A viajante do tempo



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10 - O JURAMENTO
Houve um incrível alvoroço nos dois dias seguintes, com idas e vindas e preparativos de toda espécie. Minha prática médica caiu drasticamente; as vítimas de intoxicação alimentar recuperaram-se e todos pareciam ocupados demais para ficar doentes. Fora um leve surto de farpas nos dedos entre os rapazes que pegavam lenha nos bosques para as fogueiras e um surgimento similar de queimaduras entre as atarefadas cozinheiras, também não houve acidentes.

Eu mesma estava empolgada. Esta era a noite. A sra. Fitz dissera-me que todos os guerreiros do clã MacKenzie estariam no salão naquela noite, para fazer seus juramentos de lealdade a Colum. Com uma cerimônia dessa importância acontecendo no interior do castelo, ninguém estaria vigiando a estrebaria.

Durante as horas que ajudava nas cozinhas e nos pomares, eu conseguira armazenar alimentos suficientes para me sustentar por vários dias, pensei. Eu não possuía nenhum recipiente de água, mas inventara um substituto usando um dos frascos de vidro mais pesados do consultório. Tinha botas resistentes e um manto grosso, cortesias de Colum. Teria um bom cavalo; em minha visita à tarde à estrebaria, eu decidi o que pretendia levar. Não possuía nenhum dinheiro, mas meus pacientes haviam me dado um punhado de pequenas bugigangas, fitas, pequenas esculturas ou jóias. Se necessário, poderia usá-las para trocar por qualquer outra coisa que precisasse.

Sentia-me mal por abusar da hospitalidade e da amizade dos habitantes do castelo partindo sem uma palavra ou bilhete de despedida, mas afinal o que eu poderia dizer? Considerei o problema por algum tempo, mas finalmente resolvi simplesmente ir embora. Para começar, eu não tinha papel para escrever e não estava disposta a correr o risco de visitar os aposentos de Colum para procurar.

Uma hora depois do anoitecer, aproximei-me da estrebaria cautelosamente, os ouvidos atentos para qualquer sinal de presença humana, mas parecia que todos estavam no salão, preparando-se para a cerimônia. A porta emperrou, mas cedeu com um leve empurrão, as dobradiças de couro permitindo que ela virasse silenciosamente para dentro.

O ar dentro da cavalariça era quente e animado pelos leves movimentos dos cavalos em repouso. Também era escuro como o interior do chapéu de um coveiro, como tio Lamb costumava dizer. As poucas janelas que havia para ventilação eram fendas estreitas, pequenas demais para admitir a fraca claridade das estrelas lá fora. Com as mãos estendidas, caminhei lentamente para a parte principal da estrebaria, arrastando os pés na palha.

Tateava cuidadosamente à minha frente, procurando a borda de uma baia para me guiar. Minhas mãos encontravam apenas o vazio, mas minhas pernas esbarraram em uma sólida obstrução no solo e eu caí de cabeça para a frente com um grito de espanto que repercutiu nas vigas do telhado da antiga construção de pedras.

A obstrução rolou no chão com uma imprecação de surpresa e agarrou-me com força pelos braços. Vi-me presa contra um grande corpo masculino, sua respiração roçando em minha orelha.

- Quem é você? — perguntei, arfando e com um solavanco para trás. — E o que está fazendo aqui? — Ouvindo minha voz, o atacante despercebido relaxou os braços, soltando-me.

- Devo fazer a mesma pergunta a você, Sassenach - disse a voz grave e terna de Jamie MacTavish e relaxei um pouco, aliviada. Houve um movimento na palha e ele sentou-se.

- Embora eu ache que posso adivinhar - acrescentou secamente. - Até onde acha que conseguiria ir, dona, numa noite escura, com um cavalo estranho, com metade do clã MacKenzie em seu encalço pela manhã?

Eu estava desgrenhada, confusa e irritada.

- Não iriam atrás de mim. Estão todos lá no salão e se um entre cinco estiver sóbrio o suficiente para ficar em pé de manhã, quanto mais cavalgar um cavalo, eu ficaria muito surpresa.

Ele riu e, levantando-se, estendeu a mão para ajudar-me a ficar em pé. Tirou a palha da parte de trás da minha saia batendo com um pouco mais de força do que eu achava estritamente necessário.

- Ah, esse é um raciocínio certo de sua parte, Sassenach - disse, parecendo ligeiramente surpreso que eu fosse capaz de raciocinar. - Ou seria -acrescentou -, se Colum não tivesse guardas a postos ao redor de todo o castelo e espalhados pelos bosques. Ele nunca deixaria o castelo desprotegido com os guerreiros de todo o clã lá dentro. Considerando-se que pedra não queima tão bem quanto madeira...

Imaginei que estivesse se referindo ao hediondo Massacre de Glencoe, quando um homem chamado John Campbell, por ordens do governo, matara trinta e oito membros do clã MacDonald e ateara fogo à casa onde estavam. Calculei rapidamente. Isso teria ocorrido há apenas cinqüenta e Poucos anos; bastante recente para justificar quaisquer precauções defensivas da parte de Colum.

-- De qualquer forma, dificilmente poderia ter escolhido uma noite pior para fugir - MacTavish continuou. Parecia inteiramente despreocupado com o fato de que eu tinha realmente tentado escapar, mas apenas com as razões pelas quais não iria dar certo, o que me pareceu um pouco estranho. — Além dos guardas, e do fato de que os melhores cavaleiros num raio de muitos quilômetros estão aqui, o caminho para o castelo deve estar cheio de gente que vem do campo para o tynchal e os jogos.

- Tynchal?

- Uma caçada. Geralmente veados, talvez um javali desta vez. Um dos rapazes da cavalariça disse ao Velho Alec que há um grande na floresta a leste. - Colocou a mão grande e forte no meio das minhas costas e virou-me na direção do esmaecido retângulo da porta aberta.

- Vamos — disse. — Vou levá-la de volta ao castelo. Afastei-me dele com um safanão.

- Não precisa se preocupar, posso achar o caminho sozinha. Segurou meu cotovelo com firmeza.

- Acredito que sim. Mas não vai querer encontrar nenhum dos guardas de Colum sozinha.

- E por que não? - retruquei. — Não estou fazendo nada de errado; não há nenhuma lei proibindo caminhar fora do castelo, há?

