A viajante do tempo


- UM ENTRETENIMENTO NOTURNO



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8 - UM ENTRETENIMENTO NOTURNO
Fiquei deitada na cama, sentindo-me completamente exausta. Por estranho que pareça, eu gostara de vasculhar a memorabilia do finado Beaton e de tratar daqueles poucos pacientes. Apesar dos parcos recursos, fizera-me sentir realmente segura e útil outra vez. Sentir carne e ossos sob meus dedos, tomar o pulso, inspecionar línguas e olhos, toda a rotina familiar, contribuíra muito para aplacar a sensação oca de pânico que me acompanhava desde a minha queda através da rocha. Por mais estranhas que minhas circunstâncias pudessem parecer, e por mais deslocada que eu estivesse, de certo modo era reconfortante que aquelas fossem realmente outras pessoas. Com cabelos e pele quente, com corações cujos batimentos podiam ser sentidos e pulmões que respiravam de modo audível. Algumas imundas, cheias de piolhos e cheirando mal, mas isso não era nenhuma novidade para mim. Certamente não era pior do que em um hospital de campanha e os ferimentos eram, ainda bem, infinitamente menores. Era muito gratificante ser capaz outra vez de aliviar a dor, restaurar uma junta, consertar danos. Assumir responsabilidade pelo bem-estar de outras pessoas me fez sentir menos vitimada pelos caprichos de um destino impossível que me trouxera até ali — e agradecia a Colum por isso.

Colum MacKenzie. Eis um homem estranho. Culto, gentil diante de uma falta e também atencioso, com uma reserva que apenas escondia o âmago de aço. Esse interior de aço era muito mais visível em seu irmão Dougal. Este um guerreiro nato. E, no entanto, ao vê-los juntos, ficava evidente quem era o mais forte. Colum era um líder, com ou sem pernas tortas.

Síndrome de Toulouse-Lautrec. Nunca vira um caso antes, mas já o haviam descrito para mim. Com o nome de sua vítima mais famosa (que ainda não havia nascido, lembrei a mim mesma), era uma doença degenerativa dos ossos e dos ligamentos. As pessoas acometidas dessa doença pareciam normais, embora enfermas, até a adolescência, quando os longos ossos das pernas, sob a pressão de sustentar um corpo ereto, começavam a desfazer-se e desmoronar-se sobre si mesmos.

A compleição pálida, prematuramente enrugada, era outro efeito aparente da má circulação que caracterizava a doença. Igualmente, os dedos das mãos e dos pés, ressecados e cheios de calosidades, que eu já notara. A medida que as pernas entortavam-se e arqueavam-se, a espinha ficava sob grande pressão e em geral também entortava, causando imenso desconforto à vítima. Reli mentalmente a descrição no livro médico, alisando languidamente os cachos do meu cabelo com os dedos. Baixa contagem de leucócitos aumentava a suscetibilidade à infecção e à artrite precoce. Devido à má circulação e à degeneração dos ligamentos, as vítimas eram invariavelmente estéreis e em geral também impotentes.

Parei repentinamente, pensando em Hamish. Meu filho, Colum dissera, apresentando orgulhosamente o menino. Hummm, pensei comigo mesma. Então, talvez não impotente. Ou talvez, sim. Felizmente para Letitia, a maior parte dos homens do clã MacKenzie possuíam um alto grau de semelhança física.

Fui arrancada dessas interessantes ruminações por uma repentina batida na porta. Um daqueles onipresentes garotos estava do lado de fora, trazendo um convite do próprio Colum. Haveria um espetáculo de música no salão, disse, e Colum MacKenzie se sentiria honrado com minha presença, se eu fizesse a gentileza de descer.

Estava curiosa para ver Colum de novo, à luz das minhas recentes especulações. Assim, com uma rápida olhada no espelho e um gesto inútil para assentar meus cabelos, fechei a porta atrás de mim e segui meu acompanhante pelos corredores sinuosos e frios.

O salão parecia diferente à noite, muito festivo com tochas de pinheiro estalando ao longo de todas as paredes, às vezes lançando uma chama azul de terebintina. A imensa lareira, com seus múltiplos espetos e caldeirões, diminuíra sua atividade desde o frenesi do jantar; agora, apenas um único fogo queimava na lareira, sustentado por duas toras enormes e de combustão lenta e os espetos haviam sido dobrados de volta para dentro da cavernosa chaminé.

As mesas e bancos ainda estavam ali, mas ligeiramente empurrados para trás, a fim de criar um espaço livre junto à lareira; aparentemente, aquele deveria ser o centro do entretenimento, pois a enorme cadeira esculpida de Colum estava colocada em um dos lados. O próprio Colum a ocupava, uma manta de lã sobre as pernas e uma mesinha com uma bela garrafa ornamental para servir vinho e taças à mão.

