Análise crítica – comparativa entre o “velho do restelo”



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ANÁLISE CRÍTICA – COMPARATIVA ENTRE O “VELHO DO RESTELO” (CAMÕES) E “REI LEAR”(SHAKESPEARE)

Beatriz Teixeira Fiquer


INTRODUÇÃO: Rei Lear
O Rei Lear - provavelmente escrito no final de 1605 ou no início de 1606 – é considerado pela crítica literária umas das quatro mais importantes obras do autor (as demais são Hamlet, Otelo e Macbeth) e conta a história de um rei, o rei da Bretanha Celta, que decide dividir seu reino entre suas três filhas, usando como critério de divisão o valor da lisonja que estas lhe fariam.

Pode-se dizer que Rei Lear mostra a fragilidade das relações humanas, e a que ponto é possível chegar para obter o que se deseja, que atrocidades são possíveis cometer para alcançar tão sonhados altos postos.



PONTOS EM COMUM COM O “VELHO DO RESTELO”





  • Shakespeare liga-se a um ato de transgressão contra a natureza: não há nada de errado em dividir seu reino entre as filhas: onde ele erra, onde transgride a natureza, é na recusa em compreender o justo amor de Cordelia, preferindo acreditar nas bajulações de Goneril e Regan, e deserdando a caçula;

  • Glaucester (conde): perde visão e filho legítimo (Edgar) por acreditar no filho bastardo e ambicioso, Edmund. Este, personagem maligno de conduta fingida, luta para alcançar o patamar social que o seu ciúme clama: quer igualdade de direitos com Edgar.

Edmund ganha a confiança das personagens para então as destruir, seja opondo Glaucester a Edgar, seja opondo Goneril a Regana, e mesmo Goneril ao Duque de Albânia; ou seja, ele trabalha uma rede de intrigas que garanta a sua almejada ascensão;

  • O erro de Lear desagrega a família, mas também abala o Estado, resultando em guerra civil, enquanto a grande guerra central, da tempestade, reflete o abalo da natureza;

  • Bobo da Tragédia: mais do que a de ser engraçado, a função do personagem é a de servir de consciência de Lear até este, depois da crise na tempestade, passar a ter ele mesmo consciência de seus atos. Até então, o Bobo não deixa, em momento algum, que o rei esqueça do engano que cometeu e de seu erro em relação a Cordelia. Todas as suas graças tem significado maior e são, via de regra, bastante cruéis para com o rei. Porém, no momento que o Bobo deixa de ser necessário – já que Lear passa a ter consciência de seus atos – ele pura e simplesmente desaparece.

  • Ambição de Cornwall ( marido de Regan) e Edmund.


INTRODUÇÃO : Os Lusíadas – Velho do Restelo
Os Lusíadas foi publicado em 1572, no auge do Renascimento literário em Portugal. A viagem de Vasco da Gama e sua descoberta do caminho marítimo para as Índias, entre 1497 e 1498, são o motivo central deste poema épico, através do qual Camões conta os grandes feitos da história de Portugal.

Todavia, imaginar que todo o compêndido d’Os Lusíadas trata pura e simplesmente da exaltação do povo português não é correto.



Analisando – se as falas do velho do Restelo pode-se compreender que o amor à pátria que levou o povo português a “aventurar – se” pelo mar desconhecido, na verdade nada mais é do que uma forma de justificar os reais motivos (ganância, cobiça, busca da fama por vaidade) que movem os argonautas a enfrentarem o mar que poderia ser seu aniquilamento, isto é, almejavam a glória, a fama de tornarem-se um povo heróico e viverem como “reis do mundo” ao passo que estariam buscando a morte, a destruição. Então, como poderiam viver a glória, ser um povo consagrado, ao mesmo tempo que todo esse povo estava sendo aniquilado? Seria como que se para obter a glória precisasse ser destruído.


PONTOS EM COMUM COM “REI LEAR”





  • Conflito de mundo com a natureza: homem insensato, descontente, almeja ser “Deus”: pecado da soberba, pois Deus é o conhecedor de tudo e de todas as verdades, o rei supremo que nos fez a sua imagem e semelhança. Assim, uma vez que o homem quer se aventurar pelo mar desconhecido, tornar-se conhecedor dos mistérios,está querendo ser Deus, e como se isto fosse um desafio do homem, Deus castiga- o com as tormentas e mortes que recaem sobre o povo português.

  • Povo ignorante e tolo, pois se ilude com a fama, é incentivado a enfrentar o mar desconhecido. É manipulado pelos reis que usam a ilusão (de ser um povo famoso, heróico e glorioso) como arma para induzir o povo a arriscar-se na busca do desconhecido.

