A viajante do tempo



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5 – MACKENZIE
Acordei num estado de total confusão. Lembrava-me vagamente de que algo estava errado, mas não conseguia lembrar o quê. De fato, eu dormira tão profundamente que por um instante não consegui nem me lembrar quem eu era, muito menos onde estava. Estava aquecida, mas o aposento ao meu redor estava gelado. Tentei me enfiar de novo no meu casulo de cobertores, mas a voz que me acordara continuava a importunar.

- Vamos, mocinha! Vamos, precisa se levantar! - A voz era grave e amistosamente assustadora, como o latido de um cão pastor. Com relutância, abri um olho apenas o suficiente para ver uma montanha de tecido rústico marrom.

Sra. Fitz-Gibbons! A visão sacudiu-me de volta à plena consciência e a memória retornou. Então, ainda era verdade.

Enrolando um cobertor ao redor do corpo contra o frio, arrastei-me para fora da cama e dirigi-me para a lareira o mais rápido possível. A sra. Fitz-Gibbons tinha uma xícara de caldo quente à minha espera; tomei pequenos goles, sentindo-me uma sobrevivente de algum grande bombardeamento aéreo, enquanto ela colocava uma pilha de roupas sobre a cama. Uma blusa larga e comprida, semelhante a uma camisola, de linho bege, com um fino debrum de renda, uma anágua de algodão fino, duas sobressaias em tons de marrom e um corpete amarelo-limão claro. Meias compridas de lã, listradas de marrom, e um par de sapatilhas amarelas completavam a vestimenta.

Sem aceitar protestos e com grande alvoroço, a mulher me fez sair de minhas roupas inadequadas e supervisionou todo o processo de me vestir. Por fim, deu um passo para trás, examinando com satisfação o resultado de seu trabalho.

- O amarelo lhe cai bem, moça. Achei que cairia. Vai bem com os cabelos castanhos e ressalta o dourado de seus olhos. Mas fique onde está, está precisando de umas fitas. — Revirando um bolso que parecia um saco de aniagem, apresentou um punhado de fitas e algumas bijuterias.

Espantada demais para resistir, deixei que arrumasse meus cabelos, prendendo para trás os cachos laterais com uma fita amarelada, estalando a língua e reclamando da inconveniência pouco feminina do corte curto dos meus cabelos, na altura dos ombros.

- Pelo amor de Deus, minha querida, o que estava pensando para cortar seu cabelo tão curto? Estava disfarçada? Ouvi falar de algumas moças que fazem isso, para esconder sua condição feminina quando estão viajando e para ficar a salvo dos malditos ingleses. Que desgraça quando as moças já não podem viajar pelas estradas em segurança. — Continuou a tagarelar, ajeitando aqui e ali, prendendo um cacho ou arrumando um laço. Finalmente, eu estava vestida a seu gosto.

- Ora, veja só, está muito bom. Agora, você tem tempo apenas para comer alguma coisa e depois devo levá-la a ele.

- Ele? - exclamei. Não gostei de ouvir aquilo. Quem quer que "ele" fosse, era provável que fizesse perguntas difíceis de responder.

- Ora, o próprio MacKenzie, sem dúvida. Quem mais poderia ser?

Quem mais, na verdade? O Castelo Leoch, eu me recordava vagamente, ficava no centro das terras do clã MacKenzie. Obviamente, o chefe do clã ainda era o MacKenzie. Comecei a compreender por que o nosso pequeno grupo de cavaleiros viajara à noite para chegar ao castelo; devia ser um lugar de inexpugnável segurança para homens perseguidos pelos súditos da Coroa. Nenhum oficial inglês com um mínimo de bom senso conduziria seus homens para o interior das terras de um clã. Seria arriscar-se à morte em uma emboscada no primeiro bosque que atravessassem. Somente um exército de bom tamanho viria até os portões do castelo. Eu tentava me lembrar se o exército inglês de fato chegara a vir tão longe, quando repentinamente percebi que o destino final do castelo era muito menos relevante do que o meu futuro imediato.

Não tinha nenhum apetite para os bolos e o mingau que a sra. Fitz-Gibbons trouxera para o meu desjejum, mas esfarelei um pedaço e fingi comer, a fim de ganhar algum tempo para pensar. Quando a sra. Fitz-Gibbons voltou para me conduzir ao MacKenzie, eu já havia alinhavado um plano rudimentar.

O senhor daquela propriedade recebeu-me em um aposento situado no alto de um lance de escadas de pedra. Era o aposento de uma torre, redondo, ricamente decorado com quadros e tapeçarias pendurados nas paredes curvas. Enquanto o resto do castelo parecia confortável, apesar de um pouco espartano, aquela sala era luxuosamente mobiliada, abarrotada de móveis ricamente ornamentados e confortavelmente aquecida e iluminada por uma lareira e velas, contra a chuva fina do dia lá fora. As paredes externas do castelo ostentavam apenas as altas fendas das janelas, apropriadas para resistirem a um ataque, porém a parede interna era guarnecida de longas janelas de caixilhos, que deixavam entrar a escassa luz do dia.

Quando entrei, minha atenção foi atraída de imediato para uma enorme gaiola de metal, engenhosamente construída para ajustar-se à curva da

parede do chão ao teto, repleta de dezenas de pequenos pássaros: tentilhões, trigueirões, canários e diversos outros tipos de pássaros canoros. Aproximando-me, minha vista encheu-se de corpos roliços e macios e brilhantes olhos de contas, incrustados como jóias em um cenário verde aveludado, lançando-se entre as folhas de carvalhos, olmos e castanheiras, cuidadosamente podados, plantados em vasos protegidos com palha e arranjados no assoalho da gaiola. A alegre algazarra dos pássaros era acentuada pelo agitar das asas e pelo farfalhar das folhas, conforme os habitantes esvoaçavam e saltitavam no seu ambiente.

- Criaturinhas agitadas, não? - uma voz grave e agradável soou atrás de mim e eu me virei com um sorriso que congelou em meu rosto.

Colum MacKenzie tinha o mesmo rosto largo e testa alta de seu irmão Dougal, embora a força vital que conferia a Dougal um ar de intimidação aqui fosse abrandada em algo mais afável, porém não menos vigoroso. Mais moreno, com olhos cinzentos, da cor de pombos, e não castanho-claros, Colum dava aquela mesma impressão de intensidade, de proximidade excessiva para que você pudesse se sentir à vontade. No momento, entretanto, meu desconforto devia-se ao fato de a cabeça tão bem delineada e o torso longo terminarem em pernas horrivelmente arqueadas, curtas e atrofiadas. O homem que facilmente deveria ultrapassar um metro e oitenta, mal chegava aos meus ombros.

Ele manteve os olhos fitos nos pássaros, discretamente proporcionando-me um momento muito necessário para recuperar o controle das feições do meu rosto. Naturalmente, ele devia estar acostumado à reação das pessoas que o viam pela primeira vez. Olhando em torno do aposento, perguntei a mim mesma com que freqüência ele conhecia novas pessoas. Aquela sala era obviamente um santuário; o mundo construído por um homem para quem o mundo exterior não era desejado - ou não estava disponível.

- Seja bem-vinda, senhora - ele disse, com uma pequena mesura. -Meu nome é Columban Campbell MacKenzie, senhor deste castelo. Soube por meu irmão que ele, hã, encontrou-a a alguma distância daqui.

- Ele me seqüestrou, se quer saber - eu disse. Gostaria de manter a conversa em nível cordial, mas o desejo de ir embora daquele castelo e voltar à colina com o círculo de pedras era mais forte. O que quer que tivesse me acontecido, a resposta estava lá - se houvesse uma resposta.

As espessas sobrancelhas do senhor do castelo ergueram-se ligeiramente e um sorriso curvou os lábios bem delineados.

- Bem, talvez - concordou. - Dougal às vezes é um pouco... impetuoso.

- Bem. — Abanei a mão, indicando um educado abrandamento da questão. - Estou preparada para admitir que pode ter havido um mal-entendido. Mas agradeceria muito se me devolvesse... ao lugar de onde me tiraram.

- Hum. — Sobrancelhas ainda erguidas, Colum indicou uma cadeira. Sentei-me, relutantemente, e ele fez um sinal com a cabeça para um dos criados, que desapareceu pela porta.

- Mandei buscar um lanche, senhora... Beauchamp, não é? Pelo que sei, meu irmão e seus homens a encontraram em... hã, numa situação difícil. - Ele parecia estar reprimindo um sorriso e imaginei a que ponto haviam lhe descrito meu suposto estado de nudez.

Respirei fundo. Chegara a hora da explicação que eu planejara. Enquanto imaginava o que iria dizer, lembrara-me de Frank ter me contado, durante seu treinamento de oficial, sobre um curso que fizera sobre como enfrentar um interrogatório. Um princípio básico, até onde eu me lembrava, era ater-se à verdade até onde fosse humanamente possível, alterando somente aqueles detalhes que deviam ser mantidos em segredo. Menos chance, explicou o instrutor, de escorregar nos aspectos menos importantes da história inventada. Bem, teríamos que ver até onde isso seria eficaz.

- Bem, sim. Sabe, eu tinha sido atacada.

Ele balançou a cabeça, o rosto vivamente interessado.

- É mesmo? Atacada por quem? Diga a verdade.

- Por soldados ingleses. Em particular, por um homem chamado Randall.

O rosto aristocrático mudou repentinamente ao ouvir o nome. Embora Colum continuasse a parecer interessado, havia uma crescente intensidade no contorno da boca e um aprofundamento das rugas que a confinavam. Obviamente, o nome lhe era familiar. O chefe dos MacKenzie reclinou-se um pouco na cadeira e uniu os dedos, examinando-me cuidadosamente por cima deles.

- Ah? — disse. — Conte-me mais.

Assim, valha-me Deus, contei mais. Fiz um relato detalhado do confronto entre os escoceses e os homens de Randall, já que ele poderia conferir a história com Dougal. Contei-lhe os fatos principais da minha conversa com Randall, já que eu não sabia quanto o homem chamado Murtagh ouvira.

Balançou a cabeça, absorvido, prestando toda a atenção.

- Sei - disse. — Mas como a senhora foi parar naquele lugar? É muito longe da estrada para Inverness. Suponho que pretendia pegar o navio lá.

Assenti e respirei fundo. Agora obrigatoriamente entrávamos nos domínios da invenção. Desejei ter prestado mais atenção às observações de Frank a respeito de assaltantes de estrada, mas teria que fazer o melhor possível. Eu era uma viúva de Oxfordshire, respondi (verdade, até certo ponto) viajando com um criado, ao encontro de parentes distantes na França (parecia bastante distante para ser seguro). Fomos atacados por ladrões de estrada e meu criado ou fora assassinado ou fugira. Eu mesma corri para dentro do bosque em meu cavalo, mas fui pega a alguns quilômetros da estrada. Para conseguir fugir dos bandidos, fora obrigada a abandonar meu cavalo e tudo que eu possuía. E enquanto vagava pelo bosque, me deparei com o capitão Randall e seus homens.

Recostei-me um pouco para trás, satisfeita com a história. Simples, clara, verdade em todos os detalhes que poderiam ser verificados. O rosto de Colum não expressava nada além de uma educada atenção. Estava abrindo a boca para me fazer uma pergunta, quando ouvimos um leve ruído junto à porta. Um homem, um dos que eu vira no pátio quando chegamos, estava parado na soleira da porta, segurando uma pequena caixa de couro em uma das mãos.

O chefe do clã MacKenzie pediu licença educadamente e deixou-me examinando os pássaros, com a certeza de que ele logo voltaria para continuarmos nossa muito interessante conversa.

Tão logo a porta fechou-se atrás dele, aproximei-me da estante de livros, correndo a mão pelas encadernações de couro. Havia talvez umas duas dúzias de livros naquela prateleira; mais na parede oposta. Rapidamente, folheei as primeiras páginas de cada volume. Vários deles não tinham nenhuma data de publicação; os que tinham, eram todos datados de 1720 a 1742. Colum MacKenzie obviamente gostava de luxo, mas o resto de seu aposento não dava nenhuma indicação de que fosse um antiquário. As encadernações eram novas, sem nenhuma rachadura no couro ou páginas manchadas no miolo.

Agora inteiramente desprovida dos escrúpulos mais básicos, revirei a escrivaninha de oliveira, atenta a quaisquer passos que retornassem.

Encontrei o que achei que procurava na gaveta central. Uma carta inacabada, escrita numa caligrafia cursiva e floreada, ainda mais ilegível pela ortografia excêntrica e a ausência total de pontuação. O papel era novo e limpo e a tinta vivamente preta. Legível ou não, a data no alto da folha saltou aos meus olhos como se escritas a fogo: 20 de abril de 1743.

Quando retornou instantes mais tarde, Colum encontrou sua hóspede sentada junto às janelas, as mãos dignamente unidas sobre o colo. Sentada, porque minhas pernas já não me mantinham em pé. As mãos entrelaçadas, para esconder o tremor que quase me impedia de recolocar a carta no seu devido lugar.

Ele trazia a bandeja com o lanche; canecas de cerveja e biscoitos de aveia besuntados de mel. Apenas belisquei o que me fora oferecido; meu estômago revirava demais para que eu pudesse sentir qualquer apetite.

Após uma rápida desculpa por sua ausência, condoeu-se de minha má sorte. Em seguida, reclinou-se, analisou-me especulativamente e perguntou:

- Mas como foi, sra. Beauchamp, que os homens de meu irmão encontraram-na vagando em suas roupas de baixo? Ladrões de estrada relutariam em molestá-la, já que provavelmente a prenderiam para pedir resgate. E mesmo com tudo que já ouvi falar desse capitão Randall, ficaria surpreso de ouvir que um oficial do exército inglês tivesse o hábito de estuprar viajantes perdidas.

- Ah, é mesmo? - retorqui. - Bem, o que quer que tenha ouvido a respeito dele, asseguro-lhe que ele é inteiramente capaz disso. - Eu havia negligenciado o detalhe das minhas roupas quando planejei minha história e perguntei a mim mesma em que ponto de nosso encontro o homem chamado Murtagh encontrara a mim e ao capitão.

- Ah, bem - disse Colum. - Possível, reconheço. O sujeito tem má reputação, de fato.

- Possível? - perguntei. - Por quê? Não acredita no que lhe disse? - O rosto do líder dos MacKenzie exibia um ligeiro, mas inequívoco ceticismo.

- Não disse que não acreditava na senhora - respondeu sem se alterar. - Mas não chefio um grande clã por mais de vinte anos sem aprender a não engolir toda história que me contam.

- Bem, se não acredita que eu sou quem eu digo ser, quem diabos acha que eu sou? - indaguei.

Ele piscou, desconcertado com o meu linguajar. Logo em seguida, as feições bem delineadas se recompuseram.

- Isso é o que vamos ver. Enquanto isso, a senhora é uma hóspede bem-vinda a Leoch. - Ergueu a mão dispensando-me educadamente e o criado sempre parado junto à porta aproximou-se, evidentemente para me acompanhar de volta aos meus aposentos.

Colum não pronunciou as palavras a seguir, mas era como se o tivesse feito. Elas ficaram pairando no ar às minhas costas tão claramente como se tivessem sido ditas, enquanto eu me afastava:

"Até eu descobrir quem você realmente é."