- Não. Duvido que quisessem lhe causar algum mal — disse, espreitando as sombras cuidadosamente. — Mas não é nada incomum que um homem leve um pouco de bebida para lhe fazer companhia quando está montando guarda. E a bebida pode ser uma grande companheira, mas não costuma ser boa conselheira, quando uma pequena e meiga jovem como você surge diante de um homem na escuridão.

- Eu apareci diante de você sozinha no escuro - lembrei a ele, com certa ousadia. - E não sou particularmente pequena, nem muito meiga, ao menos no momento.

- Sim, bem, estava dormindo, não bêbado - respondeu resumidamente. - E à parte a questão do seu temperamento, você é bem menor do que a maioria dos guardas de Colum.

Deixei aquele comentário de lado como uma linha de argumentação improdutiva e tentei uma nova direção.

- E por que você estava dormindo na estrebaria? - perguntei. - Não tem uma cama em algum lugar? - Havíamos chegado aos limites externos das hortas e eu podia ver seu rosto na luz fraca. Ele estava atento, verificando cuidadosamente os arcos de pedra conforme avançávamos, mas diante da minha pergunta, lançou um olhar penetrante na minha direção.

- Sim — disse. Continuou a caminhar com passos largos, ainda agarrando meu cotovelo, mas continuou depois de uns instantes: - Achei melhor ficar fora do caminho.

- Porque não pretende jurar lealdade a Colum MacKenzie? — arrisquei. - E não quer aturar nenhum rebuliço por causa disso?

Olhou para mim, achando graça das minhas palavras.

- Mais ou menos — admitiu.

Um dos portões laterais fora deixado totalmente escancarado em sinal de boas-vindas e um lampião pendurado no alto de um parapeito de pedra a seu lado lançava uma claridade amarela sobre o caminho. Já havíamos quase atingido esse farol quando de repente minha boca foi tampada por alguém vindo por trás e eu fui bruscamente arrancada do chão.

Esperneei e mordi, mas meu captor usava uma luva grossa e, como Jamie dissera, era bem maior do que eu.

O próprio Jamie parecia estar tendo um pouco de dificuldades, a julgar pelos ruídos. Os grunhidos e imprecações sufocadas cessaram bruscamente com um baque surdo e um sonoro palavrão em gaélico.

A luta no escuro cessou e ouviu-se uma risada desconhecida.

- Por Deus, é o rapaz; o sobrinho de Colum. Está chegando tarde para o juramento, não, rapaz? E quem é esse com você?

- É uma garota — respondeu o homem que me segurava. - E bastante apetitosa, também, a julgar pelo peso. - A mão soltou minha boca e administrou um beliscão em outra parte. Dei um guincho de indignação, levantei a mão por cima do ombro, agarrei seu nariz e dei um puxão. O sujeito me colocou no chão com uma pequena blasfêmia, bem inadequada para a ocasião que estava sendo celebrada no castelo. Dei um passo para trás diante da baforada de vapores de uísque, sentindo uma repentina satisfação pela presença de Jamie. Talvez, afinal de contas, tenha sido prudente ele me acompanhar.

Ele não parecia estar pensando dessa forma, ao fazer uma tentativa vã de libertar-se dos dois soldados que o seguravam. Não havia nada de hostil em suas ações, mas havia uma considerável firmeza. Começaram a se mover decididamente em direção ao portão aberto, arrastando seu prisioneiro.

- Não, deixem ir me aprontar primeiro, rapazes - protestou. - Não posso comparecer ao juramento vestido deste jeito.

Sua tentativa de escapar foi frustrada pelo súbito aparecimento de Rupert, exuberante em sua opulência, com uma camisa de babados e casaco bordado a ouro, que saltou do portão estreito como a rolha de cortiça de uma garrafa.

- Não se preocupe com isso, rapaz - disse, inspecionando Jamie com um olhar brilhante. - Vamos vesti-lo adequadamente lá dentro. - Atirou a cabeça para um lado, indicando o portão, e Jamie desapareceu, sob coação. A mão musculosa do meu captor agarrou meu cotovelo e eu o segui, a contragosto.

Rupert parecia estar muito bem-humorado, como os outros homens de dentro do castelo. Havia talvez uns sessenta ou setenta homens, em seus melhores trajes, ornamentados com adagas, espadas, pistolas e a bolsa de pêlo usada no cinto do kilt, andando de um lado para o outro no pátio mais próximo à entrada do grande salão. Rupert acenou indicando uma porta na parede e os homens empurraram Jamie para dentro de uma pequena sala iluminada. Aparentemente, era usada como depósito; uma miscelânea de artigos de toda ordem enchia as mesas e prateleiras que mobiliavam a sala.

Rupert inspecionou Jamie com olhar crítico, percebendo as hastes de palha em seus cabelos e as manchas em sua camisa. Vi seu olhar relancear para as palhas nos meus próprios cabelos e um riso cínico atravessou seu rosto.

- Não é de admirar que esteja atrasado, rapaz - disse, cutucando Jamie nas costelas. — Não o culpo nem um pouco.

- Willie! - gritou para um dos homens que estavam do lado de fora. -Precisamos de algumas roupas aqui. Algo adequado para o sobrinho do chefe. Vá providenciar, rapaz, depressa!

Jamie olhou à sua volta, os lábios semi-cerrados, para os homens que o rodeavam. Seis membros do clã, todos arrebatados diante da perspectiva do juramento e transbordando de um desenfreado orgulho MacKenzie. Evidentemente, os ânimos haviam sido exacerbados por um amplo consumo da cerveja do barril que eu vira no pátio. Os olhos de Jamie recaíram sobre mim, a expressão ainda enfurecida. Isso era culpa minha, pareciam dizer.

Ele podia, é claro, anunciar que não pretendia prestar juramento de lealdade a Colum e voltar para sua cama quente na estrebaria. Isto é, se quisesse levar uma surra ou ter a garganta cortada. Ergueu uma sobrancelha para mim, encolheu os ombros e submeteu-se com uma boa dose de boa vontade aos cuidados de Willie, que veio correndo com uma pilha de linho branco nos braços e uma escova de cabelos na mão. A pilha era encimada por um gorro de veludo azul, adornado com uma insígnia de metal com um ramo de azevinho. Peguei o gorro para examiná-lo, enquanto Jamie lutava para entrar numa camisa limpa e escovava os cabelos com uma ferocidade reprimida.

A insígnia era redonda e a gravação surpreendentemente refinada. Na borda, lia-se um lema: Luceo non Uro.

- Eu brilho, não queimo - traduzi em voz alta.

