A viajante do tempo



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Encontro02.07.2019
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9 - O GRANDE ENCONTRO
Minha vida parecia estar adquirindo alguma forma, ainda que não fosse uma rotina formal. Levantando-me ao raiar do dia com o resto dos habitantes do castelo, fazia o desjejum no salão e, em seguida, se a sra. Fitz não tivesse pacientes para mim, ia trabalhar nos imensos jardins e hortas do castelo. Diversas outras mulheres trabalhavam lá regularmente, com uma tropa de ajudantes de diversos tamanhos, que iam e vinham, rebocando lixo, apetrechos e cargas de estrume fertilizante. Geralmente, eu trabalhava o dia inteiro nas hortas, às vezes indo para a cozinha para ajudar a preparar uma colheita recente, para consumo imediato ou para conservas, a menos que alguma emergência médica me chamasse de volta ao Sarcófago, como eu chamava a sala de horrores do finado Beaton.

De vez em quando, eu aceitava o convite de Alec e visitava o estábulo e o cercado, apreciando a visão dos cavalos soltando a emaranhada cobertura de inverno, em tufos, tornando-se fortes e lustrosos como a grama da primavera.

Em algumas noites, eu ia diretamente para a cama após o jantar, exausta com a labuta do dia. Outras vezes, quando conseguia manter os olhos abertos, unia-me aos outros no salão para ouvir o entretenimento da noite — histórias, canções ou a música de harpas e gaitas-de-foles. Eu podia ficar ouvindo Gwyllyn o Gaulês durante horas, encantada, apesar da minha total ignorância sobre o que ele estaria dizendo, na maior parte das vezes.

A medida que os moradores do castelo acostumavam-se com a minha presença, e eu com a deles, algumas das mulheres começaram a fazer algumas tímidas tentativas de aproximação e a me incluir em suas conversas. A curiosidade a meu respeito era evidente, mas eu respondia a todas as suas perguntas veladas com variações da história que contara a Colum e, depois de algum tempo, aceitaram-na como tudo que provavelmente iriam conseguir saber de mim. No entanto, ao descobrirem que eu sabia alguma coisa de medicina e farmácia, ficaram mais interessadas em mim e começaram a fazer perguntas sobre as doenças de seus filhos, maridos e animais, na maioria dos casos fazendo pouca distinção entre os dois últimos em nível de importância.

Além das perguntas e dos mexericos normais, falava-se muito do próximo Grande Encontro que eu ouvira o Velho Alec mencionar no campo. Concluí que era uma ocasião importante e fiquei cada vez mais convencida disso com a extensão dos preparativos. Um fluxo permanente de víveres era entregue nas grandes cozinhas e havia mais de vinte carcaças sem pele penduradas no abatedouro, por trás de uma cortina de fumaça aromática que mantinha as moscas afastadas. Barris de cerveja eram entregues por grandes carroças e transportadas por carroças menores para as adegas do castelo, sacas de trigo refinado eram trazidas do moinho do vilarejo para os pães, bolos e pastelões, e inúmeros cestos de cerejas e damascos eram colhidos diariamente nos pomares fora das muralhas do castelo.

Fui convidada a participar de uma dessas expedições para colher frutas com diversas mulheres jovens do castelo e aceitei com entusiasmo, ansiosa para sair da sombra ameaçadora das paredes do castelo.

O pomar era lindo e eu adorei ficar andando em meio à névoa fria da manhã escocesa, enfiando a mão entre as folhas úmidas das árvores frutíferas para colher cerejas viçosas e damascos polpudos e macios, apertando-os delicadamente para ver se estavam maduros. Pegávamos apenas os melhores frutos, colocando-os em nossos cestos em montes suculentos, comendo o máximo que conseguíamos e levando o restante de volta, para serem transformados em tortas. As enormes prateleiras da despensa já estavam quase cheias de doces, licores, presuntos e iguarias diversas.

- Quantas pessoas costumam vir ao Grande Encontro? — perguntei a Magdalen, uma das moças com quem fizera amizade.

Ela enrugou o nariz sardento e arrebitado, pensando.

- Não sei ao certo. O último Grande Encontro em Leoch foi há mais de vinte anos e então, ah, talvez uns duzentos homens tenham vindo quando o velho Jacob morreu, e Colum tornou-se o chefe do clã. Talvez venham mais este ano; tem sido um ano bom para as colheitas e as pessoas terão um pouco mais de dinheiro para gastar, de modo que muitos trarão a mulher e os filhos.

Os visitantes já começavam a chegar ao castelo, embora eu tenha ouvido que a programação oficial do Grande Encontro — o juramento, o tynchal e os jogos - só começaria dentro de alguns dias. Os arrendatários e locatários mais ilustres de Colum seriam hospedados no próprio castelo, enquanto os soldados e rendeiros, mais pobres, armavam um acampamento num terreno baldio, abaixo do rio que alimentava o lago do castelo. Funileiros ambulantes, ciganos e mascates de miudezas haviam montado uma espécie de feira improvisada perto da ponte. Tanto os habitantes do castelo quanto do vilarejo mais próximo começaram a visitar o local à noite, após a faina do dia, para comprar utensílios e apetrechos, ver os malabaristas e se atualizar com os fuxicos mais recentes.

Fiquei atenta às idas e vindas e firmei o propósito de fazer visitas freqüentes à estrebaria e ao pasto. Havia cavalos em abundância agora, com os animais dos visitantes sendo acomodados na estrebaria do castelo. No meio da confusão e do alvoroço do Grande Encontro, pensava, eu não deveria ter dificuldade em encontrar minha oportunidade de fugir.

Foi numa das expedições para colher frutas no pomar que conheci Geillis Duncan. Encontrando uma pequena área de Ascaria sob as raízes de um amieiro, comecei a procurar mais. Os chapéus vermelhos dos cogumelos cresciam em pequenos amontoados, apenas quatro ou cinco por grupo, mas havia vários aglomerados espalhados pela grama alta nesta parte do pomar. As vozes das mulheres colhendo frutas ficaram cada vez mais distantes enquanto eu avançava para a periferia do pomar, inclinando-me ou ficando de quatro no chão para recolher os talos frágeis.

— Esse tipo é venenoso - disse uma voz atrás de mim. Ergui-me do canteiro de Ascaria sobre o qual estava abaixada, batendo a cabeça com força em um galho do pinheiro sob o qual os cogumelos cresciam.

Quando minha vista clareou, pude ver que as gargalhadas vinham de uma mulher alta e jovem, talvez alguns anos mais velha do que eu, de cabelos louros e pele clara, com os mais lindos olhos verdes que eu já vira.

— Desculpe-me por estar rindo de você - disse, ainda rindo enquanto descia para o buraco onde eu estava. - Não consegui me conter.

— Imagino que devia estar muito engraçada mesmo - disse um pouco indelicadamente, esfregando o local dolorido no topo da minha cabeça. -E obrigada pelo aviso, mas sei que esses cogumelos são venenosos.

— Ah, sabe? E de quem é que está planejando se livrar, então? Seu marido, talvez? Diga-me se funcionar e eu experimentarei no meu. - Seu sorriso era contagiante e eu me vi sorrindo também.

Expliquei que, embora os chapéus dos cogumelos crus fossem realmente venenosos, podia-se fazer um preparado em pó com o cogumelo seco que era muito eficaz para estancar sangramentos quando aplicado sobre o ferimento. Ou assim dissera a sra. Fitz; eu estava mais inclinada a confiar nela do que no Guia do médico, de Davie Beaton.

— Ora, vejam só! — ela disse, ainda sorrindo. - E você sabia que estas aqui - abaixou-se e surgiu com um punhado de minúsculas flores azuis com folhas em forma de coração — podem provocar sangramento?

— Não — disse, espantada. - Por que alguém iria querer provocar um sangramento?

Olhou-me com uma expressão de exasperada paciência.

— Para se livrar de um filho que não deseja. Faz sua menstruação descer, mas somente se usá-las no começo da gestação. Mais tarde, pode matar você e a criança.

— Parece saber muito sobre isso — observei, ainda melindrada por ter parecido estúpida.

- Um pouco. As moças da aldeia vêm a mim de vez em quando para coisas desse tipo e às vezes mulheres casadas também. Dizem que sou uma bruxa - continuou, arregalando os olhos brilhantes num espanto fingido. Riu. - Mas meu marido é o procurador fiscal do distrito, de modo que não dizem isso em voz alta.

- Agora, o rapaz que você trouxe com você - continuou, balançando a cabeça com aprovação —, ali está um por quem foram compradas algumas poções do amor. Ele é seu?

- Meu? Quem? Está falando, hã, de Jamie? - Estava perplexa.

A mulher parecia estar se divertindo. Sentou-se em um tronco caído, enrolando preguiçosamente um dos cachos dos cabelos louros em volta do dedo indicador.

- Ah, sim. Há muitas que gostariam de conquistar um rapaz com aqueles olhos e aqueles cabelos, qualquer que seja o preço por sua cabeça ou o fato de não ter nenhum dinheiro. Seus pais devem pensar de modo diferente, é claro.

- Quanto a mim — continuou, com o olhar distante —, sou uma pessoa prática. Casei-me com um homem com uma boa casa, boas economias e uma boa posição. Quanto aos cabelos, não tem, e os olhos, nunca os notei, mas ele não me dá muito trabalho. - Estendeu para mim o cesto que carregava para que eu o olhasse. Havia quatro raízes bulbosas no fundo.

- Raízes de malva — explicou. — Meu marido sofre de um problema no estômago de vez em quando. Peida que nem um boi.

Achei melhor parar por ali naquela linha de conversa antes que as coisas saíssem do controle.

- Não me apresentei - disse, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar do tronco. — Meu nome é Claire. Claire Beauchamp.

A mão que pegou a minha era esbelta, com dedos longos e adelgaçados, embora eu notasse que as pontas eram manchadas, provavelmente com o sumo das plantas e frutas silvestres que jaziam ao lado das raízes de malva em seu cesto.

- Sei quem é - ela disse. - A aldeia está fervilhando de conversas a seu respeito, desde que chegou ao castelo. Meu nome é Geillis, Geillis Duncan. - Olhou dentro do meu cesto. - Se é balgan-buachrach o que você está procurando, posso mostrar-lhe onde crescem mais.

Aceitei a oferta e andamos durante algum tempo pelas ravinas próximas ao pomar, examinando embaixo de troncos apodrecidos e rastejando Pela beirada dos pequenos e reluzentes lagos, onde os minúsculos chapéus-de-sapo cresciam em profusão. Geillis era boa conhecedora das plantas locais e de seus usos medicinais, embora tenha sugerido algumas aplicações que considerei questionáveis, para dizer o mínimo. Achei muito improvável, por exemplo, que a sanguinária fosse uma erva eficaz em fazer crescer verrugas no nariz de uma rival e duvidava muito que a betônica verdadeira fosse útil para transformar sapos em pombos. Ela deu essas explicações com um olhar malicioso que sugeria que ela estava testando meus próprios conhecimentos ou talvez a suspeita local de bruxaria.

