Apostila de redaçÃO – nani lingua portuguesa



Baixar 8.37 Mb.
Página2/9
Encontro07.10.2019
Tamanho8.37 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9

TECENDO O TEXTO

Ao encararmos a folha de papel em branco, tentando processar na mente as ideias que serão expressas, inquietam-nos algumas questões: como iniciar o texto? Como expor com clareza nosso ponto de vista? Como argumentar de forma consistente? Como estruturar de forma lógica o que vamos expor?



Não há uma fórmula a ser seguida, mas podemos adotar alguns procedimentos que nos auxiliam na elaboração do texto. Rascunhar um esquema das ideias, pode ser útil, principalmente quando elas não fluem de maneira tranquila.

Faça um esquema do seu texto. No princípio, pode parecer chato, mas, à medida que você for treinando, o texto fluirá de forma mais eficaz.




PLANEJAMENTO DA REDAÇAO



  1. Identifique claramente o tema proposto (qual vai ser o recorte temático do seu texto) e o objetivo com que você vai escrever (se é discutir, concordar, discordar etc.);

  2. faça (para você mesmo) perguntas que problematizem a temática . Exemplo: se você tiver que opinar sobre a liberação da pesquisa com células-tronco, pergunte-se (mentalmente) em que consiste essa pesquisa, por que ela está sendo proposta, quais as consequências dessa medida etc.

  3. esquematize a(s) resposta(s);

  4. pergunte a você mesmo o porquê dessa(s) resposta(s). Você terá, assim, a principal linha argumentativa do seu texto;

  1. acrescente, se necessário, outras informações que o levaram a defender o seu ponto de vista;

  2. exemplifique, com fatos ou dados da realidade, esse posicionamento. Trata-se de reforçar a sua opinião e mostrar a consistência de seus argumentos. Exponha informações que você tenha lido, ou ouvido, ou visto em jornais, revistas, tv, rádio...

  3. finalize, reafirmando a sua posição e, se o texto for sobre uma situação-problema, pode apresentar possíveis soluções práticas, que indiquem uma reflexão acerca do tema. O “esqueleto” do seu texto está pronto.

  4. faça, a partir desse esquema, a redação do texto, associando as informações, estabelecendo entre elas a relações lógicas, por meio dos recursos sintático-semânticos (uso de conetivos, pontuação, paragrafação...).

Adapte o esquema ao seu ritmo de escrita. Não desanime e escreva.






PRODUÇÃO DE TEXTO
PROPOSTA 1
TEXTO 1

A IGNORÂNCIA E A BURRICE

Antônio Caetano

"As constelações servem para esclarecer a noite". Bela frase, não? A mim, soa como Guimarães Rosa, o uso ambíguo do verbo esclarecer sugerindo algo de arcaico e místico. Um astrólogo certamente enxergaria nela vestígios simbólicos, as constelações servindo para aclarar a obscuridade de nossos destinos. Um marinheiro, por outro lado, veria na frase a expressão de uma verdade empírica: à noite, navegamos orientados pelas estrelas — conhecimento indispensável quando nos faltam instrumentos. Eu fico com a ressonância lírica — me basta.

Juro: se pudesse, roubava a frase para dizê-la como um comentário displicente depois de observar longamente o céu salpicado de estrelas numa noite de lua nova, lá no alto da serra. Sim, depois de um longo silêncio eu sussurraria ao teu ouvido num tom grave e sorrateiro: "As constelações servem para esclarecer a noite", e certamente mais duas estrelas se acenderiam no teu rosto, cheias de admiração pela sabedoria que eu teria se a frase fosse minha...

E nem seria difícil me apropriar da frase, visto que ela talvez hoje envergonhe seu autor anônimo, depois de ter sido enjeitada pelos bedéis do senso comum que julgaram as redações da galera que prestou vestibular para UFRJ este ano. Eles não só não gostaram da frase como a incluíram em uma mensagem eletrônica que fizeram circular pela Internet (eu só recebi agora) reunindo o que consideraram ironicamente como "pérolas": frases que continham erros mais ou menos crassos — fosse de informação, sintaxe ou grafia.

Há outras frases igualmente geniais. Por exemplo: "O Brasil é um país abastardo com um futuro promissório". Engraçadíssima síntese histórica, sociológica e econômica! E se há erro no uso do "abastardo", salva-se o "promissório" — que, basta consultar o Aurélio, serve de sinônimo de "promissor", sim — além de criar uma ambigüidade semântica digna dos melhores humoristas.

Outra na mesma linha: "É preciso melhorar as indiferenças sociais e promover o saneamento de muitas pessoas". Esta é irretocável! Nossa indiferença social é mais do que visível, é chocante, e certamente o saneamento de algumas pessoas poderia ser a solução — isto é, se crermos que certas pessoas são mesmo saneáveis... Um jovem sustentar essa esperança me enche de genuína alegria.

Outras duas me surpreenderam positivamente por seu evidente surrealismo: "A Geografia Humana estuda o homem em que vivemos". Ora, não sei se existe mesmo uma geografia humana, mas certamente não faltariam acadêmicos que defenderiam a idéia de que o homem é um produto da cultura e que, portanto, o homem antecede o homem — isto é, vivemos "em" um homem que nos é dado ou imposto sob a forma de uma língua, costumes, preconceitos e gostos que seria mesmo importante estudar, até para podermos saneá-lo.