Vendo-me hesitar no arco da entrada, fez um sinal amistoso para que eu me sentasse a seu lado, indicando um banco próximo.

- Fico satisfeito que tenha vindo, sra. Claire - ele disse, de modo agradavelmente informal. - Gwyllyn ficará contente de ter uma nova ouvinte Para as suas canções, embora nós sempre estejamos ávidos para ouvi-lo.

O chefe dos MacKenzie parecia cansado, pensei; os ombros largos estavam um pouco curvados e as rugas prematuras de seu rosto pareciam mais pronunciadas.

Murmurei alguma coisa casual e olhei à minha volta. As pessoas começavam a chegar, algumas às vezes saíam, parando em pequenos grupos para conversar, gradualmente assumindo seus lugares nos bancos arrumados junto às paredes.

- Como disse? — Virei-me, tendo perdido as palavras de Colum no vozerio crescente, e deparei-me com ele oferecendo-me a garrafa de vinho, uma linda peça no formato de um sino, de cristal verde-água. O líquido, visto através do cristal, parecia verde como as profundezas do mar, mas uma vez servido mostrava ter uma adorável cor rosa-clara, com um delicioso buquê. O sabor correspondia plenamente à promessa e cerrei os olhos de felicidade, deixando que os vapores do vinho tocassem o céu da minha boca antes de relutantemente permitir que cada gole do néctar descesse lentamente pela minha garganta.

- Bom, não? - A voz grave carregava um tom de divertimento e eu abri os olhos para ver Colum sorrindo para mim com aprovação.

Abri a boca para responder e descobri que a suave delicadeza do sabor era enganadora; o vinho era suficientemente forte para causar uma leve paralisia das cordas vocais.

- Ma-maravilhoso - consegui emitir. Colum balançou a cabeça, concordando.

- Sim, é verdade. Do Reno, sabe. Não conhece?

Sacudi a cabeça, enquanto ele inclinava a garrafa sobre minha taça, enchendo-a com o resplandecente rosa. Segurou sua própria taça pela haste, girando-a diante do rosto de modo que a luz do fogo iluminasse o conteúdo com pitadas de cinabre.

- Mas conhece um bom vinho — Colum disse, inclinando a taça para desfrutar o encorpado aroma de frutas. - Mas é natural, imagino, sendo sua família francesa. Ou parcialmente francesa, deveria dizer - corrigiu-se com um rápido sorriso. - De que parte da França é sua família?

Hesitei por um instante, em seguida lembrei que devia me manter fiel à verdade, até onde fosse possível, e respondi:

- São laços antigos, mas não muito próximos, Esses parentes que devo ter lá são do norte, perto de Compiègne. - Fiquei ligeiramente espantada ao perceber, neste momento, que meus parentes de fato ficavam perto de Compiègne. Realmente, fiel à verdade.

- Ah. Então, a senhora mesma nunca esteve lá?

Inclinei a taça, sacudindo a cabeça ao fazê-lo. Cerrei os olhos e respirei fundo, inalando o aroma do vinho.

- Não — disse, os olhos ainda cerrados. — Também não conheço nenhum dos meus parentes que vivem lá. — Abri os olhos para vê-lo observando-me atentamente. - Eu lhe disse isso.

Ele assentiu, não parecendo nem um pouco perturbado:

- É verdade.

Seus olhos eram de um belo tom cinza-claro, emoldurados por espessas pestanas negras. Um homem muito atraente, Colum MacKenzie, pelo menos até a cintura. Meu olhar passou por ele e recaiu sobre o grupo mais próximo da lareira, onde pude ver sua mulher, Letitia, em um grupo de várias mulheres, todas envolvidas numa animada conversa com Dougal MacKenzie. Também um homem muito atraente, e completo.

Voltei minha atenção de novo para Colum e o vi fitando distraidamente uma das tapeçarias penduradas na parede.

- E também já lhe disse - falei bruscamente, despertando-o de seu alheamento momentâneo - que gostaria de partir para a França o mais cedo possível.

- É verdade - repetiu, amavelmente, e pegou a garrafa de bebida com um arqueamento interrogativo da sobrancelha. Segurei minha taça com firmeza, fazendo um sinal de que só queria um pouco, mas ele encheu o delicado recipiente quase até a borda outra vez.

- Bem, como eu lhe disse, sra. Beauchamp - falou, os olhos fixos no vinho -, acho que deveria ficar por aqui um pouco, até que as providências adequadas para o seu transporte possam ser tomadas. Afinal, não é preciso pressa. Ainda estamos na primavera e meses antes as tempestades de outono tornam a travessia do canal arriscada. - Ergueu os olhos e a garrafa ao mesmo tempo e fitou-me com um olhar astuto.

- Mas se me der os nomes de seus parentes na França, posso enviar uma mensagem antes, para que fiquem avisados da sua chegada, hein?

