Anatomia e couraça muscular do caráter ricardo Amaral Rego introduçÃO



Baixar 68.21 Kb.
Encontro24.10.2017
Tamanho68.21 Kb.

ANATOMIA E COURAÇA MUSCULAR DO CARÁTER *

Ricardo Amaral Rego **

INTRODUÇÃO

Desde há 20 anos, já aos meus primeiros contatos com a obra de Reich e com trabalhos nela baseados, tem havido um enorme fascínio pela possibilidade de trabalho na interface mente-corpo, e ao lado disso uma grande admiração pela genialidade de Reich, que abriu as portas desse novo mundo. Entretanto, também desde o início, algumas concepções do campo reichiano me pareciam um pouco difíceis de encaixar com o que me era ensinado na Faculdade de Medicina que eu então cursava. Eram teorias que falavam dos mesmos assuntos que eu estudava nas aulas de Anatomia e outras matérias, e havia muita coisa interessante, útil e perfeitamente coerente com o conhecimento científico. Mas haviam alguns pedaços que não se encaixavam.

No começo, atribuía o problema a mim mesmo: "eu é que entendo pouco de Medicina e de Reich, e quando eu crescer e souber mais, tudo se esclarecer". O tempo passou, e eu passei de estudante-paciente-curioso a psicoterapeuta e depois também professor, e nem tudo se esclareceu. Vem daí uma vontade, quase uma necessidade, de buscar uma melhor coerência na articulação entre estas duas vertentes tão importantes: a ciência biológica e o psicoterapia reichiana.

Uma primeira tentativa foi o meu trabalho sobre bioenergia (1992). Agora, apresento aqui uma discussão sobre a concepção reichiana dos anéis da couraça muscular, principalmente a partir do referencial da Anatomia, da Fisiologia e da Embriologia, mas também tecendo algumas considerações a partir da teoria e da técnica de autores neo-reichianos.

Talvez não seja muito tranqüilo e nem agradável para alguns leitores ver colocados em xeque conceitos antigos e tradicionais.

Quando da apresentação do conteúdo deste artigo em palestras, colhi reações tanto de entusiasmo por ousar desafiar o estabelecido, como de mágoa e raiva por tentar "destruir" o pai Reich. A partir de uma postura amadurecida de examinar, refletir e discutir sem idéias pré-concebidas, ficar logo evidente que não se trata de atacar e destruir, e sim uma tentativa de desenvolver a teoria reichiana.

Tendo em vista a existência de alguns erros de tradução, a discussão foi baseada no texto em português da edição de 1989, cotejada - e corrigida quando necessário - com a edição em inglês (Reich, 1988). O número das páginas referidas em citações corresponde sempre à edição em português.

Finalmente, acredito que o acompanhamento do que ser exposto se tornar bastante difícil sem o aspecto visual, ou seja, sem que se tenha à mão algum livro de Anatomia e Embriologia. Deste modo, recomendo que se providencie isto antes de se iniciar a leitura.



A COURAÇA MUSCULAR DO CARÁTER

Wilhelm Reich foi um dos pioneiros da aplicação à psicoterapia de uma compreensão do ser humano que não dissociasse corpo e mente. Um dos pilares de sua abordagem é a noção de couraça muscular do caráter, onde a musculatura estriada aparece como base para tal concepção integrada.

* Trabalho apresentado IV Encontro Reich no Sedes, 1991.

Publicado na Revista Reichiana 2. Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, 1993, p. 32-54.

** fone (011) 283 3055 - fax (011) 289 8394

R. Alm. Marques Leão 785, S. Paulo, SP CEP 01330 – 010

E-mail: ric.rego@uol.com.br

Segundo ele, "a couraça está  disposta em segmentos, quero dizer que ela funciona de maneira circular, na frente, dos dois lados, e atrás, isto é, como um anel" (p. 331). Tais anéis, em número de sete, estariam dispostos perpendicularmente ao eixo céfalo-caudal do corpo humano. Cada segmento ou anel "compreende aqueles órgãos e grupos de músculos que têm um contato funcional entre si e que podem induzir-se mutuamente a participar no movimento expressivo emocional", sendo que "um segmento termina e outro começa quando um deixa de afetar o outro em suas ações emocionais" (p. 331-2).

Esta concepção é bastante difundida nos meios reichianos e neo-reichianos, e fundamenta inúmeras técnicas psicoterápicas. Entretanto, um exame mais atento dos seus pormenores levanta várias dúvidas, que iremos examinar. Não será discutido o conceito de couraça muscular do caráter, e sim apenas sua disposição segmentar. Também não será objeto de análise a inclusão feita por Reich de órgãos sensoriais e viscerais como integrantes da couraça, nos atendo à discussão dos grupos musculares envolvidos.

A discussão é bastante dificultada pela maneira vaga e pouco precisa com que Reich muitas vezes se refere aos grupos de músculos pertencentes a cada anel. Além disso, também nos deparamos com a questão de se todos os músculos devem ser enquadrados em algum anel, ou se existem músculos que não pertencem a nenhum anel. Pela lógica da concepção reichiana, parece que todo e qualquer músculo deveria ser parte de um anel, pois a existência de músculos "extra-anelares" não parece coerente com o conceito de segmentação das expressões emocionais, a menos que tais músculos fossem desprovidos de significado emocional. Entretanto, dado não haver uma resposta definitiva a esta questão, na discussão a seguir nos limitaremos à análise dos músculos, grupos de músculos, regiões e ações explicitamente mencionados por Reich no trecho em que discute o tema (p. 330-48).