A segunda diz assim: "A História se divide em 4: Antiga, Média, Moderna e Momentânea (esta, a dos nossos dias)". O.K., era pra se dizer "contemporânea", mas na velocidade em que anda a história o rapaz ou a moça foi talvez premonitório — ou deveria eu dizer promontório?

Finalmente, três frases que foram rejeitadas certamente apenas por seu tom coloquial, pois a verdade delas é tão cristalina que dispensa qualquer defesa: "Com a morte de Jesus Cristo os apóstolos continuaram a sua carreira." (E com enorme sucesso, ressalte-se). "Os pagãos não gostavam quando Deus pregava sua dotrina e tinham a idéia de eliminá-lo." (Está certo, faltou o u de doutrina, mas a ênclise chiquérrima compensa-a com sobras). "Entre os povos orientais os casamentos eram feitos "no escuro" e os noivos só se conheciam na hora h."

Pois é, eis aí exposta a diferença entre a ignorância e a burrice. Ignorância é falta de conhecimento. Burrice é preconceito travestido de conhecimento. O ignorante pode ou não ter consciência do que não sabe. O burro tem certeza de que sabe o que, na verdade, não sabe. O burro, enfim, privilegia o mediano, o medíocre, o conhecido e reiterado. Está condenado a repetir, cego para a "milionária contribuição de todos os erros" de que falava Mário de Andrade — ou seria Oswald?



Bom, ficam desde já convidados os autores das frases citadas a comparecer a este jornal para receber a Comenda Mário de Andrade (ou será Oswald?) em reconhecimento a sua modesta, mas decisiva, contribuição ao nosso milionário acervo de erros. Pois, vítimas de um ensino dominado pelos burros, conseguiram dar um brilho de genialidade à própria ignorância. Parabéns e obrigado — minhas melhores esperanças repousam sobre vós.


Antônio H. Caetano é jornalista e escritor. Visite o site do autor: http://www.cafeimpresso.com.br
(FRJS) Considerando as características e objetivos do vestibular, redija uma carta ao autor, DISCUTINDO os argumentos utilizados por ele para criticar a correção de redações dos candidatos no vestibular. Em seu texto, POSICIONE-SE sobre a obrigatoriedade de uso registro escrito formal como linguagem padrão das provas dos vestibulares.














































































PROPOSTA 2
Leia os textos a seguir.
CARTA A UM JOVEM ESCRITOR
(de Mário de Andrade para Fernando Sabino)
(...) É certo que o artista não deve ter pressa, é preciso saber esperar. Mas isto do sujeito que só se põe escrevendo “quando sente disposição” é estupidez... Principalmente para o prosador. (...) O prosador lida com inteligência lógica, está no plano do consciente, das relações de causa e efeito. O seu discurso tem cabeça, tronco e membros, princípio-meio-e-fim, embora pouco importe muitas vezes que o assunto exija que o fim esteja no princípio e o princípio no meio. Não tem disposição? Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro: se trata de ter hora de trabalho. Então vá escrevendo, vá trabalhando sem disposição mesmo. A coisa principal é difícil, você hesita, escreve besteira, não faz mal. De repente você percebe que, corretamente ou penosamente (isso depende da pessoa), você está dizendo coisas acertadas, inventando belezas, força, etc. Depois, então, no trabalho de polimento, você cortará o que não presta, descobrirá coisas para encher vazios, etc. etc.” (...)
CLAVER, Ronald. ESCREVER COM PRAZER. OFICINA DE PRODUÇÃO DE TEXTO. Belo Horizonte: Dimensão, 1999. p. 71

Texto 2
ESCREVER É CORTAR PALAVRAS
Armando Nogueira
Passei alguns anos certo de que o autor dessa preciosa máxima era Carlos Drummond de Andrade. Até que, um dia, perguntei ao poeta. Ele conhecia, mas negou que fosse dele, confesso que fiquei desapontado. A sentença tinha a cara do mestre Drummond cuja prosa é um exemplo de concisão.

Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a ideia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século passado (XIX). Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio num conto antológico. É o caso de um feirante de peixes num porto britânico.

O homem chega à feira e lá encontra seu compadre, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde comprar um quadro-negro para badalar o seu produto.

Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: HOJE VENDO PEIXE FRESCO.

-Você acrescenta mais alguma coisa?

O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante:

- Você já notou que todo dia é sempre hoje? E acrescentou: acho dispensável. Esta palavra está sobrando.

O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto: VENDO PEIXE FRESCO.

- Se o amigo me permite – tornou o visitante – gostaria de saber, aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça? Que eu saiba estamos numa feira, e feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo.

O anúncio encurtou ainda mais: PEIXE FRESCO.

- Me diga uma coisa: por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe aqui é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado...

E lá se foi o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: PEIXE.

Mas por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aí exposto é peixe. Afinal, está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado...

O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. Ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.



(Hoje em dia, Belo Horizonte, 07/08/1996)

(FRJS) A partir das leituras, redija um texto dissertativo, RELACIONANDO as ideias dos autores sobre o ato de escrever e REFLETINDO sobre o seu próprio processo de escrita, a sua relação com a produção de texto e os reflexos disso na qualidade de seus textos.


Atenção:

  • O texto elaborado deve conter, no mínimo, 20 (vinte) linhas.

  • Não dê título à sua redação.
















































































LEITURA COMPLEMENTAR



1   2   3   4   5   6   7   8   9


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal