Algumas observaçÕes sobre a metodologia da economia



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ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A METODOLOGIA DA ECONOMIA

João Sousa Andrade


Faculdade de Economia

Universidade de Coimbra



L'emploi de «vrai ou faux» a ceci de fallacieux que tout se passe comme si on disait «cela s'accorde avec les faits ou non» alors que ce qui est en question précisément, c'est cet «accord».

Ludwig Wittgenstein, De la Certitude.


O trabalho que aqui se apresenta nasceu da seguinte interrogação: não terá um professor de economia a obrigação de ter consciência dos princípios metodológicos que fundamentam os assuntos que lecciona ? Sobretudo se lecciona disciplinas mais abrangentes ou genéricas, com seja a disciplina de introdução à economia.


Não se trata de pretender ter acesso iluminado à metodologia correcta, e sublinho correcta, de investigação em economia. Trata-se apenas de uma forma de consciência do valor dos conhecimentos que se possuem e se transmitem. Mas trata-se também, e em geral, de conhecer os princípios que os economistas podem, ou devem, aplicar na sua investigação.
A forma como hoje aprendemos a economia, através de manuais, e não através de obras de autor, de "princípios de economia" de autor, como aconteceu no passado com John Stuart Mill e depois com Alfred Marshall, no mundo anglo-saxónico, é em parte res­pon­sável por um certo menosprezo no que respeita ao objecto e ao método em economia. Foram assim demasiados os conceitos que ganharam uma quase universalidade.
Algumas críticas que foram feitas ao predomínio do princípio do individualismo metodológico, tal como o economista o toma, chamaram a atenção para a indivisi­bilidade dos fenómenos sociais e para a limitação ao suposto comportamento optimi­zante dos agentes económicos. Estas críticas podem ter consequências inesperadas para os seus autores. A primeira pode levar a negar a existência de um "objecto" para a economia, mas impondo às ciências sociais o "método" mais conhecido e praticado com sucesso nestas, ou seja, o "método" da economia. As duas escolas de sociologia de Chicago o provam. A segunda, pode levar-nos a cair nos braços da aplicação das ideias da inteligência artificial, onde, no caso da economia, o formalismo e o aparato dos meios matemáticos aumentariam de forma muito considerável. As posições extremas em questões metodológicas são de evitar.
As nossas reflexões terão por base o ensino da disciplina de introdução à economia. Exporemos, o que pensamos sobre o relacionamento das aulas teóricas e práticas; faremos alguns comentários à definição de economia; sobre desentendimentos que envolvem os economistas; e apresentaremos algumas ideias sobre a metodologia em economia, onde para além de princípios metodológicos também falamos de conceitos de metodologia em dois livros portugueses de introdução à economia e na popular racionalização em que consiste o story-telling.

AULAS TEÓRICAS E PRÁTICAS

As aulas teóricas de Introdução à Economia, ou dos princípios de economia, devem ser complementadas com aulas práticas onde as questões suscitadas pelas aulas teó­ricas possam ser discutidas com os estudantes. Mas as aulas práticas não se devem limitar a essa tarefa complementar. Porque se tal for o caso, a tradição abstracto-dedutiva das diferentes escolas de pensamento económico acabará assim por ser apresentada em aulas teóricas e confirmada em aulas práticas. O que poderá criar um falso sentido de segurança, sobretudo quando se ensina apenas uma corrente domi­nante1. É desejável que os estudantes sejam envolvidos na descoberta dos princípios da disciplina, que tenham oportunidade de fazer análise económica2. Ou como diz Paul Krugman, o objectivo do ensino é responder com inteligência a discussões populares sobre assuntos económicos3. As aulas práticas da disciplina devem envolver um clima de creatividade que está ausente das aulas teóricas4.

Insistimos no princípio que numa pequena economia aberta, como a portuguesa, e em meios muito próximos da sociedade rural é importante que os estudantes discutam as ideias, demasiado simples e mesmo primárias, relacionadas com as posições pro­tec­cionistas5 e possam compreender o significado de "concorrência" na organização eco­nómica.

