Abordagem neuropsicológica do funcionamento disfuncional do cérebro na toxicodependência



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INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS DE ABEL SALAZAR
UNIVERSIDADE DO PORTO

JOAQUIM MANUEL DE ALMEIDA DOS VULTOS

Dissertação de candidatura ao grau de Doutor elaborada sobre orientação dos Prof. Doutor Custódio José Amorim Leite Rodrigues e Prof. Doutor João Marques Teixeira (Co-orientador)
INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS DE ABEL SALAZAR
UNIVERSIDADE DO PORTO

Abordagem neuropsicológica e imagiológica da disfunção cerebral da toxicodependência



“O comportamento disfuncional”, como o reflexo externo da tendência para tratar mal a informação e desperdiçar energia física e intelectual que os indivíduos toxicodependentes apresentam e que, no final, se traduz num sofrimento pessoal que rapidamente invade a estrutura familiar.


Agradecimentos

É com um sentimento de honra que agradeço.

Consciente de que só o apoio, nunca regateado, das pessoas que aceitaram o encargo de orientar cientificamente o trabalho me permitiram terminá-lo, ao Prof. Dr. Custódio Rodrigues, do ISCBAB – U.P. (Orientador), devo amizade, total confiança, estímulo, disponibilidade e encorajamento.

Ao Prof. Dr. João Marques Teixeira, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação – U.P. (Co-orientador), devo as intermináveis conversas, a disponibilidade total, o reforço positivo, quando as forças já faltavam, o animo, quando o desânimo já nos assolava. Ao seu apoio, não me restam dúvidas, devo o rigor conceptual e formal que o trabalho possa ter e à amizade que foi possível desenvolver, sem que isso interferisse com esse rigor, devo muita da força que foi necessário despender. Não tenho palavras que possam expressar de forma mais sólida o quanto lhe estou agradecido.

À Prof. Dr.ª Maria da Purificação Horta (Orientadora interna do ISCS-Sul), que foi o apoio de rectaguarda e esteve sempre disponível, devo a oportunidade de ouvir sugestões e críticas instrumentos e estratégias que enriqueceram o trabalho.

Ao Prof. Dr. Augusto Goulão, director do Serviço de Neuroimagem do Hospital Garcia da Orta, Almada, devo o interesse pelo meu trabalho e a disponibilidade que muito sensibilizou e que permitiu discutir as ideias que iam surgindo. Foi também devido ao seu interesse e ao do físico Prof. Dr. Mário Forjaz Secca, da U.N. que foi possível realizar uma parte importante do trabalho: foram eles que permitiram concretizar o indispensável suporte de neuroimagem, através do grupo da Ressonância Magnética de Caselas.

À técnica da Ressonância Magnética, Cristina Meneses um obrigado pelos seus sábados de disponibilidade para o projecto, sem ela, as coisas teriam sido certamente mais difíceis.

À Prof. Célia Moreira Bignon, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, amiga de longa data, agradeço uma boa parte da formação na manipulação dos testes neuro psicológicos utilizados.

À Drª Helena Santos, que ajudou a interpretar alguns dos resultados que extraímos das aplicações que fizemos nas comunidades terapêuticas, agradeço a amizade, o tempo, a cooperação desinteressada.

Ao Dr. Eduardo Oliveira, professor de estatística do Instituto Superior das Ciências da Saúde, muito devo. A amizade, sempre demonstrada e a disponibilidade de tempo, sempre dada de forma generosa. Os resultados a que chegámos, tem um pouco do seu interesse pessoal, da sua disponibilidade.

À minha amiga Drª Margarida Brum que fez a revisão do texto, pacientemente e com mestria, estou profundamente grato.

Ao meu cunhado Jorge Humberto, pelo auxilio informático e pelo grande apoio pessoal, obrigado.

À Ana, sem o seu apoio não seria possível a parte final deste trabalho, obrigado.

Contámos ainda com a colaboração das seguintes comunidades terapêuticas:

Para os pré-testes: Centro Jovem Tejo – Palmela

Para a investigação: Comunidade Terapêutica Vale de Acôr - Almada

- Comunidade Terapêutica do Meilão – Porto


  • Comunidade Terapêutica “A Ponte” – Grândola

Aos alunos do 2º e 3º anos do curso de Medicina Dentária do Instituto Superior de Ciências da Saúde anos lectivos de 1999/2000, que constituíram o grupo de controle, um muito obrigado.

Agradeço ainda às seguintes entidades o apoio para a concretização do trabalho;

- C. A.T. Setúbal


  • Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa

  • (I.S.P.A.) Instituto Superior de Psicologia Aplicada

  • (C.E.P.D.) Centro de Estudos e Profilaxia da Droga – Restelo.

  • Centro de Documentação das Taipas.

  • Para a pesquisa informática foi solicitado o apoio ao Centro de Documentação e Informação da Smithkline Beccham, que forneceu todos os dados disponíveis para a pesquisa, fazendo actualizações constantes nas bases de dados médicas.

  • Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Possibilitaram acesso aos bancos de dados: PsycLIT, MedLine e WinSPIRS.

  • Escola Básica 1, 2, 3 da Trafaria, Profs Margarida, Fátima e Francisco, obrigado

  • Por último, uma palavra para a família: ela foi sacrificada.

Ao Bruno e à Evelina, que consigam perceber este grande esforço como um acto de amor que vos é dedicado.

INTRODUÇÃO

Os processos implicados no desenvolvimento da toxicodependência têm sido estudados no âmbito dos mais variados quadros de referência que, de uma maneira geral, se podem integrar em duas linhas mestras: uma, centrada sobre a dinâmica psicológica, na qual se enquadram as abordagens de natureza analítica, com uma interpretação da doença num quadro de uma ferida narcísica profunda, o que no fundo permite perspectivar uma intervenção psicoterapêutica de base psicoanalítica; outra, centrada sobre os mecanismos neurobiológicos que afectam ou são afectados pelas drogas onde se enquadram as interpretações de natureza bioquímica, cujo racional pressupõe uma aproximação a partir de fragilidades constitucionais, traduzido em intervenção de natureza química. Mais recentemente surgiram interpretações com um substrato anátomo funcional, apontando nomeadamente a existência de uma perturbação fisiológica, nomeadamente ao nível dos lobos frontais ou do sistema límbico, configurando uma nova perspectiva do desenvolvimento da perturbação e deslocando assim o interesse da investigação para o campo das neurociências.

Por outro lado, a nova racionalidade cientifica, configurada no paradigma “sistémico-comunicacional-informacional” (Agra, 1986), vem impor uma análise da toxicodependência em termos de sistemas comunicacionais e informacionais. Para a análise que nos propomos fazer torna-se importante definir o quadro teórico, dentro do paradigma citado, que subjaz a esta investigação, que é o mesmo que dizer, o quadro teórico de uma neuropsicofisiologia da toxicodependência. Este trabalho feito por Marques-Teixeira (1991), para a psicofisiologia serve como ponto de partida para a nossa investigação. O autor construiu uma grelha de interpretação biológica da toxicodependência, a qual constitui o resultado de um trabalho de investigação teórico, epistemológico, centrado em conceitos provenientes das teorias da comunicação e da informação aplicados ao Sistema Nervoso Central; conceitos que, tendo partido da física, rapidamente se espalharam à biologia, renovando-a. É a partir desta nova biologia, não reducionista nem determinística, que eles se posicionaram e é também a partir dela que nos preocuparemos em encaminhar o nosso trabalho.