Depois do blefe, não tinha muita escolha senão murmurar algo do tipo sim-bem-talvez-mais tarde e pedir licença apressadamente sob o pretexto de visitar o lavatório antes do início da apresentação de canto. Colum tinha as cartas, mas o jogo ainda não terminara.

Meu pretexto não era inteiramente fictício e levei algum tempo, vagando pelos corredores escuros do castelo, para encontrar o lugar que estava procurando. Tateando pelo caminho de volta, a taça de vinho ainda na mão, encontrei a entrada iluminada para o salão, mas percebi, ao entrar, que chegara à entrada inferior e agora estava no extremo oposto do salão em relação a Colum. Nas atuais circunstâncias, isso me era bem conveniente, e entrei discretamente no longo salão, esforçando-me para me confundir com pequenos grupos de pessoas conforme avançava ao longo da parede em direção a um dos bancos.

Lançando um olhar para o extremo superior do salão, vi um homem mais esbelto que devia ser o bardo Gwyllyn, a julgar pela pequena harpa que carregava. A um sinal de Colum, um criado apressou-se a trazer um banquinho para o bardo, no qual ele sentou-se e começou a afinar a harpa, tocando levemente as cordas, o ouvido junto ao instrumento. Colum serviu outra taça de vinho de sua própria garrafa e, com outro sinal, despachou-a pelo criado na direção do bardo.

Irreverentemente, comecei a cantarolar baixinho uma canção, provocando um olhar de estranheza da jovem Laoghaire. Ela estava sentada sob uma tapeçaria ostentando um caçador com seis cachorros alongados e vesgos, numa perseguição errática de uma única lebre.

- Um pouco de exagero, não acha? - eu disse despreocupadamente, indicando a cena com um gesto da mão e deixando-me cair sentada a seu lado no banco.

- Ah! Hã, sim - respondeu cautelosamente, afastando-se um pouco. Tentei envolvê-la numa conversa amistosa, mas ela respondia quase sempre em monossílabos, ruborizando e sobressaltando-se quando eu falava com ela. Assim, logo desisti, voltando minha atenção para a cena no outro lado do salão.

Satisfeito com a afinação da harpa, Gwyllyn retirou do casaco três flautas de madeira de tamanhos diferentes, colocando-as sobre uma mesinha providencialmente colocada a seu lado.

De repente, notei que Laoghaire não compartilhava meu interesse no bardo e seus instrumentos. Ela endireitara-se ligeiramente e espreitava por cima do meu ombro em direção à entrada em arco mais baixa, ao mesmo tempo inclinando-se para trás, para as sombras da tapeçaria, para evitar ser notada.

Seguindo a direção do seu olhar, vi a figura alta, de cabelos avermelhados, de Jamie MacTavish, que acabava de entrar no salão.

- Ah! O herói galante! Gosta dele, não? — perguntei à jovem ao meu lado. Sacudiu a cabeça energicamente, mas as faces brilhantes e rosadas eram uma resposta mais convincente.

- Bem, vamos ver o que podemos fazer, hein? - eu disse, sentindo-me expansiva e magnânima. Levantei-me e acenei animadamente para atrair sua atenção.

Percebendo meu sinal, o jovem abriu caminho pela multidão, sorrindo. Eu não sabia o que se passara entre eles no pátio, mas achei que sua maneira de cumprimentar a jovem era calorosa, embora ainda formal. A mesura que fez para mim foi ligeiramente mais relaxada; após a forçada intimidade de nosso relacionamento até o momento, não dava para me tratar como uma estranha.

Algumas notas experimentais do lado superior do salão anunciaram o iminente começo da apresentação e nós tomamos nossos lugares apressadamente, Jamie sentando-se entre Laoghaire e mim.

Gwyllyn era um homem de aparência insignificante, de ossatura pequena e cabelos ralos, mas ficava invisível quando começava a cantar. Servia apenas como foco, um ponto para descansar os olhos enquanto os ouvidos deliciavam-se com seu canto. Começou com uma canção simples, algo em gaélico com um forte repique rimado nos versos, acompanhado pelo mais leve toque das cordas da harpa, de modo que a vibração de cada corda parecia carregar o eco das palavras de um verso para o outro. A voz também era enganadoramente simples. A princípio, achava-se que não havia nada demais no seu canto dolente - agradável, mas sem muita força. No entanto, em seguida descobria-se que o som atravessava-o diretamente e cada sílaba era límpida, quer você a entendesse ou não, ecoando pungentemente dentro de sua cabeça.

A canção foi recebida com uma calorosa onda de aplausos e o cantor imediatamente iniciou outra, desta vez em gaélico, pensei. Soava como uma espécie de melodioso gargarejo para mim, mas as pessoas ao meu redor pareciam entender bem a letra; sem dúvida, não era a primeira vez que a ouviam.

