua falsificação.

 

Uma negação de Cristo - Um olhar à experiência da igreja de Antioquía que estava sofrendo a incursão daquele evangelho novo, mostrará que significava a negação mais categórica do  poder de Cristo para salvar.



O evangelho foi levado primeiramente pelos irmãos que vinham da Diáspora que continuou a perseguição iniciada com o martírio de Estevão. Estes irmãos “chegaram a Antioquía, falaram aos gregos, e lhes anunciaram o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles. E grande número acreditou e tornaram ao Senhor” (Atos 11:20 e 21). Naquela igreja havia profetas e mestres, e enquanto eles pregaram o Senhor e jejuaram, o Espírito Santo os moveu para que separassem Barnabé e Saulo para o trabalho ao qual Deus os tinha chamado (Atos 13:1-3). Não há nenhuma dúvida, pois, que a igreja tinha tido uma experiência profunda nas coisas de Deus. Eles se familiarizaram com o Senhor, e com a voz do Espírito Santo.

E agora, depois de tudo o que aconteceu, chegaram esses irmãos dizendo: “Se não os circuncidais conforme o rito de Moisés, não podeis ser salvos”. Isso era o mesmo que dizer: “Toda vossa fé em Cristo e todo o testemunho do Espírito são nada, sem o sinal da circuncisão. Pretendiam exaltar o sinal da circuncisão sem fé, sobre a fé em Cristo sem sinais externos. Esse “outro evangelho” constituiu um ataque em toda a regra do evangelho autêntico, e uma negação clara de Cristo.

Não surpreende que Paulo definisse aos que ensinavam deste modo “falsos irmãos”:

 

4   E isto por causa dos falsos irmãos que se tinham entremetido, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;



5   Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.

 

Paulo tinha afirmado, no primeiro capítulo, que os falsos irmãos “os perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (vers. 7). Em sua carta às igrejas, apóstolos e anciãos, disse deles: “Nós soubemos que sem nossa autorização, alguns nos deixaram, e perturbaram e têm turvado seu ânimo com suas palavras”  (Atos 15:24).



Posteriormente continuaram havendo muitos mais daquela classe. Tão negativa era sua obra, que o apóstolo afirmou que todo aquele que a ela se entregasse: “seja condenado” (ver Gál. 1:8 e 9). Esses pregadores estavam procurando, de forma deliberada, minar o evangelho de Cristo, e destruir deste modo os crentes.

Os falsos irmãos estavam dizendo: “Se não os circuncidais de acordo com o rito de Moisés, não podeis ser salvos” (literalmente: não tens poder para ser salvos). Degradavam a salvação ao nível de algo meramente humano, algo dependente do poder humano. Eles não sabiam em que realmente consiste a circuncisão: “Não é judeu o que é exteriormente, nem é circuncisão o que faz exteriormente, na carne, pelo contrário, o verdadeiro judeu é o que o é em seu interior, e a verdadeira circuncisão é a do coração, por meio do Espírito, não em palavra. Este recebe elogio, não dos homens, mas de Deus” (Rom. 2:28 e 29).

Depois de ter confiado em Deus, Abraão deu ouvidos em certa ocasião à voz de Sara, em vez de ouvir ao Senhor, e tentou cumprir as promessas de Deus por meio do poder de sua própria carne (Gên. 16). O resultado foi o fracasso: em vez de obter um herdeiro, obteve um escravo. Deus lhe apareceu então novamente, exortando-lhe a que caminhasse diante dEle com coração íntegro, e lhe repetiu seu pacto. A fim de que se lembrasse do fracasso, e o fato de que “a carne nada aproveita”, Abraão recebeu o selo da circuncisão, o despojamento de uma porção da carne. Isso havia de mostrar que, desde que na carne “não habita o bem”, as promessas de Deus podem ser feitas em realidade quando “nos despojamos dos pecados” (Col. 2:11), por meio do Espírito. “Nós somos a verdadeira circuncisão, nós que adoramos de acordo com o Espírito de Deus, e não confiamos na carne” (Fil. 3:3).

Então, quando Abraão recebeu o Espírito pela fé em Deus, verdadeiramente foi circuncidado. “E receberam a circuncisão por sinal, como selo da justiça pela fé que teve quando era incircunciso” (Rom. 4:11). A circuncisão externa jamais foi outra coisa que um mero sinal externo da autêntica circuncisão do coração. Se esta última faltava, o sinal era uma fraude; mas se a circuncisão autêntica era uma realidade, então fazia sentido o sinal externo. Abraão é o “pai de todos os que acreditam, embora não sejam circuncidados” (Rom. 4:11). Os falsos irmãos estavam tentando substituir a realidade pelo símbolo vazio. Para eles contava a casca da noz mais que a noz sem casca.

Jesus disse: “O Espírito é o que dá vida, a carne nada aproveita. As palavras que vos tenho falado são espírito e vida” (João 6:63). Os irmãos de Antioquía e Galácia tinham confiado em Cristo para a salvação; agora, alguns tentaram os induzir a confiar na carne. Não lhes falaram que eles estavam em liberdade para pecar, isso não, eles lhes falaram que tinham de guardar a lei! Mas eles teriam que guardar por eles mesmos; teriam que se fazer justos à eles mesmos, sem Jesus Cristo. A circuncisão significava guardar a lei. Mas a circuncisão autêntica era a lei escrita no coração pelo Espírito, e os falsos irmãos buscaram os crentes para confiar na forma externa da circuncisão, por via de substituto do trabalho do Espírito. Aquilo que tinha sido provido como sinal da justiça que vem pela fé, se tornou um sinal da Justiça própria. A pretensão dos falsos irmãos era que se circuncidassem para ser justificados e salvos. Mas “com o coração se crê para ser justificado” (Rom. 10:10), e “tudo aquilo que não vem da fé, é pecado” (Rom. 14:23). Por conseguinte, os esforços do homem para guardar a lei de Deus por meio do próprio poder, pouco importa quão ferventes e sinceros possam ser, terão um único resultado: a imperfeição, o pecado.