Ao tentarmos formular a nossa compreensão do problema, e tendo em conta a nossa experiência prática de largos anos de trabalho com indivíduos que apresentam problemas de consumos abusivos de substâncias psico-activas, partimos de uma ideia, de início incipiente, sobre a possibilidade de que alguns comportamentos dos toxicodependentes poderem ter por base um processamento errado da informação a que têm acesso ou, eventualmente, o desperdício dessa informação, tema de que já se ocuparam p. ex. Mercer & Jeffrey (1995) Fanken et al., (2000); Blume et al., (2000), autores que serão posteriormente apresentados. A conjugação desta ideia com a reflexão a partir da leitura da obra de Damásio (1995), completada por investigação posterior nas bases de dados médicos MedLine e PsycLYT, parecem-nos ter sido os responsáveis pelo ¨insight¨ onde foi possível reconhecer a ideia inicial.

Para tentar compreender o que realmente estava em causa, necessário se tornava ainda um estudo mais aprofundado sobre as teorias dos sistemas, tendo em conta o facto de não ser possível perceber o indivíduo isolado do contexto social onde ele se move e onde ficam claramente expressas as suas dificuldades comportamentais. Uma visão sobre as investigações biológicas significativas da toxicodependência foi conseguida partindo dos dois autores que já estudaram a problemática (Agra, 1986a, 1990; Marques-Teixeira 1991, 1994), aproveitando os passos por eles seguidos, tentando aprofundar o que eles conseguiram. Um enquadramento da toxicodependência deste género implica a abordagem de alguns conceitos relevantes como a auto-organização, ordem / desordem e caos entre outros.

Investigação posterior permitiu equacionar o problema, partindo de autores que exploraram a existência de qualquer perturbação de natureza estrutural decorrente, ou não, do consumo abusivo de substâncias psicoactivas que poderiam vir a traduzir-se num défice no tratamento da informação a que o sistema tem acesso, traduzindo-se esses défices na performance diferenciada em testes neuropsicológicos; neste caso concreto, o teste de organicidade Viso Motor de Loretta Bender, o teste de atenção selectiva, Q.L. e o teste de interferência Cores/Palavras, de Stroop.

Na primeira fase da investigação foi feito um pré-teste, onde foi aplicado o teste de Bender. Os resultados do pré-teste deram uma primeira confirmação da existência de resultados diferenciados nos dois grupos testados; o primeiro deles, toxicodendentes internados numa comunidade terapêutica; o segundo de estudantes universitários. Foram este resultados que nos levaram a organizar dois grupo para a investigação -um grupo experimental, constituído por indivíduos com problemas de consumo abusivo de substâncias psico-activas, mas sem problemas de psicopatologia diagnosticada e um grupo de controle, constituído por estudantes universitários sem problemas de consumo ou psicopatologia diagnosticada.

Na sequência da investigação, e tendo em conta as hipóteses formuladas por diversos autores, que iremos apresentar no decorrer do nosso trabalho, os quais sugerem a possível existência de alterações estruturais no cérebro nos sujeitos com problemas de consumo abusivo de substâncias psicoactivas pretendeu-se confirmar, com recurso à Ressonância Magnética Funcional, a hipótese de organicidade. Assim, foi sugerido aos sujeitos que apresentassem sinais evidentes de organicidade, nos testes específicos, que se sujeitassem ao exame de ressonância magnética funcional, proposta que, a principio, se demonstrou de difícil, senão de impossível resolução, tendo em conta os elevados custos económicos para realização do mesmo.

Para levar a cabo os exames que foi possível executar foi criado um conjunto de tarefas experimentais que constavam da projecção de imagens, em tempo real, com recurso a óculos não magnéticos de realidade virtual durante a execução do exame; essas projecções versavam temas como a sexualidade, a violência e o consumo de drogas.

Para se sugerir que as imagens conseguidas nos sujeitos abstinentes, num longo período de tempo, teriam diferente configuração das conseguidas nos sujeitos toxicodependentes activos e que estes teriam um traçado diferente das imagens de ressonância em sujeitos sem problemas decorrentes do consumo abusivo de substâncias, necessário se tornava que os diferentes grupos fossem testados nesse mesmo paradigma experimental, o que se fez, apesar das dificuldades decorrentes do alto preço dos exames em causa e da própria dificuldade dos doentes em respeitarem os compromissos assumidos com os investigadores.

Entre o re-teste com os testes neuropsicológicos e a execução do exame de Ressonância Magnética distou, no mínimo 4 meses,1 sendo que, alguns desses exames só se poderam efectuar passado um período superior a 10 meses, tempo que se utilizou nas diligências estritamente necessárias à ultrapassagem dessas mesmas dificuldades.

CAPITULO I

Enquadramento Teórico do Problema

A alteração da racionalidade científica clássica, que se caracterizava por ser uma ciência da ordem, de relações causa/efeito, para uma racionalidade do tipo que caracteriza o paradigma científico actual, capaz de renunciar ao determinismo clássico, como foi apontado por Prigogine & Strenger (1986), paradigma que Agra (1986) conclui, “ser sistémico-comunicacional-informacional”, e no qual nos queremos inscrever, pode constituir a grelha de análise adequada para o trabalho que pretendemos iniciar, tendo em conta que nos vamos concentrar na capacidade de manipulação das informações a que o indivíduo portador de dificuldades associadas ao consumo de substâncias psicoactivas tem acesso.

Este paradigma constitui o ponto de partida para Marques-Teixeira (1991), afirmar em “Toxicodependência e Auto-organização”, ter o estudo de Agra revelado um conjunto de conceitos-chave, derivados de outros ramos da ciência, os quais coexistem eficazmente de modo a fornecer a actual grelha de leitura da realidade.

O autor chama a atenção para os pressupostos utilizados por Agra (1986) e para a sua utilidade para a compreensão do fenómeno.

À luz deste paradigma foi desenvolvida, por Marques Teixeira, uma grelha de leitura biológica, a qual permitiu interrogar de forma coerente o objecto toxicodependência e, desenvolvendo a partir daí um quadro experimental, onde manipulou o ruído informacional, tendo concluido existir uma reactividade ao ruído no sistema nervoso central do toxicodendente. (Marques-Teixeira, 1993, 1996).

Na sequência destes trabalhos o autor concluiu que existe um défice no tratamento da informação no grupo dos indivíduos com perturbações decorrentes do uso abusivo de substâncias psico-activas.