Durante uma breve pausa para uma nova afinação, perguntei a Jamie em voz baixa:

- Gwyllyn já está há muito tempo no castelo? - Em seguida, lembrando-me, disse: - Ah, mas você não saberia, não é? Havia me esquecido que você mesmo é muito novo aqui.

- Já estive aqui antes — respondeu, voltando sua atenção para mim. -Passei um ano em Leoch quando tinha mais ou menos dezesseis anos e Gwyllyn já estava aqui naquela época. Colum aprecia muito a sua música. Paga bem a Gwyllyn para que permaneça aqui. É preciso, porque o galês seria bem-vindo junto à lareira de qualquer senhor onde escolhesse cantar.

- Lembro-me de quando você esteve aqui, antes. - Era Laoghaire, ainda ruborizada, mas resolvida a entrar na conversa. Jamie voltou-se para ela, com um leve sorriso.

- Ah, então você se lembra? Você mesma não devia ter mais do que sete ou oito anos. Acho que não era grande coisa na época, para ser lembrado. - Voltando-se educadamente para mim, perguntou: — Você sabe gaulês, então?

- Bem, mas eu me lembro - Laoghaire disse, continuando. - Você era, hã... quero dizer... então, você não se lembra de mim naquela época? — Suas mãos brincavam nervosamente com as pregas da saia. Notei que roía as unhas.

A atenção de Jamie foi atraída para um grupo de pessoas do outro lado do aposento, discutindo em gaélico.

-- Hein? - disse vagamente. - Não, acho que não. De qualquer forma -- continuou, com um sorriso, repentinamente voltando sua atenção para ela outra vez —, é provável que não fosse me lembrar mesmo. Um adolescente de dezesseis anos é muito cheio de si para prestar atenção ao que acha que não passa de um bando de meninas de nariz sardento.

Entendi que ele fez essa observação com a intenção de depreciar a si mesmo, e não sua interlocutora, mas o efeito não foi o desejado. Achei que uma pequena pausa para permitir que Laoghaire se recobrasse fazia-se necessária e interrompi apressadamente dizendo:

- Não, não sei nada de gaulês. Tem alguma idéia do que ele estava dizendo?

- Ah, sim. - E Jamie lançou-se no que parecia ser a recitação palavra por palavra da canção, traduzida para o inglês. Aparentemente, tratava-se de uma antiga balada sobre um jovem que amava uma jovem (o que mais?), mas sentindo-se indigno dela por ser pobre, partiu para fazer fortuna no mar. O jovem sofreu um naufrágio, deparou-se com serpentes marinhas que o ameaçaram e sereias que o encantaram, teve aventuras e voltou finalmente para casa somente para encontrar a jovem casada com seu melhor amigo, que embora um pouco mais pobre, aparentemente também tinha mais juízo.

- E quem você seria? — perguntei, em tom de troça. — Seria o jovem que não casaria sem dinheiro ou ficaria com a jovem sem se importar com o dinheiro? — Essa pergunta pareceu interessar também a Laoghaire, que inclinou a cabeça para ouvir a resposta, enquanto fingia prestar grande atenção a uma canção que Gwyllyn começara a tocar na flauta.

- Eu? - Jamie pareceu divertir-se com a pergunta. - Bem, como não tenho nenhum dinheiro, e bem pouca chance de jamais ganhar algum, acho que ficaria feliz de achar uma jovem que quisesse casar comigo assim mesmo. — Sacudiu a cabeça, rindo. - Não tenho estômago para serpentes marinhas.

Abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas foi silenciado por Laoghaire, que colocou a mão timidamente em seu braço, depois corou e retirou-a bruscamente como se a pele dele estivesse em brasa.

- Sshh — disse. — Quero dizer... ele vai contar histórias. Não quer ouvir?

- Ah, sim. — Jamie chegou um pouco mais para a frente do banco na expectativa, percebeu que bloqueava a minha visão e insistiu para que eu sentasse do outro lado dele, deslocando Laoghaire para mais longe no banco. Pude notar que a jovem não ficou muito satisfeita com o novo arranjo e eu tentei protestar, dizendo que estava bem onde estava, mas ele manteve-se firme.

- Não, você vai ver e ouvir melhor daqui. E depois, se ele cantar em gaélico, posso sussurrar no seu ouvido o que ele está dizendo.

Cada parte da atuação do bardo era saudada com calorosos aplausos, embora as pessoas conversassem em voz baixa enquanto ele tocava, produzindo um zumbido grave abaixo dos acordes melodiosos e agudos da harpa. Agora, entretanto, uma espécie de silêncio de expectativa abateu-se sobre o salão. A voz de Gwyllyn era tão clara quanto seu canto, cada palavra lançada para alcançar sem esforço o lado oposto do salão alto e bafejado por correntes de ar.

