Ama de lata



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Encontro19.09.2019
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A AMA-DE-LATA E O AMOR QUE DELATA (comentários sobre a distribuição de leite nos postos de saúde de Chapecó)
demerval florêncio da rocha
Os filhos da vaca continuam aí. Agora com respaldo institucional.

De cada 10 mães que adentram um ambulatório de pediatria em Chapecó, para iniciarmos o atendimento de seus filhos a partir desta acolhida - “em que posso ajudar?” - 5 delas laconizam a consulta com esta resposta: - “quero a receita do leite”.

Enquanto de um lado a OMS e o UNICEF intensificam a campanha de incentivo ao aleitamento materno e alguns de nós, com nossos próprios fundos, colaboram para o treinamento e adesão de auxiliares de enfermagem, de outro lado nos abalroa, na contramão, a Secretaria da Saúde, jogando contra o próprio patrimônio. Fomenta o inimigo, provendo-lhe generoso estoque de munição, de “armas biológicas”, ali, juntinho da plebe, para o deleite do guaxismo* (porquanto a ordem do dia, de todos os dias, é justamente esta: dê leite !!). E logo o nosso órgão dirigente, que nos envaidece pela notável qualidade e formação de seus técnicos. Deverei eu alertá-lo para um equívoco ? ou estarei sendo excessivamente mordaz ? Estaremos nós investindo fundo nos futuros cientistas, atletas e artistas da periferia? ou agindo perifericamente para garantir, no fundo (e bem no fundo) os miseráveis de Victor Hugo? Talvez no futuro o ônus social se mantenha e se incremente, enquanto o investimento persistir às avessas.

Fosse eu um homem de posses, já que não sou de letras, pagaria um escritor para criticar nossas aberrações, satirizar nossas [in]decisões. Quiçá lhe encomendasse um artigo, algo tipo literatura de efeito, dessas coisas que nunca tive habilidade para compor. Temo, porém, que o poder abrasivo das palavras torne os olhares distantes e esta página corroída; não obstante em outros papéis outras palavras bastante polidas tenham corrompido o papel do pediatra em autômato provisor de víveres.

Ficaria melhor ao serviço público contratar mil amas-de-leite do que assumir a imprópria função de ama-de-lata. Vá que um futuro requinte no paladar dos lactentes, ao sabor de caprichos parentais enfastiados de erva-mate, reivindique uma política (ampliada) de café com leite... terá a secretaria base de sustentação para ostentar tais reclames e licitar o selo da ABIC** ?

De minha parte apenas prometo que meu punho será radicalmente seletivo na prescrição. Darei a César o que é de César, esperando que meu chefe entenda o aforismo. Anseio pelo dia em que os membros permanentes do “colegiado” ajudem os membros passageiros a tomar decisões menos peremptórias. Ao Serviço Social tenho dito que a provisão de víveres não é função médica, mas função social. Longe estou de dispender meu tempo para prescrever um prato de feijão + uma salada de alface+ um bife bem passado. Prefiro ir a rua mil vezes e evangelizar com água e sabão. Entendo que a enfermagem, o gerente, deve ter absoluta autonomia sobre o manjar. O que eu gostaria mesmo é de confiscar pra mim o poder que as mulheres têm sobre o peito (acho que dentro dos peitos fica melhor), ou torná-lo prerrogativa do estado; pelo menos até que entendam que sobre ele imperam os direitos de um novo ser, aspirante à cidadania.

Nós, os técnicos, estamos muito longe da verdadeira pastoral da criança. A multimistura da Dra. Zilda Arns não ameaça o peito nem um pouco. Enriquecida pelo pó de ubre***, têm ajudado muito os nossos desnutridos. Mas o mesmo pó de ubre, escancaradamente ofertado como prato principal aos nossos lactentes, tem apenas se prestado para destronar o seio materno.

A compassividade administrativa é uma grande virtude, mas não muda indicadores. Prezo a boa intenção de dar, mas defendo que o amor que dá deve ser o mesmo amor que tira e seja o amor que delata o mesmo amor que elogia; e nem por isso deva deixar de ser responsável, esplendoroso, apartidário, precioso... e que de lata não tem nada.

O pó de ubre, muito à vista, e de graça, enuvia os lobos da hipófise puerperal****, bloqueia a liberação de prolactina e ocitocina, mandando o peito secar, deixando no prejuízo os pobres infranos (menores de 1 ano). Quanto aos supranos, esses não precisam de leite em pó, mas de escola (e depressa), arroz e feijão, ou multimistura.

__________


*Guaxismo é um termo que criei para designar o aleitamento artificial, aproveitando a linguagem regional dos criadores de suínos (“o bichinho foi criado guaxo”, ou seja, sem mamar na porca).
**Associação Brasileira da Indústria do Café.
***Leite em pó.
****Puerperal se refere ao “puerpério”, período biológico da vida da mulher que se estende por um ano desde o pós-parto imediato.
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