É este o suporte que vamos utilizar no actual estudo, o qual pretende demonstrar que o uso continuado de substâncias psicoactivas tem associada uma negligência, ou mesmo uma incapacidade, para o tratamento da informação a que o sistema tem acesso, havendo algumas vezes associadas a essa situação o estabelecimento de disfunção (eventualmente lesão) que parece decorrente desse abuso de substâncias, daí resultando que as respostas dadas às situações obedecem a uma lógica dos sistemas auto-organizados.

Para compreendermos a abordagem que vamos fazer nesta investigação, há que clarificar primeiramente, alguns dos conceitos a utilizar, sendo esta clarificação fundamental para podermos avançar no plano teórico.

Assim, começaremos por descrever os conceitos-chave mais adequados à investigação no quadro paradigmático que escolhemos.



Noção de sistema
A nova visão cientifica, baseada nos conceitos de informação e comunicação, põe de parte os conceitos de energia e de causalidade linear dominantes na epistemologia tradicional, o desviar do interesse dos componentes para a totalidade, cuidando de conceitos novos que se preocupam com as interacções entre as partes e interinfluência vão aos poucos dando forma a uma nova lógica, a lógica dos sistemas de informação e de comunicação, onde as divisões entre os tradicionais domínios indivíduo biológico-psicológico-social se esbate, “aparecendo agora como bio-sistemas, psico-sistemas e sócio-sistemas, traduzindo desta forma um mundo que se tornou de sistemas, códigos, mensagens, informação e comunicação”. (Agra, 1986).

Cândido da Agra aborda o problema da saúde e da doença do ponto de vista da nova racionalidade “sistémica-informacional-comunicacional“. Macrosocial e biológico não só interferem como funcionam numa mesma racionalidade; saúde é comunicação e informação correcta; doença é erro, ruído, comportamento inadequado, desvio de uma ordem, dum programa, de um código” (Agra, 1982).

Parreira (1991) aborda a questão de um outro ponto de vista; faz uma definição de sistema aberto/fechado, correlacionando os conceitos de rigidez/flexibilidade; posicionando-se na necessidade de encarar o homem como sistema aberto, faz a pergunta: Mas o que é um sistema aberto?

Depois de analisar Burckley (1976), na sua obra “A Sociologia e a Moderna Teoria dos Sistemas”, Parreira diz: ”Os sistemas abertos caracterizam-se por um certo grau de liberdade no seu comportamento. Esta liberdade aumenta na razão directa da capacidade do sistema para influenciar o meio; e a flexibilidade do comportamento é, por sua vez, um índice seguro da inteligência prática de um sistema aberto. A redução dessa flexibilidade conduz directamente ao empobrecimento, à rotina das respostas, à estereotipia das soluções encontradas. É um sistema de envelhecimento ou de doença. “Ao toxicodependente não restam no entanto alternativas, a busca da substância é a razão final de todos os seus comportamentos, é a rigidez total, diremos nós”!

Muitos anos ligados ao problema da toxicodependência criaram-nos a noção de que a maior parte das pessoas que revelam perturbações desta ordem são mais informadas do que nós esperaríamos, apresentam, alguns deles, uma parte da análise das situações devidamente preservadas; pelo que a opção do “tudo estragar” a nosso ver, poderia ser procurada no registo das falhas de orientação ou “pilotagem”, na linha do trabalho de Miller (1978) “Living Sistems”. Este autor afirma que os sistemas vivos são complexos, sobretudo porque são constituídos por vários subsistemas, cujas operações são de natureza diversa e não necessariamente concertadas e considera 19 subsistemas críticos para a subsistência dos sistemas no tempo, individualmente ou ao nível da espécie, que Parreira vem dividir em três categorias:

1 - Os que processam predominantemente matéria/energia;

2 - Os que processam predominantemente informação;

3 - Os que processam claramente matéria /energia/informação.

São estes subsistemas que, no essencial, delimitam, segundo ele, aquilo que é o ser humano, sendo que o funcionamento daqueles é percebido pelo próprio através de tonalidades afectivas de teor positivo ou negativo, as quais geram no indivíduo um estado de tensão motivacional positivo ou negativo. Segundo Parreira, a motivação humana é do domínio afectivo, energético, tensional, domínio onde se integram as necessidades, tendo em conta que o conceito de necessidade, na óptica de Jones, (citação Parreira, 1991), é a “carência que, não satisfeita, provoca desorganização do comportamento e, eventualmente, a “morte”. Voltando a Parreira, este formula uma organização do indivíduo e dos seus subsistemas agrupados em três grupos:

1- Pilotagem - Processador de informação reguladora e integradora, com o seguinte conteúdo: auto-imagem, esquema corporal, princípios e pressupostos básicos, valores vitais, finalidades, critérios éticos, perspectiva temporal de longo prazo, metas e objectivos.

2 - SPI - Processador das informações instrumentais, contendo os critérios de execução, informações sobre si próprio e o meio, os saberes técnicos, os mapas do meio e informações deste nível.

3 - Corpo - Processador de matéria e energia, contendo o suporte físico dos outros dois subsistemas, os canais de informação, os ativadores de sensações e outras informações de carga afectiva.

O modelo apresentado por Parreira explica, no fundo, o comportamento através do conceito da motivação para a acção, pelo que o peso da tendência para a homeostasia do sistema acaba por ser por demais valorizado. Assim, o tomar drogas seria um comportamento natural quando se está num estado de carência, e corresponderia a um modelo de auto-regulação que cuida de reduzir desequilíbrios, ficando aquém de uma resposta que aponta para a auto-organização do sistema, no sentido de o sistema ser capaz de encontrar uma resposta suficientemente boa, tendo em conta a sua própria subsistência; pelo que, se os sistemas adaptáveis mesmo em condições particularmente adversas subsistem, os outros, face ao ruído introduzido pela droga no sistema, não encontrando uma solução eficaz podem não subsistir; A experiência diz-nos que o comportamento toxicodependente é rigidamente marcado pela busca e tomada de drogas, e pouco mais.

É da formulação sobre sistemas auto-organizados que Agra se vai socorrer para compreender o fenómeno. Esta pode constituir-se como um auxiliar precioso, através do conceito de personalidade, para compreender o comportamento toxicodependente; esta construção é abordada como um sistema auto-organizador de estrutura hierárquica como qualquer outro sistema complexo. Este sistema é aqui composto por vários níveis ou estratos de integração, em que cada estrato constitui um nível de funcionamento que tem uma linguagem própria: a linguagem do nível emotivo expressivo; a do nível fisiológico, que é a dos potenciais de acção; a linguagem dos níveis cognitivos, que é a linguagem dos símbolos, etc.. Cada linguagem de um nível é ruído para o nível seguinte e esse ruído é indutor da ordem - é a ordem a partir da desordem -; cada nível presta um serviço para o nível seguinte e é essencial para esse mesmo nível.

Agra vem dizer que este é um sistema hierárquico que se altera nas toxicodependências. Ou seja: se por um lado, no funcionamento normal do sistema, os níveis superiores, como acontece no sistema nervoso central, os níveis filogeneticamente mais recentes dominam os níveis inferiores, o que faz com que o sistema actue normalmente conforme as expectativas, nas toxicodependências essas alterações levam ao domínio dos níveis inferiores sobre os superiores, o que faz com que os actos se sobreponham ao pensamento.