- Era uma vez, há duzentos anos... - Falava em inglês e tive uma sensação repentina de déjà vu. Era exatamente a mesma maneira de falar de nosso guia no lago Ness, contando lendas do Great Glen.

No entanto, não era uma história de fantasmas e heróis que ele contava mas uma história do Povo Pequeno, de fadas e duendes.

- Havia um clã do Povo Pequeno que vivia perto de Dundreggan -começou. - E a colina que havia lá tinha o nome do dragão que vivia nela, que Fionn matou e enterrou ali mesmo, dando o nome à colina. Depois da morte de Fionn e de Feinn, o Povo Pequeno que foi morar na colina veio a precisar das mães de seres humanos para serem amas-de-leite dos próprios filhos das fadas, pois o ser humano tem algo que as fadas não têm e o Povo Pequeno achou que isso deveria passar pelo leite das mães para suas próprias crianças.

"Ora, Ewan MacDonald de Dundregaua estava lá fora no escuro, cuidando de seus animais, na noite em que sua mulher deu à luz seu primeiro filho. Um sopro do vento noturno passou por ele e na corrente do vento ele ouviu o suspiro de sua mulher. Ela suspirou como suspirara antes da criança nascer e, ouvindo-a ali, Ewan MacDonald virou-se e lançou sua faca no vento em nome da Trindade. E sua mulher caiu sã e salva no chão a seu lado."

Ao final, a história foi recebida com uma espécie de "ah" coletivo, rapidamente seguido por histórias sobre a inteligência e a ingenuidade do Povo Pequeno, além de outras sobre as interações com o mundo dos homens. Algumas eram em gaélico, outras em inglês, aparentemente segundo a que melhor se adequasse ao ritmo das palavras, pois todas elas possuíam uma beleza no desenrolar das palavras que ia além do conteúdo da história propriamente dito. Como prometera, Jamie traduziu o gaélico para mim em voz baixa, tão rapidamente e com tanta facilidade que achei que já devia ter ouvido essas histórias muitas vezes antes.

Houve uma que particularmente chamou minha atenção, sobre o homem que ficava na escuridão da noite em uma colina de fadas e que ouviu o canto "triste e lamurioso" de uma mulher vindo das próprias pedras da colina. Ele ouviu com mais atenção e entendeu a letra da canção:

"Sou a mulher do Senhor de Balnain As fadas me levaram outra vez."

Assim, o homem correu para a casa de Balnain e descobriu que o proprietário fora embora e que a mulher e o filho haviam desaparecido. O homem imediatamente procurou um padre e levou-o até o monte das fadas. O padre benzeu as pedras da colina e aspergiu água benta sobre elas. De repente, a noite ficou mais escura e ouviu-se um barulho ensurdecedor como o de um trovão. Então, a lua saiu de trás de uma nuvem e iluminou a mulher, a esposa de Balnain, que jazia exausta na grama com o menino nos braços. A mulher estava cansada, como se tivesse viajado para longe. mas não sabia dizer onde estivera nem como chegara lá.

Outras pessoas no salão tinham histórias para contar e Gwylynn ficou descansando em seu banquinho, apreciando o vinho em pequenos goles, enquanto outros contadores de histórias se revezavam junto à lareira, mantendo a platéia embevecida.

Algumas eu mal ouvi. Eu mesma estava arrebatada, mas pelos meus próprios pensamentos, que giravam, formando padrões sob a influência do vinho, da música e das lendas de fadas.

"Houve uma época, há duzentos anos..."

São sempre duzentos anos nas histórias das Highlands, disse a voz do reverendo Wakefield em sua memória. O mesmo que o nosso indefinido "Era uma vez", de hoje.

E mulheres presas nas pedras de colinas de fadas, viajando para longe e chegando exaustas, que não sabiam onde haviam estado, nem como haviam chegado lá.

Pude sentir os pêlos nos meus braços se eriçarem, como se estivesse com frio, e esfreguei-os nervosamente. Duzentos anos. De 1945 a 1743; sim, bem próximo. E mulheres que viajavam através das rochas. Seriam sempre mulheres?, perguntei-me repentinamente.

Outra coisa me ocorreu. As mulheres voltavam. Água benta, feitiço ou faca, elas voltavam. Assim, talvez, apenas talvez, fosse possível. Preciso voltar ao monumento de pedras em Craigh na Dun. Senti uma agitação crescente que me deixou um pouco zonza e estendi o braço para a taça de vinho para me acalmar.

- Cuidado! - Meus dedos trêmulos atrapalharam-se na borda da taça de cristal quase cheia que eu descuidadamente colocara no banco ao meu lado. O longo braço de Jamie passou como uma flecha por cima do meu colo, salvando a taça por pouco de um desastre. Ergueu a taça, segurando-a delicadamente pela haste entre dois dedos grandes, e passou-a suavemente de um lado para o outro sob o nariz. Entregou-me a taça, as sobrancelhas erguidas.