OS ANÉIS DA COURAÇA MUSCULAR

CABEÇA E PESCOÇO

No anel ocular estariam os músculos dos globos oculares, das pálpebras e da testa. Reich menciona ainda a imobilidade dos dois lados do nariz como característica do bloqueio deste anel, e a mobilização e afrouxamento dos músculos das bochechas quando o anel é trabalhado (p. 331).

O anel oral "compreende toda a musculatura do queixo e da faringe, e a musculatura occipital, incluindo os músculos em torno da boca" (p. 332), e sua mobilização pode liberar o desejo de sugar.

O anel cervical abrangeria a musculatura profunda do pescoço, os músculos platisma e esternocleidomastóideo, e a língua. Em relação à última, Reich afirma que "a musculatura da língua liga-se ao sistema ósseo cervical, e não aos ossos faciais inferiores. Isso explica porque os espasmos da musculatura da língua estão ligados funcionalmente à compressão do pomo-de-adão e à contração da musculatura profunda e superficial da garganta" (p. 335).

Na região da cabeça e do pescoço, os seguintes questionamentos podem ser feitos quanto à distribuição da couraça muscular do caráter em anéis:

a) Como parte do anel ocular, Reich menciona os "músculos das bochechas", cuja mobilização provocaria um sorriso peculiar. Apesar de não especificado, parece que isto deve ser entendido em sentido restrito. Ou seja, não todos os músculos que compõem as bochechas, mas apenas aqueles com inserção na região infra-orbital, descrita como pertencente ao anel ocular. Seriam, portanto, o m. zigomático maior, m. zigomático menor, m. levantador do lábio superior, m. levantador do lábio superior e da asa do nariz. Entretanto, estes músculos têm um papel importante na movimentação da boca (sugar, rir, chorar, mastigar). Anatomicamente, a movimentação desta região se dá através de um eixo circular (m. orbicular da boca) entrelaçado por braços radiais, estrutura da qual fazem parte os músculos citados acima (Hollinshead e Rosse, 1991, p. 744-6). Além disso, na definição de Reich, o anel oral inclui os músculos em torno da boca. Deste modo, este grupo de músculos deveria ser enquadrado em ambos os anéis, tanto pela definição de Reich como pela localização e funções, o que contraria a própria definição de anéis vista acima.

b) A função de morder é considerada expressão típica do anel oral. Entretanto, os dois principais músculos responsáveis pela movimentação da articulação temporo-mandibular poderiam topograficamente serem considerados como parte do segmento ocular: o m. temporal, que está ao lado do olho e acima da orelha de cada lado; e o m. masseter, um músculo da bochecha de inserção na região malar e zigomática, e que fica ao lado do grupo de músculos citados no item anterior.

c) Há dois músculos que atuam sobre o nariz e que se originam do maxilar superior: m. depressor do septo e m. nasal (porções transversa e alar). Sua classificação é duvidosa, pois apesar de atuarem sobre o nariz (anel ocular), sua localização parece estar parcialmente no âmbito do anel oral.

d) O músculo occipital enquadra-se no anel oral segundo Reich (p. 332). Entretanto, anatômica e funcionalmente ele está relacionado com o m. frontal, a ponto de ambos serem considerados como partes de um mesmo músculo: ventre frontal e ventre occipital do m. occipitofrontal (Hollinshead e Rosse, 1991, p. 746); venter frontalis e venter occipitalis do m. epicrani (Wolf-Heidegger, 1981, p. 148); ventre anterior e ventre posterior do m. occipitofrontal (Lockhart et al., 1965, p. 153).

e) Existem muitos outros músculos na região occipital cuja inclusão no anel oral é discutível. Em primeiro lugar, os músculos retos e oblíquos da cabeça: são 6 pares de músculos pequenos, descritos anatomicamente como parte da musculatura motora da cabeça e pescoço, e que atuam sinergicamente com os músculos oculares, fazendo com que a cabeça se vire para a direção que se olha (Hollinshead e Rosse, 1991, p. 264-6). Pela localização e função, somos levados a questionar se estes músculos devem ser enquadrados no anel ocular ou cervical, mas parece que não há nenhuma razão para incluí-los no anel oral, a não ser a tentativa de completar um suposto "anel muscular". Note-se que Baker parece se referir a este grupo de músculos quando inclui no anel ocular "os músculos profundos na base do occipital" (Baker, 1980, p. 72). Além destes, existem diversos outros músculos que têm inserção total ou parcial no osso occipital, e que nitidamente fazem parte da musculatura cervical, e não oral: m. reto anterior da cabeça, m. trapézio, m. esternocleidomastóideo, m. esplênio da cabeça, m. semi-espinhal da cabeça.

f) O m. platisma é classificado como parte do anel cervical, mas tem ação na região oral: ajuda a baixar os cantos da boca na expressão de melancolia, e pode puxar a mandíbula para baixo (mantendo a boca aberta) contra resistência (Lockhart et al., 1965, p. 155-6).