6 - O CONSELHO DE COULUM
O garoto a quem a sra. Fitz-Gibbons se referia como "o Jovem Alec" veio me buscar para o jantar. Este era servido num salão comprido e estreito com mesas ao longo de todo o comprimento de cada parede, abastecidas por um fluxo contínuo de criados que saíam dos arcos em cada ponta do salão, carregados de travessas, tábuas de trinchar carne e jarros. Os raios de sol do entardecer do começo do verão infiltravam-se pelas janelas altas e estreitas; castiçais ao longo das paredes abaixo das janelas sustentavam archotes a serem acesos quando escurecesse.

Estandartes e tartãs pendiam das paredes entre as janelas, padrões de tecido xadrez e brasões de todos os tipos salpicando as pedras de cores. Em contraste, a maioria das pessoas reunidas embaixo para jantar vestia-se em tons práticos de cinza e marrom ou no suave padrão de xadrez marrom e verde dos kilts de caça, em tons escuros, adequados para se esconder no meio das urzes.

Eu podia sentir olhares curiosos sondando minhas costas enquanto o Jovem Alec me conduzia para o extremo oposto do salão, mas a maior parte dos comensais manteve os olhos educadamente em seus pratos. Havia pouca cerimônia ali; as pessoas comiam como lhes aprouvesse, servindo-se das travessas ou levando seus pratos de madeira até o final do salão, onde dois rapazes giravam a carcaça de um carneiro em um espeto na enorme lareira. Havia umas quarenta pessoas sentadas para jantar e talvez mais dez para servir. O vozerio da conversa enchia o ar, a maior parte em gaélico.

Colum já estava sentado a uma mesa na cabeceira do salão, as pernas atrofiadas fora da vista, embaixo do carvalho arranhado. Cumprimentou-me cortesmente com um aceno da cabeça quando entrei e fez sinal para que eu fosse me sentar à sua esquerda, ao lado de uma mulher ruiva, bonita e roliça, que ele me apresentou como sua esposa, Letitia.

- E este é meu filho, Hamish - disse, descansando a mão no ombro de um bonito garoto ruivo de sete ou oito anos, que tirou os olhos da travessa a sua frente apenas o tempo suficiente para me cumprimentar com um rápido sinal da cabeça.

Olhei para o garoto com interesse. Parecia-se a todos os outros homens MacKenzie que eu vira, com as mesmas maçãs do rosto planas e largas e olhos fundos. Na realidade, levando em consideração a diferença na cor da pele e dos cabelos, ele poderia ser uma versão menor de seu tio Dougal, sentado ao seu lado. As duas adolescentes sentadas perto de Dougal, que deram risinhos e cutucaram-se quando foram apresentadas a mim, eram suas filhas, Margaret e Eleanor.

Dougal lançou-me um sorriso breve, mas amistoso, antes de arrancar a travessa da frente de uma de suas filhas que pretendia se servir e empurrá-la para mim.

— Não tem educação, menina? — repreendeu-a. — As visitas primeiro! Com certa hesitação, peguei a enorme colher feita de chifre que me era oferecida. Não sabia ao certo que tipo de comida iria ser servido e fiquei bastante aliviada ao descobrir que a travessa continha uma fileira dos caseiros e totalmente familiares arenques defumados.

Nunca havia tentado comer arenque com uma colher, mas não vi nada semelhante a um garfo e me lembrei vagamente que talheres com dentes só seriam usados dali a muitos anos.

A julgar pelo comportamento dos comensais nas outras mesas, sempre que a colher mostrava ser impraticável, a sempre útil adaga era usada para fatiar a carne e remover os ossos. Não dispondo de uma adaga, resolvi mastigar cuidadosamente e inclinei-me para a frente para pegar um arenque com a colher, mas deparei-me com os olhos azul-escuros de Hamish fitando-me acusadoramente.

— Você ainda não fez a oração — disse severamente, com uma expressão carrancuda no pequeno rosto. Obviamente, ele me considerava uma pagã desmiolada, senão simplesmente depravada.

— Hã, talvez você pudesse fazer a gentileza de dizê-la para mim? -arrisquei.

Os olhos azuis arregalaram-se de surpresa, mas após alguns instantes de reflexão, ele assentiu e uniu as mãos diligentemente. Olhou à volta da mesa para assegurar-se de que todos estivessem numa atitude adequadamente reverente antes de abaixar a cabeça. Satisfeito, entoou:

Alguns têm carne que não podem comer, E outros poderiam comer, mas não têm carne. Nós temos carne e podemos comer E assim damos graças a Deus. Amém.

Erguendo os olhos das minhas mãos respeitosamente entrelaçadas, encontrei os olhos de Colum e dei um sorriso que o cumprimentava pelo sangue-frio de seu rebento. Ele próprio reprimiu um sorriso e balançou a cabeça solenemente para seu filho.

— Muito bem, rapaz. Pode passar o pão à volta da mesa?

A conversa à mesa limitava-se a alguns pedidos ocasionais de mais comida, já que todos dedicavam-se seriamente a comer. Eu quase não sentia apetite, devido em parte ao choque das circunstâncias em que me encontrava e em parte ao fato de que não gostava muito de arenque afinal de contas. No entanto, a carne de carneiro estava muito boa e o pão delicioso, quente e crocante, com grandes bocados de manteiga fresca sem sal.

- Espero que o sr. MacTavish esteja se sentindo melhor - arrisquei, durante uma pequena pausa. - Não o vi quando entrei.

- MacTavish? - As delicadas sobrancelhas de Letitia curvaram-se em torno dos redondos olhos azuis. Senti, mais do que vi, os olhos de Dougal erguerem-se ao meu lado.

- O jovem Jamie - disse secamente, antes de retornar sua atenção para o osso de carneiro em suas mãos.

- Jamie? Ora, o que aconteceu com o rapaz? - Seu semblante rechonchudo contraiu-se de preocupação.

- Só um arranhão, minha querida - Colum tranqüilizou-a. Olhou para seu irmão do outro lado da mesa. - Mas onde ele está, Dougal? -Imaginei que talvez os olhos azul-escuros abrigassem um leve traço de suspeita.

Seu irmão deu de ombros, os olhos ainda no prato.

- Mandei-o à estrebaria para ajudar o Velho Alec com os cavalos. Pareceu-me o melhor lugar para ele, considerando sua situação. - Ergueu os olhos para fitar diretamente o irmão. - Ou você tinha outra idéia?

Colum pareceu em dúvida.

- A estrebaria? Sim, bem... você confia nele?

Dougal passou a mão pela boca despreocupadamente e estendeu-a para pegar um pedaço de pão.

- Você é quem sabe, Colum, se não concordar com minhas ordens. Os lábios de Colum estreitaram-se um pouco.

- Não, acho que ele vai se dar bem lá - disse, antes de retornar à sua refeição.

Eu também tinha as minhas dúvidas se a estrebaria seria o lugar adequado para um paciente ferido à bala, mas tive receio de emitir uma opinião naquela companhia. Decidi procurar o rapaz em questão pela manhã, só para me assegurar de que estava recebendo um mínimo dos cuidados necessários.

Recusei o pudim e pedi licença para me retirar, alegando que estava muito cansada, o que não era nenhuma mentira. Estava tão exausta que mal prestei atenção quando Colum disse:

- Boa noite, então, sra. Beauchamp. Enviarei alguém para trazê-la ao Conselho no salão pela manhã.

Uma das criadas, ao me ver no corredor tateando no escuro, gentilmente me acompanhou, iluminando o caminho até meus aposentos. Acendeu a vela sobre a minha mesa com a que ela estava carregando e uma luz suave bruxuleou nas pedras maciças das paredes, dando-me por um instante a sensação de estar num mausoléu. Depois que saiu, no entanto, puxei a cortina bordada que encobria a janela e a sensação desfez-se com a entrada do ar fresco. Tentei pensar em tudo que acontecera, mas minha mente recusava-se a considerar qualquer outra atividade que não dormir. Deslizei para debaixo das cobertas, apaguei a vela e adormeci observando a lua erguer-se lentamente no céu.