Quando essa questão foi levantada em Jerusalém, Pedro disse aos que pretendiam que os homens se justificavam por suas próprias obras, em vez de fazê-lo pela fé em Cristo: “Agora pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais, nem nós pudemos levar”? (Atos 15:10).

Era um jugo de escravidão, como mostram as palavras de Paulo para os falsos irmãos que “encobertos entraram para espiar a liberdade que nós temos em Cristo Jesus, para reduzir-nos a escravidão” (Gál. 2:4). Cristo liberta do pecado. Sua vida é “a Lei perfeita – da liberdade ". “Pela Lei se alcança o conhecimento do pecado” (Rom. 3:29), mas não a libertação (liberação) do pecado. “A Lei é santa, e o Mandamento santo, justo e bom” (Rom. 7:12), já que provê o conhecimento do pecado e o condena. É como um indicador que nos informa o endereço correto, mas não nos leva para o lugar. Pode nos fazer saber que não estamos no caminho certo, mas Jesus Cristo somente pode fazer que andemos nele, já que Ele é o caminho. O pecado é escravidão. Só os que mantêm os Mandamentos de Deus estão em liberdade (Sal. 119:45), e só é possível guardar os Mandamentos pela fé em Cristo (Rom. 8:3 e 4).

Portanto, o que induz as pessoas a confiar na lei para obter justiça sem Cristo, está pondo-os um jugo, aprisionando-os em escravidão. Quando um condenado de acordo com a lei é encarcerado, não pode achar libertação das prisões por essa mesma lei que o condenou. Mas isso não implica que haja na lei imperfeição. É precisamente por tratar-se de uma lei justa, que não declarará inocente ao que é culpado.

O apóstolo relata que enfrentou o falso ensino que estava agora desviando aos irmãos da Galácia “de forma que a verdade do evangelho permanecesse” com eles. É de ponto todo evidente que a epístola aos gálatas contém o evangelho em sua mais pura expressão. Muitos tem compreendido mal e não obtêm proveito algum, pensam que é simplesmente uma contribuição a mais “as contenções e aos debates sobre a lei” (Tito 3:9) contra os que o mesmo Paulo preveniu.

 

6   E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que me pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;



7   Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão

 

De acordo com Atos, em Antioquía se tomou a determinação de que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem para Jerusalém, com relação ao tópico debatido. Mas Paulo afirma que era “para uma revelação” (Gál. 2:2). Não só era para a recomendação dos irmãos, mas o mesmo Espírito o moveu a isto, a ele e a eles. Não foi com o propósito de aprender a verdade, mas para salvaguardá-la. Não se tratava de descobrir em que consistia o evangelho, mas comunicar o evangelho que estavam pregando entre os pagãos. Os que pareciam importantes naquela assembléia, não lhe acrescentaram nada. Paulo não recebeu o evangelho de nenhum homem, e não precisava do testemunho de qualquer homem para estar seguro da autenticidade do mesmo. Quando é Deus quem fala, a confirmação buscada, por parte de um homem, constitui uma impertinência. O Senhor dispôs que os irmãos em Jerusalém ouvissem o testemunho de Paulo, e que os que recentemente tinham se convertido, souberam que os que Deus havia enviado falaram as palavras de Deus, e portanto, todos falaram a mesma coisa. Depois de afastarem-se dos “muitos chamados deuses” para servir ao único Deus, eles precisavam ter a segurança de que a verdade é uma só, e um só o evangelho para todos os homens.



 

O evangelho não é superstição - Nada há neste mundo capaz de conferir graça e justiça ao ser humano, e nada há que o homem possa fazer, que traga salvação. O evangelho é poder de Deus para salvação, não o poder do homem. Qualquer ensino que induz o homem a confiar num objeto que seja, uma imagem de um quadro ou qualquer outra coisa, ou ainda confiar em qualquer esforço, no próprio trabalho para a salvação, mesmo que tal esforço vá dirigido para a mais louvável das metas, é uma perversão da verdade do evangelho. É um falso evangelho. Na igreja de Cristo não há sacramentos que, em virtude de certa operação mágica, confira graça especial a quem os recebe. Porém, haverá obras que aquele que crê no Senhor Jesus Cristo, e portanto, é justificado e salvo, fará como uma expressão de sua fé. “Pela graça haveis sido salvos, através da fé. E isto não vem de vós, mas é Dom de Deus. Não por obras, de forma que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, que Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Efe. 2:8-10). Essa é “a verdade do evangelho” que Paulo defendeu. É o evangelho para todos os tempos.

 

Não há monopólio da verdade - Nenhum homem, nenhum corpo de homens, tem nesta terra o monopólio da verdade. Não existe um canto ou lugar para onde devam ir aqueles que desejam conhecê-la, para recebê-la das mãos de outros homens. A verdade é independente do ser humano. Vem de Deus, porque Cristo que é o esplendor da glória  e a mesma imagem do ser real (Heb. 1:3), é a verdade (João 14:6). Quem queira obter a verdade, obterá de Deus, e não do homem. Assim como Paulo recebera o evangelho. Deus pode usar, e usa, seres humanos como instrumentos ou canais, mas só Ele é o doador. Nem o nome nem o número significam qualquer coisa, para efeito de determinar o que é a verdade. Não é mais poderosa, nem deveriamos aceitá-la melhor ao ser apresentada por dez mil príncipes, que quando um simples e humilde operário a sustêm. E não há a menor razão para supor que devam ser os dez mil príncipes quem tenham de possuí-la, antes que o humilde obreiro. Todo homem na terra pode possuir tanto da verdade como esteja disposto a usar, e não mais (ver João 7:17; 12:35 e 36). O que atua como um papa, acreditando possuir o monopólio da verdade, e compele aos demais que o ajudem a encontrá-la, concede isto aqui e retém isto lá, perde a totalidade da verdade que uma vez poderia possuir (se é que em algum momento teve algo dela). A verdade e o espírito papal jamais podem coexistir. Nenhum papa, nenhum homem com disposição papal, tem a verdade. Tão logo receba a verdade, deixa de ser papa. Se o papa de Roma se convertesse e se tornasse discípulo de Cristo, naquela mesma hora estaria desocupado o assento papal.