g) A língua é uma massa móvel e compacta de fibras musculares entrelaçadas. É composta por músculos intrínsecos, que se inserem no septo lingual ou na mucosa, e pelos músculos extrínsecos bilaterais: m. genioglosso, m. estiloglosso, m. hioglosso. O m. genioglosso nasce do maxilar inferior. O m. estiloglosso nasce da apófise estilóide do osso temporal. O m. hioglosso nasce do osso hióide (Hollinshead e Rosse, 1991, p. 769). Portanto, e contrariamente ao que Reich afirmou, a musculatura da língua tem origem nos ossos da face, exceto apenas o m. hioglosso. Mesmo neste caso, parece inadequado falar que o osso hióide pertence ao "sistema ósseo cervical", sendo na verdade um elemento intermediário entre o pescoço e a mandíbula, como será analisado no próximo item. Quanto às ações da língua, ela está intimamente envolvida nos movimentos de sucção, mastigação, deglutição e fonação, de modo que poderíamos classificá-la no anel oral, no anel cervical, ou em ambos.

h) Os músculos hióideos. O osso hióide tem forma de U e é um osso móvel, não articulado, que serve como plataforma para os movimentos da língua, e para a mastigação, deglutição e fonação. Nele se insere um grupo de músculos que o traciona para baixo (m. esterno-hióideo, m. tireo-hióideo, m. omo-hióideo), um grupo de músculos que o traciona para cima (m. digástrico, m. estilo-hióideo), além de um músculo da língua (m. hioglosso) e músculos do assoalho da boca (m. gênio - hióideo, m. milo-hióideo). Estes músculos têm ação coordenada entre si, e poder-se-ia dizer que representam uma transição topográfica e funcional entre o anel oral e cervical, dessa maneira contradizendo a afirmação de Reich da não influência mútua na expressão emocional dos anéis.

i) A própria fonação não pode ser compreendida ou tratada se pensarmos a boca, faringe e laringe dissociadas entre si. A integração destas áreas é condição imprescindível para o funcionamento normal desta atividade expressiva. Assim, mais uma vez, faz-se praticamente impossível separar estas regiões a nível anatômico, funcional ou clínico.

TRONCO E MEMBROS

O anel torácico compreenderia "todos os músculos intercostais, os grandes músculos torácicos (peitorais), os músculos do ombro (deltóides) e o grupo muscular sobre e entre as escápulas" e a musculatura dos membros superiores. Além disso, "entre as escápulas há dois feixes de músculos dolorosos na região do músculo trapézio" (p. 336-7).

Fazem parte do anel diafragmático o m. diafragma, e "dois feixes de músculos salientes que se estendem ao longo das vértebras torácicas inferiores" (p. 339).

No anel abdominal estariam o m. reto abdominal e "dois músculos laterais (transversos abdominais), que vão das costelas inferiores até a margem superior da pelve". Este anel se completaria nas costas pelas "porções inferiores dos músculos que correm ao longo da coluna (grande dorsal, eretor da espinha etc.)" (p. 346-7).

Como parte do anel pélvico estão "quase todos os músculos da pelve", os mm. adutores da coxa, o m. esfíncter anal, os mm. glúteos (p. 347).

Nestas regiões, encontram-se também músculos e grupos de músculos que não respeitam a idéia de segmentação, de não interferência nos segmentos adjacentes. Examinam-se a seguir os casos mais importantes:

a) O m. trapézio origina-se do osso occipital e coluna vertebral cervical e torácica, inserindo-se na clavícula e omoplata. Tem ações a nível dos ombros e do pescoço, cobrindo portanto dois anéis reichianos, com funções que afetam a ambos de maneira inseparável.

b) O m. reto abdominal é descrito como pertencendo ao anel abdominal. Entretanto, Reich menciona uma tensão no epigástrio como relacionada com o anel diafragmático. Tal tensão não poderia ser causada pelo diafragma, mas sim pelo m. reto abdominal. Além disso, na descrição dos distúrbios do anel pélvico, é dito que "o músculo abdominal acima da sínfise púbica fica dolorido" (ibidem, p. 347). Desta maneira, o músculo citado parece estar relacionado com os anéis diafragmático, abdominal e pélvico, ligando o tórax ao quadril, e não seguindo assim a delimitação segmentar necessária para a caracterização de um anel reichiano. Os músculos oblíquos abdominais (externo e interno) também parecem cumprir esta função de interligação entre o tórax e a pelve.

c) A porção inferior do m. grande dorsal é classificada como parte do anel abdominal. Este músculo origina-se da crista ilíaca, coluna lombar e dorsal baixa, e vai se inserir no úmero. Age principalmente na movimentação do braço, tanto que é descrito nos textos de Anatomia como um músculo da articulação escápulo-umeral (Lockhart et al., 1965, p. 203-5; Hollinshead, 1991, p. 152-7). Influi também na compressão da parte posterior da cavidade abdominal, com efeitos na expiração, micção e defecação. Assim, sua classificação estaria mais adequada dentro do anel torácico, mas ele parece desafiar a segmentação pela localização e pelas ações secundárias, que poderiam levar a considerar sua inclusão no anel abdominal. Além disso, para que o m. grande dorsal aja a nível abdominal, é preciso que outros músculos do ombro imobilizem o braço para que este sirva como ponto de apoio ao invés de mover-se. Ou seja, é necessária uma ação coordenada de dois segmentos para que ocorra esta ação expressiva.