Apesar da provocação ocasional, era uma companhia agradável, com uma vivacidade sagaz e uma visão otimista, ainda que cínica, da vida. Ela parecia saber tudo que havia para se saber sobre todas as pessoas da vila, do campo e do castelo e nossas explorações eram pontuadas por períodos de descanso durante os quais ela me entretinha com queixas sobre o problema estomacal de seu marido e com bisbilhotices divertidas, embora um pouco maliciosas.

— Dizem que o pequeno Hamish não é filho de seu pai - disse em determinado momento, referindo-se ao filho único de Colum, o garoto ruivo de cerca de oito anos que eu vira no jantar no salão.

Não fiquei particularmente alarmada com esse mexerico, já tendo tirado minhas próprias conclusões sobre o assunto. Só fiquei surpresa que houvesse apenas uma criança de paternidade discutível, concluindo que Letitia tivera muita sorte ou fora bastante inteligente para procurar alguém como Geilie a tempo. Imprudentemente, eu disse isso a Geilie.

Ela lançou para trás os longos cabelos louros e riu.

- Não, eu não. A boa Letitia não precisa de nenhuma ajuda nessas questões, acredite-me. Se as pessoas estiverem procurando uma bruxa nestas redondezas, seria melhor olhar no castelo do que na vila.

Ansiosa para mudar para um assunto mais seguro, agarrei-me ao primeiro pensamento que passou pela minha cabeça.

- Se o pequeno Hamish não é filho de Colum, de quem deve ser? -perguntei, arrastando-me por um monte de pedras.

— Ora, do rapaz, é claro. - Virou-se para me encarar, a boca pequena zombeteira e os olhos verdes brilhantes de malícia. — Do jovem Jamie.

Voltando sozinha para o pomar, encontrei-me com Magdalen, os cabelos soltando-se por baixo do lenço e os olhos arregalados de preocupação.

— Ah, aí está você - disse, dando um suspiro de alívio. — Estávamos voltando ao castelo, quando dei por sua falta.

— Muita gentileza sua voltar para me buscar — eu disse, pegando o cesto de cerejas que eu deixara na grama. — Mas eu sei o caminho.

Ela sacudiu a cabeça.

— Devia ter cuidado, minha querida, andando sozinha pelo bosque, com todos os funileiros e ambulantes que vieram para o Grande Encontro. Colum deu ordens... — Parou repentinamente, a mão sobre a boca.

- De que devo ser vigiada? — sugeri afavelmente. Ela assentiu com relutância, de certo temendo que eu fosse ficar ofendida. Dei de ombros e tentei tranqüilizá-la com um sorriso.

- Bem, acho que isso é natural - eu disse. — Afinal, ele não tem a palavra de ninguém, a não ser a minha própria, de quem eu sou ou como cheguei aqui. - A curiosidade superou meu bom senso. - Quem ele pensa que eu sou? - perguntei. Mas a jovem só conseguiu sacudir a cabeça.

- Você é inglesa — foi tudo que disse.

Não voltei ao pomar no dia seguinte. Não porque tivesse recebido ordem de permanecer no castelo, mas porque houve uma repentina explosão de intoxicação alimentar entre os habitantes do castelo que requereu meus cuidados médicos. Depois de fazer o que era possível pelos doentes, saí no encalço da origem do problema.

Verifiquei que se tratava de carne de vaca contaminada proveniente do abatedouro. Fui lá no dia seguinte e estava dando ao principal defumador minha opinião quanto aos métodos adequados de preservação de carne, quando a porta abriu-se de repente atrás de mim, lançando uma espessa onda de fumaça sufocante sobre mim.

Virei-me, os olhos lacrimejando, e vi Dougal MacKenzie assomando em meio às nuvens de fumaça de madeira de carvalho.

- Além de médica, agora supervisiona o abate, dona? — perguntou com ironia. - Logo terá todo o castelo sob seu domínio e a sra. Fitz estará procurando emprego em outro lugar.

- Não tenho a menor vontade de ter nada a ver com seu castelo imundo - retorqui, limpando meus olhos cheios d'água e deixando meu lenço cheio de manchas de carvão. - Tudo que eu quero é ir embora daqui, o mais rápido possível.

Ele inclinou a cabeça respeitosamente, ainda rindo.

- Bem, acho que estou na posição de atender seu pedido, dona - disse. - Ao menos, temporariamente.

Deixei cair o lenço e olhei-o fixamente.

- O que quer dizer?

Ele tossiu e abanou a fumaça, agora fluindo em sua direção. Levou-me para fora do matadouro e voltou-se na direção da estrebaria.

-- Você dizia ontem a Colum que precisava de betônica e outras ervas estranhas?

-- Sim, para preparar alguns remédios para as pessoas que estão com intoxicação alimentar. O que tem isso? - perguntei, ainda desconfiada. Ele deu de ombros com bom humor.

-- Apenas que vou descer até o ferreiro na vila, levando três cavalos para ferrar. A mulher do fiscal é entendida em ervas e tem estoques à mão. Sem dúvida, tem os espécimes de que precisa. E se quiser, madame, pode montarn um dos cavalos e vir comigo até a vila.

- A mulher do fiscal? A sra. Duncan? — Senti-me mais contente no mesmo instante. Só a perspectiva de escapar do castelo, ainda que por pouco tempo, era irresistível.