A chamada de atenção para exemplos próximos dos factos do mundo real, onde o estudante tenha a oportunidade de aplicar os conceitos que aprende, foi uma das conclusões da Krueger Comission nos Estados Unidos6. O curso de introdução à eco­nomia deve insistir na transmissão do que podemos chamar o espírito do economista, ou seja, levar o estudante a "pensar como um economista"7. Esta formação, que se baseia num raciocínio hipotético-dedutivo, deve levar a valorizar a arte da comuni­cação e da persuasão entre economistas e destes para o exterior8 9. Como é dito no referido relatório, os programas de economia devem evitar a formação de idiots savants10. A abordagem de exemplos reais pode ser um incentivo para que o estudante seja conduzido a tomar a iniciativa de aprendizagem e estudo. É pois necessário que os docentes introduzam assuntos relevantes de natureza económica que façam parte da informação económica divulgada, sobretudo no período escolar, durante a semana ou o mês.

Se é útil começar a desenvolver as condições que incentivam a criatividade11 não devemos esquecer que não dispomos de receitas ou regras que a isso conduzam. E ao nível de aprendizagem é preciso que as teorias não surjam como vagas, porque as teorias vagas são sempre perigosas, possibilitam a imaginação, mas à custa de erros que se acumulam12. Talvez por isso seja expressamente admitido no relatório da Krueger Commission que se deva congelar o potencial criativo durante os dois primei­ros anos enquanto se faz a aprendizagem dos utensílios técnicos13. Esta ideia talvez não seja estranha ao facto de, sobretudo, a partir dos anos oitenta, a maioria dos ma­nuais de introdução à economia serem introduções a estudos superiores14 e assim ser remetido para mais tarde um maior domínio dos conhecimentos técnicos que são nor­malmente exigidos a um economista.

A comunicação e persuasão são apontadas como muito importantes para a aprendizagem da economia. Arjo Klamer vai mesmo ao ponto de insistir que o iniciado em economia deve prestar mais atenção à comunicação que ao problema do conhe­cimento15. Devemos, no entanto, precisar que a posição deste autor deriva do seu cepticismo sobre a possibilidade de o economista dispor de testes, não ambíguos e estandardizados, sobre os seus resultados, pelo que se torna fundamental a arte do bom argumento16.

Como forma de comunicar com os estudantes penso que devemos excluir a técnica do retro-projector e continuarmos a valorizar o velho quadro na apresentação de esquemas e elaboração e discussão de gráficos tão abundantemente usados nos cursos introdutórios. A nossa experiência, no que respeita aos gráficos, confirma os resul­tados de Cohn e Cohn: é considerável a dificuldade de os estudantes desenharem gráficos correctos e existe uma forte relação entre boas classificações e gráficos satisfatórios17. Para além do esforço no ensino dos gráficos, deve também forte a insistência na apresentação concisa de conclusões e da sua justificação por parte dos docentes da disciplina.

A disciplina deverá ser apresentada de forma a valorizar o conhecimento positivo dos economistas. A formação básica do economista constitui a nossa principal atenção, porque entendemos que ela é indispensável ao bom prosseguimento do curso. Assim, acabamos por privilegiar os conceitos de equilíbrio e a análise estática. Mas isso é feito porque entendemos que os conhecimentos a leccionar no curso são necessários para a com­preensão da estabilidade e da instabilidade, da dinâmica, do incerto e do esto­cástico, em suma, da complexidade dos fenómenos económicos18.



COMENTÁRIOS À DEFINIÇÃO DE ECONOMIA
Em manuais de Introdução à Economia, a definição de economia baseada no conceito de escassez, surge, no caso dos Estados Unidos, pela primeira vez em 194319 e trata-se da consagração da definição assim concebida por Lionel Robbins20:
"Economics is the science which studies human behavior as a relationship between ends and scarce means which have alternative uses".

Os seus maiores méritos são com certeza a sua elegância e a sua generalidade. Relativamente ao passado, a sua definição constitui uma clara delimitação do objecto de estudo21. Apercebemo-nos dessa limitação no estudo dos autores clássicos e tam­bém quando estudamos Alfred Marshall22,


"Political Economy or Economics is a study of mankind in the ordinary business of life; it examines that part of individual and social action which is most closely connected with the attainment and with the use of the material requisites of wellbeing".

A componente social dos comportamentos é perfeitamente realçada pelo autor, e é o próprio Marshall que precisa a sua ideia ao dizer-nos que o objecto de estudo da economia é duplo, por um lado comporta o estudo da riqueza e por outro, o estudo do indivívuo. Se bem que atribua maior relevo a esta última componente23, a herança clássica do estudo da riqueza está aqui ainda bem presente.


