A viajante do tempo



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4 - CHEGO AO CASTELO
O resto da viagem transcorreu sem novos incidentes, se não considerarmos incidentes cavalgar mais de trinta quilômetros por uma região agreste à noite, em geral sem o benefício de estradas, na companhia de homens de kilt armados até os dentes e compartilhando um cavalo com um ferido. Ao menos, não fomos emboscados por ladrões de estrada, não nos deparamos com nenhum animal feroz e não choveu. Pelos padrões a que estava ficando acostumada, foi bastante sem graça.

O alvorecer aproximava-se com raios e faixas de luz sobre a charneca enevoada. Nosso destino assomou à frente, uma enorme construção de pedra escura delineada contra a luz cinzenta.

A vizinhança já não era tranqüila e deserta. Havia um pequeno fluxo de pessoas grosseiramente vestidas dirigindo-se ao castelo. Deslocaram-se para a margem da estrada estreita para deixar os cavalos passarem, olhando com espanto para minhas roupas, que obviamente consideravam estranhas.

Como se poderia esperar, a neblina era espessa, mas havia luz suficiente para revelar uma ponte de pedra, formando um arco sobre um riacho que corria em frente ao castelo, em direção a um lago que brilhava fosca-mente a uns quatrocentos metros de distância.

O castelo em si era sólido e de linhas bruscas. Nada de pequenas torres excêntricas ou muralhas denteadas. Parecia mais uma enorme fortaleza, com grossos muros de pedra e janelas altas e estreitas, não mais do que uma fenda. Diversas chaminés soltavam fumaça acima das pedras lisas do telhado de ardósia, contribuindo para a impressão cinzenta geral.

Os portões de entrada do castelo eram suficientemente largos para deixarem passar duas carroças lado a lado. Digo isso sem receio de contradição, porque era exatamente o que estava acontecendo quando atravessávamos a ponte. Uma das carroças puxadas a bois estava carregada de barris e a outra de feno. Nossa pequena procissão de cavaleiros aglomerou-se na ponte, esperando impacientemente que as carroças terminassem sua difícil entrada.

Arrisquei uma pergunta enquanto os cavalos avançavam com cuidado pelas pedras escorregadias do pátio molhado. Não falara com meu acompanhante desde que refizera o curativo de seu ombro à beira da estrada. Ele também permanecera em silêncio, exceto por um ou outro gemido de desconforto quando um passo em falso do cavalo o sacudia.

- Onde estamos? - perguntei, a voz rouca do frio e da falta de uso.

- Na fortaleza Leoch - respondeu laconicamente.

Castelo Leoch. Bem, ao menos agora eu sabia onde estava. Quando o conheci, o Castelo Leoch era uma ruína pitoresca, a uns cinqüenta quilômetros ao norte de Bargrennan. Era bem mais pitoresco agora, com os porcos fuçando a terra sob as muralhas da fortaleza e o penetrante mau cheiro de esgoto não tratado. Eu estava começando a aceitar a idéia fantástica de que eu estava, provavelmente, em algum momento do século XVIII.

Tinha certeza de que tanta sujeira e caos não existiam em nenhum lugar da Escócia de 1945, com ou sem crateras de bombas. E definitivamente estávamos na Escócia; o sotaque das pessoas no pátio do castelo não deixava nenhuma dúvida a respeito.

- Olá, Dougal - gritou um cavalariço, correndo para agarrar o cabresto do cavalo do líder. - Chegou cedo, hein! Não esperávamos vê-lo antes do Grande Encontro!

O líder de nosso pequeno grupo desceu da sela, deixando as rédeas com o jovem imundo.

- Sim, bem, tivemos sorte, tanto boa quanto má. Vou ver meu irmão. Pode chamar a sra. Fitz para dar comida aos rapazes? Estão precisando de uma refeição e de camas.

Fez sinal para que Murtagh e Rupert o acompanhassem e, juntos, desapareceram sob um arco pontiagudo.

O resto de nós desmontou e ficou parado no pátio úmido, soltando o vapor da respiração, por mais uns dez minutos até que a sra. Fitz, quem quer que fosse, concordou em aparecer. Um punhado de crianças curiosas reuniu-se à nossa volta, especulando sobre a minha possível origem e função. Os mais ousados começavam a reunir coragem para tocar a minha saia quando uma mulher robusta e decidida, vestida de linho rústico marrom-escuro, tecido em tear manual, surgiu com grande estardalhaço e botou as crianças em fuga.