- Do Reno - expliquei.

- Eu sei - ele disse, ainda parecendo intrigado. - De Colum, não?

- Isso mesmo. Gostaria de experimentar? É muito bom. - Estendi a taça, com pouca firmeza. Após um instante de hesitação, aceitou a taça e experimentou um pequeno gole.

- Sim, muito bom - disse, devolvendo-me a taça. - Também duplamente forte. Colum toma-o à noite, porque suas pernas doem. Quanto tomou? - perguntou, olhando-me com os olhos semicerrados.

- Duas, não, três taças - respondi, com alguma dignidade. - Está querendo dizer que estou bêbada?

- Não - respondeu, as sobrancelhas ainda erguidas. — Estou impressionado que não esteja. Muitas pessoas que bebem com Colum estão debaixo da mesa depois da segunda taça. - Estendeu o braço e tirou a taça da minha mão novamente.

- Mesmo assim - acrescentou com firmeza -, acho melhor não tomar mais ou não vai conseguir subir as escadas. — Inclinou a taça e ele mesmo a esvaziou. Em seguida, entregou a taça vazia a Laoghaire sem olhar para ela.

- Leve isso de volta, por favor, menina - disse, informalmente. - Já é tarde. Acho que vou acompanhar a sra. Beauchamp aos seus aposentos. -E colocando a mão sob meu cotovelo, me fez girar em direção à passagem em arco, deixando a garota fitando-nos com uma expressão que me fez sentir aliviada de saber que olhares não podem matar.

Jamie acompanhou-me ao meu quarto e, para minha surpresa, entrou atrás de mim. A surpresa desvaneceu-se quando ele fechou a porta e imediatamente tirou a camisa. Eu me esquecera das ataduras, que há dois dias eu pretendia remover.

- Vou gostar de me livrar disso - disse, esfregando a tipóia de rayon e linho sob seu braço. — Está me irritando há dias.

- Então, surpreende-me que você mesmo não a tenha tirado - eu disse, começando a desatar os nós.

- Fiquei com medo, depois do pito que levei quando a colocou -disse, rindo descaradamente para mim. - Achei que ia levar umas palmadas se mexesse aí.

- Vai levar agora se não se sentar e ficar quieto - respondi, fingindo estar zangada. Coloquei as duas mãos em seu ombro bom e, um pouco sem firmeza, empurrei-o para baixo, sobre o banquinho do quarto.

Retirei a tipóia e cuidadosamente examinei a região da articulação do ombro. Ainda estava ligeiramente inchada, com hematomas, mas felizmente não encontrei nenhuma evidência de músculos distendidos.

- Se estava tão ansioso para se livrar das ataduras, por que não deixou que eu as tirasse para você ontem à tarde? — Seu comportamento no campo me intrigara na ocasião e mais ainda agora que podia ver as áreas de pele avermelhada onde as pontas ásperas das ataduras de linho roçaram tanto sua pele que quase a deixaram em carne viva. Levantei o curativo cautelosamente, mas tudo estava bem.

Ele me olhou de viés, depois abaixou os olhos um pouco timidamente.

-- Bem, é que... ah, é que eu não queria tirar minha camisa diante de Alec.

-- É recatado, não? — perguntei secamente, fazendo com que erguesse o braço para testar a extensão da junta. Ele piscou rapidamente com o movimento, mas sorriu diante da minha observação.

-- Se eu fosse, não estaria aqui sentado quase nu no seu quarto, não é? Não. são as marcas nas minhas costas. - Vendo minhas sobrancelhas erguidas, continuou com a explicação. - Alec sabe quem eu sou, quero dizer, ouviu dizer que fui chicoteado, mas ele não viu. E saber algo assim não é o mesmo que ver com seus próprios olhos. - Apalpou o ombro machucado, desviando os olhos. Franziu a testa, fitando o chão. - É que... talvez você não compreenda o que quero dizer. Mas quando você sabe que um homem sofreu algum mal, trata-se apenas de uma das coisas que sabe a respeito dele e não faz muita diferença na maneira com que você o vê. Alec sabe que fui açoitado, como sabe que tenho cabelos ruivos, e isso não faz diferença na maneira como ele me trata. — Ergueu os olhos, buscando algum sinal de compreensão em meu rosto.

- Mas quando você realmente vê, é como - hesitou, buscando as palavras —, é um pouco... pessoal, talvez, é o que quero dizer. Eu acho... se ele visse as cicatrizes, ele não conseguiria mais me ver sem pensar nas minhas costas. E eu veria que ele estava pensando nisso, o que me faria lembrar e... - interrompeu-se, encolhendo os ombros.

- Bem. É uma explicação bem ruim, não? Acho que sou muito suscetível a esse respeito, de qualquer modo. Afinal, eu mesmo não posso ver minhas costas; talvez não seja tão ruim quanto eu imagino.