A abordagem de Agra (1990) complexificou o modelo, juntando ao sistema global um novo sistema que funciona em paralelismo e que se chama o sistema etoético (sistema dos actos); «o sistema etoético é o subsistema pragmático do sistema físico. O sistema etoético é um objecto complexo constituido por componentes “pragmata” ou actos distintos e específicos ligados entre si por um certo número de relações» pág 417, nessa altura tudo fica envolvido pelo sistema das normas sociais é tudo isto que vai levar ao acto. Segundo ele, sempre que há uma perturbação de toxicodependência deixa de haver uma democracia e passa a haver uma autocracia em que os níveis inferiores dominam os superiores; ou seja: age-se primeiro e pensa-se depois. Provavelmente devido a esta preocupação incontornável em que se transformou o problema central “como é que eu vou ser capaz de arranjar a minha droga?”

No caso concreto, Agra analisa o comportamento dos adolescentes estabelecendo uma grelha de leitura diferente das desordens decorrentes da adolescência e do comportamento desviante, cuja leitura nos serve pela proximidade comportamental de que se revestem estas duas situações, marcada pela Krisis grega2, como o próprio autor refere, e que se reporta à decisão, no seio da turbulência e do ruído entre diferentes níveis de organização: Agra (1986), define-a assim: “a crise da adolescência consiste precisamente na ausência ou na má interconexão entre os estratos-subsistemas que descrevemos; factor gerador de ruído. Neste caso, ruído criado a partir da informação”. O estado da crise seria caracterizado, continua Agra, por um afastamento semântico entre os diferentes níveis de organização.

A leitura de Agra é de que algumas das dificuldades da adolescência decorrem das integrações, à partida, necessárias ao funcionamento dos diferentes estratos ou subsistemas e das conexões, múltiplas e complexas, que o sistema tem que fazer para operar. E uma vez que, neste período, o comportamento do indivíduo se caracteriza pela ausência, ou má conexão entre os estratos, subsistemas, estas dificuldades são factores geradores de ruído.

Assim como Agra aplicou ao sistema da personalidade o modelo sistémico complexificando-o, também Marques Teixeira o aplicou, mas ao nível do Sistema Nervoso Central. Para tal, utilizou o conceito de ruído informacional, dando conta das configurações especificas que este assume para o SNC dos toxicodependentes, no quadro experimental utilizado.

De um e de outro trabalho concluiu-se que a leitura compreensiva e explicativa do toxicodependente foi operada a partir da lógica sistémica, com a vantagem de terem sido criadas grelhas específicas para a interrogação deste objecto, segundo esta mesma lógica.



Noção de caos
Edward Lorentz foi o primeiro investigador a utilizar esta teoria para abordar de modo racional o comportamento da meteorologia ou outros sistemas não lineares3 com a intenção de a explicar. Em 1963, publica um modelo simplificado da dinâmica da atmosfera terrestre de onde vem a extrair como conclusões principais; o seguinte:

  1. “O seu modelo possui a propriedade da “instabilidade”, pelo que qualquer previsão de longo prazo do comportamento da meteorologia (porque obedece a uma lógica dos sistemas não lineares) não seria viável.

2 – Qualquer sistema físico que se comporte de forma não periódica é imprevisível.

3 - Uma mudança mínima no estado da atmosfera no instante zero dá lugar a modificações muito diferentes no decorrer do tempo, pelo que os pequenos erros, no início, mostram-se catastróficos no final.” (Gleik, 1994).

Esta abordagem de Lorentz só consegue a atenção do mundo cientifico quando, em 1972, na sequência de uma comunicação, feita perante a Associação Americana para o Avanço da Ciência, apresenta uma comunicação com o título “Predictibilidade; o batimento das asas de uma borboleta no Brasil pode desenvolver um tornado no Texas”.4

A aplicação desta teoria do caos, desenvolvida a partir de 1974, em Los Álamos, por

Mitchell Feigenbaum, assim como os conhecimentos sobre as estruturas fractais, foram importantes para a compreensão da teoria da auto-organização dos sistemas caóticos, que operam sobre um grande número de condições e são adaptáveis e flexíveis p. ex. (o funcionamento cardíaco, o S.N.C.). “Ora o Sistema Nervoso, como sistema complexo, insere-se numa lógica deste tipo” diz Marques-Teixeira (1991), afirmação que decorre da análise dos trabalhos de Mayer-Kuss, Rapp, Babloyantz e Destexhe (citados por Golberg et al., 1990) e em Marques-Teixeira (1991).

Os avanços decorrentes do conhecimento dos sistemas têm permitido perceber que os sistemas caóticos são a constante da natureza, tendo em comum o facto de serem sistemas mecânicos ordinários, no sentido clássico, mas com uma dinâmica continuamente ajustada por decisões de predição impossível.

Marques-Teixeira aborda a ideia (ao falar do comportamento toxicodependente) a partir da descrição de um sistema de tipo caos fraco que, relembra ele, obedece a uma dinâmica assente numa relativa incerteza acerca das condições iniciais, incerteza que aumenta com o tempo, mas de uma forma mais lenta daquela que obedece nos sistemas totalmente caóticos, parecendo referir-se ao que Bohm (1987 citação Marques-Teixeira, 1991), poderia ter chamado ordem caótica; a qual traz implícita, a existência de uma ordem no caos, dependente de uma outra de baixo grau, a partir de uma outra ordem caótica de grau infinito.

Este conceito está particularmente próximo do conceito formulado pelos físicos contemporâneos, concretamente por Prigogine, sobre “as estruturas dissipativas”, demonstrando que a “ ordem por flutuações “ leva de um estado desordenado a um estado ordenado. Ou, dito de outro modo, o caos dá origem à ordem.



Noção de ordem /desordem
Boltzman, citado por Atlan, tinha levantado a questão: “que entendemos nós por ordem e por desordem na natureza?” A resposta, diz Atlan, depende da nossa compreensão de um dos princípios físicos, senão o único, que rege a evolução dos sistemas naturais, o segundo princípio da termodinâmica. Boltzman, continua Atlan, numa formulação estatística deste princípio, por ser esta a única possibilidade de o fazer, face à impossibilidade de controlar todos os elementos constituintes da matéria,5 afirma: “um sistema físico quer dizer que qualquer porção de matéria isolada (sem trocas com o meio) evolui inevitavelmente para um estádio da maior “desordem” molecular”. A desordem máxima será obtida quando o sistema atinge o seu estado de equilíbrio, (este equilíbrio é caracterizado por uma homogeneidade macroscópica perfeita), de tal modo que nenhum fluxo de matéria, energia ou informação, pode passar de uma parte à outra do sistema.