Foi a enorme e pesada sra. FitzGibbons quem chegou novamente para me acordar pela manhã, carregando o que parecia ser uma coleção completa dos artigos de toalete disponíveis a uma dama escocesa bem-nascida. Um lápis de grafite para escurecer as sobrancelhas e as pestanas, potes de pó-de-arroz e de raiz de íris em pó, até mesmo um bastão do que imaginei ser kohl, embora nunca tivesse visto algum, e uma delicada tigela de porcelana de ruge francês, com uma tampa gravada com uma fileira de cisnes dourados.

A sra. Fitz-Gibbons também trazia uma sobressaia listrada de verde e um corpete de seda, com meias amarelas de tecido fino, ao contrário das meias rústicas que me dera no dia anterior. O que quer que "Conselho" significasse, parecia ser uma ocasião de certa importância. Senti-me tentada a insistir em comparecer usando as minhas próprias roupas, só para contrariar, mas a lembrança da reação do gordo Rupert diante do meu vestido foi o suficiente para me conter.

Além do mais, eu até que gostava de Colum, apesar do fato de que tudo indicasse que ele pretendia manter-me ali por tempo indeterminado. Bem, é o que iríamos ver, pensei, enquanto fazia o melhor possível com o ruge. Dougal dissera que o rapaz de quem eu cuidara estava na estrebaria, não? E estrebarias tinham cavalos, com os quais se poderia fugir. Decidi ir procurar Jamie MacTavish, tão logo essa questão do Conselho tivesse acabado.

O Conselho, como se viu, era apenas isso mesmo; uma reunião no salão onde o jantar fora servido na noite anterior. Agora, entretanto, estava transformado; as mesas, bancos compridos e banquetas haviam sido encostados nas paredes, a mesa principal na cabeceira do salão fora retirada e substituída por uma cadeira imponente, de madeira escura esculpida, coberta com o que eu presumi que devia ser o tartã dos MacKenzie, o padrão exclusivo de tecido xadrez verde-escuro e preto, com finas linhas vermelhas e brancas sobrepostas, que simbolizava o clã. Ramos de azevim decoravam as paredes e via-se palha fresca espalhada pelas lajes de pedra do assoalho.

Um jovem gaiteiro soprava seu instrumento atrás da cadeira vazia, com numerosos suspiros e chiados. Perto dele, estavam o que eu presumi ser os membros mais íntimos da equipe de Colum: um homem de rosto fino, vestindo calças justas de tecido xadrez e uma camisa larga de pregas, displicentemente encostado na parede; um homenzinho quase careca com um elegante casaco de brocado, claramente uma espécie de escrivão, já que estava sentado a uma pequena mesa equipada com tinteiro feito de chifre, penas de escrever e papel; dois homens musculosos trajando kilts, com atitude de guardas; e ao lado, um dos maiores homens que eu já vira.

Fiquei olhando estarrecida para o gigante. Cabelos pretos e grossos caídos na testa, quase se unindo às sobrancelhas salientes. Um emaranhado similar cobria os antebraços, expostos pelas mangas enroladas de sua camisa. Ao contrário da maioria dos homens que eu vira, o gigante não parecia armado, a não ser por um pequeno punhal que carregava preso à meia comprida. Mal se via o cabo grosso e curto em meio aos tufos de cabelos pretos encaracolados que cobriam suas pernas acima das meias de xadrez alegremente coloridas. Um largo cinto de couro cingia o que devia ser uma cintura de um metro, mas não ostentava nenhuma espada ou adaga. Apesar do seu tamanho, o sujeito tinha uma expressão amistosa e parecia estar fazendo pilhéria com o homem de rosto fino, que parecia uma marionete em comparação a seu imenso interlocutor.

De repente, o gaiteiro começou a tocar, com uma ruidosa expiração preliminar, seguida imediatamente de um rangido agudo e dissonante que finalmente se reduziu a algo semelhante a uma afinação.

Havia umas trinta ou quarenta pessoas presentes, todas parecendo um pouco mais bem-vestidas e arrumadas do que os comensais na noite anterior. Todas as cabeças voltaram-se para o extremo oposto do salão, onde após uma pausa para a música tomar corpo, Colum entrou, seguido a poucos passos por seu irmão Dougal.

Os dois MacKenzie estavam claramente vestidos para uma cerimônia, em kilts verde-escuros e casacos bem talhados, o de Colum de um verde pálido e o de Dougal de um tom marrom-dourado, ambos com o xale axadrezado atravessado no peito e preso em um dos ombros com um grande broche cravejado de pedras preciosas. Os cabelos pretos de Colum estavam soltos hoje, cuidadosamente untados e penteados sobre os ombros. Os de Dougal continuavam presos na nuca em uma trança quase da mesma cor castanho-dourada e acetinada de seu casaco.

Colum percorreu lentamente toda a extensão do salão, acenando com a cabeça e sorrindo para os rostos em cada lado. Olhando para o outro lado do salão, eu podia ver outra entrada em arco, próxima ao local onde estava sua cadeira. Obviamente, ele poderia ter entrado por esse arco, ao invés do outro, no extremo oposto do salão. Então era deliberada essa exibição de suas pernas aleijadas e do gingado desajeitado ao longo de todo o percurso até sua cadeira. Também intencional era o contraste com seu irmão mais novo, alto e empertigado, que não olhava nem para a direita nem para a esquerda, mas em frente, caminhando diretamente atrás de Colum até a cadeira de madeira e assumindo sua posição de pé logo atrás do irmão.

Colum sentou-se e aguardou um instante, em seguida ergueu uma das mãos. O gemido da gaita-de-foles extinguiu-se lentamente num lamento patético e a cerimônia começou.

Logo ficou evidente que aquela era uma reunião regular em que o senhor do Castelo de Leoch dispensava justiça aos rendeiros e arrendatários de suas terras, ouvindo os casos e resolvendo disputas. Havia uma agenda; o escriba careca lia os nomes em voz alta e, a cada vez, as partes interessadas adiantavam-se.

Embora alguns casos fossem apresentados em inglês, a maior parte dos procedimentos transcorria em gaélico. Eu já notara que a linguagem gestual era bastante usada: o revirar de olhos e o bater de pés para dar ênfase, tornando difícil julgar a seriedade de um caso pelo comportamento dos participantes.

No momento em que eu compreendi que um dos homens, um espécime gasto pelo tempo, com uma enorme bolsa presa no cinto, feita com a pele inteira de um texugo, acusava seu vizinho de nada menos do que assassinato, incêndio criminoso e roubo de sua mulher, Colum ergueu as sobrancelhas e disse alguma coisa rapidamente em gaélico que fez com que tanto o queixoso quanto o acusado se dobrassem de rir. Enxugando os olhos, o queixoso finalmente assentiu balançando a cabeça e ofereceu a mão a seu adversário, enquanto o escrivão registrava tudo rapidamente, a pena rangendo como as patas de um rato.

Eu era a quinta na agenda. Uma posição, pensei, calculadamente planejada para indicar para as pessoas ali reunidas o grau de importância da minha presença no castelo.

Em meu benefício, falou-se em inglês durante a minha apresentação.

— Sra. Beauchamp, poderia adiantar-se?

Apressada por um empurrão desnecessário da mão gorducha da sra. Fitz-Gibbons, saí com um tropeção para o espaço livre diante de Colum e, de forma um tanto desajeitada, fiz uma mesura, como vira outras mulheres fazerem. Os sapatos que haviam me dado não faziam diferença entre pé direito e pé esquerdo, sendo apenas um couro moldado numa forma oval alongada, o que tornava difícil executar movimentos graciosos. Um zun-zum de interesse percorreu a multidão quando Colum fez a deferência de levantar-se de sua cadeira. Ofereceu-me a mão, que aceitei para não cair de cara no chão.

