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Encontro03.11.2017
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O gosto das palavras
Quando somos estimulados através de um sentido percebemos o estímulo através do mesmo sentido. Se nos mostram uma imagem, “vemos” a imagem, e se colocam um chocolate em nossa boca sentimos “gosto” de chocolate. Entretanto, um pequeno número de pessoas tem seus sentidos “cruzados”. Algumas, quando ouvem uma nota musical “vêem” uma cor. Outras, quando ouvem uma palavra sentem um gosto específico. Pela primeira vez um experimento permitiu dissecar quando o cérebro realiza estas associações cruzadas.
O experimento foi realizado com seis pessoas que associam palavras a gostos. Estas pessoas “sentem” um gosto quando falam uma palavra. Quando mostrarmos a elas a figura de um chocolate, elas falam a palavra “chocolate” e sentem gosto de chocolate. Este efeito ocorre também com outras palavras que possuem sílabas semelhantes. Quando mostramos a figura de um chocalho ou de um cachalote, no momento em que elas falam a palavra associada à imagem elas sentem o gosto de chocolate.
Para cada uma dessas seis pessoas os cientistas selecionaram centenas de imagens onde cada imagem era associada a uma palavra e a um gosto. Quando estas pessoas viam uma das cartelas elas a identificavam pronunciando a palavra e reportavam o respectivo gosto. Feita esta enorme tabela que relacionava figuras, palavras e gostos os cientistas mandaram as pessoas para casa.
Depois de diversos meses cada uma das pessoas foi convidada a voltar ao laboratório e a identificar a palavra associada a cada uma das figuras. Na maioria dos casos a palavra associada à imagem era lembrada facilmente e o gosto confirmado. Entretanto, em 89 casos, as pessoas não se lembravam imediatamente da palavra, como ocorre com todos nós quando tentamos nos lembrar do nome de uma pessoa. Nestes casos costumamos dizer que a “palavra está na ponta da língua”, mas não nos lembramos dela. Destes 89 casos em 15 ocasiões as pessoas nunca se lembraram da palavra e nos outros 74 casos as pessoas se lembraram da palavra após alguns minutos. Quando ocorria este lapso de memória os cientistas perguntavam à pessoa se apesar de não se lembrarem da palavra elas sentiam algum gosto. Na maioria dos casos as pessoas sentiam o gosto “correto” mesmo não se lembrando da palavra.
Este resultado demonstra que a associação cruzada ocorre antes da palavra estar disponível no cérebro para ser pronunciada. Provavelmente é o momento em que o cérebro associa a imagem a um conceito existente na memória, mas antes deste conceito ser associado a uma palavra. É fácil de entender: imagine duas pessoas que falam línguas diferentes. Mostramos a elas a figura de uma vaca. Ambas vão associar esta imagem a uma memória de um animal com chifre, a brasileira subsequentemente associa esta imagem à palavra “vaca” e a inglesa à palavra “cow”. O que este experimento parece demonstrar é que existe uma etapa no processamento da memória que ocorre antes desta memória ser associada a uma palavra. É nesta etapa que nestas pessoas a informação retirada da memória é associada, de maneira cruzada, a um sabor.
É com experimentos como este que os cientistas estão aos poucos dissecando como funciona nosso cérebro.
Mais informações em: The taste of words on the tip of the tongue. Nature vol. 444 pag. 438 2006

Fernando Reinach (fernando@reinach.com)




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