Nos Principles of Political Economy24, que marcaram grande parte do Séc. XIX, a eficiência comparada de meios para obter riqueza, governa o comportamento do homem, e por isso:
"Political Economy, then may be defined as follows: and the definition seems to be complete: «The science which traces the laws of such of the phenomena of society as arise from the combined operations of mankind for the production of wealth...»"25.
A riqueza enquanto resultado da acção do homem está bem presente nesta definição do objecto da economia.
A definição de economia de Robbins não comporta só um aspecto de reducionismo quanto à finalidade da actividade económica. O facto de naquela definição apenas uma parte do comportamento do homem pertencer ao domínio de estudo da economia tem levado à crítica que tal separação é impossível e que o seu comportamento deve ser entendido de forma global. Parece-nos importante realçar que os economistas, em geral, não são insensíveis a essa separação de uma parte de um comportamento que é global. O problema para eles é diferente e já Marshall o havia afrontado. Respondendo a Auguste Comte, que defendia que os aspectos da vida social estão de tal maneira interligados que seria fútil o estudo de apenas um deles, Marshall justificou o trabalho do economista sem que para tal tivesse de negar a validade genérica daquela observação,
"the whole range of mans actions in society is too wide and too various to be analysed and explained by a single intellectual effort"26.
A definição de economia que iremos apresentar aos estudantes procura respeitar a consagrada definição de Robbins, mas são introduzidos dois novos elementos: o aspecto individual e social que são indissociáveis e que caracterizam as decisões27; e a referência à dimensão temporal das decisões. Não retemos a produção de riqueza, que de facto não faz hoje parte do objecto da economia da corrente dominante do pensamento económico, mas achamos importante realçar o aspecto de organização social e de actividade humana que se exerce no tempo, num tempo que deveria ser irreversível.


ALGUNS DESENTENDIMENTOS COM SOCIÓLOGOS E ENTRE ECONOMISTAS
Como o objecto da economia respeita apenas a certos aspectos do comportamento humano, a economia vai interceptar a sociologia. A possibilidade de conflito é pois fre­quente. E tal acontece não só quanto ao objecto, mas também quanto ao método. Mes­mo quando é afirmado que o clima de "guerra fria" está a chegar ao fim28, devemos perguntar-nos, para quem ?

É natural que a sociologia se tenha afastado da economia pela posição que nesta ocupa o individualismo metodológico29. Emile Durkheim situa a sociologia nos antípo­das do racionalismo individual. Os sociólogos sempre tomaram as motivações, as preferências e os comportamentos como determinados em contextos sociais. A própria racionalidade individual é um produto social. Pelo contrário, os economistas têm ten­dência para tomar aqueles elementos como abstracções independentes do tempo e do contexto social30. E não é certo que o esforço de passagem de hipóteses mais abstrac­tas para hipóteses mais concretas, porque mais sociais, não seja uma forma que conduza a práticas puramente confirmacionistas.

Talvez um dos sinais da aproximação da sociologia e da economia, neste final do século, seja a obra de James Coleman31. O seu conceito de racionalidade não se distin­gue do utilizado pelos economistas32. Os economistas podem aí aprender o papel e a importância das normas sociais, assim como dos seus custos de oportunidade nas re­lações de troca. Mas o facto de Coleman33 decalcar a sua teoria do comportamento dos sistemas a partir da análise económica, baseando-se na escolha racional individual, fazer a passagem do campo micro para o macro com a respectiva agregação de com­portamentos, e representar a utilidade dos agentes através de uma função de produção Cobb-Douglas, não nos parece contribuir para uma ponte, nos dois sentidos, entre a sociologia e a economia.

O afastamento entre economistas e sociólogos tem sobretudo as suas raizes em diferentes metodologias. Enquanto o economista, no ensino e na investigação, procura um discurso de natureza formal, baseado num raciocínio hipotético-dedutivo, sobre agentes que tomam decisões consideradas racionais, o sociólogo preocupa-se mais com a permanente reconciliação de valores sociais com comportamentos individuais34. E por maior importância que as correntes de Chicago possam ter em sociologia, não acreditamos que os sociólogos passem rapidamente à fase de paixão pelo economic approach ou então que os economistas abandonem a sua metodologia preferida. Ou de uma forma mais pragmática:


"Economics, sociology, psychology, and political science must therefore be whatever economists, sociologists, psychologists, or political scientists do, or rather what they do best. But that can be definitely determined before each discipline has tried to solve whatever problem is at issue"35.
Mas os economistas não têm apenas "desentendimentos" com os sociólogos, não é raro encontrar referências a disputas entre economistas como sendo o reflexo do seu fraco entendimento interno. Estamos longe da ideia de Robert Torrens que em 1821 acreditava que as controvérsias entre economistas acabariam e que num período de vinte anos ninguém teria dúvidas sobre os princípios fundamentais da economia36.
Os economistas estão longe da unanimidade, são várias as "escolas" de pensamento económico que coexistem e se renovam37. Mas será que o não unanimismo é grave ? Um dos grandes clássicos, Stanley Jevons alertava para o facto da autoridade ser ini­miga da verdade, na ciência e na filosofia, e da inexistência de polémica poder prenun­ciar a vitória do erro, sendo a ousadia, e mesmo a anarquia, benéficos à ciência38. Tam­bém como o comenta Robert Clower, com o seu habitual humor corrosivo, acerca da tendência para um certo unanimismo, que isso significa que os economistas se to­mam mais a sério, o que para este autor constitui um verdadeiro perigo39.
Um dos problemas com o entendimento, ou desentendimento, entre economistas deriva do facto das grandes controvérsias em economia terem também envolvido questões de metodologia40 o que complica bastante uma avaliação final dos argu­men­tos envolvidos e a percepção do entendimento ou desentendimento entre economistas.
Como já dissemos, por diferentes razões a economia faz transpirar a ideia que os economistas não se entendem, ou pelo menos essa ideia foi bastante popularizada. E no entanto, já em 1979, J. Keral, L. Clayne, G. Whiting e L. Wimmer41 concluíam que a ideia do escasso entendimento entre economistas norte-americanos estava errada. No início desta década, coube a vez a R. Alston, J. Kearl e M. Vaughan42 provarem que a constatação de Keral et al. continuava válida. Verificando-se ainda que o consenso continuava a ser superior no campo da microeconomia que no campo da macroecono­mia e maior no campo da economia positiva que no campo normativo43. Parece-nos perfeitamente natural que existam fortes desentendimentos ao nível normativo, uma vez que as diferenças de valores éticos dos economistas44 deve ser considerável.
Quanto a divergências entre economistas, para além do que se passa nos Estados Unidos, dispomos de informação sobre o Reino Unido45. Embora as proposições que produzem mais desacordo sejam diferentes das dos Estados Unidos, a conclusão é relativizada quando não contamos com as respostas extremas, sendo os cenários dos consensos muito próximos. Algumas das divergências entre os economistas também acabam por ser motivadas pelas diferenças de mercados dos economistas nos Estados Unidos e na Europa e pelas exigências que lhes são feitas46. É por exemplo notório o papel que os economistas europeus acabam por dar às intervenções dos governos, contrariamente ao que acontece com os seus colegas norte-americanos.
Em suma, as divergências entre economistas, felizmente existem, mas não devemos exagerar a falta de entendimento entre estes.