d) Certas funções de grande importância psicológica, e que parecem ser nitidamente pélvicas, como o defecar, o urinar e o trabalho de parto, na verdade dependem grandemente de todos os músculos do anel abdominal e do diafragma. Estes mesmos músculos e outros do anel cervical e oral estão envolvidos no reflexo do vômito, que é utilizado na vegetoterapia reichiana. Encontram-se, portanto, ações expressivas importantes que envolvem ação coordenada e indivisível de vários segmentos.

e) O m. psoas maior tem origem em vértebras torácicas e lombares, inserindo-se no fêmur. Age principalmente no andar e na flexão do tronco. Por sua localização e funções poderia ser classificado tanto no anel abdominal como no anel pélvico.

f) A respiração não se restringe aos anéis torácico e diafragmático. Músculos cervicais (m. esternocleidomastóideo, mm. escalenos, m. trapézio) podem agir na inspiração profunda e na manutenção de um tórax cronicamente inspirado. Músculos do anel abdominal (m. transverso, m. reto abdominal, mm. oblíquos, m. quadrado lombar) também têm influência no processo respiratório, principalmente na expiração. Assim sendo, a respiração envolve músculos de pelo menos quatro anéis, e mesmo que haja uma diferenciação entre o bloqueio torácico e o bloqueio diafragmático, fica difícil separar a influência dos músculos cervicais sobre o tórax, e a dos músculos abdominais sobre a ação do diafragma.

g) O próprio Reich revela a interação anatômica, fisiológica e expressiva entre os diversos segmentos quando trata do reflexo de vômito. Este reflexo, focalizado no movimento do músculo diafragma, mas com participação da musculatura do tórax, abdome, pescoço, garganta e boca, além da musculatura lisa do tubo digestivo alto, tem efeito sobre vários segmentos. Conforme Reich, "a liberação do reflexo de vômito pode mobilizar o segmento oral" (p. 332). "Se o reflexo de vômito começa a agir ou mesmo chega ao ponto de fazer o paciente vomitar, as emoções contidas pela couraça do pescoço são liberadas" (p. 335). "Conseguimos liberar o segmento diafragmático da couraça fazendo o paciente liberar, repetidas vezes, o reflexo de vômito" (p. 344). Ou seja, tudo isso desafia a concepção de anéis isolados entre si quanto ao movimento expressivo emocional.



A MUSCULATURA DORSAL

Este é um caso especial, que merece ser analisado detalhadamente, devido às implicações que serão discutidas adiante.

Esta musculatura se organiza basicamente em torno do eixo da coluna vertebral. A camada mais profunda é constituída por pequenos músculos que ligam as vértebras adjacentes (mm. interespinhais, mm. intertransversários, mm. rotadores curtos).

A camada seguinte é constituída por uma massa muscular que recebe o nome de grupo transversoespinhal, cujas subdivisões recebem nomes específicos. As fibras mais profundas caminham poucas vértebras antes de se inserirem, e as mais superficiais percorrem distâncias maiores, sempre paralelamente à coluna. Os feixes mais profundos e os que nascem na região lombar recebem o nome de m. multífido. As fibras mais superficiais se denominam, conforme a altura, mm. semi-espinhais do tórax, do pescoço e da cabeça. Apesar dos diversos nomes, trata-se de uma massa indivisível anatômica e funcionalmente, que vai da pelve até a cabeça.

Na camada mais superficial o mesmo acontece. Originando-se na pelve, o m. eretor da espinha continua-se por três colunas musculares:

a) uma mais externa, o m. ileocostal (com porções lombar, dorsal, cervical);

b) uma coluna média, o m. dorsal longo (constituído pelos mm. longos do tórax, do pescoço e da cabeça);

c) uma coluna interna (m. espinhal).

A coluna vertebral é o eixo que organiza e integra o organismo. Todos estes músculos, além de outros, funcionam coordenadamente para movimentar a coluna vertebral, ou para fixá-la e possibilitar o movimento de outras partes do corpo, além de auxiliar no equilíbrio postural. Têm participação importante no caminhar e na movimentação da pelve. Agem na movimentação sinérgica do tronco com os olhos e a cabeça. Observa-se que mesmo pequenas distensões destes músculos limitam severamente boa parte dos movimentos corporais.

Pelo exposto acima, pode-se concluir que a coluna vertebral e os músculos descritos formam um todo indivisível, que funciona e se expressa de forma articulada e interdependente. Sua extensão abrange praticamente todos os anéis da couraça muscular, com exceção do anel ocular. Dentro do conceito reichiano de segmentação, talvez até se pudesse pensar esta estrutura como um segmento longitudinal independente dos demais. Mas isso é descartado por Reich com a afirmação de que "os segmentos da couraça têm sempre uma estrutura horizontal - nunca vertical" ... "formando ângulos retos com a espinha dorsal" (p. 332).

Além disso, Reich insiste na idéia de anéis musculares, e coloca como parte do anel abdominal as "porções inferiores dos músculos que correm ao longo da coluna (grande dorsal, eretor da espinha etc.)" (p. 347). Como parte do anel diafragmático, "dois feixes de músculos salientes que se estendem ao longo das vértebras torácicas inferiores" (p. 339). E no anel torácico, "dois feixes de músculos ... na região do músculo trapézio" (p. 337). Ou seja, a unidade anatômica e funcional da musculatura dorsal é desconsiderada para que não se abale o conceito de anéis da couraça perpendiculares ao eixo longitudinal. Talvez não seja por acaso que a minhoca, modelo da estrutura reichiana, não possua coluna vertebral.