Eu já vira homens feridos andando de muletas na rua e as pissoas desviarem o olhar ao passar por eles e achei que absolutamente não era uma explicação ruim.

- Não se importa que eu veja suas costas?

- Não, não me importo. - Pareceu ligeiramente surpreso e parou por um instante para pensar naquilo. - Acho que... é que você tem um jeito de me dizer que sente muito, sem me fazer sentir pena de mim mesmo.

Continuou pacientemente sentado, sem se mover, enquanto eu dava a volta por trás dele, inspecionando suas costas. Eu não sabia o que ele achava, mas era uma visão difícil. Mesmo à luz de velas e já as tendo visto antes, fiquei horrorizada. Antes, eu vira apenas um ombro. As cicatrizes cobriam suas costas inteiras dos ombros à cintura. Embora muitas houvessem esmaecido, quase não passando de finas linhas brancas, as piores formavam espessos cordões prateados, retalhando os músculos bem torneados. Pensei com alguma tristeza que deviam ter sido costas muito bonitas em outra época. Sua pele era clara e viçosa e os contornos de ossos e músculos ainda eram firmes e graciosos, os ombros retos e quadrados, a espinha dorsal um sulco reto, liso e profundo, entre as colunas arredondadas de músculos que se erguiam de cada lado.

Jamie também tinha razão. Vendo aquele dilaceramento gratuito, não podia evitar uma imagem mental do processo que o causara. Tentei não imaginar os braços musculosos erguidos, estirados e amarrados, as cordas cortando os pulsos, a cabeça pressionada com força contra o poste, em agonia, mas as marcas traziam essas imagens prontamente à imaginação. Teria ele gritado? Afastei apressadamente a idéia. Eu ouvira as histórias sobre a Alemanha do pós-guerra, é claro, soubera de atrocidades muito piores do que esta, mas ele tinha razão; saber não é o mesmo que ver.

Involuntariamente, estendi a mão, como se eu pudesse curá-lo e apagar as marcas com um toque dos dedos. Ele suspirou profundamente, mas não se moveu, enquanto eu percorria as cicatrizes profundas, uma a uma, como se quisesse mostrar-lhe a extensão dos danos que ele não podia ver. Finalmente, descansei as mãos o mais levemente possível sobre seus ombros em silêncio, procurando as palavras.

Ele colocou a própria mão sobre a minha e apertou-a levemente, como se compreendesse o que eu não-conseguia dizer.

- Coisas piores aconteceram a outros, dona - disse serenamente. Em seguida, soltou a mão e o encanto se desfez.

- Sinto que está sarando bem — disse, tentando olhar de lado e ver o ombro ferido. - Quase não dói mais.

- Ótimo - eu disse, limpando a garganta de alguma obstrução que parecia ter se instalado ali. — Está realmente sarando bem; formou uma casca boa e não há nenhuma secreção. Basta mantê-lo limpo e não usar o braço mais do que o necessário por mais dois ou três dias. - Dei um tapinha no ombro bom, significando que estava dispensado. Ele recolocou a camisa sem ajuda, enfiando as longas pontas para dentro do kilt.

Houve um momento embaraçoso quando ele parou junto à porta, procurando alguma coisa para dizer em despedida. Finalmente, convidou-me para ir à estrebaria no dia seguinte e ver um potro recém-nascido. Prometi que iria e nos despedimos, ambos dizendo boa-noite ao mesmo tempo. Rimos e balançamos a cabeça ridiculamente um para o outro enquanto eu fechava a porta. Fui imediatamente para a cama e adormeci numa espécie de névoa provocada pelo vinho, começando a ter sonhos perturbadores dos quais não me lembrava mais pela manhã.

No dia seguinte, depois de uma longa manhã tratando dos novos pacientes, vasculhando a despensa à cata de ervas úteis para reabastecer o armário de suprimentos médicos e - com alguma cerimônia - registrar os detalhes no livro preto de Davie Beaton, deixei minha salinha em busca de ar fresco e exercício.

Não havia ninguém por perto no momento e aproveitei a oportunidade para explorar os andares superiores do castelo, espiando quartos vazios e escadas em caracol, mapeando o castelo mentalmente. Era um projeto muito irregular, para dizer o mínimo. Vários anexos haviam sido acrescentados aqui e ali ao longo dos anos, até ficar difícil dizer se teria havido um Projeto original. Neste corredor, por exemplo, havia uma alcova construída sob as escadas, aparentemente sem nenhuma serventia além de preencher um espaço vazio pequeno demais para um aposento completo.

A alcova ficava parcialmente oculta por uma cortina de linho listrado; eu teria passado sem parar se um lampejo branco lá dentro não tivesse atraído minha atenção. Parei junto à abertura e espreitei lá dentro para ver o que era. Era a manga da camisa de Jamie, envolvendo as costas de uma jovem, atraindo-a para si para beijá-la. Ela sentou-se em seu colo e seus cabelos louros capturaram a luz do sol que penetrava por uma fenda, refletindo a luz como a superfície de um rio de trutas numa manhã luminosa.