- Willy, querido! - gritou. - Que bom ver você! E Neddie! - Deu um caloroso beijo de boas-vindas no homenzinho careca que quase o derrubou. - Imagino que estejam mortos de fome. Há muita comida na cozinha. Vão lá e sirvam-se. — Virando-se para mim e Jamie, deu um salto para trás como se tivesse sido mordida por uma cobra. Olhou-me estupefata, depois se virou para Jamie em busca de uma explicação para aquela aparição.

- Claire - ele disse, com uma ligeira inclinação da cabeça em minha direção. - É a sra. Fitz-Gibbons - acrescentou, com uma inclinação para o outro lado. — Murtagh encontrou-a ontem e Dougal disse que deveríamos trazê-la conosco - acrescentou, deixando claro que não adiantava culpá-lo.

A sra. Fitz-Gibbons fechou a boca e olhou-me de cima a baixo com um ar de sábia avaliação. Aparentemente, concluiu que eu parecia bastante inofensiva, independente da minha aparência estranha e escandalosa, porque sorriu - afavelmente, apesar da ausência de vários dentes - e tomou-me pelo braço.

- Bem, Claire. Seja bem-vinda. Venha comigo e encontraremos algo um pouco mais...hum... - Examinou minha saia curta e sapatos inadequados, sacudindo a cabeça.

Conduzia-me com firmeza para longe dos demais quando me lembrei do meu paciente.

- Ah, espere, por favor! Esqueci-me de Jamie! A sra. Fitz-Gibbons surpreendeu-se.

- Ora, Jamie pode se defender sozinho. Ele sabe onde encontrar comida e alguém achará uma cama para ele.

- Mas ele está ferido. Levou um tiro ontem e foi esfaqueado à noite. Fiz uma atadura para que ele pudesse cavalgar, mas não tive tempo de limpar o ferimento ou fazer um curativo adequado. Tenho que cuidar disso agora, antes que fique infeccionado.

- Infeccionado?

- Sim, isto é, quer dizer, antes que inflame, sabe, fique inchado e com pus e tenha febre.

- Ah, sim, entendi. Mas quer dizer que você sabe o que fazer nesse caso? É uma feiticeira, então? Uma Beatori?

- Algo assim. — Não fazia a menor idéia do que uma Beaton poderia ser, nem tinha nenhuma vontade de entrar em detalhes a respeito das minhas qualificações médicas, ali parada na garoa fria que começara a cair. A sra. Fitz-Gibbons pareceu ser da mesma opinião, pois chamou Jamie, que partia na direção oposta, e tomando-o pelo braço também, nos arrastou para dentro do castelo.

Após uma longa caminhada por corredores estreitos e frios, mal iluminados por janelas que não passavam de fendas nas paredes, chegamos a um aposento razoavelmente grande, equipado com uma cama, uns dois bancos e, mais importante, uma lareira.

Ignorei meu paciente temporariamente, até descongelar minhas mãos. A sra. Fitz-Gibbons, aparentemente imune ao frio, fez Jamie sentar-se em um dos bancos junto à lareira e delicadamente retirou os restos de sua camisa esfarrapada, substituindo-a por uma coberta quente que tirou da cama. Estalou a língua em desaprovação ao ver seu ombro, que estava roxo e inchado, e cutucou meu desajeitado curativo.

Virei-me do fogo.

- Acho que vai ter que ser molhado para ser retirado e depois o ferimento terá que ser limpo com uma solução para... para evitar febres.

A sra. Fitz-Gibbons teria sido uma ótima enfermeira.

- O que você vai precisar? - perguntou simplesmente.

Pensei diligentemente. O que, em nome de Deus, as pessoas usavam para evitar infecção antes do surgimento de antibióticos? E daquelas limitadas fórmulas, quais poderiam estar disponíveis em um primitivo castelo escocês logo ao amanhecer?

— Alho! - disse, triunfante. - Alho e, se tiver, hamamélis. Também vou precisar de várias tiras limpas e de uma chaleira para ferver água.

— Ah, sim, acho que podemos arranjar isso; talvez um pouco de confrei também. Que tal um pouco de chá de eupatório, ou de camomila? Parece que esse rapaz atravessou uma longa noite.