METODOLOGIA DA ECONOMIA
Vamos passar a focar um conjunto de questões metodológicas que nos parecem importantes do ponto de vista da formação e do desenvolvimento da economia. Come­çamos por expor algumas ideias sobre o papel do individualismo metodológico; o ho­mem da economia; a utilização do método científico em economia; o uso do forma­lismo; o problema do realismo das hipóteses; o falsificacionismo em economia; os "pa­radigmas" e os programas de investigação científica; a presença de um pluralismo me­to­dológico e o pluralismo de Bruce Caldwell; o discurso positivo e o discurso nor­ma­tivo; e o estatuto das leis em economia. Finalizamos com uma chamada de atenção para a exposição de conceitos de metodologia em livros de introdução e para o papel do story-telling.
Princípios Metodológicos
Individualismo metodológico. A expressão "individualismo metodoló- gico" parece ter sido inventada por Joseph Schumpeter 47, e se a escola austríaca sempre colocou a ênfase nesta metodologia, tomando o indivíduo racional ao nível do que Whitehead e Russel designavam por "atomic propositions" 48, parece ter sido Milton Friedman com o seu importante trabalho sobre metodologia49, que levou à imposição dessa ideia numa forma que se torna testável. Tratava-se no início dos anos cinquenta de tomar explicitamente essa hipótese de comportamento. Ela deveria ser tomada não apenas nos estudos de natureza teórica, mas também no trabalho de aplicação, ou em­pírico50. Para Friedman, o economista deveria integrá-la no seu raciocínio no sentido de "as if"51 e sujeitá-la à prova da confirmação. Naturalmente que esta posição "ins­trumentalista" de Friedman arrasta, por exemplo, um problema. Se a correcção de tomar como hipótese o comportamento de selecção das unidades de produção for derivada dos resultados que obtivermos, então estamos perante o que um autor desi­gnou de argumento evolucionista da racionalidade52 e talvez mesmo a admitir um argumento indutivista53.
Karl Popper é em geral conhecido pelo seu princípio de demarcação baseado no falsificacionismo. Mas Popper também reflectiu sobre as ciências sociais apresentando o que designou por lógica situacional54. As suas posições neste campo são tipicamente neo-austríacas. É feita a defesa que a metodologia individualista deverá aplicar-se a to­das as ciências sociais, uma vez que todos os agentes actuam de forma apropriada às situações que se lhes deparam. Embora não faça a defesa da praxeologia de Carl Men­ger, Popper acaba por defender o princípio da racionalidade como um princípio míni­mo que, estranhamente, fica protegido do falsificacionismo. O que, convenhamos, é um legado muito agradável para o economista.
O princípio do individualismo metodológico é por vezes apresentado como negan­do a validade de categorias sociais em economia. Trata-se de uma visão extrema e não partilhada pela maioria. Aliás, a questão da presença, ou influência, de julgamentos de valor no próprio "núcleo duro" das ciências sociais, data de há muito, desde que Max Weber procurou definir a "neutralidade ética na ciência social"55. Sendo a questão das preferências individuais uma questão primeira no comportamento dos indivíduos, logi­camente que estamos desde o início a fazer julgamentos de valor e o desenvolvimento do nosso quadro de análise envolverá sempre conceitos e princípios de natureza so­cial56. E se mais não fosse, porque as regras do jogo em que actuam os indivíduos são sociais57, podendo o economista estender sempre o seu primado do princípio do indivi­dualismo metodológico às mais diversas situações de trocas sociais58. Não deixa de ser interessante verificar que também o princípio do individualismo metodológico pode ser reivindicado como uma metodologia a ser seguida por certos autores marxistas59.
O homem da ciência económica. Ao contrário do vulgarmente considerado, o homo oeconomicus de Adam Smith não se comporta respeitando apenas o seu in­teresse pessoal, ele comporta-se também de acordo com o prazer que sente com a feli­cidade dos outros60. Mesmo Adam Smith o reconhecia explicitamente,
"How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his nature which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary to him, though he derives nothing from it except the pleasure of seeing it"61.
O que não significa que a procura dos seus próprios interesses seja mitigada, e que afinal se preocupem mais com eles próprios do que com os outros62.
Alfred Marshall, defendendo que a economia não devia tomar partido em contro­vérsias sobre ética, diz-nos que prefere a expressão "satisfação" individual, em vez de "prazer", como fundamento do incentivo para a acção dos indivíduos63. E dentro dessa "satisfação" ele fala-nos mesmo na promoção do progresso da raça humana64. O prin­cípio hedonista, em economia, tem afinal um conteúdo muito social ...

Devemos salientar que uma interpretação estreitamente hedonística não é indispen­sável em economia. Lionel Robbins65 há muito que definiu o homem económico racio­nal como o homem que é coerente nas suas escolhas em termos de preferência. E se ti­ver­mos em conta a evolução da teoria do valor conduzida por Pareto66, da "ofelimi­da­de" às curvas de indiferença, aquela primeira interpretação mais desnecessária se torna porque desde 190667 que o conceito de utilidade ordinal tornava desnecessário o prin­cípio hedonista em economia. Robbins chega a ser irónico a respeito deste conceito,