Ao me levantar de minha reverência, amaldiçoando mentalmente as sapatilhas, vi-me diante do peito de Dougal. Como meu captor, tudo indicava que cabia a ele fazer o pedido formal para o meu acolhimento - ou cativeiro, dependendo do ponto de vista.

- Senhor - começou Dougal, inclinando-se formalmente para Colum -, rogamos sua indulgência e clemência com respeito a uma senhora necessitada de socorro e refúgio. Claire Beauchamp, uma senhora inglesa de Oxford, tendo sido atacada por ladrões de estrada e seu criado morto traiçoeiramente, fugiu para a floresta de suas terras, onde foi descoberta e resgatada por mim e meus homens. Suplicamos que o Castelo Leoch possa oferecer refúgio a essa senhora até que - fez uma pausa e um sorriso cínico entortou sua boca - suas ligações inglesas possam ser informadas de seu paradeiro e que seu transporte em segurança possa ser providenciado.

Não me passou despercebida a ênfase em inglesas e nem a nenhum dos presentes, eu tinha certeza. Assim, eu deveria ser tolerada, mas mantida sob suspeita. Se ele tivesse dito francesas, eu teria sido considerada uma intrusa amistosa ou, na pior das hipóteses, neutra. Fugir do castelo poderia ser mais difícil do que eu esperava.

Colum fez uma reverência cortês para mim e ofereceu-me a hospitalidade ilimitada de sua humilde casa, ou algo nesse sentido. Fiz uma nova mesura, com um pouco mais de sucesso, e retirei-me para junto dos outros, seguida de olhares curiosos, porém mais ou menos amistosos.

Até esse ponto, os casos pareciam ser do interesse principalmente das partes envolvidas. Os espectadores conversavam entre si em voz baixa, aguardando sua vez. Minha própria apresentação fora recebida com um murmúrio interessado de especulação e, acredito, de aprovação.

Agora, entretanto, um burburinho nervoso percorria o salão. Um homem forte adiantou-se para o centro do espaço vazio, arrastando uma jovem pela mão. Ela aparentava ter uns dezesseis anos, com um rosto bonito e emburrado, e longos cabelos louros amarrados na nuca com uma fita azul. Adiantou-se aos tropeções para o meio do espaço e ficou parada ali sozinha, enquanto o homem atrás dela protestava em gaélico, agitando os braços e apontando para ela para exemplificar ou acusar. Murmúrios percorriam a multidão enquanto ele falava.

A sra. Fitz-Gibbons, o corpo volumoso assentado em uma banqueta torta, espichava o pescoço com interesse. Inclinei-me para a frente e perguntei em seu ouvido:

- O que ela fez?

A enorme mulher respondeu sem mover os lábios ou desviar os olhos da cena.

- O pai dela a acusa de comportamento licencioso; de encontrar-se desapropriadamente com rapazes contra as suas ordens - balbuciou a sra. Fitz-Gibbons, inclinando o corpo volumoso para trás. - Seu pai quer que o MacKenzie a castigue por desobediência.

- Castigar? Como? — sussurrei, o mais baixo possível.

- Shhh.

No centro, as atenções agora se voltavam para Colum, que ponderava sobre a jovem e o pai. Olhando de um para o outro, começou a falar. Franzindo a testa, bateu bruscamente com os nós dos dedos no braço da cadeira e um estremecimento percorreu a multidão.



- Ele já decidiu - murmurou a sra. Fitz-Gibbons, desnecessariamente. O que ele havia decidido também era claro; o gigante mexeu-se pela primeira vez, desabotoando vagarosamente seu cinto de couro. Os dois guardas seguraram a aterrorizada jovem pelos braços e viraram-na de modo que ficasse de costas para Colum e seu pai. Ela começou a chorar, mas não fez nenhum apelo. A platéia observava com a espécie de intenso entusiasmo presente em execuções públicas e acidentes de trânsito. Repentinamente, uma voz gaélica ergueu-se na multidão, audível acima da movimentação e do burburinho.

As cabeças se voltaram para localizar a pessoa que falara. A sra. Fitz-Gibbons levantou-se, ficando até mesmo na ponta dos pés, para ver. Eu não fazia a menor idéia do que fora dito, mas achei que conhecia aquela voz, grave, mas suave, com um jeito pronunciado de cortar as consoantes finais.

A multidão apartou-se e Jamie MacTavish surgiu no espaço vazio. Inclinou a cabeça respeitosamente para MacKenzie, em seguida continuou a falar. O que quer que tenha dito, pareceu gerar mais controvérsia. Colum, Dougal, o pequeno escrivão e o pai da jovem, todos pareciam estar avaliando a situação.

- O que foi? - murmurei para a sra. Fitz-Gibbons. Meu paciente parecia muito melhor do que na última vez em que o vi, embora ainda um pouco pálido, pensei. Arranjara uma camisa limpa; a manga direita vazia fora dobrada e enfiada na cintura de seu kilt.

A sra. Fitz-Gibbons acompanhava os acontecimentos com grande interesse.

- O rapaz está se oferecendo para receber o castigo pela jovem — disse distraidamente, tentando espreitar pelos lados da cabeça do espectador à nossa frente.

- O quê? Mas ele está ferido! Certamente não vão deixá-lo fazer uma coisa dessas! - falei o mais baixo que pude sob o zumbido da multidão.

A sra. Fitz-Gibbons sacudiu a cabeça.

- Não sei. Estão discutindo isso agora. Veja bem, é permitido que um homem de seu próprio clã se ofereça por ela, mas o rapaz não é um MacKenzie.

- Não é? — Fiquei surpresa, tendo suposto ingenuamente que todos os homens do grupo que me capturara pertencessem ao Castelo Leoch.

- Claro que não — respondeu a sra. Fitz-Gibbons com impaciência. -Não vê o tartã dele?

Claro que sim, uma vez que ela chamou minha atenção para isso. Embora Jamie também usasse um tartã de caça em tons de verde e marrom, as cores eram diferentes dos tartãs dos outros homens presentes. O marrom era mais escuro, quase um tom de casca de árvore, com uma fina listra azul.

Tudo indicava que a contribuição de Dougal fora o argumento definitivo. O grupo de conselheiros dispersou-se e a multidão fez silêncio, aguardando os próximos acontecimentos. Os dois guardas soltaram a jovem, que correu de volta para o meio da multidão, e Jamie deu um passo à frente para tomar o lugar dela entre os guardas. Observei horrorizada quando fizeram menção de segurar seus braços, mas ele falou em gaélico para o homem com o cinto de couro e os dois guardas se afastaram. Surpreendentemente, um sorriso largo e insolente iluminou seu rosto por um instante. Mais estranho ainda, viu-se um breve sorriso de resposta no rosto do gigante.

- O que ele disse? - indaguei à minha intérprete.

- Ele prefere os punhos em vez da correia. Um homem pode fazer essa escolha, mas uma mulher não.

- Punhos? - Não tive tempo para novas perguntas. O carrasco afastou para trás o punho cerrado como um tacape e arremessou-o no estômago de Jamie, fazendo com que se dobrasse e soltasse a respiração com uma arfada. O homem esperou que ele se soerguesse outra vez antes de administrar-lhe uma série de golpes vigorosos nas costelas e braços. Jamie não fez nenhum esforço para se defender, meramente tentando equilibrar-se para se manter de pé diante do ataque.

O próximo soco foi no rosto. Contraí-me e apertei os olhos involuntariamente quando a cabeça de Jamie foi atirada para trás. O carrasco demorava-se entre um golpe e outro, com cuidado para não nocautear sua vitima ou bater muitas vezes em um único lugar. Era um espancamento científico, habilmente conduzido para infligir dor, mas não para aleijar ou mutilar. Um dos olhos de Jamie estava inchando e ele respirava com dificuldade, mas fora isso não parecia em muito mau estado.

Eu estava angustiada de apreensão, com medo de que um dos golpes reabrisse o ferimento no ombro. Minhas ataduras continuavam no lugar,

mas não durariam muito diante deste tipo de tratamento. Por quanto tempo aquilo iria continuar? O salão estava em silêncio, exceto pelos baques surdos de carne contra carne e um ou outro gemido leve.

- O pequeno Angus interromperá quando ele sangrar - sussurrou a Sra. Fitz, aparentemente adivinhando minha pergunta não proferida. - Em geral, quando o nariz é quebrado.

- Isso é uma selvageria! - exclamei entre dentes, furiosa. Diversas pessoas ao nosso redor olharam-me severamente.

Agora, aparentemente o carrasco decidira que a punição já transcorrera pelo tempo devido. Deu um passo para trás e desfechou um golpe fulminante; Jamie cambaleou e caiu de joelhos. Os dois guardas apressaram-se para colocá-lo de pé e, quando ele levantou a cabeça, pude ver o sangue jorrando de sua boca espancada. A multidão explodiu num zumbido de alívio e o carrasco recuou, satisfeito com o seu desempenho.

Um guarda segurou Jamie pelo braço, amparando-o enquanto ele sacudia a cabeça para desanuviá-la. A jovem desaparecera. Jamie ergueu a cabeça e olhou nos olhos do enorme carrasco. Surpreendentemente, riu outra vez, da melhor forma que podia. Os lábios, sangrando, moveram-se:

- Obrigado — disse, com dificuldade, e inclinou-se formalmente para o homem maior do que ele, antes de se voltar para ir embora. A atenção da multidão voltou para MacKenzie e o próximo caso diante dele.

Vi Jamie abandonar o salão pela porta na parede oposta. Tendo agora mais interesse nele do que nos procedimentos, despedi-me da sra. Fitz-Gibbons com uma rápida palavra e abri caminho pelo salão para segui-lo.

Encontrei-o num pequeno pátio interno, recostado contra uma fonte e tocando de leve a boca com a ponta da camisa.

- Tome, use isto — eu disse, oferecendo-lhe um lenço do meu bolso.

Aceitou-o com um ruído que entendi como sendo um agradecimento. Um sol pálido e fraco já saíra e eu examinei o jovem cuidadosamente à sua luz. Um lábio cortado e um olho extremamente inchado pareciam ser os principais danos, embora houvesse marcas no maxilar e no pescoço que logo se transformariam em manchas roxas.

- Sua boca está cortada por dentro também?

- Hum-hum. - Inclinou-se e eu puxei seu maxilar inferior, virando delicadamente o lábio para baixo para examinar o interior da boca. Havia um corte profundo na mucosa brilhante da bochecha e umas duas perfurações pequenas na membrana rósea da parte interna do lábio. O sangue misturado à saliva acumulou-se e escorreu.

- Água — ele disse com dificuldade, tentando enxugar o fio de sangue que escorria pelo queixo.

- Certo. - Felizmente, havia um balde e um copo de chifre na borda da fonte. Ele lavou a boca e cuspiu várias vezes, depois jogou água no resto do rosto.

- Por que fez aquilo? — perguntei com curiosidade.

- O quê? - disse, endireitando-se e enxugando o rosto na manga da camisa. Tocou de leve o lábio rachado, encolhendo-se ligeiramente.

- Oferecer-se para receber a punição no lugar daquela garota. Você a conhece? - Senti uma certa timidez em perguntar, mas eu realmente queria saber o que havia por trás daquele gesto quixotesco.

- Sei quem é. Mas nunca falei com ela.

- Então, por que fez isso?

Encolheu os ombros, um movimento que também o fez contrair-se.

- Teria sido uma vergonha para a garota, levar uma surra em pleno Conselho. Era mais fácil para mim.

- Mais fácil? — repeti, incrédula, olhando para seu rosto surrado. Ele apalpava as costelas doloridas com a mão livre, mas ergueu os olhos e deu um sorriso enviesado.

- Sim. Ela é muito jovem. Teria sido envergonhada diante de todo mundo que a conhece e levaria muito tempo até superar isso. Estou dolorido, mas nada realmente grave; vou me recuperar em um ou dois dias.

- Mas por que você? — perguntei. Olhou-me como se achasse a pergunta estranha.

- Por que não eu? - retrucou.

Por que não?, tive vontade de dizer. Porque você não a conhecia, ela não significava nada para você. Porque você já estava ferido. Porque é preciso uma coragem especial para ficar parado diante de uma multidão e deixar alguém surrá-lo no rosto, qualquer que fosse o motivo.

- Bem, um trapézio perfurado por uma bala de mosquete poderia ser considerado um bom motivo - eu disse secamente.

- Trapézio, hein? Não sabia disso.

- Ah, aí está você, rapaz! Vejo que já encontrou quem cuide de você; talvez não precise de mim. — A sra. Fitz-Gibbons veio gingando, espremendo-se um pouco pela passagem estreita que dava para o pátio. Segurava uma bandeja com alguns potes, uma tigela larga e uma toalha de linho limpa.

- Não fiz nada além de ir buscar um pouco d'água - eu disse. - Acho que não está muito ferido, mas não sei o que podemos fazer por ele além -de lavar seu rosto.

- Ah, ora, sempre há alguma coisa, sempre há alguma coisa que pode ser feita — ela disse, descontraidamente. - Ora, esse olho, rapaz, deixe-me vê-lo. - Jamie sentou-se obedientemente na borda da fonte e virou o rosto para ela. Os dedos rechonchudos pressionaram delicadamente o inchaço arroxeado, deixando marcas brancas que desapareceram rapidamente.

-- Ainda está sangrando sob a pele. Então, as sanguessugas vão ser úteis. -- Levantou a tampa da tigela, revelando várias lesmas escuras e pequenas, de três a cinco centímetros, cobertas com um líquido de aspecto asqueroso. Com a mão em concha, retirou duas delas e aplicou uma na pele logo abaixo do osso da sobrancelha e a outra abaixo do olho.

— Veja bem - explicou-me -, quando uma contusão se estabelece, as sanguessugas não adiantam mais. Mas quando se tem um inchaço como esse, que ainda está se formando, significa que o sangue está fluindo sob a pele e as sanguessugas podem extraí-lo.

Fiquei observando, fascinada e com nojo.

— Não dói? - perguntei a Jamie. Ele sacudiu a cabeça, fazendo as sanguessugas balançarem-se de forma repugnante.

— Não. Dão uma sensação fria, só isso.

A sra. Fitz estava ocupada com suas botijas e frascos.

— Muita gente não sabe usar sanguessugas - informou-me. - Às vezes são muito úteis, mas é preciso saber usá-las. Quando usadas numa contusão antiga, só retiram o sangue saudável, e isso não adianta nada para o hematoma. Além disso, é preciso ter cuidado para não usar muitas de uma vez; elas enfraquecem uma pessoa que está muito doente ou que já perdeu muito sangue.

Ouvi respeitosamente, absorvendo todas as informações, embora eu sinceramente esperasse que nunca me pedissem para usar aquilo.

— Agora, rapaz, faça um bochecho com isso; vai limpar os cortes e aliviar a dor. Chá de casca de salgueiro - explicou-me -, com um uma pitada de raiz de íris moída. - Balancei a cabeça; lembrava-me vagamente de ter ouvido em uma antiga aula de botânica que a casca do salgueiro continha ácido salicílico, o ingrediente ativo de uma aspirina.

— A casca de salgueiro não aumenta a possibilidade de sangramento? -perguntei.

A sra. Fitz confirmou balançando a cabeça.

— Sim. Às vezes, sim. É por isso que em seguida você dá um punhado de erva-de-são-joão embebida em vinagre; isso estanca o sangramento, se tiver sido colhida na lua cheia e bem moída.

Jamie obedientemente lavou a boca com a solução adstringente, os olhos lacrimejando com o cheiro penetrante do vinagre aromatizado.