Limpei o rosto apressadamente e enfiei o lenço sujo no meu cinto.

— Vamos - disse.

Apreciei a curta cavalgada até a vila, apesar do dia escuro e nublado. O próprio Dougal estava bem-humorado e conversou e brincou agradavelmente durante todo o trajeto.

Paramos primeiro no ferreiro, onde ele deixou os três cavalos extras, erguendo-me para trás dele na sela para o percurso até a casa dos Duncan. Era uma imponente mansão, parcialmente em madeira, de quatro andares, os dois primeiros com elegantes janelas de vitrais; painéis em forma de losango em tons pastéis de roxo e verde.

Geilie nos saudou encantada, satisfeita por ter companhia em um dia tão lúgubre.

- Que maravilha! - exclamou. — Ando querendo uma desculpa para ir ao depósito e separar algumas coisas. Anne!

Uma criada baixa, de meia-idade, com um rosto parecendo uma maçã desidratada, surgiu por uma porta que eu não notara, escondida como estava na curva da chaminé.

- Leve a sra. Claire lá em cima ao depósito - Geilie ordenou — e depois vá buscar um balde de água da fonte. Da fonte, veja bem, não do poço da praça! - Virou-se para Dougal. - Tenho guardado o tônico que prometi a seu irmão. Pode vir até a cozinha comigo por um instante?

Segui o traseiro em forma de abóbora da criada por um lance de escadas estreitas de madeira, emergindo repentinamente em um sótão grande e arejado. Ao contrário do resto da casa, este aposento tinha janelas de caixilhos, os postigos agora fechados por causa da umidade externa, mas ainda assim proporcionando muito mais luz do que havia na elegante e sombria sala de visitas no andar térreo.

Era evidente que Geilie conhecia seu ofício como herbanária. O aposento estava equipado com longas molduras de secagem forradas de gaze, ganchos acima da pequena lareira para secagem por calor e prateleiras abertas ao longo das paredes, furadas para permitir a circulação do ar. Um delicioso e condimentado aroma de manjericão, alecrim e alfazema enchia o ar. Uma bancada longa e surpreendentemente moderna ia de uma ponta à outra de uma das paredes, exibindo uma notável variedade de pilões, almofarizes, tigelas e colheres, tudo imaculadamente limpo.

Passou-se algum tempo antes de Geilie aparecer, afogueada com a subida das escadas, mas sorrindo diante da perspectiva de uma longa tarde de conversa fiada e preparação de ervas.

Começou a chover um pouco, as gotas salpicando os longos batentes das janelas, mas o fogo ardia na pequena lareira do depósito e o aposento estava muito aconchegante. Gostei imensamente da companhia de Geilie; ela possuía uma visão irônica, cínica, que era um revigorante contraste com as mulheres meigas e tímidas do castelo. E obviamente ela era bem-educada, para uma mulher numa pequena vila.

Ela também conhecia cada escândalo que ocorrera tanto na vila quanto no castelo nos últimos dez anos e contou-me inúmeras histórias divertidas. Estranhamente, fez poucas perguntas a meu respeito. Achei que essa não era sua maneira de agir; ela iria descobrir o que queria saber de mim através de outras pessoas.

Durante algum tempo, eu tinha consciência de barulhos vindos da rua lá fora, mas atribuíra-os ao tráfego dos habitantes da vila vindos da missa de domingo; a igreja ficava no final da rua e a rua principal ia da igreja à praça, dali espalhando-se como um leque de pequenas vielas e caminhos.

Na realidade, eu me distraíra no caminho para o ferreiro imaginando uma vista aérea da vila como a representação do esqueleto de um antebraço e sua mão; a rua principal era o rádio, ao longo do qual ficavam as lojas, escritórios e residências dos mais abastados. A travessa de St. Margaret era o cúbito, uma rua mais estreita que corria paralelamente à principal, ocupada por ferreiros, curtumes e por artesãos e negócios menos elegantes. A praça da vila (que, como todas as praças de vila que eu já vira, era mais ou menos retangular) formava os carpos e metacarpos da mão, enquanto as diversas ruelas de pequenas casas constituíam as juntas falangianas dos dedos.

A casa dos Duncan ficava na praça, como era próprio à residência do procurador fiscal. Era uma questão de conveniência e também de status; a praça podia ser usada para as questões judiciais que, por força do interesse público ou necessidade legal, ultrapassavam os estreitos limites do escritório de Arthur Duncan. E era, como Dougal explicou, conveniente para o pelourinho, uma geringonça tosca de madeira que ficava sobre uma Pequena plataforma de pedra no centro da praça, ao lado do poste de madeira usado - com bem-sucedida economia de propósitos - como poste de açoite, mastro de enfeites para as festividades de maio, mastro de bandeira e lugar para amarrar o cavalo, dependendo das necessidades.

O barulho do lado de fora se tornou muito mais alto e muito mais desordenado do que parecia apropriado a pessoas voltando comportadamente da igreja para casa para o jantar. Geilie largou os jarros com uma exclamação de impaciência e abriu a janela de par em par para ver o que estava causando aquela baderna.

Juntando-me a ela à janela, pude ver uma multidão de pessoas vestidas Com suas roupas dominicais de bata, saia, casaco e gorro, conduzidas pela figura troncuda do padre Bain, o sacerdote que atendia tanto a vila quanto o castelo. Tinha em sua custódia um garoto, talvez de uns doze anos, cujas calças justas de xadrez, esfarrapadas, e camisa suja e fedida o identificavam como filho de um curtidor. O padre segurava o rapaz pela nuca, uma posição difícil de manter devido ao fato de o garoto ser ligeiramente mais alto do que seu temível captor. A multidão seguia os dois de perto, resmungando críticas e comentários como uma nuvem de trovoada que passa no rasto de um relâmpago.

