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APONTAMENTOS

DE

PSICOLOGIA

INTRODUÇÃO

Estes Apontamentos de psicologia do pensador latino-americano Mario Rodríguez Cobos, Silo, são recopilações de conferências realizadas por ele em 1975, na ilha grega de Corfu, em 1976 e 1978, em Las Palmas de Gran Canaria na Espanha e em maio de 2006, no Parque La Reja em Buenos Aires.

Em "Psicologia I" estuda-se o psiquismo em geral como função da vida em sua relação com o meio e sua expressão humana. Em seguida, expõem-se as características dos "aparatos" do psiquismo nos sentidos, na memória e na consciência. Descreve-se também a teoria dos impulsos e do comportamento.

Em "Psicologia II" estudam-se as três vias da experiência humana: sensação, imagem e recordação. Em seguida, descrevem-se as respostas que o psiquismo dá aos estímulos externos ao corpo e aos estímulos do intracorpo. Os níveis de trabalho da consciência e os mecanismos do comportamento são revistos à luz da teoria do espaço de representação.

Em "Psicologia III" estuda-se o sistema de operativa capaz de intervir na produção e transformação de impulsos. Um esquema simplificado do trabalho integrado do psiquismo contribui para a compreensão dos temas de operativa. Finalmente, estabelecem-se distinções entre a consciência e o "eu", contrastando os estados de reversibilidade com os estados alterados de consciência.

Em "Psicologia IV" estuda-se sumariamente o desdobramento dos impulsos. Em seguida, estudam-se as diferenças entre a consciência, a atenção e o "eu". Estudam-se também a espacialidade e a temporalidade dos fenômenos da consciência para, finalmente, definir e incursionar pelas estruturas de consciência. Estruturas como "a consciência inspirada" passeiam pelos distintos afazeres humanos: a consciência inspirada na filosofia, na ciência, na arte e na mística. Há, por último, uma incursão pelos níveis profundos das estruturas de consciência e, com esses parágrafos finais, encerra-se essa psicologia que começou na análise dos impulsos mais elementares para concluir na síntese das estruturas de consciência mais complexas.

Esses escritos, somados a "Psicologia da imagem" – que constitui a primeira parte do livro Contribuições ao pensamento – e a Experiências guiadas, ambos publicados nas Obras Completas I do mesmo autor, podem ser considerados os escritos fundacionais de uma Psicologia do Novo Humanismo.

PSICOLOGIA I

Resumo elaborado pelos assistentes das conferências ministradas por Silo em meados de novembro de 1975 em Corfu, na Grécia. O “Apêndice sobre as bases fisiológicas do psiquismo” foi adicionado no final do mesmo ano.

1. O psiquismo


A. Como função da vida

Desde seus primórdios, a vida se manifestou de numerosas formas. Muitas são as espécies que desapareceram por não se adaptarem ao meio, às novas circunstâncias. Os seres vivos têm necessidades que satisfazem em seu meio ambiente. Essa situação no meio ecológico se dá em contínuo movimento e mudança. A relação é instável e desequilibrada, provocando no organismo respostas que tendem a compensar esse desequilíbrio e, assim, poder manter a estrutura que, de outro modo, desapareceria bruscamente. Dessa maneira, observamos a natureza vivente desdobrar-se com uma variedade de formas em um meio ambiente de numerosas características, distintas e mutáveis, e em sua base mecanismos simples de compensação frente ao desequilíbrio que coloca em risco a permanência da estrutura.

A adaptação à mudança externa implica também uma mudança interna no organismo para sua sobrevivência. Quando essa mudança interna não ocorre nos seres vivos, estes vão desaparecendo e a vida escolhe outras vias para seguir sua expansão crescente. No vital sempre estará presente o mecanismo de responder compensatoriamente ao desequilíbrio que, de acordo com o desenvolvimento de cada espécie, terá maior ou menor complexidade. Essa tarefa de compensar o meio externo e também as carências internas compreende-se como adaptação (especificamente como adaptação crescente), como única maneira de permanecer na dinâmica da instabilidade em movimento.

A vida animal, particularmente, desenvolve-se segundo funções de nutrição, reprodução e locomoção. Certamente, na vida vegetal e nos seres unicelulares também existem essas funções, mas claramente nos animais essas funções relacionam constantemente o organismo com seu meio, mantendo a estabilidade interna da estrutura, o que se expressa mais especializadamente como tendências vegetativas, como “instintos” de conservação e de reprodução. O primeiro mantém a estrutura individual e o segundo, a da espécie. Nessa preparação dos organismos para se conservarem como indivíduos e se perpetuarem como espécie está expressa a inércia (diríamos a “memória”), que tende a assegurar a permanência e continuidade, apesar das variações.

Nos animais, as funções de nutrição e reprodução necessitam da locomoção para se desenvolver. Esta permite o deslocamento no espaço para a consecução de alimentos; internamente também há uma mobilidade, um transporte de substâncias para serem assimiladas pelos organismos. A reprodução é interna no indivíduo e externa na multiplicação de indivíduos. A primeira se verifica como geração e regeneração de tecidos e a segunda, como produção de indivíduos dentro da mesma espécie. Ambas fazem uso da locomoção para cumprir sua função.

A tendência para o ambiente na busca de fontes de abastecimento e para a fuga ou ocultamento diante do perigo dão direção e mobilidade aos seres vivos. Essas tendências particulares em cada espécie formam um conjunto de tropismos. O tropismo mais simples consiste em dar resposta frente ao estímulo. Essa mínima operação de responder a um elemento alheio ao organismo que provoca um desequilíbrio na estrutura, para compensar e restabelecer a estabilidade, manifesta-se de maneira diversa e complexa. Todas as operações deixam “rastros” que são vias preferenciais para as novas respostas (em um tempo 2 se opera sobre a base das condições obtidas em um tempo 1). Essa possibilidade de gravação é de suma importância para a permanência da estrutura em um meio externo mutável e um meio interno variável.

Tendendo o organismo para o meio ambiente a fim de se adaptar a ele e sobreviver, deverá fazê-lo vencendo resistências. No meio há possibilidades, mas também há inconvenientes e, para enfrentar dificuldades e vencer resistências, é necessário investir energia, é necessário fazer um trabalho que demanda energia. Essa energia disponível estará ocupada nesse trabalho de vencer resistências ambientais. Enquanto não forem superadas essas dificuldades e o trabalho não for finalizado, não haverá novamente energia disponível. As gravações de rastros (memória) permitirão responder sobre a base de experiências anteriores, o que deixará energia livre disponível para novos passos evolutivos. Sem disponibilidade energética não é possível realizar trabalhos mais complexos de adaptação crescente. Por outro lado, as condições ambientais se apresentam ao organismo em desenvolvimento como alternativas de escolha e são também os rastros o que permite decidir diante das diferentes alternativas de adaptação. Além disso, essa adaptação se efetua procurando a menor resistência frente às distintas alternativas e com o menor esforço. Esse menor esforço implica menos gasto de energia. Portanto, além de vencer resistências, trata-se de fazê-lo com o mínimo de energia possível para que a energia livre disponível possa ser investida em novos passos de evolução. Em todo momento evolutivo há transformação, tanto do meio quanto do ser vivo. Eis aqui um paradoxo interessante: a estrutura, para conservar sua unidade, deve transformar o meio e transformar também a si mesma.

Seria errôneo pensar que as estruturas vivas modificam e transformam apenas o meio ambiente, já que este meio se complica crescentemente e não é possível adaptar-se mantendo a individualidade tal como inicialmente foi criada. Esse é o caso do homem, cujo meio, com o passar do tempo, deixou de ser apenas natural para ser também social e técnico. As complexas relações entre os grupos sociais e a experiência social e histórica acumulada compõem um ambiente e uma situação em que é necessária a transformação interna do homem. Depois desse rodeio, em que a vida aparece organizando-se com funções, tropismos e memória para compensar um meio variável e assim adaptar-se crescentemente, vemos que é necessária também uma coordenação (por menor que seja) entre esses fatores, inclusive para a orientação oportuna em direção às condições favoráveis de desenvolvimento. Ao aparecer essa mínima coordenação, surge o psiquismo como função da vida em adaptação crescente, em evolução.

A função do psiquismo consiste em coordenar todas as operações de compensação da instabilidade do ser vivo com seu meio. Sem coordenação, os organismos responderiam parcialmente sem completar as distintas partes compositivas, sem manter as relações necessárias e, por último, sem conservar a estrutura no processo dinâmico de adaptação.

B. Em relação com o meio

Esse psiquismo que coordena as funções vitais usa os sentidos e a memória para a percepção das variações do meio. Esses sentidos, que de muito simples foram se tornando complexos com o passar do tempo (como todas as partes dos organismos), fornecem informação sobre o ambiente, que é estruturada em orientação adaptativa. Por sua parte, o ambiente é muito variado, e para o organismo são necessárias certas condições ambientais mínimas para o desenvolvimento. Ali onde há essas condições físicas surge a vida e, uma vez surgidos os primeiros organismos, as condições vão se transformando de modo cada vez mais favorável para a vida. Mas, de início, os organismos necessitam de condições ambientais ótimas para o desenvolvimento. As variações na troposfera chegam a todos os organismos. Assim, tanto a ciclagem diária quanto a ciclagem estacional, a temperatura geral, as radiações e a luz solar são condições que influenciam o desenvolvimento da vida. Da mesma maneira, a composição da Terra que, em sua riqueza, oferece matéria-prima que será fonte de energia e de trabalho para os seres vivos. Os acidentes que podem ocorrer em todo o planeta são também circunstâncias decisivas para o desenvolvimento orgânico. As glaciações, os desmoronamentos, os terremotos e erupções vulcânicas, até a erosão do vento e da água são fatores determinantes. É distinta a vida nos desertos, nas alturas montanhosas, nos polos ou à beira-mar. São numerosos os organismos e as diversas espécies que vão aparecendo e desaparecendo da superfície terrestre, uma vez chegada a vida dos mares. Muitos indivíduos encontram dificuldades insuperáveis e por isso perecem, o que também acontece com espécies completas, espécies que não puderam se transformar nem transformar as novas situações que foram surgindo no processo evolutivo. Entretanto, a vida, envolvendo muitas possibilidades com grandes quantidades e diversidade, vai abrindo caminho continuamente.

Quando diversas espécies aparecem em um mesmo espaço, surgem distintas relações entre elas, além das que existem dentro da mesma espécie. Há relações simbióticas, de associação, parasitárias, saprófitas, etc. Todas essas relações possíveis podem ser simplificadas em três grandes tipos: relações de domínio, relações de intercâmbio e relações de destruição. Os organismos mantêm entre si essas relações, sobrevivendo uns e desaparecendo outros.

Trata-se de organismos nos quais as funções vão sendo reguladas por um psiquismo que conta com sentidos para perceber o meio interno e o meio externo e com uma memória que não é apenas memória genética de transmissão de características da espécie (os instintos de reprodução e conservação), mas também gravações individuais de reflexos novos que permitem a decisão diante de alternativas. A memória cumpre também com outra função: o registro do tempo; a memória permite dar continuidade frente ao transcorrer. O primeiro circuito de reflexo curto (estímulo-resposta) admite variações em sua complexidade, especializando-se assim os sistemas nervoso e hormonal. Por outro lado, a possibilidade de adquirir novos reflexos dá origem à aprendizagem e à domesticação, especializando também mecanismos múltiplos de resposta, observando-se então um comportamento variável, uma conduta variável no ambiente, no mundo.

Depois de muitas tentativas da natureza, os mamíferos começaram seu desenvolvimento, produzindo casos diferentes e abundantes. Esses mamíferos deram lugar a distintos ramos, entre eles o dos hominídeos de data recente. A partir destes, o psiquismo começa um desenvolvimento específico.

C. No ser humano

Um salto notável se produz quando tem início entre os hominídeos a codificação de signos (sons e gestos). Em seguida, os signos codificados são fixados com mais permanência (signos e símbolos gravados). Esses signos melhoram a comunicação que relaciona os indivíduos entre si e relata questões de importância para eles referidas ao âmbito em que vivem. A memória se amplia e já não é somente transmissão genética e memória individual. Graças à codificação de sinais, os dados podem ser armazenados e transmitidos signicamente, ampliando a informação e a experiência social.

Posteriormente, ocorre um segundo salto de importância: os dados de memória se tornam independentes do aparato genético e do indivíduo, aparecendo a memória dispersa, que vai prosperando, dos primeiros signos em muros e tabuletas de argila até alfabetos que possibilitam textos, bibliotecas, centros de ensino, etc. O aspecto mais relevante desse fato é que o psiquismo sai de si, expressa-se no mundo.

A locomoção também vai se ampliando, graças à inventiva que, por um lado, cria aparatos naturalmente inexistentes e, por outro, domestica vegetais e animais, permitindo o deslocamento na água, estepe, montanha e bosque – das populações nômades até a locomoção e a comunicação que em nossos dias alcança um notável desenvolvimento.

A nutrição se aperfeiçoa da primitiva coleta, caça e pesca até a domesticação do vegetal dos primeiros agricultores. Segue desenvolvendo-se com a domesticação de animais e com progressivos sistemas de armazenamento, conservação e síntese de novos alimentos e sua consequente distribuição.

A reprodução vai organizando os primeiros grupos sociais de horda, tribo e família que, com a instalação em lugares fixos, vão dando lugar a populações rudimentares. Estas, mais tarde, adquirem uma forma complexa de organização social com a participação concomitante de distintas gerações em um mesmo momento histórico e geográfico. A reprodução vai sofrendo importantes transformações até o momento atual, em que já se vislumbram técnicas de produção, modificação, conservação e mutação de embriões e genes.

O psiquismo vai tornando-se complexo, ao mesmo tempo em que reflete suas etapas anteriores. Especializa também aparatos de respostas, como são os centros neuro-hormonais que, de uma original função vegetativa, foram se desenvolvendo até um intelecto de complexidade crescente. Conforme o grau de trabalho interno e externo, a consciência ganhou níveis do sono profundo ao semissono e, posteriormente, uma vigília cada vez mais lúcida.

O psiquismo aparece como o coordenador da estrutura ser vivo-meio, ou seja, da estrutura consciência-mundo. O resultado de tal coordenação é o equilíbrio instável em que essa estrutura trabalha e processa. A informação externa chega ao aparato especializado que trabalha em distintas faixas de captação. Esses aparatos são os sentidos externos. A informação do meio interno, do intracorpo, chega aos aparatos de captação, que são os sentidos internos. Os rastros dessa informação interna e externa e também os rastros das próprias operações da consciência em seus distintos níveis de trabalho são recebidos no aparato de memória. Assim, o psiquismo coordena dados sensoriais e gravações de memória.

Por outro lado, o psiquismo, nessa etapa de seu desenvolvimento, conta com aparatos de resposta ao mundo, respostas muito elaboradas e de distintos tipos (como são as respostas intelectuais, emotivas ou motrizes). Esses aparatos são os centros. No centro vegetativo estão as bases orgânicas das funções vitais do metabolismo, reprodução e locomoção (ainda que esta última tenha se especializado no centro motriz), assim como os instintos de conservação e de reprodução. O psiquismo coordena esses aparatos e também as funções e instintos vitais.

Além disso, no ser humano ocorre um sistema de relação com o meio, que não pode ser considerado um aparato com localizações neurofisiológicas, que chamamos de “comportamento”. Um caso particular do comportamento psicológico na relação interpessoal e social é o da “personalidade”. A estrutura de personalidade serve à adaptação, tendo que se ajustar continuamente a situações distintas e variáveis do meio interpessoal. Essa capacidade de correta adequação exige uma complexa dinâmica situacional que o psiquismo também deve coordenar, mantendo a unidade da estrutura completa.

Por outro lado, o processo biológico que uma pessoa atravessa – desde o nascimento e a infância, passando pela adolescência e a juventude, até a maturidade e a velhice – vai modificando marcadamente a estrutura interna, que passa por etapas vitais de distintas necessidades e relações ambientais (no começo, dependência do ambiente, depois, instalação e expansão no mesmo, tendendo a conservar a posição para, finalmente, afastar-se). Esse processo também necessita de uma coordenação precisa.

A fim de obter uma visão integral do trabalho do psiquismo humano, apresentaremos suas distintas funções que poderiam ser localizadas fisiologicamente1. Também consideraremos o sistema de impulsos capaz de gerar, transportar e transformar informação entre os aparatos.



2. Aparatos do psiquismo2

Entende-se por aparatos as especializações sensoriais e de memória que trabalham integradamente na consciência mediante impulsos. Estes, por sua vez, sofrem numerosas transformações conforme o âmbito psíquico em que atuam.



A. Sentidos

Os sentidos têm por função receber e fornecer dados à consciência e à memória e são organizados de distintas maneiras, conforme necessidades e tendências do psiquismo.

O aparato dos sentidos encontra sua origem em um tato primitivo que foi se especializando progressivamente. Pode-se diferenciar entre sentidos externos, que detectam informação do meio externo, e sentidos internos, que captam informação do interior do corpo. De acordo com seu tipo de atividade, podem ser ordenados assim: sentidos químicos (paladar e olfato); sentidos mecânicos (o tato propriamente dito e os sentidos internos de cenestesia e cinestesia) e os sentidos físicos (audição e visão). Nos sentidos internos, o cenestésico proporciona a informação do intracorpo; há quimiorreceptores, termorreceptores, barorreceptores e outros; a detecção da dor também desempenha um papel importante. O trabalho dos centros é detectado cenestesicamente, assim como os distintos níveis do trabalho da consciência. Em vigília, a informação cenestésica tem um mínimo de registros, já que é o momento dos sentidos externos e todo o psiquismo está se movendo em relação com esse mundo externo. Quando a vigília diminui seu potencial, a cenestesia aumenta a emissão de impulsos, dos quais se tem um registro deformado, atuando como matéria-prima para as traduções que ocorrerão em semissono e no sono. O sentido cinestésico fornece dados do movimento e da postura corporal, do equilíbrio e desequilíbrio físicos.

Características comuns dos sentidos

a) Todos efetuam, em si mesmos, atividades de abstração e estruturação de estímulos, de acordo com suas aptidões. A percepção é produzida pelo dado mais a atividade do sentido.

b) Todos estão em contínuo movimento, varrendo faixas.

c) Todos trabalham com memória própria que permite o reconhecimento do estímulo.

d) Todos trabalham em “faixas”, de acordo com um tom particular que lhes é próprio e que deve ser alterado pelo estímulo; para isso, é necessário que o estímulo apareça entre limiares sensoriais (um limiar mínimo abaixo do qual não se percebe e um limiar de máxima tolerância que, ao ser ultrapassado, produz irritação sensorial ou saturação). Caso haja “ruído de fundo” (proveniente do mesmo sentido ou de outros sentidos, da consciência ou da memória), o estímulo deve aumentar sua intensidade para que seja registrável, sem ultrapassar o limiar máximo para que não haja saturação e bloqueio sensorial. Quando isso acontece é imprescindível fazer desaparecer o ruído de fundo para que o sinal chegue ao sentido.

e) Todos trabalham entre esses limiares e limites de tolerância que admitem variações de acordo com a educação e necessidades metabólicas (onde se encontra a raiz filogenética da existência sensorial). Essa característica de variabilidade é importante para distinguir erros sensoriais.

f) Todos traduzem as percepções a um mesmo sistema de impulsos eletroquímicos, que serão distribuídos por via nervosa ao cérebro.

g) Todos têm localizações terminais nervosas (precisas ou difusas) sempre conectadas aos sistemas nervosos central e periférico ou autônomo, de onde opera o aparato de coordenação.

h) Todos se encontram vinculados com o aparato de memória geral do organismo.

i) Todos apresentam registros próprios, dados pela variação do tom ao apresentar-se o estímulo e no próprio fato da percepção.

j) Todos podem cometer erros na percepção. Esses erros podem ser provenientes de bloqueio do sentido (por exemplo, por irritação sensorial), por falta ou deficiência do sentido (miopia, surdez, etc.). Também por falta de intervenção de outro ou outros sentidos que ajudem a dar parâmetros à percepção (por exemplo, ouve-se algo como se estivesse “longe” e, ao vê-lo, está “perto”). Existem erros de criação artificial, por condições mecânicas, como é o caso de “ver luz” ao fazer pressão nos globos oculares ou a sensação de que o corpo se amplia, ao estar em presença de uma temperatura externa similar à da pele. Esses erros dos sentidos são denominados, genericamente, de “ilusão”.

B. Memória

A memória tem a função de gravar e reter dados provenientes dos sentidos e/ou da consciência; também fornece dados ao coordenador quando é necessário (o ato de recordar). Quanto maior a quantidade de dados de memória, mais opções nas respostas. Nas respostas com antecedentes se economiza energia, ficando um adicional em disponibilidade. O trabalho da memória dá referências à consciência para sua localização e continuidade no tempo. Os rudimentos de memória aparecem na inércia própria dos trabalhos de cada sentido, ampliando-se a todo o psiquismo como memória geral. O átomo mínimo teórico de memória é a reminiscência, mas o registrável é que na memória são recebidos, processados e ordenados dados provenientes dos sentidos e do coordenador em forma de gravações estruturadas. O ordenamento é feito por faixas ou zonas temáticas e de acordo com uma cronologia própria. Disso se deduz que o átomo real seria: dado + atividade do aparato.



Formas de gravação

Os dados são gravados pela memória de distintas formas: por choque, ou seja, por um estímulo que impressiona fortemente; por entrada simultânea através de distintos sentidos; por apresentação do mesmo dado de diferentes maneiras; e por repetição. O dado é bem gravado em contexto e também quando sobressai por falta ou unidade de contexto. A qualidade da gravação aumenta quando os estímulos são distinguíveis e isso ocorre na ausência de fundo de ruído por nitidez dos sinais. Quando há saturação por reiteração, ocorre bloqueio e, quando há habituação, ocorre diminuição na gravação do estímulo. Quando há ausência de estímulos externos, o primeiro estímulo que aparece é gravado fortemente. Além disso, quando a memória não está entregando informação ao coordenador, há maior disponibilidade para gravar. Serão bem gravados os dados recebidos que tenham relação com a faixa temática em que o coordenador está trabalhando.





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