O jovem na verdade mal conseguia permanecer sentado, cansado demais para protestar contra o fato de estarmos discutindo a seu respeito como se fosse um objeto inanimado.

Logo a sra. Fitz-Gibbons estava de volta, com um avental cheio de cabeças de alho, saquinhos de gaze de ervas secas e tiras de linho. Uma pequena chaleira preta de ferro pendia do braço carnudo e ela segurava um grande garrafão empalhado de água como se não passasse de penugem de ganso.

— Bem, minha querida, o que quer que eu faça? - disse animadamente. Pedi que fervesse água e fosse descascando os dentes de alho, enquanto eu inspecionava o conteúdo dos pacotes de ervas. Lá estavam a hamamélis que eu pedira, o eupatório e o confrei para chá e algo que identifiquei experimentalmente como casca de cerejeira.

- Analgésico - murmurei alegremente, lembrando-me do sr. Crook explicando-me as propriedades das cascas e ervas que encontrávamos. Ótimo, íamos precisar disso.

Atirei vários dentes de alho na água fervente com um pouco da hamamélis, em seguida acrescentei as tiras de pano na mistura. O confrei, o eupatório e a casca de cerejeira estavam em infusão em uma pequena panela de água quente colocada junto ao fogo. Os preparativos haviam me animado um pouco. Se não sabia ao certo onde estava, ou por que estava ali, ao menos sabia o que fazer nos próximos quinze minutos.

- Obrigada... ah, sra. Fitz-Gibbons - eu disse respeitosamente. — Posso dar conta sozinha agora, se tem outras coisas para fazer. - A corpulenta senhora riu, os seios erguendo-se.

- Ah, menina! Tenho realmente muitas coisas para fazer! Mandarei um pouco de sopa aqui para vocês. Mande me chamar se precisar de alguma coisa. - Saiu gingando em direção à porta com uma velocidade surpreendente e desapareceu para cuidar de seus afazeres.

Retirei as ataduras com o maior cuidado possível. Ainda assim, o chumaço de rayon grudara na carne e saiu com um pequeno estalido de sangue seco. Gotículas de sangue afloraram nas bordas do ferimento e eu pedi desculpas por estar machucando-o, embora ele não tivesse se mexido ou emitido nenhum som.

Ele sorriu ligeiramente, talvez com um leve toque de flerte.

- Não se preocupe, dona. Já sofri ferimentos muito mais graves e por pessoas bem menos bonitas.

Inclinou-se para a frente para que eu pudesse lavar o ferimento com a decocção de alho e a coberta escorregou de seus ombros.

Vi imediatamente que, fosse ou não um elogio, seu comentário era a afirmação de um fato verdadeiro; ele sofrera ferimentos muito mais graves. A parte de cima de suas costas era encoberta de esmaecidas linhas brancas entrecruzadas. Ele havia sido cruelmente açoitado. E mais de uma vez. Havia pequenos vergões de tecido prateado em alguns pontos, onde as chicotadas se cruzavam, e áreas irregulares onde vários golpes haviam atingido o mesmo ponto, esfolando a pele e cortando o músculo.

Eu já vira, é claro, uma grande variedade de ferimentos e machucados, sendo uma enfermeira no campo de batalha, mas havia algo naquelas cicatrizes que parecia terrivelmente brutal. Devo ter prendido a respiração ao vê-las, porque ele virou a cabeça e viu a expressão do meu rosto. Encolheu o ombro bom.

- Soldados ingleses. Me açoitaram duas vezes no espaço de uma semana. Teriam feito isso duas vezes no mesmo dia, eu acho, se não tivessem medo de me matar. Não há graça em açoitar um homem morto.

Tentei manter a voz firme enquanto limpava seu ferimento.

- Não imagino que alguém possa fazer isso por prazer.

- Não? Deveria tê-lo visto.

- Quem?

- O capitão inglês que arrancou a pele das minhas costas. Se não estava exatamente feliz, estava pelo menos muito satisfeito consigo mesmo. Mais do que eu - acrescentou ironicamente. - Seu nome era Randall.



- Randall! — Não consegui disfarçar a surpresa em minha voz. Olhos azuis e frios fitaram os meus.

- Conhece o sujeito? - A voz tornou-se repentinamente desconfiada.

- Não, não! Conheci uma família com este nome há muito, muito tempo. - Em meu nervosismo, deixei cair o pano com que limpava o ferimento.

- Droga, agora vai ter que ser fervido outra vez. - Peguei-o do chão e saí às pressas em direção à lareira, tentando esconder o estado de confusão em que me encontrava. Seria possível que esse capitão Randall fosse o ancestral de Frank, o soldado com excelentes referências, galante no campo de batalha, digno de louvores de duques? E se assim fosse, poderia alguém aparentado do meu amável e gentil Frank ser capaz de infligir as horripilantes marcas nas costas daquele rapaz?

Procurei me manter ocupada junto ao fogo, despejando mais alguns punhados de hamamélis e alho na água, colocando mais panos para ferver. Quando achei que conseguia controlar minha voz e meu rosto, voltei para perto de Jamie, o pano na mão.

- Por que foi açoitado? — perguntei bruscamente.

Não foi muito educado perguntar, mas eu queria saber e estava cansada demais para fazer uma colocação menos brusca.

Ele suspirou, remexendo o ombro nervosamente sob os meus cuidados. Também estava cansado e eu sem dúvida estava machucando-o, por mais delicada que procurasse ser.

- A primeira vez foi fuga e a segunda foi roubo, ou ao menos era o que dizia a acusação.

- De que estava fugindo?

- Dos ingleses - ele disse, erguendo a sobrancelha ironicamente. - Se quer saber de onde, Fort William.

- Imaginei que fosse dos ingleses - eu disse, com a mesma aridez do seu tom de voz. - O que estava fazendo em Fort William para começar?

Esfregou a testa com a mão livre.

- Ah, sim. Acho que foi obstrução.

- Obstrução, fuga e roubo. Você parece um sujeito perigoso - disse em tom de brincadeira, esperando distraí-lo do que eu estava fazendo.

Funcionou ao menos um pouco; um dos cantos de sua boca ergueu-se e um olho azul-escuro brilhou por cima do seu ombro em minha direção.

- Ah, sou mesmo — ele disse. - É de admirar que se sinta segura no mesmo quarto, comigo e sendo você uma rapariga inglesa.

- Bem, no momento você parece bastante inofensivo. — Isto era totalmente falso; sem camisa, com cicatrizes e sujo de sangue, com a barba por fazer e olheiras roxas da longa viagem noturna, parecia assustador. E cansado ou não, parecia inteiramente capaz de causar mais desordem, caso a necessidade se apresentasse.

Riu, um riso surpreendentemente profundo e contagiante.

- Inofensivo como um pombo - concordou. - Estou faminto demais para ser uma ameaça para qualquer coisa que não seja uma refeição. Mas deixe um pão que acabou de assar passar por perto e não respondo pelas conseqüências. Oooh!

- Perdão — murmurei. - O ferimento da lâmina foi fundo e está sujo.

- Tudo bem. - Mas ele ficara pálido sob o tom acobreado da barba espetada. Tentei trazê-lo de volta à conversa.

- O que exatamente significa obstrução? - perguntei despreocupada-mente. — Devo dizer que não parece um crime grave.

Ele respirou fundo, fixando os olhos resolutamente na perna esculpida da cama, enquanto eu limpava mais fundo.

- Ah. Bem, suponho que seja qualquer coisa que os ingleses digam que é. No meu caso, significava defender minha família e minha propriedade e quase ser morto por isso. - Apertou os lábios, como se não quisesse prosseguir, mas após um instante continuou, como se procurasse concentrar sua atenção em qualquer outra coisa que não fosse o seu ombro.

- Foi há quase quatro anos. Criaram um tributo para os proprietários de terras próximas de Fort William: alimentos para a guarnição, cavalos para transporte e coisas assim. Ninguém gostava, mas a maioria dava o que tinha que dar. Pequenos grupos de soldados passavam de casa em casa com um oficial e uma ou duas carroças, recolhendo os alimentos e objetos. E um dia em outubro, o capitão Ranftil veio até... — ele calou-se subitamente, conteve-se rapidamente, com um rápido olhar em minha direção —...a nossa propriedade.

Balancei a cabeça, encorajando-o a continuar, os olhos fixos no meu trabalho.

- Nós pensávamos que eles não iriam tão longe; o lugar fica a uma boa distância do forte e o caminho é difícil. Mas eles foram.

Fechou os olhos por um instante.

- Meu pai não estava, fora a um enterro na fazenda vizinha. Eu estava no campo com a maior parte dos homens, porque já estava perto da colheita e havia muito o que fazer. Assim, minha irmã estava sozinha em casa, exceto por duas ou três empregadas e todas correram para a cama, para esconder suas cabeças sob as cobertas quando viram os soldados ingleses. Achavam que os soldados eram enviados do diabo... e não posso dizer que estavam erradas.

Descartei o pano. A pior parte estava feita; agora, tudo que precisávamos era de um tipo de emplastro - sem iodo ou penicilina, era o melhor que eu podia fazer contra infecção - e um bom curativo. Os olhos ainda fechados, o jovem não pareceu notar.

- Eu voltei para casa por trás, pretendendo pegar arreios na estrebaria, e ouvi gritos, minha irmã gritando dentro de casa.

- Oh? — Procurei tornar minha voz o menos perturbadora possível. Queria muito saber mais a respeito deste capitão Randall; até agora, esta história pouco fizera para dissipar minha impressão original a seu respeito.

- Entrei pela cozinha e encontrei dois deles assaltando a despensa, enchendo suas sacolas de farinha e toucinho. Acertei um na cabeça e atirei o outro pela janela, com sacola e tudo. Em seguida, irrompi na sala, onde encontrei dois soldados com minha irmã, Jenny. Seu vestido estava um pouco rasgado e um deles tinha o rosto arranhado.

Abriu os olhos e sorriu, um pouco sombriamente.

- Não parei para fazer perguntas. Nos atracamos e eu estava me saindo bem, pois só havia dois deles, quando Randall entrou.

Randall parou a briga simplesmente apontando uma pistola para a cabeça de Jenny. Forçado a se render, Jamie foi rapidamente dominado e amarrado pelos dois soldados. Randall sorriu para seu prisioneiro e disse:

- Ora, ora. Temos dois gatos selvagens aqui. Acho que um pouco de trabalho forçado vai curar seu temperamento, mas, se não o fizer, bem, vai conhecer um outro gato, chamado chicote. Mas há outras curas para outros gatos, não é, minha gatinha?

Jamie parou por um instante, o maxilar cerrado.

- Ele segurava o braço de Jenny dobrado para trás, mas soltou-a, para levar a mão à frente e enfiá-la em seu vestido, em volta dos seios. — Lembrando-se da cena, sorriu inesperadamente. - Assim — resumiu —, Jenny pisou no pé dele com toda a força e enfiou o cotovelo em sua barriga. Ele se dobrou ao meio, sem ar, e ela girou e deu uma boa joelhada entre suas pernas. - Deu uma pequena risada, um som nasalado, achando graça.

- Bem, com isso ele deixou a pistola cair e ela tentou pegá-la, mas um dos soldados alcançou-a primeiro.

Eu terminara de cobrir o ferimento e fiquei parada em silêncio atrás dele, a mão pousada em seu ombro bom. Parecia importante que ele me contasse tudo, mas temia que parasse, se fosse lembrado da minha presença.

- Depois que recuperou fôlego suficiente para falar, Randall fez seus homens nos arrastar para fora. Eles arrancaram minha camisa, amarraram-me ao mastro da carroça e Randall golpeou-me nas costas com a parte plana de seu sabre. Ele estava furioso, mas um pouco cansado, pode-se dizer. Doeu-me um pouco, mas ele não conseguiu continuar batendo por muito tempo.

A breve expressão divertida desaparecera por completo e o ombro sob a minha mão estava rígido de tensão.

- Quando parou, virou-se para Jenny, um dos dragões a mantinha presa, e perguntou-lhe se queria ver mais ou se preferia ir para dentro de casa com ele e oferecer-lhe uma diversão melhor. - O ombro remexeu-se nervosamente.

- Eu não podia me mover muito, mas gritei para ela que eu não estava ferido, e na verdade não estava muito, e que ela não devia ir com ele, ainda que cortassem minha garganta diante de seus olhos.

- Eles a seguravam atrás de mim, de modo que não podia vê-la, mas pelo barulho, ela cuspiu no rosto dele. Ela deve ter feito isso mesmo, porque em seguida ele agarrou um punhado do meu cabelo, puxou minha cabeça para trás e colocou a faca na minha garganta.

- "Estou pensando seriamente em aceitar sua sugestão", Randall disse entre dentes e enfiou a ponta da faca sob a minha pele, o suficiente para tirar sangue.

- Eu podia ver a adaga junto ao meu rosto — Jamie continuou — e o desenho que meu sangue fazia na terra embaixo da carroça. O tom de sua voz era quase irreal e percebi que, de cansaço e dor, ele havia resvalado para uma espécie de estado hipnótico. Talvez nem se lembrasse que eu estava ali.

- Fiz menção de gritar para a minha irmã, dizer-lhe que eu preferia morrer a vê-la desonrar-se com aquele canalha. Randall tirou a adaga da minha garganta e enfiou a lâmina entre meus dentes, de modo que eu não pudesse gritar. - Limpou a boca, como se ainda sentisse o gosto amargo do aço. Parou de falar, os olhos fixos diretamente à sua frente.

- Mas o que aconteceu depois disso? - Eu não deveria ter falado, mas precisava saber.

Ele estremeceu, como se acordasse, e esfregou a mão grande e pesada, de modo exausto, pela nuca.

- Ela foi com ele - disse bruscamente. - Achou que ele me mataria e talvez tivesse razão. Depois disso, não sei o que aconteceu. Um dos dragões golpeou-me na cabeça com a coronha de seu mosquete. Quando acordei, estava amarrado na carroça, com as galinhas, sacolejando pela estrada em direção a Fort William.

- Sei — eu disse em voz baixa. — Lamento muito. Deve ter sido terrível para você.

Sorriu repentinamente, sem vestígios do torpor do cansaço.

- Ah, sim. As galinhas são uma péssima companhia, especialmente numa viagem longa.

Percebendo que o curativo estava pronto, ergueu o ombro experimentalmente, sobressaltando-se ao fazê-lo.

- Não faça isso! - exclamei, assustada. - Você realmente não deve mexer o braço. Na realidade — olhei para a mesa para verificar se restavam algumas tiras de pano seco -, vou prender seu braço junto ao corpo. Não se mexa.

Ele não falou mais, mas relaxou um pouco sob minhas mãos quando percebeu que não iria doer. Senti uma estranha sensação de intimidade com aquele jovem escocês estranho, devido em parte, pensei, à terrível história que acabara de me contar e em parte à nossa longa cavalgada na escuridão, os corpos pressionados um contra o outro num silêncio sonolento. Eu não dormira com muitos homens além de meu marido, mas notara que dormir, realmente dormir com alguém, dava aquela sensação de intimidade, como se seus sonhos fluíssem de você para se misturar com os dele e envolvessem a ambos em um manto de conhecimento inconsciente. Uma espécie de regressão, pensei. Em tempos antigos, mais primitivos (como estes?, Perguntou outra parte de minha mente), era um ato de confiança dormir na Presença de outra pessoa. Se a confiança fosse mútua, o simples sono era capaz de uni-los mais do que a junção de corpos.

Terminada a tipóia, ajudei-o a vestir a camisa de linho cru, colocando-a sobre o ombro ferido. Levantou-se para enfiá-la embaixo do kilt apenas com uma das mãos e sorriu para mim.

- Muito obrigado, Claire. Você tem mãos boas. — Estendeu o braço para tocar meu rosto, mas pareceu desistir da idéia; abanou a mão e deixou-a cair ao lado do corpo. Aparentemente, ele também sentira aquela estranha onda de intimidade. Desviei o olhar apressadamente, agitando a mão num gesto que dizia não-tem-de-quê.

Meu olhar vagou pelo aposento, passando pela lareira enegrecida de fumaça, pelas janelas estreitas, sem vidraça, e pelos maciços móveis de carvalho. Nenhum acessório elétrico. Nenhum tapete. Nenhum metal brilhante na armação da cama.

Parecia, na verdade, um castelo do século XVIII. Mas e quanto a Frank? O homem que eu encontrara no bosque parecia-se com ele de maneira perturbadora, mas a descrição que Jamie fizera do capitão Randall era completamente estranha a tudo que eu sabia de meu gentil e pacífico marido. Mas, se fosse verdade - e eu estava começando a admitir, até para mim mesma, que pudesse ser -, ele poderia ser na realidade praticamente qualquer coisa. Um homem que eu conhecia apenas de um mapa genealógico não estava necessariamente fadado a se parecer com seus descendentes em conduta.

Mas era com o próprio Frank que eu estava preocupada no momento. Se eu estivesse, de fato, no século XVIII, onde ele estaria? O que faria quando eu deixasse de aparecer na pousada da sra. Baird? Eu jamais voltaria a vê-lo? Pensar em Frank foi a gota d'água. Desde o instante em que dei um passo para dentro da rocha e a vida comum deixou de existir, fora assaltada, ameaçada, seqüestrada e arrastada. Não comia ou dormia direito há mais de vinte e quatro horas. Tentei me controlar, mas meus lábios tremeram e meus olhos encheram-se de lágrimas a despeito de mim mesma.

Virei-me para o fogo para esconder o rosto, mas era tarde demais. Jamie segurou minha mão, perguntando gentilmente o que era. A luz do fogo reluziu na minha aliança de ouro e eu comecei realmente a fungar.

- Ah, eu... eu vou ficar bem, está tudo bem, sinceramente, é que... meu... meu marido... eu não.

- Ah, dona, então você ficou viúva? - Sua voz era tão repleta de cuidado e atenção que eu perdi inteiramente o controle.

- Não... sim... quero dizer, eu não... sim, acho que sou! — Dominada pela emoção e pelo cansaço, desmoronei sobre ele, soluçando histericamente.

O rapaz tinha bons sentimentos. Ao invés de pedir ajuda ou retirar-se perplexo, sem saber o que fazer, ele sentou-se, puxou-me com firmeza para seu colo com o braço bom e ficou embalando-me suavemente, murmurando palavras carinhosas em gaélico ao meu ouvido e alisando meus cabelos com uma das mãos. Chorei amargamente, sucumbindo momentaneamente ao medo, à confusão e ao desânimo, mas lentamente comecei a me acalmar um pouco, enquanto Jamie acariciava afetuosamente meu pescoço e minhas costas, oferecendo-me o conforto de seu peito largo e aconchegante. Meus soluços diminuíram e comecei a serenar, recostando-me, exausta, na curva de seu ombro. Não era de admirar que fosse tão bom com cavalos, pensei indistintamente, sentindo seus dedos acariciando-me suavemente atrás das orelhas, ouvindo as palavras tranqüilizadoras e incompreensíveis. Se eu fosse um cavalo, deixaria que me conduzisse para onde quisesse.

Esse pensamento absurdo coincidiu infelizmente com a minha clara percepção de que o jovem, afinal, estava completamente exausto. De fato, estava começando a ficar embaraçosamente óbvio para ambos. Tossi e clareei a garganta, limpando os olhos com a manga do vestido, enquanto descia do seu colo.

- Sinto muito... isto é, quero dizer, obrigada por... mas eu... - Estava balbuciando, afastando-me dele com o rosto em chamas. Ele também estava um pouco afogueado, mas não envergonhado. Pegou a minha mão, puxou-me de volta e, com cuidado para não me tocar de outra forma, colocou a mão sob meu queixo e forçou-me a erguer a cabeça e fitá-lo.

- Não precisa ter medo de mim - disse serenamente. - Nem de ninguém aqui, enquanto eu estiver com você. - Soltou a mão e virou-se para a lareira.

- Você precisa de alguma coisa quente, dona - disse, de modo prático -, e de algo para comer também. A barriga cheia vai ajudar mais do que qualquer outra coisa.

Ri meio trêmula diante de seus esforços de servir sopa com uma das mãos e fui ajudá-lo. Tinha razão; a comida realmente ajudou. Tomamos a sopa e comemos pão num silêncio amigável, compartilhando a crescente sensação de saciedade, conforto e bem-estar.

Por fim, ele se levantou, pegando a coberta caída no chão. Colocou-a de novo sobre a cama e fez um sinal para mim para que fosse me deitar.

- Durma um pouco, Claire. Está exausta e é provável que logo alguém queira falar com você.

Era um lembrete sinistro de minha precária posição, mas eu estava cansada demais para me importar. Manifestei não mais do que um protesto por rotina por ocupar a cama; nunca vira algo tão convidativo. Jamie assegurou-me que poderia encontrar uma cama em outro lugar. Deixei-me cair pesadamente na pilha de cobertas e estava adormecida antes que ele alcançasse a porta.




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