Assim como não há homem que possua o monopólio da verdade, tampouco há lugares a que se deva ir, (além da bíblia), os que a procuram, a fim de achá-la. Os irmãos de Antioquía não precisavam ir a Jerusalém para aprender a verdade, ou para descobrir se o que possuíam era artigo genuíno. Pelo fato de que a verdade tenha sido primeiramente proclamada em um certo lugar, não implica que só ali seja possível encontrá-la. De fato, os últimos lugares no mundo onde a pessoa pode esperar encontrar ou aprender a verdade, são precisamente as cidades em que o evangelho foi proclamado primeiramente nos primeiros séculos da era Cristã: Jerusalém, Antioquía, Roma ou Alexandria.

O papado surgiu em parte dessa maneira. Se assumiu que os lugares onde os apóstolos, ou alguns deles, tinham pregado, deveriam possuir a verdade em sua pureza, e que todos os mortais teriam que obtê-la de lá. Era igualmente o propósito determinado que os da cidade deveriam conhecer melhor que os do ambiente rural. Deste modo, dentre todos os bispos que tinham ocupado um lugar de igualdade no princípio, aconteceu logo que 'os bispos do campo' (chorepiscopoi) se consideraram secundários em relação aos que oficiavam nas grandes cidades. Uma vez que este espírito tomou força, o passo seguinte foi necessariamente uma disputa entre os próprios bispos das cidades, para deixar claro quem seria o maior. Essa briga ímpia continuou até que Roma ganhou a preeminência desejada.

Mas Jesus nasceu em Belém, “pequena entre as milhares de Judá” (Miq. 5:2), e passou quase toda sua vida em uma população pequena cuja ”reputação” era tal, que alguém nascido nela ficava merecedor de comentários assim: “De Nazaré pode sair algo bom?” (João 1:45-47). Jesus fez mais tarde sua habitação na próspera cidade de Cafarnaum, mas foi conhecido sempre como “Jesus de Nazaré”. O céu não está mais longe do povoado mais insignificante, ou até da choça mais solitária, que da maior cidade, ou do palácio episcopal mais rico. Deus, “o Sublime e Excelso, o que habita a eternidade, e cujo nome é Santo, habita com o pobre e humilde de espírito” (Isa. 57:15).

 

As aparências enganam - Deus olha o que o homem é, não o que aparenta ser. O que aparenta ser depende em grande medida dos olhos que o contemplam; o que realmente é, demonstra a medida do poder e a sabedoria de Deus que há nele. Deus não se inclina ante a posição oficial. Não é a posição o que confere autoridade, e sim a autoridade que dá a autêntica posição. Não poucos homens humildes, sem posições nesta terra, carentes de todo reconhecimento oficial, ocuparam posições realmente superior, e de maior autoridade que a de todos os reis da terra. A autoridade advém da presença de Deus na alma, livre de restrições.



 

8   (Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão esse operou também em mim com eficácia para com os gentios),

 

A palavra de Deus é viva e eficaz (Heb. 4:12). Seja qual for a atividade no trabalho do evangelho, tudo quanto se faz vem de Deus. Jesus “andava fazendo o bem” porque “Deus estava com ele” (Atos 10:38). Ele mesmo dissera: “de mim mesmo nada posso fazer” (João 5:30), “o Pai que vive em mim, Ele faz as obras” (João 14:10). Deste modo, Pedro se referiu a Ele como “varão aprovado entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou por meio dEle” (Atos 2:22). Não é maior o discípulo que seu Senhor. Paulo e Barnabé, então, na Assembléia de Jerusalém, contaram as grandes maravilhas e sinais que Deus tinha feito por meio deles entre os pagãos” (Atos 15:12). Paulo afirmou que ele tinha feito um esforço para “apresentar a todo o homem perfeito em Cristo”, “lutando com a força de Cristo que age poderosamente em mim” (Col. 1:28 e 29). Os mais humildes crentes podem possuir aquele mesmo poder, “porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a  sua boa vontade” (Fil. 2:13). O nome de Jesus é Emanuel: “Deus conosco”.(Dios  Deus com Ele lhe fez com que andasse fazendo o bem. Mas Deus é inalterável; então, se tivermos verdadeiramente a Jesus – Deus conosco –, andaremos também fazendo o bem.



 

9   E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que se me havia dado, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles, à circuncisão;

10  Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.

 

Os irmãos, em Jerusalém, demonstraram sua comunhão com Deus e viram “a graça que” tinha sido dada a Paulo. Os que são guiados pelo Espírito de Deus sempre estarão prontos a reconhecer o trabalho do Espírito Santo nos outros. A evidência mais segura de que alguém não conhece pessoalmente nada do Espírito Santo é a inabilidade em reconhecer sua obra. Os outros apóstolos tiveram o Espírito Santo, e apreciaram como Deus tinha escolhido Paulo para um trabalho especial entre os pagãos; e embora sua forma de trabalhar fosse diferente da deles, Deus havia lhe concedido dons especiais para esse trabalho especial e não duvidaram em estender-lhe sua mão direita, em sinal de companheirismo, só lhe pedindo que se lembrasse dos pobres entre seu próprio povo, “no que (foi) também solícito em cumprir”.



 

Perfeita unidade - Notemos que não existia diferença de opinião entre os apóstolos, nem na igreja, com respeito ao que era o evangelho. Havia falsos irmãos, é certo; mas desde que eram falsos, não eram parte da igreja, o corpo de Cristo, que é a verdade. Muitos professos cristãos, pessoas sinceras, supõem que constitui pouco menos que uma necessidade em que haja diferenças na igreja. 'Todos não podem ver as coisas da mesma maneira', é o comentário freqüente. Interpretam mal Efésios 4:13, deduzindo que Deus nos concedeu dons “até que todos cheguemos à unidade da fé”. Mas o ensino da Palavra é que “na unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus”, cheguemos “a um estado perfeito, na maturidade da plenitude de Cristo”. Há apenas “uma fé” (Vers. 5), a fé de Jesus. Como também há um só Senhor, e aqueles que careçam dessa fé, necessariamente estarão desprovidos de Cristo.

A Palavra de Deus é  Verdade, e sua Palavra é luz. Só um homem cego pode deixar de apreciar o esplendor da luz. Embora um homem não tenha conhecido qualquer outro tipo de luz artificial, exceto a que vem de uma luminária, reconhecerá imediatamente que é luz o que emite uma lâmpada elétrica que lhe é mostrada pela primeira vez. Está claro que há graus diversos de conhecimento, mas não há nenhuma controvérsia entre os graus de conhecimento. A verdade inteira é uma.

 

11  E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.



12  Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e, se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão.

13  E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela dissimulação deles.

 

Não é necessário estender-se nos enganos de Pedro, nem de qualquer outro homem piedoso. Não há nenhum lucro nisto. Mas deveríamos prestar atenção àquele teste irrefutável como que Pedro nunca foi considerado como “o principal dos apóstolos', e que nunca foi, nem se teve, por papa. Que se atreva um padre, bispo ou cardeal a 'resistir cara a cara' ao papa, ante uma assembléia pública!



Mas Pedro cometeu um erro, e fez isto com relação a um assunto vital, pela razão que não era infalível. Aceitou com mansidão a repreensão que Paulo o dirigiu; aceitou isto como cristão sincero e humilde que era. A vista do relato, se é que devesse existir uma coisa tal como uma cabeça visível (humana) da igreja, essa honra deveria ter correspondido a Paulo evidentemente, e não a Pedro. Paulo foi enviado aos pagãos, e Pedro aos judeus; mas estes últimos constituíam uma parte muito pequena da igreja. Os convertidos gentios os superaram depressa em número, de forma que a presença de crentes de origem judia apenas se fazia notar. Todos os cristãos eram em grande medida fruto das obras de Paulo, para quem se dirigiam de modo natural os olhares, mais que para os outros discípulos. É por isto que Paulo poderia dizer que nele pesava “diariamente, a preocupação por todas as igrejas” (2 Cor. 11:28). Mas a infalibilidade não é a porção de qualquer ser humano, e nem Paulo a buscou. O maior na igreja de Cristo, não tem domínio sobre o mais fraco. Jesus disse: “Um é vosso mestre, e todos vós sois irmãos” (Mat. 23:8). E Pedro nos exorta a estar “todos submissos um ao outro” (1 Ped. 5:5).

Quando Pedro estava na Assembléia de Jerusalém, ele referiu a forma em que os pagãos tinham recebido o evangelho por meio de sua pregação: “Deus, que conhece os corações, os reconheceu dando-lhes o Espírito Santo assim como a nós. Nenhuma diferença fez entre nós e eles, porque pela fé purificou seus corações” (Atos 15:8 e 9). Por que? Porque conhecendo os corações, souberam que todos pecaram, e estão privados da glória de Deus”, então, só poderiam ser justificados gratuitamente pela graça, por meio da redenção realizada por Cristo Jesus” (Rom. 3:23 e 24). Porém, depois que o Senhor tinha dado prova dele ante os olhos de Pedro – depois que este tinha pregado aos pagãos e depois de ter testemunhado a concessão do dom do Espírito Santo para os crentes gentios, tanto quanto aos judeus; depois de ter comido com eles e de tê-los defendido fielmente; depois de ter dado um testemunho firme na Assembléia sobre aquele Deus que não fez diferença entre judeus e gentios; e inclusive depois de não ter feito diferença ele mesmo –, Pedro, de repente, tão logo como “viessem alguns” que ele supôs não aprovariam uma tal liberdade, começou a fazer diferença! ”Se retirou e partiu, por temor aos circuncidados”. Isso era ”simulação”, “hipocrisia”, como disse Paulo, e não só era ruim em si mesmo, mas confundiria e desviaria os discípulos. Pedro estava naquela ocasião controlado pelo temor, e não pela fé.

 

Contrário a verdade do evangelho - A onda de medo parecia também alcançar os crentes judeus, desde que “os outros crentes judeus participaram de sua simulação, tanto que até Barnabé foi levado pela hipocrisia deles”. Certamente, “não caminharam justamente de acordo com a verdade do evangelho” (Vers. 14); mas o simples ato da simulação não era a totalidade da ofensa contra a verdade do evangelho. Naquele contexto significou uma negação pública de Cristo, tanto quanto foi naquela outra ocasião quando Pedro, debaixo da pressão súbita do medo, caiu em tentação. Temos freqüentemente caído no mesmo erro como meninos, para nos erguermos como juizes, mas podemos observar o fato e suas conseqüências  como advertência.



 

14   Mas, Quando vi que não andavam bem corretamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro, na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?

 

Observe como a ação de Pedro e os que o acompanharam eram uma virtual – embora não deliberada – negação de Cristo. Uma controvérsia sobre a circuncisão tinha tomado lugar há pouco. Era uma pergunta de justificação e salvação: o homem se salva somente pela fé em Cristo, ou pelas formas externas? O testemunho era inequívoco, no sentido de que a salvação é pela fé somente. E agora, estando ainda viva a controvérsia, estando ainda os “falsos irmãos” propagando seus erros, esses irmãos leais começaram a fazer discriminação em prejuízo dos crentes gentios, devido a não estarem circuncidados. De fato, eles estavam falando: “Se você não se circuncidar de acordo com o rito de Moisés, não te salvarás”. Sua forma de ação dizia: 'Nós também questionamos o poder de que somente a fé em Cristo pode salvar os homens. Realmente acreditamos que a salvação depende da circuncisão e das obras da lei. A fé em Cristo é boa, mas é necessário fazer algo mais. Ela mesma não é suficiente'. Paulo não pôde consentir com tal negação da verdade do evangelho, e foi sem rodeios à raiz do problema.