DA MINHOCA AO HOMEM

Como foi visto, a idéia de anéis da couraça muscular pode ser contestada pela análise de suas bases anatômicas. Examinemos agora como fica a comparação com a minhoca enquanto modelo de segmentação longitudinal, e também as possíveis bases embriológicas da disposição segmentar da couraça muscular.

Inicialmente, percebe-se que o organismo humano é bem mais complexo e diferenciado do que os anelídeos como as minhocas e os vermes. Entre outras diferenças, os humanos possuem ossos, incluindo uma coluna vertebral, o que permite uma grande variedade de movimentos complexos, envolvendo muitas vezes diversas regiões do corpo simultaneamente. Existem braços e pernas com grande flexibilidade de ações; um equipamento sensorial sofisticado, incluindo olhos, para cujo funcionamento adequado exige-se sinergia de movimentos. Além disso, a postura bípede leva à necessidade de uma integração rápida e precisa dos movimentos que garanta o equilíbrio. Há ainda a musculatura da mímica, com função basicamente expressiva.

Tudo isso reforça a hipótese de que as diversas regiões do corpo humano não são independentes, mas sim profundamente relacionadas e interligadas. O organismo funciona como um todo, e evolutivamente está muito distante de organismos mais simples, nos quais as partes componentes podem funcionar de maneira mais autônoma. Neste sentido, a proposição reichiana de que um segmento pode se expressar sem afetar outros parece não representar a realidade da estrutura e funcionamento do corpo.

De acordo com a concepção de que a ontogênese repete a filogênese, podemos encontrar no embrião humano um estágio semelhante aos anelídeos, um esboço de organismo segmentar. Não seria esta a base de uma possível disposição segmentar da musculatura que se ajustasse à idéia reichiana de anéis musculares? Um exame deste aspecto da questão mostrará que também deste ponto de vista não encontramos fundamentação para tal idéia.

Acompanhando a embriologia humana percebe-se que, ao fim da terceira semana de vida, o embrião desenvolve segmentos chamados somitos, formados por parte do mesoderma. Estes somitos chegam a ser pouco mais de 40, e deles derivam ossos, músculos e derme. Por volta do fim do segundo mês não são mais visíveis, diluindo-se progressivamente na diferenciação dos tecidos e órgãos.

No fim do processo, algumas estruturas ainda apresentam sinais evidentes de sua origem segmentar, como demonstra a inervação da pele. Entretanto, em relação à musculatura o mesmo não se aplica.

Em primeiro lugar, existem muitos músculos que derivam do mesoderma não somítico, como os músculos dos membros superiores e inferiores, e parte da musculatura da cabeça.

A musculatura derivada dos somitos sofre grandes transformações, através da fusão com outros segmentos, da migração e da mudança de direção. Por exemplo, o m. grande dorsal origina-se de somitos cervicais e torácicos, mas se estende até a pelve e região lombar. Os únicos músculos que mantêm a segmentação original são os músculos intercostais e os músculos mais profundos da coluna vertebral. Os demais músculos se originam de mais de um somito (Junqueira e Zago, 1987; Langman, 1982).

O sistema nervoso periférico também não respeita a segmentação estanque. As raízes nervosas têm origem segmentar, mas misturam-se nos plexos nervosos, que são estruturas onde há interligação e entrelaçamento de fibras de diversas origens. Assim, as origens segmentares são como que embaralhadas, de maneira que os nervos periféricos são multisegmentares. Além disso, a similitude de nível de inervação não corresponde aos anéis reichianos, sendo que a musculatura do membro superior tem inervação segmentar semelhante à do pescoço, e na musculatura do membro inferior ela é semelhante à dos músculos abdominais (Lockhart et al., 1965, p. 280). Ou seja, por esse critério os braços fariam parte do segmento cervical, e as pernas do segmento abdominal.

As próprias vértebras, que parecem ser o exemplo mais palpável de segmentação, na verdade são constituídas pela fusão da metade superior de um segmento com a metade inferior do segmento adjacente.

Desta maneira, percebe-se que a segmentação no embrião humano é parcial, e logo se dilui em estruturas mais complexas e interligadas. Além disso, seria de se perguntar se os restos desta segmentação são compatíveis com a segmentação proposta por Reich, já que os cerca de 40 somitos teriam que caber nos sete anéis da couraça.

Aqui também não se observa uma compatibilidade, com músculos pertencentes a anéis diferentes tendo origem e inervação de um mesmo nível embriológico, e músculos de um mesmo anel tendo origem e inervação diversas. Como exemplo do primeiro caso, os mm. escalenos (cervicais), o m. serrátil anterior (torácico), o m. grande dorsal (abdominal), e o diafragma têm origem nos somitos cervicais. No segundo caso, músculos do anel torácico podem ter origem cervical (mm. rombóides) ou torácica (mm. intercostais); e músculos do anel abdominal podem ter origem torácica (m. reto abdominal) ou lombar (m. quadrado lombar, m. psoas ilíaco) (Lockhart et al., 1965, p. 280).