“Resulta desta abordagem a distinção de dois estados da matéria: um macro-estado, que define as suas características mais grosseiras e um micro-estado6 (aqui a dinâmica é do tipo caótico), que define as trajectórias e as colisões precisas que cada molécula irá ter com outra molécula determinada, num preciso momento e numa determinada localização” Atlan, (1979). Este conceito de ordem e desordem tem sido retomado, nas últimas décadas, pela linguagem cientifica, agora em termos de auto-organização.7



Noção de informação
Shannon, (1948), resume a experiência teórica adquirida sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial sobre os meios de comunicação. E esta sua teoria sugere possibilidades inteiramente novas, ao afirmar a possibilidade paradoxal da existência de uma comunicação sem erros não obstante os ruídos que perturbam a transmissão, desde que seja utilizado um código apropriado. Isto é tanto mais importante quanto se tinha estabelecido que a quantidade de informação8 de uma mensagem transmitida numa via de comunicação perturbada por um ruído, não pode senão decrescer numa quantidade igual à ambiguidade introduzida por esse ruído entre a entrada e a sua saída, associando-lhe então a noção de “entropia” como a quantidade de energia não utilizável; e não pode ser de outro modo, tendo em conta a ponte feita entre esta e o 2º princípio da termodinâmica.

As novas abordagens vêm propor um outro ponto de vista, o qual carrega consigo a necessidade de descobrir a ordem oculta da natureza, o que nos leva a questionarmo-nos sobre as competências dos sistemas para subsistir. É assim que, a partir dessa mesma teoria, Atlan vai levantar a questão: como e em que condições se pode criar ordem a partir do ruído? Ou, dito de outro modo: como e em que condições do acaso pode o ruído contribuir para a criação da complexidade organizacional, em vez de ser só um factor de desorganização?

A resposta parece estar ligada às pesquisas formais sobre a lógica dos sistemas auto-organizados, que vêm refazer o seu possível enquadramento, quando se atribuí aos organismos, já não só a capacidade de resistir ao ruído, mas a capacidade de o utilizar e até o transformar em factor de organização, afirmando mesmo que esses sistemas não se alimentam só de ordem e que não há nada de negativo no facto de haver ruído no seu sistema.

Por seu lado, Ashby, referido por Atlan (1979), ao formular a “Lei da Variedade Indispensável”, vem ampliar o entendimento das condições mínimas das estruturas necessárias a todo o sistema exposto a um meio agressivo. Em síntese, as suas conclusões serão as de que, num meio repleto de fontes de agressões diversas e imprevisíveis, uma variedade na estrutura do sistema e nas suas funções é um factor indispensável de autonomia.

Uma abordagem deste tipo, coloca-nos próximo duma importante interrogação que tem a ver com o modo como definiremos um sistema biológico e as leis a que obedecem. “Estes são capazes de funcionar com amplas taxas de “ruído” (desordem), combatendo a pressão desorganisadora através de estádios crescentemente informativos e complexos (neguentrópicos), como se a ordem se alimentasse localmente de desordem” (Schorodinger, 1945. cit Marques-Teixeira, 1991)

A resposta aponta para a questão da matéria viva que, ao contrário do que afirmava Monot, obedece a leis próprias, entre as quais se poderiam apontar, como exemplo, a capacidade para se auto-reproduzirem e a tendência para a preservação.

A abordagem acerca do que é a matéria viva e a sua reprodução, que já tínhamos visto em Prigogine, ao estudarmos as estruturas dissipativas, e que Weissmann (1885, cit. Jeorge 1995), “propõe a existência de duas grandes categorias de matéria viva: a substância hereditária, germinal, disseminada por todo o organismo e a substância somática, o que correspondia, ao nível celular, à distinção do botânico suíço Nageli entre ideoplasma e trofoplasma. Cedo na embriogénese as células germinais se separam das somáticas e a hereditariedade depende apenas daquelas. Fazendo esta separação, Weissmann afirma que a hereditariedade não implica pangeneticamente a totalidade do organismo, mas factores de outra natureza ligados às células germinais, potenciais hereditários, envolvendo um suporte material que cada organismo revela. Esta teoria é confirmada pelas leis de Mendel, acrescentando o holandês De Vries a hipótese de mutações que perturbam a reprodução conforme do material hereditário. Sutton, no entanto, já tinha expresso em 1903 a ideia de que o mecanismo da hereditariedade só pode ser compreendido “se admitir que os cromossomas transportam escritos nas suas estruturas e oportunamente emparelhados, os caracteres dominantes/recessivos, segundo os mais diversos entrelaçamentos”. No entanto ainda faltava que a bioquímica e a biofísica encontrassem o seu protagonismo para que as proteínas e ácidos nucleicos passassem a ocupar o centro das atenções da disciplina. Era sobretudo nas enzimas, dotadas de propriedades catalíticas particularmente eficazes, que parecia estar encerrada a originalidade da química dos seres vivos, compreendendo-se também que é graças à presença de uma enzima específica que as reacções que constituem o metabolismo celular se podem realizar a uma velocidade apreciável. Ligar estes aspectos do metabolismo aos mecanismos de transmissão hereditária obrigaria a uma aproximação complicada entre a genética e a bioquímica, cada um deles com o seu modelo particular: uns, com as estruturas moleculares e as catálises enzimáticas, os outros a descreverem a anatomia e fisiologia duma estrutura de ordem alojada nos cromossomas; atribuem a capacidade da transmissão de características fixas e determinadas à memória das espécies, à mudança dessas características o aparecimento de espécies novas. “As qualidades dos seres vivos repousam no fim de contas sobre duas entidades novas: o que os bioquímicos chamam proteínas e o que os genéticistas chamam genes” (Jacob, cit. Jeorge, 1995). É desta qualidade dos seres vivos que resulta a obrigação da referência mútua que leva a biologia a associar-se estreitamente à física e à química.

É normalmente neste contexto que o conceito de informação surge associado à competência para transmitir geneticamente características de geração em geração.9

Do mesmo modo, o sistema nervoso pode ser visto como um sistema que trata informação, e o cérebro como o seu núcleo fulcral. Ou seja, o SNC configura-se como um sistema com “inputs”, pelo que o sistema funcionaria, a partir do conteúdo informativo de instruções proveniente do meio, elaborando uma sua representação operacional. Segundo uma outra perspectiva, mais complexa, o sistema nervoso central é definido, essencialmente, pelos seus diversos modos de coerência interna. Mais precisamente, pela inter-relação entre as partes neuro-anatómicas e o funcionamento global do conjunto nervoso. O autor, ao formular deste modo os processos de representação contextual no Sistema nervoso, está, implicitamente, a considerar a simultaneidade de dois operadores fundamentais nesta lógica sistémica e informacional em que se move:


  1. a lógica dos processos reactivos a estímulos;

  2. a lógica dos processos pró-activos.

Ou seja, o cérebro, enquanto sistema complexo, regula as adaptações do indivíduo ao meio. Por um lado “re-agindo” a esse mesmo meio e por outro “criando” nova informação com potencial adaptativo. Neste processo de adaptação ao contexto, a linguagem constitui um recurso privilegiado da espécie humana, 10sendo ela de nos poder ajudar a compreender, de modo imediato, de algum modo, a nossa organização cerebral.