Parei, sem saber o que fazer. Não tinha o menor desejo de espioná-los, mas receei que o barulho dos meus passos nas pedras do corredor chamaria a atenção deles. Enquanto hesitava, Jamie separou-se do abraço e ergueu os olhos. Seus olhos encontraram os meus e seu rosto mudou do alarme para o reconhecimento. Com uma sobrancelha erguida e um dar de ombros ligeiramente irônico, ajeitou a jovem com mais firmeza sobre os joelhos e inclinou-se para fazer o que tinha que fazer. Por minha vez, também dei de ombros e saí de mansinho. Não era da minha conta. Não tinha dúvidas, entretanto, que tanto Colum quanto o pai da jovem considerariam aquela "ligação" altamente imprópria. A próxima surra poderia muito bem ser por culpa dele mesmo, se não fossem mais cuidadosos na escolha de um local de encontro.

Ao encontrá-lo durante o jantar naquela noite com Alec, sentei-me em frente a eles na longa mesa. Jamie cumprimentou-me amavelmente, mas com uma expressão vigilante nos olhos. O Velho Alec brindou-me com seu costumeiro "Mmmhum". As mulheres, como me explicara ele, não possuem uma apreciação natural de cavalos e portanto é difícil conversar com elas.

- Como vai o trabalho com os cavalos? - perguntei, para interromper a laboriosa mastigação do outro lado da mesa.

- Bastante bem - Jamie respondeu cautelosamente. Olhei para ele por cima de uma travessa de nabos cozidos.

- Sua boca parece um tanto inchada, Jamie. Levou uma pancada de um cavalo? - perguntei maldosamente.

- Sim - respondeu —, virando a cabeça quando eu não estava olhando. — Falou serenamente, mas senti um pé grande pisar no meu por baixo da mesa. No momento, ficou parado ali de leve, mas a ameaça era explícita.

- Hum, essas potrancas podem ser perigosas - eu disse, com ar de inocência.

O pé pressionou o meu com mais força quando Alec disse:

- Potranca? Não está trabalhando com potrancas no momento, está, rapaz?

Usei meu outro pé como alavanca; não obtendo sucesso, usei-o para chutar seu tornozelo com força. Jamie deu um solavanco repentino.

- O que há com você? — Alec perguntou.

- Mordi a língua - Jamie balbuciou, fitando-me por cima da mão que levara à boca.

- Desajeitado, hein? O que mais se poderia esperar de um idiota que não consegue nem se desviar de um cavalo... - Alec continuou por vários minutos, acusando seu assistente incansavelmente de desajeitado, preguiçoso, estúpido e incapaz de um modo geral. Jamie, provavelmente a pessoa menos desajeitada que eu já vira na vida, manteve a cabeça baixa e continuou comendo impassível durante toda a descompostura, embora as faces ardessem, vermelhas. Mantive os olhos no meu prato recatadamente durante o resto da refeição.

Recusando uma segunda porção de ensopado, Jamie deixou a mesa bruscamente, pondo um fim à repreensão de Alec. O velho chefe da cavalariça e eu mastigamos silenciosamente por alguns minutos. Limpando o prato com o seu último pedaço de pão, o Velho Alec enfiou-o dentro da boca e reclinou-se para trás, examinando-me ironicamente com seu único olho azul.

- Não devia infernizar o pobre rapaz, sabia? - disse em tom de conversa. - Se o pai dela ou Colum ficarem sabendo, o jovem Jamie pode acabar com mais do que um olho roxo.

- Com uma esposa, por exemplo? - eu disse, olhando-o diretamente no olho. Ele balançou a cabeça devagar.

- Poderia ser. E essa não é a mulher que serviria para ele.

- Não? - Fiquei um pouco surpresa com aquilo, depois de ter ouvido as observações de Alec na estrebaria.

- Não, ele precisa de uma mulher, não de uma criança. E Laoghaire continuará a ser uma criança mesmo quando tiver cinqüenta anos. - A boca amarga e enrugada curvou-se numa espécie de sorriso. - Você pode achar que eu vivi numa estrebaria toda a minha vida, mas eu tive uma esposa que era uma mulher e eu sei muito bem a diferença. - O olho azul brilhou quando ele fez menção de se levantar. — E você também, dona.

Estendi a mão num impulso para impedi-lo de ir.

- Como você sabia... - comecei a dizer. O Velho Alec bufou com escárnio.

-- Posso ter só um olho, dona, não significa que seja cego. - Saiu, rangendo os ossos e bufando. Encontrei as escadas e subi para o meu quarto, considerando o que o velho estribeiro-mor quis dizer com sua última observação.




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