Enquanto olhávamos da janela de cima, o padre Bain e o garoto desapareceram abaixo de nós, entrando na casa. A multidão permaneceu do lado de fora, murmurando e empurrando. Uns poucos mais ousados meteram a cara nos peitoris das janelas, tentando espreitar dentro da casa.

Geilie fechou a janela com uma forte pancada, provocando uma interrupção no burburinho lá embaixo.

— Roubo, muito provavelmente — disse laconicamente, voltando à mesa de ervas. — Geralmente é, quando se trata de filhos de curtidores.

— O que vai acontecer com ele? — perguntei com curiosidade. Ela encolheu os ombros, esmigalhando alecrim seco entre os dedos diretamente dentro do pilão.

— Depende se Arthur está ou não com dispepsia hoje, eu acho. Se ele tomou um bom desjejum, o rapaz pode sair apenas com umas chicotadas. Mas se estiver com gases ou constipado - fez uma careta de desgosto —, o rapaz perderá uma orelha ou uma das mãos, provavelmente.

Fiquei horrorizada, mas hesitante em interferir diretamente na questão. Eu era uma forasteira e uma intrusa inglesa. Embora pensasse que poderia ser tratada com certo respeito como moradora do castelo, tinha visto muitos aldeões furtivamente fazerem o sinal-da-cruz quando eu passava. Minha interferência poderia facilmente piorar a situação do garoto.

— Você pode fazer alguma coisa? - perguntei a Geilie. — Falar com seu marido, quero dizer; pedir-lhe para ser, hã, tolerante?

Geilie ergueu os olhos de seu trabalho, surpresa. Obviamente a idéia de interferir nos negócios de seu marido jamais passara por sua cabeça.

— Por que você deveria se importar com o que acontecer a ele? - perguntou, apenas por curiosidade, sem nenhum significado hostil.

— Claro que me importo! - exclamei. — É apenas um garoto; o que quer que tenha feito, não merece ser mutilado para a vida inteira!

Ela ergueu as sobrancelhas claras; evidentemente esse argumento não era convincente. Ainda assim, deu de ombros e entregou-me o pilão.

— Qualquer coisa para satisfazer uma amiga - disse, revirando os olhos. Passou os olhos pelas prateleiras e selecionou uma garrafa com uma substância verde, rotulada numa elegante caligrafia cursiva e floreada, EXTRATO DE MENTA.

— Vou dar uma dose para o Arthur e, enquanto estiver fazendo isso, verei o que pode ser feito pelo garoto. Mas pode ser tarde demais, - avisou. - E se aquele padre pustulento tiver alguma coisa a ver com isso, vai querer a punição mais severa possível. Mesmo assim, vou tentar. Continue a socar; o alecrim leva muito tempo.

Peguei o pilão depois que ela saiu e comecei a socar e triturar automaticamente, prestando pouca atenção aos resultados. A janela fechada bloqueava tanto o barulho da chuva quanto o da multidão; misturavam-se em um sussurro de ameaça, reverberante e surdo. Como qualquer estudante, eu lera Dickens. E autores mais antigos também, com suas descrições da justiça cruel daqueles tempos, aplicada a todos os malfeitores, independente de idade ou circunstâncias. Mas ler, da confortável distância de cem a duzentos anos, relatos de enforcamentos de crianças e mutilações judiciais era muito diferente do que ficar tranqüilamente socando ervas alguns metros acima de tal ocorrência.

Eu teria a coragem de interferir diretamente, se a sentença fosse contra o garoto? Aproximei-me da janela, levando o pilão comigo, e espreitei lá fora. A multidão aumentara, conforme comerciantes e donas-de-casa, atraídos pelo tumulto, passavam pela rua para averiguar. Os recém-chegados aglomeravam-se enquanto os espectadores repassavam os detalhes nervosamente, em seguida fundiam-se na multidão, mais rostos voltados ansiosamente para a porta da casa.

Olhando para o ajuntamento, aguardando pacientemente na garoa à espera do veredicto, tive repentinamente a compreensão vivida de um fato. Como tantos, eu ouvira, perplexa, os relatos divulgados da Alemanha do pós-guerra; as histórias de deportações e genocídios, de campos de concentração e de incinerações. E como tantos outros haviam feito, e fariam, ainda por muitos anos, perguntei a mim mesma: "Como o povo deixou que isso acontecesse? Deviam saber, deviam ter visto os caminhões, o vaivém, as cercas, a fumaça. Como puderam ficar assistindo sem fazer nada?" Bem, agora eu sabia.

Neste caso, não era nem uma questão de vida ou morte. E o apoio de Colum provavelmente evitaria qualquer ataque físico à minha pessoa. Mas as minhas mãos ficaram pegajosas em torno da tigela de porcelana ao me imaginar descendo as escadas, sozinha e sem nenhum poder, para confrontar aquela multidão de cidadãos virtuosos e inabaláveis, ávidos pela empolgação do castigo e do sangue para aliviar o tédio da existência.