REICHIANOS, NEO-REICHIANOS E OS ANÉIS DA COURAÇA

A forma de psicoterapia proposta por Reich gerou muitos desdobramentos. Existem os reichianos, que continuam a pensar e a trabalhar basicamente dentro dos moldes originais, com algumas modificações, detalhamentos e aperfeiçoamentos. Existem também outras propostas de psicoterapia de abordagem corporal que, embora influenciadas pelo pensamento reichiano, se distanciam do mesmo quanto à teoria e à técnica. Os membros deste segundo grupo têm sido chamados genericamente de neo-reichianos.

Deve-se notar que nenhuma das correntes neo-reichianas mais importantes está fundamentada no conceito de anéis da couraça tal como descritos por Reich. Quanto aos reichianos atuais, a questão dos anéis tem sido tratada de maneira tradicional (Baker, 1980) ou modificada (Navarro, 1987).

Em Baker encontramos o conceito de anéis da couraça muscular, perpendiculares ao eixo da coluna vertebral, e uma descrição dos músculos componentes de cada anel basicamente igual à encontrada no livro "Análise do Caráter". Segundo ele, "cada segmento responde como um todo e é mais ou menos independente dos demais", com a ressalva de que "esta autonomia não deverá ser tomada em termos radicais" (Baker, 1980, p. 68).

Já a abordagem de Navarro parece levar em conta muitas das questões levantadas neste artigo. O conceito de anel da couraça é encontrado muito raramente nos seus livros sobre terapia reichiana (na verdade, apenas uma vez, na página 25 do segundo volume). O termo mais usado é o de níveis da couraça. Segmento é outro nome utilizado, porém sempre afirmando e exemplificando a interdependência dos vários segmentos, e nunca confirmando a tese reichiana de que a expressão de um segmento não se estende a outros. A divisão dos níveis também não segue exatamente a proposta de Reich, sendo que a língua e a fonação estão classificadas no segundo nível (boca), e os membros superiores e a parte alta do tórax no terceiro nível (pescoço). O tórax não é considerado como um nível distinto, sendo a porção superior estudada em conjunto com o pescoço, e a parte inferior em conjunto com o diafragma. Não se encontra em Navarro uma classificação anatômica detalhada da musculatura componente de cada nível. A ênfase é posta na expressão emocional, psíquica e psicossomática relacionada com cada segmento.

Desta maneira, percebe-se que hoje em dia existem propostas (Baker) que preservam quase que integralmente o pensamento reichiano original sobre a questão. Existem outras (Navarro), que preservam a técnica da vegetoterapia segmentar, com algumas modificações mais ou menos importantes na teoria que a embasa. E ainda os neo-reichianos (Boadella, Boyesen, Gaiarsa, Keleman, Lowen), cuja teoria e técnica não estão baseadas na segmentação da couraça muscular ao longo do eixo longitudinal do organismo.

O trabalho com técnicas neo-reichianas mostra claramente que a mobilização não se restringe ao nível transversal trabalhado. Freqüentemente um trabalho de olhos mobiliza o diafragma, ou as pernas, por exemplo. Um trabalho pélvico pode produzir o famoso "bolo na garganta", e a dissolução desse bloqueio levar por sua vez a uma sensação de aperto e angústia no peito. Ou uma massagem na barriga levar a tremores e movimentos involuntários do queixo e dos lábios. Tais cenas são tão comuns para a maioria dos psicoterapeutas reichianos e neo-reichianos que não nos damos conta de que elas contradizem a afirmação reichiana de que s¢ músculos e órgãos do mesmo segmento são capazes de "induzir-se mutuamente a participar no movimento expressivo emocional" (p. 331).

Este fato é incorporado às técnicas de mobilização das várias correntes neo-reichianas, para permitir um trabalho adequado sobre as excitações, pulsações e mobilizações que não se circunscrevem a um só segmento. Na teoria isso também aparece nas diversas maneiras de conceber as couraças e bloqueios corporais.

O ser humano em seu corpo pode ser olhado de várias perspectivas. Uma é a de segmentação transversalmente ao eixo longitudinal: em 7 níveis (e não anéis) como na concepção reichiana; ou em 3 bolsas (cabeça, tórax, abdome-pelve) separadas por diafragmas (pescoço e músculo diafragma) como proposto por Keleman. Outra perspectiva é a da polaridade entre tronco e extremidades (perspectiva núcleo-periferia ou da ameba/medusa), como proposta pela Bioenergética (Lowen, 1982). Ainda dentro da Bioenergética, é possível raciocinar em termos da polaridade entre a musculatura da parte da frente do corpo e a musculatura das costas, uma perspectiva que poderíamos chamar de ântero-posterior. Diversos autores (Boadella, Boyesen, Keleman) trabalham também com uma perspectiva derivada das camadas embriológicas primitivas (endoderma, mesoderma, ectoderma), que poderíamos chamar de concêntrica. Além destas, existem propostas de trabalho corporal como as de Godelieve Struyf-Denys, que derivam de uma concepção de cadeias musculares longitudinais, ou seja, uma forma de perceber a organização da couraça onde os grupos de músculos se disporiam de maneira perpendicular aos anéis reichianos.

O que tudo isso demonstra é a riqueza de possibilidades de compreensão e intervenção sobre um mesmo corpo biológico. Conforme se priorizem grupos musculares transversais, longitudinais ou ântero-posteriores, emergem técnicas úteis e maneiras de ver o ser humano que abrem horizontes. O mesmo ocorre tanto ao se priorizar uma visão das diversas camadas concêntricas de tecidos e órgãos como ao se priorizar uma visão da energia que pulsa entre um núcleo (tronco) e uma periferia (extremidades). Parece claro que, mais uma vez, todas estas abordagens são muito mais complementares do que antagônicas. Parecem fruto de um período inicial onde pioneiros foram desbravando territórios inexplorados e de repente descobrem-se todos vizinhos uns dos outros.



CONCLUSÕES

Reich explicita seu conhecimento de que as manifestações físicas da histeria não seguem a anatomia e fisiologia dos músculos, nervos e tecidos, e sim parecem depender do significado emocional das regiões atingidas. Porém, logo em seguida, ao tratar da couraça muscular do caráter, afirma que "os bloqueios musculares individuais não seguem o percurso de um músculo ou de um nervo; são completamente independentes dos processos anatômicos. Ao examinar cuidadosamente casos típicos de várias doenças, à procura de uma lei que governe esses bloqueios, descobri que a couraça muscular está disposta em segmentos" (p. 330).

Desta maneira, parece que Reich tentou escapar de uma concepção anatômica estreita, mas se prendeu logo adiante a uma teoria que padece, como vimos acima, dos mesmos defeitos básicos.

Creio que a lógica dos bloqueios musculares não deve ser buscada em estruturas periféricas, e sim a partir da compreensão psicodinâmica de regiões e estruturas afetivamente significativas. Isto traduzido para a anatomia e a fisiologia significa caminhar na compreensão do funcionamento das instâncias do sistema nervoso central responsáveis pela integração entre a expressão emocional e a atividade locomotora.

Depois de todos estes questionamentos, abrem-se dois caminhos: manter a idéia de divisão da couraça muscular em anéis, reclassificando os músculos em uma nova divisão mais apropriada; ou abandonar a idéia de segmentação nos moldes reichianos.

Acredito que a segunda via é a mais adequada, já que a idéia da existência de um verdadeiro anel muscular não se verifica pelo menos nos segmentos ocular, oral, torácico, diafragmático e abdominal. E a concepção de segmentos estanques entre si também não se mostrou verdadeira, havendo músculos que são dificilmente classificáveis e que representam estruturas intermediárias ou de transição entre dois ou mais segmentos. Como exemplo maior deste caso está a musculatura paravertebral já discutida, e que perpassa quase todos os anéis, numa massa indivisível anatômica e funcionalmente.

Assim, creio que a concepção da existência, nos seres humanos, de anéis musculares perpendiculares ao eixo céfalo-caudal, constituindo unidades isoladas e não-comunicantes umas com as outras quando participantes num movimento expressivo emocional, deva ser abandonada como anatomicamente inadequada.

Aos que argumentam que o conceito de anéis é funcional e não anatômico, deve ser lembrado que: a) Reich, ao descrever os segmentos, o fez em bases anatômicas, citando os músculos componentes, dizendo que a mobilização de um segmento não chegaria até os músculos de outro segmento, e afirmando que o anel seria um anel mesmo, "na frente, dos dois lados, e atrás" (p. 331); e b) mesmo funcionalmente, percebe-se que não se pode falar de uma segmentação estanque do organismo humano, tendo sido mostrados inúmeros exemplos de ação coordenada e integrada, e mútua influência entre as diversas regiões. Assim, realmente parece que não há espaço para o conceito de anéis musculares. Pode-se sim falar em níveis ou segmentos da couraça, desde que se explicite que isso não implica serem eles estanques e independentes.

Tem-se dito também que os anéis citados por Reich não seriam musculares, e sim "energéticos", correspondendo aos "chakras" das tradições hinduístas. Entretanto, a comparação com textos destas tradições (Muktananda, 1987) revela que esta correspondência é parcial, havendo dois chakras em alguns anéis (ocular e pélvico), e nenhum em outros (oral e diafragmático).

Reich disse que "na disposição segmentar da couraça muscular encontramos o verme no homem" (p. 372). O comportamento de certas pessoas realmente nos faz acreditar na existência de algo de um verme nos seres humanos, mas talvez não exatamente na segmentação do organismo.

Se a teoria dos anéis da couraça muscular parece tão sujeita a questionamentos, cabe perguntar como fica a técnica baseada nessa teoria. Desde a sua formulação, na década de 30, a vegetoterapia vem sendo utilizada, e tem se mostrado eficiente. Pessoalmente já tive a oportunidade de verificar sua eficácia enquanto psicoterapeuta, e também como paciente. Reich afirmou que "uma atitude teórica incorreta conduz, necessariamente, a uma técnica incorreta" (p. 263). Isto é epistemologicamente incorreto, como já foi argumentado e exemplificado em artigo anterior (Rego, 1992), sendo que muitas vezes uma teoria errônea pode embasar atitudes e técnicas adequadas.

A vegetoterapia não depende do conceito de anéis da couraça muscular. Na verdade, basta admitir que certas regiões do corpo concentram possibilidades de expressão emocional, e que a mobilização adequada das mesmas numa certa ordem (na direção céfalo-caudal) pode ser útil em psicoterapia. Literalmente conforme o dito popular, vão-se os anéis e ficam os dedos da vegetoterapia. O que parece ruir sem o conceito de anéis musculares é a sua proposição enquanto única técnica correta de psicoterapia de abordagem corporal. Mas isso não é nenhuma novidade: as diversas correntes neo-reichianas também se mostram eficazes, apesar de abordagens bastante diferentes na prática e na teoria.

Talvez uma das principais lacunas do trabalho baseado no conceito de anéis seja a subestimação do papel psicológico da musculatura ligada à movimentação da coluna vertebral. Daí a validade, e a complementaridade, de concepções como a Bioenergética, que dá grande ênfase técnica à mobilização da musculatura dorsal, através de exercícios de arcos e outros (Lowen e Lowen, 1985).

O que se discute aqui não desmerece a importância do trabalho pioneiro de Reich com a couraça muscular do caráter. Percebe-se que as bases gerais de suas concepções e as técnicas por ele propostas permanecem válidas, e que a visão segmentar do organismo faz sentido (não como a única possível, e sim como uma entre outras abordagens). O que se questiona verdadeiramente aqui é simplesmente o conceito de anéis musculares.

Reich repetidas vezes afirmou em seus escritos que sabia estar pisando em terreno ainda não desbravado, e que suas conclusões teriam que ser testadas, aperfeiçoadas, e mesmo refutadas caso se mostrassem inadequadas. Entendo este artigo não como uma negação da obra de Reich, e sim exatamente o contrário, ou seja, uma contribuição ao seu desenvolvimento e uma afirmação inequívoca de que suas propostas continuam vivas e gerando desdobramentos teóricos e práticos.

Enquanto não se chega a uma adequada fundamentação anatômica e fisiológica do trabalho psicoterápico reichiano e neo-reichiano, acredito ser mais sábio seguirmos o exemplo de Freud. Este tentou inicialmente, em 1895, descrever seus achados em termos neurológicos no seu "Projeto para uma psicologia científica". Entretanto, ao perceber que o que descobrira não era compatível com a neurologia conhecida, desistiu de dar um substrato biológico às suas concepções psicológicas. Já a partir de "A Interpretação de Sonhos", ele falou sempre em um aparelho psíquico, deixando a conexão com a base física do organismo para ser discutida e descoberta posteriormente (Ricoeur, 1977). Como bem pontua Ricoeur, "o 'Projeto' é um adeus à anatomia sob a forma de uma anatomia fantástica. Sem dúvida, a tópica se enunciará sempre na linguagem de uma quase anatomia" ... "mas nenhuma localização das funções e dos papéis atribuídos às instâncias da tópica ulterior será jamais tentada. Deve-se mesmo ir mais longe: essa última tentativa também é o primeiro ato de emancipação da psicologia" (Ricoeur, p. 76- 77).

Do mesmo modo, enquanto psicoterapeutas, o que importa realmente é a imagem corporal, o corpo simbólico, o corpo erótico, o corpo onírico, o corpo virtual no dizer de Briganti (1987), e não o corpo puramente anatômico e fisiológico. A nossa matéria prima imediata é o "corpo psíquico". Certamente devemos caminhar na integração deste corpo virtual com o corpo biológico, real e concreto. E o primeiro passo neste sentido é nos livrarmos corajosamente de concepções inadequadas, admitindo que há muito por se fazer nesse sentido. Se acharmos que já sabemos, não haverá o que procurar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKER, E. F. - O Labirinto Humano. Summus, São Paulo, 1980.

BOYESEN, G. - Entre Psiquê e Soma. Summus, São Paulo, 1986.

BRIGANTI, C. R. - Corpo virtual. Summus, São Paulo, 1987.

FREUD, S. - Projeto para uma Psicologia Científica (1895). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas - 2a. ed., vol. I. Imago, Rio de Janeiro, 1987, p. 303-409.

GAIARSA, J. A. - Couraça Muscular do Caráter. Ágora, São Paulo, 1984.

HOLLINSHEAD, W. H. & ROSSE, C. - Anatomia 4a.ed.. Interlivros, Rio de Janeiro, 1991.

JUNQUEIRA, L. C. & ZAGO, D. - Embriologia Médica e Comparada 3a. ed.. Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro, 1987.

KELEMAN, S. - Anatomia Emocional. Summus, São Paulo, 1992.

LANGMAN, J. - Embriologia Médica 4a. ed.. Ed. Medica Panamericana, Buenos Aires, 1982.

LOCKHART, R. D. et al. - Anatomia Humana. Interamericana, Mexico, 1965.

LOWEN, A. - Bioenergética. Summus, São Paulo, 1982.

LOWEN, A. & LOWEN, L. - Exercícios de Bioenergética. Summus, São Paulo, 1985.

MUKTANANDA, S. - Kundalini. El secreto de la vida 2a. ed.. Ed. Siddha Yoga, Mexico, 1987.

NAVARRO, F. - Terapia Reichiana (2 vol.). Summus, São Paulo, 1987.

REICH, W. - Análise do Caráter. Martins Fontes, São Paulo, 1989.

_________ - Character Analysis 3rd. ed.. Farrar, Straus & Giroux, New York, 1988.

REGO, R. A. - Conceitos de bioenergia. Revista de Homeopatia APH, 57: 3-19, 1992.

RICOEUR, P. - Da Interpretação. Ensaio sobre Freud. Imago, Rio de Janeiro, 1977.

STRUYF-DENYS, G. - Les Chaines Musculaires et Articulaires. Mimeo, Bruxelles, s.d.



WOLF-HEIDEGGER, G. - Atlas de Anatomia Humana 4a. ed..Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro, 1981.



©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal