Ao longo da costa atlântica portuguesa, concretamente entre a península de Setúbal e Viana do Castelo, podemos encontrar vário


O Senhor Jesus da Pedra de Óbidos



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3.4 O Senhor Jesus da Pedra de Óbidos
O Senhor Jesus da Pedra de Óbidos, uma cruz em pedra, de data desconhecida, que se assume ter gravada a figura de Jesus Cristo, é celebrado a 3 de Maio, num santuário fora das muralhas da vila de Óbidos. Duas lendas apontam para a descoberta desta cruz «milagrosa»: uma relacionada com um homem injustiçado e a outra com um mau ano agrícola.

“Saberá vossemecê que vivia neste sítio um homenzinho, que andava com uma demanda, em grande risco de a perder porque o seu contrário era pessoa de teres, e tinha comprado os juízes a poder de dinheiro; a justiça era toda do pobre homem mas, como ele tinha a bolsa vazia, o tribunal não lhe entendia as razões, (…) Uma noite (…) ouviu uma voz de dentro de uma pedra dizer-lhe por estas palavras:

-Descansa! Justiça te será feita! (…) quando na manhã seguinte foi tratar do seu negócio, já a sentença estava dada em seu favor! Este caso foi falado em Óbidos, e logo se passou a examinar o sítio do milagre, encontrando-se na pedra que estava escondida entre as carrasqueiras, a imagem do Senhor. Daqui se espalhou a sua fama e virtude, a ponto de se mandar construir aquela igreja do Senhor da Pedra.”90

“A lenda que mais firmemente se tem estabelecido (…) conta que um lavrador escutou uma voz entre um silvado dizendo que não iria chover enquanto não se venerasse condignamente a imagem. Note-se que um dos pontos altos desta situação de crise ocorreu entre 1734 e 1736 com uma grave seca que deixou os campos infrutíferos.

Seja qual for o fundo verídico que possa estar diluído no quadro lendário, o facto é que uma cruz foi encontrada num combro (…), junto à antiga estrada que ligava esta Vila à de caldas da Rainha (…). Tomando-se conhecimento deste fenómeno, de imediato se organizou uma procissão (…) Chegados ao local onde se encontrava a imagem, aí rezaram (…) Pouco tempo depois choveu abundantemente, sendo um ano de boas colheitas.”91

O santuário do Senhor Jesus da Pedra de Óbidos destaca-se no enquadramento paisagístico pela sua arquitectura: um círculo exterior com um interior em forma de hexágono. Mas apesar de neste local esta construção ter algum impacto paisagístico, não nos podemos alhear do facto de esta planta arquitectónica não ser a única no nosso país. São vários os templos religiosos que apresentam este tipo de planta circular ou centrada, com um interior em forma de hexágono. Só no nosso estudo podemos apontar os templos do Senhor Jesus das Cruzes em Barcelos, o Senhor Jesus da Pedra em Gulpilhares e o do Senhor das Barrocas; todos eles construídos no período barroco.


Relativamente a este aspecto Sérgio Gorjão clarifica: “Com o Concílio de Trento, seguiu-se um período de forte regulamentação do espaço destinado ao culto, nomeadamente com as recomendações da Sessão XXV e com as Instruções de S. Carlos Borromeo, que pretendiam acabar com qualquer tipo de sugestão ao humanismo renascentista, glosando sobre o simbolismo das formas planimétricas, promovendo a eliminação das plantas em cruz grega, em quadrado, em triângulo (ou com triângulos inscritos) ou ainda em círculo já que, sobretudo os dois últimos, têm uma clara significação antropocêntrica nas teorias neoplatónicas. Além das limitações emanadas do concílio tridentino, também outros diplomas eclesiásticos de âmbito nacional, desde meados do séc. XVI, assumem uma posição de «controlo» das novas edificações ou reedificações que, obrigatoriamente, teriam de subir à aprovação episcopal. Contudo, na prática, o Concílio não consegue eliminar radicalmente o uso da planta circular ou centrada, apenas a afasta das grandes obras de maior erudição numa primeira fase, relegando este tipo de construção para segundo plano. (…) A manutenção deste tipo de plantas em Portugal deve-se a diversos factores: por um lado, o facto de ser um país periférico, fez com que os cânones tridentinos chegassem muito mais lentamente sem o peso que poderiam ter em outras áreas da Europa; depois porque este tipo de planta deveria ter um dispêndio de construção bastante reduzido quando aplicado a pequenas capelas ou ermidas; por último, porque os próprios arquitectos não abandonaram em definitivo este tipo de programa que se adaptava bastante aos seus exercícios arquitectónicos.”92
Moisés Espírito Santo também apresenta uma explicação para este tipo de construção (a propósito do Senhor Jesus da Pedra de Gulpilhares) e refere: “ A forma hexagonal da capela assente num antigo local de culto «pagão» corresponde ao perímetro do emblema solar formado por dois triângulos cruzados, um emblema do Sol por referência à divindade Baal Seiman, Senhor Sol. O perímetro hexagonal sobre o qual assenta a capela de Gulpilhares seria a «casa do sol».”93.
Estamos pois perante um elemento cultual característico das religiões fenícia e hebraica. Podemos então considerar a possibilidade da transferência de um elemento de um culto antigo – um traçado de um templo – para o culto cristão. Não nos parece de forma alguma que as explicações de Sérgio Gorjão e de Moisés Espírito Santo, para este tipo de construção arquitectónica, sejam contraditórias, mas sim complementares.
O culto religioso na cultura popular portuguesa, por norma, proporciona a realização de uma feira junto ao templo onde se homenageia a entidade divina. A nossa observação no terreno comprovou tal fenómeno social. Tal não se verificou apenas no Senhor das Barrocas, em Aveiro, mas, ao que tudo indica, o culto aí parece estar actualmente extinto. Em Óbidos, a data escolhida para a festividade religiosa em honra do Senhor Jesus da Pedra e para a realização da feira foi o dia três de Maio, dia da Invenção da Santa Cruz.94.
No dia 3 de Maio de 2005 dirigimo-nos ao local com o intuito de observar este contexto social concreto. Às onze horas realizou se uma missa celebrada por dois padres; o número de participantes rondava as cinquenta pessoas com idades superiores a quarenta anos. Na homília proferida durante a missa um dos padres deu especial enfoque ao dia da Invenção da Santa Cruz; não nos apercebemos que se tenha feito referência alguma ao Senhor da Pedra
Cá fora, no adro da igreja, perguntámos a algumas pessoas por que motivo havia naquele dia uma feira e uma missa. Algumas desconheciam esta celebração, apenas iam à feira. Outras disseram-nos que todos os anos se realizava, no dia de três de Maio, a feira da Santa Cruz. Nenhuma alusão ao Senhor da Pedra foi feita. A feira da Santa Cruz caracteriza-se pela venda de produtos e alfaias agrícolas, roupas, calçado e outros bens de consumo.

3.5 O Senhor Jesus do Carvalhal

Próximo de Óbidos, no concelho do Bombarral fomos encontrar o santuário do Senhor Jesus do Carvalhal. O seu aparecimento neste lugar está associado a uma lenda que conta que:

Em tempos idos, ao largo de Peniche, deu à costa uma caixa onde se encontrava um Cristo crucificado. Um pescador decidiu retirá-lo da beira-mar e transportou-o até este local. Diz-se que daqui não avançou, uma vez que a imagem se tornou demasiado pesada.

Inicialmente existia neste espaço uma ermida dedicada a S. Pedro; aquando o terramoto de 1755, esta ruiu sendo então construído o actual santuário. À antiga designação S. Pedro acrescentou-se-lhe a de Senhor Jesus do Carvalhal, uma vez que neste lugar também existia uma imagem de Jesus Cristo crucificado – símbolo de grande devoção na zona oeste.


O santuário do Carvalhal, desde o século XIX, serve de apoio ao culto a S. Pedro e ao Senhor do Carvalhal. Recentemente, também se organizam celebrações religiosas em honra de Nossa Senhora de Fátima. As principais manifestações religiosas que aqui ocorrem relacionam-se com as datas festivas de cada uma destas entidades divinas. Assim, a festa principal da paróquia realiza-se a 29 de Junho, no dia de S. Pedro. No 5º domingo da Quaresma realiza-se a procissão do Senhor dos Passos. A festa em honra a Nossa Senhora de Fátima comemora-se a 13 de Maio.
No ambiente cultual vivido neste santuário, são ainda de destacar os círios que, de Maio a Novembro, aqui se deslocam. Provenientes de locais relativamente próximo do santuário (Casal das Oliveirinhas, Merendeiro, Rijo e Campainhas, Ribeira de Palheiros, Marquiteira, Adão-Lobo, Seixal, Carvalhal, Maxial, Ferrel, Campelos, Cabeça da Gorda, Bolhos e Papagôvas, Carrasqueiras, Sobral do Parelhão e Atouguia da Baleia), vêm com o objectivo de louvar e agradecer ao Senhor Jesus do Carvalhal as graças concedidas. Ao chegar a este templo, uma criança vestida de anjo canta as “Loas”. José Leite de Vasconcelos faz referência ao “Círio de Adão Lobo: Vai ao Senhor Jesus do Carvalhal. Antigamente iam anjos e distribuíam loas. Saíam da capelinha, e o modo de condução era o carro de bois. O pequeno templo caiu em ruínas, e passaram a sair do largo do lugar. Reconstruída a capela, a partida voltou a ser de lá, segundo o costume, ao meio-dia e a chegada pela tardinha. Agora o percurso é de trem e de automóvel; ninguém vai a pé.”95.
Desde o século XIX tem havido a preocupação de construir infra-estruturas que proporcionem o bem-estar dos romeiros. Este santuário é dotado, para além da igreja, de casas de romeiros, coreto, adro da igreja e amplo parque arborizado.

3.6 O Senhor Jesus das Chagas
À semelhança dos Senhor Jesus Irmãos localizados no norte do país, concretamente o Senhor das Cruzes, o Senhor Bom Jesus de Fão e o Senhor de Matosinhos, também o Senhor Jesus das Chagas deu à costa vindo de terras distantes, sem um braço. A lenda também coincide no que diz respeito à reposição do braço na imagem: uma velhinha, andando à lenha para se aquecer, encontrou o braço que faltava para completar a imagem, mas não se apercebeu de tal facto e deitou-o à fogueira. Contudo, este não ardeu - chega-se mesmo a relatar que este saltou do lume repetidas vezes. É então que surge a revelação: o braço pertence ao Senhor Jesus.
Tal como em alguns mitos de origem referidos anteriormente, esta imagem foi lançada ao mar para ser salva das profanações do local onde inicialmente se encontrava. A do Senhor Jesus das Chagas de Sesimbra diz-se que provém de Inglaterra. “Tradicionalmente a «aparição» deu-se no século XVI (a escultura da Imagem, magnífica, é deste século); surgida na praia junto à pedra, a nascente da fortaleza de Santiago, a Imagem teria sido transportada para o terreiro onde hoje é o jardim, e aí lhe teriam armado uma capela. (…) Da improvisada capela teria um dia sido levada para a capela da Misericórdia”96.
Quanto ao início do culto ao Senhor Jesus das Chagas, na sua forma actual, Rafael Monteiro esclarece: “Pouco depois de 1755, o Prior da Matriz dizia que na Capela da Misericórdia, no altar do lado direito (lado da epístola), se encontrava a milagrosíssima Imagem do Senhor Jesus das Chagas – não sabendo nós se o superlativo referia o aparecimento, ou milagres obtidos por sua intercessão. (…) de tudo quanto conhecemos sobre Sesimbra, só no século XVIII encontremos notícia segura do culto ao Senhor das Chagas.”97.
A data de celebração do Senhor das Chagas é o dia 3 de Maio; a propósito deste dia o mesmo autor apresenta a seguinte explicação: “ que é, no calendário litúrgico, o dia da festa da Invenção da Santa Cruz, «milagre» minuciosamente relatado no século XIII pelo dominicano Jacques de Voragine, dando-o como acontecido no século III, nele tendo lugar primacial, Helena, mãe de Constantino, que dá a seu filho, após o achamento da Cruz, parte daquele santo lenho, como relíquia preciosa. Tal relíquia, depois de muito partilhada no mundo cristão, acompanha, em relicário e sob o pálio, a Imagem do Senhor Jesus das Chagas durante a procissão.”98.
Como é característico na religião popular portuguesa, as festividades em honra a uma entidade religiosa prolongam-se por mais de um dia estando a elas associadas uma feira. O mesmo sucede com o Senhor Jesus das Chagas. Em 2004, o seu início ocorreu, a 11 de Abril, com a procissão da imagem do Senhor Jesus das Chagas da Capela da Misericórdia para a Igreja Matriz de Santiago. Desde este dia até ao dia 4 de Maio, dia da «grandiosa procissão com a imagem do Senhor das Chagas», decorreram diversas iniciativas de componente religiosa – missas, novenas, cumprimento de promessas – e de componente profana – recital de poesia, feira, concertos, exposições fotográficas, fogo de artifício, entrega de condecorações municipais.
A «grandiosa procissão do Senhor das Chagas» assume principal destaque no quadro festivo deste Cristo Crucificado. A 4 de Maio, a imagem regressa à Capela da Misericórdia. O percurso, de acordo com os testemunhos orais recolhidos, é o mesmo que já se fazia no século XVIII, ocorrendo seis paragens: duas para abençoar a terra e quatro para abençoar o mar. Algumas ruas são cuidadosamente decoradas com alecrim no chão e com colchas nas janelas, quando a imagem passa são lançadas pétalas de rosas.