Se nos detivermos, numa primeira observação do comportamento toxicodependente, este comportamento não parece reflectir a informação que o mesmo parece ter acerca das reais consequências do consumo e portanto esta informação não parece capaz de influenciar de modo significativo uma decisão sobre, por exemplo, a continuação desses consumos e nos parecer que os seus actos não reflectem esse conhecimento.

A característica que nos parece, neste caso, mais significativa no comportamento do indivíduo toxicodependente é a de que, quando analisado do ponto de vista estritamente comportamental, as informações do meio que nos parecem a nós ser priorizadas pelo indivíduo parecem ser as que dizem respeito a informações, de algum modo, ligadas à prevalência dos consumos, parecendo sintetizar de forma correcta, quer os meios para atingir esse objectivo, quer as estratégias comportamentais a utilizar.

Por outro lado, todas as estratégias comportamentais não centradas neste objectivo imediato de consumo, parecem-nos falhar pela base, apresentando o seu comportamento alguma dificuldade na gestão do quotidiano, do tempo e dos modos, sendo que algumas vezes os comportamentos parecem indiciar dificuldades básicas, como se os instrumentos de adaptação pessoal e mesmo os destinados à subsistência física perdessem a sua eficácia, deixando o indivíduo indiferente e indefeso face ao que se passa à sua volta.

Nesta hierarquia de prioridades, o indivíduo parece-nos que se apresenta “como não disponível” para dar atenção senão a informações ligadas ao consumo, o que de modo claro condiciona os seus actos, e, finalmente vai-nos permitir interrogarmo-nos sobre a hipótese do toxicodependente ser um indivíduo com baixo nível de vigilidade para o acessório e atento a tudo o que possa permitir-lhe a manutenção da

sua adição. A questão final prende-se com a interrogação: estarão as neurociências11 actuais em condição de nos ajudar a encontrar esta resposta?



Noção de auto-organização

Apesar de a segunda lei da termodinâmica, de que há sempre perdas de energia, ou informação (entropia),12 é possível encontrar sistemas complexos altamente organizados, mas que violam este espírito, sistemas estes onde ocorrem processos neguentrópicos.

Partindo dos sistemas onde circula informação, diz Atlan, os sistemas auto-organizados são criativos, na medida em que partem do ruído existente onde circula informação e desenvolvem uma propriedade fundamental, o serem capazes de utilizar os fenómenos aleatórios (ruídos) para os integrar como factores positivos, criadores de ordem, de estrutura, de função, portanto criadores de informação. Pondo como condicionante para que tal aconteça, a necessidade de que o conjunto pertença ao que Van Neumman & Morgenestern (1944, cit. Marques–Teixeira, 1991), chamaram um sistema hipercomplexo. Se assim for, uma desorganização de um nível pode corresponder a um aumento de informação para o nível superior.

Atlan (1979), que parte da noção de ruído e a sua implicação no funcionamento dos sistemas auto-organizados, diz: “partir da teoria da informação de Shannon, permitimo-nos resolver certos paradoxos lógicos da auto-organização, “como e em que condições se pode criar a partir do ruído,” ou, dito de outro modo, “como e em que condições do acaso pode o ruído contribuir para a criação da complexidade organizacional, em vez de não ser senão um factor de desorganização?”

Uma primeira ideia é a de que o ruído, provocado no sistema por factores aleatórios do meio, a partir da altura em que ele é utilizado pelo sistema como factor de organização, deixou por isso, de facto, de ser ruído.13

Provavelmente, a história do sistema será clarificadora sobre a capacidade de adaptação do mesmo; quer isto dizer: a capacidade de utilizar o “acaso” e o “erro” como factor promotor de crescimento, de modo a que os efeitos do ruído, em vez de perturbarem, se tornem então os acontecimentos significativos da história do sistema e do seu processo de organização, sendo que tal acontece a partir da altura em que o sistema é capaz de integrar esses mesmos erros na sua própria organização. Marques-Teixeira (1995) afirmou: “o comportamento global do sistema depende da sua história, de tal modo que as flutuações ao longo do tempo apresentam um aspecto errático, designado por ruído flutuante”. A seguir, distingue este tipo de ruído do “ruído branco” característico, por exemplo, do ruído do televisor que, pelo carácter aleatório que tem, não pode funcionar como orientador/auto-organizador para o sistema.

A ideia a que recorre Marques Teixeira, quando aplicada ao funcionamento cerebral do toxicodependente fica mais clara, descrevendo um sistema de tipo caos fraco que, lembra ele, obedece a uma dinâmica assente numa relativa incerteza acerca das condições iniciais, incerteza que aumenta com o tempo, mas de uma forma mais lenta da que obedece nos sistemas totalmente caóticos.

A “liberdade criativa” que parece caracterizar o comportamento humano, parece estar de acordo com os estudos de Basar (1990)14 que, no essencial, dizem que o funcionamento cerebral obedece à lógica dos sistemas auto-organizados, a introdução da droga no sistema parece ser capaz de interferir com a capacidade para este lidar com o ruído, pelo que os resultados esperados serão consonantes com esta perda; isto é, perdem a competência de se auto-organizar produzindo por isso comportamentos que podem levar à morte, como se o cérebro perdesse momentaneamente a capacidade para lidar com as situações.

E é o cérebro, lugar onde tudo se passa, e o seu funcionamento, que o homem tem pretendido compreender; daí o recurso às máquinas artificiais - o computador - como contraponto para se compreender a complexidade das máquinas naturais. E isto pelo facto de o computador ter características importantes que, de algum modo, se assemelham às da transmissão nervosa, a qual, na sua maioria, é um fenómeno do “tudo ou nada”, aspecto em que ambos são muito semelhantes, tem sido o termo de comparação e objectivo da pesquisa. Tal comparação leva inevitavelmente a que alguma vez formulemos uma pergunta simples: será possível copiar a “instalação” do cérebro pela acção do computador, sobretudo tendo em conta a complexidade dessa instalação?

Desde logo, uma característica parece ser incapaz de ser copiada, pelo menos no estado actual do conhecimento e essa característica tem a ver com um fenómeno conhecido como plasticidade cerebral. Tal característica tem a ver com o facto das interligações entre neurónios não serem fixas, como terão de ser no computador (pelo menos por já, embora já hajam esforços nesse sentido incluídos na chamada “biótica”), mas mudarem constantemente as ligações sinápticas onde tem lugar as comunicações entre os diferentes neurónios, e esta é uma característica essencial da actividade cerebral.15

Se, por um lado, é relativamente fácil de aceitar que o conceito de sistema auto-organizado se pode associar de forma simples com estas características de plasticidade do sistema nervoso, por outro, parece ser extremamente difícil aceitar a ideia de um mecanismo ser capaz, por si só, de introduzir mudanças contínuas que permitam adaptações e readaptações do sistema sem a intervenção de um operador externo.16 Nas máquinas artificiais essas adaptações e readaptações dificilmente serão concebidas como resultado de factores aleatórios, nos quais nenhuma lei pré-figurando uma organização, pode ser estabelecida; assim, também será teoricamente estranha a inexistência de indicadores que permitam discernir um programa, pois só neste caso se poderá, de algum modo, falar de auto organização, mesmo que não seja em sentido estrito. Esta competência é exclusiva das máquinas naturais e não são nela acompanhadas pelas outras, pois só elas, como diz Atlan, são sistemas auto-organizados, isto é, são criativos no sentido em que partem do ruído existente onde circula informação e desenvolvem uma propriedade fundamental, - o de serem capazes de utilizar os fenómenos aleatórios, “ruídos”, para os integrar como factores positivos, criadores de ordem, de estrutura, de função, portanto criadores de informação.

Uma vez o conceito esclarecido estaremos então em condições de formular algumas interrogações:

1) Sendo a auto-organização uma característica dos sistemas complexos, como é exemplo é o S.N.C. será que quando estes sistemas “disfuncionam”, eles perdem a capacidade para utilizar o ruído como activador dessa mesma organização?

2) Sendo assim, e se considerarmos a droga como um ruído introduzido no S. N. C., qual será o seu efeito?

Do trabalho de Marques Teixeira conclui-se no essencial que o impacto do ruído informacional no sistema nervoso central dos toxicodependentes é radicalmente distinto do impacto produzido no sistema nervoso central dos grupos de controle. O autor conclui que os sujeitos toxicodependentes não activam os seus processo auto-organizados quando o sistema nervoso é interferido ao nível informacional.

A ideia permite-nos assim relacionar ruído como algo que interfere ou provoca uma perturbação que impede a organização de uma resposta capaz de restabelecer equilibrios internos.

3) A interrogação desloca-se, assim, para o que acontece com a droga quando é introduzida no sistema, bem como para o facto de interferir, de modo significativo, no comportamento do SNC de quem a utiliza. A sua presença provocará, neste sentido, o aumento do ruído normal da comunicação, funcionando como amplificador da incerteza? Ou a droga, introduzida no sistema reduz a complexidade desse sistema, o que torna mais facilmente previsível o seu funcionamento futuro?


  1. Finalmente, as três questões anteriores acarretam uma quarta, que tem a ver com o significado sistémico da perturbação sempre que temos uma disfunção? Na prática estamos a questionar-nos acerca da importância do consumo na vida do consumidor abusivo, questionando-nos acerca das possíveis interferências que a existência de dada disfunção, decorrente do consumo, pode introduzir no funcionamento normal do sistema, das suas repercussões no comportamento do indivíduo e, portanto, do modo como o toxicodependente é capaz de levar em frente a sua vida, tendo em conta as complexas tarefas da vida actual. Por outro lado, questionamo-nos ainda sobre se bastará uma única área anatómica ser afectada ou se, eventualmente, os circuitos de funcionamento cerebral não terão mecanismos de compensação sofisticados que tenderão para recuperar as dificuldades, pelo que a perturbação só terá significado caso ultrapasse de algum modo essa mesma capacidade?,17

Partindo então da ideia que o ruído informacional constituído pela droga ao ser introduzido no sistema faça funcionar o princípio da ordem a partir da desordem, temos então essa organização como a responsável pela qualidade da resposta à questão que nos parece fundamental, porque é que a droga não tem de modo nenhum o mesmo efeito devastador nos diferentes sistemas?18 Será que uns são capazes de encontrar um caminho auto organizador a partir da informação que aí circula e outros se perdem na leitura do acessório e/ou apresentam uma tendência para desperdiçar o essencial das mensagens?

Bem entendido que, ao colocarmos a questão desta maneira, não nos estamos a esquecer que, à luz do paradigma que atrás enunciamos, não poderemos ensaiar respostas a esta questão que não considere quer a multicausalidade, quer os princípios da dinâmica não linear.

Queremos tão só considerar que a via que iremos seguir para encontrar as respostas a estas e às outras questões obedecerá às regras do jogo científico, nomeadamente aos princípios que regem o paradigma experimental. Este paradigma é, por natureza, um paradigma reducionista;19 no entanto, é assim que a ciência tem produzido conhecimento objectivo.

Atendendo à síntese que foi feita, parece que para apreendermos qualquer modelo que pretenda abordar a toxicodependência do ponto de vista do funcionamento do SNC terá necessariamente de ser um modelo complexo.



Questões Prévias
A toxicodependência tem-se constituído como tema de diversos trabalhos experimentais com os mais diversos objectivos, em que se destacaram, nos últimos anos, as possíveis repercussões da utilização de substâncias nos seus aspectos psicofisiológicos e neuropsicológicos, transformaram-se assim, num tema fundamental para que possamos ter uma imagem mais clara da dimensão do problema e das suas possíveis evoluções.

O nosso trabalho insere-se nesta preocupação geral de compreensão do problema e dos seus contornos que tem, partindo da experiência que temos de trabalho com uma população com este tipo de perturbação, tentando organizar o que já sabíamos, de modo a que os resultados da investigação que pretendemos levar em frente possam ter utilidade prática e possam constituir-se como reflexão para futuros trabalhos.

Como estratégia para a primeira fase da investigação, partimos de um conjunto de questões prévias, de natureza teórica, formuladas após pesquisa bibliográfica introdutória e que nos pareciam ter alguma coisa em comum com o nosso problema. Mesmo quando o tema central das investigações não fosse, de facto, o consumo mas perturbações comportamentais decorrentes da situação em análise, optámos por reflectir sobre elas, reconhecendo, embora, o risco que estas comparações podem encerrar, sobretudo se tomadas sem a necessária reflexão.

1ª questão

A semelhança clínica entre alguns comportamentos de indivíduos com perturbações decorrentes dos consumos abusivos de substâncias psicoactivas com descrições comportamentais de doentes com perturbações da síndrome do lobo frontal, permitiu-nos orientar a pesquisa com o fim de encontrar autores como p. ex. Lereboullet & Pluvinage (195), Courville (1966), Benson & Miller (1996) que, no entanto, se referem a perturbações decorrentes do consumo abusivo de álcool e onde esta associação é abordada pela primeira vez. Posteriormente, também Jenstsch & Taylor (1999)20 discutem essas possíveis ligações entre a síndrome do lobo frontal e consumo de substâncias. E foi este tipo de interrogações que constituíram o nosso ponto de partida.

Após a nossa formulação inicial, de que poderia haver alguma relação entre os comportamentos de indivíduos com perturbações decorrentes do consumo abusivo de drogas e indivíduos com lesão do lobo frontal, pareceu-nos ser possível, suportada por análise bibliográfica posterior, uma associação entre estas diversas condições disfuncionais, cuja característica fundamental parece ser a incapacidade para utilizar toda a informação disponível no sistema. Quer isto dizer, partindo da observação cuidada de outras situações clínicas em que o cérebro demonstra uma incapacidade para utilizar toda a informação, que também no caso do toxicodependente esta parecia-nos ser a característica fundamental do seu funcionamento cerebral. Parece ser uma incapacidade para utilizar toda a informação disponível no sistema e as suas “decisões” comportamentais reflectem-na. Se, por um lado, no limite, o indivíduo com lesão do lobo frontal pode desconhecer quer as lesões que eventualmente tenha, quer a gravidade do seu próprio estado, como acontece por exemplo na anosognosia,21 por outro lado, foi esta observação, acerca das características de uma e outra condição, que nos permitiu formular a hipótese de que haveria este tipo de semelhanças, sobretudo comportamentais entre toxicodependentes e algumas patologias. A maior semelhança tem a ver com o facto de o tipo de comportamento, de uns e de outros, indiciar uma certa dificuldade para tratar a informação a que tem acesso, não obstante serem capazes de fazer análises de alguma qualidade sobre os problemas gerais da vida; quando sujeitos a testes psicológicos, as suas respostas não variam, senão em determinadas áreas,22das respostas dadas pela população geral.

2ª questão

A literatura científica tem alargado o conhecimento acerca dos processos implicados no surgimento, desenvolvimento e manutenção da disfunção. O conceito de circuitos de recompensa, já anteriormente desenvolvido, constitui um dos pontos importantes da ligação aos consumos de grande número das drogas de adição. Wise (1987)23 diz serem estas zonas cerebrais muito complexas do ponto de vista anatómico e interligadas na actividade do prazer.

A ligação entre neuro-anatomia cerebral e disfunção, decorrente dos consumos abusivos, parece constituir-se como um ponto importante da pesquisa actual.

Actualmente surge ainda uma preocupação acessória acerca da possibilidade do consumo de drogas poder, de algum modo, interferir com os aspectos relacionados com o processamento da informação a que o cérebro do consumidor tem acesso, nomeadamente a partir dos processos atencionais 24

É da análise da bibliografia especializada, apresentada no decorrer do trabalho, e da reflexão acerca dos resultados, decorrente das possíveis situações disfuncionais/lesionais no tratamento da informação a que o sistema tem acesso, que nos permitimos propor a hipótese experimental que pretendemos testar.

Tal proposta assentará na demonstração de que algumas drogas de abuso provocam disfunções várias, algumas vezes com alterações significativas da morfologia cerebral, (p.ex., Sklair & Tavron 1996; cit. Marques-Teixeira, 1998). No caso concreto apontava-se para o consumo crónico de morfina, o qual acaba por resultar na redução de 25% no perímetro dos neurónios da área ventral tegmental, área que, com o núcleo accumbens, além de outras, são, actualmente, reconhecidas por consenso, como particularmente importantes no desenvolvimento da patologia em causa.

Proposta do modelo adoptado

Nos distúrbios decorrentes dos consumos abusivos de substâncias psicoactivas levantamos a hipótese que esta condição apresenta algumas semelhanças estruturais, mas sobretudo funcionais, com situações já identificadas, em que as falhas detectadas no tratamento da informação a que o sistema tem acesso, embora elas se situem a níveis distintos do funcionamento cerebral, têm interferência directa nas performances do sistema.

Como exemplo, o caso da alexitimia,25 onde se encontram alterações do processamento do afecto,26o que interrompe ou interfere gravemente nos processos de auto-organização e auto-regulação do organismo.27

Como exemplo do que temos vindo a dizer e se analisarmos o toxicodependente do ponto de vista estritamente comportamental, ficamos com a sensação de que estes não são capazes de utilizar, de forma eficaz, toda a informação a que o sistema tem acesso. Será que essa falha, cuja existência nós hipotetizamos, determina uma incapacidade de o sistema produzir respostas adequadas e, em caso afirmativo, qual a importância da substância no processo?

Damásio (1995) tinha falado num “sintoma com algum tipo de semelhanças” (incapacidade de tratar a informação disponível) ao analisar o caso de L.C. de Elliot.28 Ele estava fisicamente apto e a maioria das suas capacidades mentais estavam intactas; porém, a sua aptidão para tomar decisões estava diminuída, assim como a sua capacidade para elaborar um planeamento eficaz das horas que tinha pela

frente, para não falar na planificação dos meses e dos anos no seu futuro”.29 Então, se todos os sistemas têm acesso à mesma informação, (pelo menos assim parece) porque “optam” uns por comportamentos que podem fazer perigar a sua continuidade, no caso dos dependentes, pelos consumos, quando isso vai poder pôr em causa a viabilidade do sistema? No caso de Elliot, tinha fundamentalmente repercussões na sua capacidade de planeamento e tomada de decisões.30 O passo seguinte de Damásio é de olhar para as emoções. Tal ideia decorre dos relatos que vai escutando de Elliot, à possibilidade de a alteração das emoções e sentimentos terem algum papel nas falhas das decisões. Sobre os princípios éticos, depois de ser confrontado com os “dilemas” de Kolberg, Elliot era normal nas respostas embora nos actos claramente o não fosse e, depois de responder coerentemente a todas as questões levantadas, deixa escapar uma frase: “depois disto tudo, ainda não saberia que fazer”, (como se o acesso à informação, pensamos nós, não fosse o determinante para a decisão). Parecia que a evolução da vida real não era compatível com as tarefas laboratoriais e, pelas descrições, poder-se-ía, de algum modo, pensar na alteração da personalidade prévia, como influência directa do acidente que Elliot sofreu no decorrer da sua actividade profissional e cuja característica primordial parecia ser a capacidade de analisar de forma mais ou menos correcta a situação, sem que, no entanto, os seus actos reflectissem essa competência.

A ideia básica de Damásio parece ser: “ao sermos confrontados com uma tarefa, um sem número de opções abrem-se à nossa frente e temos de seleccionar correctamente o nosso caminho, dia após dia, se quisermos continuar em frente”31. Elliot já não conseguia seleccionar esse caminho. As dificuldades descritas por Damásio, que do nosso ponto de vista estão particularmente próximas do que acontece na vida dos toxicodependentes, são actualmente possíveis de encontrar num vasto conjunto de estudos que tem tentado compreender a importância dos lobos frontais nas mais diversas dificuldades comportamentais sentidas pelo homem p. ex. (Jurado et al., 2000; Duncan et al., 2000; Lai et al., 2000) estudos que iremos abordar na sequência do nosso trabalho.

No nosso caso, o modelo adoptado para compreendermos o funcionamento cerebral do toxicodependente prende-se com a hipótese por nós formulada de que o seu cérebro pode, assim como algumas patologias bem conhecidas, apresentar alterações estruturais detectáveis através de testes neuropsicológicos. No entanto, independentemente destas alterações estruturais serem, ou não, detectáveis através dos instrumentos de diagnóstico, o sistema apresentar dificuldades significativas no processamento da informação a que tem acesso, o que pode ter algum significado para os erros decisionais que os toxicodependentes parecem cometer sistematicamente. Por outro lado, do ponto de vista sistémico, consideramos que a droga introduzida no sistema é capaz de interferir com a capacidade do mesmo para lidar com o ruído e daí decorre, como principal resultado, a incapacidade para este se auto-organizar, sendo que as suas respostas se caracterizam e reflectem uma falta de adaptabilidade.



CAPÍTULO II

Enquadramento empírico do problema


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