As aventuras do marxismo no brasil



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AS AVENTURAS DO MARXISMO NO BRASIL
RIDENTI, Marcelo; AARÃO REIS, Daniel. (orgs.). História do marxismo no Brasil. Partidos e movimentos após os anos 1960. Campinas, Editora da Unicamp, v. 6.
Ricardo Musse
A publicação desse sexto volume conclui o mais ambicioso e completo programa de reconstituição da história do marxismo no Brasil. Superando os percalços de sempre, cumpre-se assim com inegável êxito, o projeto editorial coletivo delineado pelo grupo de trabalho “Partidos e Movimentos de Esquerda”, então vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), no longínquo ano de 1988.1

Um exame do conjunto possibilita um inventário, ainda que precário, das lacunas e superposições da produção bibliográfica sobre o tema, posto que os organizadores adotaram como critério principal convidar autores de pesquisas já concluídas no âmbito da reflexão histórica sobre o marxismo brasileiro. Propicia ainda uma ocasião para a meditação, mesmo que panorâmica, acerca do impacto do marxismo na sociedade brasileira seja no que tange à vida política, seja sobre a produção intelectual e cultural.

Convém antes relembrar a ambigüidade inerente ao termo “marxismo”, cujo significado remete a dois corpus políticos e intelectuais distintos, porém entrelaçados. A mesma palavra designa tanto a obra teórica e a participação política de Karl Marx e Friedrich Engels – num leque que se estende da gênese do materialismo histórico aos esforços que fizeram para direcionar os então emergentes partidos de massas que se congregaram na Segunda Internacional –, quanto a linhagem constituída pela adição a esse legado da contribuição política e intelectual de seus seguidores, assim como do arsenal prático e teórico desenvolvido pelos diversos movimentos e partidos operários.2

Na primeira acepção, a própria definição do termo delimita um território nem por isso incontroverso. Duas das principais polêmicas atinentes ao materialismo histórico vinculam-se, mesmo que indiretamente, à determinação de suas balizas. A exaustiva discussão acerca do estatuto da obra do jovem Marx tem como pano de fundo a aferição do momento em que Marx tornou-se “marxista”. A querela sobre o “último Engels”, por sua vez, não pode ser descolada da tentativa de estabelecer o ponto terminal da constituição da teoria marxista.

O marxismo, na segunda acepção do termo – o estabelecimento de uma tradição teórica e prática que se mantém ativa e vivificada décadas depois da morte de seus fundadores –, surgiu a partir de uma série de procedimentos adotados pelo último Engels. As providências por ele sistematizadas desembocaram em dois movimentos, antagônicos e embaralhados: os esforços, nem sempre concomitantes, de divulgação e de ampliação da doutrina de Marx.3

A história do marxismo no Brasil desenvolveu-se no plano definido por essas duas coordenadas. De um lado, pode ser considerada como um exemplar típico do processo que Franco Andreucci denominou de “difusão e vulgarização” do marxismo: a conjugação de “expansão e empobrecimento, difusão e esquematização”, seja por conta do choque e de sua inevitável combinação com outras idéias (socialistas ou não), decorrente de sua propagação em escala planetária; seja devido sobretudo à necessidade de legitimar a prática política das crescentes estruturas organizacionais da classe operária – associações, sindicatos, cooperativas, partidos.4 Por outro lado, embora as contribuições brasileiras para a ampliação do repertório de interpretações, complementações e atualizações da obra de Marx sejam escassas, o marxismo nacional, desde seus primórdios, sempre procurou compreender a especificidade da sociedade local, o que não deixou de concorrer para a expansão do escopo da doutrina.

A delimitação dos limites do marxismo, nessa segunda acepção do termo, tornou-se palco de acirrada luta e concorrência entre as diversas correntes nas quais essa tradição se bifurcou após o fim da Segunda Internacional, em agosto de 1914. As redefinições do campo marxista, em geral, embutiam sorrateiras tentativas de deslegitimar grupos e tendências adversárias. Os organizadores dessa coleção, em consonância com a conjuntura marcada pelo enfraquecimento do marxismo e pela distensão e aproximação entre inimigos de outrora, souberam evitar os riscos de indicar uma de suas linhagens como mais autêntica ou verdadeira, um traço nem sempre presente ao longo da história do marxismo no país.

Uma vez superada a armadilha de tentar afirmar ou mesmo privilegiar, dogmaticamente, uma dentre suas várias vertentes, a questão da delimitação do território do marxismo brasileiro reaparece sob nova roupagem. A dificuldade, inerente a uma tradição de pouco viço e capilaridade excessiva, desloca-se para a determinação do que seria propriamente marxista na prática dos movimentos sociais e dos partidos políticos, nas teorias de interpretação do país, na produção universitária ou ainda no âmbito da arte e da cultura nacional.

Nesse cenário, o hábito, em princípio sensato, de considerar como pertencente ao campo do marxismo as teorias, programas, movimentos e acontecimentos que reivindicam explicitamente sua filiação mostra-se insuficiente. Não é difícil identificar manifestações – muitas delas mais interessantes e importantes que as assumidamente marxistas – que, por conta de situações adversas ou por desconhecimento de suas fontes, não se reivindicam como tal. Assim, muitas vezes, é preciso discernir, no universo mais amplo de uma história da esquerda, sinais da influência do marxismo em manifestações que não reconhecem seu impacto. Essa complicação exige um cuidadoso esforço para discernir as intersecções entre o marxismo e a cultura local, um procedimento muitas vezes obliterado pelos pesquisadores.5
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O marxismo aportou tardiamente no Brasil. Seja como teoria ou prática política, desembarca efetivamente apenas em 1922, com a fundação do Partido Comunista, um acontecimento que deve ser creditado mais ao impacto da Revolução Russa de 1917 no país.6

Na coleção, a proto-história do marxismo no Brasil foi abordada em dois artigos.7 Evaristo de Moraes Filho cataloga as referências, simpáticas ou hostis a Marx, num trabalho pioneiro e erudito, mas de pouca valia.8 O artigo de Claudio H. M. Batalha contém muitas informações adicionais, atestando o quanto avançou a pesquisa sobre o tema no decorrer de uma geração, com a especialização universitária. H. M. Batalha, no entanto, menciona apenas de passagem a questão principal: por que o marxismo, reivindicado oficialmente pela Segunda Internacional desde 1890 e em processo acelerado de disseminação mundial, teve uma acolhida tão esporádica no Brasil?9

A bibliografia sobre os comunistas nos anos 1920 é substancialmente mais rica e polêmica. O artigo de Marcos Del Roio sobre o PCB nesse período, 10 apesar de convencional, não tem como contornar tópicos que se tornaram obrigatórios, como a tensão entre sindicalistas e intelectuais, a relação do partido com a Internacional Comunista, sua posição diante do tenentismo e o debate sobre os erros e acertos das estratégias implementadas na conturbada conjuntura que culminou na Revolução de 30.11

A produção intelectual dos militantes do PCB antes de 1930 foi apresentada, no quarto volume da série, por Angelo José da Silva. Contempla os esforços teóricos de Astrojildo Pereira, Mario Pedrosa e Octavio Brandão, valorizando e detendo-se mais no livro desse último, Agrarismo e industrialismo. O artigo, estranhamente, não menciona A derrota da dialética, de Leandro Konder.12 Apesar do tom polêmico, trata-se sem sombra de dúvida da obra mais importante sobre a recepção, no período entre 1871 e 1930, das idéias de Marx no Brasil. Um dos destaques do livro de Konder é a demolição exemplar e antológica de Agrarismo e industrialismo.13

A conjuntura nacional e internacional no início da década de 1930 fortaleceu o PCB, um pouco à revelia de sua estratégia na crise de 1929 e na Revolução de 30. Uma contraprova disso foi a adesão ao partido de importantes quadros do tenentismo, da intelectualidade burguesa e do modernismo artístico, dentre os quais se sobressaem os nomes de Luiz Carlos Prestes, Caio Prado Jr. e Oswald de Andrade. A acolhida concedida a cada um deles – as desventuras de Oswald,14 as relações conflituosas de Caio Prado com o comitê central,15 o posto de comando concedido a Prestes16 – é reveladora da hierarquia que estruturou o Partido Comunista Brasileiro, daí em diante, como “uma confluência de trabalhadores, intelectuais e militares do exército”, na fórmula sintética de Francisco de Oliveira.17

A supremacia de Prestes na luta interna é concomitante à conversão do PCB em braço local da Internacional Comunista. A configuração resultante do embate entre o influxo externo e as demandas da conjuntura local recebeu por parte da História do marxismo no Brasil a devida atenção. No primeiro volume, João Quartim de Moraes procura identificar, a partir de uma clivagem entre o marxismo de Stálin e o stalinismo, a influência do assim chamado marxismo-leninismo na teoria e na prática do PCB, a partir dos anos 1930.18 Essa convergência é retomada em várias passagens de um artigo do segundo volume, no qual o próprio Quartim de Moraes tenta determinar as coordenadas que moldaram a ação política dos comunistas brasileiros entre 1930 e 1970.19

É também sobre o “duplo prisma” do nacional e do internacional que Dainis Karepovs e José Castilho Marques Neto reconstituem a trajetória da Oposição de Esquerda – liderada por Mário Pedrosa, Rodolfo Coutinho e Lívio Xavier –, desde sua situação como fração do PCB até a condição de embrião de uma seqüência de organizações trotskistas.20

Algumas das maiores lacunas da coleção referem-se a esse período. O temor do vício personalista não justifica a ausência do perfil de Luiz Carlos Prestes, o mais destacado entre os jovens “tenentes”, comandante geral da Coluna Prestes, militar que inesperadamente adere ao comunismo, dirigente que liderou por décadas o Partido Comunista Brasileiro.21 Cabe notar ainda a inexistência de um artigo dedicado ao exame do episódio da ALN (Aliança Libertadora Nacional) e do caráter da insurreição de novembro de 1935, um levante militar que pode ser considerado ou como “a última revolta tenentista”, ou ainda como uma tentativa revolucionária ao molde da Internacional Comunista.22 Por fim, não há como deixar de reclamar que pouco se discute a posição do PCB e dos sindicatos a ele vinculados diante da nova legislação trabalhista implantada gradualmente por Getúlio Vargas no primeiro decênio de seu governo, uma questão decisiva para a compreensão da relação nem sempre direta entre a classe, o movimento operário e o Partido Comunista Brasileiro.23

Com o término da Segunda Guerra, devido a sua resistência e luta contra o Estado Novo, mas também graças à vitória da União Soviética sobre o nazismo, inicia-se a era áurea do PCB que se estende até 1964. Nesse período, sua influência favoreceu a disseminação do marxismo em amplos setores da vida política, intelectual e cultural do país.

A instância partidária mantém sua oscilação entre as demandas da classe operária e os ritmos ditados pelo movimento comunista internacional. Por um lado, arrefece seu ímpeto insurrecional, seja por conta de sua bem sucedida performance eleitoral no breve intervalo da legalidade, seja repercutindo a integração social do proletariado nos anos do nacional-desenvolvimentismo. Por outro lado, adota um comportamento errático – apóia Getúlio no estertor do seu período ditatorial, engajando-se na fracassada campanha do “queremismo”, mas opõe-se radicalmente ao seu segundo governo (1950-1954), mesmo quando este adota uma inflexão popular e nacionalista –, equívocos que só foram reconhecidos como tais na “Declaração sobre a política do PCB”, de março de 1958, quando finalmente, em sintonia com sua prática cotidiana, adota um programa político antiimperialista, democrático e nacional, no esquadro de uma “revolução burguesa”.

O artigo de Daniel Aarão Reis, no volume 5, relata, passo a passo, a trajetória do PCB entre o congresso de reconstrução do Partido em 1943 – a “Conferência da Mantiqueira” – e o golpe militar de 1964, procurando entender a flutuação de sua linha política à luz do dilema “reforma ou revolução”.24 Quartim de Moraes, no livro 3, acompanha as análises de conjuntura do PCB entre 1944 e 1954. Atribui suas oscilações, em larga medida, ao impacto no interior do Partido de sua legalização e de sua posterior cassação.25 Raimundo Santos, no primeiro volume, destaca, como uma das premissas da “Declaração de Março de 1958”, a descompressão da vida partidária resultante da denúncia dos crimes de Stálin por Nikita Khrushchov no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956.26

Afora o descompasso entre o paulatino processo de integração social do proletariado e sua exclusão da vida política – numa democracia cujo caráter oligárquico tornou-se explícito no episódio de cassação do registro do PCB, assim como em sua posterior manutenção na ilegalidade –, a instabilidade da linha política do Partido Comunista Brasileiro traduzia uma contradição objetiva, inerente ao projeto de uma “Revolução nacional”.

A liderança do Partido na construção de uma frente antiimperialista, a política de alianças poli-classista, em suma, as condições próprias de um programa de revolução democrático-burguesa direcionava sua ação para transformações no âmbito do capitalismo. A situação mundial no auge da Guerra Fria, no entanto, indicava que eram mínimas as possibilidades de mobilidade no interior do sistema inter-estatal capitalista – em sua hierarquia congelada com poucos países no núcleo orgânico, alguns numa intermediária semi-periferia e a maioria instalada na periferia. A expectativa de se obter um “catch-up” concentrava-se então nas experiências de países que tentaram gravitar fora da órbita do sistema capitalista.27

Ao mesmo tempo em que afirma sua proeminência no campo da esquerda, particularmente na seara do movimento operário, o PCB perde o monopólio do marxismo. Novas agremiações reivindicam também, em maior ou menor medida, o legado de Marx. O quinto volume da série apresenta uma cobertura abrangente desse novo leque, com estudos pormenorizados das concepções marxistas presentes nas organizações trotskistas,28 no Partido Socialista Brasileiro,29 na POLOP,30 e ainda na Ação Popular.31

A versão exportada pela União Soviética, o assim chamado “marxismo-leninismo”, preponderante até então no país, começa a experimentar a concorrência de outras vertentes. História do marxismo no Brasil repertoria a influência na esquerda brasileira do trotskismo,32 do maoísmo,33 do castrismo-guevarismo.34 Dentre os “marxistas ocidentais”, selecionou aqueles de maior repercussão sobre a militância e a intelectualidade brasileiras: Antonio Gramsci,35 Georg Lukács,36 e Louis Althusser.37 Não custa reprisar aqui o lamento pela ausência de artigos sobre a recepção local de Walter Benjamin e Herbert Marcuse, cujas obras impactaram parcelas da intelectualidade nas mais inesperadas áreas.38

Além da co-existência e concorrência entre diferentes vertentes do marxismo, sua disseminação maciça na intelectualidade e na Universidade, contribui para dificultar, no período, a delimitação do marxismo brasileiro. Sua influência transborda o escopo do Partido Comunista e mesmo o âmbito dos filiados ao espectro partidário que reivindica essa linhagem.

No esforço de contemplar a multiplicidade das influências do marxismo sobre as interpretações do Brasil e a produção intelectual local, os organizadores da coleção empreenderam várias estratégias, em certa medida complementares. Não foi possível, no entanto, desenvolver nenhuma delas de forma sistemática, dado o estado incipiente das pesquisas.

Primeiro, ensaiou-se uma apresentação da inserção do marxismo nas diferentes áreas do conhecimento, no segundo volume da série. Três artigos temáticos abordaram a política, 39 a economia,40 e a filosofia.41 Afora os resultados desiguais, esse balanço do influxo do marxismo sobre as ciências humanas no Brasil – por conta da mencionada ausência de pesquisas no assunto – não cobriu as disciplinas em que sua presença tornou-se mais visível, como é o caso da sociologia, da historiografia e dos estudos literários.

A segunda estratégia, restrita a um artigo no terceiro volume, propõe-se a analisar em bloco a posição perante o marxismo e o PCB dos dois grupos intelectuais mais representativos do período, o Iseb e o “Seminário Marx”. A parte referente ao Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, um órgão vinculado diretamente à Presidência da República entre 1955 e 1964) salienta as divergências entre seus membros acerca da viabilidade do desenvolvimento nacional e de uma revolução democrática-burguesa no Brasil. No que tange ao “Seminário Marx” (um grupo informal de professores da FFLCH da USP, reagrupados a partir de 1969 no CEBRAP), o artigo ressalta, de forma equivocada, o caráter apenas “teórico” do grupo.42

O destaque positivo concedido aos participantes do “Seminário Marx”, presente também nos artigos temáticos sobre a filosofia e a economia marxistas, espelha as ilusões propiciadas na ocasião pela ascensão à presidência da República de um intelectual declaradamente marxista. Esse episódio ilustra bem os riscos de uma determinação do território do marxismo que considere como critério de pertinência apenas a reivindicação de pertencimento a essa linhagem por parte de pessoas ou grupos.

O lugar mais adequado para inserir, numa história do marxismo, autores com posições políticas marcadamente liberais como José Arthur Giannotti e Fernando Henrique Cardoso – bem como alguns de seus “companheiros de viagem” – seria o compartimento reservado aos representantes da versão brasileira do “marxismo legal”. Como se trata de um movimento pouco conhecido, transcrevo a definição de Eric Hobsbawm:

Na Rússia, paradoxalmente, o marxismo – além de constituir uma teoria alternativa em relação à posição revolucionária anticapitalista dos populistas (que no entanto haviam assimilado diversas análises marxistas sobre o capitalismo) – proporcionou certa justificação à missão histórica do capitalismo, numa postura que pode ser considerada de certo modo anômala na atmosfera ideológica geral do país. O marxismo representou, assim, a base para o curioso fenômeno dos “marxistas legais”, que ressaltaram as realizações históricas positivas do capitalismo, abandonando a perspectiva de derrubá-lo. Entre o final do século XIX e o começo do século XX, chegou-se a uma espécie de reconciliação com a burguesia por parte de um restrito grupo de estudiosos que, se tivessem vivido na Europa central ou ocidental em lugar da Rússia, certamente se sentiriam muito mais à vontade declarando-se liberais e não marxistas.43


A terceira estratégia projetada consistiria na análise, caso a caso, da produção teórica individual de cada um dos intelectuais comunistas mais representativos do período, esforço que não foi além de um único artigo, dedicado aos escritos político-partidários de Caio Prado Júnior.44 A ausência de ensaios sobre, entre outros, Nelson Werneck Sodré e Alberto Passos Guimarães, 45 justifica-se, mais uma vez, pela ausência de pesquisas conclusivas sobre suas obras.46

A estratégia mais recorrente – acertadamente, tendo em vista seus resultados – foi a encomenda a intelectuais capacitados, ainda que desprovidos do histórico de pesquisas anteriores na área, de artigos sobre a contribuição do marxismo para alguns dos principais tópicos da compreensão da sociedade brasileira: o debate historiográfico sobre a colonização e os conceitos conexos de escravismo e capital mercantil;47 a controvérsia sobre a combinação entre diferentes modos de produção que deu forma ao capitalismo no Brasil;48 as teorias locais sobre o ritmo e o andamento da revolução burguesa;49 a discussão sobre os obstáculos ao desenvolvimento nacional e à consolidação de um regime democrático;50 as polêmicas em torno da reforma agrária;51 e, por fim, nossa “questão meridional”, o atraso secular do Nordeste.52 Não deixa de causar perplexidade que tenha sido necessário recorrer a articulistas que não são propriamente especialistas justamente quando se tratava de acompanhar os pontos altos da teoria marxista no Brasil – quando ela não apenas redefine o arcabouço conceitual e o sentido da interpretação do país, mas também se desdobra como um capítulo brasileiro dentro do esforço mundial de atualização e ampliação da doutrina de Marx.

A mesma deficiência, a carência de pesquisas, patente na investigação acerca do impacto do marxismo nas teorias dedicadas à interpretação do Brasil, pode ser detectada em grau ampliado no campo dos estudos acerca de sua influência sobre os artistas brasileiros.53 Tanto num caso como no outro, parte da dificuldade assenta-se no fato de que o objeto a ser investigado não se restringe aos indivíduos com filiação partidária, uma fronteira que os pesquisadores mostram-se reticentes em ultrapassar.54

Os efeitos da disseminação do marxismo na arte brasileira não podem ser subestimados. A vitalidade e brilho da arte modernista local, sua sintonia com os movimentos artísticos europeus e sua preocupação simultânea com a revelação do Brasil, tornam-se incompreensíveis quando se desconsidera a ascendência do marxismo na cultura brasileira, sobretudo no período entre 1930 e 1980.

A lista de artistas que se depararam com a teoria ou se engajaram na prática política marxista em algum momento de sua trajetória é impressionante, agrupando muitos dos expoentes em cada área. Na ausência de um mapeamento mais preciso, relembro alguns nomes mais destacados:

Na literatura; Oswald de Andrade, Patrícia Galvão (Pagu), Mario de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dionélio Machado, Érico Veríssimo, José Lins do Rêgo, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Aníbal Machado, Rubem Braga, Bernardo Élis, Ferreira Gullar, Antonio Calado, Jorge Mautner, João Antônio, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Marcio Souza e os críticos Astrojildo Pereira, Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Alfredo Bosi, Silviano Santiago, Antonio Candido e seus discípulos Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão e João Luis Lafetá.

Nas artes plásticas; Di Cavalcanti, Tarcila do Amaral, Candido Portinari, Lívio Abramo, Flávio de Carvalho, Pancetti, Clóvis Graciano, Vasco Prado, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar, Roberto Burle-Marx, Bruno Giorgi, Mário Gruber, Renina Katz, Mario Zanini, Waldemar Cordeiro, Mauricio Nogueira Lima, Antonio Henrique do Amaral, Carlos Zílio, Rubens Gerchman, Claudio Tozzi e os críticos Mario Pedrosa, Mário Schenberg, Ferreira Gullar e Aracy Amaral.

No cinema; Alberto Cavalcanti, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Luís Sérgio Person, Walter Lima Jr., Maurice Capovilla, Fernando Cony Campos, Eduardo Coutinho, Wladimir Carvalho, João Batista de Andrade e os críticos Alex Viany, Walter Silveira, Paulo Emilio Salles Gomes, Jean-Claude Bernardet e Ismail Xavier.

No teatro; os dramaturgos Jorge Andrade, Ariano Suassuna, Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes, Dias Gomes, Consuelo de Castro, João das Neves; os diretores Augusto Boal, José Celso Martinez Correa, Flávio Rangel e o crítico Décio de Almeida Prado.

Na arquitetura; Oscar Niemayer, Villanova Artigas, Lina Bo Bardi e Sergio Ferro.


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A partir dos anos 1960, a dispersão do marxismo, até então mais evidente na vida intelectual, atinge as organizações partidárias. Em 1962, com a fundação do Partido Comunista do Brasil (PC do B), o PCB assiste à sua primeira cisão desde a saída dos trotskistas da Oposição de Esquerda nos anos 1930.55 Após o golpe de 1964 esse movimento se amplifica com as dissensões que desembocaram na ALN (Aliança Libertadora Nacional) – comandada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira – e no PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), capitaneado por Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Mário Alves.

Essa divisão se explica, em parte, pelo fascínio suscitado pelas novas formas de transição ao socialismo, os receituários heterodoxos da revolução chinesa e da cubana. No caso das dissidências posteriores a 1964, convém lembrar ainda que a implementação do regime militar no Brasil consolidou a convicção de que a via democrática e nacional estava definitivamente encerrada e de que, portanto, a luta antiimperialista só poderia ser levada adiante sob a forma da luta armada.56 O predomínio de tal convicção entre os mais diversos espectros da militância marxista fez com que os outros partidos – a AP, a Polop e o PC do B – também fossem submetidos a idênticos processos de desintegração.57

A derrota da resistência armada, consumada entre 1973 e 1974, favoreceu a emergência de novas formas de luta na esquerda brasileira. Com a desestruturação dos partidos e das organizações políticas, o comportamento crítico e o engajamento militante transferem-se para uma série de movimentos, denominados em bloco “sociais”.58 Uma parte considerável do último livro da coleção é dedicada à análise da interconexão do marxismo com o feminismo,59 o novo sindicalismo,60 e a atuação secular dos cristãos.61

Em breve, porém, tão logo a conjuntura desanuviou, retomou-se a questão da representação política da classe operária. A Anistia, em 1979, apressou a reestruturação dos dois partidos comunistas, o PCB e o PC do B. Este processo, no entanto, foi atropelado pela fundação do Partido dos Trabalhadores, a partir de uma convergência entre o “novo sindicalismo”, quadros remanescentes das organizações dissidentes dos anos 1960-1970 e cristãos socialistas.62 O PT venceu, sem muita dificuldade, a disputa pela liderança política do conjunto do proletariado, travada inicialmente sob a forma de uma disputa sindical e, em seguida, no terreno eleitoral.63

A necessidade de se diferenciar dos partidos comunistas – resultante do conflito pela hegemonia na esquerda brasileira, mas fruto também de um anseio autêntico de evitar os erros do passado –, fez com que o PT construísse uma auto-imagem na qual predominava o tópico da “ruptura”. Seja por conta de sua origem no sindicalismo e nos movimentos sociais; pela tentativa de organizar-se como partido de massas, com o concomitante repúdio do modelo da “vanguarda leninista”; ou ainda devido à sua recusa da política de frentes poli-classistas, associado ao seu esforço em transferir a ênfase da nação para a classe; os intelectuais do PT alardearam que se tratava de uma configuração original na esquerda brasileira, sem termo de comparação com as experiências da tradição comunista.64

Essa “racionalização” tornou-se factível também graças à forma peculiar de inserção do marxismo no PT. Embora seu processo de fundação tenha seguido quase que literalmente a descrição feita por Marx no Manifesto do Partido Comunista acerca da “organização dos proletários em classe, e com isso em partido político”, o PT nunca adotou formalmente o marxismo. A co-habitação no partido de marxistas e de não-marxistas impediu também, apesar da proliferação de seminários, a definição de um modelo de socialismo a ser proposto à sociedade brasileira. O marxismo, no entanto, se fez visível, não só na terminologia de seus documentos e resoluções, mas também no arsenal de suas opções e ações políticas.

O PT vivenciou, ao longo de suas quase três décadas de existência, o mesmo dilema recorrente na tradição marxista no Brasil, sintetizado na indagação – a transformação da sociedade deve ser buscada dentro ou fora da ordem capitalista? 65 A deliberação, de início tateante, depois resoluta, a favor da conciliação entre capital e trabalho, a atenuação das veleidades anticapitalistas, a prevalência da nação ante a classe, recapitula uma trajetória já trilhada tanto pelo PCB, sobretudo no decênio 1954-1964, como pelos partidos da Segunda Internacional no início do século XX.66

A adoção pelo PT de um programa democrático-nacional, premissa de sua ascensão ao poder, foi facilitada pela sua recusa, desde a fundação, de qualquer forma de alinhamento externo, típica de uma era de refluxo do internacionalismo, mas também pelo fim da experiência histórica do socialismo de Estado no Leste europeu que sepultou as expectativas, já debilitadas, de um desenvolvimento fora da ordem capitalista.67

A conquista do Estado pelo PT completa, com o anel político, o processo de integração do proletariado brasileiro. Trata-se de um movimento de longa duração, iniciado na Revolução de 30 com a legislação trabalhista e previdenciária. Entre seus momentos decisivos, se destaca as greves operárias no ABC, em 1978-1979, anúncio simultâneo da exaustão da ditadura militar e da emergência de um novo sindicalismo.

No exercício do poder estatal, o PT recuou de sua negação programática da tradição do PCB.68 Sua opção por um governo desenvolvimentista, nacional e popular encontra-se em consonância com a experiência histórica do marxismo brasileiro. Mas o decisivo nessa escolha talvez seja a relativa desorganização do sistema inter-estatal capitalista, que parece abrir brechas para a mobilidade dos países da semi-periferia na até então congelada hierarquia das nações.





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