- Sim, senhora. O lema dos MacKenzie — disse Willie, balançando a cabeça como um sinal de aprovação para mim. Tomou o gorro das minhas mãos e enfiou-o nas de Jamie, antes de sair apressado em busca de mais roupas.

- Hã... desculpe-me - eu disse em voz baixa, aproveitando a ausência de Willie para me aproximar. — Não quis...

Jamie, que estivera olhando a insígnia no gorro com desaprovação, voltou-se para mim e a linha irada de sua boca relaxou.

- Ah, não se preocupe por minha causa, Sassenach. Teria acontecido mais cedo ou mais tarde. - Retirou a insígnia do gorro e sorriu melancolicamente para mim, manuseando-o especulativamente na mão.

- Sabe qual é meu próprio lema, dona? - perguntou. - Do meu clã, quero dizer?

- Não - respondi, surpresa. - Qual é?

Lançou a insígnia uma vez no ar, pegou-a e colocou-a cuidadosamente dentro da bolsa em sua cintura. Olhou um tanto desolado em direção à arcada aberta, onde os membros do clã MacKenzie aglomeravam-se em filas desordenadas.

- Je suis prest - respondeu, num francês surpreendentemente bom. Olhou para trás e viu Rupert e outro MacKenzie grandalhão que eu não conhecia, os rostos afogueados de animação e bebida, avançando com um propósito determinado. Rupert segurava um longo tecido estampado com o tartã dos MacKenzie.

Sem preliminares, o outro homem estendeu a mão para a fivela do kilt de Jamie.

- É melhor ir embora, Sassenach — Jamie avisou laconicamente. - Não é lugar para mulheres.

- Estou vendo — respondi secamente e fui recompensada com um sorriso retorcido enquanto seus quadris eram enrolados no novo kilt e o velho era arrancado habilmente por baixo, preservando o recato. Rupert e o amigo seguraram-no firmemente pelos braços e empurraram-no em direção à arcada.

Saí no mesmo instante e dirigi-me para as escadas que levavam à galeria dos menestréis, evitando cuidadosamente o olhar de qualquer membro do clã ao passar. Uma vez dobrado o corredor, parei, encolhendo-me contra a parede para não ser notada. Esperei um instante, até o corredor ficar temporariamente deserto, em seguida passei furtivamente pela porta da galeria, fechando-a rapidamente atrás de mim, antes que outra pessoa qualquer dobrasse o corredor e visse onde eu estava indo. As escadas estavam fracamente iluminadas pela claridade que vinha de cima e não tive dificuldades em manter os pés firmemente nas lajes de pedra desgastadas. Subi em direção ao barulho e à luz, pensando naquela última e breve troca de palavras.

Je suis prest. Estou pronto. Esperava que ele realmente estivesse.

A galeria estava iluminada por tochas de pinheiro, chamas brilhantes que se erguiam diretamente para cima em seus suportes, delineadas em negro pela fuligem que suas antecessoras haviam deixado nas paredes. Diversos rostos se voltaram, piscando os olhos, para me olhar quando saí das cortinas ao fundo da galeria; parecia que todas as mulheres do castelo estavam ali em cima. Reconheci Laoghaire, Magdalen e algumas das outras mulheres que eu conhecera nas cozinhas e, é claro, a figura robusta da sra. Fitz-Gibbons, em posição de honra junto à balaustrada.

Ao me ver, acenou amavelmente para mim e as mulheres apertaram-se para me deixar passar. Quando cheguei à frente, pude ver toda a extensão do salão abaixo.

As paredes estavam decoradas com ramos de murta, teixo e azevinho e sua fragrância erguia-se até a galeria, misturada à fumaça das tochas e ao pungente odor de homens. Havia dezenas deles, vindo, indo, parados em pequenos grupos espalhados pelo salão e todos trajando alguma versão do tartã do clã, fosse apenas o xale ou um gorro de tartã usado com uma camisa comum de trabalho e calças rotas, do tipo amarrado nos joelhos. Os padrões de xadrez eram muito variados, mas as cores eram basicamente as mesmas - tons de verde-escuro e branco.

A maioria dos homens usava traje completo, como Jamie agora, com kilt, xale do mesmo xadrez, gorro e - na maior parte dos casos - insígnias. Eu o vi de relance, parado junto à parede, ainda com um ar ameaçador. Rupert desapareceu na multidão, mas dois outros MacKenzie mais musculosos ladeavam Jamie, obviamente guardas.

A confusão no salão gradualmente começava a se organizar, à medida que os residentes do castelo empurravam e conduziam os recém-chegados para seus lugares no extremo inferior do aposento.

Era uma noite especial; o jovem que tocava a gaita-de-foles no salão fora reforçado por dois outros gaiteiros, um deles um homem cuja atitude e gaitas montadas em marfim indicavam ser um mestre. Esse homem fez um sinal com a cabeça para os outros dois e logo o salão encheu-se do arrebatado bordão da música de gaita-de-foles. Muito menores do que as majestosas gaitas nortistas usadas nos campos de batalha, essas versões menores faziam uma algazarra muito eficaz.

Os cantores lançavam um vibrato acima dos acordes graves e prolongados das gaitas, fazendo o sangue dos ouvintes alvoroçar-se nas veias. As mulheres agitaram-se à minha volta e lembrei-me de um verso de "Maggie Lauder":

"Ah, eles me chamam de Rab, o Cantador, e todas as moças ficam loucas, Quando solto a minha voz."

Se não loucas, as mulheres à minha volta demonstravam grande apreciação e ouviam-se muitos murmúrios de admiração, enquanto se debruçavam sobre o parapeito, apontando para um ou outro homem que andava pelo salão exibindo seus melhores trajes. Uma das jovens localizou Jamie e com uma exclamação abafada, fez sinal para que suas amigas fossem ver. Houve um murmúrio e um burburinho consideráveis com sua aparição.

Em parte, era admiração por sua bela aparência, porém tratava-se mais de especulação sobre seu comparecimento ao juramento. Notei que Laoghaire, em particular, iluminou-se como uma vela ao observá-lo e lembrei-me do que Alec dissera "Sabe que o pai dela não vai permitir que ela se case fora do clã". E ele era sobrinho de Colum? Quanto a isso, o rapaz devia ser um bom partido. Fora o detalhe da condenação, é claro.