As sanguessugas já estavam gordas a essa altura, inchadas e com o tamanho quadruplicado. A pele escura e enrugada agora estava lisa e brilhante; pareciam pedras redondas e polidas. De repente, uma das sanguessugas se desprendeu, saltando no chão e parando junto aos meus pés. A sra. Fitz pegou-a habilmente, abaixando-se com facilidade apesar do seu volume, e colocou-a de volta na tigela. Segurando delicadamente a outra sanguessuga logo atrás das mandíbulas, puxou-a devagar fazendo a cabeça esticar-se.

— Não pode puxar com muita força — ela disse. — às vezes, estouram. — Estremeci involuntariamente diante da idéia. — Mas quando estão quase cheias, em geral saem facilmente. Se não saírem, deixe-as mais algum tempo e cairão sozinhas.

De fato, a sanguessuga saiu com facilidade, deixando uma gota de sangue onde estivera presa. Enxuguei o minúsculo ferimento com a ponta da toalha imersa na solução de vinagre. Para minha surpresa, as sanguessugas funcionaram; o inchaço fora substancialmente reduzido e o olho estava ao menos parcialmente aberto, embora a pálpebra ainda estivesse intumescida. A sra. Fitz examinou-o e concluiu que não deveria usar outra sanguessuga.

- Você vai ficar com uma aparência horrível amanhã, rapaz, não resta a menor dúvida — ela disse, sacudindo a cabeça -, mas ao menos poderá ver um pouco com este olho. O que você precisa agora é colocar um pouco de carne crua em cima dele e pingar uma gota de caldo de carne com cerveja, para fortalecer o olho. Vá até a cozinha mais tarde e eu arranjarei um pouco para você. - Pegou sua bandeja e parou por um instante.

- O que você fez foi de bom coração, rapaz. Laoghaire é minha neta, você sabe; eu lhe agradeço por ela. Embora ela deva agradecer pessoalmente a você, se tiver um pouco de educação. - Deu uns tapinhas afetuosos no rosto de Jamie e saiu caminhando pesadamente.

Examinei-o com cuidado; o arcaico tratamento médico fora surpreendentemente eficaz. O olho ainda estava um pouco inchado, mas apenas levemente arroxeado, e o corte no lábio reduzira-se a uma linha limpa, sem sangue, somente um pouco mais escura do que o tecido à sua volta.

- Como se sente? - perguntei.

- Bem. - Devo ter olhado de esguelha, com um ar de descrença, porque ele sorriu, ainda tomando cuidado com a boca. - São apenas machucados, sabe. Parece que tenho que lhe agradecer outra vez; com essa, são três vezes em três dias que você cuidou de mim. Deve estar achando que sou um pouco atrapalhado.

Toquei uma mancha roxa em seu queixo.

- Atrapalhado, não. Um pouco insensato, talvez.

Uma movimentação na entrada do pátio chamou minha atenção; um lampejo de azul e amarelo. A jovem chamada Laoghaire recuou timidamente ao me ver.

- Acho que alguém quer falar com você a sós — eu disse. — Vou embora. Mas as ataduras do ombro podem ser retiradas amanhã. Irei à sua procura.

- Sim. Mais uma vez, obrigado. - Apertou minha mão levemente em despedida. Ao sair, olhei a jovem com curiosidade. Era ainda mais bonita de perto, com meigos olhos azuis e uma pele lisa e suave como uma pétala de rosa. Iluminou-se ao olhar para Jamie. Deixei o pátio, imaginando se na realidade seu gesto cavalheiresco fora assim tão altruístico quanto eu imaginara.

Na manhã seguinte, acordada ao raiar do dia pela algazarra dos pássaros no lado de fora e das pessoas no lado de dentro, vesti-me e descobri meu caminho pelos corredores frios até o salão. Devolvido à sua identidade normal como refeitório, enormes caldeirões de mingau eram servidos, com pães assados na lareira e untados com melado. O forte aroma dos alimentos sendo preparados era quase palpável. Ainda me sentia tonta e confusa, mas um desjejum quente e reforçado reanimou-me o suficiente para fazer uma pequena exploração.

Encontrando a sra. Fitz-Gibbons mergulhada até os cotovelos rechonchudos em massa enfarinhada, anunciei que queria encontrar Jamie, a fim de retirar as ataduras e examinar a cicatrização do ferimento à bala. Ela convocou um de seus criados com um aceno da mão redonda e branca de farinha.

-Jovem Alec, vá procurar Jamie, o novo domador de cavalos. Diga-lhe para vir com você para fazer curativo no ombro. Estaremos no canteiro de ervas. - Um sonoro estalo de dedos fez o rapaz sair correndo para localizar meu paciente.

Passando a tarefa de sovar a massa para uma criada, a sra. Fitz lavou as mãos e virou-se para mim.

— Ainda vai levar algum tempo até voltarem. Gostaria de dar uma olhada no canteiro de ervas? Parece que você tem algum conhecimento de plantas e, se quiser, pode dar uma mãozinha lá quando tiver tempo.

O canteiro de ervas, um valioso repositório de plantas aromáticas e medicinais, ficava protegido em um pátio interno, suficientemente grande para receber sol, mas bastante abrigado dos ventos da primavera e com sua própria fonte. Moitas de alecrim limitavam o canteiro a oeste, camomila ao sul e uma fileira de pau-roxo delimitava o canteiro ao norte, com a própria parede do castelo.na extremidade leste, um abrigo adicional aos ventos freqüentes. Identifiquei corretamente os estiletes verdes do açafrão e as folhas macias da azedinha francesa brotando da terra escura e adubada. A sra. Fitz mostrou-me a dedaleira, a beldroega e a betônica, além de algumas outras plantas que eu não conhecia.

O final da primavera era hora de plantio. A cesta que a sra. Fitz trazia no braço carregava uma profusão de dentes de alho, a primeira colheita do verão. A roliça senhora entregou-me o cesto, juntamente com uma pazinha para escavar. Tudo indicava que eu já ficara tempo suficiente à toa no castelo; até Colum encontrar uma função para mim, a sra. Fitz sempre teria trabalho para mais duas mãos.

— Tome, querida. Plante-os aqui, ao longo do lado sul, entre o tomilho e a dedaleira.

Mostrou-me como dividir as cabeças em brotos individuais sem desfazer o invólucro duro e, depois, como plantá-los. Era bastante simples, bastava enfiar cada dente no chão, a parte rombuda para baixo, enterrado cerca de quatro centímetros abaixo da superfície. Ergueu-se, limpando as volumosas saias.

- Guarde algumas cabeças - avisou-me. - Divida-as e plante os dentes separados aqui e lá, por todo o canteiro. O alho não deixa que as outras plantas sejam atacadas por bichinhos. Cebolas e milefólios surtem o mesmo efeito. E tire as pontas mortas dos cravos-da-índia, mas guarde-as, são úteis.

Havia muitos pés de cravos-da-índia espalhados pelo canteiro, irrompendo em flores douradas. Nesse instante, o Jovem Alec que ela enviara à procura de Jamie chegou, quase sem fôlego da corrida. Informou que o paciente recusara-se a largar o trabalho.

- Ele disse - informou, arquejante, o rapaz — que já não sente dor e que não precisa mais de curativos, mas mandou agradecer seu interesse.

A sra. Fitz encolheu os ombros diante da notícia não muito tranqüilizadora.

- Bem, se não quer vir, tudo bem. Mas, se quiser, vá até o curral por volta do meio-dia, dona. Ele pode não parar para ser atendido, mas vai parar para comer, se eu conheço bem os rapazes. O Jovem Alec virá buscá-la e a levará até lá.

Deixando-me com a tarefa de plantar o restante do alho, a sra. Fitz partiu como um galeão, o Jovem Alec bamboleando atrás dela.