  • A ambição gera inquietação da alma do povo, angústias e perturbações por causar abandonos e adultérios que destroem fortunas e Estados, podendo, assim, ser tida como pecado da ambição e da luxúria (devido aos adultérios). Essa mesma ambição causa, em suma, a destruição do povo português.

  • O Velho do Restelo é a consciência d’Os Lusíadas. Pode ser entendido como o contraponto à glorificação das navegações portuguesas narradas por Camões, isto é, no momento do ápice da narrativa, a passagem do velho do Restelo é a voz contraditória, que surge à aventura que Camões pretende glorificar. É como se mostrasse o lado obscuro dos grandes feitos portugueses, ou seja, a viagem e todo o desígnio que ela enfeixa aparecem como um desastre para a sociedade portuguesa: o campo despovoado, a pobreza, os homens mortos, e , por toda parte adultérios e orfandades.

Embora este ponto seja o que mais interessa na comparação deste trabalho, este episódio pode representar a expressão das idéias camonianas, divididas entre o Humanismo pacifista (condenação enfática da guerra, de acordo com o ponto de vista humanista, que era antibelicista), e o belicismo dos ideais da cavalaria e das Cruzadas, cujo espírito muito influenciou a visão camoniana de seu país.

COMENTÁRIOS


Analisando os pontos em comuns pode – se dizer que:

  1. Em ambas as obras há um conflito com a natureza;

  2. Várias pessoas (ou até mesmo uma nação inteira!) são ludibriadas por alguém (Edmund) ou algo (fama, glória), tendo como conseqüência a destruição, seja esta de uma única pessoa, de uma família ou de uma nação;

  3. O erro do Rei Lear destrói sua família e é responsável por uma guerra civil. N’Os Lusíadas, o erro dos homens - reis que iludem os lusitanos e sua ganância em obter o poder e glória - destrói o povo português que também torna–se ganancioso;

  4. Nas duas obras, há uma “consciência”: o Bobo é a consciência do rei insano, e o velho do Restelo é a consciência d’Os Lusíadas.

  5. Em ambas as obras há uma ambição pelo poder. Essa ambição pode ser exemplificada, em Lear, com Edmund e o Conde de Cornwall que fazem de tudo (conspirar, mentir, trair, e até matar) para atingir seus objetivos, e, no velho do Restelo, pelos reis que querem novas terras, riquezas, glórias e para tanto convencem todo um povo a pensar e agir de forma que passam a ser tão ambiciosos e soberbos quanto os reis.



RELAÇÃO COM OS DIAS ATUAIS

As fraudes, guerras violentas (como a do Iraque recentemente), disputas pelo poder, são comprovações que séculos se passaram, mas o comportamento humano, do ponto de vista da ambição e da cobiça, continua o mesmo, afinal, os tempos mudaram, a tecnologia avançou mas a mesquinhez e a vontade de ser, de certa forma, “o rei do mundo” permanece nos povos como é o caso dos E.U.A




BIBLIOGRAFIA

BELETTI, Silmara e BARBOSA, Frederico. Inês de Castro e o Velho do Restelo com explicação estrofe por estrofe. 1ª ed. Ed. Landy, 2001

BÍBLIA SAGRADA: Eclesiastes Cap. 1, vers. 2 e Cap. 7, vers. 5

CAMÕES, Luiz Vaz de. Os Lusíadas. 1ª ed. São Paulo: Klick, 1999.


HELIODORA, Bárbara. Falando de Shakespeare. 1.ª ed. Campinas: Ed. Perspectiva, 1998


MORE, Thomas. A utopia. Ed. Martin Claret, 2001

PEREIRA, João Frayze. O que é loucura. 10.ª ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2002. (Coleção primeiros passos)

SARAIVA, Antônio José et al. História da literatura portuguesa. 16.ª ed.. Porto (Portugal) Ed.Porto

SHAKESPEARE, Willian. Nota biográfica in: Hamlet; tradução de Mário Fondelli. RJ: Clássicos econômicos Newton, 1992.

SHAKESPEARE, Willian. Rei Lear; tradução Bárbara Heliodora. RJ: Lacerda Editores, 1998.

Teatro de Rei Lear com Raul Cortez – São Paulo, 2001.

THOMPSON, Ann. The critc’s debat. 1ª ed. Ed. Macmillan UK, 1988

Sites:


www.terra.com.br/ voltair/cultural/Shakespeare

www.madri.f2s.com
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