As pessoas são gregárias por necessidade. Desde a época dos primeiros habitantes das cavernas, os seres humanos - sem pêlos, fracos e desamparados, a não ser pela inteligência - sobreviveram unindo-se em grupos; percebendo, como tantas outras criaturas haviam descoberto, que há proteção em ajuntamentos. E esse conhecimento, impregnado nos ossos, é que está por trás da autoridade das aglomerações. Porque dar um passo fora do grupo, sem falar em colocar-se contra ele, significava há incontáveis milhares de anos a morte para a criatura que ousasse fazê-lo. Para opor-se a uma multidão era preciso mais do que a coragem comum; algo que fosse além do instinto humano. E eu temia não ter essa força e, ao temer, sentia-me envergonhada.

Pareceu que uma eternidade havia se passado até a porta abrir-se e Geilie entrar, tranqüila e controlada como sempre, com um pequeno bastão de carvão na mão.

- Vamos ter que filtrar depois de ferver — observou, como se continuasse nossa conversa anterior. - Acho que vamos coar a mistura pelo carvão sobre musselina; é o melhor.

- Geilie — eu disse, com impaciência. - Não tente me enganar. O que aconteceu com o garoto do curtume?

— Ah, isso. — Ergueu um dos ombros como se descartasse o assunto, mas um sorriso malicioso esquivava-se nos cantos dos seus lábios. Então, deixou de lado a fachada e riu.

— Você devia ter me visto - disse, com uma risadinha. — Eu fui muito boa, tenho que confessar. Uma esposa toda solícita, cheia de bondade feminina, com uma pitada de compaixão maternal. "Ah, Arthur" — dramatizou —, "se a nossa própria união tivesse sido abençoada..." Sem muita chance, se tenho algo a dizer a respeito — acrescentou, deixando cair a máscara de sentimentalismo por um instante com uma inclinação da cabeça em direção às prateleiras de ervas - "... como você se sentiria, meu bem, se seu próprio filho fosse levado assim? Sem dúvida foi a fome que fez o pobre rapaz entregar-se ao roubo. Ah, Arthur, não poderia encontrar em seu coração a piedade, ainda mais sendo você a alma da justiça?" - Deixou-se cair em um banco, rindo e batendo o punho levemente na perna. - Que pena que não haja um lugar para se representar aqui!

O barulho da multidão lá fora mudara e aproximei-me da janela para ver o que estava acontecendo, ignorando a satisfação de Geilie com seu próprio desempenho. O público dividiu-se e o filho do curtidor saiu, andando devagar entre o padre e o juiz. Arthur Duncan exultava de benevolência, fazendo reverência e cumprimentando com um balanço da cabeça os membros mais eminentes do grupo. O padre Bain, ao contrário, parecia uma batata contrariada, o rosto moreno contraído de ressentimento.

A pequena procissão seguiu até o centro da praça, onde a autoridade policial da vila, um tal de John MacRae, destacou-se da multidão para ir ao encontro deles. Esse personagem vestia-se, como convinha ao seu ofício, de maneira sóbria e elegante, com calças escuras amarradas na altura dos joelhos e casaco e chapéu de veludo cinza (no momento, removido e cuidadosamente protegido da chuva sob a cauda do seu casaco). Ele não era, como eu inicialmente presumira, o carcereiro da vila, embora num aperto ele realmente desempenhasse essa função. Seus deveres eram basicamente os de policial, fiscal de costumes e, quando necessário, carrasco; carregava uma concha de madeira pendurada no cinto, com a qual podia retirar uma porcentagem de cada saca de grãos vendida no mercado de quinta-feira; a remuneração pelos seus préstimos.

Eu descobrira tudo isso com o próprio policial. Ele estivera no castelo há apenas alguns dias para ver se eu podia tratar de um persistente panarício em seu polegar. Eu o lancetei com uma agulha esterilizada e apliquei uma pomada de broto de álamo, constatando que MacRae era um homem tímido, de fala mansa, com um sorriso apático.

Mas não havia nenhum sinal de sorriso agora; o rosto de MacRae estava carrancudo, como era apropriado. Faz sentido, pensei; ninguém quer ver um carrasco sorridente.

O vilão foi levado para cima da plataforma no centro da praça. O garoto estava pálido e assustado, mas não se mexeu quando Arthur Duncan, procurador fiscal da paróquia de Cranesmuir, ajeitou sua gordura para tentar conferir à sua aparência um ar de dignidade e preparou-se para proferir a sentença.

- O idiota já havia confessado quando cheguei - disse uma voz junto ao meu ouvido. Geilie espreitava com interesse por cima do meu ombro. -Não consegui livrá-lo completamente. Ainda assim, consegui a pena mais leve possível; somente uma hora no pelourinho e uma orelha pregada.

- Uma orelha pregada! Pregada em que?

- Ora, no pelourinho, é claro. - Lançou-me um olhar intrigado, mas voltou para a janela para observar a execução da pena leve obtida graças à sua piedosa intervenção.

Havia tantos corpos comprimindo-se em volta do pelourinho que o vilão quase não podia ser visto, mas a multidão recuou um pouco para dar espaço suficiente ao policial para que pudesse pregar a orelha do garoto. Este, pálido e pequeno nas garras do pelourinho, tinha os dois olhos cerrados com força e os mantinha assim, tremendo de medo. Emitiu um grito agudo e alto quando o prego foi inserido, audível até mesmo através das janelas fechadas, e eu mesma estremeci um pouco.

Retornamos ao nosso trabalho, como a maioria das pessoas na praça, mas eu não conseguia deixar de me levantar para olhar para fora de vez em quando. Alguns ociosos que passavam por ali paravam para zombar da vítima e atirar-lhe bolas de lama e, ocasionalmente, um cidadão mais sóbrio era visto aproveitando um momento dos afazeres diários para cuidar do aPerfeiçoamento moral do delinqüente por meio de algumas palavras selecionadas de censura e conselho.