 

15   Nós somos judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios.

16   Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificadoa.

 

Queria Paulo dizer que por serem judeus não eram pecadores? Impossível, pois tinham acreditado em Jesus Cristo para serem justificados. Simplesmente, eram pecadores judeus, não pecadores gentios. Seja do que for que pudessem se gloriar como judeus, tiveram que reputar como perda por causa de Cristo. Não havia nada que lhes valesse, exceto a fé em Cristo. E sendo deste modo, é evidente que os pecadores gentios também pudessem ser salvos diretamente pela fé em Cristo, sem ter que se seguir pelas formalidades vazias que não tinham sido útil aos judeus, e que lhes foram dadas, em grande medida, devido à sua incredulidade.



"Palavra fiel e digna de ser recebida por todos, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tim. 1:15). Todos pecaram, e são igualmente culpados perante Deus. Mas todos, da raça ou classe que sejam, podem aceitar esta verdade: “Recebe aos pecadores, e come com eles" (Luc. 15:2). Um pecador circuncidado não é melhor que um incircunciso. Um pecador que é membro da igreja não é melhor que um que não é. O pecador que passou pela forma do batismo não é melhor que o pecador que nunca fez profissão de religião. Pecado é pecado, e os pecadores são pecadores, dentro ou fora da igreja. Mas, graças a Deus, Cristo é o sacrifício pelos nossos pecados, tanto quanto pelos pecados do mundo inteiro (1 João 2:2). Há esperança para o infiel que faz profissão de religião, como também para aquele que nunca invocou o nome de Cristo. O mesmo evangelho que é pregado para o mundo, deve ser pregado na igreja, pois não há mais que um evangelho. É útil tanto para converter os pecadores no mundo, como aos membros da igreja. E ao mesmo tempo, renova os que estão verdadeiramente em Cristo.

O significado da palavra “justificado” é “feito justo”. Deriva do latim justitia. Ser é ser reto. A isso somamos a terminação ficar, também do latim, significando “fazer”. Magnificar: fazer grande. Dignificar: fazer digno, etc. Justificar: fazer justo.

Em alguns casos aplicamos o termo “justificar” ao que é inocente de um fato que é acusado injustamente. Mas o tal não precisa de justificação, posto que já é justo. Agora, desde que “todos pecaram”, não há nenhum justo – ou reto – perante Deus. Então, todos necessitam ser justificados, ou feito justos.

A lei de Deus é justiça (ver Rom. 7:21; 9:39 e 31, Sal. 119:172). Paulo apreciou tanto a lei, que acreditou em Cristo para obter a justiça que ela exige, mas que por si mesma é incapaz de proporcionar: “O que era impossível à Lei, visto como estava enferma pela carne; Deus ao enviar seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e como sacrifício pelo, condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas de acordo com o Espírito” (Rom. 8:3 e 4). A lei que declara pecadores a todos os homens, só poderia justificá-los afirmando que o pecado não é pecado. Mas isso não seria justificação, mas contradição.

Então, anulamos lei? Os que persistem no pecado fariam com alegria, porque é uma lei que os declara culpados. Mas é impossível abolir a lei de Deus, já que a mesma é a vida e caráter dEle. “Deste modo, a Lei é santa,  e o Mandamento santo, justo e bom” (Rom. 7:12). Ao ler a lei escrita, vemos ali nosso dever claramente especificado. Mas não temos cumprido. Portanto, somos culpados.

Também, ninguém possui a força necessária para guardar a lei, devido à magnitude das exigências. Embora seja certo que ninguém pode ser justificado pelas obras da lei, não é porque a mesma lei está defeituosa, mas porque o indivíduo está. Quando Cristo mora no coração pela fé, a justiça da lei mora também ali, porque Cristo disse: “Deus Meu, me deleito em fazer tua vontade, a tua Lei está em meu coração” (Sal. 40:8). Quem descarta a lei, porque esta não considera o mal como se fosse bem, também rejeita a Deus “que de nenhum modo terá por inocente ao culpado” (Êxo. 34:7). Mas Deus remove a culpa e converte o pecador em justo; quer dizer, coloca-o em harmonia com a lei. A lei que antes o condenava, dá agora testemunho de sua justiça (ver Rom. 3:21).

Perdemos muito se não aceitamos a Escritura tal como é. No original, o verso 16 contém a expressão “fé de Jesus”, igual a que encontramos em Apocalipse 14:12. Jesus é o “autor e consumador da fé” (Heb. 12:2). “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rom. 10:17). No dom de Cristo à todo homem, achamos “a medida de fé que Deus repartiu a cada um” (Rom. 12:3). Tudo vem de Deus. É Ele quem concede o arrependimento e perdão dos pecados.

Então, ninguém pode reclamar por ter uma fé débil. Talvez não haja aceitado nem usado o dom, mas não existe algo como “fé débil”. A pessoa pode ser “débil na fé”, pode temer apoiar-se na fé. Mas a fé, nela, é tão firme quanto a Palavra de Deus. Não existe outra fé diferente da fé de Cristo. Qualquer outra coisa que pretenda sê-lo, é uma falsificação. Só Cristo é justo. Ele tem vencido o mundo, e só Ele tem poder para fazer isto. NEle habita toda a plenitude de Deus, já que a lei está em seu coração. Somente Ele guardou e pode guardar a lei em sua perfeição. Então, somente por sua fé – a fé viva –, quer dizer, sua vida em nós, podemos ser feito justos.