*
Após a apresentação deste conjunto de Senhor Jesus existentes na orla costeira do território português, podemos constatar a presença de elementos comuns a vários níveis. Quanto ao conteúdo lendário, a semelhança é de tal forma evidente que se criaram laços de parentesco entre os vários Senhor Jesus. Uma breve análise cronológica permitiu-nos concluir que esta convergência se perde nos tempos. De acordo com as respectivas lendas, a imagem do Senhor de Matosinhos foi lançada ao mar por Nicodemus, a de Sesimbra por ordem de uma rainha de Inglaterra. Outras houve que se encontravam em silvados e falaram afim de serem encontradas. Mas estamos perante narrativas cujas fontes se baseiam na tradição oral e cujo conteúdo não se apresenta sustentável para a explicação do aparecimento destes cultos ao longo da costa atlântica. Como explicar então o aparecimento destes cultos?


Há ainda que considerar que em alguns casos a estrutura arquitectónica é semelhante, caso do Senhor das Cruzes em Barcelos, do Senhor das Barrocas em Aveiro e do Senhor da Pedra em Gulpilhares e em Óbidos; noutros a convergência verifica-se a nível da data de celebração, nomeadamente o Senhor das Cruzes, o Senhor da Pedra de Óbidos e o Senhor das Chagas que se festejam a 3 de Maio. No que diz respeito ao contexto histórico, todos os cultos, incluindo o culto do Senhor dos Milagres, tiveram grande incremento no período barroco.
Por culto entendemos o conjunto de práticas e comportamentos, sobretudo de carácter colectivo, por meios dos quais o ser social se relaciona com aquilo em que acredita. É através do culto que o ser social intensifica a sua religiosidade e estreita laços de solidariedade com aqueles com quem partilha as mesmas crenças. Deste modo, facilmente deduzimos, que o culto é composto por duas vertentes: a vertente ideológica que representa o conjunto de conceitos e crenças do indivíduo e que, eventualmente, se vai desenvolvendo e aprofundando; e a vertente social que cauciona a vertente ideológica, actuando como entidade reguladora tendo por base uma organização própria (a própria comunidade).
Neste sentido, verificamos que o culto prestado ao Senhor Jesus é convergente de Barcelos a Sesimbra. As manifestações religiosas, nomeadamente os rituais: missas, pagamento de promessas, procissões, relacionamento com a imagem, são semelhantes. E a componente designada de profana também é coincidente, dado que em todos os locais, à excepção de Aveiro onde o culto se apresenta como extinto, ocorrem actividades de carácter lúdico e festivo.
Moisés Espírito Santo remete-nos para a cultura fenícia ou púnica na Península Ibérica e esclarece: “ Os Fenícios são sobretudo conhecidos pelas suas actividades mercantis, facto que contribui para que os historiadores esqueçam todas as outras suas obras como civilizadores da bacia mediterrânea e como povoadores. O facto de nunca terem constituído um estado e de conceberem apenas uma vida política no seio de cidades autónomas leva os historiadores, mais interessados nas instituições estatais do que nos povos donde emanam os estados, a passarem sob silêncio a civilização fenícia. Também é um facto que, apesar da sua obra civilizadora, a Fenícia evoca sobretudo uma cultura e uma religião específicas. Reconhece-se em Portugal a sua influência, identificaram-se as suas escalas, mas como lugares de «passagem»; dissociar o estabelecimento de feitorias comerciais durante dois ou três milénios das acções de povoamento e de civilização das regiões onde se estabeleceram essas relações mercantis, é tão acertado como dizer que os Portugueses (durante três séculos, não três milénios) instauraram feitorias na costa de Angola e do Brasil e que, fechadas as feitorias, partiram para parte incerta ou desapareceram.”99.
Especial atenção deve ser dada aos Fenícios uma vez que este povo é considerado o povo fundador da Idade Histórica da Europa. Como afirma Moisés Espírito Santo: “Se entendermos que o princípio do homem histórico data do dia em que manuseou a escrita, temos que admitir que foram os Fenícios quem inaugurou a data histórica da Europa.”100
Ao fixarem-se na Península Ibérica, os fenícios, diz J. Mattoso, “No plano social, foram responsáveis pelas primeiras formas de escrita e, naturalmente, pela emergência local do conceito de cidade, com todas as implicações de âmbito político e social que tal conceito acarreta. Finalmente, no âmbito religioso, trouxeram à Península Ibérica novos ritos, novos deuses e novas formas de lhe prestar culto.”101 Neste domínio encontramos Tammuze, para os assírios e fenícios, ou Dommuzi, para os sumérios, representando um deus – filho sacrificado na Primavera para salvar a humanidade e que foi reconduzido à vida pela sua mãe Istar ou Astarté.
Conhecido por ser a terceira pessoa da tríade suméria e fenícia, filho (ou esposo) de Ishtar, também designada por Astarté, a sua origem remonta ao milénio III A.C. O seu nome significa «verdadeiro filho das águas profundas»; o animal que a ele surge associado é o peixe, simbolizando a água. De acordo com o mito de origem, Tammuze ensinou os humanos a cultivar as terras e a pescar; transmitiu-lhes também a noção de sacrifício altruísta. Este deus era cultuado com choros. (Posteriormente estes prantos vão ver a sua continuidade na Semana Santa, em Sevilha.)
Este culto, que os gregos posteriormente designaram de Adónis, teve grande incidência na Península Ibérica. Nas feitorias fenícias invocava-se o renascimento deste jovem deus, morto por um javali e salvo por Ishtar que o lavou com a Água da Vida. As celebrações, compostas por prantos, decorriam entre as ceifas e as vindimas, pois foi nessa altura que este jovem deus foi sacrificado e trazido à vida.
Uma breve comparação entre o mito de Adónis e a vida de Jesus Cristo permite-nos encontrar elementos comuns. Ambos tiveram vivências relacionadas com a água; ambos propagaram a mensagem de sacrifício altruísta. Já no final das suas vidas morreram sendo sacrificados para depois renascerem.
Neste sentido, e tendo em conta que na religião frequentemente ocorre a transferência das devoções com a integração de elementos do antigo culto, particularmente ao nível da religião popular, podemos afirmar que o actual culto destes Senhor Jesus tem as suas origens no mito de Thammuze ou Dommuzi, também designado por mito de Adónis, de origem fenícia que, não podendo expô-lo aqui, remetemos os leitores para as obras citadas.


43 José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo, Lisboa, Livros Horizonte, 2004, pág. 258

44 A propósito da noção Condicionalismos Geográficos como condicionadores de cultura, Raquel Soeiro de Brito defende: “Muito se tem falado e discutido sobre a influência das condições geográficas na evolução dos territórios; defendeu-se mesmo um «determinismo geográfico», que Pierre Gourou «mudou», a meio do século, para «possibilismo geográfico»: o meio influencia o homem, para logo de seguida ser por ele influenciado e transformado, na medida das suas técnicas e filosofia. Entre os vários condicionalismos geográficos que afectam uma região, a posição assume um papel de primordial importância.” Raquel Soeiro de Brito, Introdução Geográfica, in José Mattoso, História de PortugalAntes de Portugal, Volume 1, Lisboa, Editorial Estampa, 1993, pág. 19

45 Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões, Lisboa, Livros do Brasil, 2002, pág. 36

46 O mesmo autor propõe o termo hierofania e esclarece: “ O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como qualquer coisa absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o acto de manifestação do sagrado propusemos o termo hierofania.” op. cit. pág. 25

47 Moisés Espírito Santo, A Religião Popular Portuguesa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990, 2ª edição, págs. 97, 98

48 op. cit. pág.134

49 Moisés Espírito Santo, Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa seguido de Ensaio Sobre Toponímia Antiga, Lisboa, Assírio e Alvim, 1988, pág. 165

50 José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa vol. III, Lisboa, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1980, págs. 356, 357 a propósito da antiguidade desta actividade escreveu: “ A pesca tem, como a navegação, uma longa e antiquíssima história. (…) Em Portugal a pesca tem velhíssimas tradições. Na Idade Média, juntamente com a caça, formava o modo de vida de inúmeras pessoas das classes inferiores. Hoje em dia, quanto à pesca, ainda é assim.”

51 Cf anexo – Textos dos Evangelhos demonstrativos da presença do mar na vida de Jesus Cristo

52 Relativamente a este conceito Malinowski refere: “cada crença reflecte-se em todas as mentes de uma dada sociedade e manifesta-se em muitos fenómenos sociais. É, por conseguinte, complexa e, na verdade, apresenta-se à realidade social com uma variedade extraordinária, muitas vezes confusa, caótica e elusiva. Por outras palavras, existe uma «dimensão social» para uma crença, que deve ser cuidadosamente estudada; a crença deve ser analisada à medida que se movimenta nesta dimensão social; deve ser examinada à luz dos diversos tipos de mentalidade e das diversas instituições em que pode ser localizada.” Bronislaw Malinowski, Magia, Ciência e Religião, Lisboa, Edições 70, 1988, pág. 257

53 Mircea Eliade, Aspectos do Mito, Lisboa, Edições 70, 2000, págs 144 a 146

54 Por mito entendemos: narrativa de acontecimentos da autoria de deuses, de heróis (humanos) ou de seres sobrenaturais que esclarece a origem e o destino do mundo, da humanidade, de um grupo ou das forças divinas. O mito é o objecto de uma crença colectiva e participa na estruturação e organização social de um grupo, ou sociedade. Pelo seu valor simbólico, o mito distingue-se da lenda (narrativa onde as atitudes e gestos de uma personagem histórica real são embelezados e amplificados) e da fábula ou da alegoria (que têm como principal objectivo retirar da narrativa uma lição moral).

“Preenche uma função sui generis intimamente relacionada com a natureza da tradição e a continuidade da cultura, com a relação entre a idade e a juventude e com a atitude humana para com o passado. Em breves palavras, a função do mito é fortalecer a tradição dotando-a de maior valor e prestígio, remontando a uma maior, melhor e mais sobrenatural realidade dos acontecimentos iniciais. Deste modo, o mito é um ingrediente indispensável a toda a cultura. É, como vimos, constantemente recriado; cada mudança histórica gera a sua mitologia, que, no entanto, apenas se relaciona indirectamente com o facto histórico. O mito é um constante derivado da fé viva, que carece de milagres; de estatuto sociológico, que exige antecedentes; de norma moral, que requer sanção.” Bronislaw Malinowski, op. cit., pag. 152




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