Ainda faltava uma hora para o tardio pôr-do-sol de primavera e tomávamos chá na sala de visitas no andar térreo, quando uma batida na porta anunciou a chegada de um visitante. O dia estava tão escuro por causa da chuva que mal se conseguia saber o nível do sol. A casa dos Duncan, no entanto, era equipada com um relógio, um magnífico aparelho de painéis de ímbuia, pêndulos de bronze e um mostrador decorado com querubins, e esse instrumento indicava seis e meia.

A copeira abriu a porta que dava para a sala de visitas e sem cerimônia anunciou "Por aqui". Jamie MacTavish agachou-se automaticamente ao passar pela porta, os cabelos brilhantes escurecidos pela chuva, assumindo um tom de bronze envelhecido. Usava um reles casaco velho contra a chuva e carregava uma grossa capa de montar de veludo verde dobrada sob um dos braços.

Fez um cumprimento com a cabeça quando me levantei e o apresentei a Geilie.

- Sra. Duncan, sra. Beauchamp. - Apontou em direção à janela. - Vejo que tiveram um acontecimento aqui esta tarde.

- Ele ainda está lá? - perguntei, espreitando pela janela. O garoto era apenas uma figura escura, vista através da distorção dos painéis ondulados da sala. - Deve estar encharcado.

- Está. — Jamie abriu a capa e segurou-a para mim. — Você também ficaria, foi o que Colum pensou. Eu tinha coisas para fazer na vila, então ele enviou a capa comigo para você. Deve voltar comigo.

- Foi muita gentileza dele - falei distraída, pois minha mente ainda continuava no garoto.

- Por quanto tempo mais ele deve ficar lá? - perguntei a Geilie. — O garoto no pelourinho - acrescentei impacientemente, vendo seu olhar sem expressão.

- Ah, ele — disse, franzindo ligeiramente a testa diante da introdução de um tópico tão sem importância. - Uma hora, eu lhe disse. O policial já deveria tê-lo libertado do pelourinho.

- Ele o fez -Jamie assegurou. — Eu o vi quando atravessava o gramado. É que o garoto ainda não teve coragem de arrancar o prego de sua orelha.

Fiquei boquiaberta.

- Quer dizer que o prego não será tirado de sua orelha? Ele tem que rasgar a orelha para se ver livre?

- Ah, sim. — Jamie disse, animadamente e despreocupado. - Ele ainda está um pouco nervoso, mas acho que vai resolver isso logo. Está chovendo lá fora e logo estará escuro também. Nós temos que ir ou só pegaremos as sobras do jantar. — Fez uma mesura para Geilie e virou-se para ir embora.

- Espere um instante — ela me disse. — Já que tem um rapaz forte e grande como ele para levá-la para casa, tenho uma caixa de repolho-do-brejo seco e outras plantas que prometi à sra. Fitz-Gibbons no castelo. Talvez o sr. MacTavish pudesse fazer a gentileza de levar?

Jamie concordou e ela mandou um criado ir buscar a caixa em seu depósito, para isso entregando-lhe a enorme chave de ferro forjado. Enquanto o criado não voltava com a caixa, ela sentou-se a uma pequena escrivaninha no canto da sala. Quando a caixa, uma arca de madeira de bom tamanho, com tiras de latão, foi trazida, ela terminara de escrever seu bilhete. Enxugou-o rapidamente, dobrou-o e selou-o com uma bolha de cera da vela e enfiou-o na minha mão.

- Pronto - disse. — É a conta pela caixa. Pode entregá-la ao Dougal para mim? É ele que lida com os pagamentos. Não entregue a mais ninguém ou não serei paga tão cedo.

- Sim, claro.

Abraçou-me calorosamente e, com advertências para evitar o frio, acompanhou-nos até a porta.

Fiquei abrigada sob a beirada do telhado enquanto Jamie amarrava a caixa à sela do cavalo. A chuva havia se intensificado e um lençol d'água escorria das calhas.

Observei as costas largas e os braços musculosos levantarem a pesada caixa sem nenhum esforço aparente. Em seguida, olhei para o pelourinho, onde o garoto do curtume, apesar do encorajamento dado pela multidão que voltara a se reunir, continuava firmemente preso. Apesar de não se tratar de uma linda jovem de cabelos platinados, os atos anteriores de Jamie no tribunal de Colum fizeram-me pensar que talvez ele não fosse indiferente ao infortúnio do garoto.

- Hã, sr. MacTavish — comecei, hesitante. Não houve resposta. O belo rosto não alterou a expressão; a boca larga continuou relaxada, os olhos azuis focalizados na tira que amarrava.

- Ah, Jamie? - tentei outra vez, um pouco mais alto, e ele ergueu os olhos imediatamente. Então, o nome dele realmente não era MacTavish. Imaginei qual seria seu verdadeiro nome.

- Sim? - disse.

- Você é bastante grande, não? — eu disse. Um ligeiro sorriso fez seus lábios se curvarem e ele balançou a cabeça, claramente imaginando aonde eu queria chegar.

- Bastante grande para a maioria dos casos - respondeu.

Fiquei animada e aproximei-me dele casualmente, de modo que a nossa conversa não pudesse ser ouvida por nenhum transeunte da praça.

-- Tem força nos dedos? - perguntei.

Flexionou uma das mãos e o sorriso se ampliou.

-- Ah, certamente. Tem algumas castanhas que quer quebrar? — Olhou Para mim com um brilho maroto e alegre no olhar.

Olhei rapidamente para o bando de espectadores na praça. Na verdade, era para tirar alguém da fogueira, eu acho. - Ergui os olhos e me deparei com seu olhar azul e indagador. — Poderia fazer isso?

Ficou parado olhando para mim por uns instantes, ainda sorrindo, depois deu de ombros. - Sim, se o prego for suficientemente longo para eu agarrar. Mas você consegue desviar a atenção da multidão? Uma interferência não seria vista com bons olhos, ainda mais sendo eu um estranho.

Eu não previra a possibilidade de que meu pedido pudesse colocá-lo em perigo de alguma forma e hesitei, mas ele parecia disposto a entrar no jogo, a despeito do perigo.

- Bem, se nós dois nos aproximássemos para olhar mais de perto e então eu desmaiasse diante do que via, você acha?

- Sendo você uma pessoa tão desacostumada com sangue e tudo o mais? - Ergueu uma das sobrancelhas sarcasticamente e riu. - Sim, acho que serve. Se você puder fingir cair da plataforma, melhor ainda.

Eu na verdade havia me sentido um pouco receosa de olhar, mas não era uma visão tão assustadora quanto eu temera. A orelha estava firmemente pregada pela parte superior, perto da borda, e havia uns cinco centímetros do prego quadrado, sem cabeça, livre acima do apêndice pregado. Quase não havia sangue e era evidente pelo rosto do garoto que, embora estivesse desconfortável e assustado, não estava sentindo muita dor. Comecei a achar que Geilie talvez tivesse razão em considerar aquela uma pena bastante leve, considerando-se o estado geral da atual jurisprudência escocesa, embora isso não alterasse nem um pouco minha opinião quanto à barbaridade do ato praticado.

Jamie foi se aproximando despreocupadamente pelas beiradas da multidão de curiosos. Sacudiu a cabeça, como se repreendesse o garoto.

- Ora, garoto - disse, estalando a língua. — Se meteu numa grande enrascada, hein? - Colocou a mão grande e firme sobre a madeira do pelourinho, a pretexto de olhar a orelha mais de perto. - Muito bem, rapaz - disse, com menosprezo —, não precisa fazer uma tempestade em copo d'água. Um puxão de cabeça e tudo está terminado. Vamos, quer que eu o ajude? - Estendeu o braço como se fosse agarrar o garoto pelos cabelos e puxar sua cabeça com toda a força. O garoto deu um berro de medo.

Reconhecendo a minha deixa, dei um passo para trás, tomando o cuidado de pisar com toda a força nos dedos da mulher atrás de mim, que ganiu de dor quando o salto da minha bota esmigalhou seus metatarsos.

- Desculpe-me - disse, arfando. — Estou... tão tonta! Por favor... — Virei as costas para o pelourinho e dei dois ou três passos, cambaleando astuciosamente e agarrando-me às mangas das roupas das pessoas mais próximas. A beirada da plataforma estava a apenas quinze centímetros de distância; segurei com força em uma jovem de compleição frágil que eu escolhera para esse fim e mergulhei de cabeça no chão, levando-a comigo.

Rolamos na grama molhada numa confusão de saias e gritos. Largando finalmente a sua blusa, relaxei dramaticamente com os braços abertos, a chuva tamborilando no meu rosto virado para cima.

Fiquei, de fato, um pouco sem ar com o impacto — a jovem caíra em cima de mim - e tentei recuperar o fôlego, ouvindo a algazarra de vozes preocupadas, reunidas à minha volta. Especulações, sugestões e interjeições de espanto recaíam sobre mim, com mais força do que as gotas d'água do céu, mas foram dois braços conhecidos que me ergueram e me colocaram sentada, e um par de olhos azuis gravemente preocupados que eu vi quando abri os meus próprios. Um leve adejar de pálpebras disse-me que a missão fora cumprida e, de fato, pude ver o filho do curtidor, um pano apertado contra a orelha, fugindo a toda velocidade na direção de sua casa, sem ser notado pela multidão que voltara as atenções para esta nova sensação.

Os habitantes da vila, tão ávidos do sangue do garoto, foram extremamente gentis comigo. Fui cuidadosamente erguida e levada para a casa dos Duncan, onde fui cumulada de conhaque, chá, cobertores quentes e simpatia. Só permitiram que eu partisse quando Jamie afirmou categoricamente que tínhamos que ir, tirou-me do sofá carregando-me no colo e dirigiu-se para a porta, sem dar ouvidos aos protestos dos meus anfitriões.

Montada outra vez à frente dele, meu próprio cavalo conduzido pela rédea, tentei agradecê-lo pela ajuda.

- Não foi nada, dona - disse, rejeitando meus agradecimentos.

- Mas foi um risco para você - eu disse, insistindo. — Não percebi que colocaria você em perigo quando lhe pedi para me ajudar.

- Ah - disse, enigmaticamente. Um instante depois, com um ar de divertimento, disse: — Não esperava que eu fosse menos corajoso do que uma inglesinha, esperava?

Fez os cavalos trotarem quando as sombras da noite recaíram sobre a estrada. Não falamos muito durante o resto da viagem de volta. Quando chegamos ao castelo, deixou-me no portão com não mais do que uma despedida ligeiramente irônica: "Boa noite, Sassenach." No entanto, senti que tivera início uma amizade um pouco mais profunda do que a troca de conversa fiada e de intrigas sobre a vida alheia embaixo das macieiras.






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