Isso é plenamente suficiente. Ele é a “pedra provada” (Isa. 28:26). A fé que nos dá é a sua própria, provada e aprovada. Não nos falhará em qualquer circunstância. Não somos exortados a que tentemos fazer também como Ele fez, nem que tentemos exercer tanta fé quanto Ele exerceu, mas simplesmente tomemos sua fé, e permitamos que trabalhe por amor, e purifique o coração. Ele fará!

"A todos os que o receberam, aos que creram em seu Nome, lhes deu o poder de serem Filhos de Deus” (João 1:12). Os que o recebem são os que crêem em Seu nome. Crer em seu nome é acreditar que Ele é o Filho de Deus. E isso, por sua vez, significa crer que tenha vindo na  carne, em carne humana, em nossa carne. Assim deve ser, pois seu nome é “Deus conosco”.

Crendo em Cristo, somos justificados pela fé de Cristo, desde que nós o tenhamos morando pessoalmente em nós, exercendo sua própria fé. Em suas mãos está todo o poder, no céu e na terra. Reconhecendo isto, simplesmente permitimos que possa exercer seu próprio poder, de seu próprio modo. Cristo é poderoso para fazê-lo ”infinitamente mais que tudo quanto pedimos ou pensamos, pelo poder que opera em nós” (Efe. 3:20).

 

17   Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma.

 

Jesus Cristo é o Santo e o Justo (Atos 3:14). “Cristo veio para remover nossos pecados” (1 João 3:5). Ele não só “não cometeu pecado” (1 Ped. 2:22), mas que não conheceu pecado (2 Cor. 5:21). Então, é impossível que algum pecado venha dEle. Cristo não dá o pecado. No manancial de vida que flui de seu lado ferido, de seu coração traspassado, não há nenhum vestígio de impureza. Ele não é ministro de pecado: não ministra o pecado a ninguém.



Se alguns que procuraram – e acharam – a justiça por meio de Cristo, pecam mais tarde, é porque obstruíram a corrente, fazendo que se estanque a água. Não deram livre curso à Palavra, de forma que resultem glorificados. E onde falta a atividade, a morte aparece. Não é necessário acusar qualquer pessoa por isso, a não ser a própria pessoa. Que nenhum professo cristão tome conselho das próprias imperfeições e diga que é impossível que o crente viva uma vida sem pecado. Para um verdadeiro cristão, para aquele que tenha fé plena, o que é impossível é viver outra classe de vida, “porque nós que estamos mortos para o pecado, como ainda viveremos nele”? (Rom. 6:2). “Todo o que é nascido de Deus não continua pecando, porque a vida de Deus está nele. Não pode continuar pecando, porque nasceu de Deus” (1 João 3:9). Portanto, “permaneça nEle”.

 

18   Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor.

 

Se um cristão derruba – descarta – seus pecados por meio de Cristo, para reedificá-los depois, é constituído novamente em transgressor; está novamente em falta e necessidade de Cristo.



É necessário lembrar que o apóstolo está se referindo aos que acreditaram em Jesus Cristo, que foram justificados pela fé de Cristo. Paulo diz em Romanos 6:6: “Nosso velho homem foi crucificado junto com ele, de forma que o corpo do pecado seja destruído, para que não sejamos mais escravos do pecado”. Também lemos: “Vós estais completos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade. Nele também fostes circuncidados uma circuncisão feita sem mão, ao despojares do corpo dos pecados, por meio da circuncisão feita por Cristo” (Col. 2:10 e 11).

O que fica destruído é o corpo do pecado, e é só a presença pessoal da vida de Cristo que o destrói. Faz isto com o propósito de livrar-nos do poder do pecado, e de impedir que o tenhamos de servir novamente. É destruído para todos, desde que Cristo aboliu na própria carne “a inimizade”, a mente carnal. Não a sua – pois nunca a teve -, mas a nossa. Levou nossos pecados, nossas fraquezas. Obteve a vitória para toda a alma; o inimigo ficou desarmado. Temos que aceitar a vitória que Cristo ganhou. A vitória sobre todo pecado já é uma realidade. Nossa fé nisto, o converte em realidade para nós. A perda da fé nos coloca fora daquela realidade, e reaparece o velho corpo dos pecados. Aquilo que a fé demoliu, é reedificado pela incredulidade. É necessário lembrar que aquela destruição do corpo dos pecados, embora já realizada por Cristo a todos, pertence ao presente, em cada um como indivíduo.

 

19   Porque eu pela lei estou morto para a lei, para viver para Deus.

 

Muitos parecem supor que a frase “morto para a Lei” significa a mesma coisa que 'morra a lei'. São coisas absolutamente diferentes. A lei deve estar em toda sua força para que alguém possa morrer por ela. Como alguém pode estar “morto para a lei”? Recebendo a plenitude de sua penalidade, que é a morte. O indivíduo está morto, mas a lei que o condenou é tão efetiva e disposta condenar à morte outro criminoso, como o fez com o primeiro. Vamos agora supor que a primeira pessoa executada por cometer grandes crimes, de algum modo milagroso possa ser devolvida à vida. Não estaria morta à lei? Certamente. A lei não lhe poderia então reprovar nenhum de seus atos passados. Mas, se cometesse crimes novamente, violando a lei, esta voltaria a executá-lo, como se fosse outra pessoa. Ressuscito da morte que – devido a meu pecado – me impôs a lei, e agora entro em “novidade de vida”: estou vivo para Deus. Como se pode dizer de Saul nos primeiros dias, o Espírito de Deus me “mudou em outro homem” (1 Sam. 10:6). Tal é a experiência do cristão, como demonstra o próximo versículo:



 

20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

 

A menos que sejamos crucificados com Ele, sua morte e ressurreição não nos aproveitará em nada. Se a cruz de Cristo permanece longe e fora de nós, mesmo que só por um momento, ou pela espessura de um fio de cabelo, para nós é como se não houvesse sido crucificado. Quem quiser ver a Cristo crucificado, não deve olhar atrás ou para adiante, mas para cima; uma vez que os braços da cruz levantada no Calvário alcançam desde o Paraíso perdido até o Paraíso restaurado, e alcançam todo o mundo de pecado. A crucificação de Cristo não é algo restrito a um só dia. Cristo é o “Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo” (Apoc. 13:8). As angústias do Calvário não cessarão enquanto houver um único pecado ou pecador. Agora mesmo Cristo está levando os pecados do mundo inteiro, pois “todas as coisas subsistem nEle”. E quando finalmente se vê obrigado a enviar ao lago de fogo os malvados impenitentes, a angústia que sofrerão não será maior que a que sofreu na cruz o Cristo que rejeitaram.