A música das gaitas elevou-se a um volume intenso e em seguida, bruscamente, parou. No silêncio sepulcral do sótão, Colum MacKenzie entrou pela arcada superior e caminhou com passos decididos para uma pequena plataforma que fora erguida na cabeceira do aposento. Se não fazia nenhum esforço para ocultar sua deficiência, também não a exibia. Estava magnífico num casaco azul-celeste profusamente bordado a ouro, abotoado com botões de prata e com punhos de seda cor-de-rosa, virados para cima até quase os cotovelos. Um kilt de tartã de fina lã descia até abaixo dos joelhos, cobrindo a maior parte de suas pernas e das meias axadrezadas que as cobriam. Seu gorro era azul, mas a insígnia de prata sustentava plumas, não azevinho. O salão inteiro prendeu a respiração quando ele assumiu o centro do palco. O que quer que fosse, Colum MacKenzie era um showman.

Encarou diretamente o clã reunido, ergueu os braços e cumprimentou-os com um grito ressonante.

- Tulach Ardi

- Tulach Ardi — responderam os membros do clã com um rugido. A mulher ao meu lado estremeceu.

Em seguida, Colum fez um breve discurso, em gaélico. Suas palavras eram recebidas com periódicos urros de aprovação. Então, a cerimônia de juramento propriamente dita começou.

Dougal MacKenzie foi o primeiro a avançar até a plataforma de Colum. A pequena tribuna dava a Colum altura suficiente para que os irmãos se olhassem frente a frente nos olhos. Dougal estava ricamente vestido, mas em veludo castanho, sem nenhum bordado a ouro, de modo a não desviar a atenção da magnificência de Colum.

Dougal sacou sua adaga com um gesto floreado e abaixou-se sobre um dos joelhos, segurando a adaga para cima, pela lâmina. Sua voz soou menos estrondosa do que a de Colum, mas suficientemente alta para que cada Palavra reverberasse pelo salão.

--Juro pela cruz de nosso Senhor Jesus Cristo e pela lâmina sagrada que seguro, dar-lhe minha fidelidade e prometer-lhe minha lealdade ao nome do clã MacKenzie. Se alguma vez minha mão erguer-se contra o senhor em rebelião, rogo que essa lâmina sagrada seja cravada em meu coração.

Abaixou a adaga, beijou-a na junção do cabo e do metal e enfiou-a novamente na bainha. Ainda ajoelhado, estendeu as mãos postas a Colum, que as tomou entre as suas e levou-as aos lábios, aceitando o juramento assim oferecido. Em seguida, ajudou Dougal a se levantar.

Virando-se, Colum pegou uma taça de prata da mesa coberta com tartã atrás dele. Ergueu a pesada taça de duas alças com as duas mãos, bebeu da taça e ofereceu-a a Dougal. Este tomou um bom gole e devolveu a taça. Em seguida, com uma mesura final para o senhor do clã MacKenzie, afastou-se para o lado, para dar lugar ao próximo homem da fila.

O mesmo processo foi encenado repetidamente, da promessa ao brinde cerimonial. Vendo o número de homens na fila, fiquei mais uma vez impressionada com a capacidade de Colum. Eu estava tentando calcular quantos litros de bebida ele teria que consumir até o final da noite, considerando-se um gole para cada juramento, quando vi Jamie aproximar-se da frente da fila.

Dougal, terminado seu próprio juramento, assumira uma posição atrás de Colum. Viu Jamie antes de Colum, que estava ocupado com outro homem, e eu vi sua repentina expressão de surpresa. Deu um passo para junto de seu irmão e sussurrou-lhe alguma coisa. Colum manteve o olhar fixo no homem à sua frente, mas vi que se empertigou ligeiramente. Também ficou surpreso e, achei, não muito satisfeito.

O nível de comoção no recinto, alto desde o início, elevara-se com o decorrer da cerimônia. Se Jamie se recusasse a fazer o juramento a essa altura, acho que poderia ser rapidamente estraçalhado pelos já incitados homens do clã à sua volta. Limpei as palmas das mãos disfarçadamente na minha saia, sentindo-me culpada de tê-lo colocado naquela difícil situação.

Ele parecia sereno. Apesar do calor dominante no salão, ele não estava suando. Aguardou pacientemente na fila, sem dar nenhum sinal de ter consciência de estar cercado de centenas de homens, armados até os dentes, que não demorariam em se ressentir de qualquer insulto feito ao MacKenzie e seu clã. Je suis prest, de fato. Ou talvez tivesse decidido afinal seguir o conselho de Alec?

Minhas unhas perfuravam as palmas das minhas mãos quando chegou a vez dele.

Agachou-se cortesmente sobre um dos joelhos e fez uma profunda mesura diante de Colum. Entretanto, em vez de sacar sua adaga para o juramento, pôs-se de pé e fitou Colum de frente. Totalmente erguido, ficava ombro a ombro com a maioria dos homens no salão e ultrapassava Colum em sua plataforma por vários centímetros. Virei os olhos para Laoghaire. Ela empalidecera quando ele se levantou. E vi que ela também cerrara os punhos com força.

Todos os olhares no salão concentravam-se nele, mas falou como se fosse apenas a Colum. Sua voz era grave como a de Colum e cada palavra claramente audível.

- Colum MacKenzie, venho à sua presença como um parente e um aliado. Não lhe faço nenhum juramento, pois meu juramento está prometido ao nome que carrego. - Ouviu-se um murmúrio baixo e ameaçador da multidão, mas ele ignorou-o e continuou. - Mas lhe dou voluntariamente tudo que possuo; minha ajuda e minha boa vontade, onde e quando precisar. Dou-lhe minha obediência, como parente e como senhor dos MacKenzie, fiel à sua palavra, enquanto meus pés permanecerem nas terras do clã MacKenzie.

Parou de falar e ficou imóvel, imponente e ereto, os braços relaxados ao longo do corpo. A bola agora estava com Colum, pensei. Uma palavra dele, um sinal, e pela manhã as mulheres estariam esfregando o sangue do rapaz das lajes de pedra do assoalho. Colum permaneceu imóvel por um momento, depois sorriu e estendeu as mãos. Após um instante de hesitação, Jamie colocou suas próprias mãos sobre as palmas de Colum.

- Sentimo-nos honrados com sua oferta de amizade e boa vontade -Colum disse com clareza. - Aceitamos sua obediência e consideramos de boa-fé como um aliado do clã MacKenzie.