"the assumption of perfect rationality in the sense of complete consistency is simply one of a number of assumptions of a psychological nature which are introduced into economic analysis at various stages of approximation to reality. (...) If this were commonly known, if it were generaly realized that Economic Man is only an expository device -(...)- it is improbable he would be such a universal bogey"68.
Fritz Machlup, propõe mesmo que lhe passemos a chamar homunculus oecono­mics, para que tenhamos em atenção que se trata de uma criação do nosso cérebro69. E este autor insiste em que o homo oeconomics é apenas uma figura metafórica para uma das premissas do nosso discurso hipotético-dedutivo70.
É interessante notar que um autor como Harvey Leibenstein, que contrapõe ao agente racional normal o agente de racionalidade selectiva, esclarece que aquele é uma abstracção, o que não implica que todos os homens se comportem exactamente como ele71. Procura este autor criar espaço no objecto de estudo que lhe permita responder aos problemas que levantou quanto à eficiência na economia capitalista actual.
Mas apesar destas posições, encontramos também a posição mais radical que data de Mises, e da sua defesa da economia como ciência praxeológica72, e que caracteriza sobretudo a escola austríaca, para quem a racionalidade é um dos postulados básicos e estes são verdades inquestionáveis sobre o comportamento, ou acção humana73. De acordo com esta posição, as experiências, e o nosso conhecimento empírico, não de­vem ser utilizados para corroborar a correcção dos postulados básicos. Assim, os ca­sos já encontrados de não verificação da característica de transitividade das experiên­cias de nada contam para o postulado da racionalidade. A ciência económica será assim um sistema de puras deduções que não estão sujeitas a verificação ou refutação baseada na experiência74.

Embora a racionalidade não tenha sido necessária para que Keynes construísse a sua representação da realidade, a verdade é que a construção posterior da fundamenta­ção microeconómica da análise macroeconómica se baseia justamente no postulado da racionalidade. Defendemos que num programa para um projecto de investigação, a ra­cionalidade deve ser respeitada até ao ponto em que a sua consideração se torne per­niciosa em fase dos resultados a que somos conduzidos. Trata-se de uma visão instru­mentalista, mas a este respeito devemos optar ou pela racionalidade que sabemos o que é, ou por formas de acção não inteiramente racionais que, em geral, não sabemos o que são75, a não ser em estudos particulares. Mas nestes, a não-racionalidade é utili­zada porque permite explicar o que de outra forma não era possível, ou seja, a não-ra­cionalidade está aí presente por um critério também instrumentalista. Estas "departures from rationality" caracterizam, em geral, a opinião e a prática dos economistas76 77.

O comportamento optimizante dos agentes económicos deve ser tomado como um comportamento maximizante78. Na optimização, como a entendemos nos processos físicos, não estamos perante a situação em que um agente assume esse comportamento e o executa79. Estamos agora perante um indivíduo que deverá fazer escolhas, pelo que o acto de escolha, em si, passou a ser importante, o que não acontece nos processos físicos. O comportamento que tomamos para esse indivíduo é maximizante, no sentido em que ele irá fazer escolhas de alternativas que não são julgadas piores que quaisquer outras.

A questão da racionalidade individual está ligada em economia à consistência das decisões dos diferentes agentes. Estes são tomados como tendo os mesmos princípios de comportamento para um mundo que todos vêm da mesma maneira. Desta forma, os economistas habituaram-se a impor restrições aos agentes, nos seus comportamentos, que são mutuamente consistentes. Assim se obtêm soluções, para os problemas levan­tados, que são elegantes. A simples alteração do ambiente de decisão dos agentes, que devem fazer as suas escolhas, levará a aumentar de forma imensa as possíveis solu­ções80. A alteração ao quadro simplificado em que o economista se move leva de ime­diato à complexidade. E esta última é crescente. Senão vejamos aonde podemos ser conduzidos. As antecipações racionais trouxeram-nos a justificação para que os econo­mistas se transformassem em deuses criadores de super-deuses. Os economistas criam agentes que se comportavam nos seus modelos com conhecimentos que os seus cria­dores não possuíam e que procuravam obter através desses modelos. A limitação do princípio desta forma de encarar a racionalidade 81, leva a criar criaturas que se com­portam de foram mais parecida com os seus criadores. O seu conhecimento faz-se agindo no mundo económico. Os agentes económicos não têm agora de resolver pre­viamente os seus problemas científicos antes de o economista encontrar a solução. Mas a introdução de funções de comportamento de aprendizagem, para os diferentes agen­tes, leva a uma sobrecarga de conhecimentos matemáticos e de novas matérias, como as da inteligência artificial, para o economista, assim como à utilização de meios de cálculo muito sofisticados. Estamos convencidos que será este um dos caminhos a percorrer no futuro, vemos por isso duas implicações imediatas: - maior exigência na formação dos economistas quanto a métodos quantitativos; e - a perda definitiva das "belas" soluções e conclusões a que estamos acostumados.




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