Cristo levou nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro (1 Ped. 2:24). Foi feito “maldição” por nós, quando pendurado na cruz (Gál. 3:13). Na cruz, não somente levou as enfermidades e o pecado da humanidade, mas também a maldição da terra. Os espinhos são um estigma da maldição (Gên. 3:17 e 18), e Cristo levou a coroa de espinhos. Cristo, Cristo crucificado, leva todo o peso da maldição.

Onde quer que vejamos um ser humano perdido na miséria, levando as cicatrizes do pecado, também temos de ver a Jesus crucificado por ele. Cristo na cruz leva tudo, incluindo os pecados desse ser humano. Devido a sua incredulidade, pode ser que sinta o peso lastimoso de sua carga. Mas se crê, pode ser livrado deste peso. Cristo leva, na cruz, os pecados do mundo inteiro. Então, onde vemos pecado, podemos estar seguros de que lá está a cruz de Cristo.

O pecado é uma questão pessoal. Está no coração do homem. “De dentro, do coração dos homens, saem os maus pensamentos, adultérios, fornicações, homicídios, roubos, avareza, maldade, decepção, hábitos ruins, inveja, fofocas, arrogância, loucura; todas essas maldade saem de dentro, e contaminam o homem” (Mar. 7:21-23). “Enganoso é o coração mais que todas as coisas, e perverso, quem o conhecerá”? (Jer. 17:9). O pecado está, por natureza, em cada fibra de nosso ser. Somos nascidos nele, e nossa vida é pecado, de forma que não é possível extirpar o pecado sem tirarmos também a vida nele. O que preciso é libertação de meu próprio pecado pessoal: não só aquele pecado que tenho cometido pessoalmente, mas também o que mora no coração, o pecado que constitui o todo em minha vida.

Sou eu quem comete o pecado, cometo em mim mesmo, e não posso separá-lo de mim. Devo colocá-lo sobre o Senhor? Sim, é deste modo, mas como? Posso juntá-lo em minhas mãos e lançá-lo fora de mim, de forma que seja Ele quem o leve? Se pudesse separa-lo de mim, no mínimo que fosse, então seria salvo, seja onde for que o pecado vá parar, desde que não se encontrasse em mim. Nesse caso poderia prescindir de Cristo, pois se não encontrasse pecado em mim, pouco importaria onde se encontrasse, estaria livre dele. Mas nada que eu faço pode salvar-me. Todos os meus esforços para separar-me do pecado são vãos.

O que estudamos anteriormente revela que quem queira levar meus pecados, têm que vir até onde eu estou, deve vir a mim. É exatamente isso que Cristo faz. Cristo é a Palavra, e diz à todos os pecadores que pretendem desculpar-se alegando que não têm como saber o que Deus requer deles: “A palavra vos está muito próxima, em sua boca e em seu coração, para que a cumpras” (Deut. 30:11-14). Ainda: “Se com vossa boca confessais que Jesus é o Senhor, e em vosso coração acreditais que Deus o ergueu dos mortos, serás salvo” (Rom. 10:9). Que confessaremos sobre o Senhor Jesus? Confesse a verdade, admita que Ele está muito perto de você, em sua boca e em seu coração, e crê que aí está, ressuscitado dos mortos. O Salvador ressuscitado é o Salvador crucificado. Tanto quanto a Cristo ressuscitado, achamos a Cristo crucificado. Caso contrário, não haveria esperança para ninguém. A pessoa pode acreditar que Cristo foi crucificado há dois milênios atrás, e ainda assim morrer em seus pecados. Mas aquele que crê que Cristo está nele crucificado e ressuscitado, tem a salvação.

Tudo quanto tem que fazer qualquer ser humano para ser salvo, é crer na verdade; quer dizer, reconhecer os atos, ver as coisas da forma como realmente são, e confessá-las. Todo aquele que crê que Cristo está nele crucificado e ressuscitado, que mora nele pelo poder da ressurreição, é salvo do pecado. Estará salvo enquanto crê. Esta é a única e verdadeira confissão de fé.

Que verdade gloriosa, que lá onde o pecado abundou, lá está Cristo, o Salvador do pecador. Ele leva o pecado, todo o pecado, o pecado do mundo.

No décimo capítulo de Romanos, como já foi dito, vemos a Cristo vindo a todo homem por meio do Espírito, “nosso pronto auxilio nas tribulações” (Sal. 46:1). Vem ao pecador para proporcionar-lhe todo o incentivo e facilidade para que volte do pecado para a justiça. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Não há outra vida, a não ser a Sua. Mas embora Cristo venha a todo o homem, nem todo homem manifesta a justiça dEle, porque alguns “suprimem a verdade com sua injustiça” (Rom. 1:18).

O inspirado anelo de Paulo é que possamos ser fortalecidos no homem interior por seu Espírito, “que habite Cristo pela fé em vosso coração”, “de forma que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Efe. 3:16-19).

No pecador podemos ver a Cristo crucificado, já que onde havia pecado e maldição, está Cristo levando-o. Tudo que é necessário é que o pecador seja crucificado com Cristo, que permita que a morte de Cristo seja sua própria morte, a fim de que a vida de Jesus possa manifestar-se em sua carne mortal. A fé no eterno poder e divindade de Deus, que se mostram em toda a criação, colocará essa verdade ao alcance de todos. A semente semeada, não germina ”se não morrer” antes (1 Cor. 15:36). “Se o grão de trigo não cai na terra e morre, está só. Mas ao morrer, leva muito fruto” (João 12:24). Assim, quem é crucificado com Cristo que comece a viver como um novo homem. “Já não vivo eu, mas Cristo vive em mim”.

Se Cristo foi crucificado a uns dois mil anos atrás, como então pode assumir sobre si meus pecados pessoais hoje? E também, como eu posso ser crucificado agora junto com Ele? Pode ser que não possamos entender, mas isso não altera a veracidade do fato. Quando lembramos que Cristo é a vida, “porque a Vida que estava com o Pai, se manifestou” (1 João 1:2), podemos entender mais que isto. “A vida estava nele, e essa vida era a luz dos homens”. “Aquele Verbo era a verdadeira Luz, que ilumina todo o homem que vem a este mundo” (João 1:4, 9).

A carne e o sangue (o que os olhos vêem) não podem revelar a “Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mat. 16:16 e 17), porque “como está escrito: 'Coisas que o olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração humano, são as coisas que Deus preparou para os que o amam'. Mas Deus nos revelou pelo Espírito” (1 Cor. 2:9 e 10). Nenhum homem, não importa quão familiarizado esteja com o Carpinteiro de Nazaré, poderia reconhecê-lo como o Senhor, se não pelo Espírito Santo (1 Cor. 12:3).

Por meio do Espírito, sua própria presença pessoal, podem vir a todo o homem na terra, como também encher o céu, algo que Jesus na carne não pôde fazer. Então, importava que Ele se fosse, e enviasse o Consolador. “Cristo existia antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele” (Col. 1:17). Jesus de Nazaré era Cristo na carne. O Verbo que estava no princípio, aquele em quem todas as coisas subsistem, é o Cristo de Deus. O sacrifício de Cristo, pelo que a este mundo respeita, governa “desde a criação do mundo”.

A cena do Calvário foi a manifestação do que vinha acontecendo desde a entrada do pecado no mundo, e do que continuará acontecendo até que seja salvo o último pecador que queira sê-lo: Cristo levando os pecados do mundo. Os leva agora. Foi suficiente para sempre um ato de morte e ressurreição, porque a sua é uma vida eterna. Portanto, não há necessidade da repetição do sacrifício. Essa vida é para todos os homens em todo lugar, de forma que quem a aceita por fé, se apropria do pleno benefício do sacrifício de Cristo. E efetua em si mesmo a purificação dos pecados. Quem rejeita sua vida, perde o benefício de seu sacrifício.

Cristo viveu para o Pai (João 6:57). Sua fé na palavra que Deus lhe recomendou chegou até o ponto de lhe permitir manifestar de forma repetida e enfática que, depois de sua morte, ressuscitaria ao terceiro dia. Morreu nessa fé, dizendo: “Pai, em tuas mãos recomendo meu espírito” (Luc. 23:46). A fé que lhe deu a vitória sobre a morte, também lhe deu vitória completa sobre o pecado. É a mesma que exerce quando vive em nós pela fé, porque “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje, e por todos os séculos” (Heb. 13:8).

Não somos nós que vivemos, mas é Cristo quem vive em nós, e por meio de sua própria fé nos livra do poder de Satanás. Que devemos fazer? Permitir-lhe que viva em nós da forma que Ele mostrou. “Há em vós o mesmo sentir que havia em Cristo Jesus” (Fil. 2:5). Como podemos permitir isso? Simplesmente reconhecendo-o, confessando-o.

"Quem me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. Que expressão tão pessoal! Sou o objeto do amor! Toda pessoa no mundo pode dizer: “me amou, e se entregou por mim”. Paulo morreu, mas as palavras dele continuam vivas. Estavam certas quando aplicadas à ele, mas não mais que quando aplicadas a para qualquer outro ser humano. São as palavras que o Espírito põe em nossos lábios, se consentirmos em recebê-las. A plenitude do Dom de Cristo é para cada “eu” individual. Cristo não está dividido, mas cada alma o recebe em sua plenitude, como se não existisse outra pessoa no mundo. Toda pessoa recebe a totalidade da luz que brilha. O fato de que haja milhões de pessoas que recebem a luz do sol, não diminui em nada a que me ilumina. Obtenho pleno benefício dela. Não receberia mais, mesmo que fosse a única pessoa que existisse no mundo inteiro. Deste modo, Cristo se deu a si mesmo por mim, tanto como se eu fosse o único pecador que povoou em algum momento a terra. E a mesma coisa é certa para todo o pecador.

Quando semeias um grão de trigo, você obtém muito mais grãos que o primeiro, cada um deles contém a mesma vida, e tanto dela, como a que teve a semente original. Desta mesma maneira acontece com Cristo, a autêntica Semente. Ao morrer por nós, de forma que também viéssemos a ser a verdadeira semente, concede a cada um a totalidade de sua vida. “Graças a Deus por seu dom inefável!” (2 Cor. 9:15).

 

21   Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu em vão.



 

Se pudéssemos, pela lei, nos salvar, então Cristo morreu em vão. Mas isso é impossível. E Cristo certamente não morreu em vão. Portanto, só nEle há salvação. É capaz de salvar a todos os que por Ele se aproximam de Deus (Heb. 7:25). Se ninguém fosse salvo, teria morrido em vão. Mas esse não é o caso. A promessa é segura: “Verá a sua posteridade, prolongará os dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. O trabalho de sua alma ele verá, e ficará satisfeito” (Isa. 53:10 e 11).

Todo aquele que quiser, poderá ser parte dos frutos do trabalho de sua alma. Considerando que Cristo não morreu em vão, não recebas ”em vão a graça de Deus” (2 Cor. 6:1).
Capítulo 3




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