Houve um arrefecimento da tensão no recinto e um suspiro de alívio quase audível na galeria quando Colum bebeu da taça e ofereceu-a a Jamie. O jovem aceitou-a com um sorriso. Em vez do tradicional gole cerimonial, ele ergueu cuidadosamente a taça quase cheia, inclinou-a e bebeu. E continuou bebendo. Uma exclamação entrecortada, misto de respeito e divertimento, elevou-se entre os espectadores, quando os poderosos músculos da garganta continuaram a se mover. Certamente, logo ele teria que parar para respirar, pensei, mas não. Esvaziou a pesada taça até a ultima gota, abaixou-a com uma explosiva arfada para recuperar o fôlego e entregou-a de volta a Colum.

- A honra é minha - disse, um pouco rouco -, de ser aliado de um clã com um gosto tão refinado para uísque.

Ouviu-se um grande alarido diante dessas palavras e ele encaminhou-se Para a arcada, interrompido a todo instante para apertos de mãos e tapas nas costas de congratulações enquanto passava. Aparentemente, Colum não era o único membro da família com uma queda para uma boa encenação teatral.

o calor na galeria era sufocante e a fumaça que subia do salão já fazia minha cabeça doer antes do término da cerimônia de juramento com algumas palavras comoventes de Colum, segundo presumi. Insensível às seis taças de uísque compartilhadas, a voz forte ainda ressoou pelas pedras do salão. Ao menos suas pernas não o fariam sofrer esta noite, pensei, apesar de permanecer em pé por tanto tempo.

Um brado estrondoso elevou-se do andar de baixo, uma explosão de sons agudos de gaitas-de-foles, e o cenário solene dissolveu-se em uma onda crescente de turbulenta gritaria. Uma algazarra ainda maior saudou os barris de cerveja e de uísque que eram trazidos em suportes, acompanhados por travessas fumegantes de pães, carnes e pratos de miúdos. A sra. Fitz, que deve ter organizado aquela parte dos procedimentos, inclinou-se precariamente sobre a balaustrada, mantendo um olho vigilante no comportamento dos serviçais, a maioria rapazes jovens demais para prestarem um juramento formal.

- E onde estão os faisões? - murmurou entre dentes, inspecionando as travessas que chegavam. - Ou as enguias recheadas? Aquele Mungo Grant desgraçado, vou arrancar o couro dele se tiver queimado as enguias! -Decidindo-se, virou e começou a se espremer em direção ao fundo da galeria, obviamente disposta a não deixar a administração de algo tão crucial quanto o banquete nas mãos inexperientes de Mungo Grant.

Aproveitando a oportunidade, fui me esgueirando atrás dela, aproveitando a esteira de bom tamanho que ela deixava no meio da multidão. Outras, claramente gratas por uma oportunidade para ir embora, juntaram-se a mim no êxodo.

A sra. Fitz, virando-se no pé das escadas, viu o bando de mulheres acima e repreendeu-as furiosamente.

- Vocês, meninas, vão para seus quartos imediatamente — ordenou. -Se não ficarem aí em cima fora de vista, é melhor fugir para seus próprios alojamentos. Mas não se demorem pelos corredores, nem fiquem espreitando pelos cantos. Não há um único homem neste lugar que já não esteja bêbado e estarão muito mais em uma hora. Não é um lugar para moças esta noite.

Abrindo a porta de par em par, espreitou cautelosamente o corredor. Não havendo obstáculos à vista, enxotou as mulheres pela porta afora, uma de cada vez, enviando-as apressadamente para seus quartos nos andares de cima.

- Precisa de ajuda? - perguntei quando fiquei ao seu lado. - Quero dizer, na cozinha?

Ela sacudiu a cabeça, mas sorriu diante da oferta.

- Não, não há necessidade, menina. Vá andando você também, não está mais segura do que as outras. - Com um amável empurrão nas minhas costas, abaixo da cintura, me fez atravessar zunindo a passagem mal-iluminada.

Estava disposta a seguir seu conselho, após o encontro com os guardas do lado de fora. Os homens no salão estavam fazendo baderna, dançando e bebendo, sem nenhuma idéia de contenção ou controle. Não era lugar para uma mulher, concordei.

Encontrar meu caminho de volta para o quarto era uma outra questão. Estava numa parte desconhecida do castelo e embora soubesse que o andar de cima possuía uma passagem que o ligava ao corredor que levava aos meus aposentos, não conseguia encontrar nada que se assemelhasse a escadas.

Dobrei um corredor e dei de frente com um grupo de homens do clã. Não os conhecia, deviam ser procedentes de terras distantes e desabituados aos modos gentis e bem-educados de um castelo. Ou assim deduzi pelo fato de um dos homens, aparentemente à cata de latrinas, ter desistido de procurar e resolvido aliviar-se no próprio corredor quando me deparei com eles.

Girei nos calcanhares no mesmo instante, pretendendo voltar pelo mesmo caminho por onde viera, com ou sem escadas. Mas várias mãos estenderam-se para me impedir e eu me vi imprensada contra a parede do corredor, cercada por homens barbudos das Highlands, com uísque no hálito e estupro na mente.

Não vendo razão para preliminares, o homem à minha frente agarrou-me pela cintura e enfiou a outra mão no meu corpete. Inclinou-se para mais perto e esfregou o rosto barbudo na minha orelha.

- E agora que tal um beijinho para os jovens corajosos do clã MacKenzie? Tulach Ardi!

- Erin go bragh — eu disse rispidamente, empurrando-o com todas as minhas forças. Trôpego com a bebida, cambaleou para trás, caindo sobre um de seus companheiros. Esquivei-me para o lado e fugi, livrando-me dos meus sapatos desajeitados enquanto corria.

Outra figura assomou diante de mim e eu hesitei. Entretanto, parecia haver apenas um homem à minha frente e pelo menos dez às minhas costas, aproximando-se rapidamente apesar da carga de bebida. Corri para a frente, pretendendo esquivar-me dele. No entanto, ele colocou-se com firmeza na minha frente e eu estaquei, tão repentinamente que tive que colocar as mãos em seu peito para evitar uma colisão. Era Dougal MacKenzie.

- Que diabos...? - começou, depois viu os homens atrás de mim. Puxou-me para trás dele e gritou alguma coisa em gaélico para meus perseguidores. Eles protestaram na mesma língua, mas após uma breve troca de palavras como rosnados de lobos, desistiram e foram embora em busca de melhor diversão.