Trabalhei alegremente durante toda a manhã, plantando alho, retirando as pontas de flores mortas, arrancando ervas daninhas e levando adiante a batalha sem fim de um jardineiro contra caracóis, lesmas e pragas similares. Aqui, entretanto, a batalha era travada com as mãos vazias, sem nenhuma ajuda de pesticidas. Estava tão absorta em meu trabalho que não notei a chegada do Jovem Alec até ele tossir educadamente para chamar minha atenção. Não sendo afeito a muitas palavras, esperou apenas o tempo suficiente para eu me levantar e limpar minha saia, antes de desaparecer pelo portão do pátio.

O curral aonde ele me levou ficava um pouco distante da estrebaria, em uma campina gramada e cercada. Três cavalos jovens saltitavam alegremente no prado. A outra, uma égua baia, jovem e reluzente, estava amarrada à cerca, com um cobertor leve sobre o dorso.

Jamie aproximava-se cautelosamente pelo lado da égua, que observava sua aproximação com uma boa dose de desconfiança. Ele colocou o braço livre levemente em seu dorso, falando baixinho, pronto para recuar se a égua se opusesse. Ela revirou os olhos e resfolegou, mas não se mexeu. Movendo-se lentamente, encostou-se no cobertor, ainda sussurrando para a égua, e aos poucos, bem devagar, descansou o peso do seu corpo sobre as costas do animal. Ela retrocedeu um pouco e arrastou as patas, mas ele insistiu, erguendo a voz apenas um pouco.

Nesse exato instante, a égua virou a cabeça e nos viu chegando. Pressentindo alguma ameaça, recuou, relinchando, e virou-se para nos olhar diretamente, imprensando Jamie contra a cerca. Resfolegando e corco-veando, ela saltava e procurava se livrar da corda que a prendia à cerca. Jamie rolou por baixo da cerca, fora do alcance dos coices. Levantou-se com dificuldade, praguejando em gaélico, e virou-se para ver o que havia causado aquele contratempo em seu trabalho.

Quando viu quem era, sua expressão furiosa mudou imediatamente para um amável cumprimento de boas-vindas, embora eu receie que nosso aparecimento não tenha sido tão oportuno quanto era de se desejar. O cesto com o lanche, providencialmente enviado pela sra. Fitz, que realmente conhecia os jovens, contribuiu bastante para recuperar seu bom humor.

— Ah, acalme-se, maldito animal - advertiu a égua, ainda bufando e dando pinotes. Liberando o Jovem Alec com um sopapo amigável, recuperou o cobertor que caíra da égua e, sacudindo a poeira do curral, gentilmente estendeu-o para que eu me sentasse.

Diplomaticamente, evitei qualquer referência ao recente contratempo com a égua e, em vez disso, servi-lhe cerveja e pedaços de pão e de queijo.

Ele comeu com uma concentração tão absoluta que me fez lembrar de sua ausência do jantar há duas noites.

— Dormi direto — ele disse rindo quando lhe perguntei por onde andara. - Fui dormir assim que a deixei no castelo e só acordei ontem de manhã. Trabalhei um pouco ontem, após o Conselho, depois me sentei em um fardo de feno para descansar um pouco antes do jantar. Acordei hoje de manhã ainda sentado lá, com um cavalo mordiscando a minha orelha.

Achei que o descanso fizera-lhe bem; as contusões da surra do dia anterior estavam escuras, mas a pele ao redor tinha uma boa cor saudável e ele certamente tinha bom apetite.

Observei-o terminar toda a comida, catando farelos de pão da camisa com a ponta do dedo molhada e jogando-os dentro da boca.

— Tem um apetite saudável — eu disse, rindo. - Aposto que poderia comer capim se não tivesse outra coisa.

— Já comi - ele disse, sério. - Não tem gosto ruim, mas não alimenta muito.

Fiquei perplexa, depois achei que estivesse brincando comigo.

— Quando? — perguntei.

— Inverno, no ano anterior ao último. Eu estava vivendo precariamente, sabe, na floresta, com os... com um grupo de rapazes, fazendo incursões na fronteira. Não tivemos sorte por mais de uma semana e não havia mais nenhuma comida. De vez em quando conseguíamos um pouco de mingau na casa de um ou outro camponês, mas eles mesmos são tão pobres que raramente podem oferecer alguma coisa. Mas, veja bem, eles sempre acham alguma coisa para dar a um estranho, mas vinte estranhos é demais, mesmo para a hospitalidade de um habitante das Highlands.

Abriu um largo sorriso repentinamente.

-Já ouviu falar... bem, não teria ouvido. Eu ia perguntar se você já tinha ouvido a oração de graças que dizem nas pequenas fazendas.

- Não. Como é?

Ele sacudiu a cabeça para afastar os cabelos dos olhos e recitou:

Corra, corra, à volta da mesa, Coma tanto quanto puder. Coma muito, não surrupie nada, Corra, corra, Amém.

- "Não surrupie nada?" — perguntei, achando graça. Ele bateu na bolsa presa ao cinto.

- Coloque a comida na barriga, não na bolsa - explicou.

Pegou uma longa lâmina de grama e puxou-a delicadamente de sua base. Enrolou-a devagar entre as palmas da mão, fazendo as minúsculas sementes voarem da haste.

- Era fim de inverno, e um inverno ameno, o que foi sorte, ou não teríamos sobrevivido. Sempre podíamos capturar alguns coelhos com armadilhas, às vezes os comíamos crus, se não pudéssemos nos arriscar a acender um fogo, e de vez em quando um cervo, mas não achávamos caça há vários dias, nessa época de que estou falando.

Dentes brancos e retos mastigaram o talo de grama. Eu mesma arranquei um talo e mordisquei a ponta. Era adocicado e ligeiramente ácido, mas só havia mais ou menos uns dois centímetros de talo macio o suficiente para comer; não dava para sustentar ninguém.

Jogando fora o talo parcialmente comido, Jamie arrancou outro e continuou sua história.

- Nevara um pouco alguns dias antes; apenas uma crosta sob as árvores e lama em todo o resto. Eu procurava cogumelos, sabe, aqueles enormes, cor de laranja, que crescem na base das árvores, às vezes. Enfiei o pé em uma crosta de neve e por baixo havia um bom pedaço de terra com grama, crescendo num espaço aberto entre as árvores, acho que batia um pouco de sol ali às vezes. Geralmente, os veados encontram esses trechos de grama. Eles tiram a neve com as patas e comem a grama até as raízes.

Não haviam encontrado aquela ali ainda e achei que se eles conseguiam atravessar o inverno dessa forma, por que não eu? Estava tão faminto que Poderia ter cozinhado minhas botas e comido, se não precisasse delas para andar. Assim, comi a grama, até as raízes, como os veados fazem.

-- Há quanto tempo você não comia? — perguntei, fascinada e horrorizada.

— Três dias sem nada; uma semana sem nada mais do que um punhado de aveia com um pouco de leite. Sim — disse, olhando pensativamente o talo de grama em sua mão -, a grama de inverno é dura e azeda, não é como esta, mas eu não me importei. - Riu para mim repentinamente.

— Também não dei muita importância ao fato de que um cervo tem quatro estômagos, enquanto eu só tinha um. Tive cólicas terríveis e gases durante dias. Um dos homens mais velhos disse-me mais tarde que, para comer grama, é preciso cozinhá-la na água primeiro, mas eu não sabia disso na hora. Não teria feito diferença; estava faminto demais para esperar.

Levantou-se e me deu a mão para me ajudar a ficar de pé.

— É melhor voltar ao trabalho. Obrigado pela comida, dona. - Entregou-me o cesto e dirigiu-se para o curral, o sol brilhando em seus cabelos como num tesouro de moedas de ouro e cobre.

Voltei lentamente para o castelo, pensando nos homens que viviam na lama fria e comiam grama. Não me ocorreu, até chegar ao pátio, que eu me esquecera completamente de seu ombro.




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