-- Obrigada - eu disse, um pouco zonza. - Obrigada. Eu vou... já vou. deveria estar aqui embaixo. - Dougal olhou-me e segurou meu braço, puxando-me e fazendo-me encará-lo. Estava desalinhado e obvia-mente andara participando da baderna no salão.

-- É verdade, dona - disse. — Não deveria estar aqui. Já que está, bem, terá que pagar uma pena por isso - murmurou, os olhos brilhando na semi-escuridão. E sem aviso prévio, puxou-me com força contra seu corpo e beijou-me. Beijou-me com força suficiente para machucar meus lábios e forçá-los a se abrirem. Sua língua moveu-se contra a minha, o gosto de uísque forte na boca. Suas mãos agarraram-me com firmeza pelo traseiro e me pressionaram contra ele, fazendo-me sentir sua rígida ereção embaixo do kilt e através das minhas camadas de saias e anáguas.

Soltou-me tão repentinamente quanto me agarrara. Balançou a cabeça e fez um gesto com a mão indicando o corredor, respirando com certa dificuldade. Uma mecha de cabelos castanho-avermelhados caíra sobre a testa e ele ajeitou-a para trás com uma das mãos.

- Vá indo, dona - disse. - Antes que pague um preço maior.

Eu fui, descalça.

Tendo em vista os acontecimentos da noite anterior, esperava que a maioria dos habitantes do castelo dormisse até tarde na manhã seguinte, talvez cambaleando até o salão para uma revigorante caneca de cerveja quando o sol estivesse alto - se é que em algum momento resolveriam sair de seus quartos, é claro. Mas os escoceses das Highlands do clã MacKenzie eram um bando mais valente do que eu imaginara, pois o castelo parecia uma colméia efervescente muito antes do raiar do dia, com vozes barulhentas indo e vindo pelos corredores, além de um enorme clangor de armas e baques surdos de botas conforme os homens se preparavam para o tynchal.

Estava frio e nevoento, mas Rupert, que encontrei no pátio quando me dirigia ao salão, assegurou-me de que aquelas eram as melhores condições do tempo para caçar javali.

— Essas feras têm a pele muito grossa, o frio não é empecilho para elas — explicou, afiando uma lança com entusiasmo em uma pedra de amolar movida a pedais - e elas se sentem seguras com a neblina cerrada ao redor delas. Não conseguem ver os homens se aproximando.

Abstive-me de salientar que os caçadores tampouco seriam capazes de ver o javali do qual estavam se aproximando, até estarem perto demais.

Quando o sol começou a cortar a neblina com seus raios dourados e cor de sangue, o grupo de caçadores reuniu-se no átrio, reluzentes com as gotículas da umidade do ar e com os olhos brilhantes de expectativa. Fiquei contente de ver que não se esperava que as mulheres participassem, bastava que oferecessem bolo e doses de cerveja aos heróis de partida. Vendo o grande número de homens que partia para a floresta a leste, armados até os dentes com lanças, machados, arcos, aljavas e adagas, senti um pouco de pena do javali.

Essa atitude foi revista e modificada para respeito e temor uma hora mais tarde, quando fui convocada às pressas à margem da floresta para tratar dos ferimentos de um homem que, segundo concluí, se deparara inesperadamente com a fera no nevoeiro.

- Nossa! - exclamei, ao examinar um ferimento aberto, dilacerado, que ia do joelho ao tornozelo. - Um animal fez isso? O que ele tem, dentes de aço inoxidável?

- Hein? - A vítima estava branca de choque e abalada demais para me responder, mas um dos companheiros que ajudara a tirá-lo da floresta lançou-me um olhar curioso.

- Deixe pra lá - disse e puxei com um safanão a atadura de compressão com a qual eu envolvera a perna ferida. — Levem-no para o castelo e peçam à sra. Fitz para providenciar um caldo quente e cobertores. Isso vai ter que ser costurado e não tenho recursos para fazer isso aqui.

Os gritos rítmicos dos mesmos batedores ainda ecoavam na névoa da encosta da colina. De repente, ouviu-se um grito lancinante que se ergueu acima da neblina e das árvores e um faisão assustado irrompeu de seu esconderijo nas proximidades batendo as asas assustadoramente.

- Nosso Senhor Jesus Cristo, o que foi isso agora? - Agarrando um monte de ataduras, abandonei meu paciente aos cuidados de seus companheiros e entrei pela floresta numa corrida desenfreada.

O nevoeiro estava ainda mais denso sob os galhos das árvores e eu não conseguia ver mais do que dois ou três passos à frente, mas o barulho de vozes e movimentos agitados no meio dos arbustos guiou-me na direção certa.

Passou roçando por mim, vindo de trás. Atenta ao vozerio, não o ouvi e não o vi até ter passado, um corpo volumoso e escuro movendo-se a uma velocidade incrível, os cascos fendidos, absurdamente pequenos, quase silenciosos nas folhas encharcadas.

Fiquei tão impressionada com a inesperada aparição que no começo não me ocorreu sentir medo. Fiquei simplesmente parada, fitando a névoa onde o vulto negro enfurecido desaparecera. Em seguida, erguendo a mão para puxar para trás os cachos úmidos que caíam sobre meu rosto, vi a mancha vermelha no dorso. Olhando para baixo, vi uma mancha igual em minha saia. A fera estava ferida. O grito teria vindo do javali, talvez?

Achei que não; eu conhecia o som do ferimento mortal. E o porco selvagem movia-se bem, com todas as suas forças, quando passou por mim. despirei fundo e continuei pela cortina de névoa, à procura de um homem ferido.

Encontrei-o no sopé de uma pequena elevação, cercado por homens de kilt. Haviam estendido seus xales sobre ele para mantê-lo aquecido, mas o tecido que cobria suas pernas estava sombriamente empapado de sangue.

Uma faixa larga de lama preta raspada na encosta mostrava por onde ele descera escorregando ao longo da descida e uma balbúrdia de folhas enlameadas e terra revolvida marcava o lugar onde ele encontrara o javali. Caí de Joelhos ao lado do ferido, tirei a coberta e comecei a trabalhar.

Mal havia começado quando os gritos dos homens à nossa volta me fizeram virar e ver o vulto assustador surgir, mais uma vez silenciosamente, do meio das árvores.

Desta vez, tive tempo de ver o punho da adaga projetando-se do flanco do animal, talvez obra do homem no chão diante de mim. E o vil marfim amarelo das presas, manchado de vermelho como os olhinhos enfurecidos.

Os homens ao meu redor, tão perplexos quanto eu, começaram a se mexer e pegar suas armas. Mais rápido do que os outros, um homem alto pegou uma lança das mãos de um companheiro que estava petrificado e saiu para o meio da clareira.

Era Dougal MacKenzie. Caminhou quase despreocupadamente, carregando a lança abaixada, segura com as duas mãos, como se estivesse prestes a levantar uma pá de terra. Estava concentrado na fera, falando com ela em voz baixa, murmurando em gaélico, como se quisesse atrair o animal para fora da proteção da árvore junto à qual estava parado.

A primeira investida foi repentina como uma explosão. A fera passou disparada por ele, tão perto que o tartã marrom de caça ondulou com o deslocamento de ar provocado. Girou imediatamente e voltou, uma nódoa indistinta de fúria muscular. Dougal saltou para o lado como um toureador, perfurando a fera com a lança. Meia-volta, para a frente e outra vez. Era mais uma dança do que uma luta, os dois adversários baseados na força, mas tão ágeis que pareciam flutuar acima do solo.

Tudo durou apenas pouco mais de um minuto, embora tivesse parecido muito mais tempo. Terminou quando Dougal, desviando-se das presas dilacerantes, ergueu a ponta da lança curta e forte e enfiou-a diretamente entre as espáduas curvas do animal. Ouviu-se o golpe seco da espada e um guincho estridente que fez os pêlos dos meus braços se eriçarem. Os olhos miúdos reviraram-se de um lado para o outro, girando freneticamente em busca de vingança, e os cascos delicados afundaram-se na lama, conforme o javali cambaleava e oscilava. Os guinchos continuaram, elevando-se a um volume indescritível quando o corpo pesado caiu para um lado, fazendo com que a adaga protuberante fosse enfiada até o punho na carne peluda. Os pequenos cascos escavaram o chão, revirando grossos torrões de terra úmida.

Os guinchos cessaram bruscamente. Fez-se silêncio por um instante, seguido por um ronco semelhante ao de um porco, e o volumoso animal ficou imóvel.

Dougal não esperou para se certificar da morte, deu a volta no animal que se contorcia e voltou para junto do homem que fora ferido. Ajoelhou-se e passou o braço por trás dos ombros da vítima, assumindo o lugar do homem que estava sustentando-o. O sangue salpicara as proeminentes maçãs do rosto e gotículas de sangue seco grudaram seus cabelos de um lado.

- Vamos, Geordie - disse, a voz rouca repentinamente suave. - Vamos. Eu o peguei, companheiro. Está tudo bem.

- Dougal? É você, amigo? - O ferido voltou a cabeça na direção de Dougal, esforçando-se para abrir os olhos.

Fiquei surpresa, ouvindo enquanto rapidamente verificava o pulso e os sinais vitais do ferido. Dougal o bárbaro, Dougal o cruel, falava em voz branda com a vítima, repetindo palavras de conforto, abraçando-a com força contra o corpo, alisando os cabelos em desalinho.

Sentei nos calcanhares e estendi a mão novamente para a pilha de panos no chão ao meu lado. Havia um corte profundo, de pelo menos vinte centímetros ao longo da coxa, a partir da virilha, de onde o sangue fluía sem parar. No entanto, não estava jorrando; a artéria femoral não fora cortada, o que significava que havia uma boa chance de estancá-lo.

O que não podia ser estancado era o vazamento da barriga de Geordie, onde as presas afiadas haviam dilacerado pele, músculos, mesentério e intestinos. Não havia grandes vasos cortados ali, mas o intestino fora perfurado; podia vê-lo perfeitamente, através do rasgão na pele. Esse tipo de ferimento abdominal geralmente era fatal, mesmo com uma moderna sala de cirurgia, suturas e antibióticos à mão. O conteúdo das entranhas rompidas, vazando na cavidade abdominal, simplesmente contaminava toda a região e fazia da infecção uma certeza mortal. E ali, com nada além de dentes de alho e flores de milefólio para tratamento...

Meu olhar encontrou-se com o de Dougal quando ele também olhou para o terrível ferimento. Seus lábios moveram-se, balbuciando sem som por cima da cabeça do ferido as palavras: "Ele conseguirá viver?"

Sacudi a cabeça sem proferir nenhuma palavra. Ele parou por um instante, segurando Geordie, depois estendeu a mão e deliberadamente desamarrou o torniquete improvisado que eu colocara em torno da perna do ferido. Olhou para mim, desafiando-me a protestar, mas não fiz nenhum gesto a não ser um breve sinal com a cabeça. Eu podia estancar o sangramento e permitir que Geordie fosse transportado em maca de volta ao castelo. Voltaria ao castelo para ficar prolongando uma crescente agonia, à medida que a barriga supurasse, até que a infecção se espalhasse o suficiente para matá-lo, degenerando-se talvez durante dias em longo sofrimento, uma morte mais digna, talvez, era o que Dougal estava lhe proporcionando. Morrer de forma limpa sob o céu, o sangue de seu coração manchando as mesmas folhas tingidas do sangue do animal que o matara. Arrastei-me pelas folhas úmidas até a cabeça de Geordie e segurei parte de seu peso no meu próprio braço.

- Logo estará melhor - eu disse e minha voz era firme, como sempre fora treinada para ser. - A dor vai passar logo.

- Sim. Está melhor... agora. Não consigo mais sentir a minha perna... nem minhas mãos... Dougal... está aí? Está aí, companheiro? - As mãos entorpecidas agitavam-se cegamente diante do seu rosto. Dougal segurou-as com firmeza entre suas próprias mãos e aproximou-se, murmurando no seu ouvido.

As costas de Geordie arquearam-se de repente e seus calcanhares afundaram-se no solo lamacento, o corpo em violento protesto contra o que sua mente já começara a aceitar. Arquejava profundamente de vez em quando, como um homem que está sangrando até a morte, luta por ar, faminto do oxigênio que seu corpo exige.

A floresta estava em completo silêncio. Nenhum pássaro cantava no nevoeiro e os homens que esperavam pacientemente acocorados nas sombras das árvores estavam tão silenciosos quanto as próprias árvores. Dougal e eu nos debruçamos sobre o corpo agitado, murmurando e confortando, compartilhando a difícil, dolorosa e necessária tarefa de assistir um homem em sua morte.

A subida da colina em direção ao castelo transcorreu em silêncio. Caminhei ao lado do morto, carregado numa maca improvisada com galhos de pinheiro. Atrás de nós, sustentado de maneira semelhante, vinha o corpo de seu inimigo. Dougal caminhava à frente, sozinho.

Quando atravessamos o portão e entramos no pátio principal, avistei a figura pequena e atarracada do padre Bain, o sacerdote da vila, apressando-se tardiamente para ajudar um falecido membro da congregação.

Dougal parou, estendendo a mão para me deter quando me virei em direção às escadas que levavam ao consultório. Os carregadores com o corpo de Geordie coberto por xales de xadrez passaram por nós, em direção à capela, deixando-nos sozinhos no corredor deserto. Dougal segurou-me pelo pulso, olhando-me intensamente.

- Você já viu homens morrerem antes - disse sem rodeios. - De morte violenta. - Não era uma pergunta, era quase uma acusação.

- Muitos - eu disse, igualmente sem rodeios. E libertando-me de sua mão, deixei-o ali parado e fui cuidar dos meus pacientes vivos.

A morte de Geordie, embora terrível, colocou apenas um amortecedor temporário nas comemorações. Uma pródiga missa funerária foi rezada por ele naquela tarde na capela do castelo e os jogos começaram na manhã seguinte.

Eu vi poucos deles, estando ocupada em remendar os participantes. Tudo que eu podia dizer ao certo dos autênticos jogos das Highlands é que eram disputados com sofreguidão. Tratei um perna-de-pau que havia conseguido se cortar tentando dançar entre espadas, imobilizei a perna de uma vítima azarada que ficara no caminho de um martelo atirado de forma imprudente e ministrei óleo de rícino e xarope de capuchinha a inúmeras crianças que haviam abusado dos doces. No final do dia, eu estava à beira da exaustão.

Subi na mesa do consultório a fim de esfriar a cabeça pela minúscula janela e respirar um pouco de ar puro. Os gritos, as risadas e a música que vinham do campo onde os jogos estavam sendo realizados haviam emudecido. Ótimo. Nenhum paciente novo, portanto, ao menos até o dia seguinte. O que Rupert dissera que fariam em seguida? Competição de arco e flecha? Hummm. Verifiquei o suprimento de ataduras e, exausta, fechei a porta do consultório atrás de mim.

Deixando o castelo, desci a colina em direção à estrebaria. Precisava de um pouco de uma boa companhia que não fosse humana, não falasse e não sangrasse. Também tinha em mente que eu devia procurar Jamie, qualquer que fosse seu sobrenome, e tentar me desculpar novamente por envolvê-lo no juramento. Na verdade, ele se saíra muito bem, mas certamente ele nem sequer teria ido lá, preferindo ficar entregue a seus próprios afazeres. Quanto ao mexerico que Rupert agora devia estar espalhando sobre nossa suposta travessura amorosa, eu preferia não pensar.

Quanto à gravidade da minha própria situação, preferia não pensar nisso também, mas não poderia deixar de fazê-lo, mais cedo ou mais tarde. Tendo fracassado tão espetacularmente na minha tentativa de fuga no começo do Grande Encontro, imaginava se as chances seriam melhores no final do evento. É verdade que a maior parte dos cavalos estariam indo embora, com seus donos. Mesmo assim, haveria um bom número de cavalos do castelo ainda disponível. com sorte, o desaparecimento de um seria contabilizado como um roubo aleatório; havia muitos vagabundos pela área da feira e do campo de jogos com aparência de salteadores. E na confusão da partida, poderia se passar algum tempo até alguém descobrir que eu havia desaparecido.

Fui caminhando devagar ao longo da cerca do estábulo, considerando rotas diferentes de fuga. A dificuldade é que eu tinha apenas uma vaga idéia de onde estava, com referência ao local para onde queria ir. E como agora eu era praticamente conhecida de todo MacKenzie entre Leoch e a fronteira, graças à minha prática médica durante os festejos, não poderia pedir informações pelo caminho.

Perguntei-me de repente se Jamie teria contado a Colum ou a Dougal sobre minha tentativa frustrada de fugir na noite do juramento. Nenhum dos dois mencionara o fato para mim, portanto era provável que não tivesse dito nada.

Não havia nenhum cavalo no cercado. Abri a porta da estrebaria e meu coração deu um pequeno salto ao ver Dougal e Jamie sentados lado a lado num fardo de feno. Pareceram quase tão surpresos com a minha chegada,

quanto eu com a presença deles, mas levantaram-se educadamente e me convidaram a sentar.

- Tudo bem - eu disse, recuando em direção à porta. - Não pretendia interromper a conversa de vocês.

- Não, dona - Dougal disse. - O que eu acabava de dizer a Jamie diz respeito a você também.

Lancei um olhar de relance para Jamie, que respondeu com um movimento quase imperceptível da cabeça. Então ele não havia contado a Dougal sobre a minha tentativa de fuga.

Sentei-me, um pouco temerosa de Dougal. Lembrava-me da pequena cena no corredor na noite do juramento, embora desde então ele não tivesse se referido a isso nem com palavras, nem com gestos.

- Vou partir dentro de dois dias - disse bruscamente. - E vou levar vocês dois comigo.

- Nos levar para onde? - perguntei, assustada. Meu coração começou a bater com força.

- Pelas terras dos MacKenzie. Colum não viaja, portanto cabe a mim visitar os locatários e rendeiros que não podem vir ao Grande Encontro. E para cuidar de pequenos negócios aqui e ali... - Fez um gesto amplo com a mão, descartando esses negócios como trivialidades.

- Mas por que eu? Por que nós, quero dizer? - perguntei.

Ele parou um instante considerando a pergunta antes de responder.

- Bem, Jamie é um rapaz muito útil com cavalos. E quanto a você, dona, Colum achou por bem levá-la até Fort William. O comandante de lá pode ser capaz de... ajudá-la a encontrar sua família na França.

Ou ajudar vocês, pensei, a descobrir quem eu sou realmente. E quanto mais estariam escondendo de mim? Dougal fitava-me, obviamente imaginando como eu receberia essa notícia.

- Tudo bem - respondi serenamente. - Parece uma boa idéia. Externamente tranqüila, por dentro regozijando-me. Que sorte!

Agora não iria precisar fugir do castelo. O próprio Dougal me levaria por boa parte do caminho. De Fort William, poderia encontrar meu caminho sem maiores dificuldades. Para Craig na Dun. Ao monumento megalítico. E, com sorte, de volta para casa.





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